27/12/2019

Tied & Tickled Trio - Observing Systems


Y 23|JANEIRO|2004
roteiro|discos

TIED & TICKLED TRIO
Observing Systems
Morr Music, distri. Ananana
8|10

“Observing Systems” (termo criado no início dos anos 70 pelo teórico de sistemas cibernéticos Heinz von Foerster), quarto álbum da dupla germânica formada por Markus (bateria, programações) e Micha Acher (trompete, baixo), mistura estilos e sonoridades com o desplante de quem tem à sua disposição os arquivos da grande enciclopédia de música universal. “The long tomorrow” faz interagir o jazz, a eletrónica e o pós-rock com Misha a empolgar-se numa personificação energética do Miles Davis de “In a Silent way”, bem secundado pelos devaneios “free” de Johannes Enders, no sax tenor. Mas logo tudo se fragmenta em refrações “dub” ou atraindo a si os miasmas de nostalgia dos Tuxedomoon. Sucessivamente, vão emergindo paisagens “trip hop”, “avant jazz” e até, em “Motorik”, uma leitura bastante livre e jazzística do krautrock dos Neu!. Thelonious Monk e Sun Ra são igualmente objeto de presumíveis homenagens, respetivamente em “Ship monk” e “Radio sun”. “A observação da observação leva a uma nova compreensão da realidade”, diz Foerster e os T&TT põem em prática. Delírio quântico ou regorgitação de informação em excesso, seja como for, está bem observado.

Vários - On Paper


Y 23|JANEIRO|2004
roteiro|discos

VÁRIOS
On Paper
2xCD Crónica, distri. Matéria Prima
8|10

O suicídio esclarecido de Sócrates, encarado como prova da imortalidade da alma, faz sentido em termos ontológicos. Acontece que, quando calha a nós, como diria Woody Allen, faz sentido, sim, mas “no papel”. Esta discrepância entre a Fé e a desconfiança da razão encontra eco no trabalho de “colagem/descolagem” empreendida por artistas sónicos portugueses como Vítor Joaquim, @C, Paulo Raposo, Longina e Pedro Tudela, a partir de um tema deste último, “Rasgão.aif”, e do papel, simultaneamente superfície rasa e suporte de informação. “Aceitar que se trata de uma matéria que acumula informação por camadas e conjugações” como ponto de partida, determina as múltiplas manipulações/funções de “On Paper” em que o som do papel (rasgado, dobrado, batido à máquina…) é processado eletronicamente. Ao contrário da máxima de Allen, porém, resulta desta operação não a dúvida ou o medo, mas uma paleta diversificada de músicas inseridas no “industrial”, na música concreta, no ambientalismo digital sujo ou em abstrações órfãs de paternidade estética. Soa incómodo, no papel. Aos ouvidos, felizmente, ainda mais.

Tiradas a ferro [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 17 JANEIRO 2004

Sclavis, que tirou retratos-fantasma? Pethman, que tirou do frio a arte de Ellington? Parker, que tirou de si próprio um livro de memórias? Quem tira o jazz da perdição? Ainda há quem lance boas tiradas.

Tiradas a ferro

A noite de Louis Sclavis pode ser de lua nova e jazz apagado, como aconteceu em “Dans la Nuit”, álbum anterior deste músico francês. Mas também lua cheia. Desse álbum para o novo “Napoli’s Walls” a lua mudou de fase e a transição está inscrita no tema de abertura, “Colleur de nuit”. Noite italiana inspirada na obra do artista gráfico Ernest Pignon-Ernest, autor de uma série de esculturas em pedra negra e serigrafias incrustadas nas paredes de prédios antigos de Nápoles. Representações fantasmagóricas e perturbantes, da morte, da Virgem, do Inferno, de ritos ancestrais que evocam os arquétipos da humanidade.
            Sclavis traçou, com base na obra deste artista, o seu próprio filme, iluminado pelos fogos vesuvianos, das mitologias e dos quadros de uma Nápoles vista não através de uma perspetiva realista ou folclórica, mas como “cidade de ficção”. A música contemporânea, a eletrónica, microdivagações de câmara, ópera bufa, teatro de marionetas e citações das tradições musicais e canções napolitanas agitam-se numa dança de fogos-fátuos e sonhos labirínticos que recriam, acima de tudo, arquiteturas da imaginação.
            Como Trovesi (com quem o saxofonista e clarinetista partilha algumas conceções e pontos de fuga sobre o jazz contemporâneo), Sclavis incorpora no seu discurso elementos díspares para os sintetizar numa música tão personalizada como universal. Acompanhado por Vincent Courtois (violoncelo e eletrónica), Médéric Collignon (trompete de bolso, vozes, trompa, percussão, eletrónica) e Hasse Poulsen (guitarra), o livre-pensador francês oferece-nos sarabandas e sinestesias, múltiplos matizes e texturas, que se percorrem como as ruas e vielas da cidade, observada pelos olhos de um estrangeiro. Uma música de “adivinhações modernas”, “aparências” (aqui, o jazz, tal qual as imagens de Ernest, é um “trompe-l’oeil”) e “portas secretas” que nos toca e nos chama para a solidão do esteta que observa e sorve a Beleza como um vinho raro e requintado.
            Da Finlândia não desaguam apenas icebergues formados na geleira ECM. A surpresa escandinava chama-se “The Music of Esa Pethman”, da série “The Modern Sound of Finland”, antologia de temas escritos entre 1964 e 1966 pelo compositor, tenorista (emissão forte, timbre áspero mas apelativo) e flautista Esa Pethman, nascido em 1938.
            A remasterização de 24 bits valoriza os mínimos pormenores de uma música que soube assimilar a arte de Duke Ellington, referência incontornável para este autodidata para quem o mais importante não é a teoria, nem as grandes edificações arquitetónicas, mas a melodia. “Nunca estudei composição. Tenho a impressão de que os ensinamentos técnicos apenas reduziriam as minhas composições a estereótipos”, diz. Pediu a um amigo que lhe ensinasse os rudimentos necessários para harmonizar e orquestrar as suas pequenas melodias, por vezes bizarras, de um jazz que nasceu no “hard pop”, se cultivou em Ellington e se expressa em arranjos tão “out” como os de “Shepherd song”, com as suas soluções dignas da caderneta de Raymond Scott.
            Sibelius e os românticos finlandeses atravessam igualmente a música deste compositor um pouco excêntrico, tão à vontade a afirmar que o jazz é, em termos de composição, “uma música limitada”, como, logo a seguir, que este mesmo jazz lhe confere “liberdade em termos rítmicos”, confessando ao mesmo tempo o seu deslumbramento ao ouvir um solo de Charlie Parker ou de Sonny Rollins. Há uma orquestra de passo trocado, swing em contratempo, fagulhas e geada. E “Al Secco”, por si só uma noite inteira de baile e recital da meia-noite.
            Na Bélgica também se faz pela vida. Kris Defoort, de quem já conhecíamos o álbum “Sound Plazza”, volta a estar presente, com um trabalho anterior, de 1999, que junta dois formatos e momentos distintos: “Passages”, no primeiro CD, reúne temas em quarteto (com Mark Turner em destaque no sax tenor), sendo o segundo inteiramente preenchido por cinco “Passages” compostas para uma coreografia de Fatou Traoré e executadas por uma formação instrumental alargada a que o pianista chamou Dreamtime. Neobop cruzado por referências eruditas, uma incisão de Ornette Coleman (“Round trip”) e incursões na atonalidade, no primeiro caso. Uma escrita mais ambiciosa, orquestral e diversificada, no segundo, sem que nela se detetem, porém, sinais de génio. Ou, pelo menos, uma alma com a incandescência da de Esa Pethman.
            No caso de George Schuller e do seu irmão Ed Schuller, a matilha Schulldogs, trata-se antes de mais de um espectro alucinado a correr pelo jazz fora, aos uivos e a arrastar correntes. “Hellbent” junta o baterista e o baixista com Tim Berne e Tony Malaby, respetivamente nos saxofones alto e tenor, dois dos nomes mais requisitados do jazz atual. Recupera-se e cultiva-se a componente performativa e ritual do “free jazz”, o grito, a estridência e a subversão rítmica e harmónica, ainda que um dos temas, “Distant cousin”, pretenda ser uma “reinvenção abstrata” de “Evidence”, de Thelonious Monk. As progressões são orgásticas, partindo da prospeção e do tatear iniciais para o clímax. Caminhos outrora perigosos mas que hoje se percorrem com um sorriso de segurança e reconhecimento nos lábios. Os aventureiros e visionários de antanho não morreram em vão.
            Malaby aparece de novo, agora como parceiro de Mark Helias (contrabaixo) e Tom Rainey (bateria), em “Verbs of Will”. Boa música improvisada. Mas porque será que temos a sensação de se ter criado em Nova Iorque uma espécie de “lobby” que parece ter estagnado num conceito e em tiques de uma vanguarda que deixou de o ser? Questão pertinente e por resolver: o jazz tem ainda salvação? Como e por onde? Pela via da entropia e da definitiva passagem de testemunho à “música improvisada”, liberta em definitivo das regras e dogmas da tradição? Ou pela da crucificação, através da assimilação e adequação de outras formas e filosofias musicais (como fazem Trovesi e Sclavis) onde as antigas noções (o “swing”, o “blues” – os dois grandes pilares) adquirem novos significados e se transmutam em práticas universais? “Verbs of Will” é novo que soa a velho, independentemente do inegável talento e cultura jazzística dos intervenientes. No fim de contas são os deuses, os génios, os grandes solitários, que fazem o trabalho sozinhos. Deixemos, então, de procurar o “grande jazz” e louvemos, ao invés, os grandes músicos. Rezando para que estes não nos abandonem e a Grande Obra possa prosseguir.
            William Parker dá-nos razão. O que noutros é bordão neste contrabaixista é necessidade básica e alimento vital. A improvisação incendeia-se, sente-se que tem de ser assim, que o trajeto das notas, por mais árduo que seja, é o único possível. Nos grandes músicos é a música que orienta o executante, que faz o músico, e não o contrário. Que lhe dita a lógica e as ordens. Músico com “M” maiúsculo é aquele que sabe ouvir e obedece, abrindo e esculpindo o silêncio com o seu espírito e com as suas próprias mãos. Parker faz isto, em “Scrapbook”, caderno de apontamentos e memórias em trio com Billy Bang (violino) e Hamid Drake (bateria). Música livre, inspirada em pessoas e lugares, pelos espaços e tempos percorridos. O violino de Bang estende-se como a voz do destino, swingando entre a alegria e o desespero, timbre e ritmos sintonizados num conceito cósmico da música. Parker é assombroso do princípio ao fim. Passadas e ânimo de gigante, mundo maior que os mundos que o rodeiam, berço de galáxias e buraco negro onde a música nasce e se desintegra para renascer, diferente e com a frescura das géneses e o fogo das revoluções, no momento seguinte. Aponte-se, então: indispensável.

LOUIS SCLAVIS
Napoli’s Walls
ECM, distri. Dargil
8 | 10

ESA PETHMAN
The Music of Esa Pethman
Warner Music Finland, distri. Ananana
9 | 10

KRIS DEFOORT QUARTET/DREAMTIME
Passages
2xCD De Werf, distri. Multidisc
6 | 10

GEORGE SCHULLER SCHULLDOGS
Hellbent
Playscape, distri. Trem Azul
7 | 10

MARK HELIAS’ OPENLOOSE
Verbs of Will
Radio Legs, distri. Trem Azul
7 | 10

WILLIAM PARKER
Scrapbook
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
9 | 10

Música a metro [To Rococo Rot]


16|JANEIRO|2004 Y
to rococo rot|música

Os To Rococo Rot tocam hoje numa estação de metro de Lisboa. Linha: Berlim-Chiado. Música no espaço. Amanhã é no Porto. Para dançar.

Música a metro

            Com ou sem passe social, picando ou não bilhete, os berlinenses To Rococo Rot vão mesmo tocar hoje à noite na estação de metro da Baixa-Chiado, em Lisboa. Amanhã actuam na discoteca Indústria, no Porto. Música experimental, em Lisboa. Mais “clubbish”, para dançar, no Porto. O espectáculo de Lisboa insere-se na programação do projeto interdisciplinar “Em Trânsito”.
            Robert Lippok, guitarrista e manipulador de electrónica do grupo que este ano lançará o novo álbum “Hotel Morgen”, falou do fascínio dos To Rococo Rot (TRR) pela arquitectura. Dos sons e do espaço. Da sintonia com o krautrock dos Cluster. Da estrutura de uma música com a adrenalina da tecno, o gosto pela ornamentação barroca (rócócó?) e um sentido de “groove”, orgânico e hipnótico, como não houve outro depois dos Can. A prova teve-a já o público lisboeta quando da primeira actuação dos TRR, há quatro anos, no Festival Número, em Lisboa, durante a passagem arrasadora de “Cars”, tema incluído no álbum “The Amateur View”.
            Arrumados inicialmente no saco do pós-rock dos Tortoise, Trans AM, Kreidler, Jessamine ou Rome, a banda dos irmãos Lippok (Robert e Ronald) e Stefan Schneider gravou os álbuns “CD” (1996), “Veiculo” (1997), “TRRD” (1998, com Daryl Moore, director de uma loja de discos em Londres), “The Amateur View” (1999) e “Music is a Hungry Ghost” (2001, com o nova-iorquino I-Sound). Ainda o “side project”, eventualmente mais próximo do que se poderá ouvir hoje no túnel do Chiado, “Kolner Brett”, inspirado num edifício com o mesmo nome projectado pelos arquitectos B&K (Brandlhuber & Kniess), de Colónia. Cuidado com os fiscais.

Vão estudar o espaço em Lisboa, antes de tocar?
Já vimos fotos do aspecto do local e interpelámos a organização sobre a acústica. As estações de metro costumam ter uma acústica estranha…
Estão a preparar, em conformidade, uma música estranha?
Algumas coisas especiais… frequências específicas… E vamos trazer gravações de sons pré-gravados do metropolitano de Berlim.
Já têm experiência neste tipo de “happenings”. Antes dos TRR, fez parte, com o seu irmão, dos Ornament und Verbrechen.
Era um grupo aberto. Num dia podíamos ser só eu e o meu irmão e, na semana seguinte, dez pessoas. Usávamos saxofone, trompete, numa linha mais próxima do jazz, misturado com eletrónica. Eram os anos 80 e só mais tarde começámos a sentir a influência do tecno.
Vão dirigir aulas de arquitetura musical em Nuremberga. De que tipo?
Vamos fazer uma pequena viagem por Nuremberga, ver de que maneira a cidade soa, e convidar os estudantes para descreverem aquilo que ouvirem. Podem levar gravadores, tomar notas e fazer entrevistas sobre os sons.
Essa relação entre os sons e a arquitetura é fulcral na música dos TRR?
Sim. Já trabalhei como “stage designer” e sempre me interessei pelo espaço, pela sua medição, averiguar de que modo os seres humanos se comportam e se movem em determinados espaços. Ou por problemas práticos como melhorar o fluxo de circulação de pessoas nos espaços públicos.
Preferem actuar em locais desse tipo, ao invés de salas de concerto?
São duas perspectivas diferentes. Nos espaços alternativos podemos experimentar, a própria natureza dos espaços interage com a estrutura da música. Tocámos no Verão no jardim de uma galeria de arte. Horas e horas, tínhamos a sensação de que a música se desenvolvia por si própria.
A gravação de “Kolner Brett” concretizou esse conceito?
Foram os próprios arquitectos que nos pediram para criar uma banda sonora para a apresentação do edifício numa feira de arquitectura em França. Falámos longamente com eles, percorremos todo o edifício, voltámos a falar, até criarmos uma relação entre a música e a construção, através de pequenos módulos sonoros que elaborámos com base, nalguns casos, nos simples materiais, como o cimento. Tivemos cuidado com os mínimos detalhes. Cada tema do disco corresponde a uma parte do edifício [12 temas para as 12 divisões], destinado a ser ouvido pelas pessoas que vivem ou trabalham lá.
É autor de uma exposição com música e projecções. Sem recorrer a computadores, como fez questão de acentuar…
Tenho o computador sempre ligado em casa, mas não podemos encará-lo como algo mais do que um simples utensílio. Gosto de criar com ele realidades virtuais simples, para galerias de arte, por exemplo. Mas é tão fácil ser-se “moderno” com os computadores!... Por vezes prefiro ser antiquado e ter uma perspectiva mais vasta e não apenas dos últimos 30 anos
Também criaram música para uma exposição de produtos industriais para o Museu de Colónia. “Industrial” que, de resto, voltou a ser termo em voga nas actuais correntes musicais. O que nos leva aos primórdios do krautrock e aos Cluster como fonte inspiradora da vossa música…
Sim... Mas nesse caso o “industrial design” não correspondeu, de modo algum, a música industrial. O que tentámos foi trabalhar a partir de produtos com um som particular, como portas de carros ou latas de cerveja (a cerveja emite um som especial ao ser deitada no copo)… ou certos “chips” de televisão que emitem determinadas frequência e ressoam como o corpo de uma guitarra.
Quanto aos Cluster, durante algum tempo fartei-me de repetir que não, que nunca fomos influenciados por eles. A verdade, porém, é que quando ouvi “Zuckerzeit” pensei: “uau! É muito parecido com o que fazemos!”. A ligação existe, bem como com os Kraftwerk. Mas praticamente todos os novos grupos de electrónica foram influenciados pelos Kraftwerk! (risos).
E os Can. Quando ouvimos pela primeira vez os TRR tocar ao vivo em Lisboa o tema “Cars” tivemos a impressão de estarmos perante os novos Can, de tal forma o “groove” era orgânico e hipnótico. Não eram apenas máquinas, mas instrumentos reais tocados com sangue e suor. Podiam ter continuado a tocar esse tema durante horas que seria perfeito!
Nesse dia fartou-se de chover! (risos). Com efeito, a electrónica é apenas uma parte. Gostamos de criar um interface com instrumentos analógicos. Um exemplo: a maneira como o Ronald toca bateria ajusta-se ao “groove” da “drum machine”. Mas desta vez, em Lisboa, usaremos apenas electrónica. Não haverá nem sangue nem suor (risos). Nem “Cars”. Em Londres tocámos este tema durante muito, muito tempo. Muito mais do que em Lisboa. Foi aumentando de duração até termos de o encurtar de novo. Em Londres prolongou-se por 10 minutos…
No extremo oposto, convidaram um músico erudito como Alexander Balanescu para participar em “Music is a Hungry Ghost”.
Ele interessa-se pela música eletrónica, como o prova o álbum dos Balanescu Quartet a partir da música dos Kraftwerk. Convidou-nos para um festival de electrónica que ele próprio organizou. Cinco dias de música, das oito da manhã às onze da noite. Levantávamo-nos às sete para tocar às oito, na margem de um rio. Para os cães e para os pássaros, não havia mais ninguém…
As atuações em Lisboa e no Porto serão, obviamente, diferentes.
Sim, em Lisboa não poderemos usar a “bass drum”, vamos ter que adaptar o nosso “sound environment” ao metropolitano. No Porto seremos mais “groovy” e “clubbish”.
Irão apresentar material do novo álbum?
Boa pergunta. Ainda não preparámos nada… Talvez uma canção.
Para terminar, escolha uma opção dos seguintes pares: Cluster ou Throbbing Gristle?
Difícil…Mas…Throbbing Gristle. Deram um dos concertos mais impressionantes a que alguma vez assisti.
Laurie Anderson ou Lou Reed?
Laurie Anderson. “Big Science” é um dos melhores discos de todos os tempos.
Tecno ou “chill out”?
Tecno. Porque nos atinge em cheio, como algo físico.
Laptop ou sintetizador Moog?
Laptop. Detesto o Moog. Mas adoro o A.R.P.
Berlim ou Dusseldörf?
Berlim, sem dúvida. Em Dusseldörf não acontece nada, não há clubes…Mas têm bons restaurantes japoneses.
Madonna ou Britney Spears?
Madonna, evidentemente. Britney Spears é horrorosa. Se tivesse que escolher entre ela e o diabo, escolhia o diabo!

Vários - Songs In The Key Of Z, Vol.2


Y 9|JANEIRO|2004
roteiro|discos

génios da twilight zone

VÁRIOS
Songs in the Key of Z, Vol.2
Gammon, distri. Ananana
10|10

“Songs in the key of Z, Vol.2”, compilado e produzido pelo mesmo Irwin Chusid que revelou ao mundo “Innocence and Despair”, do Langley Schools Music Project, é o equivalente musical de uma coleção de filmes de série Z. Falamos, é claro, de loucos, lunáticos e habitantes de outros planetas (“Plan 9 from Outer Space”?) que num ou outro momento iluminado das suas vidas (neste disco, regra geral nos anos 80 e 90) resolveram graver música.
            “The Curious Universe of Outsider Music”, pois é este o subtítulo, reúne delírios inclassificáveis (tanto quanto as respetivas biografias e fotos dos artistas) que apenas uma mente igualmente desfasada da normalidade conseguirá arrumar e descrever com algum método. Arrumemo-los então.
            Shooby Taylor começa por fazer um “scat” inenarrável, estilo “Hans Eisler em looney tune”, sobre fundo de órgão Farfisa. Já Bingo Gazingo & My Robot Friend opta em “You’re out of the computer” por oferecer uma extraordinária mistela de uma melodia pop arrancada ao cérebro de R. Stevie Moore com demência Pere Ubu e sinais de ZX Spectrum. Segue-se B.J. Snowdown numa não menos inolvidável recriação de “America”, digna de figurar num “sketch” da “Mad TV” como o de Will Sasso e Alex Bornstein no dueto de “Love of my life”… “You’re driving me mad”, de Alvin Dahn (já não faz música, mas tocava 50 instrumentos e estava “determinado a deixar uma marca indelével na indústria da música”, o que, a julgar pela amostra, manifestamente conseguiu). Guitarras elétricas, “heavy metal” e, de novo, mestre R. Stevie Moore, num tema poprock que faz o termo “alternativo” soar a “mainstream”. A congressista liberiana Malinda Jackson Parker mima Nina Simone por cima de um piano que ameaça rebentar, num manifesto contra a peste, escolhendo para título “Cousin mosquito # 2” (sim, existe uma primeira picadela incluída num “Songs in the Key of Z”, Vol.1” editado pela Cherry Red em 2000). A pop espacial – os Air (ou antes deles os Hot Butter) encontram os White Noise na Era de Aquário – chega ao planeta Terra via The Space Lady, numa versão cósmica de “I had too much to dream (last night)”, dos Electric Prunes. Luie Luie, “master musician”, apresenta (com introdução filosófica prévia) um instrumental executado em 14 trompetes, chamado “Touch of light”, extraído do álbum “Creator of Touchy” – imersão numa galáxia de vibrato estelar em ressaca de LSD. Há ainda o “dance hall jazz” de Eddie Murray, a “canção-poema”, com letra de Pablo Feliciano, “Five feet nine and a half inches tall”, de Dick Kent, ideal para animação de casamentos, e a “Hawaii country” com falta de voz de Gary Mullin, em “Recitation about Ray Acuff”.
            Wayne Pereira canta, de forma tocante, uma melodia de bêbedo vagabundo semelhante à que Gavin Bryars usou em “Jesus blood never failed me yet” e Bob Vido, “the one-man band”, gravou em 1975, “High-speed” – proeza circense em que não sabemos o que mais admirar, se a falta de proficiência com que Vido manuseia as cornetas, concertina e tambores, se a vocalização (?), onde não são percetíveis os mínimos resquícios de sensibilidade ou aptidão musicais. Thoth, pelo contrário, apesar de se vestir como um troglodita, é um “virtuose” do violino que em “The herma, scene 5: Recitation/Na” canta como... um theremin… ou uma variante histérica de Meredith Monk… num “puirt-a-beul” de esquizofrénico. “Avant-garde”, pois claro.
            E Tangela Tricoli, bebé a tentar cantar afinada? E Buddy Max (13 álbuns gravados por este entusiasta da polca)? E Mark Kennis, numa gravação caseira, onde canta e berra “a capella” a história da sua vida, repetindo incessantemente “I grew up in Iowa, in the heart of the heartland”?
            Todos os intervenientes nestas “canções de série Z” são estrelas que o mundo não conhece e, muito menos, compreende. Super homens e mulheres afetados pela Kryptonite. Artistas para quem a música é um conceito radicalmente pessoal e relativo. Ou, como disse Charles Ives: “Don’t pay attention to the sounds. If you do, you may miss the music. You won’t get a heroic ride to Heaven on pretty little sounds.” E na contracapa: “Se tudo o que conseguir ouvir são imperfeições é porque você está a ouvir mal”. Nota máxima, como divertimento... diferente.

Primeira avaliação técnica de coleção de fados histórica


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 8 JANEIRO 2004

Primeira avaliação técnica de coleção de fados histórica

GRAVAÇÕES RARÍSSIMAS

Uma delegação vai a Londres avaliar o tesouro fonográfico de Bruce Mastin. O colecionador inglês não baixou o preço e pede mais de um milhão de euros. O espólio inclui raríssimas gravações de fado do início do século XX
BÁRBARA REIS E FERNANDO MAGALHÃES

Um grupo de especialistas e representantes oficiais vai partir nos próximos dias para Londres para fazer a primeira avaliação técnica da coleção de registos fonográficos de música portuguesa do início do século XX, propriedade do colecionador inglês Bruce Mastin.
            Para Londres seguirá um administrador da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), braço da Câmara Municipal de Lisboa que gere vários equipamentos da cidade, entre os quais a Casa do Fado, em Lisboa; dois técnicos da EGEAC para analisar o material discográfico; José Moças, da Tradisom, editora que, diz, fará a organização, digitalização e edição desta coleção de “peças únicas” com apoio do Ministério da Cultura, e o seu advogado, José Sardinha.
            José Moças, que parte no domingo, diz que o colecionador inglês não vai baixar o preço – um milhão e duzentos e quarenta e nove mil euros. Mas segundo lhe foi comunicado pela CML e o Ministério da Cultura, “a decisão política está tomada”.
            “A Câmara Municipal de Lisboa, que tem interesse em comprar o espólio, incumbiu-nos de o analisar e dar um parecer global sobre o processo”, disse ontem Maria Louro, um dos três administradores da EGEAC.
            Em aberto está também a hipótese de a Câmara Municipal de Coimbra participar numa “joint venture”, com consequente participação financeira, dado o acervo incluir exemplares de fado de Coimbra, diz Moças. Dada a diversidade do espólio, outras entidades poderão também estar interessadas. “Não é só a questão da aquisição. A concretizar-se a compra, tem que haver um objetivo e um investimento para o manter”, acrescenta Maria Louro. “A proclamação da República, por exemplo, não interessará à Casa do Fado...” (ver caixa).

Especialistas prontos para estudar espólio
            Os especialistas vão à residência e ao escritório do colecionador inglês – locais onde está o espólio, situados perto um do outro, a cerca de 70km de Londres.
            “Na maioria são discos das duas primeiras décadas, aqueles que não se encontram em lado nenhum”, diz José Moças, que já enviou à Câmara de Lisboa uma “lista pormenorizada”. “Todos os sítios que tenho contactado, arquivos nos EUA, em Inglaterra, seja onde for, ninguém tem nada. Escusamos de andar à procura porque não há”, garante o representante da Tradisom com mal disfarçado entusiasmo. “O que há em Portugal são discos em muito más condições e dispersos por vários colecionadores que ainda por cima nunca quiseram abrir mão de nada”.
            Se o negócio se concretizar, mal o espólio de Bruce Mastin aterre em Portugal, a Tradisom iniciará um trabalho de investigação, com duração prevista de cinco anos (para a sua totalidade, três para os espécimes de fado), por uma equipa “já constituída” de especialistas.
            Já houve várias reuniões sobre o assunto, nomeadamente com João Morais, chefe de gabinete do ministro da Cultura, Pedro Roseta, e com Paulo Cunha e Silva, diretor do Instituto das Artes (IA). “O papel do IA será dar apoio e um parecer técnico [através do gabinete de música]. Estão a decorrer negociações entre o colecionador inglês e a Câmara de Lisboa e o IA está atento às negociações”, disse ontem o gabinete de imprensa.
            Para o Ministério da Cultura, as negociações entre a câmara e o proprietário do espólio são “um dado adquirido”: “Neste momento não há qualquer verba reservada no ministério para a coleção porque é certo que será a autarquia a comprá-la. O ministério está a acompanhar o processo através do IA”, garantiu fonte do gabinete de Roseta.
            A compra permitirá que a génese do fado gravado seja ouvida pela primeira vez em Portugal. A história desta música juntará assim algumas pontas soltas. Mas não todas. José Moças identificou entretanto outras arcas do tesouro: novas gravações inéditas, na posse de colecionadores brasileiros e americanos, de fado também do início do século XX, de atuações de fadistas portugueses no Brasil e EUA.


Uma coleção única

A coleção de Bruce Mastin inclui cerca de 5000 registos áudio, em discos de 78 rotações, mais de metade já identificados como gravações das primeiras décadas de fado, em estado ótimo de conservação, que o britânico terá comprado há mais de 50 anos num armazém português (ver PÚBLICO de 2-05-2003). Outros exemplares do espólio incluem gravações, também do início do século XX, de teatro de revista, música popular, discursos e dois discos contendo uma reprodução da Proclamação da República Portuguesa, em 1910, gravada no ano seguinte. Entre os três milhares de exemplares de discos de 78 rotações gravados na primeira década do século passado, as primeiras de sempre do fado, contam-se as vozes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor e Maria Victoria. Igualmente importantes do ponto de vista musical e etnográfico são registos, mais tardios, de Maria Alice, Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista e Maria do Carmo Torres, bem como dos mais conhecidos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e Alfredo Duarte, o popular Alfredo Marceneiro.

"O Senhor dos Anéis" na ponta da língua


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 7 JAN 2004

“O Senhor dos Anéis” na ponta da língua

Joseph Pearce, biógrafo de Tolkien, levou na segunda-feira uma pequena multidão reunida na Universidade Católica a viajar pelo mundo fantástico de “O Senhor dos Anéis”. Mas na plateia também havia especialistas

2004 está a ser o ano de Tolkien e de “O Senhor dos Anéis”. Depois do terceiro filme da saga realizada pelo neozelandês Peter Jackson, adaptada da obra literária do escritor inglês, tornámo-nos, em maior ou menor grau, Frodo Baggins, Samwise Gangee, Legolas, Gimli, Gandalf, Boromir ou Aragorn. Talvez mesmo algum carrancudo Gollum, Sauron ou Saruman. No ano em que obtivemos fotos de Marte suficientemente nítidas para serem coladas no álbum de família da nossa velha Terra, eis-nos lançados para a Terra Média, onde Tolkien situou a acção de “Lord of the Rings”.
            Foi pelo menos isso que sentiram as cerca de 400 pessoas que anteontem ao cair na noite de segunda-feira encheram, até abarrotar, o auditório da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, para assistir à conferência de Joseph Pearce, sobre “Quem é o Senhor dos Anéis? Mito e Realidade”. Sentados nas cadeiras ou espalhados pelo chão, os admiradores ou meros curiosos da obra de Tolkien beberam religiosamente as palavras de Pearce, hobbit inglês (reparem no ar bonacheirão da foto) residente nos EUA (“tenho o sotaque de Londres maculado pelo ‘twang’ americano…”, brincou), professor de Literatura no Ave Maria College, 12 livros publicados, na maioria biografias, e considerado o melhor biógrafo do autor de “O Hobbit”, “O Silmarillion” e, claro, “O Senhor dos Anéis”.
            Pearce mergulhou a fundo no tema (em inglês, sem tradução, ao contrário do que anunciava o programa), alternando divagações de carácter filosófico e religioso com apontamentos ao melhor estilo de humor britânico, para uma plateia que fez questão de demonstrar que também em Portugal existe um fenómeno de culto em torno do universo de “O Senhor dos Anéis”, a julgar pelas respostas na ponta da língua dadas por alguns dos presentes às questões colocadas pelo conferencista.
            O anjo rebelde que se opôs à criação do mundo por Uru? “Morgoth!”, exclamou de imediato alguém. O senhor dos anéis? “Sauron!”. Mais difícil ainda: em que dia Frodo lançou o anel (identificado por Pearce como o pecado) nos fogos do Monte da Condenação, em Mordor? “25 de Março!”. 25 de Março, Equinócio de Verão, precisamente o dia em que na tradição católica o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria o nascimento de Cristo. O triunfo da Luz sobre as trevas. Curiosamente também a data escolhida pelas bruxas para a celebração de um dos seus rituais.

Um Tolkien católico
Várias figuras e situações do romance (desvalorizado principalmente por aqueles que nunca o leram, como frisou o conferencista) foram escalpelizadas por Pearce à luz do mito e da religião católica (“O Senhor dos Anéis” como obra religiosa serviu de mote a todas as considerações). Deus compôs e dirigiu a Sinfonia da Criação que o Mal – originado pela ânsia de poder de Morgoth, arcanjo decaído, equivalente ao Lúcifer do Catolicismo – corrompeu, levando a divisão e a decadência à Terra Média. Gandalf, o seu contraponto luminoso, encarregado de manter a Ordem e o Bem. Tom Bombadil, único ser imune ao poder do Anel Um, e Goldberry, equiparados a Adão e Eva no Jardim do Éden, personificações da Humanidade anterior à Queda. Os Homens, presos na sua dualidade, entre a virtude e o pecado, mas também livres e disponíveis para a Redenção, representados por Faramir e Boromir. Mais humanos ainda, os Hobbits, os cidadãos comuns, para quem o conforto é tudo e a vida se resume a ter casa e a manter os hábitos do dia a dia (“hobbit”, aglutinação de “home” e “habit”, como explicou Pearce, numa das várias análises ao processo semântico que Tolkien usou para criar a sua galeria de personagens e locais).
            Episódios e atores, grandiosos ou arrancados ao quotidiano, de um universo “bigger than life” que nos toca com a intensidade da Verdade (para Tolkien “o mito é uma parcela da Verdade”, disse o biógrafo do escritor).
            No final, ou não fosse o local da conferência a Universidade Católica, houve quem se mostrasse confundido pelo facto de muitos agnósticos serem igualmente admiradores de “O Senhor dos Anéis”. Facto admirável cuja explicação reside em que, além do mito, chave das portas que ligam o homem a si próprio e aos muitos mundos que o Criador colocou à sua disposição, “O Senhor dos Anéis” é “uma história maravilhosa”. Aliás, a única e melhor coisa que, segundo Pearce, Peter Jackson tirou do livro: “Se nos pusermos na pele do tolkeniano ferrenho, não paramos de encontrar defeitos no filme. Todavia, se formos isentos, até achamos que podia ter sido pior!” Comentário digno de um hobbit.

23/12/2019

Balanço [Jazz]


JAZZ
BALANÇO
PÚBLICO 3 JANEIRO 2004

Das recriações em grande estilo, de Bourassa e Hemingway, ao novo corte radical dos Spring Heel Jack se fez o melhor jazz chegado a Portugal este ano. Pontes para o futuro que os portugueses atravessaram sem receio. Nas reedições, saúdem-se as velhas glórias Armstrong, Holiday, Webster e Gordon mas 2003 foi também o ano de Sun Ra. Além dos dois capítulos do “mito solar” chegaram de Saturno outros dois momentos fulcrais da saga intergaláctica: “It’s After the End of the World” e o volume duplo das “Nuits de la Fondation Maeght”.

1 FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi, distri. Multidisc
Bourassa é um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives, além de fabuloso arquiteto e desenhador de “riffs”, de uma fluência e imaginação inesgotáveis. Cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas O modo como “30 Octobre 85” cresce de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de André Leroux, no tenor, constitui um daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação. Tudo a transbordar de “swing”, mais a oferta de um espetacular momento de bop e um “medley” de Monk que entra diretamente para a galeria dos clássicos.

2 SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
A dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” de “Amassed” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações que projetam a música numa selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. Como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer.

3 GERRY HEMINGWAY QUARTET
Devils Paradise
Clean Feed, distri. Trem Azul
Como pode o diabo habitar no paraíso? Encare-se a questão do seguinte modo: O que Hemingway e os seus companheiros fazem é simultaneamente uma revolta e uma libertação das linguagens tradicionais do jazz, através de uma reconversão que devolve o prazer sob novas formas. Improvisador nato, o baterista mantém latente um estado de tensão que Eskelin estica até aos limites e Ray Anderson, pelo contrário, contraria, distendendo e embalando a música com um gozo infantil, de marchas, “gospel” e “Dixieland”.

4 DAVE HOLLAND QUINTET
Extended Play
2xCD ECM, distri. Dargil
Obra monumental gravada há dois anos no mítico Birdland de Nova Iorque. Holland justifica esta aventura em larga escala com a necessidade de explorar novas fórmulas para temas antigos, fazendo delas “veículo para a intuição e a imaginação”. “Extended Play” ostenta a novidade e a incandescência do princípio do mundo. E, porque não, do princípio do jazz. Contra tais factos, contra um baixo como este, não há argumentos.

5 GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
“Fugace” é um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround.

6 JEAN DEROME/LOUIS SCLAVIS QUARTET
Un Moment de Bonheur
Victo, distri. Trem Azul
Sclavis, herdeiro de Portal, e Derome, canadiano com larga e por vezes burlesca obra na editora Ambiances Magnétiques encontram-se neste entusiasmante diálogo de música improvisada, em uníssonos, contrapontos e fugas que atingem o âmago do “free jazz” nos longos “L’errance” e “Suite pour un bal”, esta última cortada a meio por uma descarga de ruído e de…rock, na melhor tradição da escola RIO (“Rock in Opposition).

7 VANDERMARK 5
Airports for Lights
2xCD Atavistic, distri. Ananana
Saber e cheiro a Chicago. “Airports for Lights” junta em doses exatas o esquematismo hermético-matemático de Braxton, o fluxo sanguíneo de Parker e o palimpsesto de discursos sobrepostos de Dolphy. Mas Vandermark confronta-nos com um poder que é só seu. Entre o “bas fond” do pós-jazz de Chicago, o “blues” em figurações cubistas, o “hard bop” futurista e o “free” mais solitário e estratosférico, o saxofonista faz o que quer, com o desplante dos génios.

8 AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
“Vetek” cultiva o gosto pelas músicas do mundo, em sintonia com uma visão planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações. Rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak para finalmente rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase.

9 JOHN SURMAN
Free and Equal
ECM, distri. Dargil
Inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, este registo ao vivo no Queen Elizabeth Hall, Londres, junta o saxofonista inglês com Jack DeJohnette e a orquestra de metais London Brass numa obra em larga escala notável que combina sequências instrumentais majestosas, secções improvisadas, diálogos luminosos entre os dois solistas, o espírito do Barroco e o romantismo característicos de Surman.

10 MARTY EHRLICH
Line on Love
Palmetto, distri. Trem Azul
Adepto de aventuras conceptuais, Marty Ehrlich entrega-se a uma inflexão na tradição e num jazz de grande lirismo de que andava arredado em trabalhos como o igualmente estimulante “The Long View”. Os desempenhos no sax alto são de altíssimo calibre, como no surpreendente e hardbopante solo, em tempo lento, de “St. Louis Summer”, concluindo a tocar clarinete baixo na magnífica arquitetura rítmica de “The git go”.

11 MICHAEL BRECKER QUINDECTET
Wide Angels
Verve, distri. Universal
Brecker dirige uma “big band” de 15 elementos e não desperdiça a oportunidade para se revelar, além do saxofonista de costela coltraniana (embora sem a preocupação de atirar o jazz para esferas inatingíveis) que é, um surpreendente arquiteto e arranjador, capaz de fazer saltar da cartola soluções harmónicas e rítmicas surpreendentes. “Wide Angles” faz renascer no reino da fusão a esperança de que o jazz continue a ser a força-motriz.

12 TIM BERNE
Science Friction
Night Bird, distri. Trem Azul
“Science Friction” revela o lado descontraído e mais mundano do saxofonista. Emparceirado com o jazzrock, a turbina “funk” do movimento M-Base e o jazz progressivo, passam por aqui correntes realmente futuristas, na guitarra de Marc Ducret e nos teclados elétricos de Craig Taborn. Antecipação jazzística de um futuro que afinal continua a ser de marcianos verdes, máquinas do tempo e pistolas de raios laser.

13 JANE IRA BLOOM
Chasing Paint
Arabesque, distri. Multidisc
A saxofonista soprano e manipuladora de “live electronics” Jane Ira Bloom transpõe para música o universo pictórico do pintor Jackson Pollock. A luz, neste caso, não se esconde mas brilha no lirismo de “The sweetest sounds”, refletida nas “Many wonders” que recompensam quem se dispuser a viajar até ao término da “Alchemy”, onde uma “white light” se vislumbra enfim. Jazz sem amarras, filho da tradição mas pujante na tensão criativa.

14 DAVID S. WARE
Freedom Suite
Aum Fidelity, distri. Ananana
Ware, o mais Coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “Rollinsoniana” (ele que já recriara, de resto, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional à obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”.

15 ANGELICA SANCHEZ
Mirror Me
Omnitone, distri. Trem Azul
Um estilo discreto de execução e ausência de preconceitos permitem a Angelica tocar tanto a música sacra de Olivier Messiaen como a “country” de Merle Haggard ou o “boogie pop” dos T. Rex. Mas “Mirror me” é jazz ao mais alto nível, em “environments” dirigidos à criatividade de solistas como o Michael Formanek e Tony Malaby. O diálogo entre a ternura e a ferrugem, do sax, e o metal e água da pianista, no título-tema, é um dos pontos altos e de maior extravagância de “Mirror Me”.


REEDIÇÕES
1 LOUIS ARMSTRONG The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings, Vol. 1, 2 & 3 Columbia, distri. Sony Music
2 BILLIE HOLIDAY The Billie Holiday Collection, Vol.1, 2, 3 & 4 Columbia, distri. Sony Music
3 BEN WEBSTER Soulville Verve, distri. Universal
4 DEXTER GORDON Our Man in Paris Blue Note, distri. EMI-VC
5 SUN RA The Solar-Myth Approach, vol. 1&2 Sunspots, distri. Trem Azul

PORTUGUESES
1 CARLOS BARRETTO Locomotive Clean Feed, distri. Trem Azul
2 MÁRIO LAGINHA & BERNARDO SASSETTI Mário Laginha & Bernardo Sassetti Ed. autor, distri. FNAC
3 RODRIGO AMADO, CARLOS ZÍNGARO, KEN FILIANO The Space Between Clean Feed, distri. Trem Azul
4 SEI MIGUEL Ra Clock Ed. e distri. Headlights
5 JOÃO PAULO, PAULO CURADO, BRUNO PEDROSO As Sete Ilhas de Lisboa Clean Feed, distri. Trem Azul