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08/09/2016

O diabo que os carregue [The Rolling Stones]

Sons
15 Novembro 2002

o diabo que os carregue

Levou os Stones ao colo na escalada que colocou uma banda de “rhythm ‘n’ blues” no topo da montanha. Três clássicos: “Aftermath”, “Between the Buttons” e “Beggars Banquet” estão aí.

Já cá estão. Já cá cantam. Para ouvir e magoar. The Rolling Stones, as tais reedições de luxo, com remasterizações a preceito e embalagem digipak, da discografia dos anos 60 e início dos 70 da “maior banda de rock ‘n’ roll do planeta”, estão disponíveis no mercado português.
Dezanove objetos de prazer. E de delito. Os primeiros exemplares, em número limitado, podem ser lidos em formato áudio normal e super áudio e incluem um certificado de garantia. Do pacote fazem parte as versões inglesas de “Out of Our Heads”, “Aftermath” e “Between the Buttons”, pela primeira vez disponíveis em CD, enquanto “Metamorphosis” tem estreia absoluta no formato digital. A coletânea americana “More Hot Rocks (Big Hits & Fazed Cookies”) inclui temas de bónus. Embora a apresentação gráfica em digipak deixe algo a desejar (fotos baças e sem contraste; em “Their Satanic Majesties Request”, a fotografia original em 3D foi substituída por um falso holograma, com o enquadramento truncado), este é o trabalho mais exaustivo até à data sobre a “maior banda de rock ‘n’ roll do sistema solar”.
Antes de mais, a lista da pedreira: “England’s Newest Hit Makers: The Rolling Stones” (1964, ed. exclus. EUA), “12×5” (1964, EUA), “The Rolling Stones Now!” (1965, EUA), “December’s Children” (1965, EUA), “Out of Our Heads” (1965, Inglaterra/EUA), “Aftermath” (1966, ed. exclus. Inglaterra/EUA), “Got Live if you Want it” (1966, EUA), “Between the Buttons” (1967, Inglaterra/EUA), “Their Satanic Majesties Request” (1967, Inglaterra), “Flowers” (1967, Inglaterra), “Beggars Banquet” (1968, Inglaterra), “Let it Bleed” (1969, Inglaterra), “Get Yer Ya-Ya’s out” (1970, Inglaterra). Ainda as coletâneas inglesas “Big Hits – High Tide and Green Grass” (1966) e “Through the Past Darkly” (1969) e as americanas (ambas em duplo CD) “Hot Rocks, 1964-1971” (1972) e “More Hot Rocks (Big Hits & Fazed Cookies)” (1972). Quem quiser optar apenas pelas canções mais conhecidas, pode ficar-se pela caixa de 3 CD, “The Rolling Stones Singles Collection: The London Years” (1989). Todos com distribuição pela Universal.
É muito e sabe a muito, muitas vezes a fel, a música da “maior banda de rock ‘n’ roll da galáxia”. E, no entanto, foram os Beatles, e não os Stones, que criaram raízes no rock ‘n’ roll. Os Stones foram mais atrás e pagaram pela ousadia. Aos “blues”. À fogueira primordial da música negra. Por isso se diz, se sente, se ouve, como é “branca” a música dos Beatles e “negra” a dos Stones. Em mais do que um aspeto. Deixemos, porém, e de uma vez por todas, os “fabulous four” em paz. A história dos Rolling Stones é outra e, por norma, troveja.
Originalmente denominados The Rollin’ Stones, o grupo operou desde o início a partir de um núcleo central formado por Mick Jagger e Keith Richards. Os anjos exterminadores. Brian Jones chegaria mais tarde trazendo consigo as jóias mais belas e envenenadas. Dizíamos os “blues”. E assim era quando, em 1962, um dos mais notáveis “bluesmen” ingleses da época, Alexis Korner, os apadrinhou no primeiro concerto, no mítico Marquee Club, de Londres. Não foram bem recebidos. Acusaram-nos de “impuros”. No fundo, batia certo. Quando, mais ou menos na mesma altura, os… bem… os outros quatro, vestiam fatinho completo nas suas aparições na TV, os Stones recusavam-se a enfiar a imagem de meninos bem comportados. Andrew Loog Oldham, o empresário que os arrancou do anonimato, resumiu com bastante acutilância o que os Stones projetavam, não só como imagem mas como estilo de vida: “Música e Sexo”. Mais um naco de teoria: “o facto de apenas em alguns meses a Inglaterra necessitar de um oposto ao que os B*****S faziam. Algo instintivo. Podia convidar-se os B*****S para tomar chá, não se podia convidar os Stones.

CORAÇÃO DE PEDRA
Os primeiros álbuns, é forçoso reconhecê-lo, não eram obras-primas. Simplesmente blues, rhythm ‘n’ blues e rock, interpretados como se tivessem saído há pouco do forno. A voz sexuada de Jagger e a energia posta em ação pelos cinco elementos do grupo faziam aumentar ainda mais a temperatura. “The Rolling Stones”, de 1964, é um disco de “covers” (apenas um original de Jagger/Richards, “Tell me”), o mesmo acontecendo, em menor percentagem, ao americano “Now!” e ao inglês “Out of our Heads”, com três originais cada, ambos contendo um tema ícone em que Jagger vestia já a pele do diabo apaixonado, “Heart of stone” (é complicada esta teia de canções que saltam dos discos ingleses para os americanos; digamos, para facilitar, que os americanos, por razões comerciais, gostavam de incluir os “singles” nos alinhamentos).
O álbum clássico deste primeiro período, essencialmente de aquecimento e endurecimento na estrada poeirenta e dolorosa do “blues” e do “rhythm ‘n’ blues”, é “Aftermath” e é o primeiro em que a assinatura Jagger/Richards é visível em todas as faixas.

AS COISAS TORNAM-SE DIFERENTES
“Things are different today…” diz o primeiro verso de “Mother’s little helper” e, num flash, podia sentir-se a diferença. Os Stones tinham aprendido no duro, e sabe-se lá a troco de quê, a fazer vibrar a corda que leva ao estrelato. “Lady Jane” fez muita gente chorar e “Under my thumb”, com “Stupid girl”, desencadeou uma onda de acusações de misoginia contra o grupo. Mas as raparigas, em ponto de rebuçado, desmaiavam e gritavam enquanto os rapazes ensaiavam os trejeitos de anca que tornavam Jagger no mais escandaloso cantor da pop para multidões, juntando na sua pose andrógina a languidez de Presley, a fúria de Jerry Lee Lewis e o diabolismo, mal encapotado, de Screaming Lord Sutch. Tal combinação estava destinada a atear incêndios. Era costume apontar-se o facto de, depois de cada concerto, não haver um assento na sala que não ficasse com manchas de humidade… Pelo sim, pelo não, Ed Sullivan, que antes já banira o grupo do seu show televisivo, acabou por aceitá-los, na condição de trocarem o título do single “Let’s spend the night together” por “Let’s spend some time together”.
Curiosamente, corria o ano de 1966, e desprendia-se da música um sentimento de realidade, uma noção avassaladora das forças-motrizes da paixão. As canções de amor dos Stones não eram doces nem cor-de-rosa, desprendia-se delas, pelo contrário, uma negritude e um desespero que era, afinal, a mesma dos “blues” e que nunca abandonaram (“High and dry” recua aos primórdios… juntando-lhe uma faceta “vaudeville” que também se tornaria apanágio da banda). Lendo-se de outra maneira: em “Aftermath” não são ainda percetíveis os aditivos da droga. Certo, Brian Jones já acumulava visões e trouxera para o estúdio saltério, cravo, sinos e marimbas. Eram ainda os Stones “hard workin’ band” de “It´s not easy”, mas prontos para se enredarem nas malhas da pop de “I am waiting” ou no distanciamento de si mesmos e no humor, muito Zappiano, de “What do do”. As coisas tornar-se-iam ainda mais diferentes no álbum seguinte, “Between the Buttons”, para descambarem na alucinação pura em “Their Satanic Majestic Request”.
“Their Satanic…” era LSD em forma de canções. “Between the Buttons” tinha ainda um pé na terra, mas as cabeças já voavam… O mote poderia ser o título da última faixa: “Something happened to me yesterday”. E as ondulações de vibrafone, a guitarra distorcida e as harmonias vocais de “Yesterday’s papers” dão-lhe razão – os Stones tinham entrado num novo território, o Psicadelismo. “My obsession” é irresistível, e a prova de que a pop também sabe swingar. Um conselho para as bandas debutantes: ouçam este tema e aprendam. “Back street girl” é Stones valsa-musette, enquanto “Connection” soa como uma variante pedrada de “I’m a believer”. O órgão litúrgico e a “soul” embruxada são arrepiantes em “She smiled sweetly” e “Cool, calm & collected” sugere o que os Stones poderiam ter feito se tivessem sido autorizados a entrar no “Submarino Amarelo”.
Mas “Please go home”, apesar dos truques de estúdio, e “Miss Amanda Jones” (que deverá ter feito com que Lennon e McCartney se roessem de inveja) são a garantia de que os Stones mantinham o coração no lugar que sempre foi o seu: o “rhythm ‘n’ blues”. “Between the Buttons” é o “Revolver” dos Stones, o eterno segundo que o tempo, ano após ano, coloca mais próximo do topo.

DE REGRESSO À RUA
Do lado de vida, as coisas corriam de forma complicada. Jagger e Brian Jones foram presos por posse de droga, embora de imediato ilibados.
No Nebraska, EUA, um polícia apontou um revólver à cabeça de Keith Richards, obrigando-o a despejar no chão uma garrafa de Coca-Cola, com a suspeita de que estaria cheia de whisky (era ilegal bebê-lo em locais públicos). Em termos de publicidade, era bom para a imagem.
Quando “Beggars Banquet” foi editado em 1968, os Stones já tinham metido no saco dos “charts” de álbuns do Reino Unido, três “número um”, um “número dois”, dois “número três” e um “número quatro”. O contrato com o diabo estava a ser cumprido. Os Stones agradecem, ilustram a capa com uma retrete pública e abrem com “Sympathy for the devil”. É outro grande disco, a encetar o período “clássico”, simultaneamente um regresso às sonoridades de músculo, sangue e terra. Os “blues” voltavam para reivindicar os seus direitos. “Parachute woman”, “Jigsaw puzzle”, o “blues” imaculado de “Prodigal son”, “Stray cat blues” (viciante, viciante!) e o hino “Street fighting man” (curioso notar o ritmo martelo-pilão, em completa sintonia com os Velvet dos primórdios) tinham afastado definitivamente o espectro dos saltérios, das “sitars” e dos arranjos-labirinto, por troca com as guitarras e adrenalina para o povo. Existia uma razão de peso para que tal acontecesse: Brian Jones já lá não estava (partira para as estrelas). No Natal desse mesmo ano os Beatles também deixariam de estar. Deixava de haver entraves. A estrada estava aberta de par em par para a “maior banda de rock ‘n’ roll do universo”. Os Rolling Stones estavam sozinhos.

THE ROLLING STONES
Aftermath
9|10
Between the Buttons
10|10
Beggars Banquet
9|10
ABKCO, distri. Universal

04/09/2016

Stoned again naturally [The Rolling Stones]

Sons
27 Setembro 2002

stoned again
naturally

O regresso dos heróis. Stoned again, pedrados outra vez. Os admiradores poderão flipar com nova antologia, “Forty Licks”, e, a partir de 21 de Outubro, com 19 reedições de luxo, em super áudio CD, capas digipak e um grafismo que não descura os rabiscos dos originais. Os Stones no centro do universo, lugar que por direito lhes pertence.

No fim de contas, quem é o vencedor e o vencido? Quem levará para casa a taça de “melhor banda de rock ‘n’ roll do universo”? Beatles ou Stones? Stones ou Beatles (os Radiohead e os U2 estão, para já, fora da competição…)?
                Só o futuro o dirá. Até ver, o rótulo aplica-se com generosidade, e sem grandes protestos da concorrência (incluindo Thom Yorke, Bono e companhia), à banda de Mick Jagger e Keith Richards. Mas que gozo dá vencer uma corrida quando se corre sozinho?
                Seja como for, ninguém poderá tirar aos Stones a fama de banda mais trabalhadora do planeta. Ou insistente. Ou simplesmente teimosa. Ou terá o diabo mesmo a ver com tudo isto, e feito a sua transação comercial?
                A questão está em saber de que massa se fazem os mitos. Se de um sonho prematuramente interrompido (e então os Beatles triunfaram em toda a linha), se de uma realidade construída a pulso, com muita massa envolvida e, nesse caso, a conta bancária dos Stones servirá de comprovativo de vitória.
                Ao contrário dos Beatles, que fizeram história dentro da história do seu tempo (entre 1959 e 1970), os Stones, seus rivais na época, renovaram sucessivamente o passe, prolongando “ad infinitum” o seu prazo de validade. Sem desfalecimentos (Mick Jagger é praticante de jogging), nem – depois da partida de Brian Jones, a 3 de Julho de 1969, para o outro mundo – o “fait-divers” das “overdoses”, que antigamente conferiam “patine” ao aprendiz de rocker mas que os anos 90 condenaram justamente ao acervo da estupidez.
                Há quem não lhes perdoe a desistência da rebeldia militante (os que acreditavam que a revolta duraria para sempre); há os putos que gozam os cotas que fazem os pais vibrar; há quem se comova a ver as rugas sulcarem-lhes os rostos, da mesma forma que muitas das suas canções sulcaram as dores das suas juventudes. E os que os acusam de vendilhões do templo. Os Stones riem-se, com o desdém de quem já não tem nada a provar, continuando a gravar discos, a encher estádios e a ganhar milhões. Como aliás, vem estipulado no contrato que assinaram com aquele que vocês sabem.
                Pouco importa a controvérsia. Eles estão aí. Para o que ainda der e vier, defendidos por uma carreira de 40 anos que foi da raiva à bonomia, dos “blues” ao mainstream, do LSD à Coca-Cola. E se o rock’n’roll já pouco tem para lhes agradecer, convirá recordar os anos de glória, dos anos 60 e 70, quando das raízes do “blues” fizeram crescer a árvore do rock e dela desabrochar (eis um termo bem Stoniano…) as flores do mal do psicadelismo, sob o patrocínio do próprio mafarrico.
                Por tudo isto, saúde-se o regresso dos heróis. “Stoned again”, pedrados outra vez. O lema, antes apenas apanágio dos malditos, aí está de novo, pronto a funcionar. Ainda com mais força, a partir do momento em que os milhões de admiradores espalhados pelo globo poderão flipar à vontade com uma nova antologia do grupo, o duplo CD “Forty Licks”, e, a partir de 21 de Outubro, empaturrar-se com um pacote de 19 novas reedições de luxo, em super áudio CD, capas digipak e um grafismo que não descura o mínimo rabisco dos originais.

                40 lambidelas. “Forty Licks” poderá ser encarada como uma resposta bem gizada à coletânea e mega-sucesso dos Beatles, intitulada “1”. Aliás, vem de trás a sina dos Stones de “dar resposta a”, ainda para mais a um grupo do qual metade dos músicos já morreu. À semelhança de “1”, “Forty Licks” funciona como uma “jukebox” contendo os maiores êxitos da banda. Para espevitar o apetite, foram incluídos no alinhamento quatro inéditos, “Don’t stop”, “Keys to your love”, “Stealing my heart”, todos da melhor cepa stoniana, linha rock, e “Losing my touch”, balada com a assinatura de Keith Richards curiosamente evocativa de Lou Reed.
                A relação total das 40 lambidelas respeita o seguinte alinhamento: CD1 – “Street fighting man”, “Gimme shelter”, “(I can’t get no) Satisfaction”, “the last time”, “Jumpin’ Jack flash”, “You can’t always get what you want”, “19th nervous breakdown”, “Under my thumb”, “Not fade away”, “Have you see your mother, baby”, “Sympathy for the devil”, “Mother’s little helper”, “She’s a rainbow”, “Get off my cloud”, “Wild horses”, “Ruby Tuesday”, “Paint it black”, “Honky tonk woman”, “It’s all over now” e “Let’s spend the night together”; CD2 – “Start me up”, “Brown sugar”, “Miss you”, “Beast of burden”, “Don’t stop”, “Happy”, “Angie”, “You got me rocking”, “Shattered”, “Fool to cry”, “Love is strong”, “Mixed emotions”, “Keys to your love”, “Anybody seen my baby?”, “Stealing my heart”, “Tumbling dice”, “Undercover of the night”, “Emotional rescue”, “Only rock ‘n’ roll but I like it” e “Losing my touch”.
                Excetuando o isco dos quatro inéditos, pouco haverá digno de registo a não ser a qualidade do som, que é notável. Mas só aparentemente. Os fãs decerto hão-de notar que pela primeira vez na história da sua banda favorita uma coletânea abrange as quatro décadas que já levam de vida, sendo que a escolha dos temas é da responsabilidade dos próprios músicos. Proeza apenas possível porque, também pela primeira vez, a EMI e a Universal se uniram para esta “joint venture”.

                eterna insatisfação. Mas talvez seja injusto comparar qualquer disco dos Stones a um disco dos Beatles. Passando ao lado do “cliché” que distingue os “meninos bons” de Liverpool dos “meninos maus” de Londres (Mick Jagger foi mais rebelde que John Lennon?), quis o destino que as duas bandas seguissem caminhos diferentes. Aos Stones coube a fama de “maus”, simplesmente por se terem mantido por mais tempo fiéis à negritude e revolta dos “blues”, enquanto os seus rivais optaram por fazer a revolução da música pop.
                Há uma explicação dolorosa. Lennon e McCartney eram uma máquina infalível de compor pedaços perfeitos de pop, algo que Jagger e Richards jamais conseguiram ser. Nos Beatles havia, invariavelmente, magia. Nos Stones, à míngua dela, sobrou revolta. Quando não se tem uma varinha de condão empunha-se o punhal da provocação. Luta-se com as armas que se tem.
                Por isso, e por finalmente terem reconhecido que neles o génio foi injusto ao ponto de não lhes aparecer com a mesma assiduidade com que comparecia aos encontros com os “fabulosos quatro”, os Stones ganharam, paradoxalmente, a contenda. Mas não contra os seus adversários de estimação. Sim, eles são, de facto, a “maior banda de rock ‘n’ roll do universo” porque o rock foi tanto a sua bandeira como o seu refúgio. Os Beatles ficarão para sempre como a “maior banda”, ponto final, e que nos perdoem as claques dos Kinks e dos Beach Boys, sentados nas respetivas bancadas a apitar e a acenar com os cachecóis.
                As marcas dessa raiva foram apagadas pelo tempo e pelos cifrões. Mas quem quiser, que compare: o hino dos Beatles chama-se “All you need is love” e canta-se com sorriso Pepsodent. O dos Stones tem como nome “(I can’t get no) Satisfaction” e é um grito que continua a enlouquecer os que, ontem como hoje, sentem um nó na garganta. Um coração de pomba contra um fígado bilioso. Haverá duelo mais desigual?
                Mas que mal tem, se Lennon e McCartney eram sempre Lennon e McCartney e Jagger e Richards “apenas” uma acutilante, e por vezes inspirada, parelha ao serviço do rock? Ao perfume dos “sirs” respondiam umas vezes com pólvora, outras tentando manejar as mesmas armas, de forma mais ou menos desastrada. Era esse o seu charme. Poderia ter sido de outro modo? Jamais o saberemos. E no entanto…
                Quando os Stones enfrentaram, cara a cara, os Beatles, e pretenderam responder-lhes no seu próprio terreno, apontando o álbum “Their Satanic Majesties Request”, ao mesmo alvo que “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” (tentativa idêntica à que levou Brian Wilson, dos Beach Boys, ao desespero, pretendendo com “Smile” competir com o mesmo monstro, com os traumas consequentes que se conhecem…), ambos editados no mesmo ano de 1967, os resultados foram, no mínimo, perturbantes.
                Para muitos, incluindo os próprios Stones, que hoje renegam este objeto estranho da sua discografia, “Their Satanic…” é uma obra falhada, marcada por um pretenciosismo que não estaria à altura das capacidades da banda, se não mesmo uma “traição” ao seu espírito original. Para outros (grupo no qual nos incluímos), poré, é uma das obras-primas dos Stones e um dos álbuns mais belos do psicadelismo, onde estão incrustadas gemas como “Citadel”, “She’s a rainbow” e “2000 light years from home”. Mas, lá está, “Sgt. Peppers” foi composto como uma sinfonia abençoada pelos anjos e “Their Satanic” destila os olores estupefacientes do ópio com uma ânsia magoada. Não haja confusões. O Sargento Pimenta não é Satanás. E a miúda que abandona a casa dos pais em “She’s leaving home” não é bem o mesmo viajante perdido que se afasta 2000 anos-luz do lar. A partir daí os Stones apearam-se dos mellotrons e das “sitars” e apanharam outro comboio. Um comboio-fantasma.
                Não se sabe o que lhes teria acontecido se Brian Jones continuasse vivo e tivessem recebido a benção do amor. Talvez tivessem acabado na altura própria… Mas as cartas foram jogadas. Os Rolling Stones são a “maior banda de rock ‘n’ roll do universo”, mas isso não é suficiente. Nunca será suficiente. Jagger permanecerá até ao fim dos seus dias D. Quixote a lutar contra os moinhos de vento. Os Stones jamais se derrotarão a si próprios. O diabo, na sua maligna sabedoria, negou-lhes esse poder. É essa a mais terrível das suas maldições.


a jóia dos malditos

“Their Satanic Majesties Request”, registo ímpar na discografia dos Stones dos anos 60, faz parte do pacote “The Rolling Stones Remastered”, composto por 19 álbuns (22, se considerarmos que “Out of our Heads”, “Aftermath” e “Between the Buttons” sairão em dose dupla, correspondentes aos diferentes alinhamentos das edições inglesa e americana), que serão postos à venda a 21 de Outubro. Da embalagem em formato digipak a um processo de prensagem “dois em um” que reúne os registos super áudio CD e CD áudio normal, tudo foi pensado em termos de “edição definitiva”. Editado originalmente em 1967 com uma capa com uma foto em 3D (na presente reedição substituída por um holograma), “Their Satanic Majesties Request” é o álbum psicadélico dos Stones. O disco maldito que poucos ousam incluir na sua lista de preferências mas sem dúvida aquele que mais longe levou o lado inexplorado do grupo e é digno de ombrear com os grandes clássicos do psicadelismo, como “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, “Odessey and Oracle”, dos The Zombies ou “Begin”, dos The Millenium. Muito do seu exotismo é fruto do impulso das drogas alucinogénicas que então integravam o “input” inspiracional da maioria dos grupos da época, matéria em que Brian Jones (falecido dois anos mais tarde, vítima de “overdose”) era especialista. Foi ele o primeiro feiticeiro a render-se a Lúcifer, dele recebendo os seus tesouros amaldiçoados, pelos quais pagou com a própria vida. Cravos, mellotrons, “sitars” indianos, ritmos africanos encantatórios, tudo encaixa como os fragmentos simétricos de um caleidoscópio, criando uma fantasmagoria suspensa no abismo da qual emerge uma das mais belas canções de sempre do grupo: “She’s a rainbow”, emblemática da “weirdness” psicadélica, como é Lucy, no céu com diamantes.
Em “Their Satanic Majesties Request” os Stones quiseram ser poetas e, como os Beatles, trazerem para a pop uma beleza sobrenatural. Conseguiram-no, roubando ao mais belo e terrível dos anjos a sua jóia dileta: uma esmeralda. Brian Jones morreu. Mas suspeita-se que a pedra verde continue, oculta, a cintilar no coração de Mick Jagger.

THE ROLLING STONES
Their Satanic Majesties Request
ABKCO, distri. Universal
10|10


Pagou 120 contos por um disco e viajou à aventura até Londres, para estar ao lado dos ídolos.

como ser doente pelos stones e sobreviver

Ser fã dos Stones é profissão de fé. Que o diga Pedro de Freitas-Branco, 35 anos, vocalista, guitarrista e compositor do grupo Pedro e os Apóstolos (dos quais acabou de sair novo álbum, “Formigas em Férias”) e autor de livros de aventuras juvenis escritos de parceria com António Pinho (ex-Banda do Casaco), “doente” pela banda de Jagger e companhia desde os 11 anos. Ouviu-os pela primeira vez através de “Aftermath”. A partir daí já não havia nada a fazer. Ficou apanhado. Das edições em vinilo originais, por algumas das quais já pagou pequenas fortunas, a “memorabilia” de toda a espécie, nada lhe escapa. Admite que o seu fanatismo tem algo de “irracional”: “Às vezes acho estúpido ter tantas coisas… vou acumulando… é como ser sócio ‘hardcore’ de um clube”.
                O pai tocava nos Claves, “dos campeonatos ié-ié”, e foi com ele que ouvia em casa “os Beatles, The Kinks, alguma música portuguesa”. Mas isso foi “até conhecer os Stones, a antítese dos Beatles, mais ‘sujos’ e enérgicos, com um discurso diferente nas letras, sobretudo nos primeiros singles”.
                Começou por comprar os discos dos anos 60, “os que na altura estavam editados em Portugal”, em particular “Aftermath”, mas o “tiro mesmo, o golpe de misericórdia”, aconteceu quando, aos 15 anos, viajou até Madrid, ao estádio Vicente Calderón, para assistir a um concerto da “tournée” de 82 do grupo.
                Tem em casa todos os álbuns da banda, dos oficiais aos piratas, “alguns repetidos, pelas capas diferentes, consoante os países em que foram editados”. Só singles, são “quatrocentos e tal”. Pelo dez polegadas “Beat, beat, beat”, “uma edição alemã rara”, pagou 400 libras, cerca de 600 euros, 120 contos. Mais programas de concertos, “o mais antigo, de 65”, revistas, fotografias… Insiste num ponto: “Procuro as edições originais por causa do som, não sou daqueles colecionadores que querem ter por ter. Compro os discos para os ouvir mesmo!”.
                De colecionador “obsessivo”, passou gradualmente a uma atitude “mais seletiva”, privilegiando a “raridade”. Como “Promotional Album”, “feito para as rádios nos EUA e na Inglaterra”, do qual “apenas existem 200 exemplares” e que demorou “vários anos até conseguir ter”, através de um “dealer” inglês, que lhe cedeu, por troca “com um ‘Abbey Road’ de exportação”, um exemplar previamente reservado para Courtney Love.
                Mas Pedro foi mais longe na idolatria. Foi até Madrid, para assistir à tal digressão de 82, “sem a autorização da mãe” (“disse que ia para casa do meu pai mas parti com uns amigos para Espanha. Só passados dez anos é que a minha mãe descobriu, tal era a minha obessão na altura!”). Depois, “há cerca de um ano e tal”, houve uma ida a Londres. “Numa terça-feira, em Lisboa, tocou o telemóvel do João Pedro Pais, que nessa altura estava a fazer um disco com o Luís Jardim: ‘Eh pá, tu que gostas tanto dos Stones, o Luís Jardim está amanhã a tocar no Ronnie Scott [famoso clube de jazz londrino], com o Charlie Watts! Vai ter com o gajo a Inglaterra!’ Não conhecia o Luís Jardim mas meti-me no avião nessa noite. Fui para a porta. Meteram-me lá dentro. Foi giro. Depois do concerto sentei-me à mesa com o Charlie Watts, assinou-me discos… E tive a sorte de nessa mesma noite o Ron Wood e o Keith Richards terem ido ver o espetáculo. Eu estava um bocado bebido, não tinha comido nada, tive aquela coisa de puto, aos trinta e tal anos, de ir ter com eles e sentar-me na mesa deles, fazendo-me passar por amigo de infância do Luís Jardim. Estava com medo, mas os gajos foram impecáveis. Quando a certa altura lhes disse que também gostava de conhecer o Mick Jagger, o Keith Richards disse uma coisa gira: ‘Ainda bem que nos conheceste a nós, ele não tem tanta piada, é maus uma superstar’. A noite acabou a família do Ron Wood a dar-me boleia para o hotel!”.

17/10/2008

The Rolling Stones - More Hot Rocks (Big Hits & Fazed Cookies)

Pop Rock

6 MARÇO 1991
REEDIÇÕES

ROLLING STONES
More Hot Rocks (big hits & fazed cookies)
LP duplo, London

Primeira editora dos Stones, a London aproveitou a “Jungle Tour” do ano passado para as recompilações da praxe. Depois de um primeiro “Hot Rocks” com os êxitos todos, esticou muito o pescoço e atirou cá para fora mais quatro lados inteirinhos tirados do material que gravaram entre 1964 e 1972. Por ordem (mais ou menos) cronológica, que é aquela que permite maior arrumação, ou seja, a mais rápida e fácil. Depois é só esperar que o peixe pique. Nada de especial, senão para os fanáticos e os novatos, aqueles que vão a todas: “Tell me” e “It’s all over now” (do álbum estreia de 1964), a versão de “Not fade away”, de Buddy Holly, “The last time”, de “Out of Our heads” (1965), “I’m free” e “Out of time”, de “Aftermath” (1966), correspondentes à fase áspera dos rhythm’n’blues, como aperitivo. Um saltinho até 1969 e ao clássico “Lady Jane”, para recordar a voz cínica e sensual de Mick Jagger nos seus melhores tempos. Desse ano em que gravaram um dos seus melhores discos de sempre – “Let it Bleed”, incluem-se ainda o título-tema e “Sittin’ on a fence”. De “Their Satanic Majesties Request” – por muitos considerado um monumental fracasso, uma obra a todos os níveis falhada e que este crítico considera, ao invés, como o seu melhor – recuperam-se “She’s a rainbow” (que maravilha!) e o estonteante/incompreensível e orgulhosamente psicadélico “2000 light years from home”. Mas há mais, embora de menos – onde estão os clássicos todos, omitidos sem que nos seja dada qualquer “satisfaction”? Está bem, a intenção não é essa, mas a de divulgar os temas mais obscuros. Acontece que, no caso dos Stones, os tais clássicos, como “Brown sugar”, “Street fighting man”, “Sympathy for the devil”, “I can’t always get what you want”, “Jumpin’ Jack flash”, entre tantos outros, correspondem, de facto, às suas melhores canções. **

14/10/2008

The Rolling Stones - Flashpoint

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

PORQUE ROLAM AS PEDRAS ?

THE ROLLING STONES

Flashpoint
LP / MC / CD, Promotone, distri. Sony Music port.

Quem são? De onde vêm? Para onde vão? Rolling Stones – a maior banda de rock’n’roll do Universo? A ser verdade, passados estes anos todos, tal facto não abona muito em favor do universo. Tão pouco do rock’n’roll. Quem são e quantos são? São cinco, dois Micks, um Bill, um Keith e um Charlie. Todos juntos, perfazem a bonita idade de 244 anos. Difícil é compreender como conseguem manter-se ainda juntos, ao fim de tantos anos. Vêm dos blues e do início da música pop em Inglaterra. Pretendem ultrapassar os Beatles sem perceberem que as duas bandas seguiram sempre por estradas diferentes, em direcções opostas, que nunca se cruzaram. Para onde vão ninguém sabe. Nem os próprios. Enquanto tiverem força para se aguentarem de pé, segurar nas guitarras e cantar, e a família deixar, hão-de continuar na estrada e a gravar discos que sonham deixar para a posteridade.
“Flashpoint” recorta os melhores momentos da tournée de 1989/90, “Steel wheels – Urban jungle tour”, procurando fazer passar a excitação que a banda alegadamente provoca ao vivo (no Estádio de Alvalade não tanto como isso) e chegar às gerações mais novas para as quais o nome “Rolling Stone” se reveste de uma aura quase mística, de tanto o ouvirem mencionar da boca dos pais ou dos avós, com um brilhozinho nos olhos. A lista de temas aqui incluídos é um autêntico “best of” da carreira do grupo: “Start me up”, “Miss you”, “Ruby Tuesday”, “You can’t always get what you want”, “Little red rooster”, “Paint it black”, “Sympathy for the devil”, “Brown sugar”, “Jumpin’ Jack flash” e “Satisfaction” recuperam a melhor fase do grupo, constituindo uma óptima oportunidade para pais e filhos encostarem as cabeças e trautearem os velhos êxitos em conjunto. Quem diria que os Stones se tornariam num modelo de consenso capaz de juntar as gerações? Com os Stones, na “Urban Jungle tour”, esteve um dia, entre mais de uma dezena de músicos escolhidos para disfarçar os momentos de maior cansaço das estrelas, Eric Clapton, para ressuscitar “Little red rooster”. No fim, a questão principal dos últimos anos permanece sem resposta: o que faz correr ainda os Stones, a maior banda de rock’n’roll do Universo? **

10/05/2008

Marianne Faithfull - 20th Century Blues + The Rolling Stones - Rock And Roll Circus

Pop Rock

9 de Outubro de 1996
poprock

Perdidos nas estrelas

MARIANNE FAITHFULL

20th Century Blues – An Evening in the Weimar Republic (7)
BMG, distri. BMG
THE ROLLING STONES & VÁRIOS
Rolling Stones Rock and Roll Circus (6)
Abkco, distri. Polygram

Um intervalo de três décadas separa estes dois álbuns, marcados ambos pelo tempo, pela ilusão e pela utopia. As contas podem fazer-se entre os anos 30 e os 60, ou entre os 60 e os 90, sempre o teatro e a ilusão surgem a baralhar as datas. Em “20th Century Blues”, Marianne Faithfull põe em dia a sua relação com a música de Kurt Weill, iniciada em 1985 com a sua participação na homenagem a este autor idealizada por Wal Willner em “Lost in the Stars”, onde cantava “Ballad of the soldier’s life”, e posteriormente aprofundada no seu melhor álbum até à data, “Strange Weather”, que inclui “Boulevard of the broken dreams”, outro clássico dos anos 30, não weilliano, recuperado neste seu novo trabalho.
Gravado ao vivo no New Morning, em Paris, “20th Century Blues” culmina todo o anterior percurso de Faithfull em redor da obra de Kurt Weill, que a levou, inclusive, em 1992, a participar como actriz na “Ópera dos Três Vinténs”, onde desempenhava o papel da pirata Jenny. Antes, a cantora fizera duas “performances” sobre “Os Sete Pecados Mortais”, obra que a marcaria decisivamente na descoberta do universo de Kurt Weill.
O passo decisivo coincide com a realização de um ciclo de três dias, “A Weekend of Decadent Twentieth Century Music”, o último dos quais dedicado a Weill, assistiria ao encontro de Marianne Faithfull com o pianista Paul Trueblood, num espectáculo de genérico “An Evening in the Weimar Republic”, base do presente trabalho.
“20th Century Blues” funciona, pois, como um clímax há muito aguardado, como se todo o anterior passado recente da cantora não fosse mais do que a laboriosa preparação deste momento. É o casamento perfeito, dir-se-ia, de uma alma atormentada com um conceito estético que juntou a ópera, o jazz, o cabaré, a “folk” e a canção de rua, no período da História da Alemanha compreendido entre a queda da monarquia e a Primeira Grande Guerra e a ascensão de Adolf Hitler ao poder, em 1933. Um período de sínteses dolorosas e apressadas que se erigiu como um imenso (e intenso) espectáculo de máscaras, na construção de uma utopia – do poder e da arte nas mãos do povo – de em breve as chamas de um novo totalitarismo consumiriam. Neste “cocktail” psíquico e musical, encontrou Marianne Faithfull a sua pátria espiritual, bebendo a cicuta até à última gota.
Em 1968, ano seguinte ao de todas as obras-primas de “pop music”, em plena euforia “hippie”, os Rolling Stones montavam, por sua vez, o seu próprio circo de “rock’n’roll”. Como nos anos da República de Weimar, acreditava-se então que a música poderia mudar o mundo, celebrando-se, em conformidade, um outro jogo de máscaras e sínteses musicais, de novo do jazz e da “folk” com o teatro, mas agora com o estímulo adicional das drogas psicadélicas. À semelhança do disco de Marianne Faithfull, é uma gravação ao vivo, neste caso com o beneplácito da BBC e até agora inédita. “Rock and Roll Circus”, além dos Stones, contou com as presenças de convidados – enquanto músicos ou simples apresentadores fazendo a ligação entre as canções -, dos Jethro Tull (com “Song for Jeffrey”), The Who (“A quick one while he’s away”), Taj Mahal, Yoko Ono, John Lennon (integrado nos inexistentes The Dirty Mac, com “Yer blues”), Eric Clapton e… Marianne Faithfull. Marianne Faithfull que então cantava no “standard” “Something Better” (lado B do “single” “Sister morphine”): Have you heard, blue whiskey is the rage, I’ll send you a jug in the morning…” Escutamos os ecos de “Alabama song” e é como se o tempo se apagasse…
Os Stones contribuem com metade dos temas, seis, incluindo “Jumping jack flash”, “You can’t always get what you want” e “Sympathy for the devil”. Dois de folia, de músicos mascarados, trapezistas e comedores de fogo, na ressaca de “Their satanic Majesties Request”, o “opus” psicadélico-satânico do grupo, que constituem um testemunho da agitação criativa da “swinging London” dos anos 60. Ocasião irrepetível em que, como escreve o crítico “David Dalton”, “por um breve momento pareceu que o rock’n’roll iria conquistar a terra”.
Se “20th Century Blues” é o voo de cinzas de um coração magoado, o circo montado pelos Stones era a crença ilimitada na irracionalidade. A música de Weill/Faithfull soa seca, ferida, a sangue coalhado. A festa das estrelas “pop” fazia a apologia do caos e das cores garridas. Marianne Faithfull enverga, por interpostas máscaras, a diversidade devastada dos seus próprios rostos. A companhia dos Stones tripava, cavalgando sobre a inconsciência do instante. Marianne Faithfull abraça comovidamente a morte, como a uma derradeira amiga. Os Stones, perversamente, vestiram a morte com uma túnica “hippie” e enfiaram-lhe um charro na boca.