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05/04/2011

Orchester 33 1/3 + B. Fleischmann + Fennesz

Sons

3 de Dezembro 1999
POP ROCK

Orquestra de Vila Chã

Orchester 33 1/3
Maschine Brennt (8)
Charizma, distri. Ananana

B. Fleischmann
Pop Loops for Breakfast (8)
Charizma, distri. Ananana

Fennesz
Plus Forty Seven Degrees 56’ 37’’ Minus Sixteen Degrees 51’ 08’’ (8)
Touch, distri. Matéria Prima

Não lembraria ao diabo começar um disco com um tema de 41 minutos mas foi isso mesmo que fizeram os austríacos Orchester 33 1/3 em “Maschine Brennt”, digno sucessor do álbum homónimo de estreia, quanto a nós um dos melhores trabalhos discográficos de 1997. O longo tema em questão, que dá título ao álbum, é uma homenagem ao escritor Max Brand, pseudónimo de Frederick Faust, autor de centenas de “best-sellers” e da personagem Dr. Kildare. Passam-se coisas inquietantes nesta longa viagem pela música da orquestra mas nem sempre com aquela dose de interesse e acutilância que a dimensão do tema justificaria. Um pavimento de electrónica ambiental/industrial sustenta súbitas erupções dos metais que longe de quaisquer heresias “free” aparecem aqui completamente subjugados a um meticuloso trabalho de escrita que os coloca entre as progressões harmónicas dos Urban Sax e marchas funerárias de jazz de New Orleans. Há ainda sequências de ruído de máquinas em funcionamento e interlúdios vocais completando um todo algo descosido que ora se eleva aos cumes atingidos pelos Art Zoyd em “Berlin” ora divaga durante largos minutos sem destino por um pântano de detritos electrónicos onde não se vislumbram quaisquer formas de vida. Um trabalho de fôlego, sem dúvida, que procura romper com os métodos prévios instaurados pela orquestra mas que acaba por soçobrar perante a desmesura de propósitos. As restantes seis faixas de “Maschine Brennt” incluem um terramoto de baixas frequências pelo que parece ser um sax barítono tratado electronicamente, em “Daily plasma”, uma incursão não menos telúrica no “hip hop”, em “Lower ass side mix”, uma curiosa intersecção de efeitos vocais e truncagens sonoras em “Review” e, a fechar, um solo de piano na gaveta, “Reise nach Berlin”. Longe de ser uma obra-prima, “Maschine Brennt”, não mancha porém a reputação daquela que foi uma das bandas mais originais a emergir da nova cena electrónica europeia nos últimos anos.
Christof Kurzmann e Christian Fennesz eram os dois maestros da Orchester 33 1/3. Extinto o projecto colectivo que integrava mais de uma dúzia de elementos, gravaram cada um a sua estreia a solo. O primeiro fundou a editora Charizma e escudou-se no pseudónimo B. Fleischmann para rubricar “Pop Loops for Breakfast”, um delicioso álbum de electrónica romântica na linha de “Beautronics” dos Isan, obviamente inspirado nas duas referências germânicas mais citadas nos últimos tempos: Cluster e Pyrolator. Puro deleite auditivo.
Já Christian Fennesz – que há alguns meses actuou no Lux-Frágil e se prepara para produzir o novo álbum dos portugueses Supernova – optou por uma obra mais intelectual, ainda que também no seu caso exclusivamente electrónica. Mas enquanto o seu ex-colega se revela sensível à melodia e com uma atenção aos timbres mais sedutores criados pelos samplers e sintetizadores, Fennesz programou o seu universo de bits segundo coordenadas menos evidentes e a exigirem uma dose maior de disponibilidade. Sem referências aparentes que permitam balizar os limites deste lugar onde decorrem mil fenómenos bizarros, é passo a passo e com as antenas em regime de captação máxima que se caminha até ao ponto exacto que Fennesz traçou no seu mapa pessoal. Diluviano, misterioso, por vezes hermético, “Plus 47º 56’ 3’’ Minus 16º 51’ 0’’” é uma emissão radiofónica emitida de um planeta nos confins da galáxia e recebida em segredo na estação ferroviária deserta ilustrada pela capa. Em Vila Chã, algures no Norte de Portugal.

17/03/2010

Banditismo a 33 rotações e 1/3

Sons

25 de Setembro 1998
POP-ROCK

Banditismo a 33 rotações e 1/3

Marcus Schmickler, musonauta digital, gosta de se perder em alucinações auditivas da mesma forma que nas imagens de um Western-spaghetti ou numa floresta de chips de Silicone Valley. Em “Render Bandits”, segundo volume retirado dos ficheiros dos Pluramon, depois de “Pick up Canyon”, este antigo estudante da Academia de Música de Colónia que inclui Karlheinz Stockhausen na lista dos seus heróis, insiste em que não de trata de mais uma florescência de “krautrock” nem sequer de um disco de uma banda, mas de uma construção de imagens sonoras. Embora constem na ficha técnica os nomes de Jan St. Werner, dos Mouse on Mars e Microstoria, e de Frank Dommert, da editora A-Musik (para onde gravaram os Wabi Sabi, outro dos projectos de Schmickler, este nos domínios da microscopia digital), a verdade é que cada uma das respectivas intervenções foi samplada em separado e posteriormente manipulada. Mais orgânica que o intercâmbio de informação digital canalizada pelos Wabi Sabi, Oval ou Microstoria, a música de “Render Bandits” aproxima-se das correntes, cada vez mais congestionadas, do pós-rock, segundo um processo de composição que o autor define como “soundproductionaenvironmentalgardening”, “produção sonora de jardinagem ambiental”. Interessante, embora dê a sensação de “dejà-vu”. Ou, dito de outra forma, parece que já vimos este filme, realizado com mais brutalidade pelos Bowery Electric ou pelos Third Eye Foundation. (Mille Plateaux, distri. Ananana, 7).

Também trabalhando a reorganização de símbolos e células de informação, a par de memórias musicais de vária ordem, os austríacos Orchester 33 1/3 – formação de 13 elementos liderada por Christof Kurzmann (composição, arranjos, saxofones, theremin e electrónica) e Christian Fennesz (composição, arranjos, guitarra e electrónica) –, ao contrário dos Pluramon, criam em “Orchester 33 1/3” um arquivo sonoro poderosíssimo, construído a partir de composições criadas em computador e posteriormente trabalhadas ao vivo e arranjadas pela orquestra. O tema inicial, “33 1/3”, espécie de homenagem à era do vinil, começa com ruídos de discos riscados sobre os quais se vai erguendo ameaçadoramente um muro de sopros que parecem brotar das entranhas dos Urban Sax. Um dos saxofones destaca-se a seguir num solo dilacerante, acentuando uma tensão que apenas se desfaz no tema seguinte, uma sessão de jazz entrelaçado com drum’n’bass. A partir daqui, tudo se complica, num circo de duplicações e interferências que vão do “free jazz” (Peter Brötzmann é o convidado especial de “Review”) à música industrial, da histeria mais ensurdecedora de “Review 2” à electrónica sombria da marcha fúnebre de insectos em agonia, em “S. O. S.”. Uma orgia sonora e conceptual que justifica o propósito de Kurzmann, de “ligar de uma forma sensível e orgânica material contraditório: rock, improvisação, jazz, jungle, acústico, electrónica, easy listening, breakbeats, secção de metais, sampler, música ambiental e arranjos”. (Plag Dich Nicht, distri. Ananana, 9).

Depois da colisão frontal provocada pelos Orchester 33 1/3, nada melhor, para serenar os ânimos, do que uma viagem até à Índia na companhia de Thierry Zaboїtzeff, cabeça pensante dos Art Zoyd, no seu segundo álbum a solo, depois de “Heartbeat”. “India”, composto para uma coreografia com o mesmo nome, de Editta Braun, subverte de forma subtil os códigos da música indiana. Samplagens de ritmos e vozes indianas servem como ferramentas de uma música caracterizada pelo onirismo que evoca o lado mais cinematográfico dos Art Zoyd, ao mesmo tempo que experimenta técnicas de fusão e colagem que umas vezes lembram Lazlo Hortobagyi e outras, Holger Hiller. Sensual e enigmática, a Índia de Thierry Zaboїtzeff, como a “India Song” de Duras, é um conjunto de impressões contaminadas, neste caso pelos vírus da canção romântica (“Loneliness”), do transe (“Holi trance final cut”) de diversão ou da música coral austríaca (“Austrian jungle raga”). (Atonal, distri. Ananana, 8).