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09/11/2018

Quando Gabriel se tornou o anjo negro [Peter Gabriel]


Y 24|JANEIRO|2003
discos|roteiro

Quando Gabriel se tornou o anjo negro

PETER GABRIEL
Peter Gabriel 1
8|10
Peter Gabriel 2
7|10
Peter Gabriel 3
8|10
Virgin, distri. EMI-VC

Os últimos anos da década de 70 foram cinzentos. Peter Gabriel abandonara os Genesis e o seu teatro sinfónico para, também ele, vestir a gabardina e fungar a depressão. Mas o primeiros disco que gravou a solo, em 1977, sem outro título além de “Peter Gabriel” (o mesmo aconteceria aos três seguintes), identificado como “Car”, permanece ainda sob o domínio da fábula, ainda que a máscara começasse já a desbotar sob os efeitos da água da chuva. O álbum, ainda não totalmente liberto dos lampejos “progressivos” dos Genesis, conta algumas das melhores histórias do arcanjo, como “Solsbury Hill”, “Humdrum” ou o aviso prévio do fim dos tempos que é “Here Comes the Flood” (vale a pena ler a letra e tomar as precauções devidas…).
O segundo capítulo (1978), identificável como “Scratch”, início de um processo de transfiguração que se refletiria na sucessão de capas até ao volume quatro (o grafismo desta mostra Gabriel a rasgar a imagem pelo lado de dentro), escurece nos ciclos de mania que são qualquer coisa de inevitável sempre que está presente alguém como Robert Fripp. Fripp incluiria mesmo no alinhamento uma versão alternativa de um tema da sua autoria, “Exposure”, que serviria de título ao seu primeiro álbum a solo. “Mother of Violence” e “Animal magic” reforçam a ideia de que, provavelmente sob a influência do guitarrista dos King Crimson, Gabriel abandonara o imaginário dos Genesis para dar vida às suas visões mais obscuras e obsessivas.
No terceiro volume (1979), anotado como “Melt” (na capa o rosto do músico derrete, corroído pelo ácido), apesar do som soar hoje algo datado, a presença do Fairlight (primeiro sampler comercializado) e os tambores tribais, sem pratos, de Phil Colins, ajudam a construir uma fusão bizarra de industrialismo, surrealismo e cânticos de guerra. Prevalece o clima de crime e paranóia, em faixas como “No self-control”, “I don’t remember” e um muito genesiano “Family snapshot”. “Games without frontiers”, paródia aos “Jogos sem fronteiras” e metáfora sobre a alienação da Europa, funcionou bem como “single” enquanto o hino “Biko”, inspirado no assassinato do ativista sul-africano Stephen Biko, confere ao álbum uma nota politizada. Estava aberta a porta ao papão. Mas seria a “world” music a aproveitar a deixa no álbum seguinte. As novas reedições, remasterizadas, são em cartão, embora não respeitem na íntegra o formato das embalagens originais.

04/09/2016

Peter Gabriel - Up

Sons
20 Setembro 2002

O homem esquizóide do século XXI despertou. Em “Up” Peter Gabriel volta a emitir sinais de vida e reaprendeu a fazer esgares. Eis como soa a cabeça dele

a cabeça dele soa assim

PETER GABRIEL
Up
Virgin, distri. EMI-VC
7|10

“Up”. Como nos anteriores “So” e “Us”, a exiguidade do título permite encher o saco com conjeturas. Só que enquanto “So” era uma justificação pouco convicta e “Us” uma tentativa de reconciliação mal sucedida, “Up” soa com a urgência de uma campainha de despertador. Toca a levantar, parece dizer. Gabriel limpou as ramelas e reabriu as asas. Já não de anjo, mas de corvo.
            Nem sempre foi assim. Apesar do apelido de anjo, teve fama, até aos primórdios dos anos 80, de diabrete. Nos Genesis, disfarçado de rã com acne (como se apresentava nos concertos durante a fase mais teatral do grupo, entre 1970 e 1973) ou de Rael alucinado (personagem que encarnou no último álbum gravado com a banda, “The Lamb Lies Down on Brodway”, de 1974), e já a solo, nos primeiros quatro discos, onde ensaiou, a vários níveis, a disformidade e a alienação.
            Embalado no berço da Inglaterra do psicadelismo e do rock progressivo do final dos anos 60, juntou o universo da fábula Carrolliana a uma crueldade própria dos surrealistas. Mestre dos disfarces e da maquilhagem psicológica (como Bowie, ainda que o seu Rael seja mais complexo que Ziggy Stardust ou o Thin White Duke…) Gabriel colou (ainda como Bowie) a psicose ao entretenimento, a beleza à monstruosidade, cultivando uma ambiguidade que lhe permitiu percorrer, incólume, duas décadas de música popular.
            “The musical box”, do terceiro álbum dos Genesis (“Nursery Cryme”), é o exemplo acabado do ambiente de ópio, ocultismo e mistério que Gabriel emprestava aos Genesis, com as suas máscaras, histórias de crianças perversas e demónios vitorianos, e as vocalizações de Arlequim. Já sem o ferrete do Progressivo, enfrentou os anos 80 com o olhar renovado de um “intruder” (“The intruder”, tema de abertura do álbum a solo nº 3), observador, vítima e carrasco de uma década que foi tanto de trevas como de revolução.
            Eram os anos do néon, da descoberta do sampler (foi dos primeiros a usar em disco um “Fairlight”) e da disseminação da “world music” (causou furor a restrição das percussões, limitada aos tambores, no terceiro disco). Em cada um dos primeiros quatro trabalhos a solo, todos intitulados “Peter Gabriel”, as capas figuravam as várias etapas de uma metamorfose centrada no rosto. Da solidão, ainda romântica, personificada pelo homem triste e isolado do mundo, encolhido no interior de um automóvel (disco de estreia), ao instantâneo vídeo do volume quatro que se diria recortado de uma experiência tecnobiológica mal sucedida de Cronenberg, passando pelo esfacelamento da capa/vitrina em “trompe l’oeil” do volume 2 e a corrosão facial do volume 3, opera-se a dissolução de uma imagem, enquanto superação e aniquilação da ópera encenada com os Genesis. O rosto de “So” é já o de um homem normal.
            Mas a normalidade coincidiu com o início da decadência. Em “So” a música soa como elemento secundário. O músico cedia o lugar ao designer de jogos de computador (“Xplora” e “Eve” são marcos na evolução conceptual deste tipo de entretenimento eletrónico), ao retocador das músicas do mundo, criador do projeto editorial Real World, e ao visionário que almejava a edificação da Disneylândia artística do futuro – um gigantesco parque temático servido pelas mais modernas tecnologias, idealizado com Laurie Anderson.
            Consumada a reconversão, a máscara tombou, por fim. And “So”… acontece aos melhores, diz-se… Peter Gabriel descobriu novos interesses. As viagens pelos recônditos da mente foram trocadas por viagens de iate na companhia de atraentes top models como Claudia Schiffer. Ninguém, nem os anjos, muito menos as rãs que se transformam em príncipes encantados, escapa ao envelhecimento. Porém, se a música claudicou, divagando entre “So” e “Us”, com passagem pelo exotismo das bandas sonoras de “Birdy” e “A Última Tentação de Cristo”, de Scorsese, foi curiosamente durante este período que demonstrou, uma vez mais, por que razão nunca chegou a ausentar-se verdadeiramente do grupo dos inovadores. É que se as canções eram vulgares, o formato visual que as acompanhava, como em “Sledgehammer”, ganhavam uma originalidade sem precedentes no mundo dos videoclips, ao fazer recurso a inusitadas técnicas de animação e de colagem.

            arrancado à cama. Estavam as coisas neste pé, com os fãs já resignados a contentar-se com o melhor Gabriel confinado às consolas de jogos, quando o novo álbum, “Up”, sacudiu o entorpecimento e chamou de novo a atenção para um músico a quem estava prestes a ser retirado o benefício da dúvida. O ex-Genesis não estava, afinal, morto, mas adormecido, ou em hibernação. “Up” arrancou-o da cama. Não é o Gabriel das leviandades e das paixões plastificadas, dos abraços dengosos a Kate Bush e do fazedor de sopas com tempero do quarto mundo, mas o anjo negro que retoma o jogo das escondidas com os seus e com os nossos medos.
            O álbum, composto por dez temas dos quais apenas dois não ultrapassam os seis minutos de duração, começa com “Darkness”, tão escuro e ominoso como uma refrega de personalidades múltiplas corroídas por sonoridades industriais. Termina com “Signal to noise”, projeção apocalíptica de um presente em que a perda de referências (os sinais) equivale à predominância do ruído e consequente bloqueamento dos canais de comunicação. Como se fosse, afinal, a continuação de um aviso feito no disco de estreia: “Here comes the flood”.
            Os sinais de estática que inundam os receptores do cérebro aumentaram desde então de potência, até se tornarem ensurdecedores. O dilúvio aumentou de intensidade, tornando inúteis os guarda-chuvas e as gabardinas. Em última análise, terá sido este aumento de precipitação acompanhado do baque das gotas contra o crâneo que fizeram Gabriel olhar de novo para cima com os olhos espantados de quem reencontrou um mundo ainda mais sujo e profanado do que antes, e a descrever numa da canções do álbum, “My head sounds like this”, tema surpreendentemente evocativo dos Genesis, as circunvalações de um percurso feito de convulsões. Rael tornou-se real. Numa reconciliação com o passado e na forma como incorporou, sem sofreguidão, como em “The Barry Williams show”, algumas tendências do “groove” contemporâneo e, em “More than this”, a massa com que cozem os “hits”.
            Ou, como o seu amigo Robert Fripp (com quem colaborou em vários discos) profetizara, ele próprio vestiu a pele do “21st century schizoid man”. Hoje em dia quem é que se impressiona com um homem vestido de rã?


“Up” está disponível no dia 23

05/08/2016

Peter Gabriel - Shaking The Tree

Pop Rock
28 de Novembro 1990

O ENCOBERTO

PETER GABRIEL
Shaking the Tree
LP, MC e CD, Virgin, ed. Edisom

De anjo teatral nos Genesis, Peter Gabriel passou a esconder-se, sozinho, atrás do rosto, progressivamente deformado em cada capa de disco – desde a desfocagem provocada pelo vidro molhado do primeiro álbum, até à criatura semi-humana do quarto. A partir daí, a imagem deixou de seguir as lógicas da decomposição, centrando-se ainda assim na energia implosiva do corpo, como em “Birdy”, a neutralidade a preto e branco de “So” ou a abstração naturalista de “Passion”. Neste novo álbum, o cantor aparece filtrado pela objetiva de Robert Mapplethorpe. Vem referido na capa interior, porque a outra ainda não nos chegou às mãos. Como quase sempre acontece com os discos de retrospetiva, a escolha das canções obedece a critérios, sempre subjetivos, que em última análise se pretendem fundamentados na popularidade radiofónica, preferindo-se deste modo aquelas que mais facilmente seduzem o ouvido e se prendem à memória. Para não tornar demasiado óbvio o processo, nada como intercalar pelo meio alguns temas menos apelativos, mas de reconhecida importância em termos de coerência artística. Já se sabe a quem se destina este tipo de produtos – a todos aqueles que, por desconhecimento ou preguiça, sempre ignoraram a obra do autor, resolvendo assim poupar tempo e dinheiro na compra de uma seleção já digerida e pronta a consumir. Ganha o comprador, ganha a editora uns cobres extra e ganha o artista alguma popularidade adicional, capaz até – quem sabe? – de, numa próxima oportunidade, levar o preguiçoso (ou o pobre) a investir em discos frescos, acabadinhos de sair. Integra este apanhado um bom lote de canções, como não podia deixar de ser, dado o reconhecido talento do seu autor. Do primeiro álbum: “Solsbury Hill” e uma nova versão de “Here Comes the Flood”, apostando de novo apenas na voz e no piano de Gabriel. Do segundo, nada, nicles, nenhuma. Se é certo não ser esta das obras mais conseguidas do ex-Genesis, nem por isso uma faixa como “White Shadow” (fabulosa prestação guitarrística de Robert Fripp) deixa de figurar ao lado das suas melhores de sempre. Do disco n.º 3 constam “I Don’t Remember”, “Family Snapshot” e os inevitáveis “Games without Frontiers” e “Biko”. Do n.º 4, talvez o seu melhor até à data, foi escolhido, única e sintomaticamente, o mais comercial “Shock the Monkey”. “So”, álbum em que Peter Gabriel se revelou menos inspirado do que é costume, teve honras de ver incluídas quatro faixas: “Sledgehammer”, “Mercy Street”, “Don’t Give up” (o tal em que se abraça muito a Kate Bush) e “Big Time”. Acrescente-se, para completar, “Shaking the Street”, retirado de “The Lion”, de Youssou N’Dour, para se chegar à conclusão de que, para o já citado cliente comodista, se trata sem dúvida de um bom negócio. Para os outros, que, desde a época de “Trespass”, têm acompanhado a carreira do músico, é inútil.

Entretanto, aguarda-se com expetativa o passo seguinte à tentação “new age” de “Passion”. ***