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29/10/2018

I'm on fire [Nick Cave]


Y 10|JANEIRO|2003
neon|nick cave

Nick Cave
I’m on fire

Baladas criminosas, ternura e rock'n'roll. A noite e o fogo, no regresso em força do melhor Nick Cave de há muitos anos. Respirem fundo e vistam fatos de amianto antes de ouvirem "Nocturama". Sai no princípio de Fevereiro.

Foi um emocional, um gritador, um sofredor, um mal-encarado e um mal-amado do rock na época dos The Birthday Party. Depois, já com os Bad Seeds, Nick Cave virou-se aos poucos para "o outro lado", descobrindo formas no silêncio onde antes se enredava no torvelinho do ruído. Há quem diga que se voltou (aparentemente) para cima, numa inquietação surda onde alguns descobrem devoção. A verdade é que a partir dos anos 90 e de "The Good Son", gravado em São Paulo, Brasil, o "crooner" maldito estabeleceu um compromisso com uma religiosidade expressa em tipologias como o "gospel", os espirituais, de acordo com uma forma dolorosa de dilaceração interior, queimada como caramelo venenoso nos "blues".
            Cave tornou-se o asceta noturno, o pregador perdido nas caves (nunca um apelido terá soado tão apropriado...) da perdição que interroga a eternidade no fundo de um copo de "whisky" ou no mais profundo gemido de uma prostituta sagrada. Álbuns como "Henry's Dream" (1992), "Let Love in" (1994), "The Boatman's Call" (1997) e "No More Shall we Part" (2001), bem como o livro "And the Ass Saw the Angel" e o exercício sangrento "Murder Ballads" (espécie de "Do Assassínio como uma das Belas-Artes", de Thomas de Quincey, em canções, que inclui "Death is not the end", de Dylan) são interrogações dirigidas a uma força oculta que o músico australiano localiza dentro de si: "Ao escrever tento, de algum modo, compreender-me a mim próprio. É a única maneira que tenho para compreender o que penso e o que sinto sobre as coisas.

            fauna lunar. "Nocturama", o novo álbum, com data de edição em Portugal marcada para 3 de Fevereiro, é mais uma etapa no caminho da crucificação. Que é seguir por dentro em todas as direções, ser-se simultaneamente santo e pecador, misturar a pureza com a escória e saber distingui-los. Ou então descobrir que não existe maior dilaceração que a do amor. "Nocturama" é, segundo o australiano, "um local onde vivem animais noturnos". Precisamente - o amor. O seu lado escuro, selvagem e lunar.
            Formalmente, os Bad Seeds alcançam aqui maior protagonismo do que nos álbuns anteriores. Cave explica as diferenças de um método em relação ao qual foi determinante o trabalho do produtor Nick Launay - com quem já colaborara no single de 1981 dos The Birthday Party, "Release the bats" - ao permitir a gravação de todas as sessões e deste modo criar em estúdio uma atmosfera de empatia e descontração entre os músicos.
            Mas o semeador do mal também mudou: "A ideia foi anular alguns preciosismos e regressar a um tipo de disco mais parecido com os antigos, mais rápido e espontâneo. Neste disco optei por estabelecer uma ideia musical, encontrar uma letra, pô-los de lado para gravar e começar logo outro tema. Não procedi a qualquer tipo de reflexão posterior ou voltei a tocar cada canção. Uma vez escritas, ficaram prontas, ao passo que em 'No More Shall we Part' tinha arranjado tudo antes o que, provavelmente, terá inibido um pouco a banda. Se já está tudo completo e a única coisa que eles têm que fazer é reproduzir o que está feito, isso não lhes deixa muito espaço para respirar. Neste novo disco, pelo contrário, ficaram com bastante mais liberdade." O que faz de "Nocturama" um disco de rock 'n'roll, soprado pelos fantasmas poéticos de W. H. Auden, Thomas Hardy e Dylan, com insuspeitas ligações a rockers como John Cale e David Bowie. Ou tratar-se-á, ainda e sempre, de ilusões?

            santos e pecadores. "Nocturama" abre com "Wonderful life", "pastiche" em tons de sarcasmo, do verso da canção com o mesmo título, para amansar os corações, de Black. "Sometimes our secrets are all we've got". O resto do álbum vai-os desvelando, um a um.
            "He wants you" é hino com ecos de John Cale. Sinistro. O papão que se esconde nas profundezas, pronto a atacar. "Under the bridge and into your dreams he soars/While you lie alone in that idea-free sleep of yours/That you've been sleeping now for years.
            "Ainda mais parecida com o registo baladeiro de Cale (basta substituir o "L" por um "V", apetece dizer...) e a doce indolência de quem se abandona, "Right out of your hand" fala dos equívocos do amor. "Please forgive me/If I appear unkind/But any fool can tell you/It's all in your mind." Convém não esquecer.
            Um violino e o andamento inicial de "reggae" introduzem "Bring it on", parceria vocal com Chris Bailey, da pioneira banda punk australiana The Saints, que Cave considera "uns deuses": "uma banda anárquica e violenta mas com um cantor que sabia mesmo cantar!". "Bring it on/Every neglected dream/Bring it on/Every little scheme/Bring it on/Every little fear/And I'll make them disappear". Sonhos traídos. Na rádio poderia resultar bastante bem.
            "It's only rock 'n' roll, but I like it" seria legenda apropriada para "Dead man in my bed", onde a guitarra de Mick Harvey explode em gloriosa e maníaca cavalgada. "He used to be so good to me, now he smells so fucking bad/There is a dead man in my bed." Metáfora ou algo de mais frio, é outra história sem final feliz.
            "The cops are hanging around the house/The cars outside look like they've got the blues [belo verso!]/The moon don't know if it's day or night." Crime! - Disse ela. Numa balada das mais tristes e mais belas de "Nocturama". E um piano - de Cave - a chorar.
            "There is a town" é uma viagem "under a dark sky", através dos sonhos, até aos lugares da infância que não existem senão no que com elas faz a imaginação. "That God lives only in our dreams" já é outra questão, mas impossível deixar de notar que "God" vem escrito com maiúscula. O violino de Warren Ellis parece, de facto, vir do céu.
            Outra declaração de amor, outra travessia da noite, mais uma viagem pelo mar: "Rock of Gibraltar". Épica. "And together we'd be/That great, steady Rock of Gibraltar". Substitua-se a letra por "We'd be heroes", ouça-se o som e as notas - praticamente iguais - da guitarra por detrás do refrão e, não há que enganar, Cave travou-se de razões com os "Heroes" de David Bowie.
            O violino retorna, cheio de ternura, a "She passed by my window", outra das baladas de "Nocturama". Clássica, lenta, invernal. "You gotta sanctify my love." É preciso dizer mais?
            A fúria maior faz-se esperar mas quando chega é para matar. Em "Babe, I'm on fire", também disponível em vídeo, em versão ao vivo. Os Bad Seeds soltam neste tema, absolutamente espantoso, de 15 minutos, todo o rock e energia contidos antes, antes do dilúvio. Tocada apenas uma vez antes de ser gravada é, nas palavras de Cave, "o género de canção que se escreve quando não se está a escrever uma canção".
            Um órgão Hammond em groove contínuo de R&B com as guitarras de Harvey e Blixa Bargeld a dançar em volta como "banshees" alucinadas suportam como possessos um extenso poema (houve, mesmo assim, versos que ficaram de fora...) que finalmente dispara as palavras sem as cobrir de sombras. O pai, a mãe, a irmã, o irmão, o cavalo, o porco, o juiz, a freira, o Papa, o general, o soldado, o toxicodependente, o bêbedo, o budista, o "rastafari", o cristão, o beatnik, o cego, o polícia, o chulo, o estripador, o cantor country, o comentador desportivo, o viking, o cowboy no rodeo, o velho esquimó, o contorcionista chinês, o astronauta perdido, Picasso e o seu "Guernica", Walt Whitman, Bill Gates, o Presidente dos EUA [a lista é interminável], todos, absolutamente todos, gritam: "Babe, I'm on fire!"
            "And the decomposing lover says": "Babe, I'm on fire." A fogueira alastrou num incêndio. "Babe, I'm on fire" espanta todas as criaturas noturnas e evasivas que rondavam pela floresta à espreita de um momento de fraqueza. Não há. E "Nocturama" ilumina-se num clarão.

04/10/2014

Chamam ao diabo Old Nick [Nick Cave]



Y 20|ABRIL|2001
escolhas|ao vivo

chamam ao diabo old nick

Quando Nick Cave tem uma canção do seu novo álbum, “No More Shall We Part”, chamada “Oh my Lord”, não devemos metê-la, apesar do título, no mesmo compartimento de “My sweet Lord”, de George Harrison. Ao contrário do ex-Beatle, cuja carteira está bem fornecida de deuses e gurus, a do ex-Birthday Party continua a carregar uma caderneta de apostas com o diabo.
            A “conversão” de Nick – como é que alguém com apelido “Cave” e um grupo designado “As Sementes Más” pode converter-se ao que quer que seja?... – é do mesmo tipo da de Diamanda Galas ou, em diferente medida, da de Blixa Bargeld, dos Einsturzende Neubauten, seu companheiro musical de longa data.
            A “gospel” e os espirituais de Nick Cave ou de Diamanda Galas são pragas rezadas em surdina a um anjo de asas negras. O mesmo que preside ao disco contendo textos declamados deste australiano esquelético com ar de rufia, “And the Ass Saw the Angel”. O escritor Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont, escreveu “Os Cantos de Maldoror”, uma das obras da literatura que mais perto tocou no coração das trevas. Logo a seguir o mesmo autor assinou um tratado sobre a virtude. O mal foi redimido ou descobriu na beatitude da palavra a forma mais perfeita de camuflagem?
            Não se duvide da genuína religiosidade destas estratégias. Nem das intenções de culto demonstradas com sinceridade pelos seus intervenientes. “Religião” significa “religação”, convém não esquecer. Resta saber a quê ou a quem. O satanismo é uma religião. Não temos dúvidas que Nick Cave seja um crente.
            O caminho que leva a esta “iluminação” pela luz negra é um caminho de flores de uma natureza morta como as da capa de “No More Shall We Part”. Conduz a um altar em forma de espelho. Da imagem que esse espelho devolve é difícil sair sem o quebrar. Nick Cave tem percorrido esse caminho. “The Good Son” (1990), “Henry’s Dream” (1992), “Let Love in” (1994), “Murder Ballads” (1996) ou “The Boatman’s Call” (1997) são estações prévias desta ascese para baixo onde o cinismo, a decadência, a febre dos trópicos, o deserto, o assassínio como uma das belas artes, uma garrafa de veneno e um crucifixo voltado do avesso servem de paramento a Cave, o evangelizador. A esta transposição da raiva para o sussurro corresponde a descoberta de formas de inoculação mais subtis do mal. É um sinal de crescimento, sem dúvida também de cansaço, mas os efeitos desta apropriação do silêncio pelas hostes do inferno não são menos nefastos.
            Lou Reed gravou a sua “Metal Machine Music”. Hoje carrega aos ombros os cadáveres que Nova Iorque espalha pelas ruas. Bowie lavou-se da cocaína e celebrou a sua missa negra em louvor a Berlim em “Low”, pondo fim a um baile de máscaras. John Cale, que como Reed demorou anos a descolar da pele os vermes dos Velvet Underground, cravou fundo o escalpelo em “Music for a New Society”. Peter Hammill fez girar em aceleração máxima os seus demónios interiores em “In Camera”, antes de os sacudir e deslocar a visão para os filmes do mundo. Os Einstruzende, depois de anos a estoirarem edifícios com o napalm da música industrial, acendem fósforos no escuro e garantem que o silêncio é sexy. Todos acederam ao olho do furacão, a esse lugar vazio que é o motor do caos.
            Resta Leonard Cohen, que desde o início soube que o mal age melhor quando se infiltra devagar, e que a melhor maneira de o domar/exorcizar é aprisiona-lo pela poesia numa história. Depois, cada um fará com ele o que quiser. A sombra de Cohen alarga-se cada vez mais sobre Nick Cave. Em “No More Shall We Part” o crooning do australiano evoca as profundezas interiores do veterano canadiano. Em “Fifteen feet of pure white snow” podemos mesmo imaginar a neve que em silêncio tomba sobre o mosteiro-zen que é a poesia do autor de “Avalanche”. Mas Cohen é Buda. E Cave um zombie num labirinto sem saída. “The Ladders of life that we scale merrily/Move mysteriously around/So that when you think you’re climbing up, man/In fact you’re climbing down”, canta em “Oh my lord”. O espelho continua intacto. Decididamente, nem Nick Cave é George Harrison nem é pelas suas sementes terem um sabor mais doce que deixaram de ser venenosas. Os ingleses chamam ao diabo “Old Nick”.


NICK CAVE

LISBOA| Coliseu dos Recreios
24, 3ª, às 21h30
Tel. 213240585. Bilhetes a 4500$oo

15/12/2008

Nick Cave & The Bad Seeds - The Boatman's Call

Pop Rock

19 Fevereiro 1997

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
The Boatman’s Call (7)
Mute, distri. BMG

O canibal tornou-se vegetariano. A esta nova dieta corresponde a interiorização de um estatuto que, álbum após álbum, vem aconchegando o antigo activista dos Birthday Party no altar dos clássicos. “The Boatman’s Call” concede ainda o benefício da dúvida, do tipo “deve haver uma perversão escondida no meio de tanto amor e orações”. O vídeo extraído de “Murder Ballads”, em que Kylie Minogue faz de cadáver afogado e Cave veste a pele do assassino esteta, funcionava ainda na medida dessa ambiguidade. O novo álbum, porém, faz da religiosidade assumida a regra sem excepção, jamais permitindo que a faísca da revolta agite a calmaria da conversão. Leonard Cohen é cada vez mais o modelo a seguir, no estilo em que o líder dos Bad Seeds construía as suas baladas. Mas também Lou Reed (as notas iniciais de “There is a kingdom” remetem de imediato para “Perfect day”), Tom Waits, na imersão sonambúlica em ambientes fumarentos, e o Peter Hammill dos momentos mais calmos, no modo como Cave pronuncia o refrão, “Into my arms, O Lord”, de “Into my arms”. Blixa Bargeld, o desconstrutor-mor dos Einstuerzende Neubatuen, e Mick Harvey reduzem-se a anjos maus a quem cortaram as asas. O papel principal pertence neste disco a um homem só. Perdido no seu solilóquio com Deus e o diabo, em crise de meia-idade ou em crise de vocação, a fé não serve de moeda de troca num bar mal afamado. No álbum mais pessoal da sua discografia, Nick Cave afirma acreditar em Deus, não um Deus intervencionista, mas um Deus que se refugiou nas sombras de uma intimidade impotente. Porque se, como diz na letra de “People ain’t no good”, os homens não prestam, então não vale a pena mexer uma palha e o melhor é mesmo beber a garrafa de cicuta até à última gota e descansar sobre as ruínas. Nick Cave tornou-se no velho pescador contador de histórias que entretém as noites a ruminar memórias. À espera do chamamento que não vem.

05/10/2008

O homem, a banana e os fãs [Leonard Cohen]

Pop Rock

25 SETEMBRO 1991

O HOMEM, A BANANA E OS FÃS

Em 1988, Leonard Cohen, ilustre representante da ala romântico-depressiva da década anterior, gravou um disco intitulado “I’m Your Man”. Na capa aparece a segurar uma banana. Passados três anos, a Columbia, em colaboração com a revista francesa “Les Inrockuptibles”, reúne 18 artistas, entre desconhecidos e consagrados, para homenagear em vida o autor de “Songs from a Room”, no projecto colectivo “I’m Your Fan”.
A ideia de reunir vários nomes para interpretar a obra de um autor específico, tem precedentes. Recorde-se, entre outros, as produções de Hal Winner sobre a música de Nino Rotta (“Amarcord”, com Carla Bley, o pianista Jaki Byard, Chris Stein e Deborrah Harry, etc.), ou de Kurt Weill (“Lost in the Stars”, com Marianne Faithfull, Lou Reed, Kronos Quartet, John Zorn, Tom Waits, de novo Carla Bley, Richard Butler, etc.), ou de trabalhos dedicados à recriação da música dos Beatles, Velvet Underground, Beach Boys e Neil Young.
No caso do disco agora editado, trata-se, segundo a entidade promotora, de um tributo a Leonard Cohen visando “captar a atenção da juventude para o poeta-compositor-cantor” e ao mesmo tempo “anunciar a edição, em Janeiro de 1992, do novo álbum” do artista canadiano.
Artistas como John Cale, Nick Cave, Bill Pritchard, os Pixies ou os R. E. M., para além de assinar as respectivas versões, deixam-se fotografar com a banana. A partir de agora a juventude deixa de ter desculpas para ignorar a obra do mestre.

O homem

Nasceu em Montreal, Canadá, a 21 de Setembro de 1934. Começou por integrar a banda “country” The Buckskin Boys, aos 20 anos de idade, enveredando depois por uma carreira a solo que lhe viria a granjear a reputação de poeta e compositor depositário dos despojos amorosos e dos sonhos africanos de toda uma geração a quem custou a transição entre duas décadas.
Gravou o primeiro álbum em 1968, “Songs of Leonard Cohen” que incluía o clássico “Suzanne”. O Canadá encontrava um bom equivalente para Dylan, na pele do visionário, místico e incorrigível apaixonado que, álbum após álbum, viria a construir um dos pilares mais sólidos da tradição dos trovadores deste século. Possuidor de uma veia poética quase sempre pessimista, disseminada por dez livros e outros tantos discos – escreveu um dia: “Às vezes consigo experimentar a doçura da morte.” –, construiu uma religião pessoal, baseada na redenção pela dor e pela solidão, ás quais as sucessivas desilusões amorosas acrescentam uma carga de maior negritude. “Avalanche”, “The partizan”, “Joan of Arc”, “So long, Marianne” são algumas das canções para sempre imortalizadas nas palavras e na voz enigmáticas de um dos compositores-autores mais negligenciados de sempre. O disco de homenagem vem de algum modo repor a justiça e relançar a carreira de alguém contra quem o tempo nada pode, desde que haja uma princesa e um castelo a conquistar.

DISCOGRAFIA DE ÁLBUNS

Songs of Leonard Cohen (1968) – faixas A2, A4, B1 e B2 de “I’m Your Fan”
Songs from a Room (1968) – A5
Songs of Love and Hate (1970) – B3
Live Songs (1973)
New Skin for the Old Ceremony (1974) – A1, C2, C4 e D2
Death of a Ladies’ Man (1978) – B4 e C5
Recent Songs (1979)
Various Positions (1984) – D4
I’m Your Man (1988) – A3, C1, C3, D1 e D3

A banana

Fruto tropical (do género bacáceo), muito nutritivo e apreciado, produzido pelas bananeiras (in “Dicionário da Língua Portuguesa”, Porto Editora, 1989). Ainda segundo a mesma obra, pode significar uma “ficha eléctrica individual” ou uma “pessoa sem energia, indolente, palerma”. Observando as fotografias, fica-se com a ideia que o termo se aplica aqui na primeira acepção.
Em música, a banana tem sido várias vezes utilizada, em diferentes ocasiões e contextos, acrescentando um sabor exótico e uma imagem geralmente picante à arte dos sons. A sua forma peculiar presta-se, com alguma frequência, a piadas de carácter erótico ou a interpretações mais ou menos dúbias sobre as intenções dos seus utilizadores. Citando alguns casos, logo ocorre a figura inconfundível de Carmen Miranda, que, entre outros frutos e legumes, recorria à banana como enfeite ou como chapéu. Também Josephine Baker costumava usar um cinto com bananas, penduradas à volta da cintura. É célebre a obsessão do excêntrico Kevin Ayers por este fruto: dois dos seus álbuns têm como título “Bananamour” e “Yes, we Have Mananas, so get your Mananas Today”; costumava além disso jogar xadrez com bananas em vez das peças habituais. Os Velvet Underground não hesitaram, por seu lado, em ilustrar a sua obra-prima “Velvet Underground & Nico” com a famosa hiper-realista de Andy Warhol na capa. Inúmeras letras mencionam a banana. Mencione-se ao acaso a enigmática asserção dos Faust, em “So Far”: “Daddy take a banana, tomorrow is sunday.” O assunto não é pacífico. Se a oportunidade surgir, trataremos dele de forma mais pormenorizada, se possível com fotografias detalhadas.

Os fãs, faixa a faixa

The House of Love
“Who by fire”Aproximação convincente ao tom habitual de Cohen, recriando no acompanhamento da guitarra acústica, o insustentável peso da dor e a questão metafísica essencial de “saber quem”. A própria voz de Guy Chadwick imita com bastante credibilidade a do canadiano. Como se a paisagem toda pudesse ser reproduzida num postal.

Ian McCulloch
“Hey, that’s no way to say goodbye”A mesma despedida angustiada (tema omnipresente na obra de Cohen). Suave e interiorizada na versão original. Electrificada e arranhada na do vocalista dos Echo and the Bunnymen, que optou pela táctica fácil da transposição, através do decalque nota a nota da melodia, com a tónica no trio convencional guitarra-baixo-bateria. O efeito é eficaz, mas pouco criativo. Há porventura outras formas de dizer adeus.

Pixies“I can’t forget”Reconciliação bem sucedida entre os intimismos de outrora com a descoberta da tecnologia digital. Os sintetizadores tomam conta das operações sem que a electricidade consiga destruir a magia de antanho. Curiosa a inflexão dos Pixies que, ao invés, procuraram na acidez das guitarras o registo adequado para descrever as imagens de uma América mítica, sempre em fuga, a correr contra o Futuro.

That Petrol Emotion
“Stories of the street”Um dos grandes temas de Leonard Cohen. Sobre a arte do equilíbrio no fio da navalha. Entre o suicídio e o amor. Passagem da ponte entre duas épocas, entre o céu e o abismo. Passagem de nível. Passagem de testemunho. O fim do sonho americano. A rosa esmagada na vertigem da auto-estrada. E um homem do tamanho de uma estrela, perdido no labirinto do “metro”, à procura de um olhar. Os That Petrol Emotion respeitam essa angústia, como se seu fosse também o dia derradeiro.

The Lilac Time“Bird on the Wire”Ainda uma canção sobre a dilaceração, dos temas preferidos do autor. Os Lilac Time acentuam o ambiente litúrgico, substituindo a profundidade trágica do violoncelo, no original, por uma abertura espacial fabricada no estúdio, que consegue trazer para o tema alguma claridade. A tortura interior tornada veículo privilegiado ao serviço da pop melancólica.

Geoffrey Oryema
“Suzanne”Quem nunca trauteou, ao menos uma vez na vida, a melodia simples e linear de “Suzanne”? Ou com “ela” aprendeu os primeiros acordes na guitarra? Canção de entrega, de corpos tocados pelo sopro do espírito, de luzes doiradas reflectidas no espelho de rios infinitos, como eram todos os rios no sonho colectivo dos 60. Oryema acrescentou-lhe a materialidade de um baixo pneumático, desceu a altura da voz até quase ao gutural e fez, como um feiticeiro, que tudo soasse como se fosse a primeira vez. Sub-repticiamente, a África irrompe nos últimos segundos, subvertendo ainda mais as reverberações etéreas do original.

James
“So long, Marianne”Das canções mais conhecidas e divulgadas do compositor, sobre o tema eterno do amor. No caso de Cohen, quase sempre infeliz. Mas, como em literatura, o amor feliz não tem história. Pessimista por natureza, lá vai dizendo que por causa dela até se esqueceu de rezar aos anjos e que por isso (e por tantas outras incontáveis desditas) se sente frio “como uma lâmina de barbear”. O banjo, a percussão martelada e o violino marcam a cadência da viagem. Interminável. Tornada irrisória pelos James que lhe subtraem a energia, descartando-se da tarefa com a solicitude competente de um funcionário público.

Jean-Louis Murat“Avalanche IV”
O poema fala de qualquer coisa sentida como monstruosa. De ser humano, nos maus dias. Metáfora sobre a demanda do bem, da ideia platónica de “bem”, da luz oculta nas trevas, do amor incrustado na pedra do orgulho. Leonard Cohen canta o impossível super-homem que se ergue acima das leis dos outros homens, para finalmente tombar do pedestal, também ele sensível ao frémito provocado pelo confronto com o arquétipo feminino. Enfim, mesmo os deuses não conseguem resistir a um rabo de saias, Jean-Louis Murat passa o mito para francês (sempre dá um ar mais intelectual), junta-lhe um ritmo de pavoroso mau gosto, do tipo banda de arraial e apresenta, orgulhoso, o resultado, ao júri da Eurovisão. Cohen a metro, não.

David McComb & Adam Peters“Don’t go home with your hard-on”Uma fraqueza estimulante. Espécie de “Ob-la-di ob-la-da” com caução cultural, com direito a fanfarra e serviço de bufete. O tema fala de coisas de superfície, de “salões de beleza”, de “eye-lid”, de máscaras de baile que encobrem a carne. No disco em que Cohen troca os lamentos soluçados pela varinha mágica dos arranjos rítmicos de Phil Spector, sabe bem escutar a sua voz liberta do divã do psiquiatra. Quanto aos discípulos, trocam a fanfarra por sininhos de Natal e por acessos de acne electrónico em que cabe o catálogo inteiro de efeitos vocais. Como se aos meninos tivesse sido dado o estúdio de presente.

R. E. M.“First we take Manhattan”Por incrível que pareça, Leonard Cohen soa aqui como os Yello. Escute-se a maneira como canta “Firts we take Manhattan, than we take Berlin” ou “you loved me as a loser”. Repare-se como as caixas de ritmo fazem a festa, com a pista de dança no horizonte. Uma salada exótico-electrónica, cheia de corantes. Para os incondicionais da primeira fase, é uma tragédia. Talvez uma traição. Quem não tem culpa nenhuma são os R. E. M. que, como acontece em tudo o que tocam, alcançam a perfeição. Michael Stipe e companheiros restituem ao tema a dignidade perdida. Não se trata aqui tanto de uma versão, mas da apropriação total, e uma assimilação completa do essencial, reposto de forma gloriosa num outro universo.

Lloyd Cole
“Chelsea hotel”Vintage Lloyd Cole, demasiado aprisionado ao que dele se esperaria. As típicas sinuosidades vocais não disfarçam a falta de imaginação. Entre a homenagem de Cohen a Janis Joplin e o “pastiche” de Dylan, resta a história que só alguns viveram mas muitos procuram contar.

Robert Forster (ex-Go Betweens)
“Tower of song”Muito estranho, o original. Fantasmagórico. A voz do trovador a 16 r.p.m. Uma pianola desafinada no quarto dos brinquedos. Um balanço dolente com referências a Hank Williams e ao “voodoo”. Magia a que Forster retira a negritude, prescindindo dos mistérios e filtrando a melodia por um “country blues” escorreito e poderoso. A virtude reside neste caso na tradução radical de um tema fechado sobre si mesmo. E na diferente valorização de um texto impermeável a leituras redutoras.

Peter Astor (ex-Weather Prophets)
“Take this longing”Clonagem razoável da voz de Leonard Cohen. À volta tudo é mais gelado, com guitarras milimétricas soltas na imensidão reverberada do arcanjo, penetrada, ao longe, pelos acentos e acenos de Heidi Berry. Importante: o espírito não é atraiçoado. Mesmo que os ritmos automáticos desempenhem metade da tarefa.

Dead Famous People“True love leave no traces”Anos 50 revisitados. Memórias de um tempo de beijos roubados ao crepúsculo. De brilhantina, tranças atrevidas e saias de euforia. De automóveis berrantes e pranchas de “surf” quando o rock’n’roll não se envergonhava de ser meloso. De namoros iguais a Hollywood. De dias mais felizes. Um Cohen optimista numa história cujo “happy end” os Dead Famous People confundem com lantejoulas de casino. O órgão de coro e as vozes femininas não escondem os seus amores pelas praias cinzentas de Isabel Antenna. Inofensivo.

Bill Pritchard“I’m your man”
Parece Lou Reed mas não é. Bill Pritchard, então, como de costume, exagera. Swing arrastado, com simulação de violino e trompete “mariachi” sintetizados. Em todo o caso, um arranjo brilhante. Como se Pritchard se tivesse infiltrado no organismo de Cohen para melhor lhe sugar a alma e o sangue. Elegia do “crooner” imortal, requintado, inteligente e eternamente sedutor. Afinal a mesma, outra, história de amor sempre por reinventar.

Fatima Mansions“A singer must die”Inusitada a forma como os Fatima Mansions, fazendo jus à designação que ostentam, retiram todo o peso à canção, atirada para o alto por um vibrafone em levitação, enquanto a manivela do realejo acompanha cada volta da noite. Umas das surpresas agradáveis do disco que deixa antever as salas mais escuras das “mansões de Fátima”.

Nick Cave and the Bad Seeds“Tower song”Peixe abissal habituado à escuridão das profundidades (recorde-se a anterior versão de um tema de Cohen, “Avalanche”), Nick Cave faz o que quer da canção, massacrando-a até ao limite do suportável e obrigando-a a respirar ao seu próprio ritmo. Entre o grotesco e o sublime. Para Nick Cave, a música é sinónimo de carnificina e a tragédia carnaval. Rock’n’roll descarnado, em chaga. Tal como Foetus. Ou Jim Morrison, com quem Cave aqui por vezes parece confundir-se num perturbante fenómeno de mimetismo. Sobretudo nos interlúdios declamados a fazerem lembrar a litania trágica de “The end”. Regressão luxuriante à matriz do rock, deixando um rasto de destruição pelo caminho (incluindo a do ícone Presley, uma pouco à maneira paródica dos Dread Zeppelin). A harmonia da demência.

John Cale“Hallelujah”Almas gémeas, Cohen e Cale partilham as regiões do despojamento e da desolação. No fim, falam com Deus. O “espiritual” salmódico do primeiro descarna-se ainda mais, até nada restar, no segundo, senão o piano, a voz e a fé, nas palavras e na devoção ao “Lord of song” a que os versos aludem. Cale fez o mais simples e o difícil. Como diz a letra: “Não podia sentir, por isso tentei tocar.” Tocou no âmago. Onde floresce a rosa, no centro da cruz.

29/09/2008

Nick Cave & The Bad Seeds - Henry's Dream

Pop Rock

22 ABRIL 1992

PESADELOS DE UM COWBOY ESPIRITUAL

NICK CAVE & THE BAD SEEDS

Henry’s Dream
LP/CD, Mute, distri. Edisom

Nick Cave agora é um artista. Nos Birthday Party era mais um arruaceiro, um espinho cravado no cérebro da pop. Mas depois Nick conheceu Berlim, explicou o fim do mundo a Wim Wenders – ele que tão bem sabe cantar o fim – e por fim realizou o seu próprio filme, “Ghosts of the Civil Dead”, e escreveu o seu próprio livro, “And the Ass saw the Angel”, ambos os títulos, sobretudo o último, significativos da visão muito especial que o autor tem do mundo.
Os artistas, a dada altura, costumam voltar-se para as coisas espirituais e Nick Cave não foi excepção. “Tender Prey” e “The Good Son” recuperam as orações murmuradas em “Kicking against the Pricks” que finalmente explodem em espirituais e “gospels” enegrecidos, com Cave a sair da cave e a levantar os olhos para a divindade, ou pelo menos para aquilo que ele julga ser a divindade.
“Henry’s Dream” continua a ser religioso, à sua maneira. É um álbum conceptual sobre o tema da “fuga”, um disco em que as orações se confundem com imprecações. No argumento de “Ghosts of the Civil Dead”, Nick Cave escreveu sobre um assassino profissional, Jack Henry Abbott. Henry, um “serial killer” que aqui vê transcritos os seus pesadelos em forma de canções.
Espiritualidade, para Nick Cave, é sinónimo de violência. Interior e exterior. Em “Henry’s Dream” assiste-se à deambulação infinita pelos pântanos da alma empreendida por um “cowboy” do inferno. O céu de Cave é, apesar de tudo, diferente do de Wenders. Tem a cor da carne e o sabor do sangue. Nick Cave procura refúgio no amor. Todos os fazem quando se sentem perdidos. “Straight to You” e “Jack the Ripper”, as duas canções incluídas no “single”, são canções de amor, no vórtice do holocausto: “Now that heaven has denied us its kingdom, and the seas are all drunk and howling, this is the time that I’ll come running straight to you, for I am captured”. “Jack the Ripper” agride de outro modo, entre o coro dos danados e descargas contínuas de electricidade: “I got a woman, she rules my house with an Iron fist.” O amor dói.
O universo de Nick Cave só encontra paralelo no de Clint Ruin. Mas enquanto este procura a salvação na autoflagelação, na tortura e, amiúde, na reclusão no quarto fechado da esquizofrenia, para o ex-Birthday Party, ainda é possível abrir portas que dão para o outro lado, seja ele qual for – o movimento é sempre em frente: “Oh sweet Jesus, there is no turning back”, canta Cave em “When I first came to town”. “Henry’s Dream” oscila entre as chicotadas de “Papa won’t leave you Henry” e a derrocada emocional de “Brother my cup is empty”; entre o momento de encantamento de “Christina the astonishing” e o caos celestial de “When I first came to town” a galope numa harmónica de “cowboy” na direcção do pôr-do-sol.
Do lado de lá, a noite, os seus fantasmas e os seus rituais, em “John Finn’s wife” – “the night was deep, and the night was dark and I (aqui não se percebe, ele come as palavras) qualquer coisa dance home on the edge of town/ some big ceremony is going down”. Bruce Springsteen numa “bad trip”, povoado por imagens de carnificina, tesouras, facas de carniceiro e um seio tatuado. Cavalgada de pesadelo, sempre em crescendo, através da escuridão, que finalmente atinge o auge e o firmamento num fabuloso clímax orquestral, antes do derradeiro apaziguamento em forma de “gospel” declamado. Em “Loom of the Land” Elvis sai de um casino em Las Vegas e encontra Johnny Nash numa “no man’s land” imaginária, do lado escuro da “country”. Nick Cave é o verdadeiro “cowboy” espiritual. (8)