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08/02/2019

História do fado custa um milhão de euros


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 2 MAI 2003


História do fado custa um milhão de euros

ESPÓLIO NAS MÃOS DE COLECIONADOR INGLÊS

Um milhão de euros é quanto pede Bruce Mastin pela sua valiosa coleção dos primórdios do fado. São cinco mil discos raros, de 78 rotações. A proposta de compra vai ser feita nos próximos dias

O fado vende-se. O fado compra-se. O fado paga-se. Paga-se e bem, sobretudo quando se trata de um espécime raro. Imagine-se um espólio de cinco mil discos de 78 rotações, a maior parte deles inéditos, remontando as gravações mais antigas, ainda em cilindro de cera, a 1904. Este espólio existe, mas está nas mãos de um inglês.
            O fado é nosso. Pois é. Mas quem tem uma parte importante dele é o britânico Bruce Mastin, colecionador. Acontece que Mr. Mastin, sabendo do interesse do Estado português em adquirir a preciosidade que, em meados do século passado, adquiriu num armazém de Lisboa por tuta e meia, até compreende e aceita as razões lusitanas, mas, desfazer-se dela, só a troco de um cheque de um milhão de euros.
            E vale esse dinheiro? Se vale! Nesses cinco mil discos está impressa a origem do fado gravado, quando, em 1926, a companhia inglesa Gramophone, com sede em Hayes, Middlesex, estabeleceu filiais em Lisboa (na Valentim de Carvalho) e no Porto (no Grande Bazar do Porto). As duas fábricas de gramofones e discos encetaram então um intenso processo de gravação de discos, com orçamentos que previam o pagamento aos artistas, aluguer das salas de gravação, publicidade, salário dos engenheiros de som (Fleming e Draycott, assim se chamavam os dois técnicos que a firma inglesa fazia deslocar a Lisboa para o efeito), equipamento, etc... As sessões duraram até 1936, a II Grande Guerra estalou entretanto e a Gramophone Company deixou Portugal, abandonando o espólio que o sr. Mastin teve a sorte de encontrar.
            Entre as históricas gravações contam-se os nomes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor e Maria Victoria, todas registadas em 1904. Mais recentes, há 78 rotações de, entre outros, Maria Alice, Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista, Maria do Carmo Torres e dos míticos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e Alfredo Duarte (Marceneiro). Fado como se cantava nos cafés Vitória ou Luso, este último descrito no início dos anos 30 pelo musicólogo Rodney Gallop como “um retângulo amplo, cuja entrada era interdita aos portadores de bonés ou boinas”.

Peças únicas
Tudo isto existe, tudo isto é triste (enquanto não passar para cá), tudo isto é fado. Que fazer, então, para que deixe de ser triste? João Pinto Sousa, diretor da empresa Corda Seca, especializada em iconografia do fado, e elemento da associação Movimentos Perpétuos, quer ir pessoalmente a Londres e trazer o tesouro para Portugal, custe o que custar. De preferência, menos do que o milhão de euros pedidos pelo sr. Mastin (uma “exorbitância”), mas se for mesmo preciso puxar os cordões à bolsa, paciência.
            Antes, já uma comissão oficial se deslocara a Londres, chefiada por Joaquim Pais de Brito, diretor do Museu Nacional de Etnologia, para testemunhar “a mais-valia e a importância deste espólio para Portugal”, até porque são “os primeiros fados gravados” e urge devolvê-los à pátria onde nasceram. Feita a avaliação, é a vez de João Pinto de Sousa viajar até Londres para tentar convencer o colecionador, o qual, segundo parece, se mostra “sensível” às razões dos portugueses.
            Com ligações afetivas à Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, empresa municipal interessada na transação, é nessa condição que João Pinto Sousa recebeu “todo o apoio para poder, também como cidadão”, fazer tudo o que estiver ao seu alcance “para, com algumas boas influências, nomeadamente do próprio Presidente da República, tentar trazer a coleção para Portugal”.
            Atingido tal objetivo, os cinco mil discos (dos quais, “pelo menos, 4500 são peças únicas”) serão organizados, digitalizados, integrados numa base de dados e editados numa antologia, “Arquivos do Fado”, pela Tradisom, de José Moças, outra das pessoas empenhadas em recuperar os registos fonográficos “de uma das épocas mais importantes do património musical português” e exemplares cuja importância e raridade são reconhecidas por especialistas do fado como Daniel Gouveia, José Manuel Osório, José Pracana e Luís Filipe Penedo. Recorde-se que nos arquivos atuais do fado os exemplares mais antigos não ostentam data anterior a 1945. A acompanhar esta antologia será editado um trabalho inédito do investigador norte-americano Paul Vernon, com o levantamento de toda a discografia do espólio.

Preço “descabido”
Em teoria, incluindo as necessárias autorizações, está tudo pronto. Falta apenas trazer o material e, claro, falta o dinheiro para o pagar. Pinto de Sousa tentará fazer descer o preço. O dinheiro não virá do Estado – “O Ministério da Cultura (MC), através do POC, só pode apoiar a futura gravação, digitalização, reprodução, não a compra efetiva” –, mas de uma série de mecenatos, como bancos, que Pinto de Sousa procurará angariar, com base nos apoios do próprio MC, da Casa do Fado, da Câmara de Lisboa e da Presidência da República.
            Mas um milhão de euros é um preço “descabido”: “Admito que, do ponto de vista comercial, o homem seja justamente renumerado, mas o peso do que estaria em cima da balança é o de algo que é pertença de uma certa alma portuguesa. Vou tentar que ele desça à terra e seja sensível aos argumentos românticos desta história”.
            Mesmo que Bruce Mastin não desça à terra, João Pinto Sousa defende que o negócio tem que ser feito. “Há coisas que não têm preço, e este seria um dinheiro bem gasto”. Além disso, dado as primeiras gravações datarem de 1904, “era bonito em 2004, já que vamos ter a Europa a olhar para nós por causa do futebol, podermos ter também um centenário do fado”.

Prata de casa [Argentina Santos]


Y 25|ABRIL|2003
música|argentina santos

prata da casa


Aos 77 anos, Argentina Santos continua a incluir o fado na ementa da sua alma e do seu restaurante. Ainda arranjou tempo para gravar um novo álbum.

“Não tenhas medo da fama/D’Alfama mal afamada/Que a fama às vezes difama/Gente boa, gente honrada”. A quadra, escrita num azulejo incrustado na parede logo à entrada do “Parreirinha”, quase se poderia aplicar ao modo como Argentina Santos, voz e nome de prata, optou por gerir uma carreira que só recentemente, quando, em 1994, Carlos do Carmo a convidou para estar presente num espetáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, começou de facto a acontecer. Dona Argentina preferiu dedicar-se por inteiro à sua casa e aos seus petiscos. O fado e a culinária estão-lhe no sangue e encara as duas como arte. Nenhuma delas mais valiosa do que a outra.
            À hora de jantar, o Parreirinha enche-se lentamente de turistas. Argentina Santos está sentada, como sempre, à entrada, fazendo de anfitriã. Neste dia decide não cantar. Há ocasiões assim, em que o ambiente não se proporciona. É necessário que as pessoas estejam ali não só para ouvir cantar o fado mas que sejam capazes de o sentir da maneira mais profunda. Em vez dela, os estrangeiros podem ouvir Tina Santos. Aplaudem na mesma, à média luz, cumprindo o ritual. Argentina olha embevecida. A fadista que canta, as empregadas que servem à mesa, as cozinheiras fazem todas parte da sua família. Sente-se bem assim. Os espetáculos, como aqueles que deu no festival de Edimburgo, no Queen Elizabeth Hall em Londres, no Konzerthaus em Viena, no La Cité de la Musique, em Paris, numa digressão por Itália ou no Coliseu de Lisboa, e os discos, como o novo “Argentina Santos”, lançado na passada quarta-feira pela MVM, podem esperar. Afinal de contas não há fado melhor do que ser feliz.
            O novo disco demorou quanto tempo a gravar?
            Poucochinho. Eu chegava e todos os fados saíram à primeira. Só num é que o Jorge Fernando me pediu para lá ir outra vez mudar uma coisinha. Mas nunca canto o mesmo fado da mesma maneira. Quando havia uma falha qualquer, ele pedia-me para gravar só aquele bocadinho. Não ensaiámos nem nada. Tenho aí fados que nunca antes cantei.
            Consegue cantar tão à vontade no estúdio como no Parreirinha?
            Não é a mesma coisa mas, olhe, senti-me bem. Cantei os fados com menos meio tom, tinha a impressão de que não era capaz, mas ele achava que ficava mais bonito assim. Quando ouvi achei uma maravilha. Desde que a pessoa que está a tocar, toque, e eu comece a vê-lo sentir o fado… Ao ouvir um guitarrista, fico logo a conhecer a forma como reage, se gosta de acompanhar, se é fadista. Se o guitarrista não for fadista, a gente pode dar as voltas que quiser, que não vai lá…
            Preferiu manter-se fiel ao seu restaurante do que arriscar uma carreira como profissional. Porquê?
            Tenho a minha casa. Estou cá há 54 anos, foi feita com sacrifício. É como ter uma filha e criá-la. Depois, nunca fui pessoa para andar por aí a dizer “eu estou aqui, também sei cantar…”. Mas quando vim para aqui o meu companheiro, para me deixar cantar, era um caso sério, sabe, aquelas coisas dos homens antigos… Morreu, voltei a casar, mas ainda ficou pior, então cantar lá fora, fazer espetáculos e ganhar dinheiro, escusava de pensar nisso. Mas morreu também e fiquei… solta, com mais oportunidades de cantar para as pessoas e elas de me ouvir. Aí, o Carlos do Carmo, uma pessoa que gostava de me ouvir, veio ter comigo e convidou-me para ir ao Coliseu. Mas fiquei assim, “vais não vais”, a tremer por todos os cantos, e acabei por dizer que sim.
            Quantas vezes canta por semana no restaurante?
            Só quando vejo que há público que sabe. Quando vejo que não sentem, posso cantar dois ou três fados e muito obrigado, que vá cantar outra pessoa! Não canto marchas nem coisas com palmilhas, não é o meu género.
            Os restaurantes e casas de fado continuam a ser os melhores locais para se cantar o fado?
            Acho que sim. Quem não entrar e cantar nas casas de fado não terá um público que saiba ouvir. E não me venham cá com essa coisa do fado vadio, o que eu chamo fado vadio é fado espontâneo, pessoas para quem cantar é um alívio. Acho que os novos devem começar por cantar nas casas de fado.
            Está a pensar na atual vaga de novas fadistas? Tem alguma preferida?
            Sou amiga de todas elas, já cantei com todas, já fui ao estrangeiro com elas. Gosto de todas mas, e que me perdoem as outras, gosto mais da Ana Sofia Varela, é a mais fadista. Gosto muito da Mariza e da Mafalda [Arnauth], também, mas puxo mais para a Sofia. A Joaninha [Amendoeira] é uma menina doce que está a cantar melhor do que da primeira vez em que a ouvi, tem uma doçura e uma meiguice…
            Para se cantar bem o fado é preciso ter já experiência de vida, mais ou menos sofrida?
            Sim, sim! Não concordo que um menino ou uma menina de 12 anos ande a cantar o “Povo que lavas no rio” ou “Passaste com ela à minha rua”, são coisas para pessoas adultas, não para crianças. Elas têm muito tempo para sofrer. Há quem cante o “Povo que lavas no rio” porque já sabe que vai receber aplausos, só que 50 por cento desses aplausos são pela D. Amália. Depois da morte da D. Amália pôs-se toda a gente a cantar coisas dela. Acho uma asneira. Um artista, ao fazer do fado profissão, deve procurar os poetas, aprender as letras e cantar dentro do seu estilo, não é pôr um disco a rodar e tirar dele todas as voltinhas. Para se ser fadista tem que se ter trabalho.
            Como Amália Rodrigues, tenciona cantar até que a voz lhe doa?
            Tenho muita pena de estar a envelhecer e ter que deixar de cantar. Mas se continuar a ouvir cantar bom fado já fico muito contente. A D. Amália, o maior problema que teve nos últimos anos não foi a idade, foi a doença que lhe atacou a garganta. Mas ainda está por aparecer aquela que seja capaz de fazer o que ela fez. Além da voz linda, “estilou” coisas que hoje, quando a querem imitar, não estão a estilar, estão a gritar.
            No seu caso, uma das coisas que mais impressiona, é quando sobe aos agudos e parece voar como um pássaro…
            E às vezes não vou mais além para não exagerar. Mas isso, graças a Deus, ainda consigo fazer.
            Sai-lhe sempre bem?
            Não. Às vezes estou ali no meio da casa e digo assim: “só mais um fado que isto hoje nem a Amália! Desculpem mas isto hoje não está a sair como eu quero”. Não estou a sentir e ninguém me convence. Mas também é preciso ver que muitas vezes, nas casas ou nas festas, canta-se apenas um ou dois fados. Eu não, têm que me deixar cantar. Por vezes o primeiro fado não nos sai bem, a voz nem tempo tem para aquecer, depois no segundo já está melhor e é quando tem que se parar!
            Já deixou de participar em espetáculos por causa das suas obrigações no restaurante?
            Às vezes, em ocasiões em que há muito que fazer. Mas quando vou cantar lá fora deixo tudo bem orientado, tenho empregadas já com 40 anos de casa. Mas não recomendo nada a ninguém, cada um sabe aquilo que tem a fazer.
            Ainda cozinha?
            Quando os clientes me pedem, eu é que vou fazer o comer. Mas tive que deixar um bocadinho a cozinha por ter sido operada e já me custa estar muito tempo à frente do fogão.
            Cozinhar é uma arte?
            Eu gosto tanto de fazer comer como de cantar. É igualzinho. Adoro estar aqui em casa e ouvir o cliente dizer-me que está bom. E tanto improviso no comer como no fado.
            Mas aí não tem ninguém a acompanhá-la à guitarra…
            Quando muito posso pedir para me descascarem umas cebolas ou uns alhos mas o resto, quando me ponho em frente do fogão, é comigo. E posso garantir que aquilo que faço se pode comer (risos). Fazer o comer é uma coisa rica, um ato de amor.

01/02/2019

Mistérios e maravilhas do progressivo português


11|ABRIL|2003 Y
tantra|música

mistérios e maravilhas do progressivo português

Em Portugal o Progressivo chegou a conta-gotas. Quando lá fora se varriam os cacos e o punk encolhia o rock’n’roll a três notas e o dobro de cuspidela, em Portugal os músicos “descobriam” ser possível fazer algo mais que a canção popular interventiva, a pop canónica dos Beatles e o nacional-cançonetismo.
            Ao contrário, porém, do que sucedeu em Inglaterra, Itália ou França, faltava-nos tradição. Tínhamos a MPP de José Afonso e companhia e, mais para trás, o ié-ié. Também não abundavam os bons executantes e, pior, bons executantes originais. Restava aos músicos que se deixaram impressionar pelos King Crimson, os Gentle Giant, os Jethro Tull, os Genesis, os Yes ou os Van Der Graaf Generator assimilar e copiar os modelos estrangeiros.
            Houve bandas promissoras que nunca chegaram a gravar, como os Kama Sutra ou, para muitos uma das melhores bandas progressivas portuguesas de sempre, os Ephedra. Os Psico tinham em Filipe Pires (mais tarde nos Heavy Band, imortalizados numa célebre primeira parte de um concerto dos Atomic Rooster em Almada) um dos maiores guitarristas da sua geração. Os Perspectiva guardaram o projeco “A Quinta Parte do Mundo” na gaveta. Já os Anangaranga deixaram registados “Regresso às Origens” (79) e “Privado” (80), hoje bastante procurados pelos colecionadores estrangeiros. Dos Saga há a anotar o conceptual “Homo Sapiens”.
            Os Beatnicks, com a vocalista Lena d´Água, poderiam ter ido mais longe do que foram. Ficaram a recordação de um concerto inolvidável em Sintra onde o grupo se entregou com brio à execução de um tema de meia-hora, “Cosmonicação”, no meio de fumos coloridos e projeção de slides psicadélicos, a gravação de dois singles e um álbum tardio, “Aspectos Humanos” (1982).
            Miguel Graça Moura, hoje maestro da “clássica”, lançou os Pop Five Music Incorporated (lembram-se do indicativo do programa radiofónico “Página Um”?) e, a seguir, os Smoog, um dos primeiros grupos a utilizar um sintetizador Moog, acabado de desembrulhar por MGM no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 1973, na primeira parte de um espetáculo do “bluesman” Freddie King.
            Não chegava para criar uma atmosfera, muito menos uma corrente. Mantendo apenas ténues ligações ao Progressivo, a Banda do Casaco, de Nuno Rodrigues e António Pinho, gravaram álbuns importantes como “Do Benefício de um Vendido no Reino dos Bonifácios” (74), “Coisas do Arco da Velha” (76), “Hoje há Conquilhas Amanhã não Sabemos” (77) e “Contos da Barbearia” (78). Mais datado, o álbum dos Filarmónica Fraude, “Epopeia” (69), destaca-se como uma curiosidade resgatada pelo tom de crítica social bem humorada das letras de António Pinho. Júlio Pereira coseu rendilhados progressivos à música tradicional portuguesa em “Fernandinho Vai ao Vinho...” (76)”. Luís Cília gravou um álbum instrumental de ressonâncias progressivas, “Transparências” (78). Quanto ao Quarteto 1111, renovou a pop nacional, entrando para a lenda com “Onde Quando e Porquê Cantamos Pessoas Vivas” (74).
            “Mestre” (73) e “Ascenção e Queda” (76), dos Petrus Castrus, o segundo recentemente reeditado em CD em miniatura cartonada, fornecem pistas honestas do que poderia ter sido o “Progressivo Português” mas não tiveram continuação. Outro álbum, furiosamente apreciado pelos maníacos colecionadores de Progressivo japoneses, tem a assinatura de José Cid: “10000 Anos Depois, entre Vénus e Marte” (79, um delírio “sci-fi” colorido pelas sonoridades do “Mellotron” e do “Moog Synthesizer”).
            Sobram os Tantra, de Manuel Cardoso, o único grupo clássico do Progressivo lusitano. Tinham (e têm...) um conceito próprio, presente na teatralidade (a história regista a apresentação de “Mistérios e Maravilhas”, 1977, no Coliseu de Lisboa como réplica nacional ao “show” dos Genesis), com máscaras e cenários alusivos, e no conteúdo musical. Seguir-se-ia “Holocausto” (79) e a posterior encarnação de Manuel Cardoso na personagem Frodo, que deu origem ao álbum “Noites de Lisboa” (82). Frodo que agora desceu de novo à “Terra”.

09/01/2019

A guitarra que venceu o fado [Carlos Paredes]


Y 7|MARÇO|2003
música|capa

Carlos Paredes
A GUITARRA QUE VENCEU O FADO

Se Amália foi o fado, Paredes é a sua transcendência. Amália foi a onda, nítida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que não se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim - com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solidão. A integral O Mundo Segundo Carlos Paredes, agora editada, é o testemunho vivo desse caminho.

“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço: é um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. É desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros músicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”, cuja obra integral acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o título “O Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993”.
            O mundo segundo Carlos Paredes é um mundo que a todos fascina mas também um mundo cuja originalidade se torna difícil de enquadrar sob a lupa da análise mais fria. A música deste “ser etéreo” que, como dizia Goes, parecia pairar no espaço enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimensão mais trágica do ser português, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solidões se sublima amorosamente pela Saudade.
            Para além de Amália, Paredes foi, enquanto músico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas razões, pelo valor documental e pelas não razões, de ordem emocional, que cada um descobrirá dentro de si, “O Mundo Segundo Carlos Paredes” é, desde já, no capítulo das reedições, o acontecimento editorial do ano.
            Apresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 páginas explicativas, incluindo um texto de apresentação de Ruy Vieira Nery, compõe-se de oito CDs organizados por ordem cronológica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e álbuns lançados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra é escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Amália), mas absolutamente imbuída de uma intensidade inigualável na música deste século.

            nascer do dia
            “Despertar”, título do CD de abertura, é composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP “Fado de Coimbra”, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colaborações prévias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.
            Descobre-se nesta introdução a nostalgia e o típico “rubato” coimbrões que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o génio musical presente no EP “Carlos Paredes”, de 1962.
            Os desenvolvimentos melódicos, em forma de rapsódia, e, sobretudo, a sua exposição em termos técnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sessão em casa de Amália, comentou: “Aquilo não tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ninguém tocava daquela maneira”. Não tocava, de facto. Quanto à guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arquétipo pelo qual todos os guitarristas das gerações posteriores se guiariam.
            Outro EP, de 1964, apresenta “Guitarradas sob a Forma do Filme ‘Verdes Anos’”. Não era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o cálice onde vamos beber a transcendência, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam já preparadas para fazer florescer uma música ainda mais sofisticada. “Frustração”, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revelação do destino. Noite sem véus.
            “Guitarra Portuguesa” (1967) constitui o álbum de estreia, através do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no coração alguma destas melodias. “Dança” evidencia o lado mais enraizado na música tradicional de Paredes, enquanto “Fantasia” e “Pantomina” ilustram as suas ligações à música antiga, respetivamente da Renascença e da Idade Média. “Divertimento” sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de construção melódica, rítmica e harmónica do músico. Muitas músicas numa música. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo delírio, formam uma orquestra subliminar, atuante nos vários planos de escuta. “Romance Nº1” e “Romance Nº2” são harpa de luz e água. Paredes e Alvim, guitarras em dança sagrada. Precisamente no meio do alinhamento está “Verdes anos”. E aqui, de tão próximos e tão misteriosamente e para sempre distantes (não é isto, também, a Saudade?) resta-nos o silêncio e a entrega. Porque de silêncio e entrega, mas também de uma solidão exposta com nudez quase cruel, se trata. Música em estado puro, verdadeiro “movimento perpétuo” do qual o executante se faz puro agente mediúnico. Aquele que recebe, dá e revela.
            Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que era já muito longe de Paredes. E pus lá um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao máximo a viola do Fernando Alvim...”. Completam o “Despertar” três temas extraídos do LP “Coimbra de Ontem e de Hoje” (1967) de Luiz Goes.

            água corrente
            “Na Corrente”, CD Nº2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o documentário televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em Cd apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra clássica improvisando em tempo real sobre as imagens projetadas. Um Paredes diferente, abstrato, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o fôlego, umas vezes próximo do espírito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O “mundo segundo Carlos Paredes” é Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de água, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes. Inquebráveis. Doze minutos e meio de vida como ela é, ou seja, música: Movimento. Enigma. Tempo. “Na corrente” é um título perfeito.
            Por isso se cai aos trambolhões quando, sem aviso, a voz de José Carlos Ary dos Santos se faz a ouvir lendo poemas medievais e contemporâneos, com Paredes a acompanhá-lo. O álbum chamava-se “Espiral Op.70” (foi uma oferta de Natal da agência de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos...) e teve edição privada em 1969. Alguns solos (já na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama “Meu amor, meu amor”, poema seu que Amália cantaria com música de Alain Oulman.
            Vem a seguir uma raridade: “Meu País” (1970), de parceria com a cantora e atriz Cecília de Melo, então companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de Cândida Branca Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e dá-lhe um céu repintado da obra anterior. Mas céu, seja como for...
            “Danças”, CD Nº3, traz “Movimento Perpétuo”, de 1971. Um clássico. Ao lado dos inéditos, o LP incluía um par de temas compostos para a banda sonora de “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com a participação de Tiago Velez, na flauta, o que confere à música uma sonoridade com ressonâncias “new age” na linha da música de Paul Horn. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projetadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes.
            “Quando entrávamos para estúdio”, recorda Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez...’, dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.
            Há ainda “O fantoche” (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sessões, e outras duas versões, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em “single”. Uma delas, “Balada de Coimbra”, com arranjo de Artur Paredes, foi responsável por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se terá insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem... Os restantes seis temas fazem parte de um álbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compilação de raridades “Na Corrente”. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclusão em álbuns posteriores, “Concerto em Frankfurt e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo”, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de relações entre ambas as partes.

            o destino nas mãos
            “As Mãos” reúne material de “É Preciso um País” (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do “guitarrão”, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra clássica e da guitarra portuguesa normal. A revolução de Abril ainda fervia e os poemas de Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo não cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento político, deu-se de corpo e alma a esta luta que também foi a sua mas da qual outros se aproveitaram. Digamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um comício. A sua revolução era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a música em Portugal.
            Já o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu “companheiro de estrada”, está mais próximo da corrente politizada da MPP do pós-25 de Abril, com uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panfletário veiculada pelo tom declamatório de Alegre.
            A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt” fecha o alinhamento de “As Mãos”. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza (o desespero?) substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, realmente fado, a escuridão que escorria então da sua guitarra. Tocava já como se adivinhasse um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, procurando esventrá-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num “lado de lá” que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que compõem a “suite” ”Seis Cantos Improvisados sobre a Cidade”, ficando o lado mais lírico reservado para as “Seis Guitarras sobre uma Fábula”.

            inventar a solidão
            Outra colaboração, desta feita com Carlos do Carmo, em “Fado moliceiro”, para o álbum “Um Homem no País” (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado “Improvisos”. Mas a “peça de resistência” é constituída pelos dois longos “diálogos” da guitarra de Paredes com o piano de António Victorino d’Almeida que formam “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultaram esporádicas confluências mas, acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d’Almeida é um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a atenção da guitarra para espaços comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se à hipotética aproximação de dois monólogos em vez da comunhão. Paredes exigia, sem querer, subserviência. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impensável. E a Paredes um só labirinto chegava.
            Em “Asas” arruma-se o imprescindível “Espelho de Sons”, revisto e aumentado na primeira transição de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música o domínio de si mesma nas suas mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se lucidez em cada frase, a visão e a sabedoria do que antes era intuição e mediunidade. Paredes ataca as notas, já não para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. Não toca “contra” mas “com”. A tragédia, de inevitável, é integrada num patamar de existência superior. Paredes ganhara “Asas sobre o Mundo” (dois inéditos acrescentados ao conceito original de “Espelho de Sons”, em edição exclusiva para a TAP) e é com elas que desce o pano sobre o sexto CD de “O Mundo Segundo Carlos Paredes”.

            A vida, segundo a segundo
            É sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros músicos, outras músicas. Mas nem por isso os outros músicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de união que em 1990 foi editada em álbum, “Charlie Haden & Carlos Paredes”, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível do alinhamento. Assim se inicia o CD número sete desta Integral, “Diálogos”. De Haden, apenas o hino “Song for Che”. O resto, em temas como “Dança dos camponeses”, “Marionetas”, “Balada de Coimbra”, “Divertimento” ou o incontornável “Verdes anos”, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. É caminho escuro, mas também cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflete o mundo, mas só à sua imagem. Três temas finais completam estes “Diálogos”, todos gravados na sessão realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta só “Mudar de vida”, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães em “Canto de embalar” (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, “O navio”.
            Faltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, “Memórias”. Paredes, o músico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do túnel, desamparado, as mãos presas nas garras da doença. “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor. Foi preciso montar “takes”, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a estátua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que é “Guitarra Portuguesa” e a “Valsa diabólica” que é uma das múltiplas mágoas de “Titi”, a música de Paredes cresceu, como escreve João Lopes no posfácio da Integral, “uma pura identidade em construção: uma música carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua própria ideia de liberdade (...) uma arte de não abdicar das razões da solidão”.
            Ao escutarmos e – melhor ainda, ouvirmos – “O Mundo Segundo Carlos Paredes” sentimo-nos mais sós e menos sós. Mas essa é a essência da Saudade. Saudade do que somos.

CARLOS PAREDES
O Mundo Segundo Carlos Paredes. Integral, 1958 – 1993
Ed. e distri. EMI-VC
10|10

17/12/2018

Uma guitarra chamada Portugal [Carlos Paredes]


CULTURA
DOMINGO, 16 FEVEREIRO 2003

Uma guitarra chamada Portugal

Carlos Paredes faz hoje 78 anos. Graças a ele a guitarra ganhou um novo nome: Portugal. Durante um ano, o autor de “Verdes anos” será objeto de homenagem

Carlos Paredes, o mestre da guitarra portuguesa, nasceu em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925. Faz hoje 78 anos. Para comemorar o evento, a associação Movimentos Perpétuos fez coincidir a data com o início de um plano de actividades culturais que se estenderão ao longo do ano e das quais fazem parte espectáculos de música, cinema, exposições, edição de livros, catálogos e um álbum de BD e edição de um CD duplo e DVD.
            Objectivo: "Tornar acessível toda a obra de Carlos Paredes" através da "investigação e recolha de materiais espalhados por várias instituições", do "tratamento informático do seu espólio e restante informação" e da "criação e manutenção de um 'site'", entre outras iniciativas que pretendem ir além da simples homenagem.
            Tudo começará hoje à noite em Coimbra, no Jardim Escola João de Deus, a primeira escola frequentada por Carlos Paredes, com um espectáculo onde estarão presentes Maria João e Mário Laginha, Ana Sadio e Jorge Gomes (guitarra portuguesa), acompanhados por André Moutinho (guitarra clássica), Marco Figueiredo (piano) e Ricardo Rocha (guitarra portuguesa). Em peças alusivas e dedicadas ao autor de "Espelho de Sons".
            Na agenda da associação Movimentos Perpétuos está a gravação de um CD e um DVD com o "making of" das diversas actividades programadas para o "ano de Paredes". Por confirmar, está outro DVD com imagens do espectáculo "Carlos Paredes - Uma Guitarra Portuguesa", realizado por Paredes e convidados no Teatro São Luiz, em Lisboa, em 1992. Também em preparação está a edição de um álbum de BD alusiva ao mestre coimbrão, por dois músicos ligados ao rock nacional: Manuel Cruz, dos Ornatos Violetas, e Adolfo Luxúria Canibal, cérebro e voz dos Mão Morta.
            Entre as diversas personalidades que já aderiram a esta iniciativa estão dezenas de nomes da cultura portuguesa: Álvaro Siza (arquitecto), João Abel Manta, João Cutileiro, José Manuel Rodrigues, Lagoa Henriques, Noé Sendas e Sérgio Pereira da Silva (artistas plásticos), Carlos Avilez, Eduardo Prado Coelho, Francisco José Viegas, Jacinto Lucas Pires, Joaquim Benite, Jorge Silva Melo, José Luís Peixoto, Lídia Jorge, Manuel Alegre, Mário de Carvalho, Pedro Tamen e Urbano Tavares Rodrigues (escritores e jornalistas), Edgar Pêra, João Nuno Pinto e Pedro Sena Nunes (realizadores), António Pinho Vargas, Carlos Bica, Gabriel Gomes, Bullet, Gaiteiros de Lisboa, José Eduardo Rocha, Maria João e Mário Laginha, Mísia, Ricardo Rocha, Sam the Kid (músicos) e Daniel Lima, João Fazenda e Luís Afonso (autores de banda desenhada), entre outros.

Invenções livres
Das lições de violino e piano com que se iniciou, em criança, na aprendizagem da música, Carlos Paredes transitou para as cordas dedilhadas, dando espaço a uma paixão que jamais deixaria de o consumir: a guitarra portuguesa. Com o pai, Artur Paredes, aprendeu o estilo coimbrão e a raça desse instrumento surgido em Inglaterra mas tornado português por empatia. "O guitarrista tem de integrar a guitarra em si mesmo, tornando-a a sua voz... Foi com o meu pai que aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada", disse o mestre. Quem teve a felicidade de assistir aos seus espectáculos, lembrar-se-á, estarrecido, da forma como o homem se dobrava, num abraço sem remédio, sobre a guitarra, formando um único corpo. Integrar a guitarra em si mesmo. Eram, de facto, um só. Carlos Paredes deu à guitarra uma voz própria. O avô ensinara-lhe a "colocar os dedos". O resto, "como não há nada, é inventado pelo guitarrista".
            Durante anos, Paredes deu corpo a algo de que andávamos e andamos esquecidos: a arte de ser português. Uma natural modéstia e a indiferença generalizada das instituições têm impedido uma maior projecção da sua música no estrangeiro. Carlos Paredes, para quem "as coisas nunca têm uma importância de maior", eterno exilado de si próprio, afirmou certo dia que das suas mãos nunca poderia "sair nada de muito importante". As instâncias oficiais, atentas como sempre, quando lhes convém, a inconfidências deste tipo, têm-no levado à letra. Maquiavel não teria feito melhor.
            Influenciado pela música de câmara da Renascença e pelo fado de Coimbra, Carlos Paredes, "músico popular urbano" como a si próprio se define, desenvolveu ao longo dos anos um estilo pessoal que, com base na tradição e apoiado no vigor de execução, ascendeu a uma portugalidade de que Amália foi a diva incontestada. Amália e Paredes, por ironia do destino, nunca tocaram em conjunto. Mas o contrabaixista de jazz Charlie Haden foi sensível à força e à capacidade de improvisação do guitarrista. Tocaram e trocaram sons e ideias no Hot Club de Lisboa, onde actuaram juntos a 27 de Setembro de 1978. Desse diálogo ficou para a posteridade o álbum “Dialogues” (1990), um disco editado internacionalmente no selo Elektra Nonesuch, dos mais prestigiados da música contemporânea actual.
            Da discografia de Carlos Paredes constam as seguintes obras, todas em formato de LP e, posteriormente, transferidos para o digital: "Guitarra Portuguesa" (1967) "Movimento Perpétuo" (1971), "Concerto em Frankfurt" (1983), "Invenções Livres" (com António Vitorino de Almeida, 1986) e "Espelho de Sons" (1988). "Asas sobre o Mundo", editado em 1989, inclui temas de "Guitarra Portuguesa" e "Concerto em Frankfurt". Existem ainda "Carlos Paredes/Artur Paredes" e "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes" bem como uma colecção de EP editados ao longo das décadas de 60 e 70, entre os quais o mítico "Verdes Anos", com data de lançamento de 1963. Em 1996, e aproveitando o título de um documentário realizado em 1969 por Augusto Cabrita, para o qual compôs a banda sonora, foi editado "Na Corrente", compilação de material inédito gravado em 1969, 1971 e 1973 e, dois anos mais tarde, a antologia "O Melhor de Carlos Paredes". “Canção para Titi” sai em 2000, com material gravado em 1993 no qual são já visíveis os efeitos da doença.

Danças
Carlos Paredes é ainda autor das bandas sonoras dos filmes de Paulo Rocha, "Verdes Anos", imortalizado pela genial composição com o mesmo nome, e "Mudar de Vida". Mais recentemente, trabalhou com Manoel de Oliveira e José Fonseca e Costa. Colaborou com o Grupo de Teatro de Campolide e com o Teatro Nacional D. Maria II. Dos seus trabalhos destaca-se ainda a partitura para uma coreografia de Vasco Wellenkamp para o Ballet Gulbenkian - "Danças para uma Guitarra" (1982).
            Alain Jomy, autor da música dos filmes "O Lugar do Morto" e "Aqui d'El Rey" de António-Pedro Vasconcelos, realizou o documentário "Pour Don Carlos" centrado na relação da música de Paredes com a cidade de Lisboa. Em 1991, o guitarrista tocou ao vivo na Aula Magna ao lado dos Madredeus e, no ano seguinte, o espectáculo "Carlos Paredes - Uma Guitarra Portuguesa" contou com as presenças de Fernando Alvim (seu companheiro de armas de longa data), Rui Veloso, Mário Laginha, Natália Casanova, Manuel Paulo, Paulo Curado e Luísa Amaro, sua companheira há muitos anos.
            Em 1993, foi-lhe diagnosticada uma doença do foro neurológico que progressivamente o afastou da guitarra e lhe tolheu os movimentos. Carlos Paredes vive actualmente numa casa de saúde em Lisboa.
            "Para defender um instrumento, a única forma possível é criar uma escola. Se as pessoas souberem utilizá-lo convenientemente, guardam-no. Caso contrário, esquecem-no." A frase, do próprio Paredes, aplica-se, por estranho que pareça, à sua própria vida. Mas ainda vamos a tempo de dizer que não o esquecemos. Parabéns, Carlos Paredes.


C o m C a r l o s P a r e d e s

José Eduardo Rocha, Sam the Kid, Gabriel Gomes e os Gaiteiros de Lisboa são alguns dos músicos que se associaram à iniciativa promovida pela associação Movimentos Perpétuos, compondo uma peça inspirada na música de Carlos Paredes


Paredes letra a letra

“O Carlos Paredes é como o Zeca Afonso. Para mim é música clássica. Compus uma peça intitulada ‘Prelúdios e Fugas sobre o Nome de Carlos Paredes’. Para dois violinos Chicco, harpa e pequeno gamelão. A peça, não pretendendo ser um retrato musical, é uma homenagem, uma evocação musical por dentro. Peguei no nome dele e criei uma série de notas segundo a notação anglosaxónica e grega. Uma nota para cada uma das letras constituintes do nome de Carlos Paredes, segundo uma prática tradicional e secreta na história da música. Tem uma certa atmosfera, nomeadamente os sons metálicos do pequeno gamelão que talvez evoquem o som metálico da guitarra. O uso da harpa também vai nesse sentido, na utilização de certas técnicas de corda dedilhada.
JOSÉ EDUARDO ROCHA
COMPOSITOR E DIRETOR MUSICAL DO AGRUPAMENTO ENSEMBLE JER

Paredes hip-hop

“Sou um rapaz ainda muito novo e não conheço em profundidade o trabalho do Carlos Paredes. Apenas tinha comigo duas coletâneas. Não é um artista fácil de samplar, porque não tem um compasso certo, que entre no hip-hop. Já compus a peça mas foi muito difícil. Não fui muito fiel ao trabalho dele. Segui o “chop style”, que consiste em separar e cortar as notas todas para depois eu próprio as tocar e inserir num compasso hip-hop. Samplei uma música que usa também um piano, com o António Vitorino d’Almeida, chamada “Improviso”. Facilitou-me um bocadinho mais... Inclusive, fiz uma coisa que não sei se me vão permitir: pus umas vozes do Carlos do Carmo por cima. Ficou bem. Agora não sei se em termos legais me vão deixar...”
SAM THE KID
MÚSICO DE HIP-HOP

Paredes com acordeão

“A música do Paredes é uma autêntica ebulição. Um balanço que me leva sempre numas grandes ondas. É um intérprete sublime e, na composição, todos os acordes que faz são uma referência para mim. Estou a agarrar num disco dele e a tirar partes de algumas músicas para, sobre essa base, tocar acordeão. Digamos que é uma conversa entre Carlos Paredes e eu. Vou fazer uma música de Paredes a partir de uma combinação de várias partes que, juntas, criam outro ambiente. O que pretendo fazer com esta faixa é que alguns elementos que identificamos de uma música e outros de outra, numa sequência diferente, ganhem um sentido novo.”
GABRIEL GOMES
EX-SÉTIMA LEGIÃO E MENTOR DO PROJECTO “OS POETAS”

Paredes como Bach

“É curioso. Normalmente nunca se pensa muito sobre a música dele. Está ali, existe, é um dado cultural nacional. Passados estes anos todos, no outro dia fui “obrigado” a ouvir de novo e pela primeira vez percebi, conscientemente, que o homem é um génio. Em termos absolutos comparável a qualquer Bach ou a qualquer Mozart. Basta ouvi-lo com ouvidos de ouvir. É impressionante. Mas só agora tive esta noção. É como passar todos os dias por um monumento que se sabe que é giro e está ali e um dia olharmos mesmo para ele e descobrirmos que é muito mais do que aquilo que vimos durante toda a vida. Estamos a compor um tema inspirado no “Movimento perpétuo”, com um arranjo à nossa maneira. Mas a coisa ainda está muito no princípio. Para já temos que esperar que o José Salgueiro aprenda a tocar aquilo no xilofone.”
CARLOS GUERREIRO
ELEMENTO DOS GAITEIROS DE LISBOA

Ensaiar pelo telefone [Carlos Paredes e Fernando Alvim]


CULTURA
DOMINGO, 16 FEV 2003



ENSAIAR PELO TELEFONE

Sem a guitarra clássica de Fernando Alvim, a guitarra portuguesa de Carlos Paredes teria sido ainda mais só. Durante 25 anos falaram uma com a outra, de muitas maneiras

Conheceram-se por causa de um programa de rádio em 1960, na antiga Emissora Nacional, iniciando então uma colaboração estreita que duraria um quarto de século e os levaria aos quatro cantos do planeta como embaixadores da guitarra de Portugal no mundo.
            Deste encontro entre a guitarra portuguesa de Carlos Paredes e a guitarra clássica de Fernando Alvim, nasceria uma música sem paralelo que juntava o arrebatamento do fado de Coimbra à complexidade formal da música clássica.
            Paredes e Alvim gravaram juntos os álbuns “Guitarra Portuguesa”, “Movimento Perpétuo”, “Concerto em Frankfurt” e uma parte de “Espelho de Sons”. E “Verdes anos” – ícone do sentimento nacional que Alvim define como “uma suitezinha com vários andamentos”.
            Fernando Alvim, hoje com 64 anos, que recentemente participou como convidado num projeto de António Chainho, apresentado ao vivo no Centro Cultural de Belém, tocava no “Nova Onda”, um programa da antiga Emissora Nacional. “Acompanhava vários géneros de música, bossa-nova, fado, pop, artistas como João Ferreira Rosa, Teresa Tarouca, Hermano da Câmara, João Braga... que começaram a cantar nessa altura, por volta de 1960. No jazz, acompanhei o Ivo Maer, Justiniano Canelhas, Jorge Veloso... O programa durou até 1963.”
            Um dia, Carlos Paredes ouviu uma emissão. “Telefonou-me a perguntar se estava interessado em acompanhá-lo numa música para o documentário ‘Rendas de Metais Preciosos’, do Cândido Costa Pinto. Eu também já o conhecia de o ouvir tocar na Emissora Nacional, com o pai, o Artur Paredes, e o acompanhamento do Arménio Silva... Senti uma satisfação grande por saber que o Carlos Paredes queria que o acompanhasse.”
            Combinam encontrar-se na casa de Ferreira Alves, amigo de Paredes, na presença de outro guitarrista, João Torre do Vale. Estabelece-se de imediato uma “empatia musical”. Paredes convida nessa altura Alvim para tocarem juntos em casa do pai, na Rua Gomes Freire, ao Campo Santana, “a fim de começarem a trabalhar a música para o documentário”. Poucos dias depois, ensaiam pela primeira vez. Paredes toca sozinho, para Alvim, algumas peças do seu reportório de juventude: “Movimento perpétuo”, “Variações em si menor”, “Variações em ré menor”, “Variações em mi menor” e as “Danças portuguesas”, 1 e 2.
            “Fiquei fascinado”, recorda Alvim, “pois revelavam um extraordinário virtuosismo e eram extremamente difíceis de executar.” Mas Paredes queixa-se da “falta do complemento rítmico e harmónico”. Os dois começam a trabalhar a música para o documentário. Esta viria a chamar-se “Fantasia” e acabaria por ser gravada na Nacional Filmes, sendo a curta-metragem posteriormente exibida no cinema Império, “durante os intervalos das sessões”. Nascia assim uma colaboração que duraria 25 anos. Tocaram juntos
pela última vez em Outubro de 1993, na Aula Magna da Universidade de Lisboa — derradeira aparição ao vivo de um Paredes já debilitado pela doença.

“Ele tocava-me coisas pelo telefone e eu respondia-lhe, também por telefone, tocando as harmonias que me pareciam mais certas.
Ele tinha ideias que apareciam subitamente, eu tentava responder...”

FERNANDO ALVIM

            Paredes e Alvim passam a ensaiar juntos com regularidade. “Cerca de cinco a seis horas por dia.” Quando não era possível encontrarem-se, em geral na casa de Artur Paredes, ensaiavam pelo telefone. “Ele tocava-me coisas pelo telefone e eu respondia-lhe, também por telefone, tocando as harmonias que me pareciam mais certas. Ele tinha ideias que apareciam subitamente, eu tentava responder...” Posteriormente, mudam o local de ensaios para a casa de Carlos Paredes, em Benfica.
            Fernando Alvim reconhece a dificuldade de tocar com o mestre da guitarra portuguesa. “Foi um trabalho de muitas e muitas horas, durante anos, depois não havia gravadores de cassete, eram ensaios directos, na base da memorização e da digitação... Era apanhar as ‘nuances’ dele, nunca tocava da mesma maneira...”
            É conhecido o modo solitário como Carlos Paredes tocava, ao mesmo tempo livre e encerrado no seu mundo pessoal. Como Charlie Haden, Alvim reconheceu essa solidão irremediável. “É verdade, nós é que tínhamos que ir atrás dele e procurar apanhá-lo.” Modesto, Alvim apenas admite poder ter tido “alguma influência” pelo modo como também ele tocava de forma inovadora: “Tinha influências do jazz e da bossa-nova e comecei a utilizar esses acordes nalgumas das variações do Paredes, o que também lhe deu a entender outros tipos de harmonias e acordes. Mas eu não estava ali a competir com ele, mas a acompanhá-lo, pura e simplesmente. Não estava a dar respostas ou a fazer diálogos. Fascinava-me de tal maneira a forma dele tocar que a única coisa que me apetecia era ouvi-lo.”
            Fernando Alvim está atualmente envolvido num projeto com Pedro Caldeira Cabral (ontem mesmo deram um recital no CCB) designado “Memórias da Guitarra”, abrangendo música da Idade Média à atualidade.