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18/04/2018

Comelade info request



Fernando Magalhães
29.04.2002 180619

Olá

Acabou de sair um álbum novo do PC, intitulado "Psicòtic Music'Hall". Crítica já na próxima sexta-feira no Y.

Quanto aos melhores álbuns, para mim, o melhor é, infelizmente, um trabalho que até à data ainda não foi reeditado em CD: "Détail Monochrome", um disco experimental anterior à fase dos instrumentos de brinquedo, um pouco na linha dos ZNR de Hector Zazou e Joseph Racaille.

Da fase "típica", digamos assim, recomendaria:

El Primitivismo (88)
33 Bars (90)
Raggazin' the Blues (91)
El Cabaret Galactico (95)

Ainda, menos representativos, mas igualmente bastante bons: "Musiques pour Films, Vol.2" (96) e "ZumZum. Ka" (98, música p/bailado)

FM

23/12/2016

Completamente normal [Pascal Comelade]

cultura QUINTA-FEIRA, 24 JUNHO 1999

Entrevista com Pascal Comelade, em concerto hoje em Coimbra, amanhã em Lisboa

Completamente normal

Colorida de absurdo e poesia, a música de Pascal Comelade é feita de recordações. Fora de moda e fora do tempo. Já tocou com os Faust e com o baterista dos Can. Faz versões-desmontagens de canções pop e compôs para Bob Wilson. Em Portugal, há uns anos, teve a acompanhá-lo o coelho das pilhas Duracell. Desta vez traz um grupo, o inseparável piano de brinquedo e sons do seu bordel musical.

"Considero o piano de brinquedo um instrumento completamente normal" diz ao PÚBLICO Pascal Comelade como justificação para o fascínio que esta miniatura exerce sobre a sua música. Já em relação a Comelade não é possível ter tantas certezas sobre a normalidade, ou aquilo que entendemos como tal. "Com o tempo esquecemos a função original do objeto que, no caso do piano, é um brinquedo para crianças, até se tornar um instrumento completamente normal", insiste, pondo a tónica na "normalidade".
            Um dos álbuns deste compositor catalão, que hoje atua em Coimbra e amanhã em Lisboa, chama-se "Musique pour Film, Vol. 2". Nada de especial a assinalar. Que pode haver de especial a assinalar numa banda sonora? Não é assim tão simples. Comelade não compôs para filme nenhum - a fazê-lo, diz, só "de desenhos animados" - e não existe nenhum primeiro volume da obra. Completamente normal...
            Foi em 1983 que Comelade montou a sua Bel Canto Orquestra, "inteiramente constituída por instrumentos de brinquedo, saxofones de plástico, trompetes de plástico, guitarras de plástico". Mas a música deste coletivo de "não músicos", um pouco à semelhança da Portsmouth Sinfonia criada na década anterior por Brian Eno, não soa, de modo algum, a plástico, mas ao próprio movimento da vida. Feita de evocações, quadros desbotados, fotos do século passado e livros de gravuras antigos. Satie e Nino Rota observam. Irrompem fanfarras, como a de Perpignan, que o catalão assimilou como um tesouro na sua infância. Ouve-se o ruído dos riscos de velhos discos de 78 rpm que o pai punha a rodar em casa, com folclore da Arménia, da Geórgia, dos Balcãs. Deixaram lastro. Ecos distorcidos de músicas com sabor e aroma. Lugares e personagens estranhas, como as da Adèle Blanc-Sec, recortadas da banda desenhada de Tardi. Haikus flutuando do Oriente, que Comelade ama sem saber porquê. E canções com títulos impensáveis: "La cathédrale des cure-dents", "J'irai verser du nuoc-mam sur tes tripes", "Le dompteur de mouches de Figueres", "Dali's mustache with gitano's chausssure"...
            Mas todos os edifícios, mesmo os de arquitetura mais bizarra, necessitam de alicerces. Os de Comelade estão fixos nos anos 70, na música dos ZNR, de Hector Zazou e Joseph Racaille ("Barricades 3" é um dos álbuns que mais o influenciou). Outra obra marcante foi o primeiro álbum dos Penguin Cafe Orchestra, editado na coleção Obscure, de Brian Eno, em particular a faixa que ocupa um dos lados do disco ("Z.O.P.F."). "Indivíduos que, numa determinada época e no mundo das chamadas novas músicas, estavam isolados e que faziam apelo à melodia".
            Pascal é um primitivo. Interessa-lhe o gesto primordial, a essência não adulterada: "Interesso-me por todas as velhas músicas, pelo que têm de instintivo". Gravou "El Primitivismo". Adere a fundações como L'Association des Amis d'Arsène Lupin, L' Association des Amis de Alfred Jarry. "É a parte da cultura francesa que me interessa", diz, ao mesmo tempo que elogia surrealistas como Alfred Jarry, Arthur Cravan, Jacques Rigaud ou Jacques Vachier. "Marginais, mesmo dentro do movimento".

“Um prazer egoísta”

            Escreve uma "Enciclopedia Logicofobista de la Musica Catalana", "dicionário de situações de indivíduos atípicos, incongruentes ou bizarros" da música na Catalunha. "Tudo verdade, não inventei nada", garante. Instala-se em Vernet-les-Bains, estância balnear do século passado cujo nome é tão evocativo como os títulos das suas canções e à qual dedica, aliás, uma.
            Em Tóquio escreve os arranjos para a "Ópera dos Três Vinténs", de Weill. Assina versões de canções de Robert Wyatt, Faust e dos Stones. E álbuns como "Haikus de Piano", "Traffic d'Abstractions" e "El Cabaret Galactic". As canções trocam de nome e de lugar, vestindo-se de novo e repetindo-se de álbum para álbum. "É uma confusão", reconhece, "tem sido assim deste o início, não sei porquê."
            Toca ao vivo, "guitarra de plástico", com os Faust, "The sad skinhead", uma canção deste grupo germânico incluída em Faust IV", em 1997, em Lîlle. "Foi uma das maiores honras da minha vida, atuar ao lado de Jean-Hervé Peron" [ex-baixista daquele grupo alemão]. E com Jaki Liebezeit, baterista dos Can, que chega a fazer parte da sua Bel Canto Orquestra, também em 97. "Um ano bizarro. No mesmo ano gravei com Péron e com Liebezeit, quando há 20 anos não passava de um fã dos Faust e dos Can".
            P.J. Harvey canta em dois temas de "L'Argot du Bruit", um dos seus álbuns recentes. "Encontrei-a por acaso. Aliás, tudo o que faço é por acaso”. Há cerca de uns cinco anos, numa entrevista em Espanha para a revista “Rock de Luxe”, o jornalista perguntou-lhe que música é que costumava ouvir em casa. A resposta foi: Captain Beefheart e Pascal Comelade. “Há dois ou três anos enviei-lhe uns discos meus. Respondeu-me passados dois dias. Encontrámo-nos pouco depois em Paris. Mas ainda levou algum tempo até à nossa colaboração".
            O último, "Zumzum-ka", fala da relação entre a função simbólica da letra "K" e o zumbido das abelhas. Compôs a partitura de "Wings on Rock", com coreografia de Bob Wilson. Não foi fácil. "Tem um tema de 55 m, enquanto as minhas canções raramente ultrapassam os 2m30...".
            Pascal Comelade define a sua música como "um bordel". É capaz de ter razão. "A música que faço está absolutamente desfasada do que se faz hoje. Não me preocupo com quaisquer noções de atualidade técnica ou com a História. É verdade que há um lado poeirento na minha música... Pertenço ao passado, sou um velho músico [risos]. O problema no Ocidente, hoje, é que todos os dias nos apontam a questão dos jovens. Eu, sou como os Cramps, há 20 anos que faço o mesmo disco e a mesma música. É o que me dá prazer. Um prazer egoísta...”
            A formação da Bel Canto Orquestra que vem a Portugal é composta por Gerard Meloux (guitarra acústica e bandolim), Patrick Cheniere (bandolim e guitarras), Patrick Felices (baixo), Philippe Dourou (percussão) e Jakob Draminsky (saxofone e brinquedos). Pascal Comelade tocará piano e brinquedos.

PASCAL COMELADE E BEL CANTO ORQUESTRA
COIMBRA Teatro Gil Vicente, hoje às 22h30
LISBOA Grande Auditório do CCB, amanhã às 21h30

Baile no bordel [Pascal Comelade]

Músicas

PASCAL COMELADE E A BEL CANTO ORQUESTRA EM COIMBRA E LISBOA

BAILE NO BORDEL

UM QUARTO VAZIO, envolvido em sombras e humidade. A um canto, como um animal acossado, um piano de cauda roído pelo caruncho rumina memórias de feitos gloriosos. Visões do século passado, salões feericamente iluminados por lustres onde silhuetas sem rosto dançam a valsa. Lá fora chove. Um vulto entra na sala e senta-se ao piano que encolhe, ronronando, até se transformar num brinquedo. Nessa altura liberta-se do teclado uma melodia. Um tango ou uma valsa. Talvez mesmo as notas desencontradas de uma canção dos Faust.
            É a primeira das primeiras melodias. O útero de todos os folclores. O mágico possuidor do poder de acordar em nós um Inconsciente que julgávamos definitivamente acorrentado, chama-se Pascal Comelade e já atuou, há alguns anos, a solo, em Portugal. Toca instrumentos de brinquedo. Não porque se trate de uma brincadeira mas porque a sua música tem a mesma inocência e a mesma crueldade que apenas as crianças conhecem e praticam. Um dos álbuns de Pascal Comelade, cuja música ele próprio define como "um bordel", chama-se "El Primitivismo" e define com clareza esse magma de impressões e emoções que existem antes do raciocínio as arrumar nos ficheiros da filosofia e as enfeitar com o verniz da estética.
            Pascal Comelade é francês de nascimento mas viveu grande parte da sua vida em Barcelona, na Catalunha. Ainda nos anos 70 conhece Richard Pinhas, dos Heldon, e Victor Nubla, dos Macromassa, compositores de música eletrónica, não admirando que o seu primeiro trabalho discográfico, "Fluence", se inclua nesta área musical. Curiosamente, Richard Pinhas participa como convidado num álbum mais recente de Comelade, "Musiques pour Films, Vol.2", num tema, "Back to Schizo", que ressuscita o minimalismo "frippiano" dos Heldon.
            Já nos anos 80, depois de um contacto fugaz com grupos comprometidos com o movimento RIO ("Rock in Opposition"), como os Henry Cow, forma os Fall of Saigon e, mais tarde, a Bel Canto Orquestra, formação errática que permaneceu até aos dias de hoje. O seu gosto pela literatura surrealista e pelo romance policial leva-o a aderir a associações como L'Association des Amis de Alfred Jarry, L'Association des Amis d'Arsène Lupin ou a Societé Sherlock-Holmes. "Détail Monochrome" e "Bel Canto" fazem a transição para uma música deslocada do tempo que evoca a banda-desenhada de Tardi, algum do cinema de Fellini, uma sessão de espiritismo e um "haiku" japonês.
            Instala-se em Vernet-les-Bains, lugar carregado da nostalgia de uma estância do século passado e ao qual dedica uma canção. Escreve uma "Enciclopedia Logicofobista de la Musica Catalana", um arquivo da vida e da obra das personalidades mais marginais da cultura catalã. Discos como "El Primitivismo" e "Danses et Chants de Syldavie" ilustram o universo, aparentemente anacrónico, que Pascal Comelade cultiva com a insistência dum maníaco, composto de danças e melodias emanados do cérebro de um fumador de ópio.
            Em Tóquio, faz os arranjos da "Opera dos Quatro Vinténs", de Kurt Weill. O Oriente continua a inspirá-lo: edita o álbum "Haikus de Piano", coleção de miniaturas de piano que incluem versões de canções pop esquizofrénica de Robert Wyatt e dos Faust lado a lado com curtas-metragens sonoras de Nino Rotta. "Traffic d'Abstractions" e o magistral "El Cabaret Galactic" refinam o lado retro e humorista da sua música, possuída por lugares e imagens tão belos e desfasados do gosto moderno como os títulos das canções: "The Lolobrigida fox-trot", "Danseur de tango descendant un escalier", "Le dompteur de mouches de Figueres", "Dali's mustache with gitano's chaussure" ou "Chanson triste pour ventriloque aphone", culminando no verdadeiro manifesto que é "Little melodie plaintive empreinte d'un grand charme nostalgique".
            Músicos como Jaki Liebezeit, dos Can, que chega a fazer parte da Bel Canto Orquestra, e Polly Jean Harvey, expressam publicamente a sua admiração pelo francês. A autora de "Is this Desire?" participa mesmo em duas canções de "L'Argot du Bruit", editado o ano passado: "Love too soon" e "Green eyes". Toca ao vivo com os Faust e com o grupo de pós-rock francês, Ulan Bator, "The sad skinhead", um tema de "Faust IV", daquele grupo germânico. Além de "L'Argot du Bruit", Pascal Comelade edita nos últimos anos os álbuns "Ragazzin' the Blues", "Musiques pour Films, Vol.2" e "Zumzum-Ka", escrito para uma coreografia de um grupo catalão.
            A formação da Bel Canto Orquestra que acompanha Pascal Comelade (piano e brinquedos) a Portugal é constituída por Gerard Cheniere (bandolim e guitarras), Patrick Felices (baixo), Philippe Dourou (percussão) e Jakob Draminsky (saxofone e brinquedos, atua amanhã em duo com Nuno Rebelo, na Galeria Zé dos Bois).

PASCAL COMELADE
Coimbra, Teatro Gil Vicente, dia 24, às 22h30
Lisboa, Grande Auditório do CCB, dia 25, às 21h30

sexta-feira, 18 Junho 1999

ARTES & ÓCIOS

03/03/2016

Pascal Comelade - Psicòtic Music’ Hall

Y 3|MAIO|2002
roteiro|discos

PASCAL COMELADE
Psicòtic Music’ Hall
Virgin, distri. EMI-VC
8|10 

A capa, como sempre, faz o filme. O título das canções, idem: “To be damnit Ornette to be”, “El zoot-horn rrotllo enmascarado”, “Don’t touch my blue oyster shoes”, com citações, respetivamente, ao saxofonista de free jazz, a um dos músicos da banda de Captain Beefheart (Zoot Horn Rollo) e aos Blue Oyster Cult, ou “The blank invasion of schizofonics bikinis”. Já são música. O que este nova coleção de tangos, chá-chá-chás e rock ‘n’ rol em registo de opereta-de-pé-quebrado propõe é o mesmo de sempre: o catalão lança as cartas, segura a pose e espera que o “bluff” faça o resto. Fica ao cuidado da imaginação. E este não se faz rogada. “Psicòtic Music’ Hall” joga com as nossas memórias falsas (como um romance de Philip K. Dick) e atira-nos para um cabaré inexistente onde nada é real mas tudo faz sentido. As cortinas rotas, o veludo gasto, os músicos de brinquedo, as bailarinas pintadas, o absinto entornado, os gestos canalhas tornaram-se familiares. Sem que nos déssemos conta, instalámo-nos na arena da loucura. “Psicòtic Music’ Hall” é “Moulin Rouge”. Um esqueleto que dança – a psicose vestida com traje domingueiro.

08/09/2014

A arte do be-pop [Rickie Lee Jones]



Y 26|JANEIRO|2001
música|rickie lee jones

classicismo é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de classe

Rickie Lee Jones – “génio”, “louca” ou “sublime”? Um pouco de tudo, como se poderá comprovar na primeira atuação ao vivo da cantora em Portugal, para apresentar “It’s like This”, coleção de standards candidata a um Grammy.

a arte do be-pop

É pegar ou largar. A voz de Rickie Lee Jones, ou se odeia ou se ama. Em todo o caso, não seria uma má ideia ela pôr umas gotas de Nazex para desentupir o nariz (será que só grava no Inverno, ao ar livre e de manga curta?). Já lhe chamaram “Tom Waits no feminino”, “génio”, “louca”, “irresponsável” e “sublime”. Tem um pouco de tudo isso, como se verá na sua primeira apresentação ao vivo em Portugal, agendada para o último dia deste mês (quarta-feira), às 22h, na Aula Magna da Universidade de Lisboa.
            O seu mais recente álbum, intitulado “It’s like this”, é uma coletânea de “standards” de autores como Gershwin, Brecker Brothers, Beatles, Traffic, Marvin Gaye e Bernstein/Stephen Sondheim, que poderá ser considerada a continuação do clássico trabalho com o mesmo formato editado pela cantora há dez anos, “Pop Pop”.
            Para já, o novo disco é candidato a um Grammy, na categoria “pop vocal tradicional”, repetindo o que já acontecera em 1979 com o disco de estreia, “Rickie Lee Jones”, que viria a arrecadas o prémio de “Best New Artist”, e em 1989, quando conquistou, de parceria com Dr. John, outro troféu, pela interpretação jazz de “Makin’ whoopie”.
            Rickie Lee Jones começou a escrever canções aos sete anos mas a sua primeira profissão, em 1976 e 1977, foi a de empregada doméstica, em Los Angeles, onde conheceu Chuck E. Weiss e Tom Waits, cujo círculo começou a frequentar e com quem chegou a ter um início de romance. No ano seguinte, foi a vez de Lowel George, dos Little Feat, a descobrir, gravando com ela o tema “Easy money” ao mesmo tempo que convenceu a editora Warner Brothers a investir no seu talento.
            Mas Rickie era uma força da natureza e adaptava-se mal às convenções. Depois de ter fugido de casa e ser expulsa da escola, por insubordinação, exigiu da editora que o produtor do primeiro disco fosse Lenny Waronker, um dos nomes mais importantes da companhia.
            O álbum saiu em 1979 e um dos temas, “Chuck E’s in love”, chegou aos lugares cimeiros do top americano, com um milhão de cópias vendidas, um Grammy no bolso e digressões esgotadas. Parecia aberto o caminho para o sucesso, mas Rickie Lee Jones era perita em desviar-se e enveredar por caminhos pouco iluminados. Desviou-se para não mais voltar a encontrar o êxito desse primeiro disco, mas em contrapartida a sua música ganhou o estatuto de culto e um núcleo de adeptos ferrenhos.
            “Pirates”, de 1981, vendeu metade do disco de estreia. Rickie fugiu uma vez mais. Desta vez mudando-se para Nova Iorque e, logo de seguida, para Paris.
            As versões de clássicos aparecem em força pela primeira vez no mini-álbum “Girl at her Volcano”, de 1983, onde a classe das suas interpretações se impunha.

            Cabeça de fantasma. Regressou a Los Angeles e a Hollywood para gravar “The Magazine” (1984), onde a sua voz inconfundível se rodeava de sintetizadores e de uma aura futurista que voltaria mais tarde a entrar em funcionamento, de forma bem mais escura, em “Ghostyhead”.
            Depois de nova fase de turbulência da sua vida privada, com casamento, nascimento de uma filha e a morte do pai, Rickie mudou uma vez mais de casa – indo viver para o campo, em França – e de editora, assinando para a Geffen o álbum “Flying Cowboys” (1990), com um novo produtor, Walter Becker, dos Steely Dan, pondo fim a um interregno de seis anos afastada dos estúdios, excetuando o single “The moon is made of gold” e o encontro com os The Blue Nile, na Escócia.
            O seu talento interpretativo explodiria em pleno em 1991, no álbum “Pop Pop”, um trabalho imaculado saído dos sonhos de uma criança magoada, apaixonada pela canção clássica e pelo be-bop. O ciclo Geffen fechar-se-ia com “Traffic from Paradise” (1993); o regresso à Warner teria lugar dois anos depois, com “Naked Songs”, revisitação acústica de alguns dos seus temas mais antigos.
            “Ghostyhead”, de 1997, marcaria outro dos seus momentos de transgressão. Álbum difícil e mal aceite por alguns, de sonoridades carregadas, explora a eletrónica industrial e o lado mais sombrio de uma personalidade sempre inquieta, permanecendo até à data como um dos seus trabalhos mais estimulantes.
            Por fim, nova mudança de editora – passagem para a Artemis –, e o regresso a um dos formatos que lhe é querido, o dos “standards”, com o novo “It’s like this” (com os convidados Joe Jackson e Taj Mahal) a fazer de novo incidir os holofotes na vertente da interpretação. Numa altura em que se tornou “trendy” fazer álbuns de versões (recorde-se que outros dois concorrentes ao Grammy de melhor “pop vocal tradicional”, Joni Mitchell, com “Both Sides Now”, e Bryan Ferry, com “As Time Goes by”, competem igualmente com álbuns de standards) não deixa de haver ironia no facto de Rickie Lee Jones ver associado o seu talento à “tradição”, quando é sabido que ela fez sempre questão de fintar as convenções.
            Mas no final do mês se demonstrará que “classicismo” é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de “classe”


TOP 10 de álbuns de “covers”

“It’s Like This” insere-se na tradição de álbuns de “covers”. Aqui ficam alguns mais representativos.

JEAN-LUC PONTY
King Kong Blue Note, 1970
“Virtuose” do violino eletrificado, ginasta do jazz de fusão, herdeiro de Grappelli, Ponty deu novo rosto instrumental ao papa dos Mothers of Invention, reinventando o humor de “Idiot bastard son” e “Twenty small guitars”, ou alinhando em cumplicidade com o mestre, em “Music for Electric Violin and low budget orchestra”.

DAVID BOWIE
Pinups EMI, 1973
O camaleão ainda arranjou tempo para vestir a pelo dos seus heróis, travestindo “See Emily play”, de Syd Barrett, “I can’t explain”, de Townshend ou “Where have all the good times gone”, de Ray Davies.

THE RESIDENTS
George and James Ralph, 1984
Os amantes da soul, se pudessem, davam-lhes um tiro. Os da música clássica, enforcavam-nos. Os “criminosos” são os Residents, e o crime foi o massacre de James Brown e Gershwin, no primeiro volume de uma série dedicada a compositores americanos deste século.

MARIANNE FAITHFULL
Strange Weather Island, 1987
Resultou do encontro mágico entre a produção de Hal Willner e uma voz do fundo da noite. Tom Waits e Bob Dylan sangrados. E os extremos de uma ressurreição sempre incompleta, entre a ferida de “As tears go by” e o despojamento sem esperança de “Boulevard of broken dreams”.

STEVE BERESFORD
L’Extraordinaire Jardin de Charles Trenet Nato, 1988
Do jazzman e lunático Steve Beresford tudo se espera. Mas foi na editora-anedota Chabada que o inglês soltou o humor nonsense e o amor pelas variedades, em particular a “chanson française”, num disco sorridente que levou ao colo as canções de Trenet.

PASCAL COMELADE
El Primitivismo Les Disques du Soleil et de l’Acier, 1988
Tudo o que toca fica em cacos. E é ao juntar os pedaços com a cola da memória que a música se transforma num brinquedo. Aqui remonta alguns dos seus preferidos: Stones, Wyatt, Nino Rota e Chuck Berry.

MARY COUGHLAN
Uncertain Pleasures Eastwest, 1990
Uma das mais sensuais vozes da atualidade, a irlandesa Mary Coughlan desfiou álbuns de “covers”, qual deles o mais brilhante. “Uncertain Pleasures” distingue-se pela arrebatadora versão de “Heartbreak hotel”, de Presley, subindo ao cume em “The little death”, dos Boomtown Rats, feito standard de jazz.

MATHILDE SANTING
Carried Away Solid, 1991
Todd Rundgren, Roddy Frame e os Doors contam-se entre os autores de “Carried Away”, veículo para a voz desta holandesa cultivar a arte da elegância. Com a meticulosidade de colecionadora e o apuro da designer.

URBAN TURBAN
Urban Turban Resource, 1994
Para os suecos Urban Turban, dar lustro a uma canção é esfregá-la com o desregramento. Sarcasmo, rock & rol e sanfonas, numa variante das barbaridades folk dos compatriotas Hedningarna. “Voodoo chile”, de Hendrix, e “Let’s work together”, dos Canned Heat, caíram que nem ginjas nas mãos dos iconoclastas.

JONI MITCHELL
Both Sides now Reprise, 2000
Uma das damas da pop deste século, na sua primeira incursão no universo das “covers”. Canções sobre o amor, numa paleta interpretativa que vai do recolhimento à orquestração majestosa das emoções. “Standards” na sua aceção mais nobre, de modelos a seguir.



13/08/2014

Pascal Comelade - Swing Slang Song + September Song



15 de Setembro 2000
POP ROCK - DISCOS


Pascal Comelade
Swing Slang Song (6/10)
September Song (8/10)
Les Disques du Soleil et de l’Acier, distri. Megamúsica

Singles de 70 minutos, álbuns duplos de 10 minutos, nunca se sabe o que se passa pela cabeça deste francês que não nasceu em França quando resolve editar discos. Acabaram de sair mais dois, deste maníaco dos instrumentos de brinquedo que gosta de fazer versões de canções recolhidas de todas as décadas para as despedaçar com o empenho de uma criança mimada. “Swing Slang Song” (oito canções, 16m27, o título é uma variante de uma canção dos Can, “Sing swan song”…) soa, porém, um bocado desconjuntado, de pouco servindo a consistência vocal de P. J. Harvey em “Love too soon” e as duas dedicatórias, a Ornette Coleman e a Kevin Ayers, num disco que não impressiona só por saber fazer beicinho. Do naipe de compositores de “September Song” (digipak, sete canções, 19m27) fazem parte Adriano Celentano (“24 mila baci”), Toto Cotugno (“L’italiano”), Bob Dylan (“Knockin’ on heaven’s door”) e Robert Wyatt. Este último, além de cantar de forma superlativa e pungente no título-tema, assinado por Kurt Weill, viu ainda incluído um estranho instrumental da sua banda Matching Mole (“Signed curtain”, do álbum “Little Red Record”) aqui interpretado ao piano pelo “francês”. Comelade volta a fazer funcionar neste seu novo embrulho de nostalgia a sua tática pessoal, através da qual consegue fazer-nos habitar os seus universos de pé-quebrado. Além dos habituais brinquedos, Comelade toca sintetizador Moog, o que não acontecia desde o magnífico “Détail Monochrome”, e uma “anti-techno orchestra”. Dylan devia ainda agradecer-lhe ter transformado uma canção sua em algo hilariante. Convidem o homem para “Os Reis da Música Nacional”!

NOTA (publicada do SONS de 22 de Setembro): “Signed curtain”, dos Matching Mole, citado na recente recensão a Pascal Comelade não é um tema instrumental, mas vocalizado, nem faz parte do álbum “Little Red Record” mas sim do disco de estreia do grupo, “Matching Mole”.