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22/11/2016

Violinos para Bartók [Festival Noites Celtas]

CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 9 ABR 2001

Crítica Música

Violinos para Bartók

João Afonso e Muzsikas
Porto, Coliseu. Às 22h

Sala praticamente cheia

Parou de chover no Porto. Parou a chuva mas os buracos, não. Chegaram violinos entretanto. Dos Balcãs. Do grupo húngaro Muzsikas. Primeiro grande concerto do festival "Noites Celtas" que na sexta-feira teve início no Coliseu do Porto.
Mas coube ao português João Afonso abrir o festival. Não foi propriamente abrir, mas mais entreabrir. A música do sobrinho de um dos músicos mais importantes de sempre da música popular portuguesa (ele não gosta que citemos o seu nome, para evitar comparações, mas podemos adiantar que o apelido era também Afonso) pede licença para se fazer ouvir. Evoca passarinhos, sininhos, estrelinhas, florzinhas e outras coisas acabadas em "inho" e "inha". Uma musicazinha agradavelzinha que mal se ouve, logo se esquece. Causa até uma certa apreensão, sobretudo quando não há bombeiros por perto, de tal modo dá a sensação de que se pode quebrar ou desmaiar a qualquer momento.
Assim entreabertas, as "Noites Celtas" abriram de facto com os Muzsikas, grupo húngaro que já atuara no Intercéltico há algumas edições atrás. Márta Sebestyen, cantora cujo nome se tornou indissociável dos Muzsikas, não esteve presente desta vez, mas não se pode dizer que a música se tenha ressentido muito.
Em termos técnicos, qualquer dos quatro músicos dos Muzsikas é um executante de exceção. Mas um dos dois violinistas, Mihály Sipos, então, abusa. O solo arrebatador que rubricou ainda na primeira parte do concerto, fez a assistência saltar como uma mola (não é vulgar aplaudir-se de pé, antes de um concerto acabar). Oscilando entre o lúdico e o didático – por duas vezes fizeram-se ouvir velhíssimas gravações de campo recolhidas por Béla Bartók, compositor omnipresente na música húngara do século passado, a quem os Muzsikas dedicaram o seu disco mais recente, "The Bartók Album" – estas releituras do folclore dos Balcãs incluíram, além dos instrumentais delirantes, baladas de uma beleza e delicadeza melódica infinitas. Aliás, por mais extraordinário que possa parecer, é possível saborear a música sem ser com as mãos. A marcar, ou a desmarcar, o compasso com as inevitáveis palmas. Usando os ouvidos da alma, acreditem, encontram-se mil e uma delícias mesmo nos temas lentos. Vale a pena experimentar.
É verdade que os próprios Muzsikas nem sempre foram tão ascetas. Quando Péter Istvan Éri sugeriu que se encontrava à venda no átrio do Coliseu a versão húngara de "The Bartók Album" (com o bónus apelativo que é a inclusão de um livrete inteiramente redigido na língua magiar) estava-se longe dos altíssimos cumes espirituais da música balcânica. Ou quando o convidado especial, Alexander Balanescu, que já tinha tocado com os Muzsikas em "The Bartók Album", apresentado de forma coloquial como "Alex", subiu ao palco, visivelmente bem disposto, para dedicar o seu primeiro solo – improvisado – de violino ao vinho do Porto. Balanescu é o 1º violino e líder dos Balanescu Quartet, sendo considerado um dos principais solistas deste instrumento, na música contemporânea, da atualidade.
Quer nesta primeira e longa improvisação, quer nos diálogos com Mihály Sipos, na execução de um par dos complicados e tecnicamente exigentes "Duetos para violino" de Bartók, Balanescu não deixou os seus créditos por mãos alheias, mesmo se, quiçá por causa da dose extra de entusiasmo proporcionada por essa poção mágica que é o vinho do Porto, os fios de crina de cavalo do arco do violino tenham sofrido um pouco, soltando-se do arco como os cabelos de uma cabeça com seborreia. E cá para nós, que nem ele nem mais ninguém nos ouve, a sonoridade aguçada do seu violino não se sobrepôs de modo algum às tonalidades quentes e ao engenho harmónico de Mihály Sipos.
Terá tocado mais perto no absoluto e sangrado mais – do estilo, "tocar até morrer" – a anterior atuação dos Muzsikas no Porto. Esta terá sido mais contida e elegante, cuidando dos aspectos formais e da gestão do equilíbrio arquitetónico do espetáculo, em detrimento da pura animalidade e da vertigem da outra. Ainda assim, grande música, a dos Muzsikas.

DESTAQUE

Duelo de violinos Mihály Sipos e o convidado Alexander Balanescu teceram armas nos duetos para violino de Béla Bartók. O tradicional venceu o contemporâneo.

15/11/2016

Kontradanças intercélticas a partir de hoje no Porto

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 6 ABR 2001

Kontradanças intercélticas a partir de hoje no Porto


JOÃO AFONSO ABRE FESTIVAL

Punkwhiskyfolk, Muzsikas com Oyster Band, Balanescu e Susana, a bela gaiteira, iluminam as “Noites Celtas”. A dança vai de roda. Vai uma rodada?

"Quando me desloquei, pela primeira vez, a uma aldeia, senti-me como se estivesse no tempo dos meus avós. Quando nos aproximamos da aldeia, a primeira coisa que se começa a ouvir é o baixo. E à medida que nos vamos aproximando cada vez mais, ouvimos então o ‘kontra’ a ser tocado algures. E, quando passamos a porta, surge uma música completa, que as pessoas dançam durante toda a noite". Quem o diz é Peter Eri, músico urbano do grupo de música tradicional húngara Muzsikas que este ano regressa ao Porto, depois de uma anterior passagem pelo Intercéltico.
            O "kontra" é um violino cigano, de três cordas. Este ano, e também pela primeira vez, o festival de música tradicional que antes se chamava "Intercéltico" passou a chamar-se "Noites Celtas" e faz parte do Porto-2001 – Capital Europeia da Cultura. É o festival do "kontra". Culturporto, nova entidade organizativa, kontra MC-Mundo da Canção, que durante as 10 das 11 edições anteriores assegurou a organização do certame. Em combates deste tipo não há vencedores nem vencidos. Nem as entidades em confronto saíram vencedoras ou vencidas (a edilidade portuense ganhou poder, protagonismo e um festival, a MC promete já novo Intercéltico para o próximo ano) nem – e isso é o mais importante – o público saiu derrotado. Desapareceu o símbolo que há uma década, Tentúgal, dos Vai de Roda, idealizou para o Intercéltico. Mas os sons célticos permanecem. No seu formato de sempre, ao longo de um fim-de-semana que hoje tem início, com concertos duplos diários. Espera-se que as "boas vibrações" também.
            Mas regressemos à Hungria, com desvio para o Porto. Depois de abandonarmos a ancestral aldeia da Transilvânia que Peter Eri nos descreve, aproximemo-nos da porta de entrada do Coliseu do Porto, onde decorrerá o festival. Já lá dentro, o primeiro som que ouviremos não será nem do baixo, nem do "kontra", mas a voz de João Afonso, a quem cabe a honra de abrir o festival. Vem apresentar canções dos seus álbuns "Missangas" e "Barco Voador" no tom poético e suave que o caracteriza. Acompanhado por uma banda de quatro elementos de onde se destaca Moz Carrapa, na guitarra.

Balanescu com Muzsikas
A seguir, os Muzsikas trazem a música dos Balcãs. A tradicional, mas também releituras de Bela Bartók e Zoltan Kodaly. Marta Sebestyen, cantora há muito associada ao grupo, não estará presente desta vez, vindo em seu lugar o violinista Alexander Balanescu, líder e solista do quarteto de câmara com o seu nome, repetindo uma colaboração encetada há dois anos no álbum "The Bartók Album". É caso para dizer, quem tem Balanescu, não tem medo. A formação dos Muzsikas que hoje atua no Coliseu do Porto, não inclui nenhum "kontra", mas em kontrapartida não faltarão os violinos (três), a viola de arco, o "gardon", o "cimbalom", flauta, guitarra, baixo e percussão. E dois bailarinos.
            Amanhã, sábado, o consumo de álcool deverá aumentar. Pelo menos da parte dos músicos. Sobretudo dos músicos ingleses da Oyster Band, formação pioneira do movimento punk rock dos anos 80. Curiosamente, os Oyster Band tiveram a sua génese numa banda ceilidh e nos menosprezados Fiddler's Dram, mantendo inclusive ligações com os Fairport Convention e Albion Band, através da vocalista Cathy Surf. A partir de 1986, porém, o whisky, a cerveja e a farra falaram mais alto e os Oyster Band tornaram-se numa banda de folkpunk 'n' roll.
            June Tabor, diva da tradição, gostou. Gostou tanto que até se vestiu de cabedal para gravar com eles o álbum "Freedom and Rain". Do currículo dos Oyster Band constam igualmente uma canção dos New Order ("Love vigilantes") e álbuns para abanar o capacete como "Deserters". Como diz John Jones, vocalista e acordeonista do grupo, os Oyster Band não andam por aí "com símbolos pendurados ao pescoço". Mas se aparecer uma garrafa, o caso já muda de figura. O Coliseu poderá transformar-se num imenso pub.
            Mas tenham calma que antes deles atuará uma senhora, melhor uma jovem, da Galiza, por quem os mais velhos nutrem já um grande respeito. Chama-se Susana Seivane, toca – para escândalo de alguns puristas mais fanáticos – gaita-de-foles, de forma superlativa (experimentem ouvir o disco de estreia), e a sua música é das mais belas e joviais que se pode escutar hoje no encaixe céltico da Península Ibérica. Atenção, que Susana provém de uma música de conceituados construtores, aprendeu com Ricardo Portela e Bieito Romero, dos Luar na Lubre, e foi convidada por Rodrigo Romani para tocar com os Milladoiro. A bela Susana (porque o é, de facto) andou o ano passado em digressão por Portugal mas este será, sem dúvida, o concerto da consagração.

Punk folk depois da ressaca
No Domingo, a fechar o festival, haverá mais libações, pelos The Men They Coudn't Hang, outra das bandas que fizeram do punk folk uma missão, reaparecidos desde 1986 e, em princípio, recuperados da ressaca. Álbuns como "Night of a Thousand Candles", "How Green is the valley" e "Waiting for Bonaparte" soam agradavelmente folky, com aquela dose extra de energia que a fermentação e destilação da levedura de cevada sempre proporciona.
            Na primeira parte haverá sonoridades mais compostas para saborear. Antes dos homens que ninguém consegue enforcar, atuam na primeira parte os italianos Tendachënt, trazendo encantada numa sanfona a beleza céltica e mediterrânica do Piemonte. O homem da sanfona é Maurizio Martinotti, um dos líderes daquela que foi uma das mais importantes bandas folk europeias dos anos 90, os La Ciapa Rusa. O nome do grupo, Tendachënt, vem, aliás, do título do disco da obra-prima de estreia dos La Ciapa Rusa, "Ten da Chént l'Archet Che la Sunada lé Longa". Não pode haver melhor garantia de qualidade.
            Uma chamada de atenção final para um dos dois grupos portugueses que irão animar as madrugadas no Café-Concerto do Teatro Municipal Rivoli: os Folquest. Já os ouvi. Marco Fonseca, no violino, e Bruno Fonseca, nos "whistles", são dos poucos músicos portugueses que conheço que conseguem apanhar o swing dos reels e jigs irlandeses como deve ser. Atuam nas madrugadas dos dias 5 e 6. A 7 e 8 o palco está reservado para O Bando do Rei Pescador. Passem bem as noites e não sejam do "kontra".

04/10/2016

Balanço - O ano 1990 em World

Pop Rock
2 de Janeiro 1991

1990 foi sobretudo o ano de todos os encontros, cabendo ao Oriente a parte de leão, desde a enésima versão das vozes búlgaras às divagações elétricas centradas na Ásia. Em Portugal, o acontecimento do ano, nesta área musical, passou despercebido: numa perspetiva descentralizadora, realizaram-se no passado Verão, em Oeiras, Famalicão e Évora, os primeiros Encontros Musicais da Tradição Europeia, organizados por uma cooperativa nortenha. Foi possível escutar ao vivo a magia musical de regiões culturalmente tão ricas como a Escócia, a Cantábria, o Piemonte e a Occitânia, trazidas respetivamente por Andrew Cronshaw, Manuel Luna, La Ciapa Rusa e Perlinpinpin Folc. Também no capítulo das edições discográficas, nomeadamente de música celta, os adeptos não se puderam queixar, graças a alguns importadores nacionais que tornaram disponíveis, entre nós, catálogos tão importantes como os da “Topic”, da “Iona” ou da “Green Linnet”.

MARTA SEBESTYEN & MUZSIKÁS
Blues for Transylvania
Hannibal, distri. Nébula

Foi na Transilvânia que Drácula e Ceausescu, pela imaginação ou pela revolta verdadeira da população, se viram arrancados dos tronos do poder. Terra da violentos confrontos, telúricos e políticos, cantada pela voz forte e doce de Marta Sebestyen. Como em “The Prisoner’s Song” e “Muzsikas”, de novo se conta a história e o dorido queixume da alma romena, aqui expressos com tanta intensidade, como se do lamento de um “blues” se tratasse. No seio das “Muzsikas”, a tradição é assumida como ato. No ano passado, a banda tocava em homenagem às vítimas de Timisoara, conciliando o inconciliável – tradição e revolução.

MARI BOINE PERSEN
Gula Gula
Real World, distri. Edisom

Mari nasceu em Gamehisnjárga, promontório algures a norte da Escandinávia, atravessado pelo rio Anarjohka e habitado pela etnia Sámi. Os mapas não registam tal local. Nunca é tarde para se aprender geografia. Mari optou pela “civilização”, passando a sentir na carne o confronto entre diferentes culturas. Na escola ensinavam em norueguês. Resolveu mudar o estado das coisas, recuperando a língua e o espírito antigos. “Gula Gula” significa “Escuta a voz dos antepassados” – assombrações e melodias estranhas, auroras boreais que esculpem, lentamente, novas maneiras de sentir.

Banda Sonora do Filme “The Mahabharata”
Real World, distri. Edisom

O princípio do mundo, segundo a lenda hindu, recriado pela inspiração coletiva de um grupo de intérpretes de várias nacionalidades, baseada nos sons tradicionais, nomeadamente do Tibete e da Índia. Música de “fusão”, bem entendido, que combina diferentes sensibilidades e discursos musicais, unificados por uma comum aspiração à beleza absoluta. “Música do mundo” em todo o seu esplendor a que os poemas de Rabindranath Tagore e a voz de Sarmila Roy acrescentam a dimensão do sublime.

MOUTH MUSIC
Mouth Music
Triple Earth, import. Contraverso


Discos de música celta, saídos este ano, ainda cá não chegaram. Este “Mouth Music” (ou “Puirt a Beul”, em gaélico, designado um estilo vocal destinado à dança) acaba por ser um bom substituto, talvez não muito do agrado dos puristas, mas, de qualquer modo, uma entre outras interpretações possíveis da música tradicional escocesa. Os instrumentos de Martin Swan e a voz cristalina de Talitha MacKenzie fazem-nos acreditar que o mundo é uma história de encantar.

25/08/2016

Demónios da Transilvânia [Muzsikas e Leilia no Intercéltico]

PÚBLICO
cultura DOMINGO 27 MARÇO 1994

Intercéltico, no Porto

Demónios da Transilvânia

Concertos como o dos Muzsikas no segundo dia do Intercéltico do Porto não se descrevem. Quem lá esteve assistiu à viragem de uma página dourada na história do festival. Quem não esteve deverá lamentar-se até ao fim dos seus dias. Na primeira parte, as Leilia mostraram o avanço que nisto da música tradicional a Galiza leva sobre nós.

Pois, o impossível aconteceu. Até cerca das onze horas de sexta-feira o concerto do ano passado dos Chieftains neste mesmo festival parecia constituir uma barreira intransponível, a bitola de qualidade pela qual se poderiam aferir as atuações dos outros, miseráveis mortais. Os Muzsikas deitaram por terra esta teoria.
            Antes dos húngaros vieram da Galiza as Leilia dizer que é possível obrar com o passado de uma terra. Quando o amor celebra núpcias alquímicas com o trabalho. Seis mulheres vestidas a rigor com trajes tradicionais, armadas com pandeiretas e o canto coletivo de quem se entregou à vida naquilo que esta tem de mais autêntico e visceral, ritualizaram no Cinema do Terço a re-ligação, sob a forma de muiñeiras, mazurkas e jotas, a uma matriz ouro, verde e sangue – a “Galicia”, de Maeloc, Rosalia e Álvaro Cunqueiro.
            Cantaram como o crepitar de uma fogueira ou os sussurros de um rio, fazendo acompanhar as vozes pelo batimento sincronizado nas pandeiretas ou em instrumentos do quotidiano – uma sertã, uma lata de pimentos, enxadas percutidas com pedras. Mulheres de corpo nítido, reais como árvores, ou rochas ou aves – mulheres só – que ora coravam de timidez, ora deslizavam pelo palco conversando entre si, trocando de posições e sorrisos, alternando o canto com a vontade de explicar a sua pátria e ao mesmo tempo de encurtar o fosso que separa duas culturas – a protuguesa e a galega – que nasceram irmãs.
            Depois, bem, depois é que foram elas, ou melhor, eles. Quatro demónios com forma humana desceram das montanhas dos Cárpatos trazendo consigo um vento de loucura que varreu por completo a música que ficara para trás. Dániel Hámar, Miháli Sipos, Péter Heri e Sándor Csoóri – os Muzsikas – deixaram de rastos uma assistência literalmente siderada que no final saiu do recinto em estado de choque. Torna-se impossível descrever o que se passou em palco. Os Muzsikas não atuam no sentido vulgar do termo. Eles vivem, deixam-se arrastar enquanto tocam pelas cadências por vezes infernais da música, dos próprios ritmos interiores que brotam da alma dos Cárpatos, da Transilvânia e da Moldávia assombradas por seres e sons do outro mundo.
            Miháli Sipos é um violinista assombroso. Quando a improvisação o levou para as regiões a que só ouvidos com coração conseguem aceder, era ver no seu rosto um sorriso de felicidade, no transe de quem se abandona aos imperativos do movimento puro. Por vezes o violino não resistia uma corda desistia, separando-se do corpo de madeira. Sipos prosseguia, ainda com maior velocidade, fúria, ternura. Num dos temas, “Vonat” (“o comboio”), ele, juntamente com um prodigioso Sándor Csoóri na gaita-de-foles húngara – “ainda há pouco tempo era uma cabra”, dizia um dos músicos, enquanto Sándor mostrava o fole coberto de pelos, afrastando a gaita pelo chão como se esta fosse ainda um animal vivo – e Péter Éri na harmónica, dispararam em aceleração. Os ânimos dos presentes entraram em combustão espontânea com a entrada em cena do casal de bailarinos, Ildiko Tóth e Zoltan Farkas, corpos de alegria, danças de paixão. Ainda mais alucinante – e estou prestes a esgotar os adjetivos – foi a corrida de Sipos com o “gardon” (um falso violoncelo de formas angulosas utilizado como istrumento de percussão) de Daniel Hámar. Quem, na assistência, os conseguiu acompanhar, chegou à meta exausto.
            No meio deste frenesim coletivo, a cantora por quem todos ansiavam, Márta Sebestyen – e é quase escandalosa esta afirmação – pouco faltou para passar despercebida. Cantou apenas por três vezes, numa delas alternando a vocalização com a execução numa “flauta mágica” com apenas um buraco na extremidade, além da embocadura, e noutra tocando “tin whistle” num diálogo com o bouzouki de Péter Eri, de colorações “irlandesas”. Com o público em delírio aplaudindo de pé, os sete artistas regressaram ao palco para um “encore” em que a própria Márta acabou a dançar perante um público nesta altura já com a cabeça a andar à roda.
            Por fim, algumas linhas de descanso: os Muzsikas acabaram de lançar novo álbum, “Szóla A Kakas Már”, à semelhança do anterior “Máramaros”, dedicado à música dos judeus da Transilvânia. De tarde, no cinema Jardim, o jornalista Xoán Manuel Estévez, da publicação galega “A Nosa Terra” proferiu uma conferência sobre a música tradicional e popular da Galiza. De madrugada andaram fantasmas à solta pelo castelo onde se encontra alojada a comitiva do festival.

19/07/2016

Muzsikás and Márta Sebestyen - Morning Star

Sons

3 de Outubro 1997
WORLD

O nome da rosa

Muzsikás and Márta Sebestyen
Morning Star (9)
Rykodisc, distri. MVM

Ao longo das últimas três décadas os Muzsikás têm vindo a reforçar a posição de expoentes da world music que alcançaram na sequência de uma discografia exemplar e “performances” ao vivo verdadeiramente empolgantes (que o digam todos quantos assistiram às duas atuações do grupo em Portugal, nos festivais Cantigas do Maio, no Seixal, e Intercéltico, do Porto). A este sucesso a nível internacional não é alheia a presença assídua da cantora Márta Sebestyen, que, recentemente, deu o salto para o “estrelato” graças à sua contribuição para a banda sonora de “O Paciente Inglês”, devorador da última edição dos Óscares de Hollywood, e no megaêxito “Boheme” dos Deep Forest.
Mas Márta Sebestyen não é a cantora dos Muzsikás da mesma maneira que Éva Molnár é a cantora dos também húngaros Kolinda, por exemplo. São antes entidades distintas que se completam na perfeição. Márta encetou mesmo uma carreira a solo, tendo gravado os álbuns “Apocrypha” e “Kismet”, nos quais abordava, respetivamente, as programações eletrónicas utilizadas de forma exaustiva e uma world music que extravasava as fronteiras do seu país natal. Atreveu-se mesmo a participar num projeto radical de música contemporânea como “Kaddish”, do coletivo Towering Inferno.
Os Muzsikás, pelo contrário, mantiveram-se sempre fiéis ao longo dos anos ao reportório da Transilvânia ou dos Cárpatos, revelando, álbum após álbum, toda a sua mestria na execução das csardas e outras danças tradicionais magiares, embora avaliadas à luz de uma postura necessariamente modernizadora.
“Morning Star” surge na sequência de álbuns como “The Prisoner’s Song”, “Márta Sebestyen and Muzsikás”, “Blues from Transylvania” e “Máramaros”, funcionando de novo a magia da aliança das baladas sinuosas cantadas por Márta Sebestyen (entre as quais uma nova e galante versão, acústica, de um tema de “Kismet”, “I wish I were a rose”) com o virtuosismo e o ecletismo instrumentais do grupo. Os longos instrumentais “Füzesi lakodalmas”, “Ej, de széles”, “Baj, baj, baj” e “Gyimesi”, incursões profundas nas vísceras e na alma húngaras, são panoramas onde a síncope sanguínea dos ritmos convida tanto à dança como à introspeção.


Não assinado

24/11/2010

Muzsikas - The Bartók Album

Sons

26 de Fevereiro 1999
DISCOS – WORLD

A maçã de Bartók
Muzsikas
The Bartók Album (7)
Hannibal, distri. MVM


É universalmente reconhecida a relação entre a obra do compositor húngaro Bela Bartók, um dos mais importantes deste século, e a música tradicional do seu país. Bartók usou, inclusive, elementos desta música em inúmeras das suas composições, estabelecendo uma sólida ponte entre o étnico e o erudito. O que poucos saberão é a origem deste interesse. Consta que Bartók se terá começado a interessar pela música tradicional quando ouviu a filha de uma vizinha, uma rapariguinha da Transilvânia sem qualquer educação musical, cantar “A maçã vermelha caiu na lama”. O compositor ficou de tal maneira impressionado que resolveu compor a sua própria versão desta canção, encetando uma prática que, ao contrário do fruto, não caiu de podre. “The Bartók Album” é a homenagem dos Muzsikas a Bela Bartók e uma “exploração da relação estreita entre o compositor e a música folclórica do seu país natal, vista através dos olhos do grupo”.
De acordo com este projecto de intenções, todas as melodias do álbum foram originalmente recolhidas por Bartók, alternando as versões dos Muzsikas com excertos de gravações etnográficas da época. O álbum inclui ainda três duetos de violino compostos por Bartók, interpretados por um dos violinistas do grupo, Mihály Sipos, e Alexandre Balanescu, líder do aclamado Balanescu Quartet. Este último não esconde, aliás, o prazer que lhe proporcionou a experiência, assumindo, também ele, a importância das raízes tradicionais nas suas próprias concepções musicais. Quanto aos Muzsikas, procuraram responder à interrogação: “O que é que existe na música tradicional que atraiu Bartók como um íman?”, interrogação que, reconhecem, se aplica ao próprio grupo. A esta questão não corresponde um dos álbuns mais exaltantes dos Muzsikas. Em parte devido a um certo academismo, em parte pelo protagonismo, quase exclusivo, concedido aos violinos. A voz de Márta Sebestyen, eterna parceira dos Muzsikas, surge assim como um apêndice num álbum cuja virtude principal será a de, por outros meios, conseguir, como Bartók, estabelecer pontes entre os dois universos musicais, neste caso, complementares.

03/11/2008

Muzsikas - The Lost Jewish Music Of Transylvania

Pop Rock

23 JUNHO 1993
WORLD

SALOMÃO NOS BALCÃS

MUZSIKAS
The Lost Jewish Music of Transylvania
CD Hannibal, import. Contraverso

De novo, rumo aos Balcãs na companhia dos Muzsikas, banda que começou por ser conhecida em Portugal por contar nas suas fileiras com uma senhora chamada Marta Sebestyen. “The Prisoner’s Song”, “Muzsikas” e “Blues from Transylvania”, todos disponíveis no mercado nacional, formam um monumento ímpar à música tradicional da Hungria. Mais recentemente, Marta Sebestyen afastou-se do grupo para gravar “Apocrypha”, um projecto que revisitava antigas canções vestidas com arranjos e sons de computador. Neste novo disco, a vocalista aparece apenas como convidada numa formação que, mais do que nunca, investiu no aprofundamento da tradição voltando as costas à experimentação formal.
Neste caso tratou-se da recuperação e reconstituição do reportório dos músicos judeus húngaros Klezmorin, que se julgava perdido devido à ausência de quaisquer gravações ou notações, num trabalho que deve muito à colaboração com Zoltán Simon, teórico oriundo de uma família judia e discípulo de Zoltán Kodaly, que recolheu “in loco” e fez as transcrições de melodias já quase desconhecidas. O projecto partiu das evidentes semelhanças existentes entre o folclore búlgaro e as peças instrumentais judias conhecidas por “csárdás”. De igual modo, tanto os agrupamentos convencionais como os constituídos por judeus tinham por costume tocar nas festas de casamento nas várias regiões do país.
Encontrado, com uma margem mínima de erro, o elo que faltava entre duas tradições próximas no espírito e na letra, Muzsikas procederam a um reajustamento instrumental, reduzindo o leque de instrumentos, que em anteriores álbuns incluía a gaita-de-foles e o oboé, à típica configuração violino/viola de arco/contrabaixo/saltério, à qual acrescentaram a guitarra, o bouzouki, mais uma “zongura” e um “cembalon” tocados por convidados ciganos que durante anos actuaram ao lado de músicos judeus.
Concluída a leitura do folheto, que fornece informação detalhada sobre a origem e significado de cada faixa, bem como da música judia klezmer em geral, entra-se nestas canções “perdidas” como no templo de Salomão. O som parecerá familiar a quem já viajou nas asas da música até ao limite oriental da Europa. A diferença, subtil, que separa “The Lost Jewish Music” dos anteriores álbuns da banda torna-se perceptível a um nível intuitivo. O ritmo é menos sacudido que nas usuais folias ciganas, incluindo por exemplo uma espécie de “ragtime” klezmer tocado em “cembalon”. Nota-se, por outro lado, e nisto reside um dos prazeres maiores da audição, um calor, uma radiação de sentimentos interiorizados de forma peculiar que permitiram a Marta Sebestyen rubricar neste álbum algumas das suas melhores vocalizações de sempre: “Szól a kakas már”, uma história sobre um rabi que “roubou” a um jovem pastor a beleza e visão interiores, a troco de duas moedas, e “Keserves”, canção de lamento devocional de mulheres.
Um grande disco e uma louvável tentativa para retirar do anonimato uma tradição musical que começa a emergir do “ghetto” a que tem sido remetida. (9)