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01/10/2008

John Cale - Paris S' Éveille

Pop Rock

5 FEVEREIRO 1992

PARIS COMEÇA NA ANTÁRCTIDA

JOHN CALE
Paris s’ Éveille
CD, Les Disques du Crépuscule, distri. Edisom

Paris leva 17 minutos a acordar. O mesmo tempo que John Cale demora a adormecer-nos, em “Paris s’ Éveille”, início de mais um disco “sério” deste compositor, que, nos Velvet Underground, condescendia com orgias de “feedback” e sadomasoquismo.
A costela erudita, chamemos-lhe assim, de John Cale, remonta aos tempos de “Paris 1919” (parecendo querer dizer que o “clássico” se associa invariavelmente à capital francesa) e, antes disso, aos ensinamentos do guru do minimalismo LaMonte Young. Costela mantida até agora, felizmente, a maior parte do tempo no frigorífico. Torna-se forçoso reconhecer que é no rock e na fúria de álbuns como “Vintage Violence”, “Fear”, “Honi Soit” e “Music for a New Society” que o talento de Cale eclode com maior esplendor. Quando não se deixa levar pelas ventanias do ódio, os resultados quase sempre deixam algo a desejar. E “Paris s’ Éveille” é um disco de amor. Basta olhar para o postal ilustrado da capa para se ver que é um disco de amor.
“Words for the Dying”, o seu anterior trabalho, enveredava já pela via inchada e orquestral dos grandes épicos. O novo disco leva-a às últimas consequências. “Paris s’ Éveille” não é um mau disco, da mesma forma que a mega-obra “The Well-tempered Piano”, de LaMonte Young (quatro horas de notas de piano fragmentadas) ou uma supercacofonia matemática de Xenakis não são maus discos. São chatos, é verdade, mas não são maus. “Paris s’ Éveille” tem algumas atenuantes: é um disco de peças encomendadas e inclui, para além de um registo inédito dos Velvets, a pérola “Antarctica starts here” em nova versão do tema surgido pela primeira vez em “Paris 1919”.
Paris começa por ser os tais 17 minutos compostos para um filme de Olivier Assayas. A interpretação, entregue aos Soldier String Quartet (versão terrorista e bem-humorada dos Kronos Quartet), alonga-se em atmosferas barrocas, por vezes próximas de Michael Nyman, pontuadas por sons concretos e, na parte final, pelo piano eléctrico de Cale a imitar uma flauta de Pã. Ambiental, atmosférico, blá blá blá. Chato, mas bom. Depois mais uma dose de 18 minutos: “Sanctus” – “quatro estudos para orquestra electrónica escritos para a Warsaw Dance Company”. Nada a apontar.
John Cale precisa de facto de estudar melhor as lições de piano e viola de arco. Em “Sanctus” não se percebe bem o que é “electrónico”, se o oboé, os “tubular bells”, os timbalões e a trompete solistas, que são sintéticos, se os músicos, que são ligados à corrente. Outro bom tema. Chato, mas bom. “Animals at night”, “Pizzicato cantabile” encomendado pela Ralph Lemon Dance, e “Primary Motive”, composto para uma fita de Dan Adams, são na mesma ambientais, sérios, lentos, graves, grandiloquentes e chatos. Mas bons, sem dúvida.Restam 12 minutos nos quais John Cale manda às urtigas a seriedade: “The cowboy laughs at the round-up”, piada em sequenciador, na linha da colaboração com Eno, “Wrong Way Up”, “Booker T.”, registo inédito dos Velvet Underground gravado em 1965, ao melhor estilo “de garagem”, com a respectiva péssima, e aqui excitante, qualidade sonora, disponível apenas em CD, e “Antárctica starts here” que transforma os sussurros ameaçadores de “Paris 1919” em algo não menos perturbante, mas banhado por uma luminosidade mais forte. Como uma ameaça velada que de súbito irrompe à luz do dia. Ou um “iceberg” prestes a encontrar o alvo. (6)

29/06/2008

John Cale & Terry Riley - Church Of Anthrax

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994
REEDIÇÕES

John Cale & Terry Riley
Church of Anthrax
Columbia, distri. Sony Music

Um disco mítico. Gravação de 1971, na qual o então violista dos Velvet Underground juntou forças com um dos papas do minimalismo americano. Resultou interessante, mas deixa um certo sabor a frustração. Cale martela como pode o piano em “Church of Anthrax”, “The hall of mirrors in the palace at Versailles”, que o sax soprano do americano sobrevoa como uma área real, e no longo e penúltimo tema “Ides of March”, acompanhando como pode a cadência milimétrica imposta por Riley, mestre da circularidade e sobreposição de ritmos. É notório que é Riley a ter de descer ao nível de Cale. Vê-se que o compositor de “in C” e do fenomenal “Rainbow in Curved Air” tem a preocupação de não descolar em demasia dos esforços do companheiro, na maneira contida como toca o órgão electrónico. Depois, a bateria, tocada por alguém nunca identificado em qualquer edição desta obra, não ajuda nada, de tão quadrada e pesadona. O melhor tema acaba por ser a única canção do disco, “The soul of Patrick Lee”, uma das típicas baladas fantasmagóricas de Cale, cantada por este de forma preciosa. Mas a sensação de ineditismo da parceria e alguns pormenores mais conseguidos, por entre o emaranhado rítmico dos temas “minimais repetitivos”, acaba por tornar “Church of Anthrax” uma curiosidade digna de interesse. Mesmo que a quilómetros de distância do melhor, tanto dos Velvets como do patriarca da repetição. (7)