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13/02/2019

O circo de feras passou por Alvalade [Festival Super Rock in Lisbon]


CULTURA
SÁBADO, 31 MAI 2003


O CIRCO DE FERAS PASSOU POR ALVALADE

Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson inauguraram, quinta-feira, em Alvalade, a temporada dos festivais rock. “Mosh”, urros, relva arrancada e cerveja. Quem precisa de música em ocasiões como esta?

Vendo as coisas objetivamente, a generalidade da música que se ouviu no Festival Super Rock in Lisbon, quinta-feira, no Estádio de Alvalade, na era pós-futebol, foi má. E quando não foi má, foi muito má. Mas as 20 mil pessoas que estiveram longe de esgotar o recinto (as bancadas estavam pouco mais que vazias e, no relvado, a mole humana apenas se estendia até pouco mais de metade) aderiram e gostaram.
            A prova disso residiu no espetáculo que, praticamente durante as oito horas que durou o festival, foi oferecido pela parte da assistência que se comprimia em frente ao palco e se entregou com entusiasmo a uma sessão permanente de "mosh", na sua nova modalidade: a ecológica.
            Parecia uma daquelas imagens típicas da banda-desenhada, um torvelinho de poeira com braços, cabeças e pernas a saírem pelos lados. Mas com uma novidade relativamente ao "mosh" tradicional: à confusão da carne em combate do costume juntou-se o arremesso em todas as direções (preferencialmente as cabeças) de nacos de relva – com dimensões que variavam entre o simples torrão e a placa tectónica – arrancados ao vetusto tapete verde de Alvalade. Bonito de se ver.
            Nas bancadas, pelo contrário, o ambiente era de maior contenção, até porque, à distância que se fica do palco, não dá para a excitação se propagar com a mesma intensidade.
            As bandas em cartaz cumpriram todas o que lhes era pedido, ou seja, que baixassem o nível de qualidade formal da música o mais possível até perto do zero (o que, regra geral, conseguiram) e, em compensação, forçassem, também o mais possível, o nível decibélico.
            Outra das características comuns entre as cinco bandas – Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson – foi o facto dos respetivos vocalistas passarem mais tempo a urrar do que a cantar. O efeito, esteticamente lícito, embora passível de levantar algumas objeções, teve o condão de nivelar músicos e multidão numa sessão de "gestalt" libertador. Ou, noutra perspetiva, de aproximar a pessoa humana de uma certa animalidade primordial, com a multidão a comunicar, por sua vez, entre si, através de uivos e urros. Ou, dito de uma maneira mais simples: parecia o jardim zoológico.

Volta, Alice Cooper, estás perdoado!
O rock dos Primitive Reason, que na ocasião apresentaram o novo álbum, "Firescroll", soou duro, com citações ao ska, metálico e vociferante qb. O público aplaudiu com moderação, atarefado em ensaiar as primeiras coreografias de "mosh". Intervalo para recarregar baterias, leia-se, para atestar o depósito de cerveja, mesmo com a imperial a um euro e meio.
            Seguiram-se os Disturbed. Puseram o povo a gritar "we are... we are...", que sim, que somos todos "disturbed". O vocalista urrou, pediu para a assistência pôr os "motherfuckin' fists" no ar (no que foi prontamente obedecido), a relva começou a ser metodicamente arrancada do seu lugar natural e a ser arremessada como projétil balístico. Tudo nos conformes. Intervalo para atestar o depósito de cerveja.
            Os Audioslave, de Chris Cornell, ex-Soundgarden, acompanhado de três ex-Rage Against the Machine, sem descurarem os urros da praxe, tocaram a melhor música da noite. Riffs poderosos, metal fundido que não dispensou alguns desvarios electrónicos nem a melodia, a par de uma sensibilidade sem vergonha de pedir conselhos à pop, obtiveram, contudo, da multidão, a mesma reacção. "Mosh", escalpes de relva, murros e pontapés desferidos com um misto de amor e selvajaria. Yeeeaaaahhhh! - por assim dizer. Foi muito ou foi pouco, mas foi o suficiente para os colocar acima da concorrência. Afinal de contas, os Audioslave mostraram ter algo que, provavelmente, o rock atual tende cada vez mais a desprezar: ideias. Outra boa ideia, para o intervalo: atestar – hic! – o depósito de cerveja.
            Aguardados com enorme expectativa, os Deftones rastejaram (metaforicamente) pelo chão, com uma torrente de sons em estado bruto e o vocalista a urrar mais alto do que todos os outros, intercalando o berreiro com uma espécie de mini-manifestos ideológicos. O público interiorizou a mensagem e redobrou a fúria do "mosh". Interv-hic-alo para, hic-ates-hic-tar o depósito-hic de cerveja.

            
E, finalmente, o monstro por que todos ansiavam. Marilyn Manson, com o álbum "The Golden Age of Grotesque" para mostrar. Grotesco foi, surgindo em Alvalade com o seu "look" habitual de Bela Lugosi acabado de sair do caixão. Mas, para além da maquilhagem, mostrou pouco ou quase nada. Rock de metal, rock sinfónico, baladas bimbas, uma versão, pretensamente perversa, de "Sweet dreams (are made of this)", dos Eurythmics, "showbusiness" de pacotilha que meteu umas donzelas a fingir de nuas, luzes relampejantes, tudo a despachar, tudo a soar a falso (regressa, Alice Cooper, estás perdoado!), gritos de "Portogalo" e "fight!" (ou seria "bite"?) e o omnipresente "grroaaaarrrrhhh" que acabou por se tornar o "slogan" mais entoado da noite.
            Terminada a função, do lado do público, a refrega abrandou, por fim. Com os corpos e as cabeças bem massacradas, saiu toda a gente do estádio feliz. E isso é bom. Ou, como suspirava no final uma rapariga, arrasada mas em êxtase, estendida no relvado: "Foi lindo!"


25/01/2019

O sentido da vida, segundo os Sparks


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 28 MAR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

O sentido da vida, segundo os Sparks

Sparks
LISBOA Grande Auditório CCB
26 de Março, 21h
Sala praticamente cheia

“Lil’ Beethoven”, uma mini-ópera gelada que desmonta os lugares-comuns da sociedade e do “show business” contemporâneo, foi apresentado anteontem no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para uma plateia praticamente cheia e deslumbrada pela estranheza do novo álbum dos Sparks. Montra de manequins e projeções de vídeo, habitado por estranhos personagens como o pianista de braços ridiculamente longos que Ron Mael protagonizou em “How Do I Get to Carnegie Hall?”, numa referência inicial ao universo dos Monty Python (houve quem descortinasse Samuel Beckett neste teatro do absurdo), citada de “The Meaning of Life”. “Lil’Beethoven” pode ser visto, aliás, como uma outra leitura, tão retorcida e não menos cáustica do que a do mítico grupo cómico inglês, do sentido da vida. Ron Mael, embora já sem o bigode à Hitler que o popularizou nos anos 70 e 80, continua a ter o ar de empregado de escritório engravatado que está ali por engano mas que em “Ugly Boys with Beautiful Girls” passeou pelo palco, com ar imbecil, de braço dado com uma morena escultural.
            Musicalmente esta primeira parte seguiu à risca o alinhamento de “Lil’ Beethoven”, com utilização de sons pré-gravados e a presença adicional de uma baterista e de Dean Menta, ex-Faith No More, na guitarra. “My Baby’s Taking Me Home”, um dos temas melodicamente viciantes do álbum, com Russell a repetir a mesma frase até à exaustão e Ron a recitar um “poema” indescritível sem desmanchar o ar de autista compenetrado, deixou o público num estado intermédio entre o choque e o deslumbramento.
            Numa segunda parte preenchida com temas de álbuns como “Indiscreet” e “Propaganda”, os Sparks entraram na onda de parolice “electro” que voltou a estar em voga. O conceptualismo de “Lil’ Beethoven” deu lugar ao exagero assumidamente gratuito e a tiques que foram dos Yello aos Soft Cell, passando pelos Simple Minds e Pet Shop Boys. Russell não resistiu a fazer de “bicha” louca, mas mesmo no meio deste serão pela Feira Popular coube uma vez mais ao irmão Ron o papel de rei das farturas, no momento mais genial e hilariante da noite. Foi assim, embora as palavras descrevam mal o absurdo da situação: Russell apresenta o irmão como principal artífice do conceito Sparks. A música
pára, as luzes apagam-se deixando apenas um holofote apontado à figura solitária de Ron Mael. Este aproxima-se timidamente da boca de cena e, após alguns segundos de hesitação, olhando o vazio com expressão esgazeada, desata a fazer um desengonçado sapateado. Muitos dos espetadores no CCB ter-se-ão nesse instante recordado de um dos momentos mais cómicos da história da Humanidade, aquele em que John Cleese faz o seu número de “passos disparatados” noutro “sketch” dos Monty Python.
            No final, com “encore”, o público aplaudiu de pé, rendendo-se à desfaçatez com que os Sparks, ao fim de 30 anos, continuam a ridicularizar os lugares-comuns da música pop.

15/10/2018

Concertos em 2013


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 3 JANEIRO 2003

Pop e rock para todos os gostos, mas porque não experimentar o jazz?

CONCERTOS EM 2013

Red Hot Chilli Peppers, Sigur Rós e Massive Attack são alguns dos nomes agendados para os cinco primeiros meses deste ano

Na altura de ser feito o anúncio dos concertos em Portugal para os próximos meses, a regra é escrever-se que os haverá para todos os gostos. Pois bem, podemos adiantar que relativamente aos primeiros cinco meses do novo ano haverá em Portugal muitos concertos e para todos os gostos. Senão vejamos.
            Já este mês, a agenda tem apontados nos dias 24 e 25 espetáculos dos The Misfits, respetivamente no Paradise Garage, em Lisboa, e no Hard Club, em Gaia. Os The Misfits são uma banda ao gosto dos apreciadores de rock pesado. Virão com dois convidados vagamente especiais, Marky Ramone, dos Ramones, e Dez Cadena, dos Black Flag.
            Exatamente nos mesmos dias, só para baralhar e tirar público aos Misfits, os Red Hot Chilli Peppers vão fazer-se ouvir alto e bom som no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. São uma das bandas do momento e uma das favoritas dos filhos de quase toda a gente que gostaria que os seus filhos gostassem de outro tipo de música. Mas não há nada a fazer: pais, vão começando a pensar em comprar os bilhetes. O álbum mais recente chama-se "By The Way".
            Ainda antes destes dois concertos, terão lugar outros, ostentando o selo de qualidade dos Morphine. Falamos dos Twinemen, ou seja, Morphine menos o malogrado Mark Sandman. Três datas a não perder: dia 16 em Coimbra, no Le Son, Hard Club no dia seguinte, dia 18 no Paradise Garage.
            Ainda a 16, Andrew Weatherhall, produtor do mítico "Screamadelica", dos Primal Scream, e mentor dos Sabres of Paradise e Two Lone Swordsmen, estará no Lux, em Lisboa. Janeiro fecha com os islandeses Gus Gus, naturais de Reykjavik e, como seria de esperar, dada a latitude, praticantes de eletrónica pop a baixas temperaturas. Nota final elevada para o concerto de Janeiro do programa "Jazz ao Centro", iniciativa a realizar em Coimbra ao longo de todo o ano (parte do programa oficial de Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003), com o quinteto do contrabaixista William Parker, grupo ao qual se deve "Raining on the Moon", um dos álbuns de jazz mais apelativos de 2002.

Dos Sigur Rós a todo o jazz
Passemos a Fevereiro, com fama de mês de todas as calamidades. Esperemos que não, apesar de ser o escolhido para a visita a Portugal da seita ideológica/religiosa/musical que dá pelo nome de Current 93, filhos de Aleister Crowley, o mago negro, e projeto liderado há cerca de 20 anos por David Tibet. A música dos Current 93 já passou pelo industrial e por uma imitação de folk, consoante as alucinações pessoais do seu líder. Trazem como convidado alguém muito especial, alguém que Laurie Anderson e Diamanda Galas consideram o "crooner" perfeito – o nova-iorquino Antony Johnson. Rituais marcados para 7 e 8 no Teatro Ibérico, em Lisboa.
            Nem de propósito, Fevereiro foi igualmente o mês escolhido por outro grupo islandês, os Sigur Rós, para o seu regresso a Portugal. A Islândia será provavelmente a região do globo com mais bruxas por metro quadrado. Quanto aos Sigur Rós, foi num ápice que passaram do experimentalismo de "Von" para o ambientalismo paisagístico de "Agaetys Byrjun" e deste para o novo "( )", cuja música tenta fazer jus ao título. Datas marcadas: 28 de Fevereiro e 1 de Março, respetivamente nos Coliseus do Porto e Lisboa.
            Menos sinistro (opinião obviamente discutível), o canadiano de 43 anos Bryan Adams, autor de êxitos como "Run to you" e ilustre representante, nos anos 80, do chamado "rock sentimentalão", atua a 24 no Coliseu do Porto e a 25 no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. Os Zwan, projeto novo de Billy Corgan, ex-Smashing Pumpkins, tocam no Coliseu de Lisboa, no dia 22. O mês de Fevereiro começará aliás com a figura solar de Ney Matogrosso, que regressará aos Coliseus do Porto (dia 3) e Lisboa (dia 5) para fazer a apresentação do álbum "Ney Matogrosso interpreta Cartola", preenchido com sambas do compositor Cartola.
            Entretanto, o jazz contemporâneo continuará a marcar pontos. Com o "Jazz ao Centro" a trazer o DKV Trio, formado por três notáveis da cena de Chicago: Ken Vandermark (saxofones), Kent Kessler (baixo) e Hamid Drake (bateria).
            Março não tem que saber. Vai ser o mês do "hard rock", "heavy metal" e sonoridades afins. Os Satyricon tocam dia 6 no Hard Club e, no dia seguinte, no Paradise Garage. Os Paradise Lost, mais eletrónicos, trocam a ordem das salas - dia 17 no Paradise, dia 18 no Hard. A 23 chega o "black metal" dos Cradle of Filth, no Paradise.
            Absolutamente imperdível será o concerto do "Jazz ao Centro", protagonizado pelo quarteto do saxofonista David S. Ware, com Matthew Ship (piano), William Parker (contrabaixo) e Guillermo E. Brown (bateria). Ware é um coltraniano no ascetismo e um ayleriano no ardor das labaredas e na intensidade do grito. A sua obra "Godspellized" (1996) é prima. Sangue e luz. Experiência arrasadora. Ao vivo também será assim.
            Em Abril haverá blues. Ligeiramente loucos. Por Bob Log III. Performance marcada para dia 24, no Le Son, em Coimbra. E "Jazz ao Centro", claro, com o quinteto de Jemeel Moondoc, saxofonista alto situado estilisticamente entre Ornette Coleman e Marion Brown. Os alemães Guano Apes farão a apresentação do novo álbum, ainda sem título, nos Coliseus de Lisboa (dia 16) e Porto (dia 17).
            Maio receberá Joe Jackson, o "new waver" que se converteu ao jazz que se converteu à música de câmara (dia 15 no Coliseu do Porto, 16 na Aula Magna, em Lisboa), e os Massive Attack, a 21 e 22 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, na apresentação do novo álbum "100th Window".
            Lou Reed também se espera que esteja cá no dia 21. Não se sabe ainda é em que sala. No "Jazz ao Centro", outro concerto de arrancar os cabelos, pelo trio do tenorista e pianista Charles Gayle, um dos proscritos do jazz a quem a história, alguma história, fez por fim justiça. O seu "free" é mais que livre. Com Coltrane, uma vez mais, no horizonte, em "Touchin' on Trane" (1991).
            E pronto, poderá dizer-se que, em matéria de concertos em Portugal para os próximos meses, os haverá para todos os gostos. Com fortes aplausos para o jazz.

23/02/2018

Razões para não ter gostado do concerto dos Gybe!



Fernando Magalhães
01.02.2002 180613

Razões: [Para não ter gostado do concerto dos Gybe!]

1 - Os bybe são músicos cultos mas primários. Para além dos aspetos formais da música (ouvido um tema, estavam ouvidos todos, o leque de notas utilizado foi escasso...) que até nem serão os mais importantes (as cordas saíram amiúde de tom, enfim...) não basta carregar no volume e na ênfase na massa sonora para criar densidade emocional.

O Rui Catalão definiu bem o que se passou. Dizia ele que era música "vai acima, vai abaixo"

2 - As citações a Glenn Branca, Savage Republic, Velvet Undergound, Magma, King Crimson, até um decalque da introdução eletrónica de "Baba O'Riley", dos The Who (que é aliás, uma referência velada a Terry Riley...) tornaram o concerto num imenso e, pior que isso, previsível "pastische".
E que ninguém que tenha gostado volte a dizer mal do Rock Progressivo, pois houve partes em que aquilo era positivamente Rock sinfónico, com fraseados melódicos pindéricos no topo

3 - Os bybe impressionaram pelo artifício. Não houve profundidade naquilo que fizeram (ainda Rui Catalão, dixit: "Não consigo descortinar aqui um mínimo de verdadeira boa música que seja!"). Imagino que - e isto acontece em todos os concertos - houvesse uma espécie de condicionamento emocional prévio do público presente. Às vezes convém adotar uma posição mais objetiva. Claro que o prazer que a maior parte das pessoas retirou da música é um facto. Mas...para mim isso não é garantia de qualidade. Lamento, mas é assim que penso. Já ouvi música infinitamente melhor, com seis ou sete pessoas na sala. Serei elitista? Se ser elitista é não fazer concessões - sou elitista!

Dito isto, até foi agradável como música de fundo.

Gostaria que quem põe os bybe nos píncaros tivesse disponibilidade para ouvir uns UNIVERS ZERO, por exemplo, ou uns PRESENT, e imaginar como soará esta música ao vivo...
É a diferença entre os mestres e aprendizes esforçados.

FM

03/04/2017

DJing in the rain [Número Festival]

SÁBADO, 2 DEZEMBRO 2000 cultura

Inundações na noite de abertura do Número Festival, no Parque Eduardo VII, em Lisboa

DJing in the rain

Houve inundações na abertura do Número Festival. A água da chuva entrou pela tenda dentro, encharcando os pés das muitas pessoas que acorreram ao Parque Eduardo VII para ouvir música eletrónica. Na enxurrada de DJing, a música dos Pan Sonic e das Chicks on Speed mal conseguiu boiar.

Várias coisas não funcionaram na primeira das três noites (quinta-feira) do festival Número que tem estado a decorrer no Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa tenda de circo instalada para o efeito. Em noite de tempestade, a água da chuva correu com fartura pelo chão, transformando-o em leito de rio. Além disso, embora o horário fosse cumprido quase escrupulosamente, houve DJing a mais para concertos a menos, o que encurtou sobremaneira as atuações dos dois grupos de palco, Pan Sonic e Chicks on Speed. Por questões de estética assumida ou erro de cálculo, rodaram em demasia os leitores de CD e gira-discos. Números para serem revistos no futuro.
Passaram, em primeiro lugar, num ecrã triplo, as imagens de uma curta-metragem realizada pelo Pogo Teatro. A banda-sonora com música de Shabotinski, Klaus Nomi e Gustavo Lamas ajudou a suportar a visão ultra-realista de uma Lisboa reduzida a ícone do vazio metamorfoseada pela mente em cenário de ações virtuais.
F. Fadigas não perdeu tempo, sentando-se de imediato aos comandos da mesa de som. O primeiro DJ da noite compôs uma massa de sons abstratos sem ponta de "groove" a que as pessoas se pudessem agarrar. Faltou-lhe o que manifestamente existe na dupla Major Eléctrico, que atuou a seguir: uma estratégia. Pedro Santos e José Moura improvisaram como uma entidade única lançando para a pista jatos de "noise", batidas subliminares e "cut-ups" que terminaram com a truncagem da voz de um anunciante de telemóveis.
Temia-se uma sova sonora a sério dada pelos finlandeses Pan Sonic. Nada que não pudesse ser resolvido com um par de tampões para os ouvidos mas, para estupefação de alguns e sobretudo para os que estiveram presentes na atuação do duo o ano passado no Festival Reset! - onde o massacre foi avassalador -, a música orientou-se por outras coordenadas. Embora a energia física que se desprende da eletrónica dos Pan Sonic se fizesse sentir e os estômagos agradecessem a massagem das baixas-frequências, a música esteve sempre focada, alternando passagens de ruído rosa com as típicas batidas "pata de elefante" ou martelo-pilão que fazem dos Pan Sonic os Kraftwerk dos esgotos, com o computador de ritmos a simular a sequência "boing, boom, tchak" de um dos álbuns dos magos de Dusseldörf. Poder e concentração num concerto que pecou por ser curto.
De outro DJ em agenda, Russell Haswell, esperava-se nova dose de agressão ou, no mínimo, de provocação. Mas se o início do seu "set" chegou a prometer sobressaltos, cedo os pratos se acomodaram às batidas de uma tecno parasitada que não estimulou ninguém – antes recordou que o bar estava ali mesmo ao lado a pedir mais uma cerveja...
O que ninguém esperava era que em vez de cerveja fosse a água o líquido da noite. Estava toda a gente a acomodar-se frente ao palco para receber as meninas Chicks on Speed quando a barragem rebentou e o dilúvio irrompeu pela calçada. Homens e mulheres transformaram-se em coelhos aos saltos em busca de uma margem. Chegar ao bar era nesta altura tarefa impossível, formando-se na zona um pequeno lago onde só faltava ouvir o coaxar das rãs.
Tempestade, alguma confusão, mas, por fim, as Chicks on Speed lá tomaram de assalto o palco, vestidas como as ninfetas punk-futuristas do início da década de 80, como Siouxsie Sioux. Começaram com a eletrónica num caos e os circuitos mal ligados mas a coisa era fácil de compor. A música das Chicks é de uma simplicidade desarmante. O que elas fazem com uma boa-disposição e empenhamento notáveis é mascar os lugares-comuns da "new wave" sintética de há 20 anos, piscar o olho ao "disco", pôr as caixas-de-ritmo em piloto-automático e armar uma pose "kitsch" para tirar o retrato aos anos e aos sons de bandas como Kas Product, Automatic Kids e Fad Gadget. Mas foi giro ouvir as pequenas cantarem "Warm leatherette" de The Normal, um hino da pop eletro-industrial da época, ou colorirem-se com os "confettis" dos B-52's numa atuação que deixou toda a gente feliz e a pedir mais. Pedido aceite e correspondido com "Euro trash girls", título que não poderia vir mais a propósito.
Já com a enxurrada estancada, o Número regressou de novo às mãos dos DJs, desta feita com a equipa da Fat Cat. Mas o que apetecia mesmo era uma toalha...
O Número Festival termina hoje com atuações do pai dos "grooves" do inferno, Aphex Twin, a "click-house" e tecno ambiental de Kid606 e People Like Us, uma rapariga de quem se diz ter ficado enfeitiçada pelos malfeitores sónicos Negativland. Queira Deus que não chova!...

A voz pendurada no estendal [Fátima Miranda]

cultura TERÇA-FEIRA 12 SETEMBRO 2000

Fátima Miranda amanhã no Rivoli do Porto

A voz pendurada no estendal

Fátima Miranda transformou o palco do CCB num estendal de roupa branca sobre o qual passearam fantasmas, fantasias e sombras de um mundo alucinado. Já não há facas atravessadas na cabeça mas a cabeça da cantora espanhola continua trespassada pela loucura. Agora encenada em "ArteSonado", o seu mais recente golpe de génio.

O que mais impressiona e surpreende em Fátima Miranda é a forma como se expõe sem limites aos olhares do público. E como de cada vez parte para uma viagem recheada de perigos sem a garantia de regresso. O que aconteceu na noite de domingo no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, para uma sala quase cheia, e voltará a acontecer amanhã no Teatro Rivoli, do Porto, foi o espetáculo/ritual condensado do nascimento, vida e morte de uma mulher que por companhia tem apenas a sua própria arte.
Primeiro o escuro uterino. A noite. Fátima surge em cena banhada em luz negra para cantar através de um tubo de plástico fluorescente que faz girar sobre a cabeça. É "Llamada!", chamada em chama, o tema que abre o seu mais recente álbum, "ArteSonado", a "arte que soa", entre outros significados mais esotéricos, e é impossível não pensar nos mesmos movimentos circulares feitos por alguns feiticeiros no chamamento dos deuses.
A partir deste momento, a voz segue em direção ao infinito. Violentada, repuxada do avesso, em beijos, gritos, números de contorcionista, de bruxa, de criança, de outros entes que nascem de dentro do inconsciente aberto como uma caixa de Pandora.
O concerto-performance de Fátima Miranda que integra elementos musicais, visuais (Andreas Grainer assina o desenho de luz) e cénico-dramáticos, com base no alinhamento de "ArteSonado", é uma experiência da voz mas também uma experiência de revelação dos mecanismos da mente. Tema após tema, Fátima Miranda vai estendendo roupa branca - ela própria enverga um vestido branco - num estendal montado no palco. Já não há facas na cabeça, como havia na anterior apresentação da cantora há dois anos neste mesmo local, mas lençóis.
Lençóis brancos que se animam com as cores de slides projetados ou que funcionam como testes projetivos para a imaginação. Em "Nila blue", os lençóis suportam o azul do mar, lençóis de água que logo se transformam em fantasmas e em janelas que dão para o outro lado. No meio da aldeia da roupa branca a voz da cantora vai operando prodígios, em contraponto consigo própria numa série de desdobramentos e diálogos com sequências pré-gravadas até à solidão final "a capella".
Fátima Miranda ascende ao sagrado para finalmente o corromper e fazer chafurdar na lama. Se toda a primeira parte de "ArteSonado" aponta para a elevação, graças ao recurso a técnicas vocais das mais diversas proveniências, já os temas finais, "RePercusiones 1: Esto es de lo que no tiene nombre" e "Asaetada" (o único que não faz parte do CD) exploram até à exaustão o lado mais lúdico, carnavalesco e sarcástico da cantora. Despedaçam-se os estereótipos femininos associados à futilidade através de uma sucessão de metamorfoses do rosto, da desmontagem dos gestos e conversações do quotidiano da mulher que lê revistas de sociedade e comunica por telemóvel. Uma delirante solução luminotécnica reduz a condição feminina à dimensão do circo.
Mas Fátima Miranda vai ainda mais longe ao entrar sem vergonha no domínio da escatologia, ligando os sons da voz aos do corpo com uma série de meneios corporais e fonéticos que culminam na explosão final (e literal...) de uma performance de aerofagia que pôs meio CCB de cara à banda.
Por fim, pousada no chão como uma ave exausta, Fátima dirige-se pela primeira vez diretamente ao público, nomeia a sua equipa e volta a abrir as asas com uma vocalização feita de espiritualidade. E assim, quando tudo parecia ter entrado nos eixos de uma "coisa civilizada", eis que a cantora se diverte a confundir o funcionário do CCB que lhe traz o tradicional ramo de flores e agradece com um "muito obrigadinho". Muito obrigadinho? No CCB? Risos curtos, não se faz, é um pequeno escândalo. Mas o público aplaude de pé. Fátima sorri.

FÁTIMA MIRANDA
PORTO Grande Auditório do Teatro Rivoli, amanhã, às 21h30.
Bilhetes entre 2000$00 e 2500$00

23/02/2017

Acordar com o buzinão [Tony Conrad]

cultura SEGUNDA-FEIRA, 13 MARÇO 2000

Tony Conrad espanta e convence no Museu de Serralves, no Porto

Acordar com o buzinão

Ocultos por uma cortina, como dois fantasmas, Tony Conrad e Alexandria Gelencser refutaram todas as noções tidas por seguras sobre a música e a sua interpretação. Não foi a música das esferas, mas o magma anterior à criação que revelaram ao público do Porto. O som em estado bruto.

Um buzinão em estereofonia. Foi assim que soou a música do norte-americano Tony Conrad, na sua primeira e única apresentação em Portugal, sábado, no Museu de Serralves, no Porto, no âmbito do ciclo On/Off, paralelo à exposição "Andy Warhol – A Factory". Um buzinão produzido em simultâneo por um parque automóvel inteiro e uma frota de navios.
            Durante cerca de uma hora e um quarto, Tony Conrad e a sua companheira Alexandria Gelencser "executaram", respetivamente no violino e no violoncelo, uma "drone" ininterrupta em que todas as noções convencionais de "composição" e "interpretação" se diluíram no "continuum" sonoro.
            Nem Tony Conrad, nem a sua companheira são intérpretes no sentido tradicional do termo. Nem sequer artistas com uma presença convencional em palco. Atuaram todo o "concerto" ocultos por uma cortina onde eram projetadas as suas silhuetas, como sombras chinesas. Ela sempre imóvel, ele num estranho bailado com o violino, e com um chapéu estilo Freddy Kruger.
            Utilizaram-se ambos dos respetivos instrumentos para instalarem na sala um som sem princípio nem fim, neste ponto de acordo com os princípios enunciados pelo guru La Monte Young, a quem Conrad esteve umbilicalmente ligado e cujas teorias procurou refutar. Alexandria tocou sem uma pausa sistematicamente a mesma nota, mais ou menos amplificada (aliás, foi essa capacidade em se manter fiel a uma única nota que terá seduzido Conrad em primeiro lugar e o terá levado a convidar para o palco a "violoncelista"...). Sobre esta nota, Tony Conrad acrescentou um molho de outras, arranhadas, arrancadas em postas de sangue ao violino. As únicas alterações sensíveis eram provocadas pelo aumento ou diminuição do volume e da carga de distorção provocada por meios eletrónicos. E assim, durante um período de tempo impossível de ser medido segundo os parâmetros normais, todos – músicos e público – aguentaram com estoicismo este "happening" descolado da fonte primordial do som.
            Diga-se que, embora radical pelo lado da insistência numa única tónica, por vezes no limite do suportável, esta música encontra parentesco estético em músicos como Charlemagne Palestine, Steve Reich (nas primeiras obras, como "Four Organs" ou "Phase Patterns", embora num quadro de sistematização que Conrad em absoluto dispensa) e o próprio La Monte Young. Uma música que, partindo de uma síncrese inicial, pretende, pela libertação sistemática de harmónicos, induzir o ouvinte num segundo nível, superior, de audição, levando-o a ouvir uma espécie de "música secreta" formatada pelo seu próprio subconsciente. Exemplo magnífico: há anos, na Gulbenkian, Steve Reich criou um nirvana virtual sustentado unicamente pelos harmónicos de seis pianos verticais.

            Mas Conrad não é Reich. Para que este salto qualitativo aconteça é necessário, quer se queira quer não, virtuosismo da execução. E foi por aqui, e só por aqui, que o "concerto" de Conrad e da sua companheira revelou a sua dissidência. Não aconteceu uma segunda música, sobreposta à da superfície, porque tanto o violino como o violoncelo nunca vibraram em sintonia com a música das esferas que os minimalistas almejavam. Como um Boeing que em vez de asas tivesse lagartas. Em lugar de harmónicos em suspensão, ouviu-se um ranger de dentes, um som que, insistentemente, rasou o chão. Mas essa é, afinal, a intenção de Tony Conrad – a desmistificação do minimalismo, amarrando o auditor à estaca zero da música. Desta opção poderá resultar outra espécie de transe, um estado de entorpecimento provocado pela monotonia e pela opacidade do som. Mas fosse qual fosse o modo como cada um, no auditório do Museu Serralves, interiorizou esta recusa sistemática do politicamente correto, a verdade é que a resposta final foi um prolongado aplauso de que o próprio Conrad, provavelmente, não estaria à espera. Só no final, ele e Alexandria se mostraram fisicamente ao público, para agradecer. Um homem gorducho com ar de avô bonacheirão e uma quase criança de olhar assustado. Sós, sem qualquer proteção, expostos perante uma hipotética e afinal não confirmada agressividade ou indiferença do público, conseguiram o prodígio de dar a ouvir o fluxo do som anterior a toda a música e mostrar o gesto que antecede a sua interpretação. O buzinão teve, afinal, o condão de nos acordar.

06/01/2017

DJazz amordaçado [Nils Petter Molvær]

DOMINGO, 19 SETEMBRO 1999 cultura

Nils Petter Molvær no CCB, em Lisboa

DJazz amordaçado

ESCANDALOSO? Nem por isso. O peixe que o trompetista norueguês e a sua banda Khmer têm para vender não tresanda, é um facto, mas também encontrou, na passada quinta-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, um mercado recetivo a um género musical que procura enviar o jazz para as pistas de discoteca. Só que não é, de facto, nova a música dos Khmer. Poderá parecê-lo a um ou outro purista. Mas esses ou não se manifestaram, ou não estiveram lá ou, afinal, até gostaram. Para os frequentadores da parte mais recuada da “vanguarda” – e muitos se espalharam pelas filas do auditório – porém, foi “piece of cake”. Adoraram.
            Começou morno o desempenho dos Khmer. Ao estilo de uma banda de jazz rock europeu dos anos 70, como os Passport, por exemplo. Antes, porém, chegaram a sentir-se alguns calafrios, provocados por uma introdução eletrónica elaborada pelo dj de serviço, Strangefruit. Uma descarga ameaçadora de “noise” e pulsações digitais que prometia escurecer a noite mas estancou logo de seguida, mal os restantes elementos do grupo se lhe juntaram em palco, transformando-se num previsível groove de hip-hop. Isto porque se DJ Strangefruit funciona como esteio do corte do jazz com o passado, o que tanto irritou algumas franjas da ECM à data do lançamento do disco nesta editora, há dois anos, também é a âncora que impede a música de se reinventar fora das margens, demasiado estereotipadas, do hip-hop, do drum ‘n’ bass e da house. Djazz amordaçado pelo furor de querer aspirar tudo em seu redor.
            Enquanto solista, Nils Petter Molvær mostrou que não estava a fazer bluff ao afirmar ao PÚBLICO o seu parentesco estilístico com outros dois trompetistas, Toshinori Kondo (quando soou mais metalizado) e Jon Hassell (quando fez passar o ar e surdinas que evocaram a selva urbana de um álbum como “City: Works of Fiction”.
            O tribalismo dos Can, os degelos de Terje Rypdal impressos no discurso solístico do guitarrista Eivind Aarseth, intromissões de vozes sampladas e etnotecno assimilado de Jah Wobble e Holger Czukay, revelaram-se outros dos referentes da fusão, sem dúvida bem estruturada.
            O final, poderosíssimo, desatou o novelo: uma longa sequência de tecnopunk foi o desfecho infernal de uma noite marcada ainda pelo excecional trabalho, nas luzes, de Tord Knudsen. Agora escândalo, escândalo, esteve longe de o ser…

23/12/2016

Meira Asher faz história no festival Ritmos

SEGUNDA-FEIRA, 28 JUNHO 1999 cultura

Meira Asher faz história no festival Ritmos

Birkenau aqui e agora
A música da israelita Meira Asher é a verdadeira música do mundo. Não do mundo da tradição, mas do mundo atual, em agonia, à beira do novo milénio. A sua passagem pelo festival Ritmos/Festas do Mundo, no Porto, provocou arrepios. E algum escândalo.

Ninguém ficou indiferente ao espetáculo alucinante que Meira Asher apresentou, sábado, no festival Ritmos/Festas do Mundo, que ontem terminou no Porto. "Loucura total", exclamaram, deslumbrados, os que aguentaram o embate. "Vamos fugir deste inferno!", arrepiaram-se uns quantos, que não suportaram ter de enfrentar cara a cara o pesadelo.
            Festa e alegria são palavras sem sentido na carnificina que a israelita trouxe ao Palácio de Cristal, onde o festival teve lugar. Pelo contrário, a sua "performance" terá constituído, para alguns, um fardo difícil de suportar. Foi um vómito de sangue, um combate de vida e de morte contra a passividade e a indiferença. "Este projeto é um sinal de alarme que retrata o indivíduo vítima de uma realidade repetitiva, brutal e alienante. Uma realidade que contamina toda a gente com as doenças crónicas da cobardia e da apatia", diz Meira Asher, a propósito de "Spears into Hooks" e da prestação ao vivo que lhe corresponde.
            Conseguiu plenamente os seus intentos, esta israelita de olhos encovados e cabeça rapada, de ascendência russa, que traça um paralelo entre o holocausto nazi e o holocausto palestiniano e para quem a paz entre as nações só será possível quando todos os pesadelos forem expostos à luz do dia. Foi isso que ela fez, arrasando os nervos de uma assistência que nunca soube muito bem como reagir à violência do impacte, mas que, subjugada por uma espécie de hipnose, se manteve imobilizada diante da torturadora. "Aquele que foi torturado tende a tornar-se no torturador" constitui, aliás, outra das máximas defendidas por Meira Asher.
            Tudo se conjugou para tornar a noite de sábado do Ritmos/Festas do Mundo numa ocasião especial e, provavelmente, dolorosa. A começar pelo aspeto cénico do palco. Ao invés da habitual parafernália de instrumentos étnicos, era todo um arsenal de máquinas, ecrãs de vídeo, percussões eletrónicas e computadores que se exibia aos olhos curiosos, e um pouco assustados, da assistência.
            Ainda antes do ritual ter início, um som eletrónico incomodativo saía das colunas para criar uma atmosfera que tornava cada vez mais ténues as esperanças daqueles que acreditavam ainda ser possível haver festa. Mas quando Meira Asher e o seu grupo de terroristas sónicos puseram os seus dispositivos do inferno a funcionar, todas estas esperanças caíram por terra. Sobre vagas industriais de eletrónica onde a melodia e o menor "groove" rítmico nunca passaram de utopia, Meira Asher gritava e gesticulava como uma possessa. Luzes estroboscópicas eram apontadas ao público, enquanto os fumos e, num dos temas, fogo real, ajudavam a intimidar, na celebração de uma cerimónia de shamãs sem fé que transportam para o próximo milénio a estética apocalíptica dos Einstuerzende Neubaten e dos atuais Faust. Dois ecrãs de vídeo exibiam imagens não menos dantescas, de experiências ou operações cirúrgicas em corpos humanos, chagas, ferimentos e sofrimentos sortidos, tortura e caos, alternando com sinais geométricos de carácter mágico. Sobre tudo isto, uma frase, repetida do princípio ao fim num placard eletrónico instalado em frente a uma das mesas de samplers e sintetizadores, acentuava ainda mais a tónica do medo: "Birkenau, aqui e agora". O Palácio de Cristal tornava-se no campo minado de um perigoso jogo de memórias e ambiguidades. O mundo inteiro é um campo de concentração do qual é impossível escapar.
            Sucederam-se os samples onde se armazenavam as dores de vítimas reais e estilhaços de música étnica afogada numa orgia de loucura. Durante a interpretação de "Weekend away break", um dos temas mais violentos de "Spears into Hooks" - a descrição do campo da morte de Birkenau como uma estância de férias, ao som de uma valsa de Strauss e das canções de Marlene Dietrich - dançou a dança do mal.
            O "espetáculo" que Meira Asher apresentou no Ritmos/Festas do Mundo, excedeu as expectativas dos que já conheciam o álbum e defraudou as dos incautos. Quem procurava a festa - que também não chegou a acontecer na primeira parte, com a atuação dos Istanbul Oriental Ensemble a pautar-se por alguma monotonia - saiu machucado debaixo dos gritos de "Morram!" Morram! Morram!", que Meira escarrou em "The Flood", "o dilúvio", outro dos temas de audição dolorosa de "Spears into Hooks". Mal terminou o exorcismo, a chuva começou a cair...

Canções para os amigos [Suzanne Vega]

QUINTA-FEIRA, 17 JUNHO 1999 cultura

Concerto ameno no CCB

Canções para os amigos de Suzanne Vega

MAL SUBIU para o palco, com uma guitarra acústica e um sorriso tímido no rosto, Suzanne Vega foi recebida pelo público de Lisboa como uma filha mimada. Ao fim de poucos segundos – na primeira das suas duas apresentações em Portugal, a segunda aconteceu ontem, no Cinema do Terço, no Porto – a cantora nova-iorquina tinha toda a gente na mão. O seu sorriso de quem está em paz consigo mesmo, a sua simplicidade e o seu sentido de humor, amplamente exercitado nos apartes e nas histórias que foi contando, são desarmantes. Este foi, de resto, o aspeto mais interessante do concerto, o modo como a cantora estabelece comunicação com o público, através de um tom coloquial que emprega em simultâneo o didatismo, a improvisação e a desmistificação.
            Suzanne recordou episódios da sua vida passada, as suas viagens (as raparigas más, embora não seja bem o seu caso, ao contrário das boas, que vão para o céu, vão a todo o lado e não para o inferno...), pediu desculpa pelo longo afastamento dos palcos portugueses (já cá tinha estado há cerca de nove anos) e explicou por que razão o assunto de uma das suas canções não é, definitivamente, o pénis. Satisfeita com a resposta do público, convidou-o a seguir viagem com ela até aos próximos espetáculos. Houve quem gritasse logo que sim. Suzanne sentiu-se em casa, apaparicada, e relaxou. Acendeu a luz para as canções brilharem e elas mostraram a vida que as anima. A magia da sua presença fez o resto.
            Suzanne expôs-se, no modo como se apresentou no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), armada apenas com uma guitarra acústica e as acentuações, no baixo elétrico, de Michael Visceglia. Arriscou a ganhou. Servida por um som que permitiu acompanhar em detalhe a letra de cada canção, a “cantora que tombou do céu”, como já lhe chamaram, passeou o seu “charme” por canções como “Marlene on the wall”, a abrir o concerto, “Small blue thing”, “World before Columbus”, “Rock in the pocket (song of David)”, “In Liverpool”, “Rosemary” e “Blood sings”, fechando com dois dos temas mais conhecidos, “Luka” e “Tom’s diner”, este último “a capella” e com o público a acompanhá-la com estalos dos dedos e a entoar com muito cuidado o refrão “hm hm hm hm hmhmhm”.
            Voltou para os encores, com mais uma série de exercícios de intimismo, entra as quais “The queen and the soldier”, uma canção que, ela própria não sabe bem porquê, agrada a toda a gente. Recompensada, afirmou que, por vontade dela, ficaria toda a noite a cantar canções de enfiada, se não tivesse ainda que apanhar o avião para o Porto. Canções que não perderam pitada da sua força no formato reduzido com que foram apresentadas, dando razão à sua autora quando, na entrevista ao PÚBLICO, declarava ser em primeiro lugar uma compositora e só depois uma cantora. Mais do que um concerto, a atuação de Suzanne Vega foi o reencontro de velhos amigos que, ao fim de uma longa e dolorosa separação, puseram a conversa em dia.

19/12/2016

Celebração dos lagartos [Lounge Lizards]

cultura QUINTA-FEIRA, 22 ABRIL 1999

Lounge Lizards dão concerto memorável no Centro Cultural de Belém, em Lisboa

Celebração dos lagartos

Foi a celebração da grande música e de um grande grupo, parafraseando o poema de Jim Morrison, "Celebration of the lizard". John Lurie e os seus Lounge Lizards, como o vocalista-xamã dos Doors, foram possuídos pelos espíritos. Num dos concertos do ano.

Há muito que não se assistia em Portugal a música do quilate da que John Lurie e os Lounge Lizards apresentaram na noite de terça-feira no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB). John Lurie tinha razão na entrevista que deu ao PÚBLICO (no suplemento Artes & Ócios da passada sexta-feira). Ele e o seu grupo podem, de facto, fazer tudo. E fizeram. De forma superlativa.
            Os nove elementos que estiveram em palco não são grandes executantes, no sentido técnico do termo. São, antes, grandes músicos que se deixaram possuir pelo espírito da música. Ao longo de duas horas e meia, passou pelo CCB a própria dinâmica da vida, os seus paradoxos e incertezas. É isso que John Lurie imprime às suas composições e faz respirar nos músicos que o rodeiam: uma girândola desconcertante de referenciais estéticos que, a cada instante, colidem com os lugares-comuns de géneros como o jazz, o rock, a "world music" e a música de câmara.
            Curiosamente, a noite começou mal, fazendo prever o pior. Com um som empastelado e os músicos tensos a esconderem o que estava para vir. Desagradado, Lurie passeou em frente deles, levantando os braços, a pedir que abrissem os espíritos e o som. E, de súbito, fez-se luz: tudo começou a bater certo. A celebração subiu sem parar, até atingir o céu. Cada músico entregou-se ao som do coletivo, numa cascata de emoções. Foi jazz mas também foi rock. E rituais africanos. E cadências latinas transfiguradas pelo "free". É possível, claro, atribuir uma memória a esta música que aflorou o eixo europeu de orquestras como a de Mike Westbrook e Mike Gibbs ou grupos como os Nucleus ou Achim Reichel. Mas os Lounge Lizards não ficam muito tempo parados na mesma estação, retendo apenas o essencial.
            Uníssonos poderosos chegaram perto da histeria de uma liberdade assumida até às últimas consequências. Uma máquina de prazer que carburou em explosões sucessivas do trompetista Steven Bernstein e do saxofonista-tenor Michael Blake. Evan Lurie, irmão mais novo do líder da banda, rubricou ao piano um solo prodigioso onde couberam o romantismo, o minimalismo, traços de Keith Tippett e segredos que apenas ele conhece. Tony Scherr solou como se respirasse no seu baixo elétrico, transformado num corpo de mulher. Mauro Refosco, o percussionista brasileiro, coloriu com sonoridades afro uma música que soltou amarras e queimou calorias.
            Num dos temas, Doug Wiselman fez a sua guitarra soar como uma "sitar" criando um raga de jazz psicadélico. Lurie foi o maestro. O sábio. O louco. As frases melódicas que fez nascer dos seus saxes alto e soprano escaparam a todas as previsões e apostas. Clássico de uma forma satírica ou humilde como um tocador de rua, Lurie demonstrou a sua veia de "entertainer", com um sentido de humor que fez explodir de riso a assistência. Ironizou sobre os hotéis em que os lençóis da cama estão tão apertados que tornam impossível a quem se deita mexer os pés ou sobre o pânico das hospedeiras de voo quando os passageiros se recusam a comer os pacotes de amendoins.
            E insistiu com as pessoas instaladas nos camarotes mais altos do auditório para se atirarem lá de cima: "É um espetáculo tão belo, como as folhas das árvores a caírem no Outono, só que em vez de folhas, são pessoas!...".
            O público não teve outro remédio: rendeu-se. Dois "encores" em que os níveis de adrenalina aumentaram ainda mais culminando num dos momentos inesquecíveis da noite: um "blues" ensanguentado por solos arrancados do fundo da alma pelos três sopradores - Bernstein, Blake e John Lurie. Ficou um silêncio comovido e a sensação de ter acontecido algo de único nos palcos portugueses. John Lurie aproximou-se do microfone para murmurar simplesmente: "that's it!".

05/12/2016

À mesa com Biosphere

CULTURA
QUARTA-FEIRA, 5 DEZ 2001

Crítica Música

À mesa com Biosphere

Biosphere
Auditório de Serralves, Porto
1 de Dezembro, 22h
Sala esgotada

A montanha pariu um rato. A montanha não, a biosfera. Biosphere, projeto multimédia do norueguês Geir Jenssen, esgotou no sábado passado o auditório de Serralves, no Porto, mas deixou um travo amargo na boca de todos os que esperavam luzes, imagens e paisagens a a acompanhar as sonoridades rarefeitos e a eletrónica contemplativa que podem ser escutadas em álbuns como “Substrata” (reeditado recentemente em formato remasterizado) e “Cirque”. Em vez disso, apanharam com um indivíduo tímido, sentado à mesa, em frente a um minúsculo “powerbook”.
Faltaram meios financeiros ou vontade à organização, para trazer a Portugal o projeto completo, que ainda recentemente encheu e maravilhou uma sala de grandes dimensões, em Londres, num espetáculo descrito por alguns como memorável? A verdade é que Portugal teve apenas direito à música e, mesmo esta, oferecida em deficientes condições.
Problemas técnicos afetaram a manipulação em tempo real do computador, interpondo comprometedores silêncios ou súbitos apagamentos do som, no meio de uma música que vale também como continuum para fazer funcionar em pleno a sua dimensão onírica. Geir Jenssen teve mesmo que murmurar um tímido “I’m sorry” (de resto a sua única intervenção falada...), o público reagiu com compreensão, mas a verdade é que tudo soube a pouco, como se de uma audição caseira dos discos se tratasse. Sob um foco de luz que passou do rosa ao azul, com passagem pelo escarlate, contra um insondável fundo negro, o norueguês pouco mais fez que mexer impercetivelmente os dedos sobre o teclado do “powerbook”, dando ainda por cima a ideia de que os sons seriam na totalidade pré-gravados, o que reduziu ainda mais a margem de comunicação e a espontaneidade da sua performance.
Em vez do planetário, os planetas e estrelas de Biosphere foram servidos à mesa como mero aperitivo. Ficou-se com fome.

The Residents, pesadelo em technicolor

CULTURA
TERÇA-FEIRA, 2 OUTUBRO 2001

XV ENCONTROS ACARTE

The Residents, pesadelo em technicolor

“ICKY FLIX” EM ESTREIA AO VIVO

Cumpriu-se a história. Os Residents enfim em Portugal. Mais formais do que eram antes, mas ainda assim capazes de fazer o público arregalar os olhos perante o seu circo de horrores

Uma lenda é uma lenda é uma lenda residente. Devem as lendas permanecer para sempre como tal, meras representações simbólicas estruturantes do Real, motores invisíveis do mundo? Ou, pelo contrário, descerem à terra como anjos decaídos? Os Residents, banda "underground" (agora já não tanto...) americana que há 30 anos vem escavacando, com tanto de loucura como de método, as fundações da música pop ocidental, são uma lenda. E, ao fim de todo este tempo, o tempo que demorou a este coletivo de homens sem rosto nem nome, a desenrolar a sua visão única e distorcida do universo de emoções, sons e imagens alterados em que se movem, os Residents apresentaram-se em carne e osso em Portugal. No passado fim-de-semana, sábado e domingo, em Lisboa, com lotações esgotadas, na vetusta instituição que é a Fundação Calouste Gulbenkian.
            O que aconteceu nessas duas noites, em termos de receção do público, era previsível. Gente a aplaudir de pé, gritos de "obrigado", como se esta tivesse sido (e provavelmente terá sido...) a oportunidade de uma vida. Não é todos os dias que as lendas se mostram em carne e osso ao comum dos mortais, ainda que, no caso dos Residents, a "carne" e o "osso" tenham a consistência da alucinação.
            E, no entanto, sobretudo para quem tem acompanhado ao longo dos anos a carreira e a obra dos Residents – e que não se deixou impressionar pela tal carga simbólica e pelo "faits divers", ultracolorido e fosforescente, com que o grupo pintou esta sua performance, de genérico "Icky Flix" – ficou alguma frustração. O lado "freaky", desde sempre cuidadosamente cultivado pelos Residents, institucionalizou-se (teria a Gulbenkian aberto ao grupo as portas da sua casa, se assim não fosse?...). Foram uns Residents "mainstream", digamos assim, aqueles que passaram por Lisboa.

Catálogo geral
Foi, apesar de tudo, um bom concerto. Diferente q.b. Perigoso até, para quem se dispôs a investir numa leitura aprofundada do grande pesadelo em technicolor que os Residents, mesmo mais domesticados que há 20, 25 anos, trouxeram ao público português.
            "Icky Flix", o espetáculo, é uma espécie de catálogo geral de uma obra impossível de abarcar e catalogar de forma unidimensional. Sobre um ecrã suspenso sobre o palco, o mesmo "icky cube" que permite seleccionar as várias opções no formato DVD de "Icky Flix", serviu de "menu" ao alinhamento, indicando os títulos que iam sendo tocados. Ideia engraçada que acabou por irritar, ao acentuar o tal lado de mostruário que enfermou todo o espetáculo.
            Os músicos, em número de quatro (computadores, teclados e percussões eletrónicas, uma guitarra elétrica MIDI), apresentaram-se camuflados, como se esperava. Não disfarçados de "eyeballs", descontando o "compère" que deu início à função, que lá apareceu impecavelmente fardado de fraque e com a já mítica cabeça-em-feitio-de-olho, mas trazendo luzes de lanterna fixas na testa, a conferir-lhes o adequado ar de ameaça. Mr. Skull, o senhor deformidade, e uma "barbie"-fantoche fosforescente saída de uma "rave" psicadélica, foram os cantores, mimos e dançarinos de serviço e o principal foco de atração de um "show" que impressionou, sobretudo, pela qualidade e originalidade dos vídeos que foram sendo projetados.
            O mundo visual dos Residents é um "cartoon" grotesco e surrealista, feito de metamorfoses físicas e crueldades mais sugeridas do que explícitas. Tortura cósmica cujos efeitos se fazem sentir nos pequenos gestos do dia-a-dia. A mente perde-se neste jogo de monstros e universos paralelos que a cada momento se entrecruzam e contaminam. Como toupeiras, ou vermes, os Residents não fazem mais do que agitar a terra das aparências e trazer à superfície os demónios mais recônditos que habitam dentro de cada um de nós. À semelhança do que Cronenberg e Lynch (sobretudo de "Eraserhead") fazem nos seus filmes.
            Canções pop como o humanitário "We are the world", transformada em "We are the worms" ("nós somos os vermes"), foram amassadas até se tornarem dejetos auditivos. Mr. Skull e a boneca fosforescente mimaram a impossibilidade da relação amorosa numa dança de corpos incapazes de se tocar. Em "Where is she?", um dos raros momentos realmente dramáticos de "Icky Flix", Mr. Skull personificou a agonia da ausência do amor, gritando como uma criatura cega, a implorar a presença da mulher-fantasma.
            Terá sido, nesta inesperada dimensão, apesar de tudo amorosa, que o concerto – musicalmente, uma sinfonia eletrónica peso-pesada embora distante da anarquia Dada que fez dos Residents de antigamente os incontestados soberanos do bizarro – deixou recordações mais fortes. Ao nível do "encore", 20 minutos nos quais, prescindindo enfim de todo o aparato visual, os Residents provaram ser a Besta do rock'n'roll.
            No final, Mr.Skull, enredado na sua solidão, entre a maquinaria sonora por fim silenciada, exalou o último suspiro do náufrago, instantes antes de se afundar no oceano da sua paranóia, em "Freak show", cuja letra encerra todo um manifesto de intenções: “‘Apenas somos iguais no túmulo e na escuridão', disse um homem cuja cabeça foi mordida por um tubarão. Agora, se me perguntam porque é que eu continuo com tudo isto, duvido que saiba a resposta, por isso apenas faço um palpite: ‘Ter só metade da boca pode não ser grande coisa, mas ainda assim chega para metade de um beijo’”. E, da sua boca arrepanhada, o rosto erguido para o alto num esgar de súplica, tal qual o "Homem-Elefante", de David Lynch, desprendeu-se o horrível ruído. Derradeiro testemunho de uma humanidade perdida.