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10/04/2018

Roberto Musci & Giovanni Venosta



Fernando Magalhães
10.04.2002 190757

Roberto Musci e Giovanni Venosta são dois músicos italianos que nos anos 80 e 90 gravaram os mais extraordinários álbuns de que há memória, na área da fusão (termo apenas cómodo para definir a síntese sem precedentes desta música sem paralelo) da tecnologia (computadores, samples) com referenciais étnicos, na criação de uma espécie de world music cósmica que arranca do preciso ponto em que ficaram Eno e Byrne, em "My Life in the Bush of Ghosts" e o Jon Hassell, das "músicas do quarto mundo".

Vamos aos álbuns. São todos obras-primas. Em cada uma delas, RM e GV explicam as fontes e processos que utilizaram, samples do estilo "pigmeu da Nova Guiné a lavar os dentes com uma escova elétrica" ou "turista esquimó a esquiar numa pista sintética da Disneylândia" (é o tipo de coisa que estes italianos fazem, mesmo!...), processados através do programa Blábláblá mais um solo de sax barítono jazz e um loop de uma orquestra de gamelão...

Mas o que poderia soar como uma manta de retalhos, não o é, mas sim uma música de extrema organicidade e originalidade em que as surpresas acontecem em cada segundo!

Os dois primeiros, "Water Messages on Desert Sand" e "Urban and Tribal Portraits" estão condensados num único CD com o selo Recommended (estava no "vendedor" mas acho que alguém já levou...Quem, já não me lembro...ele que se acuse
:) ).

Os posteriores "A Noise, a Sound" e "Losing the Orthodox Path" são mais... "eruditos", num estilo de "música contemporânea de um mundo perdido".

Tanto RM como GV têm também álbuns a solo magníficos, como "Olympic Signals" (Venniosta) e "The Loa of Music" (Musci, o vendedor tem...).

Considero os dois primeiros e já citados dois álbuns da dupla, dois clássicos dos anos 80.

FM

17/08/2016

Roberto Musci & Giovanni Venosta - A Noise, A Sound

Pop Rock

13 JANEIRO 1993

ALDEIA GLOBAL

ROBERTO MUSCI & GIOVANNI VENOSTA
A Noise, A Sound
CD Recommended, import. Contraverso

            Em música, nem tudo afinal está inventado. Roberto Musci e Giovanni Venosta possuem a faculdade de, a cada novo disco, nos surpreenderem. Com ideias impensáveis e sínteses de elementos recolhidos de toda a parte, como se o universo fosse (e é, de facto) uma fonte inesgotável de sons. “Water Messages on Desert Sand” e “Urban and Tribal Portraits”, os dois trabalhos prévios da dupla (aos quais se poderá juntar o álbum a solo de Musci, “The Loa of Music”), são dois clássicos da música de fusão, no significado mais nobre que o termo pode ter. Musci e Venosta recolhem, cortam, colam, alteram e descontextualizam os sons (todos os sons), manipulando-os de forma a criar o que se poderá classificar de música absoluta – concordância plena da tecnologia com as sonoridades étnicas.
            Neste novo álbum, havia a curiosidade de saber se a dupla cederia à tentação de se limitar a reproduzir os mesmos esquemas, que tão bons resultados tinham produzido nas obras atrás citadas. Se é certo que os dois fazem gala em exibir a lista, cada vez mais extensa, das gravações sampladas, a verdade é que tal tática serve desta vez objetivos diferentes. O próprio conceito de “aldeia musical global” (utilizando uma aproximação ao enunciado de MacLuhan) sofreu desvios e novas enunciações. Onde se poderia esperar uma espécie de “world music” mutante, à imagem dos álbuns prévios, surge em vez disso uma construção mais abstrata, como se os elementos folclóricos utilizados não passassem agora de peças de um novo “puzzle”, ainda mais complexo e apontado a um tipo inteiramente novo de referências. Neste aspeto, “A Noise, A Sound” aproxima-se por vezes da estética de ruído harmonizado dos Biota ou da violência sónica das duas obras capitais (de síntese/mistura/delírio) de Fred Frith, “Gravity” e “Speechless”.

            Como tudo o que estes italianos produziram até à data, trata-se de um objeto que reivindica uma sistemática própria, único na forma como idealiza, organiza e reproduz os sons. Desde o primeiro tema, no qual sons de macacos, um jaguar e um clarinete da Amazónia são manipulados pelos “samplers” até soarem a um “blues” dos confins da galáxia. De surpresa em surpresa, avança-se através de um túnel de harmonias bizarras e jogos de contrários, em que nada é o que aparenta ser, jogo de espelhos deformantes, fábrica de realidade fractal, que se auto-reproduz até ao infinito. Atualização plena da mónada primordial que o título refere: um ruído, um som. Música em estado puro. (10)

14/08/2014

Musci, Venosta & Mariani - Losing The Orthodox Path



Sons

11 de Julho de 1997
poprock

Roberto Musci, Giovanni Venosta & Massimo Mariani
Losing The Orthodox Path
VICTO, DISTRI. ÁUDEO

“Samples” invertidos de música instrumental da Idade Média, fragmentos de canto aborígene da Tailândia, um “loop” de uma sonata de violoncelo de Benjamin Britten, mais “samples” de Palestrina, Monteverdi, Schütz, Ravel, Frank Zappa... Vozes de golfinhos, uma dissertação de Segovia sobre a música, outra de Pierre Schaffer sobre música concreta. Erik Satie e o trovador Peire Vidal. Canto gregoriano modificado num leitor de CD. Vozes de místicos “sufi” e percussões do antigo Egito. Instrumentos eletrónicos e tradicionais em quantidade inacreditável. Tudo transformado, depurado, massacrado, ampliado, distorcido, deslocado, misturado, transmutado num mundo sonoro sem fronteiras nem definição. Alguns devem lembrar-se. É o regresso da dupla italiana Roberto Musci/Giovanni Venosta, agora na companhia de um terceiro estratego e multinstrumentista, Massimo Mariani, e da mesma fórmula das obras-primas “Water Messages on Desert Sand”, de 1987, e “Urban and Tribal Portraits”, de 1988, às quais se seguiram, em 1992, o mais abstrato “A Noise, A Sound”. As três primeiras peças de “Losing The Orthodox Path”, escritas para o bailado “Principle of Moment”, de Dieter Heitkamp, para a Tanzfabrik de Berlim, são um prolongamento da estética de colagem de “Movies”, de Holger Czukay. As restantes dão entrada no labirinto criado por estes italianos que inventaram novas máscaras para a música contemporânea. A visitar longa e demoradamente, como uma exposição e hologramas de universos imaginários. (8)