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28/10/2008

«O temp(l)o dos celtas»

BLITZ

13.2.90

O mercado discográfico nacional foi inundado recentemente por uma série de importações de obras relativas à música tradicional de raiz celta. No meio de tanta fartura muito terão ficado confundidos com a profusão de títulos e talvez pelo súbito interesse que este tipo de música volta a suscitar. Sobretudo para estes, que não sabem por onde começar, aqui vai como que um guia orientador das melhores opções de entre a oferta disponível

«O TEMP(L)O DOS CELTAS»


A música tradicional nunca esteve (ou esteve sempre, consoante a perspectiva) na moda. Uma ou outra vez sai um pouco mais da sombra, são referidos alguns nomes e discos (geralmente os piores e menos representativos) por parte de algum crítico entediado e a coisa rapidamente passa de novo à História. Assim, periodicamente, o fenómeno renasce por entre a confusão dos «media» que apressadamente atiram com o rótulo revivalista ao ar e já está.
Quanto à música celta propriamente dita, vai dispensando e desafiando a incompreensão, o desconhecimento e todas as manobras que se vão desenrolando à sua volta. É intemporal, tem quem verdadeiramente a ame e isso basta-lhe. Os discos que agora vão enchendo as prateleiras de algumas das nossas discotecas, chegam-nos do Porto e abrangem unicamente as músicas irlandesa e escocesa. Vejamos então o que sobressai de tanta quantidade que justifique a aquisição ou pelo menos uma audição atenta.
Da Irlanda, através dos selos Claddagh e Tara, eis uma parte do que vale a pena. Tomem nota:

BAKERSWELL – Na linha dos Chieftains, com a encantatória gaita-de-foles, violino e a harpa da senhora que costuma tocar com os Oisin. Verde e água. Irlanda até ao fim.

CHIEFTAINS – O emblema musical irlandês. À disposição dos interessados nada menos que 14 álbuns, desde o primeiro, de 1964, gravado em mono, até ao recente «Ballad of the Irish Horse». Os exagerados não se contentarão com menos do que a totalidade. Em todo o caso, para os mais prudentes e selectivos, aconselho o volume 5 (na altura editado pela Island) e o seguinte, «Bonaparte’s Retreat», este último contando com a voz dessa grande senhora que dá pelo nome de Dolores Keane (posteriormente nos De Dannan a actualmente movendo-se a solo em terrenos menos tradicionalistas). Para além, claro, dos respeitáveis Paddy Moloney, na gaita-de-foles, Sean Keane e Martin Fay, os violinistas de serviço e Derek Bell na harpa. Jigs, reels, airs, hornpipes, é dançar até não se poder mais, de preferência com o bom velho whisky a acompanhar.

PLANXTY – Na minha opinião (e decerto nas de muitos mais), o grupo mais original e inventivo ao nível dos arranjos e interpretações do cancioneiro tradicional irlandês. Por aqui passaram nomes lendários como Christy Moore, Liam O’Flynn, Andy Irvine, Donal Lunny ou Matt Molloy (que também tocou nos Chieftains e nos Bothy Band). Todos os álbuns são indispensáveis mais os mais fáceis de encontrar são «The Woman I Loved so Well» e «After the Break». Corram e não parem até os encontrarem.

WHISTLEBINKIES – Anda por aí o volume 4 que é excelente. Música bastante variada ao nível das combinações instrumentais, servida por intérpretes de primeiríssima qualidade. Ah, é verdade, são escoceses, embora gravem para uma editora rival.
Merecem ainda uma escuta atenta e aquisição por parte dos fanáticos que não deixam escapar nada, os álbuns a solo de Derek Bell («Carolan’s Receipt») e Matt Molloy («Stony Steps»), o quarto discos dos Oisin («The Jeannie C»). Só para os iniciados no grau mais elevado sugiro os discos de John Molineux com música tocada exclusivamente em saltério («Douce Amère») e finalmente temas tradicionais interpretados no cravo por Sean O’Riada («O’Riada’s Farewell»).
E passemos à Escócia.

ALISON KINNAIRD - «The Harper’s Gallery». A harpa escocesa (clarsach) em todo o seu cristalino esplendor. Alison também canta e nalguns temas é ajudada pelos seus amigos da Battlefield Band, em instrumentos variados, e pelo seu marido Robin Morton, patrão e dinamizador da Temple Records, cujo estúdio é mesmo uma antiga abadia perdida algures no meio do nevoeiro.
Exclusivamente de harpa é o álbum que gravou em dueto com Ann Heymann, uma americana de alma celta apaixonada pelas cintilações do instrumento, neste caso na variante irlandesa («The Harper’s Land»).

BATTLEFIELD BAND – Os reis da festa. A Escócia infinitamente recuperada e reinventada. Cada álbum que gravam é uma constante surpresa. Passam dos ambientes mais profundamente tradicionais para um reel baseado em «Bad Moon Rising» (esse mesmo, o dos Creedence) sem nunca perderem o pé nem o toque característico da música celta. Juntam descaradamente o som da gaita-de-foles ou de instrumentos medievais ao computador de ritmos. Sabem ser sérios e divertidos nas alturas certas. Retiram da música tradicional aquilo que ela tem de essencial e acrescentam-lhe a sua própria inspiração. São brilhantes. Adquiram sobretudo os álbuns «Home is Where the Van is», «There’s a Buzz», «Anthem for the Common Man», «On the Rise» e «Celtic Hotel». Excelente é também o disco a solo do multi-instrumentista da banda, Brian McNeill, «Unstrung Hero», com temas da sua autoria mas totalmente imbuídos do espírito antigo. Uma referência final para mais alguns discos, digamos que para especialistas: «O’er the Border» de GORDON MOONEY, o paraíso para os amantes das sonoridades das diversas gaitas-de-foles (no caso as variantes escocesas das Highlands e as «cauld Wind»), «Fonn is Furan» pela voz de FINLAY MACNEILL, inteiramente cantado em gaélico, os dois volumes de «Music in Trust», uma colaboração de Alison Kinnaird com os Battlefield Band para uma série televisiva dedicada aos monumentos e zonas históricas nacionais e mais um disco dedicado à harpa de MAIRE NI CHATHSAIGH («The new strung harp»).
Há pois muito por onde escolher e para complicar ainda mais a coisa, ainda por aí andam espalhadas algumas pedras preciosas, álbuns absolutamente indispensáveis para um «folkie» que se preze. São eles:
Ashley Hutchings/John Kirkpatrick: «The Compleat Dancing Master», Boys Of The Lough: «Farewell and remember me» e «Sweet Rural Shade», Blowzabella: «A Richer Dust», Cock & Bull: «Sacred Cows and concrete routs»; House Band: «The House Band», John Kirkpatrick/Sue Harris: «Stolen Ground», June Tabor: «Ashes and Diamonds», Late Night Band: «Kings of the Baroque’a’Billy», Martin Carthy: «Out of the Cut» e «Right of Passage», Roger Watson: «Chequered Roots», Richard Thompson: «In Strict Tempo», Shirley & Dolly Collins: «Love, Dead and the Lady» e Silly Sisters: «No More to the Dance», para além de tudo o que por cá existe de Stivell, claro.
... E depois o Universo imenso que falta: da Bretanha, da Galiza, da Provença, do resto da França, do Minho e Trás-os-Montes continuam a chegar os novos bardos e trovadores. An Triskell, Tri Yann, Malicorne, Mélusine, La Bambocke, Doa, Milladoiro, Pablo Quintana, Amâncio Prada, Mont-Jóia, Le Bardon, Emilio Cao, Ronda dos Quatro Caminhos, Maio Moço e mais algumas boas dezenas de nomes mas para já estes chegam.
A Chama e Alma Celtas continuarão eternamente a brilhar.

17/09/2008

Planxty

Pop Rock

21 OUTUBRO 1992
REEDIÇÕES

PLANXTY: UM RASTO DE LUZ

Planxty (9)
The Well below the Valley (10)
Cold Blow and the Rainy Night (10)
CD, Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção
After the Break (9)
The Woman I Loved so Well (9)
Words and Music (8)

CD Tara, distri. MC – Mundo da Canção

Com a reedição recente em compacto de “Cold Blow and the Rainy Night”, fica a partir de agora disponível, neste formato, a obra completa de uma das bandas que de modo exemplar contribuíram para implantar e desenvolver o movimento de renovação da música tradicional irlandesa ocorrido em inícios dos anos 60.

Aos Planxty de deve grande parte do impacte que este género musical teve sobre as gerações mais novas do Reino Unido, Estados Unidos e Europa. Antes deles havia a tradição, no sentido mais ortodoxo do termo, celebrada por praticantes como os Clancy Brothers, Dubliners e Chieftains – estes os únicos, e tardiamente, a ousarem a reconversão para modalidades menos arreigadas às regras que limitavam a projecção desta música numa escala mais alargada. Rompendo com a estagnação e inovando sem trair o passado, os Planxty fizeram história. Os três primeiros álbuns, gravados respectivamente em 1972, 73 e 74, para a Polydor, formam uma trilogia seminal que, nessa altura, abalou a estagnação em que se encontrava o “Folk Revival” irlandês, atrasado em relação ao dos vizinhos ingleses, que já então se orgulhavam de ter apresentado o trabalho pioneiro de bandas como os Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle e Strawbs, entre outras de segunda linha. Graças aos Planxty e ao consequente “boom” de novos grupos por ele motivado, a Irlanda não só passou para a frente como é hoje o maior viveiro e cadinho de todas as experiências realizadas com e sobre a tradição de raiz celta.
“Planxty”, a estreia discográfica, pecará apenas por uma produção que se revelou não se a mais adequada para o tipo de sonoridade que viria a caracterizar a banda – uma espantosa combinação dos instrumentos de corda dedilhada (“bouzouki”, bandolim, guitarra) com as “uillean pipes” e a originalidade de vocalizações partilhadas por vários membros dos Planxty. A partir deste disco, os quatro Planxty da formação original entraram directamente para a lenda, vindo a revelar-se, todos eles, obreiros de eleite na construção do Templo.
Andy Irvine, admirador de longa data de Woody Guthrie, aplicou com sucesso à música irlandesa certas técnicas do bandolim empregues por este músico americano. Foi também um dos pioneiros na utilização da sanfona na música tradicional britânica (instrumento solista no tema “Planxty Irwin”, incluído no primeiro álbum), além de um vocalista notável que, desde os tempos dos Sweeney’s Men (onde alinhava ao lado de Joe Dolan e Johnny Moynihan), viria a criar escola e continuadores como Andy M. Stewart, dos escoceses SillyWizard.
Lyam O’Flynn, que cedo mostrou as suas credenciais de grande tocador de “uillean pipes”, digno dos mestres de antanho, dotou os “reels”, marchas e “hornpipes” de uma profundidade harmónica que lhes faltava, advinda do uso sistemático dos bordões da gaita, uso que contrariava a tendência manifestada pela generalidade de outros gaiteiros irlandeses, que privilegiavam a melodia e as ornamentações desenhadas no ponteiro. E não é por acaso que o compositor Shaun Davey lhe entrega invariavelmente o papel de solista, nas suas obras orquestrais centradas sobre a mitologia irlandesa (“The Pilgrim”, “The Brendan Voyage”, The Relief of Derry Symphony”).
Christy Moore, também credenciado vocalista, enriquecia então o som dos Planxty com a religiosidade de um órgão antigo de pedais e um estilo peculiar de percutir o “bodhran”. Moore, hoje considerado uma lenda viva na Irlanda, conseguiu passar, sem convulsões, de expoente da música tradicional assinalado em obras capitais como “The Iron behind the Velvet” a cantor popular que não descurou a origens, assim exposto em álbuns como “Ordinary Man” ou o novo “Smoke & strong Whiskey”.
De Donnal Lunny, intérprete de excepção de bandolim e ”bouzouki”, basta referir que foi um dos fundadores dos Bothy Band, gravou um óptimo disco de parceria com Paul Brady (passou pelos Planxty, hoje vegeta sem glória na Pop sentimentalona mais inócua) e é na actualidade um dos produtores e músicos de estúdio mais activos e criativos do circuito “Folk” europeu.
Com esta formação, os Planxty assinaram as duas obras-primas “The Well below the Valley” e “Cold Blow and the Rainy Night”, a última das quais pode ser considerada um dos melhores álbuns de sempre e um marco decisivo na evolução da música tradicional irlandesa. Se “The Well below the Valley” atinge a perfeição – demonstrando um equilíbrio sem falhas entre a escolha imaginativa de reportório, o virtuosismo dos intérpretes e arranjos que vão da complexidade quase “sinfónica” dos instrumentais ao intimismo apaixonado das baladas –, o álbum seguinte atinge o estado de graça.
“Cold Blow and the Rainy Night” demonstra toda a riqueza que habita o coração da música irlandesa. É um vulcão, uma floresta, um mar sem limites. Canções fabulosas: “Johnny Cope”, “P Stands for paddy, I suppose”, “Cold blow and the rainy night”, The little drummer”. Os instrumentais estão divididos por secções de “medleys”: polkas, “reels” e “jigs”. “Bañeasa’s green glade”, balada comovente, composta por Irvine, em que se narram tempos vividos na Roménia, passados entre tocar na rua a juntar moedas, passeios pela estranheza e o gastar dos tostões na taberna, entre música, a recordar os amigos e a Irlanda distante, e “Mominsko Horo” (instrumental búlgaro) são os primeiros testemunhos gravados da paixão nutrida por Andy Irvine (viveu durante algum tempo na antiga Jugoslávia) pela música dos Balcãs. Seguir-se-iam “Smeceno horo” (em “After the Break”), “Paidushko horo” (do álbum a solo “Rainy Sundays… Windy Dreams”) e a entrega total de “East Wind”, numa colaboração com Davey Spillane. Mas é preciso ouvir a totalidade para se apreender a magia e dar conta do momento irrepetível em que quatro músicos unidos por um amor comum – a uma causa, a um país, a um passado – depõem esse amor sobre a espuma do presente.
Atingida a plenitude, os Planxty separaram-se. Regressam cinco anos mais tarde em regime de “part-time”, com “After the Break”, gravado em 1979. Trazem um músico brilhante: Matt Molloy, na flauta, recrutado por Lunny, quando ambos integravam os Bothy Band, formação que deixou para a posteridade os álbuns “The Bothy Band”, “Old hag you Have Killed me” e “Out of the Wind into the Sun” (mais outro ao vivo, “Afterhours”). A mudança de editora, da Polydor para a Tara, e o passar dos anos limaram até certo ponto a sonoridade dos Planxty. Se, por um lado, o som se tornou mais sofisticado, mais claro, por outro, ficou pelo caminho alguma da energia e da vivacidade que inflamavam os discos da primeira fase. As baladas perderam em fogosidade, os instrumentais tornaram-se polidos e esquemáticos, mais formais. É que os Planxty tinham-se tornado entretanto numa instituição e a música reflectia esse novo estatuto – continuava a ser música tradicional irlandesa de excepção, mas, agora, acrescentada das obrigações e dos limites que a condição de “clássicos” lhes impunha.
Como que a reforçar esta imagem de “monstros sagrados”, de mestres consagrados a quem se pede que sejam embaixadores da Irlanda no mundo, o álbum seguinte, “The Woman I Loved so Well”, apresenta pela primeira vez uma lista de convidados: Noel Hill (concertina), Tony Linnane (violino, estreante nos Planxty, o que é sintomático da “diferença” que o grupo sempre fizeram gala em evidenciar, neste caso através da recusa de um instrumento-ícone da música irlandesa) e Bill Whelan (teclados, mais tarde produtor de “East Wind”). Derradeira obra superior, “The Woman I Loved so Well” recupera o formato esquemático de “Cold Blow”, intercalando as baladas com secções instrumentais, aqui de “double jigs”, “hornpipes” e “reels”. Lyam O’Flynn assume uma posição de destaque no seio do grupo, infiltrando por todo o lado o som das suas “uillean pipes” e culminando esta operação na homenagem prestada ao seu professor de gaita-de-foles – o lendário Leo Rowsome – no tema final “Words and Music”, desta feita com os convidados Bill Whelan, James Kelly (violino), Nollaig Casey (violino) e Eoghan O’Neill (baixo), soa como uma despedida triste, acenada em longas e lentas baladas (um pouco longas de mais, fazendo crescer a tristeza até à agonia) e num tema de Bob Dylan sobre a emigração, “I pitty the poor immigrant”. O som electrifica-se e banaliza-se, sem contudo cair na vulgaridade. Os rasgos de génio, que antes eram regra, passam a ser excepção. O adeus definitivo pronunciado pelo colectivo não poderia encontrar melhor epitáfio que “The Irish March”, título derradeiro de uma trajectória que deixou no céu um rasto de luz. A luz de uma estrela. A luz de um farol.