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22/04/2011

1999 - Os melhores do ano [Mr. Bungle - California]

Sons

24 de Dezembro 1999
POPROCK

1999 – Os melhores álbuns do ano

MR. BUNGLE
California
Warner Bros., distri. Warner Music

Fantasia

“California” dos Mr. Bungle é a bíblia maldita da pop do final deste mundo e do princípio de outro. E Mike Patton o profeta e porta-voz (e que voz!) do espectáculo total. “California” ouve-se – ou será melhor dizer sente-se? – como uma vertigem. Há neste álbum, como já havia, embora numa escala menos convulsiva, no anterior “Disco Volante”, uma vontade de abraçar o universo inteiro da pop, de espremer as suas potencialidades, de corromper e estimular as suas múltiplas linguagens. Que os Mr. Bungle tenham operado o milagre a bordo de um foguetão e, mesmo assim, conseguindo escalpelizar e reconverter cada detalhe da história da pop dos últimos 32 anos (começando por 1967…) é algo de espantoso e digno de colocar “California” na lista, não só dos melhores discos deste ano, como na dos melhores da década.
“California” não mistura nem cola nada, atenção, como fizeram no passado Zappa, John Zorn ou os Negativland, antes sintetiza uma multiplicidade de imaginários e escolas musicais. São várias histórias, assumidas e assimiladas por inteiro, aquelas que os Mr. Bungle ensinam com o descaramento de agitadores profissionais, o nonsense de sátiros iluminados e a precisão de geómetras.
Os fantasmas dos Beatles, Beach Boys, Kim Fowley, Residents, Bowie, Sparks, Queen, Gong, Frank Zappa, Zorn, Clint Ruin, Phil Spector, Lalo Schiffrin, Presley, Yello, Zombies, surf music, easy listening, cha cha cha, folk cigano, flamenco, doo-wop, música árabe, baile musette, jazz, electrónica, contemporânea, sucedem-se a anulam-se numa sequência estonteante em que cada nota, cada palavra, cada melodia e cada conceito convergem na arte maior que consiste em transformar o tempo na transcendência e as referências que a memória retém em algo de novo nunca antes imaginado. Claro que Patton e os seus sequazes observarão de longe, com um sorriso, o circo de monstros e fantasias que eles próprios criaram. Criada a obra, cabe-nos a nós colonizá-la.
“California” perturba e desatina como um poltergeist. Queima como um vulcão. Encanta como uma caixa-de-música. Diverte como uma feira. Aterroriza como um palhaço alienígena com cara de mau. Faz-nos sentir perdidos à procura de palavras que definam o indefinível. Em última análise, aprisiona-nos na vontade de ouvir uma e outra e outra vez até passarmos a fazer parte definitivamente de um mundo sem fronteiras onde, como num desenho animado (a obra-prima “Fantasia”, de Walt Disney, será o melhor exemplo…), tudo, mas rigorosamente tudo, pode acontecer.
Como escrevemos no nosso primeiro e deslumbrado contacto com este álbum, “California” é o fantasma-clown do “Smile” que Brian Wilson jamais se atreveu a sonhar e a ironia mais lúcida e deslumbrante desde que os Mothers of Invention afirmaram que “We’re only in it for the Money”. Não se sabe que droga é que os Mr. Bungle tomaram nem isso interessa, mas “California” vai com certeza crescer na próxima década como um cogumelo destinado a fazer alucinar as gerações futuras.

26/02/2011

Mr. Bungle - California

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK

California Dreamin’

Mr. Bungle
California (10)
Warner Bros., import. Carbono


A diversão e o humor são componentes essenciais e omnipresentes no rock. Sem ser preciso instalarmo-nos no chapitô de trupes como os Monty Python ou os Bonzo Dog Doo Dah Band, são múltiplas as linhas que cosem o absurdo e o pueril, a sátira e o “nonsense”, a pantomina e a ironia: dos Beatles a Kim Fowley; dos Residents aos Negativland; dos Sparks aos Queen; de Albert Marcoeur aos Gong; e, obviamente, de Frank Zappa a Frank Zappa.
Os Mr. Bungle de “California” só serão uma surpresa para quem não ouviu “Disco Volante”, o álbum anterior desta banda encabeçada por Mike Patton (dos Faith No More e colaborador assíduo de John Zorn), onde eram já visíveis as forças “poltergeist” que alimentam um som em permanente combustão.
“California” é uma turbina em aceleração máxima, de onde brota uma corrente absolutamente inacreditável de “gags” que derrubam como um furacão a mínima noção de politicamente correcto. É um desenho animado contínuo, de sequências vocais e instrumentais, que se acotovelam e pisam e interagem mutuamente, às gargalhadas e em golpes de génio.
“Sweet charity” é surf music, easy listening, cha cha cha e Zappa (presença patronímica ao longo de todo o álbum) em technicolor dos anos 60. “None of them knew they were robots” sobrepõe Snakefinger, Clint Ruin e o Zorn de “Spillane”. Em “Retrovertigo”, que poderá ser ou não ser uma referência a Hitchcock, são os Beach Boys supervisionados por Phil Spector em sonhos de mescalina, com Bowie a intrometer-se pelo meio. “Pet Sounds” em doo-wop cruza-se com Lalo Schiffrin, os Zombies e – suspeita-se – com tudo o que a memória lhe quiser atribuir, em “Ars moriendi”.
Mas há também flamenco, música árabe, acordeões musette, Morricone, grupos de baile, Nurse With Wound, Yello, Elvis Presley, Raymond Scott numa caixa de música, Godard, electrónica-jazz-porky pig, deslumbrantes baladas decadentes de lágrimas e estrelas borbulhantes, em estranhas formas de vida a agitar-se em títulos tão zappianos como “Pink cigarette”, “Golem II: The bionic vapour boy” e “Vanity Fair”.
“California” é o fantasma-“clown” do “Smile” que Brian Wilson jamais se atreveu a sonhar e o “cocktail” musical mais delirante (“Goodbye sober day” é um título bastante apropriado para fecho do álbum…) desde que os Mothers serviram “We’re only in it for the Money”. Pelo menos, até se conseguir recuperar o fôlego: nota máxima.