Mostrar mensagens com a etiqueta PÚBLICO jornal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PÚBLICO jornal. Mostrar todas as mensagens

13/02/2019

O circo de feras passou por Alvalade [Festival Super Rock in Lisbon]


CULTURA
SÁBADO, 31 MAI 2003


O CIRCO DE FERAS PASSOU POR ALVALADE

Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson inauguraram, quinta-feira, em Alvalade, a temporada dos festivais rock. “Mosh”, urros, relva arrancada e cerveja. Quem precisa de música em ocasiões como esta?

Vendo as coisas objetivamente, a generalidade da música que se ouviu no Festival Super Rock in Lisbon, quinta-feira, no Estádio de Alvalade, na era pós-futebol, foi má. E quando não foi má, foi muito má. Mas as 20 mil pessoas que estiveram longe de esgotar o recinto (as bancadas estavam pouco mais que vazias e, no relvado, a mole humana apenas se estendia até pouco mais de metade) aderiram e gostaram.
            A prova disso residiu no espetáculo que, praticamente durante as oito horas que durou o festival, foi oferecido pela parte da assistência que se comprimia em frente ao palco e se entregou com entusiasmo a uma sessão permanente de "mosh", na sua nova modalidade: a ecológica.
            Parecia uma daquelas imagens típicas da banda-desenhada, um torvelinho de poeira com braços, cabeças e pernas a saírem pelos lados. Mas com uma novidade relativamente ao "mosh" tradicional: à confusão da carne em combate do costume juntou-se o arremesso em todas as direções (preferencialmente as cabeças) de nacos de relva – com dimensões que variavam entre o simples torrão e a placa tectónica – arrancados ao vetusto tapete verde de Alvalade. Bonito de se ver.
            Nas bancadas, pelo contrário, o ambiente era de maior contenção, até porque, à distância que se fica do palco, não dá para a excitação se propagar com a mesma intensidade.
            As bandas em cartaz cumpriram todas o que lhes era pedido, ou seja, que baixassem o nível de qualidade formal da música o mais possível até perto do zero (o que, regra geral, conseguiram) e, em compensação, forçassem, também o mais possível, o nível decibélico.
            Outra das características comuns entre as cinco bandas – Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson – foi o facto dos respetivos vocalistas passarem mais tempo a urrar do que a cantar. O efeito, esteticamente lícito, embora passível de levantar algumas objeções, teve o condão de nivelar músicos e multidão numa sessão de "gestalt" libertador. Ou, noutra perspetiva, de aproximar a pessoa humana de uma certa animalidade primordial, com a multidão a comunicar, por sua vez, entre si, através de uivos e urros. Ou, dito de uma maneira mais simples: parecia o jardim zoológico.

Volta, Alice Cooper, estás perdoado!
O rock dos Primitive Reason, que na ocasião apresentaram o novo álbum, "Firescroll", soou duro, com citações ao ska, metálico e vociferante qb. O público aplaudiu com moderação, atarefado em ensaiar as primeiras coreografias de "mosh". Intervalo para recarregar baterias, leia-se, para atestar o depósito de cerveja, mesmo com a imperial a um euro e meio.
            Seguiram-se os Disturbed. Puseram o povo a gritar "we are... we are...", que sim, que somos todos "disturbed". O vocalista urrou, pediu para a assistência pôr os "motherfuckin' fists" no ar (no que foi prontamente obedecido), a relva começou a ser metodicamente arrancada do seu lugar natural e a ser arremessada como projétil balístico. Tudo nos conformes. Intervalo para atestar o depósito de cerveja.
            Os Audioslave, de Chris Cornell, ex-Soundgarden, acompanhado de três ex-Rage Against the Machine, sem descurarem os urros da praxe, tocaram a melhor música da noite. Riffs poderosos, metal fundido que não dispensou alguns desvarios electrónicos nem a melodia, a par de uma sensibilidade sem vergonha de pedir conselhos à pop, obtiveram, contudo, da multidão, a mesma reacção. "Mosh", escalpes de relva, murros e pontapés desferidos com um misto de amor e selvajaria. Yeeeaaaahhhh! - por assim dizer. Foi muito ou foi pouco, mas foi o suficiente para os colocar acima da concorrência. Afinal de contas, os Audioslave mostraram ter algo que, provavelmente, o rock atual tende cada vez mais a desprezar: ideias. Outra boa ideia, para o intervalo: atestar – hic! – o depósito de cerveja.
            Aguardados com enorme expectativa, os Deftones rastejaram (metaforicamente) pelo chão, com uma torrente de sons em estado bruto e o vocalista a urrar mais alto do que todos os outros, intercalando o berreiro com uma espécie de mini-manifestos ideológicos. O público interiorizou a mensagem e redobrou a fúria do "mosh". Interv-hic-alo para, hic-ates-hic-tar o depósito-hic de cerveja.

            
E, finalmente, o monstro por que todos ansiavam. Marilyn Manson, com o álbum "The Golden Age of Grotesque" para mostrar. Grotesco foi, surgindo em Alvalade com o seu "look" habitual de Bela Lugosi acabado de sair do caixão. Mas, para além da maquilhagem, mostrou pouco ou quase nada. Rock de metal, rock sinfónico, baladas bimbas, uma versão, pretensamente perversa, de "Sweet dreams (are made of this)", dos Eurythmics, "showbusiness" de pacotilha que meteu umas donzelas a fingir de nuas, luzes relampejantes, tudo a despachar, tudo a soar a falso (regressa, Alice Cooper, estás perdoado!), gritos de "Portogalo" e "fight!" (ou seria "bite"?) e o omnipresente "grroaaaarrrrhhh" que acabou por se tornar o "slogan" mais entoado da noite.
            Terminada a função, do lado do público, a refrega abrandou, por fim. Com os corpos e as cabeças bem massacradas, saiu toda a gente do estádio feliz. E isso é bom. Ou, como suspirava no final uma rapariga, arrasada mas em êxtase, estendida no relvado: "Foi lindo!"


12/02/2019

Omar, que "son" tem? [Matosinhos em Jazz]


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 26 MAI 2003

Crítica Jazz



Omar, que “son” tem!

Matosinhos em Jazz
Sexteto de Paulo Perfeito + Omar Sosa Septet
Flora Purim, Airto Moreira, Miguel Braga + Orquestra de Jazz de Matosinhos
Matosinhos, Exponor
Dias 23 e 24, 21h30
Sala quase cheia nos dois dias

Qual ual “son”, qual jazz, qual cha-cha-cha, a música que Omar Sosa levou ao segundo dia do festival Matosinhos em Jazz é a música que as crianças e os poetas ouvem nos sonhos. Deslumbramento. O pianista cubano, que, na ocasião, tocou o repertório do seu mais recente álbum, “Sentir”, mais uma série de inéditos a incluir no próximo disco, é um daqueles músicos que, faça o que fizer, é como se estivesse a participar na criação do mundo através do som.
Omar cria a partir de cada nota, de cada ritmo, de cada pedaço do piano, mas a sua música é mais do que um simples alinhamento de formas. Habita nela uma energia primordial, um espírito quase infantil, em que o prazer da descoberta e a fruição do que se descobriu são as únicas regras de conduta a seguir. Em Matosinhos, o ritual incluiu cascatas rítmicas avassaladoras, “riffing” tribal e “trip’al”, jogos de refrações e ecos com as notas do piano tratadas eletronicamente. Diálogos com o silêncio e danças dervíshicas. Tradições de Cuba e romantismo, fúria e delicadeza, “clusters” infernais e o voo pacífico de pombas. A música subiu, subiu, sem parar.
Lá no alto, o piano suspendeu-se numa conversa com melodias de vento geradas por um tubo de plástico posto a girar em diferentes velocidades pelo percussionista venezuelano Gustavo Ovalles. O mesmo piano inventou sinfonias instantâneas em contraponto com as matracas agitadas pelo argelino El Houssaine Kili que, noutros temas, acrescentou à música os rendilhados vocais da música árabe.
Martha Galarraga, a cantora do grupo, cantou com o coração e fez música com gargalhadas. A seu lado, o “rapper” Breis conduziu parte da viagem. Termos como “paz”, “liberdade”, “felicidade” e “amor” libertaram-se do lastro do lugar-comum, para se oferecerem como evidências.
Breis auto-hipnotizou-se em melopeias circulares, rendeu homenagem a várias figuras do jazz, ampliou “slogans” até os fazer emergir como evangelhos. E pôs o público a dançar, a estalar os dedos, a cantar. Luis Depestre, o saxofonista, swingou como um puto entusiasmado. E Omar a tocar as cordas e as teclas, a dedilhar o ar, a criar música a partir do simples movimento do corpo. Sabendo, como só os sábios (os sábios-criança) sabem, que a música, em última instância, é puro movimento.
Comparada com esta música sem margens, a do sexteto de Paulo Perfeito, que abriu a noite de sexta-feira, pareceu vulgar. Há ali trabalho de composição, falta-lhe por enquanto o sopro vital.
Domingo abriu com os brasileiros Airto Moreira e Flora Purim e o pianista português Miguel Braga. Em regime de improviso, nenhum brilhou. Braga acumulou lugares-comuns no piano e no sintetizador, sem espaço de manobra para mais. Flora mostrou pertencer àquele grupo de vozes com chama, mas para as quais a afinação constitui um problema recorrente a resolver. Já para não falar da “gaffe” de se dirigir à assistência em francês e da qual passou depois todo o tempo a justificar-se, com lérias do tipo: “Não sou portuguesa nem brasileira, mas uma cidadã do planeta à espera que um disco-voador me venha buscar.” Airto confirmou, por seu lado, não ser um baterista mas um percussionista de exceção. A ele se ficaram a dever dois momentos-chave: a reprodução de ambientes da selva amazónica e um solo de pandeireta e “scat” que fez sobressair o tipo de lógica intuitiva (passe o paradoxo...) que assoma aos músicos que detêm o poder de estabelecer ligação direta com a fontes.
O jazz “jazz” regressou com a Orquestra de Jazz de Matosinhos, dirigida pelos pianistas Carlos Azevedo e Pedro Guedes. Excelente na arquitetura coletiva com base num repertório original por vezes edificado sobre a planta de Gil Evans, a orquestra ofereceu largo espaço de destaque aos solistas, bem aproveitado por Andrés Tarabbia (“Pancho”), num imaginativo jogo de percussão, e Paulo Pinto, que disparou uma rajada certeira de guitarra elétrica bem rockeira.
Mas o melhor solista da noite foi o trompetista convidado Eric Vloeimans, o que se viria a confirmar, madrugada dentro, na “jam” que decorreu no bar B-Flat com a presença de uma quantidade de instrumentistas portugueses e do tocador de harmónica espanhol Antonio Serrano. A Orquestra de Jazz de Matosinhos terá a dirigi-la a pianista, compositora e arranjadora Carla Bley, a 20 de Junho, no Festival em Obra Aberta, que se realizará na Casa da Música, no Porto, ainda antes da sua abertura oficial.

EM RESUMO
Omar Sosa O ritual celebrado pelo pianista cubano ultrapassou tudo o resto que se ouviu nas duas últimas noites do Matosinhos em Jazz

Charlie Haden e Pat Metheny travam diálogo intimista no CCB


CULTURA
DOMINGO, 18 MAI 2003

Charlie Haden e Pat Metheny travam diálogo intimista no CCB

“Missouri Sky Duets” repete amanhã no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz


Charlie Haden e Pat Metheny começam hoje, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, a contar as histórias que fazem parte do seu projeto comum, “Missouri Sky”. Registado em disco, em 1996, sob o título “Beyond the Missoury Sky (Short Stories)”, para o selo Verve, deu origem ao espetáculo “Missouri Sky Duets” que hoje sobe ao palco do CCB e que amanhã repete no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz.
            “Missouri Sky” reúne episódios do Midwest americano, interpretados de forma intimista e acústica por dois tecnicistas de grande envergadura, ambos nativos do Missouri: “The precious jewel”, “He’s gone away”, “The moon is a harsh mistress”... Além de “Beyond the Missouri Sky”, Haden colabora com o seu contrabaixo em álbuns do guitarrista como “80/81”, “Rejoicing”, “Song X” e “Secret Story”.
            “É simplesmente um dos melhores músicos de improvisação, e a sua forma de execução no contrabaixo estabeleceu as bases do que são agora várias gerações de músicos”, diz Pat Metheny sobre Charlie Haden. E Charlie Haden diz de Pat Metheny: “É um inovador pelo som que transmite, bem como pelas suas composições e improvisações. A sua música está fora de qualquer categoria. Ele é do Missouri, tal como eu, o que seguramente tem relação com isto. A este som denomino-o de americano contemporâneo impressionista.”
            Pat Metheny, o guitarrista das camisolas às risquinhas que já por diversas vezes atuou em Portugal, é imprevisível. O jazz ambiental que cultivou desde os anos 70 numa série extensa de álbuns gravados para a ECM, como “Bright Size Life” (1975), “Watercolours” (1977), “Offramp” (1981), “First Circle” (1984) ou os clássicos “80/81” (1980) e “As Falls Witchita, so Falls Witchita Falls” (1980), é apenas uma das facetas musicais deste virtuoso que tanto se mostra capaz de se divertir a tocar jazz de fusão com tonalidades “country” (“American Garage”, 1979), como de se revelar um intérprete de exceção de Ornette Coleman (“Song X”, 1985) ou de simplesmente estoirar com as aparelhagens, como no exercício de puro “noise” que é “Zero Tolerance for Silence” (1993), quando não de se espreguiçar pelo MOR (“Middle of the Road”) mais xaroposo, em “Still Life (Talking)” (1987) e “Secret Story” (1992).
            O seu mais recente trabalho, na linha de “New Chautauqua” (1978), tem por título “A Quiet Night” e nele se pode escutar uma série de exercícios introspetivos executados em guitarra barítono.
Haden é um dos pilares do contrabaixo moderno. Impulsionador da mítica “big band” Liberation Music Orchestra, com Don Cherry, Michael Mantler, Roswell Rudd, Gato Barbieri, Dewey Redman, Carla Bley, Andrew Cyrille e Paul Motian, entre outros, Haden apresenta-se como o apologista de ideologias de esquerda que os portugueses puderam ouvir tocar a “Internacional socialista” numa das edições da Festa do Avante!. Gravou com Ornette Coleman antes de se aventurar, ele próprio, pelas alamedas luxuosas da editora ECM, em “Magico” (com Jan Garbarek e Egberto Gismonti, 1979), “Folk Songs” (1979) e o clássico “The Ballad of the Fallen” (1982), onde recupera o formato instrumental da Liberation Music Orchestra. Os quatro volumes de “The Montreal Tapes”, gravados para a Verve em 1989, mostram o contrabaixista na sua melhor forma, fazendo esquecer que se trata do mesmo músico que, recentemente, gravou o delicodoce
            “American Dream”. “Missoury Sky Duets” são para se ouvir em silêncio, imaginando as vastas paisagens do Missouri.

Charlie Haden & Pat Metheny – Missoury Sky Duets
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Hoje, às 21h. Tel.213612444.
Bilhetes entre 15 e 40 euros
FIGUEIRA DA FOZ. Centro de Artes e Espetáculos. Amanhã, às 22h. Tel. 233407200.
Bilhetes a 37,50 euros.

08/02/2019

História do fado custa um milhão de euros


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 2 MAI 2003


História do fado custa um milhão de euros

ESPÓLIO NAS MÃOS DE COLECIONADOR INGLÊS

Um milhão de euros é quanto pede Bruce Mastin pela sua valiosa coleção dos primórdios do fado. São cinco mil discos raros, de 78 rotações. A proposta de compra vai ser feita nos próximos dias

O fado vende-se. O fado compra-se. O fado paga-se. Paga-se e bem, sobretudo quando se trata de um espécime raro. Imagine-se um espólio de cinco mil discos de 78 rotações, a maior parte deles inéditos, remontando as gravações mais antigas, ainda em cilindro de cera, a 1904. Este espólio existe, mas está nas mãos de um inglês.
            O fado é nosso. Pois é. Mas quem tem uma parte importante dele é o britânico Bruce Mastin, colecionador. Acontece que Mr. Mastin, sabendo do interesse do Estado português em adquirir a preciosidade que, em meados do século passado, adquiriu num armazém de Lisboa por tuta e meia, até compreende e aceita as razões lusitanas, mas, desfazer-se dela, só a troco de um cheque de um milhão de euros.
            E vale esse dinheiro? Se vale! Nesses cinco mil discos está impressa a origem do fado gravado, quando, em 1926, a companhia inglesa Gramophone, com sede em Hayes, Middlesex, estabeleceu filiais em Lisboa (na Valentim de Carvalho) e no Porto (no Grande Bazar do Porto). As duas fábricas de gramofones e discos encetaram então um intenso processo de gravação de discos, com orçamentos que previam o pagamento aos artistas, aluguer das salas de gravação, publicidade, salário dos engenheiros de som (Fleming e Draycott, assim se chamavam os dois técnicos que a firma inglesa fazia deslocar a Lisboa para o efeito), equipamento, etc... As sessões duraram até 1936, a II Grande Guerra estalou entretanto e a Gramophone Company deixou Portugal, abandonando o espólio que o sr. Mastin teve a sorte de encontrar.
            Entre as históricas gravações contam-se os nomes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor e Maria Victoria, todas registadas em 1904. Mais recentes, há 78 rotações de, entre outros, Maria Alice, Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista, Maria do Carmo Torres e dos míticos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e Alfredo Duarte (Marceneiro). Fado como se cantava nos cafés Vitória ou Luso, este último descrito no início dos anos 30 pelo musicólogo Rodney Gallop como “um retângulo amplo, cuja entrada era interdita aos portadores de bonés ou boinas”.

Peças únicas
Tudo isto existe, tudo isto é triste (enquanto não passar para cá), tudo isto é fado. Que fazer, então, para que deixe de ser triste? João Pinto Sousa, diretor da empresa Corda Seca, especializada em iconografia do fado, e elemento da associação Movimentos Perpétuos, quer ir pessoalmente a Londres e trazer o tesouro para Portugal, custe o que custar. De preferência, menos do que o milhão de euros pedidos pelo sr. Mastin (uma “exorbitância”), mas se for mesmo preciso puxar os cordões à bolsa, paciência.
            Antes, já uma comissão oficial se deslocara a Londres, chefiada por Joaquim Pais de Brito, diretor do Museu Nacional de Etnologia, para testemunhar “a mais-valia e a importância deste espólio para Portugal”, até porque são “os primeiros fados gravados” e urge devolvê-los à pátria onde nasceram. Feita a avaliação, é a vez de João Pinto de Sousa viajar até Londres para tentar convencer o colecionador, o qual, segundo parece, se mostra “sensível” às razões dos portugueses.
            Com ligações afetivas à Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, empresa municipal interessada na transação, é nessa condição que João Pinto Sousa recebeu “todo o apoio para poder, também como cidadão”, fazer tudo o que estiver ao seu alcance “para, com algumas boas influências, nomeadamente do próprio Presidente da República, tentar trazer a coleção para Portugal”.
            Atingido tal objetivo, os cinco mil discos (dos quais, “pelo menos, 4500 são peças únicas”) serão organizados, digitalizados, integrados numa base de dados e editados numa antologia, “Arquivos do Fado”, pela Tradisom, de José Moças, outra das pessoas empenhadas em recuperar os registos fonográficos “de uma das épocas mais importantes do património musical português” e exemplares cuja importância e raridade são reconhecidas por especialistas do fado como Daniel Gouveia, José Manuel Osório, José Pracana e Luís Filipe Penedo. Recorde-se que nos arquivos atuais do fado os exemplares mais antigos não ostentam data anterior a 1945. A acompanhar esta antologia será editado um trabalho inédito do investigador norte-americano Paul Vernon, com o levantamento de toda a discografia do espólio.

Preço “descabido”
Em teoria, incluindo as necessárias autorizações, está tudo pronto. Falta apenas trazer o material e, claro, falta o dinheiro para o pagar. Pinto de Sousa tentará fazer descer o preço. O dinheiro não virá do Estado – “O Ministério da Cultura (MC), através do POC, só pode apoiar a futura gravação, digitalização, reprodução, não a compra efetiva” –, mas de uma série de mecenatos, como bancos, que Pinto de Sousa procurará angariar, com base nos apoios do próprio MC, da Casa do Fado, da Câmara de Lisboa e da Presidência da República.
            Mas um milhão de euros é um preço “descabido”: “Admito que, do ponto de vista comercial, o homem seja justamente renumerado, mas o peso do que estaria em cima da balança é o de algo que é pertença de uma certa alma portuguesa. Vou tentar que ele desça à terra e seja sensível aos argumentos românticos desta história”.
            Mesmo que Bruce Mastin não desça à terra, João Pinto Sousa defende que o negócio tem que ser feito. “Há coisas que não têm preço, e este seria um dinheiro bem gasto”. Além disso, dado as primeiras gravações datarem de 1904, “era bonito em 2004, já que vamos ter a Europa a olhar para nós por causa do futebol, podermos ter também um centenário do fado”.

05/02/2019

A indomável [Nina Simone]


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 23 ABRIL 2003

Nina Simone (1933-2003)

A indomável



Sacerdotisa da “soul” e do “gospel”, cantora de jazz, intérprete de Brel, Nina Simone foi acima de tudo uma voz do tamanho do mundo que lutou contra os preconceitos. Musicais e raciais. Encontrou-se a si própria a sós com um piano. Morreu na segunda-feira

Amada e odiada. Quase sempre incompreendida. Nina Simone esteve sempre à margem de onde queriam que estivesse. E quando a encontravam, mudava de lugar. O jazz olhou-a de soslaio. A pop condescendeu em aceitá-la. Não foi nem uma cantora de jazz nem uma cantora pop. Foi uma cantora. Morreu na segunda-feira, aos 70 anos, em casa, em Carry-le-Rouet, nos arredores de Marselha, e o corpo vai ser cremado na sexta-feira, no cemitério de Saint-Pierre, na mesma cidade.
            “Se tiver que ser chamada alguma coisa” – escreveu na autobiografia “I Put a Spell on You”, de 1991 – “que seja cantora folk, porque houve mais folk e blues do que jazz na minha música”.
            “I put a spell on you”, também a emblemática canção de Screamin’ Jay Hawkins, e que integrou no seu reportório, define na perfeição a sua atitude perante a música e os que a ouviam. Folk era gospel na sua indomável voz de contralto de vagabunda entre o céu e o inferno. E gospel é “God” e “spell”, Deus e feitiço.
            Nina Simone lançou um feitiço, uma maldição. Impacientava-se e exigia dos outros o que muitas vezes não exigia de si. Uma entrevista mal conduzida, um ruído entre a assistência, eram suficientes para a exasperar. Como consequência, e de acordo com o efeito de retorno que é uma das principais leis da magia, foi paga na mesma moeda: a sua música leva, por sua vez, alguns ouvintes ao desespero.
            Houve, sem dúvida, cedências e falhas na gestão da sua carreira. De gosto e de coerência. Que se perdoam. Nina Simone era uma força da Natureza, um grito gutural num momento, uma oração rezada em segredo, no outro. É difícil descobrir o centro do ciclone, o ponto onde o orgulho e a revolta, a visão e o caos, o grito e o silêncio nela se reconciliaram em obra de arte. Mas ele existe e assombranos e essa obra tem nome: “Nina Simone and the Piano!”, álbum de 1969, reeditado pela primeira vez em CD, em versão remasterizada, pela RCA, no ano passado, e considerado pela crítica de jazz nacional como uma das reedições do ano.
            “Nina Simone and the Piano!” apresenta a cantora e compositora no formato mais despojado e intenso que é possível desejar. Voz e piano, energia e disciplina, por uma vez unem-se com a finalidade de nos fazer estremecer. É um álbum de gospel e de blues, de périplos solitários, de ascese e queda. Para alguns soará como o seu álbum mais incompreensível, porque absolutamente criado no interior de uma espécie de universo paralelo onde as emoções e o instinto se casam segundo uma lógica indecifrável pela razão. Mas esse é precisamente o caminho que não se deve seguir para dar com a música de Nina Simone. Pelo contrário, se nos abandonarmos ao vento (“Wild is the Wind” é o título de um dos seus álbuns), à água e ao fogo, à tempestade e à bonança, aí sim, encontraremos o sentido mágico em que todas as partes se juntam para revelar a imagem do Todo. Uma das canções do álbum, “Everyone’s gone to the moon”, é “crooning” astral, rito de passagem de alguém eternamente em trânsito, de uma sociedade injusta e desumanizada – que Nina sempre condenou – para um mundo ideal onde se diz que vivem os poetas.
            Nina, a nómada, que viajou na música como pela vida, deixando os EUA em 1973, falida e divorciada, para habitar na Libéria, Barbados, Suíça, Holanda, Inglaterra e França, onde se estabeleceu há oito anos, vindo aí a morrer. Nina, a “jazz singer” que o jazz esteve perto de condenar ao degredo. A ela que, numa entrevista, confessara: “Foi sempre meu propósito permanecer afastada de quaisquer categorias – é a minha liberdade. Porém, liberdade é, para mim, a própria definição do jazz, por isso não posso afirmar que não sou uma cantora de jazz.”
            Noutra canção de “Nina Simone and Piano!”, “Who am I?”, de Leonard Bernstein, é mostrada outra faceta, a do seu próprio espanto frente ao espelho, mas também a transcendência. “Acreditas na encarnação? Já aqui estiveste? Tiveste essa experiência? Então deverás questionar todas as verdades conhecidas...” Foi o que ela fez.

Jovem, prendada e negra
Eunice Kathleen Waymon (o seu verdadeiro nome) nasceu em Tryon, Carolina do Norte, há 70 anos. Filha de músicos, estudou órgão e piano na prestigiada Juilliard School, de Nova Iorque, encetando a sua carreira como pianista em 1954, num bar-churrascaria de Atlantic City, ao mesmo tempo que assumia o nome artístico por que ficou conhecida, Nina Simone, para não ser descoberta pela mãe.
            Entre dois churrascos e uma escala de piano, pediram-lhe, ou forçaram-na, a cantar. Nina cantou como se fosse Billie Holiday. Ou, por outras palavras, como se cantar fosse uma forma de sobrevivência. Já nessa altura havia quem, entretido a deglutir um bife, não se deixasse tocar. Nina vingava-se, carregando, ao piano, nas notas do classicismo, compondo a figura paradoxal de um piano de fraque a dançar com uma voz de guerreira-amazona.
            Em 1957 assinou o seu primeiro contrato discográfico, com o selo Bethlehem, conseguindo o primeiro “hit” com “I loves you, Porgy”, um tema de Gershwin extraído do musical ”Porgy and Bess”, dispersando a partir daí a sua extensa discografia (demasiado extensa e pouco criteriosa, bradam os porta-vozes do cepticismo) pela Colpix, Charly, Roulette, Philips, Verve, Mercury, Canyon, Carrere, Accord e RCA, entre outras editoras. “Nina Simone and her Friends” (1957), “The Amazing Nina Simone” (1959), “Pastel Blues” (1965), “I Put a Spell on you” (1965), “Nina Simone Sings the Blues” 1966), “Wild is the Wind” (1966), “Silk and Soul” (1967), “High Priestess of Soul” (1966), “Emergency Ward!” (1973), “Baltimore” (1978), “Live at Ronnie Scott’s” (1984) e “A Single Woman” (1993, o disco que marcou a sua reentrada no mercado norte-americano) são exemplos de uma coleção infindável de registos nos quais se inclui uma percentagem elevada de gravações ao vivo. Nina Simone actuou em Portugal, no Casino do Estoril, em Setembro de 1987.

Cantora de protesto
Tudo cabia nesta voz que levou talvez longe de mais o seu poder mas que deixou marcas em Aretha Franklin, Roberta Flack, Laura Nyro, Dee Dee Bridgewater, Rickie Lee Jones, Norah Jones e, surpreendentemente, Beth Gibbons, vocalista dos Portishead. De onde se depreende que a ”soul” girava com mais intensidade. Chamaram-lhe, aliás, “the high priestess of soul” (como o álbum), a suma sacerdotisa
da “soul”.
            Gospel, blues, jazz, pop, cabaré foram atravessados pela sua voz sem fronteiras. E a canção de protesto, fruto de uma aguda consciência social e política, que veiculou em canções como “Mississipi goddamn”, composta em resposta ao assassínio de Medgar Evers, um advogado defensor dos direitos civis da população negra, o manifesto feminista “Four women”, “Why the king of love is dead”, inspirada no assassínio de Martin Luther King Jr. e “To be young, gifted and black”, de Simone e Weldon Irvine Jr., posteriormente interpretada por Aretha Franklin e eregida hino do “black pride” norte-americano. Posição que terá levado algumas vozes críticas, como as do jornalista nova-iorquino Whitney Balliett, a afirmar que Nina se tornara “mais interessada na mensagem das suas canções do que na maneira de as cantar”. Hollie West, do “Washington Post”, preferiu chamar-lhe a representante da “indomabilidade humana”. Há cerca de cinco anos, interrogada sobre o estado do racismo nos EUA, Nina Simone declarou simplesmente: “Pior do que nunca!”
            Nina Simone cantou George e Ira Gershwin, Richard Rodgers, Billie Holiday, Duke Ellington, Weill/Brecht (“Pirate Jenny”, enquanto reflexão amarga da experiência das populações negras africanas e americanas), Jacques Brel (há quem prefira a sua versão de “Ne me quitte pas” ao original), Bob Dylan, Leonard Cohen (“Suzanne”), Bee Gees (“To love somebody”), George Harrison (“My sweet Lord”) e um tema do musical ”Hair”, “Aint’t got no - I got life”.
            Cantou como se o mundo fosse acabar num minuto e se recompusesse no seguinte. De certa forma foi isso que aconteceu quando uma das suas canções mais antigas, “My baby just cares for me”, foi usada em 1987 num anúncio de televisão do perfume Chanel e se tornou um êxito.
            Em “Nina Simone and the Piano!” alberga-se ainda uma canção, “The desperate ones”, cujos versos poderiam servir de epitáfio: “The desperate ones, they walk without a sound, the desperate ones”. Os desesperados caminham sem um ruído, os desesperados. Nina Simone disfarçou tal facto, cantando com quanta força tinha.

DISCOS PARA RECORDAR NINA SIMONE
“My baby just cares for me”
“Don’t explain”
Escolho duas canções, duas interpretações fabulosas, “My baby just cares for me” e “Don’t explain”. Ao ouvi-las, penso no legado de Billie Holliday, de Sarah Vaughan, sinto uma grande afinidade com o meu universo. Sendo Nina Simone uma cantora tão versátil, nesses dois temas consegue estar muito próxima do jazz.
Bernardo Moreira, contrabaixista

“Nina’s Choice”
É uma cantora que opta por cantar a partir do coração, da alma, de dentro. Isso dá-lhe um carisma e verdade que passa através de tudo o que ela canta. E cantar é isso. É-me difícil eleger um disco. Opto por escolher um pelo título, um álbum que se chama “Nina’s Choice”, porque se a escolha é dela certamente é soberba.
Anamar, cantora e atriz

“Nina Simone and Piano!”
Qualquer tema cantado em inglês, desde que tenha o tempo lento em que ela era genial. Qualquer disco em que ela também toque piano. Todos vão escolher a interpretação de “Ne
me quitte pas”, de Jacques Brel, uma obra genial cantada com o sotaque americano/francês. Como os grandes autores que são intérpretes, nunca ninguém cantou ou cantará como ela esta canção de Brel.
José Duarte, crítico de jazz

“In Concert/I Put a Spell on You”
“The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”
Não escolho tanto discos, mas antes canções. “Feeling good” foi a primeira música que descobri da Nina Simone. Ouvi primeiro a versão dos Mighty Bop e depois cheguei à da Nina Simone, é do CD “In Concert/I Put a Spell on You”. Fiquei completamente apaixonada. Já fiz três desfiles com músicas dela, as outras duas são “Mr. Bojangles” e “My father/dialog”, do disco “The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”.
Maria Gambina, criadora de moda

“I loves you Porgy”
A canção que melhor recordo é “I loves you Porgy”. Das muitas versões que existem do “Porgy & Bess”, a maior de todas é a dela. É de uma negritude, uma declaração de raça absolutamente tocante, maravilhosa. Como cantora foi uma referência, tinha uma voz magnificamente grave, muito emotiva. Mas as duas experiências que tive com ela em festivais foram horrorosas – era uma pessoa insuportável.
Maria João, cantora

“Feeling good”
“Feeling good” foi uma canção de Nina Simone que escolhi para o [filme] “Jaime”. Havia mais canções previstas, mas esta foi a única que ficou. Eu tinha visto a imagem final com essa canção, o tom e a letra adequavam-se, havia uma ambiguidade na voz, alguém a convencer-se que é feliz. Era uma grande voz, inconfundível.”
António-Pedro de Vasconcelos, cineasta

“The Blues”
A arte de Nina Simone é ausente de complacência. A sua maneira de cantar leva-nos ao fundo da emoção, ao coração da vida. A sua representação do mundo está na sua obra e é isso que a torna única e universal.
Mísia, fadista

31/01/2019

Bólides irlandeses ultrapassaram Mercedes [Festival Intercéltico]


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 7 ABR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

Bólides irlandeses ultrapassaram Mercedes

XIII FESTIVAL INTERCÉLTICO
Gaiteiros de Lisboa + Four Men and a Dog
4 de Abril, sala praticamente cheia
Mercedes Péon + Altan
5 de Abril, sala cheia
PORTO Coliseu

Terminou o 13.º Festival Intercéltico do Porto. Em apoteose. É quase sempre assim, quando a Irlanda desce ao Porto, com festa rija, toda a gente a dançar e um ar de felicidade estampado nos rostos e nos corpos. Os Altan cumpriram com brilho, sábado, no Coliseu, a tarefa de que foram incumbidos, divulgando a mensagem renovada de uma Irlanda definitivamente enraizada nos hábitos culturais do Intercéltico. Grande concerto, em crescendo, sem concessões. É assim que deve ser, atrair o público até à música, levá-lo a compreendê-la, senti-la e aceitá-la, ao invés de apelar aos desejos mais básicos de quem ouve. Os Altan começaram devagar, com o canto “a capella” de Mairead Ní Mhaonaigh (na foto). Os “jigs” e “reels” apareceram naturalmente, sem tiranizar a beleza de baladas como “Roaring water” ou “A tune for Frankie” (dedicado ao malogrado flautista e fundador dos Altan, Frankie Kennedy). Aos poucos os corpos soltaram-se. Vieram as danças, a imparável vontade de participar.
            Mairead, além da voz que se conhece, mostrou ser uma exímia violinista, entrando em diálogos vertiginosos com Ciaran Tourish, sem o apoio de quaisquer percussões. A assistência mostrou estar à altura dos acontecimentos, sabendo dosear a folia com o silêncio, como quando cantou, sem uma desafinação, uma melodia a quatro tempos ensinada por Mairead. Com os Altan a Irlanda profunda esteve presente no Porto e deixou marcas.
            Na véspera foi uma outra Irlanda que passou pelo Intercéltico. Ao contrário dos Altan, os Four Men and a Dog praticam uma música mais universal e tecnicista. Ausente Gino Lupari (para grande desapontamento de muitos), trocado pelo competente e amplificado Jimmy Higgins, no “bodhran”, o quarteto selou uma atuação tecnicamente irrepreensível de onde sobressaíram as acrobacias violinísticas de Cathal Hayden e Gerry O’Connor. A forma como transformaram “Music for a Found Harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra, num tema com uma complexidade harmónica que o original não possui foi exemplar da atual abordagem estilística dos Four Men and a Dog, um grupo que, sem Gino Lupari, manifestamente se tornou mais musical, ganhando em rigor o que perdeu em teatralidade e “verve” humorística. Mesmo assim, um “boogie” saído da cartola mostrou que ainda anda por ali à solta um cão vadio...
            Desiludiram as duas bandas chamadas a fazer as primeiras partes. Na sexta-feira, os Gaiteiros de Lisboa esticaram demasiado a corda. Inegável continua a ser a originalidade de uma música única no panorama da “folk” europeia. Polifonias intrincadas, uma tensão instrumental feita da polaridade entre a música antiga e a modernidade mais radical, um humor inteligente e “nonsense” mordazes, a força de percussões arrancadas ao cancioneiro
português mais genuíno, tudo isto esteve presente na atuação dos Gaiteiros na noite portuense. Faltou a unidade, a sustentação prática de um edifício cuja complexidade não cessa de aumentar. Se o motor rítmico funcionou e as vozes compensaram com a beleza do labirinto um ou outro défice de colocação, o mesmo não se poderá dizer das gaitas-de-foles numa noite em que andaram manifestamente perdidas. Nem sempre é possível acompanhar a força das marés, e a onda gigante, o macaréu, dos Gaiteiros é força da Natureza, umas vezes doce, outras tempestade difícil de domar.
            Mercedes Peón, na abertura de sábado, não esteve melhor. Não que o público não tivesse gostado. Adorou. Mas porque a cantora galega lhes ofereceu prato de fácil digestão: batidas rock de baixo elétrico e bateria, cânticos fortes servidos por um vozeirão que se deve ter feito ouvir na outra margem do Douro, gaitadas meia-bola-e-força e canções dignas de uma “Operação Triunfo” não tiveram dificuldade em impor-se. Mas Mercedes foi mais veículo de carga do que automóvel de luxo. No “stand” do Intercéltico, os bólides irlandeses continuam a ser os mais viáveis.

EM RESUMO
Duas Irlandas, a profunda dos Altan e a universalista dos Four Men and a Dog, “arrasaram” o Coliseu do Porto.
Gaiteiros e Mercedes foram a arranjar para a oficina

Orquestra Victor Jara [13º Festival Intercéltico do Porto]


CULTURA
SÁBADO, 5 ABR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

Orquestra Victor Jara

Brigada Victor Jara + Shantalla
PORTO Coliseu dos Recreios
Quinta dia 3, às 21h30
Meia sala

Não correu de feição a estreia no palco principal do Coliseu dos Recreios da banda irlandesa Shantalla, a abrir a 13ª edição do Festival Intercéltico do Porto, perante pouco público e com o azar e o clima de crise a fazerem-se sentir. Helen Flaherty, a fotogénica cantora do grupo, não esteve presente, devido à morte do pai, sendo substituída à última hora por Niamh Parsons, que o Intercéltico já acolhera como cantora dos Arcady.
            Niamh não teve culpa. Voz e sensibilidade à altura, defendeu-se da notória falta de ensaios, optando por vocalizações “a capella”, ou com o apoio cauteloso da guitarra de Joe Hennon e as tímidas pontuações decorativas do violino de Kieran Fahy e o acordeão de Gerry Murray. Foi, porém, no desempenho instrumental que os Shantalla desiludiram, não fazendo jus às capacidades que dão a entender no belíssimo álbum “Seven Evenings, Seven Mornings”.
            Michael Horgan, que no disco faz maravilhas, aparentou ser um executante vulgar nas “uillean pipes”, embora tenha ficado a ideia de uma amplificação deficiente do instrumento. O palco enorme do Coliseu confirmou, por outro lado, estar longe de proporcionar a intimidade de um “pub”... Os músicos e as notas pareceram desligados, faltou alegria, com o público a reagir automaticamente aos apelos à dança e aos apartes que entraram na rotina, das referências ao álcool ao “peço desculpa mas o meu português é muito fraco” da praxe. Difícil filtrar o ar da tristeza do tempo...
            Na primeira parte a Brigada Victor Jara surpreendeu. Arrancada a um estado de letargia que ameaçava conduzir a banda para o estatuto de “velha glória” resignada a receber o “prémio de carreira”, a música readquiriu uma vitalidade e um sentido de urgência que o recente álbum ao vivo não fazia prever. O palco encheu-se de 19 músicos, incluindo uma secção de metais dirigidos pelo trompetista Tomás Pimentel e quatro gaiteiros galegos dirigidos por Xosé Gil Rodrigues. Muita gente numa ameaça de confusão que nunca aconteceu, graças à liderança forte do violino, cada vez mais depurado e classizante, de Manuel Rocha, e dos teclados de Ricardo Dias, a quem a Brigada Victor Jara deve muita da atual fase de renovada pujança e criatividade.
            Entre um reportório constituído por cinco originais a incluir no próximo álbum – “Dailadou”, “Caracol”, “Durme”, “Lenga lenga” e “Meninas vamos à murta” – e temas antigos como “Menino Jesus”, “Mi morena” e “Bento airoso”, submetidos a arranjos originais, destacaram-se uma épica “Cantiga bailada”, repetida no “encore”, com a Brigada transformada em orquestra de folk progressivo, e o inesquecível desempenho vocal de Catarina Moura, em “Durme”, tema da tradição sefardita a exigir concentração, afinação e emotividade sem falhas, que teve na cantora uma intérprete de exceção. A forma como resolveu a transição de tom no final de uma das frases provocou arrepios.
            O Intercéltico termina hoje com atuações da cantora galega Mercedes Péon e da superbanda irlandesa Altan.

EM RESUMO
No confronto Portugal-Irlanda, uma renovada Brigada Victor Jara derrotou os Shantalla desfalcados da sua cantora habitual