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18/05/2018

Paolo Conte



Fernando Magalhães
30.06.2002 030353

O PAOLO CONTE é um génio e um "cromo" - uma das figuras emblemáticas da música popular italiana.

Já na casa dos sessenta e muitos, setenta anos, continua a surpreender: Imagina um crooner, por vezes com um registo vocal semelhante ao Tom Waits, a cantar em italiano, francês, inglês ou alemão, conforme lhe dá na cabeça, canções (algumas delas inacreditáveis - logo verás porquê... :) ), num registo ora do mais puro jazz, ora de cançoneta, ora num tom Hollywoodesco decadente. Acompanhando-se ao piano (amiúde "bêbedo", também como o de Tom Waits...), por uma "big band" à maneira ou por um kazoo!

Milongas, tangos, standards, blues marados, scat vocal, swing, sempre num registo de excentricidade inigualável.

A questão está em que, a par da "personalidade" (única), o tipo é mesmo um compositor fabuloso.

Experimenta ouvir o álbum "900", por exemplo. É como entrar num mundo que julgávamos já não existir...Algo Felliniano, por sinal, na minha opinião...

12/04/2016

O Verão é... (em 50 discos)

Y 12|JULHO|2002
música|capa

o verão é...
em 50 discos

“summertime and the living is easy...”. E o Verão é… melancólico, preguiçoso; apetece a pândega e o surf. Queima. E a música? Diz-se que é para todas as estações. Mas pode ser como o Verão: melancólica, preguiçosa, tão veloz como uma prancha e tão ardente como o sol. Finalmente, como uma miragem, porque é no Verão que o Outono mostra os primeiros sinais. O Verão é... em 50 discos – e em todos os outros que está a ouvir

Nota: artigo coletivo em que FM assinava os seguintes textos:

THE B-52´S, 1979
The B-52´s

No pico da new wave, quando não havia tempo para o Verão, os B-52’s bombardearam a pop com os penteados “Empire State Building” e as micro-saias de duas cantoras com nome de boneca: Cindy e Kate. Isso e o facto de as canções serem desalmadamente pop, plastificadas e tresandarem àquele tipo de inconsciência adolescente que faz a imbecilidade parecer um sentimento épico bastaram para colorir as festas de Verão montadas nesse final de década em todas as garagens de todas as casas de todos os subúrbios.

ORANGES & LEMONS, 1989
XTC

Apelidaram-nos de excêntricos. Eles encolheram os ombros e meteram mãos à obra na edificação de um dos edifícios mais sólidos da pop. Andy Partridge é um daqueles cérebros com circunvalações a mais, um espírito barroco e um génio da melodia, capaz de nos prender a alma com o acorde perfeito. “Oranges & Lemons” não será um dos melhores do grupo, mas é o que a capa mais psicadélica, com laranjas e limões a fingir de sóis, bons para espremer no Verão. Citrinos funk, um naipe de metais lambuzados de limonada, gomos de arco-íris e aquele tipo de voz que vai perder o comboio que só os ingleses excêntricos têm. E tem “The loving” – garantia de um arrepio de prazer.

STAN GETZ & JOÃO GILBERTO, 1964
Stan Getz/João Gilberto

Quando proliferam cocktails estragados de eletrônica, música de dança e Brasil, sabe bem “the real thing”. “The girl from Ipanema”, “Desafinado” e “Corcovado”, os clássicos, luzem. Interpretados com a alegria magoada de alguém que se sente só mas sente prazer na solidão. “Ah, porque estou tão sozinho?/ Ah, porque tudo é tão triste?/ Ah, a beleza que existe.../ A beleza que não é só minha/ Que também passa sozinha...”. É isso a bossa-nova: a tristeza mais quente do mundo, melancolia do fim do Verão, sabendo-se que tudo recomeçará sempre de novo.

MEDDLE, 1971
Pink Floyd

Depois de a chuva Syd Barrett ter passado, a música dos Pink Floyd clareou. A frescura e a indolência estivais chegaram com “Meddle”. É tudo água neste disco, das longas gotas que pingam, ondulando no lago de uma alucinação, da “suite” “Echoes”, a canções lânguidas que tentam fazer crer que tomar banho na praia do LSD não requer a digestão feita nem boia salva-vidas. “A Pillow of winds”, “Seamus” e “San Tropez” (o ácido fez cair o “it”) são passeatas nas nuvens, um piquenique no Sol, a olhar muito devagar e muito longe cá para baixo...

PARIS MILONGA, 1981
Paolo Conte

Este Piemontês de 65 anos é um génio. O crooner de um filme de Fellini, com o canto grave de Tom Waits, o talento de arranjador de uma Carla Bley, a pose “cool” de um Bryan Ferry e o humor de um faz-tudo à deriva num novelo de “spaghetti” sentimental. Tangos, variedades de faca e alguidar, as piscinas mal esvaziadas de Inverno, praias de Cinzano, o champanhe entornado na ressaca. Conte canta tudo. “Paris Milonga” é o Verão que imaginamos quando caminhamos ébrios ao longo da marginal.


calor é com eles

Barry Adamson na câmara escura, Perry Blake na Califórnia, Springsteen na América rural, Sakamoto em idílio brasileiro. O Verão vai ser com eles.

Nota: texto assinado por F.M., R.M.P. e V.C.

Está cada vez mais pequeno, o mundo. Músicas e culturas, tecnologia e pessoas, símbolos e modas, tudo se cruza e imiscui na auto-estrada da informação, em viagens mais e mais rápidas. Baile de máscaras, orgia ou reunião de trabalho, a verdade é que as diferenças se esbatem neste convívio por vezes forçado.
            Não será o caso do japonês Ryuichi Sakamoto, turista da arte há muito habituado a viajar em primeira classe, com bilhete de ida e volta, no Expresso-Oriente. O seu próximo álbum, a editar a 12 de Agosto (Sony), recria a música do brasileiro Antonio Carlos Jobim (em quem, mais do que o compositor de bossa-nova, Sakamoto viu um parente espiritual dos impressionistas franceses, como Debussy e Chopin) em colaboração com Jacques e Paula Morelenbaum.
            Mas o que poderia passar por mais um disco de versões é algo mais profundo. “Casa”, como o nome indica, foi gravado na casa de Tom Jobim, no Rio, tendo o japonês tocado no próprio piano, “ainda manchado de whisky e queimado por pontas de cigarro”, do brasileiro. As janelas estiveram abertas durante as gravações, deixando entrar o som das ondas e o bruá da cidade. Talvez mesmo algo mais, admite, referindo-se ao pássaro que entrou e pousou no tampo do piano, a meio de uma canção, para entoar a sua melodia. “Foi Tom Jobim que entrou ali, encarnando na ave, a exprimir o seu prazer, cantando uma vez mais a sua música”.
            Se Sakamoto e a ave-Jobim são música branca, o novo trabalho de Barry Adamson, “The King of Nothing Hill” (2 de Setembro, Zona Música), é, como é hábito, um filme negro imaginário, como crimes, charadas e diabolismos vários, no que o autor define como um disco sobre as “ilusões do poder”, se não mesmo sobre a vida enquanto suprema ilusão. Não por acaso, o antigo teclista dos Magazine e dos Bad Seeds de Nick Cave, já compôs para David Lynch. “The King of Nothing Hill” abre com funk e termina com pop. Pelo meio, o recheio é o mais interessante, como o próprio admite – um ambientalismo escuro, feito de conotações indecifráveis e máquinas devoradoras de cabeças. Verão na câmara escura, com papões.
            E se um jardim irlandês se transformasse no Verão californiano? “Got to get out of this place tonight”, começa por cantar Perry Blake (“This Life”), e a seguir já está numa canção chamada “California”, onde não pode deixar de assinalar que está em terra de Beach Boys e onde confessa que “a new life is what we need (...) maybe go to California, where it‘s warm”. O jardim do irlandês fez-se “road to Hollywood”, a soul refresca um universo que já chegara à saturação, a voz dá-se ares de Marvin Gaye, os horizontes alargam-se. Mantém-se a melancolia, a estrutura repetitiva... Provavelmente Blake nem se mexeu muito: “California”, o álbum (Universal, Agosto/Setembro) é uma daquelas viagens em que não chega a sair do mesmo sítio; em que o movimento é apenas ilusão.
            Se Perry Blake nos leva até uma imaginária Califórnia, Bruce Springsteen transporta-nos até à América rural. Regressa com “The Rising” (Sony, 29 Julho), o primeiro disco gravado com a E Street Band desde 1984. Da ruralidade, para uma imensidão de paisagens da América: o terceiro disco dos Queens Of The Stone Age, “Aongs for the Deaf” (Universal, 26 de Agosto), é um meio termo entre o saturado álbum de estreia e “Rated R”, o espantoso segundo disco; dos Sparta e dos Mudhoney haverá, respetivamente, “Wiretap Scars” (Universal, Agosto) e “When we were translucent” (Música Alternativa, Agosto).
            Depois do murro no estômago que foi “Xtrmntr” (“Exterminator”), o grupo de desestabilizadores liderados por Bobby Gillespie voltará a assaltar quem escutar “Evil Heat”. É o sétimo álbum dos Primal Scream (Sony Music, 5 de Agosto). Antes dele, a 22 de Julho, sai o novo dos Public Enemy, “Revolverlution”. Segue a linha dos anteriores trabalhos de Chuck D, Flavor Flav e Professor Griff: política e “scratching”.
            Mas, se existe projeto conotado com a leveza do Verão é o dos norte-americanos Thievery Corporation. Vão regressar em época de calor: “The Richest Man In The Babylon” (Setembro, pela Última). Quem também vai estar de volta em Setembro é o músico e produtor de Filadélfia King Britt. O projeto que lidera chama-se King Kooba e o nome do álbum diz tudo: “Indian Summer” (Ananana).
            De todos os nomes da inglesa Ninja Tune, poucos têm o sentido de humor e a “joi de vivre” de Mr. Scruff. Se quer ficar bem disposto no Verão aponte na agenda: 9 de Setembro. É nesse dia que sai “Trouser Jazz” (Ananana). Para um Verão mais preguiçoso convém ouvir o hip-hop de DJ Vadim – o disco dai a 23 de Setembro, pela Ananana.
            Outro trabalho a ter em consideração: os Steroid Maximus, um dos vários projetos de J.G. Thirwell (Foetus, Clint Ruin, Wiseblood). Em “Ectopia” ele dá largas a sua veia de compositor imaginário de bandas sonoras de filmes negros, num registo próximo do de Barry Adamson – um pouco menos glamoroso.

04/10/2014

Paolo Conte - Razmataz



Y 20|ABRIL|2001
escolhas|discos

PAOLO CONTE
Razmataz
Eastwest, distri. Warner Music
7|10

Pela primeira vez num carreira de décadas, o crooner genial que é Paolo Conte entregou parte das vocalizações a cantores convidados, sem que para esta opção se vislumbrem quaisquer mais valias. Sinal ou não de cansaço – o italiano já vai avançado na casa dos sessentas – a verdade é que “Razmataz” deixa o travo de alguma desilusão, sobretudo quando comparado a álbuns, não tão distantes no tempo como isso, como “900” ou os dois volumes ao vivo de “Tournée”. Inspirado em África, “Razmataz” reúne o habitual cocktail de valsa musette, cançoneta italiana e jazz, aqui polvilhados de citações africanas, como sempre tendo como pano de fundo o grave vocal único de Conte e um equilíbrio instável que ora roça a iluminação ora se afunda nos charcos de ressacas de caixão à cova, mesmo se a receita aparenta, desta feita, preocupações formalistas, na suite instrumental “Mozambique fantasy”. Pulverizadas, de resto, por instantes como “The yellow dog” (pode alguém à beira do coma alcoólico desvendar a verdadeira essência do jazz?) e “Pasta ‘diva’”, comercial de um minuto em forma de ópera-pizza.

10/04/2010

Paolo Conte - Tournée 2

Sons

15 de Janeiro 1999
DISCOS – POP ROCK

Paolo Conte
Tournée 2 (9)
East West, distri. Warner Music

O piano bêbedo, parte 2

O primeiro volume de “Tournée”, contendo gravações de uma digressão pela Europa efectuada entre 1991 e 1993, foi editado precisamente há cinco anos (crítica no Pop Rock de 11 de Janeiro). Em tons de vermelho, o iluminado “crooner” italiano demonstrava toda a sua arte de recauchutador de um tempo perdido, simultaneamente “retro” e actual. Conte é o trovador ébrio de todos os fins de noite, a personagem hesitante entre vários mundos, o popular e o jazz, o espectáculo e a poesia, o drama e a comédia. Em italiano, francês, inglês ou alemão, as suas palavras e a sua voz de barítono errante exprimem sentimentos tão fortes como vagos, filtrados pelo fundo de um copo vazio. “Tournée 2” prossegue a demonstração, actualizando espectáculos realizados entre 1994 e 1998 em salas de Roma, Milão, Nápoles, Veneza, Londres, Berlim, Varsóvia, Bruxelas, Hamburgo, Paris, Montecarlo, Amesterdão, Nova Iorque, Montréal e Atenas. Desta feita em tons de roxo e azul a ilustrarem o mesmo recorte de montanhas diluídas num horizonte de lembranças.
Acompanhado por uma “big band” ou simplesmente concentrado no seu piano forte, Conte espalha o seu talento por dois discos onde cabem antigas glórias como “Un fachiro al cinema”, “Novecento”, “A donna della tua vita”, “Swing”, “Schiava del Politeama”, “Il treno va” e o absolutamente magistral “Per quel che vale”, ao lado de originais que dão a conhecer outras cenas de uma superprodução onde o burlesco se casa com o sublime. Devemos levar a sério este cantor que dissolve o musical em lascas brechtianas, apelando à voz feminina de Ginger Brew, em “Legendary”, desfaz o jazz em puro prazer swingante, em “Gong-oh”, e confere sentidos inusitados à balada napolitana? Devemos desfazer-nos em lágrimas ou rir à gargalhada com esta navegação pelo absurdo que apenas faz sentido no pátio da nossa própria imaginação? James Bond, Franco Francchi e Ciccio Ingrasia, as mulheres de Fellini, as sombras de Tom Waits (com quem Conte partilha a posse de um piano bêbedo) e Bryan Ferry, a Europa enfiada num cenário de Hollywood. As baladas, os embalos e os tombos desta voz rouca fazem naufragar tudo o que tínhamos como fixo e definitivo. Restam fragmentos, festas ao luar, o sorriso de Duke Ellington, milongas e habaneras, paródias apalhaçadas vibrando na mortalha de um kazoo. Paolo Conte é um “virtuose”, não confundir com virtuoso, que ninguém duvide disso. O tempo da sua música não é o tempo vulgar. Ouça-se “Swing”, com a sua grande orquestra em grande forma, com solos de alta montanha, recortados contra um ecrã dos anos 30. Ouça-se o humor galopante e intimista de “Tua cugina prima (tutti a Venezia)”, a declaração apaixonada de “Spassiunatamente”. Devore-se cada entoação, cada facada no coração, cada recanto privado desta música que se ilumina nos palcos de um festival da Eurovisão privado. Paolo Conte é um génio. Alguém tem dúvidas sobre isso?