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04/09/2016

Anamar, Né Ladeiras, Pilar - Ao Vivo

Sons
11 Outubro 2002

ANAMAR, NÉ LADEIRAS, PILAR
Ao Vivo
Ed. e distri. Zona Música
7|10

Gravado ao vivo a 24 e 27 de Novembro de 2000 no Teatro Maria Matos, em Lisboa, “Ao Vivo” é um daqueles acontecimentos irrepetíveis que procurou capitalizar a música de três vozes e personalidades ímpares da música popular portuguesa, juntas em busca da magia do momento. Anamar, Né e Pilar são, cada uma à sua maneira, “marginalizadas do sistema”. As suas vozes, os seus interesses e a sua postura dentro da indústria, tendem naturalmente se não a afastá-las, pelo menos a provocar reservas e eventuais desentendimentos. Sob a égide de Tiago Torres da Silva, arquiteto do projeto e autor da totalidade das letras, “Ao Vivo” tem o ar de coisa suspensa daquele fio frágil em que a delicadeza é tanta que corre o risco de, ao contacto com a menor rugosidade, se romper. São três vozes diferentes, mas almas gémeas, que aqui se dão e dão as mãos. Anamar é o fado do indizível, a força indomesticada, a cigana das vielas interiores; Pilar, as suaves fragrâncias do jazz, mas também a inquietação; Né a irrupção das tradições étnicas, venham elas do solo lusíada ou do Brasil. Apesar de irmãs, o que cada uma delas teve para dizer nessas duas noites, disse-o melhor sozinha. Disse-o mais alto e mais fundo, Né Ladeiras, na “Canção da Sibila”, do séc. XVI.

16/12/2015

Né Ladeiras - Da Minha Voz



Y 1|FEVEREIRO|2002
roteiro|discos

NÉ LADEIRAS
Da Minha Voz
Ed. e distri. Zona Música
7|10

São várias mulheres numa só e vários os rostos da capa num álbum que recupera para o compacto a parceria com o músico brasileiro Chico César, apresentado anteriormente na Expo’98. Né Ladeiras é os quatro elementos, segundo conceito gráfico semelhante ao de Kate Bush. Mas “Da Minha Voz”, périplo pela música de expressão lusófona é também uma viagem pelas palavras de Tiago Torres da Silva e a miscigenação das músicas portuguesa, brasileira e africana. Do fado e da morna. Da pomba e da fera. A produção é excelente, Né está a cantar como nunca, embora os registos sejam agora mais graves, apenas faltará a “Da Minha Voz” a parcela de mistério que deslumbrava em “Sonho Azul” ou no magistral “Traz-os-Montes”. Chico César dá cor adicional a “Por um Cristo Nagô” mas as canções mais discretas, como “Visionária”, “A mulher de granito verde” e a canção de ninar “De ninar” (com a sanfona de Carlos Guerreiro a dar o tom) são as mais valias de um álbum que fecha sem rede, na vocalização “a capella” de “Vou num rio”. Várias mulheres numa mulher ou vários discos num disco? Aguarda-se um novo álbum que aposte a cem por cento na Né introspetiva.

30/04/2015

Né lunar tomou banho de sol [Né Ladeiras]



Y 7|DEZEMBRO|2001
música|né ladeiras

Da Minha Voz, um trabalho sobre mulheres, conta com as participações de Chico César, Ney Matogrosso, Jorge Palma, Carlos Guerreiro e Pedro Jóia. 13 temas de viagem, de Ocidente para Oriente, do mar à nascente. Né, lunar, tomou banho no sol.

lunar tomou banho no sol

“Da Minha Voz” apresenta um bouquet de sonoridades, personagens e geografias vastas. Neste seu novo álbum, em que além de cantar assegura a produção e a composição da maioria dos temas, com ou sem a parceria de Chico César, Né Ladeiras, à semelhança do que já fizera em alguns dos seus discos anteriores, segurou num conceito, numa ideia aglutinadora, para dar voz a um caminho musical que tanto parece querer recolher-se numa canção de embalar como disparar, apaixonada, em direção aos países mais longínquos da imaginação.
            Né vive numa pacata aldeia da Beira Baixa. Foi lá, na Quinta doo Sol, que gravou, durante o Verão, o novo álbum, na companhia da Comunidade da Felicidade, sob uma bandeira laranja como o sol. “Da Minha Voz” junta mitos, danças, folclores e as vozes submarinas das baleias. As quatro imagens da capa, outras tantas frequências anímicas, mostram Né como uma hidra de quatro cabeças. Né com a cabeça em chamas. Né com a cabeça alada. Né com a cabeça em rama. Né com a com cabeça em água. Né Ladeiras, de novo, misteriosamente imprevisível.
            Quatro Nés ou uma espelhada em diversos rostos?
            São várias mulheres, vários estados de alma. Cada um representa uma força, uma energia.
Como é que as “Afinidades” com Chico César deram origem a este álbum?
            Na altura falei-lhe na ideia de um disco sobre as mulheres, que nunca são faladas na história nem nos livros. Mas que existiram. Anónimas a quem eu quis dar voz. Ele gostou da ideia e como a sua forma de compor toca muito o lado feminino…
Além da presença do Feminismo, “Da Minha Voz” propõe várias fusões. Logo a abrir, “Memórias antigas”, o fado e o Brasil dão as mãos…
            Portugal, Brasil e um bom pedaço de África. É um tema que, sem ser fado, faz lembrar o fado (embora eu não perceba nada de fado…), sobre a mulher atual, a partir do qual parti para uma retrospetiva ao longo das restantes doze faixas, incluindo “Vou num rio”, que é o meu retrato…
            Deduz-se que “Da Minha Voz” segue uma lógica particular?
            Não é bem uma lógica, pelo menos em termos cronológicos. Há é uma intenção de situar estas mulheres, que estavam espalhadas antes de irem parar lá, àquela terra, que é o Brasil. Culminando com uma Europa já gasta, decadente, triste e abandonada.
            “Deusa mulata” é o primeiro tema com “cheiro” a Chico César…
Ele aparece nas gargalhadas que se ouvem! A mulata é a sexta raça a aparecer, fecundada por uma série de raças que foram originariamente para o Brasil. O tema fala da libertação através da rebeldia, de uma deusa que ascende sobre todas as outras mulheres que ficaram para trás, brancas, negras, índias…
“Sinhô” conta com a participação de Tito Paris.
É uma morna entre Paraíba e Cabo Verde. Fala da índia que pela primeira vez vê um ocidental, barbudo e calçado. Da simplicidade dos índios, em conviver, desfrutarem do amor e comungarem com a Natureza.
Apesar da utilização maciça da eletrónica, o canto das baleias de bossa confere um cunho especial a “Volta marinheiro”.
É o drama da mulher que fica e se revolta contra o homem que parte. Mas ele vai para a aventura. A gaita-de-foles simboliza o marinheiro. O marinheiro é o gaiteiro, que vai como numa procissão, em direção ao desconhecido, cheio de fé. E com alegria por ir, por deixar tudo isto. Quanto à eletrónica, ela traz uma série de mais valias, na forma como tentei ligar antiguidade e modernidade. Os sons das baleias tirei-os de um disco da minha coleção de CDs com sons de animais. Representa o som do encantamento de quem já está a maio da viagem
Chico César tem a sua primeira intervenção vocal em “Por um Cristo Nagô”. O que significa “Nagô”?
“Cristo nagô” faz um relato, sob o ponto de vista feminino, do sincretismo entre Nossa Senhora das Dores e a Rainha do Mar e o Cristo que, no fundo, acaba por ser um escravo. “Nagô” é um termo da Nigéria e do Congo onde todos esses homens foram, de certa maneira, cristos. Bem como as mulheres, flageladas por terem uma Fé.
De repente, acorda-se com o toque de um telefone e o ecrã de um computador anuncia a chegada de um e-mail, em “Visionária”.
É um tema do Chico César, muito engraçado. Com certeza que alguma mulher deve ter pensado nessa altura que se houvesse meios de comunicação que não fossem tão demorados, muitas coisas não se teriam perdido. Sentimentos, famílias, até coisas mais práticas. Se calhar até teria sido possível explicar o desaparecimento de D. Sebastião… Vivo numa aldeia, tenho Internet e é como se estivesse no centro do mundo. Mas não sou uma utilizadora compulsiva. Investigo, respondo a e-mails, faço telefonemas…
Que aldeia é essa?
Paúl. Na Beira Baixa, entre a Covilhã e o Fundão. Estou a viver lá há quatro meses. Uma questão de destino. Pensava que ia dedicar-me à apanha da azeitona, visto ter andado um ano aqui em Lisboa a tentar mostrar este e outros projetos que foram menosprezados. Achei que não valia a pena continuar. Entao recolhi-me com os meus filhos na Beira Baixa, partindo do princípio de que iria desenvolver um trabalho com as várias coletividades, não só de recolha – tenciono editar um disco sobre a Beira Baixa, à semelhança do que fiz em relação a Trás-os-Montes – mas também de troca: faço workshops de canto com as pessoas e elas mostram-me o que tão sabiamente sabem cantar.
“Flecha” inclui elementos da música do Médio Oriente.
É uma cena tradicional hebraica que já tinha cantado em público. Retrata, de forma épica, a amazona, a guerreira, todas as mulheres que não se resignaram.
“A mulher do granito verde” é um dos temas mais enigmáticos.
O Chico compôs esse tema já com a letra do Tiago Torres da Silva feita. Situa-se em Cabo Verde, um retrato da mulher cabo-verdiana no seu esplendor mas também na sua nudez, que não é de miséria, porque ela tem a sua dignidade. A nudez do esquecimento. Esse abismo.
É verdade que tem sempre que incluir nos seus discos uma canção de embalar? Em “Da Minha Voz” canta “De ninar”.
Foi um dos primeiros temas que o Chico fez. Imaginei uma avó de Trás-os-Montes, nos seus últimos dias de vida, lembrando-se do filho e do neto que acalentou ao colo, tentando voltar atrás mas assumindo o que é dito no último verso, “Cumpre o destino quem descobre o mar”. Há um destino marcado quando as pessoas nascem e esta é uma avó fatalista. Gosto muito de canções de embalar, é o meu lado de mãe, do qual não me consigo desligar.
A surpresa volta a acontecer em “Debaixo dos pés!”, um tema de dub.
Gosto muito de reggae. O tema conta a história de uma mulher queimada na fogueira pela Inquisição. É também uma canção de amor, de paixão mas, claro, de grande sofrimento. Quase demoníaca.
“Sereia” condensa tópicos sobre o Feminino. No entanto escolheu para a cantar um homem, Ney Matogrosso. Porquê?
Bem, ele tem uma voz ambígua… Faltava uma entidade que unisse todas estas mulheres, a sereia, cujo domínio é o mar. Neste caso a gravação teve lugar no Rio de Janeiro.
A Europa está doente?
Sim, mas depois da morte há sempre um renascimento. A Europa ainda não está moribunda, mas está a conhecer as marcas e as cicatrizes de tudo a que foi sujeita. Foi usada, mal amada, abandonada. Tem o corpo em ruínas. Oxalá que renasça. A Europa e o resto do mundo.
Se “Da Minha Voz” começa no Brasil, o término, “Vou num rio”, é a Arménia, num tema tradicional desta região. Do mar para a nascente do rio. De Ocidente para Oriente. A reconquista das origens?
Adoro a música da Arménia. O Tiago estendeu-me a letra num pedacinho de papel e julguei que ele a tinha escrito para mim. “Isso aí sou eu”. Fiquei atordoada. Disse-lhe que tinha que cantar esta letra, sem saber que ele a escrevera para a Anamar. Mas vi-me lá retratada e insisti em ser eu a cantar, embora de maneira diferente, meio fadista, como a Anamar o canta. Identifico-me com as mulheres da Arménia [interrogada sobre as razões desta identificação, sorriu, refugiando-se num “isso levar-nos-ia para conversas metafísiscas…”]. Se alguma vez quiser fazer uma declaração ou um testamento, será com estas palavras e através desta música.
“Da Minha Voz” foi gravado no Verão, numa quinta na Beira Baixa. Foi mesmo uma época feliz, como indica a escolha de um nome como Comunidade da Felicidade para designar o grupo de pessoas que participaram?
A Quinta do Sol. O estúdio pertence a Benjamim Luciano, professor e louco por música. Fizemos uma bandeira cor de laranja que hasteávamos todas as manhãs e levávamos para dentro do estúdio porque achávamos que tinha uma excelente energia. Dávamos umas braçadas na piscina, una passeios pelo campo, ouvíamos o rio e os pássaros. Só depois é que íamos gravar…

28/08/2014

As asas do deserto [SM58 - Anamar, Né Ladeiras, Pilar]



Y 24|Novembro|2000
música|sm58

as asas do deserto

Né Ladeiras, Anamar e Pilar. A primeira a loba, a segunda Atena e a outra a princesa. Personagens imaginárias que elas irão mostrar, hoje e 2ª feira, às 21h30, num voo a sobrevoar o Teatro Maria Matos, em Lisboa. O espetáculo chama-se “SM58” - um velho microfone amplificador de emoções.

“SM58” é um modelo de microfone antigo, daqueles maciços em metal luzidio, design futurista, a fazer lembrar um satélite artificial, que mais do que apanharem as “nuances” da voz captavam as subtilezas do sentimento. Né Ladeiras, Anamar e Pilar de Homem de Melo possuem subtilezas e mistério de sobra e o gosto pelo voo, seja encavalitadas num velho Sputnik ou nas asas de uma viagem astral. Foi nisso que Tiago Torres da Silva deve ter pensado ao decidir organizar um espetáculo também chamado “SM58” que pela primeira vez reunirá no mesmo palco estas três cantoras.
            O espetáculo, a realizar hoje e na segunda-feira no Teatro Maria Matos, em Lisboa, apresentará uma série de temas originais compostos pelas três e do lote de canções cantadas em diversas línguas, incluindo árabe, israelita, dialetos africanos e timorense, consta uma surpresa que elas nos pediram para não divulgar – pelo que não seremos nós a revelar que Né, Pilar e Anamar irão cantar logo à noite um tema dos Dead Can Dance.
            “SM58” terá ainda a particularidade de ser bastante mais do que um espetáculo convencional, estilo Os Três Tenores em versão feminina, socorrendo-se para tal de uma encenação que “obrigará” as três cantoras a afivelarem a máscara de diversas personagens. Vão cantar uma de cada vez, em duo e em trio mas seja qual for a combinação, as três estarão sempre presentes no palco. As luzes, os figurinos, as vozes e personalidades únicas e um acompanhamento instrumental discreto de percussões e guitarras, farão o resto.
            O PÚBLICO convidou-as para uma conversa mais ou menos alucinada e para uma sessão de fotografia sobre a qual muito haveria para contar e mostrar não fora o facto de apenas serem precisas quatro imagens e de queremos poupar aos nossos leitores a visão despudorada do escândalo. Sem malícia.
            Né, Anamar e Pilar são personalidades controversas e nem sempre a indústria soube aproveitar essa diferença que a música de qualquer delas acentua. Os discos que para já nos deixaram são elucidativos. Pilar, a mais recatada, gravou há uns bons anos um “Pecado Original”, na boa tradição das cantautoras de guitarra a tiracolo. Anamar, embrenhada no esoterismo e no labirinto interior de si própria (do qual encontrou a saída há pouco tempo, segundo nos confessou), está agora mais forte do que quando gravou o incompreendido “M” (com produção e letras de Tiago Torres da Silva), álbum de seres e paisagens longínquos iluminados pela lua. Né tem sido a mais mediática e viajada das três e se a fase correspondente ao excelente e premiado “Traz os Montes” não se consolidou na posterior apropriação de temas de Fausto em “Todo este Céu”, o tempo agora é de expetativa, até se ficar a conhecer o que resultou do seu trabalho com os Transglobal Underground, já que das horas passadas em estúdio com Hector Zazou (e John Cale, Ryuichi Sakamoto, Brendan Perry…) não guarda boas recordações, com a hipótese mais provável desse material não chegar a ver alguma vez a luz do dia. Mas tem na manga um disco que gravou no Brasil com Chico César e outro sobre a escritora Isabelle Eberhardt.
            Né chegou ao PÚBLICO zangada (com tudo mas principalmente com o trânsito em Lisboa ao fim da tarde) mas acabou a dançar como a boa loba alada que acha que é. Também pedimos a Anamar e a Pilar que vestissem a pele que melhor lhes serve. Pilar é a princesa. Anamar escolheu Atena, deusa grega filha de Zeus. As três afirmam-se adeptas do voo. E voam. Ou, como sintetiza Tiago Torres da Silva: “Não é por acaso que o primeiro tema que vão cantar se chama ‘Mergulho’. É como se entrassem no mar, furassem a terra e explodissem em fogo, sendo que o ar é a matéria comunicante entre elas e entre elas e o público”. Só falta ligar o microfone SM58.


À MARGEM
Cultivam a originalidade e a diferença. São três personalidades incompreendidas, mas aproveitadas, porque, dizem, “o sistema é estúpido”


NÉ LADEIRAS
a loba

Entrou a matar, a escorrer o “stress” que trazia agarrado à pele. Para Né Ladeiras, “SM58” é uma questão de “energia”: “Somos três cabeças meio loucas e abertas, embora o coração seja fundamental”. Quando se juntam, “criam, criam, criam…”. Com as pilhas Duracell do espírito. “É uma adição, não uma subtração, nenhuma faz sombra às outras”, garante: “Somos três palmeiras bonitas num oásis”.
            Sobre a sua colaboração com o compositor e produtor francês Hector Zazou, com quem preparava uma antologia de cantares religiosos e pagãos “do triângulo mágico de Trás-os-Montes, Beira-Alta e Beira-Baixa”, é cáustica: “Foi dispensado, com a concordância da editora. Quis dar de mim a imagem de bruxa. E eu não sou bruxa, quando muito feiticeira. Começámos a explodir um com o outro. Eu sou firme nas minhas ideias e ele é um ‘génio’, ok, só que começou a entrar na andropausa musical. [com pronúncia brasileira] Eu queria tesão e ele não tinha não!” (risos).
            A etapa seguinte levou-a a Montreux para se encontrar com os Transglobal Underground. “Gostaram da maqueta com vozes e adufes e fizeram os arranjos”. Mas em definitivo, nada. O mesmo com os “três meses fabulosos” no Brasil a gravar com Chico César um disco sobre as mulheres no Renascimento.
            “Hoje, apesar de ser muito espiritual, há dias em que o meu lado de loba vem ao de cima. E hoje não me apetece uivar mas rosnar. É claro que existem por cá músicos que complicam… É claro que há produtores sem sensibilidade… É claro que há agências que são uma grande máfia…”
            Como Anamar, acha que “o sistema é estúpido” ao não saber explorar a imagem das três. “Imaginem a Björk, uma excêntrica, neste país… já andava a varrer ruas”.
            Além das obras iniciadas prepara um disco sobre Isabelle Eberhardt, a escritora de “Escritos no Deserto” que morreu aos 27 anos e “atravessou o deserto para encontrar o mar. Um outro tipo de mar…”.


PILAR
a princesa

Pilar define “SM58” como uma “extravagância” que, para já, está a criar “relações fortes” entre ela e as outras duas participantes. Com dois álbuns na bagagem, uma estreia com a chancela na produção de Wayne Shorter, seguida de “Pecado Original”, editado em 1993, Pilar Homem de Melo, por isto ou por aquilo, afastou-se a partir daí do mundo do espetáculo. Através de “SM58” descobriu, “pasmada”, a “naturalidade com que as coisas estão a correr”. Assinou um contrato discográfico com a editora NorteSul da qual sairá em breve um novo trabalho. Um disco “totalmente diferente” dos anteriores: “Já estou grandinha e não sofro tanto com as interferências de fora que impedem a criação”.
            “Antes sentia revolta”, continua, “mas acho que esta revolta tinha a ver com o meu estado de espírito, de superioridade, por isso é que as coisas não aconteciam. Eu era uma estrela e não tinha dinheiro para pagara a renda, alguma coisa estava errada. Mas não é possível trabalhar numa fábrica e depois chegar a casa e cantar. Hoje é diferente, não sei que transformação aconteceu dentro de mim, mas a verdade é que aconteceu. De repente consegui”. Pilar conseguiu. Tem pronto um novo disco prestes a sair. Em relação ao “SM58” está eufórica: “nós as três somos diferentes mas temos talento!”.


ANAMAR
atena

Anamar é uma criatura da noite que gosta de luz. Garante que esta colaboração, com o número de série “SM58”, que considera uma espécie de “o mundo em música”, permite “o crescimento musical” das três. Fala de “coisas belas”, de “ideias” e de “motivação humana” para ilustrar algo que se difunde na cor branca, no mesmo branco lunar que banha as canções do seu último álbum, já distante no tempo, “M”, dito de muitas maneiras, como “mar”, “mim”, “mental”, mudança” e “morte”. Para Anamar esse foi um disco “feito com os pés para cima e a cabeça para baixo, um álbum desenraizado”. Seria então em vez de “M” um “W”…
            Confessa-se: “Já fui suficientemente ‘pateta’ para pensar que o ideal faz a vida, que uma coisa é saber e outra ser”. O que a une a Né e a Pilar é a transparência. “No fundo estamos aqui porque somos transparentes e queremos contribuir para um maior prazer em viver, para uma abertura de visão”.
            Consumada a edição de “M”, Anamar passou a encarar as coisas de forma diferente: “Depois de umas pancadas nas costas e de uns chutos no rabo, inverti a posição. Pus os pés na terra novamente”. Simples. “Na primeira fase da minha carreira desiludi-me com o exterior. Na segunda desiludi-me com o interior”. De desilusão em desilusão, acabou por ser despedida “sem justa causa” da editora para onde gravava, a BMG, e com quem está atualmente em litígio.
            Durante os últimos anos a música funcionou como qualquer coisa que a “assombrava”. Com “SM58” reencontrou o prazer de estar em palco, afastou angústias e encara o futuro com outro otimismo. Embora ainda olhe para a frente e diga: “Não sei de nada e nem quero saber já!”.
            Como as suas duas companheiras, aceita o facto de ser diferente e só lamenta que a indústria não saiba tirar partido disso. Porque “o sistema é estúpido!”, diz.

15/01/2009

Né Ladeiras - Todo Este Céu

POP ROCK

2 Abril 1997

NÉ LADEIRAS
Todo este Céu (7)
Ed. e distri. Sony Music

Na capa, um lobo uiva à lua, contra um céu Walt Disney. O tema final, “Invocação da alcateia”, é constituído, na íntegra, pelo uivo da loba Morena, adoptada por Né Ladeiras, destacando-se da invocação colectiva da alcateia, sob a “direcção” do “invocador dos uivos”, Francisco Fonseca, do Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. À excepção deste e de “Ponto de Oxum Nagô”, um tradicional do Congo onde a cantora exprime a sua devoção pela religião do candomblé e pela sua “Mãe Mariana”, numa invocação aos seus orixás, todos os restantes temas são da autoria de Fausto Bordalo Dias. “Todo este Céu” faz a sobreposição do universo pessoalíssimo de Fausto com o misticismo de Né Ladeiras. O encontro entre ambos nem sempre expressa da melhor maneira os hipotéticos pontos em comum que para Né são uma certeza. O tom é predominantemente arrastado, hipnótico, como uma mantra que pretendesse penetrar no segredo de uma relação sagrada, nos três primeiros temas, “Lembra-me um sonho lindo”, “Diluídos numa luz” e “Porque não me vês”, enriquecidos pela ponteira de Amadeu Magalhães e a guitarra acústica de Miguel Veras, ambos dos Realejo. Em “Ao longo de um claro rio de água doce” e “Eu tenho um fraquinho por ti” é a voz da discípula que fala, encantada com os ritmos do mestre. O misticismo desaparece em “Uma cantiga de desemprego”, cujas conotações políticas com uma época particular apagam eventuais ligações ao corpo interior. “Flagelados do vento Leste” retoma as sonoridades africanas, enquanto “Oh pastor que choras” põe em dia o contacto entre o lobo e a loba, ainda que a familiaridade da melodia apenas conceda o prazer da novidade no deslizar triste do “tin whistle” de Amadeu Magalhães. Passando por uma “Rosalinda” demasiado deleitada no original, chegamos à magia do princípio e à cadência de um sonho. Primeiro com uma vocalização, algo desequilibrada, de Jorge Palma, em “Atrás dos tempos”, a seguir, num desenho a tira-linhas sobre o céu, em “De Ocidente a Oriente”. “Todo este Céu” adormece. Teríamos preferido mais garra, neste encontro onde se adivinha que o respeito terá impedido a liberdade de voo. Os lobos que “cantam” em “Invocação da alcateia” não tiveram esse problema.

31/12/2008

Invocação dos mestres [Né Ladeiras]

Pop Rock

2 Abril 1997

Né Ladeiras canta Fausto com dedicatória ao lobo


INVOCAÇÃO DOS MESTRES

Fausto. Né Ladeiras. Dois representantes de uma espécie em vias de extinção, a dos criadores solitários que invocam os génios à luz da lua. Em “Todo Este Céu”, a cantora de “Traz-os-Montes” escolheu preencher a totalidade da voz com as canções do navegante de “Por Este Rio Acima”, a quem chama “mestre”. Sob a égide do lobo, “um animal com códigos muito especiais” – “ponte entre a terra e o céu”.


Né Ladeiras cresceu e aprendeu a ouvir a música de Fausto. Os anos passaram. Os astros actuaram. Ultrapassada a cordilheira da música tradicional de Trás-os-Montes, a cantora pôs, finalmente, em prática, um projecto há muito acalentado: um álbum de canções de Fausto. Dívida – ou dádiva – interior, da discípula ao mestre. Segue-se a crónica de uma relação ardente. Entre lobos.
PÚBLICO – O lobo é o tema central de “Todo Este Céu”. Por que razão o escolheu?
Né Ladeiras – O lobo é a ponte entre a terra e o céu, entre o microcosmos e o macrocosmos, pela forma como invoca, através do uvio…
P. – Além dessa conotação mística, há também uma componente ecológica?
R. – Sim. Quis igualmente chamar a atenção para a existência do grupo “Lobo” e para o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. Quem pertencer ao primeiro pode, se quiser, adoptar lobos. Não se trata de levar lobos para casa, claro, mas de dar uma contribuição para a manutenção deles naquele centro que é o único em Portugal e luta para que a espécie não se extinga de vez. Presentemente, pensa-se que existam apenas cerca de 200 lobos no nosso território.
P. – À primeira vista, não se percebe muito bem qual a ligação entre o lobo e a obra de Fausto…
R. – O lobo é um animal com códigos muito especiais, códigos de honra, uma forma de vida em alcateia, faz as coisas sozinho. Penso que o trabalho do Fausto tem sido um trabalho bem solitário.
P. – Quando é que decidiu fazer este álbum?
R. – Há muito tempo que andava na minha cabeça. Mas achava que não tinha crescido o suficiente para interiorizar as músicas do Fausto. Ouvi-o pela primeira vez em 1969, na rádio, num tema chamado “Oh pastor porque choras”. A letra falava de um pastor com cerejas nas orelhas, uma linguagem que, para uma criança, representava a abertura de todo um imaginário. E a música acompanhava esse imaginário. Comprei logo o “single”, pedi à minha mãe dinheiro. Mais tarde conheci Fausto, pessoalmente, na altura do filme “As Guerras do Mirandum”, do Fernando Matos Silva, e em que eu fazia parte dos Trovante. Gravámos dois temas juntos, “Os mandamentos do vinho” e “Eu casei com a bonita”. A partir daí fui acompanhando sempre os concertos dele.
P. – Em “Todo Este Céu” pediu conselhos ao compositor? Ele fez-lhe sugestões?
R. – Opiniões e conselhos. Nós, os discípulos, pedimos sempre conselhos aos mestres. Durante dois anos encontrámo-nos muitas vezes, sempre que eu vinha a Lisboa, para falar única e exclusivamente deste trabalho. A primeira vez aconteceu no estúdio, quando ele gravou comigo “A linda pastorica”. Nessa altura disse-lhe que estava cheia de vontade de fazer este trabalho. Ele olhou para mim, sem dizer nada. Passados uns tempos, voltei ao assunto e ele, aí, percebeu que eu estava a falar a sério. A obra do Fausto é imensa e eu achava que podia fazer um CD duplo. Tinha trinta e tal temas. Não queria deixar nada de fora. O Fausto fez-me ver que tinha que ser mais realista e que este meu entusiasmo pela obra dele teria que ser bem planeado. Acabei por fazer uma selecção, explicando-lhe as razões da escolha de cada tema. Descobri e revelei-lhe que a incidência recaiu nos temas em que ele era mais místico.
P. – Como definiria esse lado místico de Fausto?
R. – Está presente em temas como “Diluídos numa luz” ou “O despertar dos alquimistas”, que por acaso não aparece neste álbum, mas que passará a fazer parte do espectáculo. É uma espiritualidade que entendo à minha maneira. Não sei como é que ele compõe, que fontes de inspiração é que tem… Agora, aquilo que ele transmite aos outros, aquilo que ele me deu a mim, durante este anos todos, foi um encontro com o transcendente, com o que está “para além das cordilheiras”, o que está “Por Este Rio Acima”. Apercebi-me de que não falava só da matéria. Comparando com outros grandes compositores, como o Zeca Afonso, o José Mário Branco ou o Sérgio Godinho, o Fausto foi o único a falar de coisas das quais mais ninguém falava. Coisas menos óbvias.
P. – É difícil dissociar, em Fausto, a composição da interpretação. Procurou imprimir um cunho pessoal às canções ou, pelo contrário, seguir certas regras codificadas pelo compositor?
R. – O que me preocupou mesmo foi interiorizar cada palavra. Claro que é a minha forma de cantar, mas talvez se note mais neste trabalho a minha proximidade de Fausto, sempre são 20 anos a ouvi-lo, é óbvio que se apanha sempre coisas das pessoas de quem gostamos muito. Às vezes até se diz que as pessoas que se amam ficam parecidas. É natural que tenha alguns requebros e acentuações semelhantes aos dele.
P. – De toda a discografia de Fausto, há algum disco com particular significado para si?
R. – Amo-os a todos. Toda a gente fala do “Por Este Rio Acima” como a sua obra máxima, mas depois, e antes, há outros discos magistrais. A “Madrugada dos Trapeiros”, “História de Viajeiros”, mesmo o próprio “Beco com Saída” e o primeiro, simplesmente “Fausto”, de 1969. E “Para Além das Cordilheiras”, outro trabalho magistral, e “A Preto e Branco”, que foi recebido e tratado de forma um bocado injusta, onde ele apresenta duas coisas importantes, a forma de compor quando tinha 18 anos e os grandes poetas africanos. Daí eu ter escolhido “Flagelados do vento Leste”, de Ovídio Martins, para o meu disco. Estou ligada misticamente a África, pela minha própria corrente de candomblé. Mas a maior percentagem vem das “Crónicas da Terra Ardente”. Vi-me lá dentro, dentro daquela viagem. Senti-me como a ama que tinha o menino nos braços e via o barco a afundar-se. Entrei dentro daquele filme.
P. – No seu caso, como no de Fausto, a espiritualidade co-habita com uma postura de esquerda, a qual, por essência, é materialista…
R. – É uma pergunta que tenho feito a mim mesma nos últimos 20 anos! Sou, de facto, uma pessoa de esquerda… As pessoas torcem o nariz e atiram-me com aquilo a que chamam “as minhas crendices”… A espiritualidade está intimamente ligada a uma visão de esquerda do mundo, porque tem a ver com a justiça feita aqui. Para além de tudo o que possa acontecer do lado de lá, as coisas têm que acontecer aqui. Esta desigualdade social, esta violência, estas injustiças cometidas pelos homens, ainda estou para ver uma atitude da direita em relação a estes problemas. No plano espiritual, trabalhamos para isso. Preocupamo-nos em termos ecológicos, com as pessoas, com as desigualdades, não temos é, de facto, um discurso materialista. Apelamos àqueles que reagem, que nos ajudam de vários pontos do Cosmos.
P. – Um partido político fundado por si, seria fantástico!
R. – Não sei se teria jeito para isso. Só tenho jeito mesmo é para colaborar nos meus rituais, que são os Nação Nagô, o candomblé originário do Congo e de Angola. É aí que apelo aos meus orixás, que nos ajudem. O mundo está a escurecer.
P. – No meio dessa escuridão crescente, ainda é possível ver “Todo Este Céu”?
R. – Tem que haver olhos para atingir esses céus e esses céus só podem existir, só têm razão de existir, se os olhos estiverem abertos. Os olhos e o coração. “Todo Este Céu” é o título de um tema das “Crónicas da Terra Ardente”, do Fausto, e o meu firmamento. Foi como se ele me tivesse aberto uma janela e eu, pela primeira vez, tivesse visto um céu.
P. – Este disco é também um acto de gratidão?
R. – Era uma coisa que tinha de acontecer neste tempo. Não podia adiar mais nem poderia ser antecipado. O meu próximo passo é um disco sobre o paganismo e a religiosidade – onde existe um existe a outra – de três regiões portuguesas: Beira Baixa, Beira Alta e Trás-os-Montes. Vou andar pelo menos um ano e meio no campo, a percorrer esses lugares. É preciso viver, para se transportar e transmitir o que são a religiosidade e o paganismo, ir ao congresso de Vilar de Perdizes, às procissões, falar com a mulher das ervas que faz as mezinhas, ouvir cantar…
P. – Essa deambulação remete-nos de novo para o tema do início da conversa. A Né é uma loba solitária?
R. – Sou. Estou sempre a magicar. Sou uma pessoa de projectos. Gosto muito de trabalhar com outras pessoas, com outros músicos, de ter gente à minha volta, mas talvez seja o meu feitio, ter ideias que num grupo eram capazes de chocar ou de não ser bem entendidas.