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03/04/2017

DJing in the rain [Número Festival]

SÁBADO, 2 DEZEMBRO 2000 cultura

Inundações na noite de abertura do Número Festival, no Parque Eduardo VII, em Lisboa

DJing in the rain

Houve inundações na abertura do Número Festival. A água da chuva entrou pela tenda dentro, encharcando os pés das muitas pessoas que acorreram ao Parque Eduardo VII para ouvir música eletrónica. Na enxurrada de DJing, a música dos Pan Sonic e das Chicks on Speed mal conseguiu boiar.

Várias coisas não funcionaram na primeira das três noites (quinta-feira) do festival Número que tem estado a decorrer no Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa tenda de circo instalada para o efeito. Em noite de tempestade, a água da chuva correu com fartura pelo chão, transformando-o em leito de rio. Além disso, embora o horário fosse cumprido quase escrupulosamente, houve DJing a mais para concertos a menos, o que encurtou sobremaneira as atuações dos dois grupos de palco, Pan Sonic e Chicks on Speed. Por questões de estética assumida ou erro de cálculo, rodaram em demasia os leitores de CD e gira-discos. Números para serem revistos no futuro.
Passaram, em primeiro lugar, num ecrã triplo, as imagens de uma curta-metragem realizada pelo Pogo Teatro. A banda-sonora com música de Shabotinski, Klaus Nomi e Gustavo Lamas ajudou a suportar a visão ultra-realista de uma Lisboa reduzida a ícone do vazio metamorfoseada pela mente em cenário de ações virtuais.
F. Fadigas não perdeu tempo, sentando-se de imediato aos comandos da mesa de som. O primeiro DJ da noite compôs uma massa de sons abstratos sem ponta de "groove" a que as pessoas se pudessem agarrar. Faltou-lhe o que manifestamente existe na dupla Major Eléctrico, que atuou a seguir: uma estratégia. Pedro Santos e José Moura improvisaram como uma entidade única lançando para a pista jatos de "noise", batidas subliminares e "cut-ups" que terminaram com a truncagem da voz de um anunciante de telemóveis.
Temia-se uma sova sonora a sério dada pelos finlandeses Pan Sonic. Nada que não pudesse ser resolvido com um par de tampões para os ouvidos mas, para estupefação de alguns e sobretudo para os que estiveram presentes na atuação do duo o ano passado no Festival Reset! - onde o massacre foi avassalador -, a música orientou-se por outras coordenadas. Embora a energia física que se desprende da eletrónica dos Pan Sonic se fizesse sentir e os estômagos agradecessem a massagem das baixas-frequências, a música esteve sempre focada, alternando passagens de ruído rosa com as típicas batidas "pata de elefante" ou martelo-pilão que fazem dos Pan Sonic os Kraftwerk dos esgotos, com o computador de ritmos a simular a sequência "boing, boom, tchak" de um dos álbuns dos magos de Dusseldörf. Poder e concentração num concerto que pecou por ser curto.
De outro DJ em agenda, Russell Haswell, esperava-se nova dose de agressão ou, no mínimo, de provocação. Mas se o início do seu "set" chegou a prometer sobressaltos, cedo os pratos se acomodaram às batidas de uma tecno parasitada que não estimulou ninguém – antes recordou que o bar estava ali mesmo ao lado a pedir mais uma cerveja...
O que ninguém esperava era que em vez de cerveja fosse a água o líquido da noite. Estava toda a gente a acomodar-se frente ao palco para receber as meninas Chicks on Speed quando a barragem rebentou e o dilúvio irrompeu pela calçada. Homens e mulheres transformaram-se em coelhos aos saltos em busca de uma margem. Chegar ao bar era nesta altura tarefa impossível, formando-se na zona um pequeno lago onde só faltava ouvir o coaxar das rãs.
Tempestade, alguma confusão, mas, por fim, as Chicks on Speed lá tomaram de assalto o palco, vestidas como as ninfetas punk-futuristas do início da década de 80, como Siouxsie Sioux. Começaram com a eletrónica num caos e os circuitos mal ligados mas a coisa era fácil de compor. A música das Chicks é de uma simplicidade desarmante. O que elas fazem com uma boa-disposição e empenhamento notáveis é mascar os lugares-comuns da "new wave" sintética de há 20 anos, piscar o olho ao "disco", pôr as caixas-de-ritmo em piloto-automático e armar uma pose "kitsch" para tirar o retrato aos anos e aos sons de bandas como Kas Product, Automatic Kids e Fad Gadget. Mas foi giro ouvir as pequenas cantarem "Warm leatherette" de The Normal, um hino da pop eletro-industrial da época, ou colorirem-se com os "confettis" dos B-52's numa atuação que deixou toda a gente feliz e a pedir mais. Pedido aceite e correspondido com "Euro trash girls", título que não poderia vir mais a propósito.
Já com a enxurrada estancada, o Número regressou de novo às mãos dos DJs, desta feita com a equipa da Fat Cat. Mas o que apetecia mesmo era uma toalha...
O Número Festival termina hoje com atuações do pai dos "grooves" do inferno, Aphex Twin, a "click-house" e tecno ambiental de Kid606 e People Like Us, uma rapariga de quem se diz ter ficado enfeitiçada pelos malfeitores sónicos Negativland. Queira Deus que não chova!...

15/09/2014

Pan Sonic - Aaltopiiri



Y 16|FEVEREIRO|2001
discos|escolhas

PAN SONIC
Aaltopiiri
Blast First, distri. Zona Música
8|10

Em 1974 os Kraftwerk conduziam um Mercedes metalizado por uma auto-estrada de Düsseldorf, rumo a um futuro radioso. Um quarto de século mais tarde os finlandeses Pan Sonic fazem avançar um tanque de guerra por entre a paisagem desolada de uma metrópole em ruínas. O paralelo entre as duas bandas pode ser traçado não só através da referência óbvia do “riff” eletrónico do segundo tema, a “Trans Europe Express”, da dupla Ralf & Florian, como pela organicidade da música de ambos os grupos. Com a diferença de que o corpo de “Aaltopiiri”, ao invés da anatomia ariana dos magos de Düsseldorf, é um corpo em sangue. O homem-máquina dos Pan Sonic é um mutante perdido num labirinto de tubagens e engenhos em funcionamento automático. Ambiental, implosivo, fixo na repetição rítmica, vazio de emoções, “Aaltopiiri” age como um gigantesco veículo que tudo trucida à sua passagem. Assustador.

28/08/2014

Criaturas do submundo [Pan Sonic]



Y 24|Novembro|2000
multimédia|capa

pan sonic

Criaturas do submundo

MÚSICA ELETRÓNICA, ano 2000. À superfície vêem-se luzinhas a piscar, samplers luzidios, bits em amena cavaqueira numa rave global de house, drum ‘n’ bass e breakbeats sintetizados numa pastilha que faz ver o mundo como um arco-íris de “grooves”. Os monstros habitam mais abaixo. Desçamos ao submundo. Num dos estratos mais lamacentos esconde-se o consultório dos finlandeses Pan Sonic, electro-doméstico avariado que perdeu pelo caminho a letra “A”: Mika Vainio e Ilpo Väisanen, cirurgiões de mil aberrações, colecionadores de vísceras de ciborgues, técnicos do metal mal condutor. Criaram um corpo mutante a partir dos restos da música industrial psico-mágico-totalitária dos Throbbing Gristle, do desconstrutivismo niilista dos Einstürzende Neubauten, do Black & Decker pós-new wave dos Suicide e da linha de montagem de homens-máquinas dos Kraftwerk. A música daí resultante assalta os sentidos e provoca infeções nos ouvidos e no cérebro, como poderão confirmar todos os que assistiram ao seu concerto, em Cacilhas, no âmbito do festival Reset!. A música dos Pan Sonic, dos álbuns “Vakio”, “Kulma” ou “A”, com Alan Vega, ex-Suicide, em “Endless”, ou nas apresentações ao vivo, não se ouve. Sente-se. Numa cave mal iluminada onde a dor é elétrica e parece não ter fim.
            De Kid606, jovem de 21 anos que se estreou em disco com “PS I Love You” mas envolvido já numa multiplicidade de projetos ligados à música eletrónica e à informática não se espere igualmente palmadinhas nas costas. O puto delira com a utilização de samplers e computadores em curto-circuito para infligir choques elétricos e outras agonias aconselháveis aos que já não dispensam ser estimulados pelas agulhas dos Tone Rec e Dat Politics. Click-house epilética cortada por um falso ambientalismo que transporta para o novo milénio digital a “metal machine music” de Lou Reed.
            Outro enviado do demónio dissimulado nos “grooves” da dança é Richard H. Kirk. Hoje mais “civilizado” do que quando nos Cabaret Voltaire enferrujava os alicerces da pop eletrónica com a música industrial e as técnicas de “cut-up” sonoro e ideológico.
            Atitude mais lúdica tem o trio Chicks On Speed. Nelas, a arte-pop, o artificialismo e a ironia confundem-se com música electro, performance e pós-punk. Definem-se como grupo de arte conceptual, mas no álbum “Will Save Us All!” colavam com cuspo e fita cola música experimental de Viena com pop à B-52’s, electro dos anos 80 com terrorismo sónico. Sabem estar com o mesmo à vontade nas cosmopolitas galerias de arte, nas salas de concertos e nos clubes de música de dança. Figuras coloridas do “show business”, participam nele com o propósito de o modificar. Como um número de circo a tapar a subversão.

20/12/2010

Pan Sonic - A

Sons

14 de Maio 1999
POP ROCK

Pan Sonic
A (8)
Blast First, distri. Symbiose


Depois de Matilde Santing ter perdido o “h” de Mathilde é a vez de os Panasonic deixarem cair o “A” e passarem a chamar-se Pan Sonic. Guardaram a letra para o título e lançaram já um maxi que carimbaram com um rotundo “B”. Um abecedário que promete. A dupla dos noruegueses Mika Vainio e Ilpo Väisänen, depois de no ano passado terem recriado em conjunto com Alan Vega o som dos Suicide, em “Endless”, voltaram a recolher-se ao quarto escuro dos primeiros tempos. Um quarto fechado e sem móveis, penetrado durante 24 horas por dia pelos ruídos da monotonia e da alienação. “A” tem a subtileza de uma esfera de chumbo e o apelo de uma sala de operações a funcionar no vazio. É a máquina de tortura inventada por uma das personagens de Kafka e uma cápsula de transcendência para tomar entre dois acesos de paranóia. A música dos Pan Sonic detesta o romantismo e as cores do arco-íris. Mas nutre toda a simpatia pelas linhas de montagem dos primeiros Cluster e Kraftwerk e pelas chagas de metal da música industrial. O metal de “A” não tem ferrugem, é metal vivo, como uma criatura saída da imaginação de um cientista louco. “A” é bom para meditar desde que seja sobre o nada. “A” é um afrodisíaco desde que o parceiro(a) seja um boneco(a) insuflável. “A” é música ambiente da cidade do futuro que todos desejamos que nunca venha a existir. “A” é a primeira letra do fim. “A” é “endless”, não tem fim. “The torture never stops” cantava Frank Zappa no álbum “Zoot Allures”. Mas o que provoca dor no humano dá prazer à máquina. Uma máquina programada para castigar o homem e para se masturbar até ao infinito.