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05/02/2019

A indomável [Nina Simone]


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 23 ABRIL 2003

Nina Simone (1933-2003)

A indomável



Sacerdotisa da “soul” e do “gospel”, cantora de jazz, intérprete de Brel, Nina Simone foi acima de tudo uma voz do tamanho do mundo que lutou contra os preconceitos. Musicais e raciais. Encontrou-se a si própria a sós com um piano. Morreu na segunda-feira

Amada e odiada. Quase sempre incompreendida. Nina Simone esteve sempre à margem de onde queriam que estivesse. E quando a encontravam, mudava de lugar. O jazz olhou-a de soslaio. A pop condescendeu em aceitá-la. Não foi nem uma cantora de jazz nem uma cantora pop. Foi uma cantora. Morreu na segunda-feira, aos 70 anos, em casa, em Carry-le-Rouet, nos arredores de Marselha, e o corpo vai ser cremado na sexta-feira, no cemitério de Saint-Pierre, na mesma cidade.
            “Se tiver que ser chamada alguma coisa” – escreveu na autobiografia “I Put a Spell on You”, de 1991 – “que seja cantora folk, porque houve mais folk e blues do que jazz na minha música”.
            “I put a spell on you”, também a emblemática canção de Screamin’ Jay Hawkins, e que integrou no seu reportório, define na perfeição a sua atitude perante a música e os que a ouviam. Folk era gospel na sua indomável voz de contralto de vagabunda entre o céu e o inferno. E gospel é “God” e “spell”, Deus e feitiço.
            Nina Simone lançou um feitiço, uma maldição. Impacientava-se e exigia dos outros o que muitas vezes não exigia de si. Uma entrevista mal conduzida, um ruído entre a assistência, eram suficientes para a exasperar. Como consequência, e de acordo com o efeito de retorno que é uma das principais leis da magia, foi paga na mesma moeda: a sua música leva, por sua vez, alguns ouvintes ao desespero.
            Houve, sem dúvida, cedências e falhas na gestão da sua carreira. De gosto e de coerência. Que se perdoam. Nina Simone era uma força da Natureza, um grito gutural num momento, uma oração rezada em segredo, no outro. É difícil descobrir o centro do ciclone, o ponto onde o orgulho e a revolta, a visão e o caos, o grito e o silêncio nela se reconciliaram em obra de arte. Mas ele existe e assombranos e essa obra tem nome: “Nina Simone and the Piano!”, álbum de 1969, reeditado pela primeira vez em CD, em versão remasterizada, pela RCA, no ano passado, e considerado pela crítica de jazz nacional como uma das reedições do ano.
            “Nina Simone and the Piano!” apresenta a cantora e compositora no formato mais despojado e intenso que é possível desejar. Voz e piano, energia e disciplina, por uma vez unem-se com a finalidade de nos fazer estremecer. É um álbum de gospel e de blues, de périplos solitários, de ascese e queda. Para alguns soará como o seu álbum mais incompreensível, porque absolutamente criado no interior de uma espécie de universo paralelo onde as emoções e o instinto se casam segundo uma lógica indecifrável pela razão. Mas esse é precisamente o caminho que não se deve seguir para dar com a música de Nina Simone. Pelo contrário, se nos abandonarmos ao vento (“Wild is the Wind” é o título de um dos seus álbuns), à água e ao fogo, à tempestade e à bonança, aí sim, encontraremos o sentido mágico em que todas as partes se juntam para revelar a imagem do Todo. Uma das canções do álbum, “Everyone’s gone to the moon”, é “crooning” astral, rito de passagem de alguém eternamente em trânsito, de uma sociedade injusta e desumanizada – que Nina sempre condenou – para um mundo ideal onde se diz que vivem os poetas.
            Nina, a nómada, que viajou na música como pela vida, deixando os EUA em 1973, falida e divorciada, para habitar na Libéria, Barbados, Suíça, Holanda, Inglaterra e França, onde se estabeleceu há oito anos, vindo aí a morrer. Nina, a “jazz singer” que o jazz esteve perto de condenar ao degredo. A ela que, numa entrevista, confessara: “Foi sempre meu propósito permanecer afastada de quaisquer categorias – é a minha liberdade. Porém, liberdade é, para mim, a própria definição do jazz, por isso não posso afirmar que não sou uma cantora de jazz.”
            Noutra canção de “Nina Simone and Piano!”, “Who am I?”, de Leonard Bernstein, é mostrada outra faceta, a do seu próprio espanto frente ao espelho, mas também a transcendência. “Acreditas na encarnação? Já aqui estiveste? Tiveste essa experiência? Então deverás questionar todas as verdades conhecidas...” Foi o que ela fez.

Jovem, prendada e negra
Eunice Kathleen Waymon (o seu verdadeiro nome) nasceu em Tryon, Carolina do Norte, há 70 anos. Filha de músicos, estudou órgão e piano na prestigiada Juilliard School, de Nova Iorque, encetando a sua carreira como pianista em 1954, num bar-churrascaria de Atlantic City, ao mesmo tempo que assumia o nome artístico por que ficou conhecida, Nina Simone, para não ser descoberta pela mãe.
            Entre dois churrascos e uma escala de piano, pediram-lhe, ou forçaram-na, a cantar. Nina cantou como se fosse Billie Holiday. Ou, por outras palavras, como se cantar fosse uma forma de sobrevivência. Já nessa altura havia quem, entretido a deglutir um bife, não se deixasse tocar. Nina vingava-se, carregando, ao piano, nas notas do classicismo, compondo a figura paradoxal de um piano de fraque a dançar com uma voz de guerreira-amazona.
            Em 1957 assinou o seu primeiro contrato discográfico, com o selo Bethlehem, conseguindo o primeiro “hit” com “I loves you, Porgy”, um tema de Gershwin extraído do musical ”Porgy and Bess”, dispersando a partir daí a sua extensa discografia (demasiado extensa e pouco criteriosa, bradam os porta-vozes do cepticismo) pela Colpix, Charly, Roulette, Philips, Verve, Mercury, Canyon, Carrere, Accord e RCA, entre outras editoras. “Nina Simone and her Friends” (1957), “The Amazing Nina Simone” (1959), “Pastel Blues” (1965), “I Put a Spell on you” (1965), “Nina Simone Sings the Blues” 1966), “Wild is the Wind” (1966), “Silk and Soul” (1967), “High Priestess of Soul” (1966), “Emergency Ward!” (1973), “Baltimore” (1978), “Live at Ronnie Scott’s” (1984) e “A Single Woman” (1993, o disco que marcou a sua reentrada no mercado norte-americano) são exemplos de uma coleção infindável de registos nos quais se inclui uma percentagem elevada de gravações ao vivo. Nina Simone actuou em Portugal, no Casino do Estoril, em Setembro de 1987.

Cantora de protesto
Tudo cabia nesta voz que levou talvez longe de mais o seu poder mas que deixou marcas em Aretha Franklin, Roberta Flack, Laura Nyro, Dee Dee Bridgewater, Rickie Lee Jones, Norah Jones e, surpreendentemente, Beth Gibbons, vocalista dos Portishead. De onde se depreende que a ”soul” girava com mais intensidade. Chamaram-lhe, aliás, “the high priestess of soul” (como o álbum), a suma sacerdotisa
da “soul”.
            Gospel, blues, jazz, pop, cabaré foram atravessados pela sua voz sem fronteiras. E a canção de protesto, fruto de uma aguda consciência social e política, que veiculou em canções como “Mississipi goddamn”, composta em resposta ao assassínio de Medgar Evers, um advogado defensor dos direitos civis da população negra, o manifesto feminista “Four women”, “Why the king of love is dead”, inspirada no assassínio de Martin Luther King Jr. e “To be young, gifted and black”, de Simone e Weldon Irvine Jr., posteriormente interpretada por Aretha Franklin e eregida hino do “black pride” norte-americano. Posição que terá levado algumas vozes críticas, como as do jornalista nova-iorquino Whitney Balliett, a afirmar que Nina se tornara “mais interessada na mensagem das suas canções do que na maneira de as cantar”. Hollie West, do “Washington Post”, preferiu chamar-lhe a representante da “indomabilidade humana”. Há cerca de cinco anos, interrogada sobre o estado do racismo nos EUA, Nina Simone declarou simplesmente: “Pior do que nunca!”
            Nina Simone cantou George e Ira Gershwin, Richard Rodgers, Billie Holiday, Duke Ellington, Weill/Brecht (“Pirate Jenny”, enquanto reflexão amarga da experiência das populações negras africanas e americanas), Jacques Brel (há quem prefira a sua versão de “Ne me quitte pas” ao original), Bob Dylan, Leonard Cohen (“Suzanne”), Bee Gees (“To love somebody”), George Harrison (“My sweet Lord”) e um tema do musical ”Hair”, “Aint’t got no - I got life”.
            Cantou como se o mundo fosse acabar num minuto e se recompusesse no seguinte. De certa forma foi isso que aconteceu quando uma das suas canções mais antigas, “My baby just cares for me”, foi usada em 1987 num anúncio de televisão do perfume Chanel e se tornou um êxito.
            Em “Nina Simone and the Piano!” alberga-se ainda uma canção, “The desperate ones”, cujos versos poderiam servir de epitáfio: “The desperate ones, they walk without a sound, the desperate ones”. Os desesperados caminham sem um ruído, os desesperados. Nina Simone disfarçou tal facto, cantando com quanta força tinha.

DISCOS PARA RECORDAR NINA SIMONE
“My baby just cares for me”
“Don’t explain”
Escolho duas canções, duas interpretações fabulosas, “My baby just cares for me” e “Don’t explain”. Ao ouvi-las, penso no legado de Billie Holliday, de Sarah Vaughan, sinto uma grande afinidade com o meu universo. Sendo Nina Simone uma cantora tão versátil, nesses dois temas consegue estar muito próxima do jazz.
Bernardo Moreira, contrabaixista

“Nina’s Choice”
É uma cantora que opta por cantar a partir do coração, da alma, de dentro. Isso dá-lhe um carisma e verdade que passa através de tudo o que ela canta. E cantar é isso. É-me difícil eleger um disco. Opto por escolher um pelo título, um álbum que se chama “Nina’s Choice”, porque se a escolha é dela certamente é soberba.
Anamar, cantora e atriz

“Nina Simone and Piano!”
Qualquer tema cantado em inglês, desde que tenha o tempo lento em que ela era genial. Qualquer disco em que ela também toque piano. Todos vão escolher a interpretação de “Ne
me quitte pas”, de Jacques Brel, uma obra genial cantada com o sotaque americano/francês. Como os grandes autores que são intérpretes, nunca ninguém cantou ou cantará como ela esta canção de Brel.
José Duarte, crítico de jazz

“In Concert/I Put a Spell on You”
“The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”
Não escolho tanto discos, mas antes canções. “Feeling good” foi a primeira música que descobri da Nina Simone. Ouvi primeiro a versão dos Mighty Bop e depois cheguei à da Nina Simone, é do CD “In Concert/I Put a Spell on You”. Fiquei completamente apaixonada. Já fiz três desfiles com músicas dela, as outras duas são “Mr. Bojangles” e “My father/dialog”, do disco “The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”.
Maria Gambina, criadora de moda

“I loves you Porgy”
A canção que melhor recordo é “I loves you Porgy”. Das muitas versões que existem do “Porgy & Bess”, a maior de todas é a dela. É de uma negritude, uma declaração de raça absolutamente tocante, maravilhosa. Como cantora foi uma referência, tinha uma voz magnificamente grave, muito emotiva. Mas as duas experiências que tive com ela em festivais foram horrorosas – era uma pessoa insuportável.
Maria João, cantora

“Feeling good”
“Feeling good” foi uma canção de Nina Simone que escolhi para o [filme] “Jaime”. Havia mais canções previstas, mas esta foi a única que ficou. Eu tinha visto a imagem final com essa canção, o tom e a letra adequavam-se, havia uma ambiguidade na voz, alguém a convencer-se que é feliz. Era uma grande voz, inconfundível.”
António-Pedro de Vasconcelos, cineasta

“The Blues”
A arte de Nina Simone é ausente de complacência. A sua maneira de cantar leva-nos ao fundo da emoção, ao coração da vida. A sua representação do mundo está na sua obra e é isso que a torna única e universal.
Mísia, fadista

23/10/2016

Os desesperados caminham sem um ruído, os desesperados

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 5 OUTUBRO 2002

Jon Balke, Nels Cline, Steuart Liebig e Tom Harrell são homens bem instalados, dentro ou fora da tradição. Foi Nina Simone quem, há 30 anos, soltou um dos mais lancinantes gritos da música negra.

Os desesperados caminham sem um ruído, os desesperados

Enfrentar a noite, voltados para o mar, pode ser um bom começo para mudar qualquer coisa em nós, para fazer parar o filme e pôr a rodar outro, mais nítido e transparente. A ECM é especialista nestes casos. Dá-nos imagens, sonhos, uma limpidez exclusiva de algum do jazz que por lá se faz. “Kyanos”, do teclista norueguês Jon Balke, com a sua Magnetic North Orchestra, é o típico objeto de arte com o selo da casa de Manfred Eicher, ilustrativo do jazz escandinavo que nesta mesma editora de há muito vem sendo cultivado por gente como Jan Garbarek, Arild Andersen, Terje Rypdal, Edward Vesala, entre outros estetas do que alguns já definiram como “neo cool”.
                Jon Balke pertence à fação contemplativa, demonstram-no a forma como as notas do seu piano levantam voo, como pássaros. Mas também respira nelas algo de Paul Bley, na maneira como deixam o espaço abrir-se e o silêncio cantar. “Zygotos” flui como uma maré, jazz de câmara, em camadas, a barrar os mesmos icebergues de estrelas que Terje Rypdal se entretém a derreter, e “Katabolic” serve para Per Jorgensen rezar no trompete sobre aquele fundo de pequenas coisas eletrónicas a murmurarem em surdina por detrás da sacristia, que John Surman semeou durante anos nos seus discos “minimalistas” na ECM.
                Disco elétrico, moderno (reparem no “groove” de “Plica” ou na violência pontilhista de “Nano”, onde Cecil Taylor chega a espreitar) – embora não tão “moderno” com as piscadelas à música de dança de Nils-Petter Molvaer, “Kyanos” passa na prova da composição, ainda que a cada um dos músicos sejam dadas poucas oportunidades de suar e, muito menos, de sangrar. Convém lembrar que na ECM ninguém gosta de limpar a sujidade nem de bater para aleijar. Bofetadas, sim, mas com luva branca…

Guitarra-chicote
Talvez por isso, saiba bem sentir o estalo do chicote que Nels Cline empunha em forma de guitarra elétrica, em “Instrumentals”. Título irónico, já que a banda dá pelo nome de The Nels Cline Singers, apesar de nenhum dos temas ser vocalizado… Mais direto e “noisy” que a sua anterior gravação para a Cryptogramophone, “The Inkiling”, “Instrumentals” mostra um guitarrista em que a herança de Ornette Coleman e de James Blood Ulmer é mais percetível que a de Coltrane (Nels chegou a compor uma versão de “Interstellar space”, deste último), mais próximo do jazz rock e do “free rock” (temas como “Cause for concern” e “Lowered boom”, magmas de eletricidade em fúria, poderiam ser arrumadas em “Earthbound”, dos King Crimson) do que do “free jazz”. O próprio define a sua música como “powerjazzrockfreepsychedelicate instrumental music” e o crítico da “Jazz Times” chama-lhe “o guitarrista mais perigoso do mundo”. Abanados pelo terramoto de distorção e decibéis causados pela sua guitarra barítono, nos 15m20 catárticos de “Blood drawing”, somos tentados a dar-lhe razão.

Labirinto
Encontramos Nels Cline de novo no ensemble de Steuart Liebig (compositor e guitarra contrabaixo, antigo “sideman” de Julius Hemphill), ao lado de Mark Dresser (contrabaixo), Tom Varner (french horn) e Vinny Golia (saxofone sopranino). Dresser e Varner, nova-iorquinos, são nomes familiares da “new music”, enquanto Golia se destaca como expoente da música improvisada de Los Angeles, com ligações ao rock de câmara (participa em “City of Mirrors” dos Motor Totemist Guild). “Pomegranate”, construída segundo os cânones da “big band”, mas liberal na ampla liberdade concedida ao discurso individual de cada músico, divide-se em quatro movimentos longos onde convergem o free-bop, estruturas classizantes e improvisação livre. Nels Cline faz o seu número de guitarrista comedor de fogo em “The darkness of each endless fall” e Varner desenha espirais em “Widening circles reach across the world”. Golia, arrasador no registo “Evan Parker na broca de dentista”, e Eric Barber, no clarinete baixo, conseguem tornar real em “Flare up like flame and create dark shadows” o que o título recomenda. Pondo as coisas em perspetiva: a economia musical de “Pomegranate” é tão parca em notas como os títulos das faixas o são em palavras… Tanto melhor, se o excesso oferece matéria e motivo mais do que suficientes para nos fazer perder no labirinto do “free”. Um luxo de loucura.

No “Village Vanguard”
Sair do labirinto pode tornar-se um caso sério, caso não se tenha bússola ou se desconheça os ensinamentos do sol. Mais grave, se for noite, como em “Pomegranate”… Mas do escuro emergiu um edifício iluminado. Ao longe, as notas de um trompete embebido de classicismo soltam-se como pardais que ali encontraram alimento, trazendo calor e segurança. No letreiro do edifício lê-se “Village Vanguard” e é lá que Tom Harrell se sente em casa. Já visitara o local antes, com as “big bands” de George Russell e Mel Lewis, mas como líder arriscou-se a tocar na mítica sala de jazz somente depois de se impregnar com os espíritos que John Coltrane aí deixara na mítica sessão de 1961 (voltaria lá cinco anos mais tarde). Eleito o ano passado pelos leitores da “Down Beat” como “compositor do ano”, Harrell é um daqueles músicos que não engana nem engana o passado. Desprende-se da sua música labor, sabedoria e memória, alegria e fluência contagiantes. Mesmo se “Where the rain begins” salpique de humidade o humor, entregamo-nos a “Live at the Village Vanguard” em reconciliação com a vida, não como ela é, mas como gostaríamos que fosse. Felizes por sabermos que na estrada onde o jazz nasceu continuam a passar ilustres viajantes.

Sombras no “gospel”
Nina Simone viaja por uma estrada solitária. Não que a região seja desértica, a terra é a dos blues e do gospel, mas porque a sua voz vem de outro mundo. Uma voz, meu Deus (não invocar o santo nome d’Ele em vão, diz o mandamento, mas não é o caso) que traz dentro quantos e tão vividos romances da alma. Em Nina Simone não faz sentido falar de virtuosismo. O seu canto, como o de Aretha Franklin, é emoção em estado puro, vibrato de ascetismo mas também um erotismo mágico muito pouco cristão. “Gospel”, recorde-se, é “God” e “Spell”. Deus e feitiço. Se por vezes a quiseram levar, e ela deixou, para os terrenos ínvios do simples “entertainment”, “Nina Simone and Piano!”, voz e piano sem rede, constitui a prova viva de que a sua música entra em harmonia numa esfera alternativa. Editado pela primeira vez em 1969, e agora aumentado por quatro inéditos na altura deixados de fora, o tempo acentuou a força e uma excentricidade vocais que poderão soar hoje a ouvidos mais frágeis, a afetação e exagero. É verdade que “I think it’s going to rain today” chega a incomodar, tal o despudor do grito e a exibição sem preconceitos da solidão. “Everyone’s going to the moon” reiventa o “crooning”, misturando “spoken word” e súplica, em longa e sofrida oração de quem se sente cercado por um mundo em que a velocidade do que se quer dizer ao outro não coincidem. Em “Who am I?”, de Leonard Bernstein, a Brodway torna-se palco de ansiosa inquirição: “Acreditas na encarnação? Já aqui estiveste antes? Tiveste essa experiência? Então deves questionar todas as verdades conhecidas...”. Nina ousou ser diferente num campo, o dos espirituais, demasiado habituado a certezas. “The desperate ones, they walk without a sound, the desperate ones” canta num dos temas mais sombrios e inexplicáveis de “Nina Simone and Piano!”. Não houve outro disco, objeto estranho no jazz vocal, que falasse assim dos deserdados de deus. Ou dos homens.

Jon Balke
Kyanos
7|10
ECM, distri. Dargil

The Nels Cline Singers
Instrumentals
7|10
Cryptogramophone, distri. Sabotage

Steuart Leibig
Pomegranate
8|10
Cryptogramophone, distri. Sabotage

Tom Harrell
Live at the Village Vanguard
8|10
Bluebird, distri. BMG

Nina Simone
Nina Simone and Piano!
9|10
RCA, distri. BMG