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26/08/2014

Uma russa em Santiago [Santiago]



Sons

10 de Julho 1998

Ronda dos Quatro Caminhos – Músicos da Ronda estreiam novo projeto

Uma russa em Santiago

Quatro dos elementos da Ronda dos Quatro Caminhos juntaram-se a uma violinista clássica, mandaram às urtigas a música portuguesa e as vocalizações, inspiraram-se em Santiago de Compostela e chamaram ao novo projeto, Santiago. A violinista é Inna Rechetnikova, formada pelo Conservatório de Leninegrado e que nos últimos anos tem feito parte da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Os quatro rondas são António Prata, Carlos Barata, Vítor Costa e Pedro Fragoso.

Esqueceram-se por momentos da banda-mãe para pôr em prática novas conceções musicais. “Já há alguns anos que tínhamos a ideia de fazer um grupo só instrumental”, diz António Prata, multi-instrumentista dos Santiago, para quem “há muito pouca música instrumental em Portugal, ao contrário do que acontece nos outros países da Europa”.
A par do aspeto instrumental há ainda uma preferência pela “música de autor”. Todos os temas de “Santiago”, disco de estreia do projeto, têm a assinatura de Prata, Carlos Barata e Pedro Fragoso. Ao contrário da Ronda, que faz essencialmente recriações de música tradicional portuguesa, nos Santiago privilegia-se a composição e “a experimentação com outras sonoridades”.
Alguns dos temas de “Santiago”, foram escritos, “na solidão da casa de cada um”. Outros “contaram com a colaboração de um ou outro músico, em termos de arranjos ou de uma segunda melodia, sem ser nunca um trabalho coletivo”, explica Prata. “Havia era uma comunhão de ideias entre os três compositores principais e tentámos que cada um fizesse alguns temas de acordo com o todo do disco”. Um disco que, diz, “teria que ser forçosamente alegre”.
No centro de Santiago está o violino da russa Inna Rechetnikova. “É uma paixão minha [N.R.: o violino, não a russa] e também de todos os outros músicos”. Os portugueses conheceram-na há dois anos. E “como as conversas são como as cerejas” e ela “gostou da ideia”, não foi difícil integrá-la no projeto. “Foi um desafio grande compor para o seu violino e fazer todo o disco girar em volta dele”, garante António Prata.
Ouvindo certas batidas de “Santiago” pensa-se nos Fairport Convention. Prata assume a influência. “Comecei a ouvir música em casa aos 12 anos. Vamos assimilando tudo o que ouvimos. Por um processo natural de exclusão, ficamos cá dentro com aquilo que é bom, como é o caso dos Fairport Convention, um dos grupos que ouvi bastante”.
Serão os Santiago, à semelhança dos Fairport, uma banda de folk rock? António Prata prefere o termo “pop folk”. Porque “não há dúvida de que os ritmos do continente europeu estão bem marcados no disco”, embora “com uma sonoridade mais pop” do que na Ronda. Cita, como exemplo, a inclusão da bateria, “que não tem nada a ver com o modo como é utilizada na Ronda ou as próprias malhas da guitarra e a sequência de acordes”.
De futuro se verá como os quatro elementos que dividem a sua atividade entre os dois grupos lidarão com o facto de poder haver sobreposição. Prata é bem claro: “Não avançámos com o Santiago apenas para fazer um disco. Planeámos uma carreira, embora saibamos que é difícil um grupo impor-se com um projeto instrumental. Mas somos perseverantes e se as coisas não correrem bem com este disco esperamos que corram melhor com o próximo”. E se os Santiago tiverem êxito? ”Num Verão em que haja muitos espetáculos dos dois grupos, teremos que conviver com essa situação”.
A Santiago de Compostela, na Galiza, onde se deslocam com frequência para atuar, foram os Santiago portugueses buscar inspiração. “É uma cidade que sempre teve um universalismo que nós gostaríamos que existisse também na nossa música”.

11/09/2009

Náufragos do Tempo

Sons

6 de Março 1998
PORTUGUESES

Náufragos do Tempo

Rock, fado e tradição. Entre gestos de sobrevivência e remexidas no baú, descobrem-se caminhos e becos, experiências e perplexidades. Passando ou não ao lado da inovação. A música portuguesa desarrumada entre o passado e o presente.

“Manual de Sobrevivência”, segundo trabalho a solo da antiga vocalista dos Rádio Macau, é um álbum interessante mas que não esconde as suas limitações. Xana procura aqui a diferença que possa impor um estilo, a questão está em que a sua maneira e cantar, sem dúvida característica, demonstra enormes dificuldades em se libertar de um registo demasiado repetitivo. Como se cada capítulo deste manual fosse uma variação de uma única canção, ensaiada em velocidades, estados emocionais e arranjos diferentes. Assim, a monotonia acaba por se instalar, dando ideia de que este manual poderia ter sido limitado a um folheto de instruções básicas de salvação. Procure-se esta redenção na colaboração recente da cantora no álbum de Flak... (Nortesul, 6)

Camané vive o fado como poucos, contando de novo, neste seu segundo registo depois de “Uma Noite de Fados”, com a presença tutelar de José Mário Branco. E se a sua abordagem ao fado se insere na linhagem dos clássicos, tal não impede que um dos temas mais interessantes de “Na Linha da Vida” seja “Sopram ventos adversos”, de Manuela de Freitas e José Mário Branco, em que a atmosfera se abre a uma contemplação mais luminosa e o fado se desdobra “numa praia de sentimentos dispersos”. Uma via de confluência entre o fado-canção de Carlos do Carmo e o golpe de vista de Paulo Bragança que poderá projectar Camané para uma visão mais abrangente da tradição e de um espírito de fatalidade que parece marcar a sua música. (EMI-VC, 6)

José Barros, mentor do projecto Navegante, navega no seu segundo trabalho, de genérico “Cantigas Partindo-se”, em águas bem menos poluídas que as do disco de estreia. Ainda sem conseguir furtar-se totalmente à lama do popularucho, embora aqui na sua vertente menos ofensiva, de temas como “Serventês” e “Tão longe da vida” (verdadeiramente folk pimba) e incorrendo em inutilidades como a enésima versão de “Milho verde”, o grupo revela-se capaz de encontrar alguns oásis de frescura e alguma originalidade. Estão neste caso a versão de um “São João” em tonalidades arabizantes, a força céltica de “Penha Garcia” e um par de baladas originais que não deixam de fazer lembrar os Romanças, como “Cascata”, “Saudades da Lua” e “Cantigas partindo-se”, sobressaindo ainda o instrumental “Em barca”, composto pelo violinista Jorge Cruz, onde é visível uma atenção a alguns dos rumos recentes seguidos pela “world music”. A este elevar da fasquia não serão alheias as participações de músicos como Rui Júnior e Pedro d’Orey (ex-Romanças), mencionados como elementos permanentes do grupo, Rui Vaz (dos Gaiteiros de Lisboa), Artur Fernandes (Danças Ocultas) e Pedro Jóia. (Ovação, 6)

No capítulo das reedições, o destaque vai por inteiro para “Cantigas do Sete-Estrelo”, álbum de 1985 da Ronda dos Quatro Caminhos que permanece como um dos instantes iluminados da música portuguesa de raiz tradicional. Graças à magia criada por um colectivo que, alheio ainda a guerras que no futuro se viriam a declarar de forma violenta, apenas se preocupava então com a dignificação de uma música habituada a todo o tipo de maus tratos. Simples e directas, porque simples e directas são as raízes, sentem-se nestas “Cantigas” o trabalho e a dedicação profundos. Depois, a Europa e uma leitura da folk mais sofisticada impõem-se em monumentos de beleza como “Cantiga de Fiadeiro”, “Batuque” e “Quedos, quedos, cavaleiros!” (onde se percebe como a Ronda poderia ter sido o equivalente nacional dos franceses Malicorne...). O aparecimento de outras técnicas e abordagens de estilo, mais actuais, terão tornado algumas destas aproximações à tradição algo datadas, mas nada lhes poderá tirar a verdade do batimento de um coração. (Movieplay, 8)

Igualmente relevante é a reedição de “Pelo Toque da Viola”, álbum de 1981 dos Terra a Terra, ou seja, um dos exemplares mais antigos da segunda geração de grupos nacionais de raiz tradicional. Mais ortodoxos que a Ronda e valorizando sobretudo os arranjos vocais, os Terra a Terra propunham uma viagem pelas várias províncias do continente à boleia da voz, mas também das omnipresentes cordas e percussões. Algumas debilidades técnicas, como uma gaita-de-foles constipada, impedem voos mais altos num álbum marcado pela dança e pela presença de Ana Faria, antes de se dedicar à confeitura dos queijinhos frescos... (Movieplay, 6)

15/11/2008

Ronda Dos Quatro Caminhos - Ronda Dos Quatro Caminhos

Pop Rock

22 de Fevereiro de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Ronda dos Quatro Caminhos Ronda dos Quatro Caminhos

Como foi

Para Vítor Reino, a estreia discográfica da Ronda dos Quatro Caminhos representou uma mudança. A recolha de temas folclóricos, se não desapareceu, passou para um plano secundário. Até essa altura, Reino dedicara-se à música tradicional “numa perspectiva coral, que tinha sido importante nos Almanaque, com cerca de vinte pessoas”. “Era uma herança dos velhos coros”, diz Reino, para quem “Ronda dos Quatro Caminhos” foi o primeiro disco a pôr essa perspectiva “de lado”. Para trás ficara o Almanaque, até ao álbum “Desfiando Cantigas”, impulsionado por si e por José Alberto Sardinha, os fundadores do grupo.
“O Almanaque seguia uma linha de tentar reproduzir as recolhas tais como as ouvia. Procurava cantar tal e qual. No primeiro disco da Ronda, houve a tentativa minha de ver a música tradicional como uma coisa mais dinâmica. Tentei fazer uma reconstituição. Muitas vezes da maneira como imaginava que certos temas teriam sido antigamente e não como os ouvia. Também comecei a compor, à imagem das músicas antigas.” Um aspecto importante foi o desvelar alguns aspectos da música portuguesa que “estavam encobertos, como aquelas raízes mais célticas”. Reino cita a propósito a faixa “Romance da mineta”, na qual fez um arranjo “baseado nesses sons” de localização geográfica mais vasta.
Vítor Reino reconhece a importância que tiveram, antes da Ronda, outros grupos. “Houve dois que me marcaram um bocado, a Brigada Victor Jara e o Terra a Terra. É curioso, porque estes grupos começaram artisticamente mais avançados do que nós, só que tinham um percurso totalmente diferente. Nunca fizeram recolha. Eram mais músicos, até, mas não possuíam a vivência de campo que eu tinha. Fiz um percurso muito mais lento. Comecei por ouvir as músicas, em 1972, quando iniciei as recolhas, como eram cantadas nas várias zonas.”
As mudanças operadas na passagem do Almanaque para a Ronda assinalam não só uma necessidade estética pessoal como também uma leitura diferente sobre a melhor maneira de a música tradicional portuguesa poder evoluir. Reino define mesmo como “um pouco infantil” e “académica” a perspectiva do Almanaque, citando a propósito, de novo, a Brigada, cuja estreia em disco, “Eito Fora”, enaltece. “Um disco espectacular ao nível de execução e de técnica”. A gravação, em 1984, do primeiro álbum da Ronda encerra algumas histórias. Vítor Reino recorda o recurso a duas pessoas naturais da sua aldeia, Monsanto, que cantam no disco. Uma delas canta em “Cravo roxo”: “Era uma senhora que depois apareceu no primeiro disco do Maio Moço a cantar o ‘Quando eu era pequenino’. A Maria da Encarnação Portugal. Chamávamos-lhe Maria costureira, como alcunha.” A outra voz feminina pertence “a uma senhora muito velha, na altura com os seus oitenta e tal anos”, que canta no “Entrudo”. No estúdio, Vítor Reino e os seus companheiros decidiram “fazer uma brincadeira” com esta última, na verdade uma “tentativa de reproduzir as brincadeiras antigas” daquela época de folia. “Gravámos ruídos estranhos, de chocalhos, de pessoas a rir ou a fugir. Ainda me lembro da reacção da senhora, quando os ouviu enquanto estava a cantar.” Noutro tema, numa “cantiga de malha” de Trás-os-Montes “que era apenas de homens e tinha uma letra até um bocado ‘vermelha’, como eles dizem lá em cima, no sentido de ‘erótica’ e não político”, o grupo usou “uma série de coisas para imitar o ruído da palha, palhas artificiais, papéis, e com o som de pessoas a conversar, em fundo”.
Vítor Reino já não se recorda exactamente de quanto tempo o grupo permaneceu em estúdio para a gravação do disco, embora tenha a certeza de que “foi um número de sessões elevado”, ao contrário do que acontecera nos discos anteriores. “Na altura do Almanaque, pertencíamos à Valentim de Carvalho, davam-nos uma sessão de gravação quando lhes apetecia. Era muito difícil. Tínhamos de gravar depressa. Na Ronda não. Deram ordem para termos pelo menos umas vinte sessões, de quatro horas cada, o que já permitiu uma certa calma.”
Numa época em que os grupos desta área primavam pelo elevado número de elementos, Vítor Reino refere a “diminuição”, para dez pessoas, do Almanaque para a Ronda. Número que, mesmo assim, permitia uma utilização em força das vozes, incluindo as de quatro mulheres. “Ainda se conseguia cantar uma cantiga da Beira Baixa com adufes e vozes femininas, ou seja, ‘a vozes’, algo que já não é possível fazer agora, nos grupos actuais, que, por razões económicas, acabaram por ter que reduzir ainda mais as suas formações. Nesse tempo, na Ronda, não havia ainda preocupações económicas. Até os espectáculos que fazíamos não eram para ganhar dinheiro. No máximo, davam para cobrir as despesas.”

Como é

Grande parte do historial mais nobre da música portuguesa de raiz tradicional passou, nas décadas de 70 e 80, por Vítor Reino, denominador comum dos grupos Almanaque, Ronda dos Quatro Caminhos e Maio Moço. Os primeiros representaram a tentativa, conseguida, de recriação – com um máximo de fidelidade e mínimo de sofisticação formal – da música coral. Os Maio Moço, pelo contrário, trabalharam no sentido de transpor o reportório tradicional para um registo modernizado, recorrendo, inclusive, a instrumentação electrónica. Opção que obteve os melhores resultados em toda a primeira fase do grupo, mas que, depois, acreditamos que por imposições de ordem não exclusivamente musicais, acabou por decair, num aligeiramento que terá trazido à banda, pelo menos, alguns dividendos materiais. A Ronda foi outra coisa. Este seu primeiro trabalho rompe, a vários níveis, com o passado. Se a música coral ainda marca com força or arranjos, nomeadamente nas harmonizações, excelentes na maneira como conseguem extrair das polifonias tradicionais toda a sua riqueza cromática e expressiva, é, contudo, já notório outro tipo de preocupações. O trabalho de recolha, embora servindo ainda de principal base de trabalho, passa a ser objecto de polimento e encarado como veículo para novas formas de expressão, mais contemporâneas. Com “Ronda dos Quatro Caminhos” e, de forma ainda mais vincada, no álbum seguinte, “Cantigas do Sete-Estrelo”, último da banda onde Reino participa, a música tradicional portuguesa saía do seu obscuro recanto – pasto de delícias para os puristas -, para se inserir numa comunidade universal. Um som e uma atitude mais abertas, capazes de tocar franjas de auditores de outras áreas musicais, da música erudita à pop. Faixas como “Romance da mineta” – um marco na arte do “Trad. Arr.” -, com as suas colorações medievais e toda a força que o canto pode ter, ou “Entrudo”, em que a utilização de voz de uma idosa cantora tradicional antecipava uma estética de justaposição de épocas distintas – que o aparecimento dos “samplers” viria a democratizar, mas também a descontextualizar -, situaram a Ronda na mesma família de grupos como os Malicorne, abrindo caminho a quantos no futuro, em Portugal, apostarão em reorientar a tradição.

Nota:
a parte a carregado pode, em
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ser cortada.