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15/02/2019

Combate com a guitarra [Ricardo Rocha]


Y 6|JUNHO|2003
música|ricardo rocha

Junta-se ao grupo dos mestres da guitarra portuguesa. O disco aproxima-nos de algo que não se diz em palavras mas se sente como nostalgia do paraíso perdido.

combate com a guitarra

            Com “Voluptuária”, Ricardo Rocha, 28 anos, expõe uma nova conceção musical para a guitarra portuguesa que vai do minimalismo à música de câmara, passando pelo ambientalismo e por uma perspetiva original sobre Carlos Paredes.
            O neto de Fontes Rocha refuta o virtuosismo, impossível de obter num instrumento que considera “limitado”, mas a verdade é que este duplo álbum com que agora se estreia a solo, “Voluptuária”, materializa essa noção de “benfeitoria” que consiste em tornar o Belo amável. Ou, como se pode ler no texto que acompanha esta edição, “há diletantismo do benfeitor, com o objetivo de deleitar-se ou recrear-se, haja vista que o bem principal a que se junta uma benfeitoria a dispensa, pelo aspeto utilitário ou funcional, mas fica mais formoso ou recreador”.
            Além de Carlos Paredes, “Voluptuária” inclui temas de Pedro Caldeira Cabral e composições próprias, fazendo sobressair uma originalidade que é, afinal, e segundo o seu autor, o que de verdadeiramente “genial” pode existir nesta luta mais do que contra com a guitarra portuguesa. Volúpia ou pesadelo?

            Na capa do disco pode ler-se: “Voluptuária” “não se explica, não se descreve, não se define”. Mesmo assim, tente lá uma explicação...
            A primeira parte do disco é menos acessível. O segundo disco, sem ser totalmente a solo, é mais leve e colorido. Ou menos escuro. Mais para o azul-escuro... As peças para cravo e violino têm a mesma tonalidade.
            O seu nome já era conhecido a partir de participações em discos de Carlos do Carmo, Janita Salomé, Sérgio Godinho, Vitorino ou Mafalda Arnauth. Agora estreia-se a solo com um duplo. Que circunstâncias propiciaram que fosse assim?
            Em parte foi pelo local de gravação, o Convento dos Capuchos, um sítio magnífico. Depois, não houve aquele compromisso burocrático com as editoras, contratos, essas coisas horríveis... E já tinha bastantes peças feitas. Ia para lá uma vez por semana, ao fim da tarde, e ficava até à meia-noite, duas da manhã... Ao fim de 20 dias o disco ficou pronto.
            Quer explicar a razão de ser do título?
            “Voluptuária” é o título de uma peça que faz uma aproximação, até obsessiva, entre a palavra e o conteúdo musical. Acho absurdo dar um título ao calha a uma música. Normalmente até demoro mais tempo a encontrar um título do que a compor a peça (risos). Ridículo mas verdadeiro (risos). Mas... no caso de “Voluptuária” tem a ver com “voluptuoso”, “lúbrico”, “prazer”, “deleite”, sem chegar à “luxúria” e ao “lascivo” (risos)...
            No disco há uma “Rotina enfadonha” e um “Estaticismo”, por sinal os dois temas mais longos...
            “Rotina enfadonha” é uma peça repetitiva, no sentido rítmico, quase hipnótico. Com um lado irónico. Esta rotina pode ser a do dia-a-dia de cada um, embora neste caso fale por mim. Mas é também essa rotina rítmica que, a dado momento, desaparece para dar lugar a outro ambiente, embora, no fim, regresse de novo... O “Estaticismo” é uma peça parada, direcionando-se de uma forma “extática”.
            ... Já para não falar de uma “Teoria falhada”...
            Essa tem a ver com o facto de, quando a estava a fazer, me ter enganado do princípio ao fim. Nesta peça, não foi seguida a regra das 12 notas. Fiz 12 notas quando me apercebi de que a 12ª só aparecia já na série seguinte de notas. Das duas uma, ou fazia tudo do princípio, ou continuava. Ironicamente, apercebi-me de que era mais fácil construir segundo esta nova maneira. Não exigia tanto esforço mental, ou esforço auditivo. É difícil encontrar uma série de 12 notas em que todos os intervalos soem bem.
            Faz também uma homenagem tripla ao compositor clássico Alexander Scriabin (1872-1915).
            Porque o estilo dessas três peças está de acordo com o de uma determinada fase da música dele. É o meu compositor preferido.
            O primeiro CD conclui-se com composições de Pedro Caldeira Cabral. De que forma abordou a música deste compositor?
            São peças extraordinariamente bem construídas para a guitarra e todas elas possuem uma inspiração magnífica, ao nível melódico e harmónico.
            Sente mais prazer em tocar a música de Caldeira Cabral ou a de Carlos Paredes?
            São dois mundos distintos. Ao tocar Paredes, a sensação que se tem é a de uma grande fisicalidade.
            É uma música indissociável do seu autor e de uma forma muito particular de a executar?
            Mesmo quando outra pessoa toca Paredes, tem de o fazer de forma física. Agora, o tempo, as “nuances”, a dinâmica, é fundamental que seja alterada, sob pena de se cair no ridículo da imitação. É preciso banir a cópia da interpretação e entrar num processo, que não é fácil, de esquecer isso tudo e olhar para a peça como se fosse a primeira vez.
            É difícil interiorizar a música de Paredes?
            É difícil de interpretar. E o mais difícil é a pessoa abstrair-se da forma de ele tocar. Quando falava de uma forma física, queria dizer de forma enérgica. Sem energia, a música não soa a nada.
            O lado trágico na música do Paredes: “apropriou-se” dele?
            Sim. E do seu lado misterioso, sobretudo em “A noite”, curiosamente um tema que usa uma linguagem nada habitual nele. É uma peça escura.
            Carlos Paredes está para a guitarra portuguesa como Amália para o fado? Uma referência que pode tornar-se “maldição”?
            Pode ser perigoso... Mas não sinto isso. A música que faço na guitarra portuguesa não tem nada a ver com ele. Rapidamente percebi que seria inútil continuar um caminho que ele construiu, iniciado e acabado por ele. Ele fez questão de fazer tudo. É quase obrigatório tocar a música dele. Depois, das duas uma, ou se fica preso a ele ou direciona-se a guitarra para outro sítio. Na peça do álbum em que lhe presto homenagem, curiosamente, não estava nada à espera de conseguir compor no estilo do Paredes. Mas, coisa extraordinária, o estilo rítmico, as “nuances” e o carater melódico têm muito a ver com as formas que ele utilizava. Foi a única vez que fiz isso.
            Qual o seu álbum preferido de Paredes?
            “Movimento Perpétuo”.
            Que relação a sua guitarra mantém com o fado?
            Uma boa relação. Gosto imenso de tocar fados quando o grupo funciona perfeitamente, como na música de câmara. Mas é raríssimo conseguir estar ao lado de mais duas ou três pessoas que toquem bem ou, melhor ainda, que se entendam, se ouçam uns aos outros. A relação entre a guitarra portuguesa, a guitarra clássica e a guitarra baixo é a que mais se aproxima da minha visão tímbrica. É uma combinação extraordinária.
            E com o jazz e a música improvisada?
            Há anos entrei para o Hot Clube onde tive umas aulas de piano mas acabei por nunca tocar jazz. A guitarra portuguesa não se enquadra nessa área, nos “standards”. Toquei música improvisada mas nada desse género. Foi engraçado.
            A guitarra portuguesa já atingiu os seus limites?
            É um instrumento limitado. Não pode tocar um concerto com uma orquestra, por exemplo... Poder pode, o problema é que essa suposta peça teria de ser construída de forma idiomática, para guitarra. Não é como um violino ou um violoncelo que tocam quase tudo. A guitarra, não, é uma coisa limitada, menor, que traz problemas atrás de problemas.
            Então que gozo tem em tocá-la?
            Não existe gozo nenhum. O confronto e os obstáculos são uns atrás dos outros. Existe, sim, uma sonoridade característica e uma potência, uma projeção de volume que raros instrumentos de corda com trastes têm. Consegue passar por cima de um cravo, por exemplo.
            Trata-se, então, de um mundo autónomo?
            Um mundo à parte, sim... É limitado em relação a um violino ou a um piano, instrumentos melódicos com uma capacidade extraordinária para executar qualquer tipo de melodia virtuosística. Na guitarra... acabou! (risos). É um instrumento híbrido que acaba por não ser nem melódico nem harmónico. É a única definição real que se pode dar da guitarra portuguesa. Não é clara, nem assumida, nem transparente... A própria guitarra clássica é muito mais completa que a guitarra portuguesa.
            Não será um caso de personalidade demasiado vincada?
            Digamos que se afoga na sua personalidade (risos).
            E, na sua “luta” contra esse “monstro”, já atingiu os limites?
            Não me preocupo com isso. Em cada coisa que toco deparo-me sempre com dificuldades. O objetivo principal é ouvir aquilo que quero ouvir e construir as notas que quero construir. Mas por vezes deparo-me com problemas difíceis de ultrapassar. Tento ultrapassá-los, mas sem nunca perder a noção de que não o consigo fazer (risos). Os problemas surgem porque as coisas que quero ouvir, as notas e a sua sequência, são difíceis de executar na prática. Às vezes o que pretendo ouvir não se propicia. Tudo isto terá a ver com o facto de eu também tocar piano e o piano abrir um leque sonoro vastíssimo que depois não pode ser transposto para a guitarra. É uma tragédia! (risos).
            Subentende-se que tocar guitarra portuguesa é uma luta sem quartel?
            Uma luta permanente. Angustiante e frustrante. É um desafio mórbido. Chega-se ao fim de 50 ou 60 anos a tocar o instrumento e continua-se com os mesmos problemas. É uma aberração! (risos).
            O que é então ser-se um virtuoso neste instrumento?
            Não conheço ninguém virtuoso na guitarra portuguesa. Virtuosos são Liszt, Glen Gould, Keith Jarrett. Esse virtuosismo não existe na guitarra portuguesa. Porque não apareceu nenhuma pessoa que o demonstrasse e porque o próprio instrumento impossibilita-o. Não está preparado nem musical nem fisicamente para entrar nesse alto jogo.
            Por vezes dá a ideia de que a guitarra portuguesa é como que um instrumento “mecânico”, como um realejo, em que determinadas sequências de notas parecem impor-se naturalmente...
            Sim, há essa imposição, não dá hipóteses de escolha. Se não for assim, não pode ser de outra maneira.
            Já se sujeitou, já está convencido, a guitarra venceu-o?
            Teoricamente sei isso. Mas na prática não o faço. E como não faço isso, sujeito-me a esse confronto constante com o instrumento, com dissabores técnicos e problemas dramáticos. É um pesadelo!
            Tem mestres da guitarra portuguesa?
            Carlos Paredes, o meu avô [Fontes Rocha], José Nunes. Todos geniais.
            Voltando à carga: o que é ser-se genial na guitarra portuguesa?
            Essencialmente, ter uma abordagem e um estilo pessoais, que é das coisas mais difíceis de conseguir. Ter um som impossível de imitar.
            Nunca pensou, como forma de ultrapassar esses problemas técnicos que aponta, em efetuar no estúdio gravações em multipistas?
            Como transformar uma guitarra em várias? Não, nunca! Isso é uma coisa não muito honesta. Cheguei à conclusão de que o que interessa é poder executar, em qualquer circunstância, o resultado final. Apesar dos problemas serem quase intermináveis...




O terceiro movimento

Depois de Pedro Caldeira Cabral e das suas “Memórias da Guitarra Portuguesa” é a vez de Ricardo Rocha testemunhar a favor (embora a entrevista ao lado possa sugerir mais um “contra”…) da guitarra portuguesa e das suas especificidades enquanto instrumento que melhor exprime um modo de sentir (tradicional?) português mas que finalmente se abre para um universalismo, de ordem não só estética como ideológica, antes apenas enunciado.
“Voluptuária” pode ser encarado como o terceiro momento, ou movimento de um caminho de emancipação deste instrumento que terá tido origem em Carlos Paredes, prosseguindo no sentido de uma certa “normalização” estilística através de Pedro Caldeira Cabral, e finalmente sido redimido das suas limitações próprias e enquadrado no campo mesmo das novas músicas, por Ricardo Rocha. De Paredes retirou Rocha a expressividade física (o arrebatamento, esse é próprio da alma de cada um) enquanto de Caldeira Cabral aproveitou o gosto pelo jogo das formas e a propensão para um estruturalismo mais cerebral que em Paredes mal se deixava perceber por detrás do dilúvio das emoções.
Rocha possui uma visão de campo alargada, sente o tempo de uma forma que lhe permite ir do minimalismo e da repetição ao estatismo, das cascatas de acordes que tombam em dilúvio às notas soltas que flutuam com vida própria no seio do silêncio. Do classicismo, reiterado nas três composições em forma de “trompe l’oeil” com dedicatória a Scriabin e enredado nos parâmetros do contraponto e do Barroco nas peças para cravo, ao abstracionismo cultivado, à sombra de um acompanhamento discreto da guitarra, nas peças para violino. É, porém, no gosto pelo equilíbrio e na preocupação, quase obsessiva, pelo detalhe (inclusive posto em prática no trabalho meticuloso da escolha dos títulos e no grafismo da embalagem, um digipak que põe em contraste o lado cósmico com o microcosmos dos pequenos ícones pessoais) que Ricardo Rocha se revela exímio, propondo a integração da guitarra portuguesa numa “new age” de contornos inovadores onde as noções de tradicionalismo e modernidade se esbatem e a beleza não se esgota nas cores de uma natureza-morta, antes é espaço de procura de novos horizontes.

RICARDO ROCHA
Voluptuária
2xCD, ed. e distri. Vachier & Associados

08/02/2019

À noite ela voa [Anamar]


Y 9|MAIO|2003
anamar|música

à noite ela voa


Em torno da antologia “Afinal” bailam as imagens de uma mulher cuja aura continua a intrigar, Anamar. À noite as imagens são mais difusas. E voam.


Afinal quem é Anamar? A cantora da noite e das poses fatais de “Almanave” e “Feia Bonita”? A lua do Sul que ilumina as profundezas de “M”? A regressada aos dias de luz e a descoberta dos seus guias interiores no projeto SM58 partilhado com Né Ladeiras e Pilar Homem de Mello? A intérprete mutante das vozes míticas, de Edith Piaf, Sinatra, David Bowie, Leonard Cohen ou Lou Reed? A presença dentro da escuridão radiante do fado, com o fim de lhe extirpar a tragédia e de o vestir com um vestido novo, de preferência branco?
            Anamar é, afinal, uma mulher simples e é nessa simplicidade que reside o seu maior mistério. Afinal um caminho eternamente inacabado, um “Baile final” que agora se revisita na antologia “Afinal”, a preparar um novo disco de originais cujos contornos a cantora prefere manter em segredo. Anamar, olhos verdes muito claros, demasiado transparentes, olha em frente e além. Por vezes torna-se difícil, quase doloroso, sustentar o olhar de água, ou de águia. Porque dolorosa é a mágoa de enfrentar, cara a cara, a verdade. Mesmo que a verdade seja, como no seu caso, encenada ao pormenor sobre o palco de um antigo e oculto teatro. A entrevista com o Y foi feita de dia, Anamar trajada de negro, com sombras em redor, a brincar.

            Há alguma razão especial para lançar nesta altura uma antologia?
            Há, um balanço. Por outro lado, está a haver um novo espaço para o fado e ouvindo-se os discos que já gravei percebe-se que esta nova abordagem é uma coisa recorrente no início da minha carreira e ao longo dela. Mas os discos foram esporádicos, alguns não apoiados convenientemente, por não ter feito espetáculos ao vivo, não ter alimentado uma presença na música... Um disco precisa absolutamente de ser acompanhado por espetáculos ao vivo. Eu sou mais real ao vivo do que em disco. Há neste disco uma série de músicas que, apesar de não serem inéditos, a maior parte das pessoas nunca deve ter ouvido na vida... Seria um desperdício encetar algo novo sem pôr cá fora o sumo do que posso considerar a minha viagem próxima do fado, ou de um canto de alma telúrico qualquer.
            Este é, então, o tempo certo para se ouvir as suas músicas antigas?
            Sim, fiz trabalhos talvez desfasados do tempo, que dificultaram o seu consumo: abordagens novas ao fado, um disco mais ambiental como o “M”, numa altura em que no mercado era pouco comum haver esse pioneirismo. Ao mesmo tempo, houve uma ausência da minha parte em lhes dar vida ao vivo, na comunicação com as pessoas.
            Hoje vive-se numa situação em que tudo o que tem a ver com o fado é facilmente aceite...
            Acho alguma graça. Sobretudo quando já se passaram 20 anos sobre novas abordagens, como o “Lisbunah”, da Anabela Duarte, o “Almanave”, meu, ou o primeiro disco da Sétima Legião, sem esquecer o nosso eterno irmão, António Variações. Na altura era o fruto proibido, um tabu. Linchava-se em praça pública quem o fizesse. Hoje há um “boom” comercial, porventura marcado por um certo exagero. O que antes era tabu, está agora na praça pública. Hoje há mais pessoas a dizerem as mesmas coisas que eu ando a dizer há uma data de anos, sem estarem sujeitas a testes de linchamento ou de endeusamento, tudo ao mesmo tempo. Que foi o que me aconteceu, um teste emocional brutal. Hoje é possível ouvir, por exemplo, Cristina Branco falar abertamente da relação entre música, sensualidade e sexualidade sem que seja capa do jornal no dia seguinte, como se fosse o caso mais polémico de Portugal.
            Mas algumas das novas fadistas são bastante tradicionalistas. A Anamar, pelo contrário, continua a ser uma transgressora...
            Você o diz (risos) e nem sabe o que se avizinha! Sobre o próximo disco apenas posso dizer que terá a ver com o fado e não será com certeza um trabalho tradicional.
            Tem sobre as pessoas o efeito de projetar uma imagem muito forte. Tem consciência disso?
            Projeto uma imagem forte que se pode confundir com a minha essência. Isso pode fazer com que as pessoas achem que a figura da mulher vestida de preto, de cabelos compridos e pose de “femme fatal” seja aquilo que tenho para dar. Na verdade, não é. Não passa de uma veste.
            Recentemente cantou Bowie, Reed, Cohen, Sinatra, Piaf...têm ou não algo que tem a ver consigo?
            ...não se esqueça do Gardel, estamos a falar de um universo vasto. Foi um espetáculo [“Wild Cabaret”] que surgiu na sequência do espetáculo de teatro “Rita Hayworth”, como uma das minhas criações “à margem”, que sempre versaram universos míticos internacionais da música. É como o David Bowie cantar Brecht.
            Mas o que o núcleo da artista Anamar persegue é a junção dos cantos de alma do universo luso-latino.
            A capa de “Afinal” tem algo de sombrio, muito David Lynch.
            Acha? Eu leio a noite, sem dúvida, que, para todos os efeitos, continua a ser uma imagem colada a mim, mas também umas asas brancas e um ar bastante tranquilo. Na noite ela voa... Há um lado teatral evidente mas, curiosamente, a fotografia da capa foi tirada durante uma pausa na sessão. O resto do rolo tem poses, encenações, intenções, mas nesta estava apenas a descansar.
            Mantém sempre uma lucidez extrema em relação a tudo o que faz.
            Tem vezes!...(risos). Como provenho de um universo anglo-saxónico, americano, preocupo-me com o conhecimento técnico que preside à criação artística, com o controle conceptual, desde a imagem aos conteúdos escritos, passando pela escolha de parceiros, pela luz...
            No entanto o mistério que a rodeia adensa-se...
            Mas eu explico, desmonto tudo! Sou uma pessoa simples! As pessoas é que não acreditam (risos) e continuam a achar que sou misteriosa. Mas finalmente se constata que o mistério da Anamar não é um mistério construído, como foi dito em tempos. Se à medida que vou falando e explicando, ele se mantém e até se acentua, é porque deve existir por si próprio. Claro que não consigo desmontar o que passa através da minha voz e do meu canto. Será aí que reside o mistério.
            Ao vivo, sente que está a expor, ou a expor-se a esse mistério?
            O palco para mim não é um território de exposição, daí ser apelidada de animal de palco. E é verdade. O palco é a minha casa. Estou num palco como estou em casa. Não tenho a noção de estarem não sei quantas pessoas a olharem para mim. É como se me sentasse, entre aspas, atrás de uma secretária, é o trabalho que tenho para fazer – o que passa e o que sinto é a comunhão.
            É portanto uma atriz, como Isabelle Hupert, que quanto mais se expõe em situações teatrais extremas, mais oculta a sua essência?
            Como todas as grandes figuras reais e não as que são construídas pela máquina de consumo, ela tem uma essência que passa através de tudo aquilo que faz e que é extraordinariamente profunda e simples. Porque é verdadeira. A Isabelle Hupert é também uma pessoa que explica tudo, que se expõe, mas que na sua vida pessoal deve ser com certeza simples. Provavelmente é esta essência que está presente em tudo o que se faz quando se trabalha para se ser verdadeiro. O meu caso é igual: o melhor que tenho para dar é a minha essência. Ser eu o mais verdadeiramente possível. E assim criar pontes com as pessoas. E isso é misterioso. Porque é misteriosa a relação das almas e dos corações.
            Que músicas misteriosas anda a ouvir neste momento?
            Algumas que até poderão ter a ver com o meu próximo trabalho, mas só em termos técnicos ou de pesquisa histórica. E “Secrets of the Beehive”, de David Sylvian, o “Concerto nº3” de Rachmaninov, o álbum ao vivo do Rodrigo Leão, Susana Baca, “Bodily Functions” do Matthew Herbert.

01/02/2019

Frodo ataca [Tantra]


Y 11|ABRIL|2003
música|tantra

Tantra, Manuel Cardoso, Terra. O regresso da mais importante banda de Rock progressivo português, com os seus delírios mas também o seu idealismo.

frodo ataca

“Terra” é um álbum pautado por preocupações humanísticas e ecológicas. Também um testemunho apocalíptico de tempos à beira do fim. Manuel Cardoso, místico e admirador de Björk, tem, porém, os pés assentes na terra. “Terra” poderá ser o início de um novo ciclo que dará a Frodo uma nova missão. E os Tantra poderão voltar a tocar ao vivo, embora sem a teatralidade que marcou as suas atuações nos anos 70. “Não voltarei a mudar de roupa seis ou sete vezes por espetáculo. Não perdi a energia mas agora apetece-me apenas tocar e compor. Num contexto como o da música de câmara”, diz Manuel Cardoso/Frodo. Que ainda não perdeu o anel do poder e o tenta lançar à Terra.
            Existe em “Terra” uma continuidade apesar da produção ter pouco a ver com a realidade, em 1977, que deu origem a “Mistérios e Maravilhas”...
            Quando fizemos a primeira maqueta, os temas soavam já aos Tantra. Foi importante seguir o aspeto espiritual e musical anteriores, senão não faria sentido manter o nome. Tantra é uma forma de olhar o mundo, com fazer algo superior a nós próprios, em conjunto. A música é complexa mas não por futilidade.
            A introdução do tema “Estrada sensível” faz-se através de uma sequência eletrónica que soa computorizada...
            Mas não há um único computador! Temos o Guilherme da Luz, que faz os efeitos sonoros, com sintetizadores analógicos e digitais. Ele e eu temos um projeto paralelo de música cósmica com guitarras completamente loucas, chamado Everness, com o qual já gravámos um CD de edição limitada.
            Por que razão chamaram ao disco “Terra”. Não é um pouco redundante?
            Refere-se a algo mais do que o simples aspeto ecológico. Os textos e a lógica de algumas composições deste “concept album” reportam-se ao facto da Terra não ser senão uma parte de nós. Não existe isso de “salvar a Terra”; ou salvamos tudo ou não salvamos nada. Nós somos a Terra, o inimigo somos nós. A luta consiste em salvar a nossa ideia de civilização e em criar harmonia para que o planeta e os seus habitantes formem uma única entidade. A ecologia só faz sentido inserida numa perspetiva de uma mudança global.
            Mas o mundo criado para a capa do disco é um mundo virtual criado por computador...
            Não queríamos cair nem na descrição básica nem no bonitinho horroroso. Tentámos fazer passar a imagem de uma viagem de estados de espírito que, no fundo, é uma chamada ao “Eu” que está parado, algures, à espera que o assunto se resolva. Há uma parte de nós que descansa num paraíso interior esquecido, à espera que o mundo seja salvo por si, mas temos que ouvir as vozes que nos chamam para a luta, fazer a transposição e passar para o lado de cá e estar ativo. Tudo se passa num universo onírico. Entre a realidade e o sonho onde todos habitamos.
            As vocalizações estiveram a seu cargo, embora não seja propriamente um grande cantor. A que se deveu esta opção?
            Já nos discos antigos me debrucei sobre esse assunto. Substitui-se ou não o cantor? Canto razoavelmente em inglês, em português, no rock, não, já não gosto. A questão está em que não sou um cantor nem faço esse papel, mas um narrador melódico, teatral. Teatralizo, sou alguém que está a viver uma experiência, a gritá-la do fundo da alma. A voz é um instrumento solo, como a guitarra.
            Como Peter Gabriel?
            Mas o Peter Gabriel canta melhor do que eu! Digamos que as atitudes são semelhantes.
            Tudo isso se sente no tema “À beira do fim”. Não é tecnicamente famoso mas a emoção passa. Talvez mais ainda do que no original de 1977.
            É o tal elo que liga espiritual e até musicalmente os Tantra antigos aos atuais. Infelizmente o mundo não mudou nada. A realidade está como estava nessa altura. A nova roupagem tem a ver apenas com um novo som e um novo espírito da banda. Menos frenético. Eu estou mais calmo.
            A partir de 1976, o termo “Progressivo” foi banido. Hoje a situação mudou, com o termo a ser, inclusive, adotado de forma abusiva. Como explica esta viragem?
            Sente-se um grande cansaço em relação às soluções repetitivas do rock e da pop. Embora a pop, estranhamente, de há uns dez anos a esta parte, até seja mais inovadora, sobretudo pelo lado das mulheres. Estou a pensar nas grandes cantoras folk e country americanas que têm dado lições. Mas também na Björk, um génio. Ouço-a cantar e páro — pela voz, pela originalidade e estranheza dos ambientes.
            Que discos tem dela?
            Nenhum. Nunca tive discos. Ouço música nos sítios. Nunca tive gira-discos na minha vida, não gostava de discos. Gostava das capas, de os ver redondinhos, mas detestava o som. Ouvia música no carro em cassetes. Só agora comecei a fazer uma coleção de CD, cujo som me agrada: música clássica... e a refazer o meu “top ten” antigo, do que tinha em cassetes, Rolling Stones, Hendrix...e coisas mais novas, Anglagard...e portugueses — adoro os Madredeus, os The Gift...
            Existiu nos anos 70 um Progressivo português?
            Antes dos Tantra existiram grandes bandas de Progressivo, os Kama Sutra e os Ephedra. Não perdia um concerto destes últimos. Já tinha visto ao vivo os The Byrds, Frank Zappa, Pink Floyd, Supertramp, Mahavishnu Orchestra, Hawkwind, mas no “top one” das bandas que vi ao vivo estão os Ephedra. Além dos Tantra, era o rock mais bonito que se fazia em Portugal. Menos a meu gosto, mais para o lado dos Van Der Graaf Generator e King Crimson, havia os Kama Sutra e os Ara-Zen. Depois dessas bandas surgiram os Anangaranga e uns assomos mais pró-sinfónicos dos Beatnicks pós-Tantra.
            O que tinham os Tantra a mais do que a concorrência?
            Acima de tudo, determinação e trabalho. Durante três, quatro anos, trabalhámos 8 a 12 horas por dia, incluindo sábados. E estava lá eu, que tenho tendência para lutar pelas coisas, para não deixar que haja o mínimo esforço estúpido. O defeito de muitas bandas portuguesas é perderem muita energia em discussõezinhas, parvoeiras e tricas. Onde eu estou não há tricas. Também pertencíamos a um meio burguês que nos permitiu ter algum apoio, embora tivéssemos pago todo o nosso material com um empréstimo bancário, pago até ao último tostão.
            Concorda com quem chamava aos Tantra os “Genesis portugueses”?
            Não. Mas nunca me chateou. Era uma visão curta das coisas, apenas se reparava nos pormenores. É o mesmo dizer que o Mahler sofreu influência de Beethoven e Bach e que, por esse motivo, eram iguais. Todos aprendemos uns com os outros. Uma das coisas que me dá mais prazer, é ler nos “sites” de Progressivo que os Tantra não se parecem com ninguém.
            Frodo, a personagem tirada de “O Senhor dos Anéis”, volta a estar presente em “Terra”. O recente interesse pela obra de Tolkien teve influência nesse regresso?
            As pessoas achavam que o Manuel Cardoso, por fazer meditação, devia ser uma determinada personagem. Inventei o meu próprio Frodo. O Frodo tinha uma qualidade que existe em todos nós: é um herói, falha imenso e precisa dos outros. Hoje continuo a ser Frodo. Gostaria muito de poder dizer que sou o Gandalf, mas não sou. E se alguma vez na vida chegar a ser o Gandalf, o feiticeiro, serei sempre o “cinzento” e não o “branco”.

17/12/2018

"O Alentejo tem ritmo" [Adiafa]


CULTURA
DOMINGO, 26 JAN 2003

“O Alentejo tem ritmo”

Têm o “cante” na voz e na alma mas não descuram a irreverência. Ao vivo põem as pessoas a rir. À noite, a sua música é para se dançar ao lado de Shakira ou das Las Ketchup. As novas “adiafas” fazem-se nas discotecas

PÚBLICO — Como apareceram os Adiafa e o álbum de estreia?
            ADIAFA — A ideia é do Emídio Palma e do Paulo Colaço que há uns anos começaram a pensar na música da nossa terra e de uma maneira nova de a apresentar. O grupo nasceu há três anos. Fruto da necessidade de termos um cartão-de-visita. Fomos nós que custeámos tudo.
            Mas depois de uma primeira edição caseira, o CD vai ter lançamento oficial da Sony...
            Sim, mas o processo desencadeou-se todo no Alentejo. Foi no Alentejo que começámos a ter sucesso. O disco passa nas discotecas, nas rádios locais... Só a partir daí é que a editora veio ter connosco.
            “Adiafa” significa apenas “banquete” ou algo mais?
            Também é “festa”. No Alentejo, antigamente, o trabalho agrícola era todo feito por pessoas. Não havia máquinas. Vinham do Algarve, das Beiras, do Norte, inclusive de Espanha. No final desse trabalho, o senhor dono das terras dava uma festa. Comia-se, bebia-se, dançavase e cantava-se. Era a “adiafa”, uma palavra de origem árabe.
            Por norma as pessoas associam a música alentejana ao “cante” e aos grupos corais. Provavelmente, não há mais nenhuma formação como a vossa...
            Não quisemos abandonar o “cante” mas recuperar o tempo perdido. Fez-se a promoção do “cante” mas não por opção do Alentejo, na época das recolhas. Houve coisas proibidas e outras não. A viola campaniça, por exemplo, que é o que nos liga mais à tradição, foi deixada ao esquecimento. A história tem destas coisas tristes... Nós somos o futuro.
            Viola campaniça que esteve em risco de extinção. A situação continua a ser grave?
            Menos do que era. Há já alguns jovens a construir e a tocar. A nossa foi construída por um rapaz de 25 anos, o Pedro Mestre. E bom tocador... A viola campaniça representa, no aspecto rítmico, a nossa ligação ao mundo árabe. No “cante” a ênfase é posta na riqueza harmónica e melódica. A verdade é que havia bailes nas aldeias todas as semanas e as pessoas não dançavam modas lentas mas coisas rítmicas. O Alentejo tem ritmo.
            Fizeram recolhas?
            Não andámos de gravador ao ombro. Ouvimos, fomos a “adiafas”, que ainda se realizam. Vimos velhotes, um trio de violas campaniças, tocar e cantar. Também tirámos dos discos. Mas o tema mais conhecido, “As meninas da Ribeira do Sado” aprendêmo-lo por via da tradição oral.
            Mas não se considerem puristas, o que nos leva à “remix” de música de dança de “As meninas da Ribeira do Sado”...
            Somos puristas na maneira de cantar quando estamos num grupo de cantares alentejanos. Se se reparar, a traça da nossa música continua a ser a do “cante”. Damos-lhe é uma roupagem diferente... O Fernando Lopes-Graça escreveu um livro chamado “Problemas da Música Portuguesa”. Uma das coisas que ele dizia era precisamente que nas recolhas a que teve acesso se percebe que o povo não está estático, as pessoas evoluem. Por exemplo, há uma moda da Dulce Pontes com um grupo coral que ninguém conhecia e que hoje se canta nas tabernas.
            Sim, mas a “remix”...
            Foi ideia do Paulo. Fazer uma moda alentejana ser dançada nas discotecas. Antigamente dançavam-se nos bailaricos. Hoje as “adiafas” são feitas nas discotecas. Passam “As meninas da Ribeira do Sado” ao lado da Shakira e das Las Ketchup.
            Todas as pessoas reagiram bem à vossa música?
            Havia um bocado a ideia de que o “cante” tem que ser sempre lento, pouco apelativo à vista. Nós, nos espectáculos ao vivo, que é o nosso forte, somos extraordinariamente bem dispostos, brincamos uns com os outros e com o público. Contamos histórias, anedotas, pomos as pessoas a rir.
            Além de música alentejana o que é que ouvem em casa?
            Cada um de nós tem gostos diferentes. Herbie Hancock, Joe Zawinul, Wes Montgomery, “blues”, música de dança... Antes dos Adiafa tocávamos jazz mas as pessoas não queriam saber disso. Aplicamos os nossos gostos e os nossos conhecimentos técnicos à música alentejana. Sempre cantámos à alentejana. É inato. Está-nos na alma.
            Fazem parte da mesma linhagem do Vitorino ou do Janita Salomé? Ou representam uma ruptura?
            Ruptura nunca. Embora o Vitorino cante com cubanos, é uma opção dele... A verdade é que quando ele nos ouviu pela primeira vez, ainda não éramos conhecidos, torceu um bocado o nariz. Mas no outro dia, ouviu-nos cantar “à alentejana”, seis ou sete modas, veio ter connosco a pedir para cantarmos mais. Convidou-nos para participar no próximo disco.
            Existe mesmo uma pop alentejana?
            Além de nós, há o Paulo Ribeiro, o fadista António Zambujo, o Francisco Sobral, fizeram os dois parte do musical “Amália”, todos de Beja, todos da mesma geração. Não sei se será coincidência. É como se estivesse algo a cozinhar e de repente se decidisse deixar de ser politicamente correto.

26/09/2016

Droga de guitarras [Xutos & Pontapés]

Quarta-feira, 19 Março 1997 POP ROCK

Xutos e Pontapés jogam novo álbum, novo som e nova editora

Droga de guitarras

“Dados Viciados”, o novo disco dos Xutos e Pontapés, primeiro na EMI-VC, joga os trunfos das guitarras – o “instrumento do século” –, da energia e de um som internacional. Tentámos criar um ambiente poderoso onde as canções pudessem fluir e depois ‘drogá-las’ com as guitarras”, diz Tim, para quem os Xutos passaram a ter, além da vontade, o conhecimento das regras do jogo.

Logo após a curta atuação ao vivo do grupo, na noite da passada sexta-feira, no casino da Figueira da Foz, que serviu para apresentar o novo álbum, “Dados Viciados”, Tim explicou ao PÚBLICO os lances mais recentes. Além da sorte, é preciso saber aproveitar. Quando o “jogo sai bom” deve-se “jogar o melhor que se souber”. “Dados Viciados” é o melhor jogo que os Xutos alguma vez tiveram? Fazem-se apostas.

                PÚBLICO – “Dados Viciados” é um título curioso. Qual foi a ideia?
                TIM – Bom, tivemos montes de problemas para registar os nomes. Seis canções tiveram mesmo que ser renomeadas porque já existiam outras com o mesmo nome. “Mãos de veludo”, por exemplo, teve que desaparecer. Deve ser porque, se calhar, há muita música portuguesa…
                P. – A que se deve esta mudança de editora, com a entrada para a EMI-VC?
                R. – Depois de nove ou dez anos a trabalhar com as mesmas pessoas, com os mesmos chefes, sentíamo-nos como se estivéssemos a malhar em ferro frio. Já não havia retorno. Nem a excitação, pelo nosso lado, em arranjar ideias novas para apresentar às pessoas, nem ideias novas das pessoas para nos apresentarem. Ainda por cima, com o processo que acabou com os Resistência, acabou por ser ainda mais difícil manter um diálogo coerente com a editora que tínhamos na altura.
                P. – Quais são os termos deste novo contrato?
                R. – Dois discos em três anos.
                P. – Que importância teve o produtor Ronnie Champagne na gravação de “Dados Viciados”?
                R. – O Ronnie Champagne tinha vindo cá fazer um trabalho com os Blind Zero. Conhecíamos esse trabalho e os Blind Zero, bem como a repercussão que aquele teve na estrada, que foi bastante boa. Precisávamos realmente de uma pessoa de fora, de fora mesmo, que não nos conhecesse nem como estrelas nem como músicos, mas que nos ajudasse, nos proporcionasse um trabalho coerente a um nível mundial. Algo como se fosse novo. O padrão é outro. O padrão português tem algumas limitações.
                P. – Como definiria esse novo padrão?
                R. – É um padrão de rock internacional, ou seja, uma coisa que tanto soa bem aqui como lá fora. O Ronnie fez um trabalho aqui que não vai ter vergonha de mostrar em Los Angeles, em Paris, em Xangai ou onde quer que seja. É como se nós fizéssemos na realidade parte de uma cultura rock universal.
                P. – Quer dizer que vai haver uma aposta no mercado internacional?
                R. – Não! Foi só um aproveitamento desse conhecimento. Ainda por cima, o Ronnie chegou cá e tratou-nos exatamente como nós estávamos à espera. Não sei bem explicar… É como se uma pessoa toda a vida pensasse que era defesa-direito e depois houvesse um selecionador que o chamasse mesmo para esse lugar. As coisas casaram mesmo bem. Não houve um entusiasmo por aí além, do estilo de haver um som fantástico no estúdio, mas que depois é impossível, mas apenas um trabalho muito continuado.
                P. – Quanto tempo estiveram em estúdio?
                R. – Cinco semanas a gravar, em Paços Brandão. Todos os dias. Sempre a chover, a chover…
                P. – “Dados Viciados” é sobretudo um disco com uma grande energia das guitarras. Onde é que a foram buscar?
                R. – Foi preciso, porque nós sempre achámos que éramos uma banda de guitarras, com a minha voz a cantar. Eu e o Kalu fazemos as músicas e o substrato. Mas o que faz mesmo a diferença são as guitarras, a velha fórmula que este final do século consagrou. Duas guitarras, um baixo, bateria e vozes.
                P. – Guitarras cheias de efeitos especiais, então de “fuzz” nem se fala…
                R. – Do que houver! A droga que houver é a que a gente mete! Se houver “fuzz” é “fuzz”, se houver outra coisa é outra coisa! Foi um bocado esse o espírito do disco, tentar criar um ambiente poderoso, onde as canções pudessem fluir por elas e depois conseguir “drogá-las” com as guitarras… É o instrumento deste século!
                P. – O tema é o jogo. Trata-se um álbum conceptual?
                R. – É meio! Escolhemos esse tema porque, em grande parte, para nós, já é um jogo fazer os temas dos Xutos e Pontapés. Já reflete tantas e tantas músicas para trás, tantos e tantos concertos, que agora resolvemos encarar isto como algo de que gostamos mesmo. Imagine que tem as cartas na mão e que o jogo lhe sai bom. Então deve jogar o melhor que souber.
                P. – O jogo saiu bom?
                R. – Sim. Foi esse o espírito que eu quis quando o Cabeleira solasse, que tivesse um som fascinante. Ou que o Zé Pedro tocasse de uma forma irrepreensível. Ou quando eu cantasse, o fizesse da forma mais natural.
                P. – Os Xutos estão a ficar perfecionistas, à boa maneira dos grupos dinossauros, é isso?
                R. – Dinossauros perfecionistas! Mas à nossa maneira.
                P. – Então, afinal, os dados não estão “viciados”?
                R. – O vício foi mesmo esse. Dantes não conhecíamos as regras do jogo. Íamos a jogo porque sim, só porque tínhamos vontade. Agora vamos a jogo mas sabemos. Por isso podemos permitir-nos certas coisas, mesmo no disco, de que noutros tínhamos medo. Como pôr as guitarras tão alto, fazer solos de determinada maneira ou acabar música sem ser no refrão. Coisas que, se calhar, as pessoas podem não perceber mas que para nós, músicos, tem muito a ver com o “88” ou com o “Circo de Feras”, discos que estabilizaram a nossa maneira de ser e que nós, já desde 1992, tentamos quebrar, mas agora, além da vontade, com saber.
                P. – “Dados Viciados” foi feito a pensar na estrada? Dá ideia que vai funcionar bem ao vivo…
                R. – Deus queira que sim! Nós pensámos nisso. A maior parte da nossa energia e do nosso prazer vem de tocarmos ao vivo.
                P. – Onde é que os dados estão mais viciados: no futebol, na política ou na música?
                R. – Na música não estão. No futebol estão bastante. Na política deve estar quase igual ao futebol.
                P. – Qual foi o trunfo mais forte que os Xutos jogaram neste disco?
                R. – Trabalho.