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11/04/2017

Medos para os pequenos [Sérgio Godinho]

LIVROS

Depois de “Lupa”, o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um “Pequeno Livros do Medos”. Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o “bicho desconhecido” que se esconde no sótão.

Medos para os pequenos

Depois de "Lupa", o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um "Pequeno Livro dos Medos". Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o "bicho desconhecido" que se esconde no sótão.

O que distingue a criança do adulto é a inocência. Deixamos de ser crianças quando perdemos a inocência. Adão e Eva comeram a maçã e foi o que se viu. Enquanto adultos podemos ser puros. Mas nunca inocentes.
            Os adultos escrevem livros para as crianças lerem da mesma maneira que as crianças escrevem para os adultos lerem, com a diferença de que, neste último caso, as obras costumam vender menos. Nenhum adulto que escreve livros para crianças é inocente ou escreve livros inocentes. Razão por que as crianças, ao lerem os livros que os adultos escrevem para elas, vão perdendo aos poucos a inocência até se tornarem, elas próprias, adultos. Infelizmente as crianças não escrevem para si próprias tanto como deveriam. Talvez os editores achem que cometem demasiados erros de ortografia.
            Sérgio Godinho escreveu e ilustrou para as crianças um livro inteligente a que chamou "O Pequeno Livro dos Medos". Não teve medo de o fazer. E saiu-se bem. Porque escreveu como se estivesse a compor música. "O Pequeno Livro dos Medos" ouve-se tanto como se lê. E as crianças gostam disso. Até porque, como está provado, têm melhor ouvido do que os adultos.
            Aliás, toda a literatura existe, em primeiro lugar, para ser ouvida. As palavras não são outra coisa senão varinhas de condão que mexem em quem as ouve. O texto, falado ou escrito, funciona como instrumento de magia. A ciência fala em processos de correspondência, de simpatia, que se desenrolam no cérebro do leitor, mas a palavra magia tem bastante mais força e as crianças entendem-na melhor. Ali-Babá soletrava "Abre-te Sésamo!" e a porta que dava para a gruta do tesouro, obedecia-lhe, escancarando as goelas do segredo e da riqueza.
            O escritor e, sobretudo, o poeta são músicos das palavras. Nietzsche, que foi provavelmente o mais musical dos filósofos-poetas, escrevia/compunha em diálogo íntimo com o mais íntimo que existe dentro de cada um de nós. Tanto assim que a leitura de uma obra como o Zaratustra causa medo.
            Sérgio Godinho empreende, com outra candura, a exploração desse lado manipulatório (só a palavra mete medo, mas é mesmo assim) da escrita. Porém não se ouvem gritos. Até porque as crianças, dando a entender o contrário, são menos medrosas que os adultos na forma como se entregam de livre vontade aos ventos da noite. E sabem tirar partido e gozo do medo (Sérgio Godinho chama-lhe um "brinquedo", logo no primeiro parágrafo). Não admira que o autor brinque, como numa das suas canções, em jogos combinatórios: "Sou o bicho dos medos desconhecidos. Sou o desconhecido do medo dos bichos. Sou o medo dos bichos desconhecidos. Vira-me do lado que quiseres, que eu sou teu conhecido."
            "O Pequeno Livro dos Medos" começa por bisbilhotar no dicionário, esse outro livro prisão que ensina a arrumar o caos da linguagem. O autor procurou nos sinónimos e encontrou para "medo": "susto, receio, horror, pavor, cagaço, cobardia, desconfiança, temor, terror, pânico, assombramento...". Isto porque, diz ele, convém logo de início "olhar para dentro do medo" e "descobrir como ele funciona", esse "sentimento desagradável que excita em nós aquilo que parece perigoso, ameaçador, sobrenatural".
            Sabendo-se do nome do monstro com quem se está a lidar, o autor atira-se de cabeça para dentro da cabeça dos miúdos. Sem os assustar. Mostrando-lhes desenhos de rostos e seres "assustadores", entre o figurativo e as manchas do teste projetivo de Rorschach. E contando histórias de medos. Do dono de um circo que ameaça soltar um terrível leão ou do dono (já são dois "donos" - é curioso - as personagens que metem medo. Crítica subtil ao capitalismo?) de uma drogaria que mantém encerrado nas traseiras um bicho terrível que "o melhor é ninguém ver".
            Começam por ser "bichos", reais ou imaginários, os desencadeadores dos terrores infantis. Com base neste bestiário, porém, Sérgio Godinho conduz com suavidade os olhos espantados e gulosos dos seus pequenos leitores até ao sótão dos medos metafísicos, onde se "ouvem sempre misteriosos passos que não podem ser de ratazanas (...) passos de alguém que é leve e pesado ao mesmo tempo", levando-os "ao encontro do bicho desconhecido".
            É no sótão, no escuro "onde se desvendam os mistérios", que a criança enfrenta, olhos nos olhos, esse "desconhecido que mete medo e ao mesmo tempo apetece conhecer", e descobre no baú uma carta escrita pelo avô ao pai, onde se oferece a solução. A família - chave de segurança que ajuda a enfrentar os sucessivos embates do eu com o exterior, na sua contínua metamorfose de auto-descoberta.
            Idealizam-se mil formas de esconder, eliminar o papão para, finalmente, a criança o reconhecer como parte integrante de si própria.
            É o momento de "silêncio e respeito", em que ambos "ficam a olhar de frente um para o outro, como se fossem dois velhos conhecidos que nunca se tinham visto". Sem que seja possível descobrir a espada capaz de cortar a cabeça ao medo, a verdade é que o João (é este o nome do pai da criança a quem tudo isto sucedeu quando também ele era miúdo) "olhou à volta e não viu medo nenhum". "Talvez tivesse voado pela janela aberta". Como um pássaro.
            Ou talvez o medo "continuasse no fundo do mar, à espera de um polvo que por ali nunca passará". Nós, adultos com medo de ter medo, ficamos pelo nosso lado à janela, esperando, como no conto de Kafka, "pela mensagem que nunca chegará".

O Pequeno Livro dos Medos
AUTOR Sérgio Godinho (texto e ilustrações)
EDITOR Assírio & Alvim, 48 págs. 2500$00

ARTES
sábado, 16 dezembro 2000

01/10/2016

Sérgio Godinho - Domingo No Mundo

SONS sexta-feira, 20 de Junho 1997

PORTUGUESES

Sérgio Godinho
Domingo no Mundo (8)
Ed. e distri. EMI-VC

“Domingo no Mundo”, sendo um disco com peso de clássico, é, em paralelo, a derivação do seu autor para formas de inovação, ao nível da composição e dos arranjos. A opção estética de entregar os arranjos a outrem, abre, de forma talvez demasiado ostensiva, com a batida “hip hop” de “Ser ou não ser”. Num total de onze temas, da responsabilidade, entre outros, de Kalu, Manuel Faria, José Mário Branco, Tomás Pimentel, Rádio Macau, Jorge Constante Pereira e João Aguardela, nenhum dá parte de fraco. E pelo menos um deles entra diretamente para o grupo dos “melhores de sempre”, o título tema, um fantástico arranjo de um Manuel Faria “industrialista”, cujo refrão, cantado por Sérgio ao megafone, é um dos mais pujantes e “catchy” que a música portuguesa nos ofereceu nos últimos anos. “Não respire”, uma visão simultaneamente poética e crítica, sem ser moralista, do fenómeno da toxicodependência, e “As armas do amor”, mostram o Sérgio Godinho “rapper” e interventivo. O outro, intimista, surge em “Correio azul” e “Os afectos”. “É a vida” (o que é, que se há-de fazer?), “vintage” Godinho, e “Mesa”, surrealista no seu arranjo para metais de Tomás Pimentel, contrastam com a interpretação “Faustiana” e opiácea de “Lamento de Rimbaud”. O lado populista aflora em “Aguenta aí”, onde João Aguardela, dos Sitiados, encontrou o registo certo de festa e mordacidade, com a cidade do Porto, “património mundial”, na mira, e um violino de inclinações “cajun”. “Dias úteis”, em registo de fado, pelo simples pormenor do disco de piano riscado, põe de novo em evidência a capacidade inventiva de Manuel Faria, cada vez mais uma espécie de Brian Eno português. Sérgio Godinho, esse, continua a ser um mágico das palavras.

05/08/2016

Sérgio Godinho - Escritor De Canções

Pop Rock
7 de Novembro 1990

MELODIAS DE SEMPRE

SÉRGIO GODINHO
Escritor de Canções
LP e MC duplos e CD, Edição Emi-Valentim de Carvalho

Entre 27 de Abril e 20 de Maio deste ano, Sérgio Godinho atuou no auditório do Instituto Franco-Português. Sala pequena, propensa a intimismos e cumplicidades. Conceito-novidade no esquema habitual dos espetáculos ao vivo, em Portugal: o da temporada, com a permanência do artista numa determinada sala, distribuída por um espaço temporal mais prolongado. Convivência com o local, progressão do movimento e respiração teatrais e da própria “performance” – entre tantos fatores que o formato em sala maior, para multidões, impossibilita. Gravado a 7, 8 e 9 de Maio, “Escritor de Canções”, como se autodenominou Sérgio Godinho na aventura e neste disco, testemunha uma atitude e uma estratégia, em termos puramente estéticos, sempre arriscadas – reduzir cada canção, entre um leque recolhido a partir de álbuns anteriores, ao esqueleto essencial, valorizando a melodia e a interpretação em detrimento do ritmo e do arranjo sofisticado. No palco e no disco, apenas a voz e a guitarra acústica de Sérgio Godinho, acompanhados pelo piano e discretíssimo sintetizador de Manuel Faria (dos Trovante) e o baixo de Nani Teixeira. Encenação e luzes só no Instituto. Palmas calorosas, silêncios comovidos, memória e presente de gerações e épocas cruzadas na magia de uma melodia ou de um texto que não esqueceram, pedaços de vida por muitos sofrida ou alegadamente fruída na companhia de uma frase ou de um refrão – tudo isto aconteceu em noites passadas, à escuta de canções e recordações reacendidas e compartilhadas. No disco, é diferente: há a distância, inerente à audição, em outro tempo e outro palco, do registo gravado, longe da participação ativa com a música e da presença corporal do artista. A reprodução do acontecimento não é o mesmo acontecimento. O “Escritor de Canções” do disco não é o mesmo que as cantou em carne e osso. Evidência que o próprio Sérgio Godinho faz questão de salientar quando afirma que o álbum “quase podia ser um disco de estúdio gravado com muito pouco público ou amigos extremamente atentos”. Coerente com esta afirmação seria a não inclusão das palmas, aqui acrescentadas na mistura final e soando nitidamente deslocadas, frias, quase digitais, contrariando o tom intimista pretendido. Também o alinhamento dos temas não respeita o do espetáculo, sem que se vislumbre o critério que presidiu à nova escolha. Felizmente, e o que mais importa, vivem as canções, tão belas como as escutámos no passado, revistas agora à laia de recapitulação, assinalando o final de um ciclo e o começo de outro, ainda indefinido, no percurso do seu autor. Ninguém como Sérgio Godinho tem sabido contar as grandezas e misérias do quotidiano português – as suas alegrias e desilusões, o amor e as paixões que sempre acabam, bem ou mal, em ressacas magoadas à luz da madrugada, vividas por personagens com nomes vulgares, em histórias imaginárias que tantos fizeram suas, como reais. Canções dos álbuns “Pré-Histórias” (73), “De Pequenino se Torce o Destino” (76), “Pano Cru” (78), “Campolide” (79), “Canto da Boca” (80), “Coincidências” (83), “Salão de Festas” (84), “Na Vida Real” (87) e “Aos Amores” (89), mais um original de Charles Trenet, “L’âme des Poètes” e dois originais: “Notícias Locais” e “Circunvalação”. Correspondentes a 16 anos passados a cantar o interior e o exterior de uma “nação de poetas”, que carrega num burro “para Lisboa os restos mortais de Fernando Pessoa” e em que todos “regateiam amarguras, ilusões, trapos e cacos e contradições”.

Sérgio Godinho brinca com as palavras, cujo sentido se joga no modo como fonética e naturalmente se atraem. Os sentimentos surgem a partir de uma espécie de encantamento em que música e texto se juntam num todo solto ao vento, que cada um entende como quer e a si prende com a força concedida pelo sonho e a cegueira apaixonada que a ilusão provoca. Como o lamento daquela rapariga “que se ergue e gira, rodopia e joga à cabra-cega” – “é de nós todos e a ninguém se entrega”. ****

31/12/2014

Um músico usa tudo, até uma lupa [Sérgio Godinho]



ANTEVISÕES

SÉRGIO GODINHO APRESENTA, EM NOVEMBRO, NOVO ÁLBUM, “LUPA”, EM LISBOA E NO PORTO

UM MÚSICO USA TUDO, ATÉ UMA LUPA

PARA SÉRGIO GODINHO, O ÚLTIMO ÁLBUM E O ÚLTIMO ESPETÁCULO SÃO SEMPRE OS PRIMEIROS. É ESTE O SEU SEGREDO E O SEGREDO DA ETERNIDADE. DAS PEQUENAS E GRANDES HISTÓRIAS QUE O MÚSICO VEM CANTANDO HÁ QUASE 30 ANOS. NO PRINCÍPIO DE NOVEMBRO, LISBOA E PORTO VÃO PODER OBSERVAR À “LUPA”, E EM PORMENOR, OS TEXTOS, OS SONS E AS IMAGENS.

SÉRGIO GODINHO é o mais importante cantautor português vivo. Que me perdoem José Mário Branco, Fausto, Vitorino e demais nomes da mesma geração cuja relevância no desenvolvimento da música popular portuguesa nas últimas três décadas é inquestionável. Mas nenhum deles apresenta uma obra com a consistência, em termos de quantidade, qualidade e regularidade de produção, da do autor de “Os Sobreviventes”.
            Viajante das palavras, sonoplasta das emoções, contador de histórias, cinéfilo dos sons, artesão dos pequenos gestos íntimos, arquiteto das grandes catedrais do sentimento, júri das estrelas, tão coerente nos princípios que defende com independente na forma como, sobretudo, não se deixa prender a si próprio, Sérgio Godinho caminha desde 1971, ano em que gravou o seu álbum de estreia, “Os Sobreviventes”, ao nosso lado. As suas canções, com as histórias que nelas passam a maior ou menor velocidade, têm sido as nossas, ordenadas segundo a lógica desordenada da vida e arrumadas com todo o cuidado na vitrina através da qual a alma olha para o lado de fora.

Sobrevivente permanente

            Tem sido sempre assim, ao longo dos 15 álbuns que o músico já gravou, nas centenas de espetáculos dados em Portugal e no estrangeiro, em todos os projetos em que se tem envolvido, ligados à música, ao cinema, ao teatro e à televisão. Sérgio Godinho tem sido um dos caminhos mais percorridos pela música portuguesa nos últimos 30 anos. Com múltiplos desvios. E chegadas a lugares de descoberta.
            Nos próximos dias 2, 3 e 4 de Novembro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e no dia 10, no Coliseu do Porto, Sérgio Godinho fará a apresentação ao vivo do seu mais recente álbum, intitulado “Lupa”.
            Sérgio Godinho integrava no início dos anos 70 o grupo de jovens compositores que giravam em redor de José Afonso. Mas José Afonso não se considerava o centro de coisa nenhuma e proclamava que eles, os novos, é que estavam a fazer coisas diferentes e interessantes. Nessa época Sérgio chegou a escrever, a pedido do próprio Zeca, uma letra para “Maio, maduro Maio” mas o autor de “Grândola” esqueceu-se e a letra acabou por ir parar às mãos de José Mário Branco que lhe deu um arranjo original.
            Zeca, entretanto, foi-se, deixando um lugar (ou vários lugares?) vagos na música popular portuguesa. Ninguém poderia nem pôde preenchê-lo mas o mestre tinha razão. Os novos souberam estar à altura, partindo cada um para a sua aventura pessoal.
            A aventura de Sérgio foi, continua a ser, imprevisível. Forçado pela ditadura, partiu para Paris, onde compôs as suas primeiras canções, influenciado pela “chanson française” mas também pelo rock e pela pop que chegavam a França com rapidez vindos do outro lado da Mancha. Com a edição de “Os Sobreviventes”, em 1971, logo seguido, no ano seguinte, por “Pré-Histórias”, ambos gravados em França, a MPP tomava novo rumo.
            A partir daí Sérgio Godinho cresceu. Mais do que o país, que parecia minguar. A costela política à qual era impossível fugir nesses tempos de luta, de quem decidira lutar, estava evidentemente presente nos discos, mas o panfleto era ofuscado pelo outro lado. O lado de dentro de canções que falavam do lado de dentro das pessoas.
            Sérgio inventou personagens e situações que se tornaram reais na nossa imaginação, encontrando eco e refractando-se nas vivências pessoais de cada um. Falou do país com ironia, algumas vezes com sarcasmo, desenfiando-lhe o barrete, mas falou sobretudo dos pequenos e grandes dramas dos seus habitantes, tantos deles errantes, tantos deles abandonados, tantos deles perdidos nas contradições de uma sociedade também ela contraditória. Com humor e ternura. As palavras foram atrás. Bem como os álbuns: “À Queima-Rupa” (1974), “De Pequenino se Torce o Destino” (1976), “Pano Cru” (obra prima absoluta da música portuguesa, 1978), “Campolide” (1979), “Canto da Boca” (1980), “Coincidências” (1983), “Salão de Festas” (1984), “Na Vida Real” (1986), “Aos Amores” (1989), “Escritor de Canções” (um dos grandes discos ao vivo de sempre da MPP, 1990), “Tinta Permanente” (1993), “Domingo no Mundo” (1997). Todos indispensáveis. Mosaico e caleidoscópio. Espelho e punhal. Luz e sombra. Confessionário e palco de teatro. Holofote e bastidores. Quarto e sala de estar.
            Conhece-se o talento de Sérgio para fazer as palavras cantarem. É essa uma das marcas do seu génio. A maneira como consegue tornar o português numa língua tão “cantabile” como o italiano. Se José Mário Branco é o arranjador por excelência, o manipulador de músicas e ideias que carrega sobre o si o peso do drama de ser português e o peso das palavras que podem matar, Sérgio é o observador-jogador que não se deixa tocar. Talvez por isso a sua música e as suas palavras permaneçam hoje tão vivas e atuantes como sempre. Porque Sérgio as solta, insuflando-lhes vida própria. José Mário Branco usa as palavras para falar. Sérgio Godinho deixa que elas falem por si.
            “Sou um músico. E na música, englobo as palavras – nesse aspeto sou um poeta; englobo o estar num palco – e nesse aspeto sou um cantor; e sou também um compositor, porque também faço melodias e ritmos a partir de coisas que vou escolhendo. Um músico usa tudo, as palavras, o palco, não consigo separar… diz de si próprio Sérgio Godinho. As palavras falam por si.
            Os próximos dias 2, 3, 4 e 10 serão, portanto, uma vez mais, os “primeiros dias do resto das nossas vidas”. É por isso que a última etapa da carreira de Sérgio Godinho é sempre a primeira.




ARTES | sexta-feira, 13 outubro 2000

01/09/2014

Sérgio Godinho - Lupa




Y 15|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas

SÉRGIO GODINHO
Lupa
Ed. e distri. EMI - VC
8|10

            Os arranjos de Nuno Rafael (Despe & Siga) e Hélder Gonçalves (Clã) explicam em grande parte a modernidade que continua a transparecer da obra de Sérgio Godinho, uma dos clássicos da moderna música portuguesa, mas não explicam tudo. “Lupa”, como o anterior “Domingo no Mundo”, revela uma música e um sentido poético aberto aos novos tempos onde a atualidade crítica de temas como “Benvindo sr. Presidente”, “Maçã com bicho (acho eu da praxe)” e “Na prisão” se harmoniza com a intemporalidade de “Dancemos no mundo”, “Visita guiada” e “A última sessão”, e as estratégias de sampling desafiam o jogo de palavras cruzadas dos poemas. Feitas as contas e interiorizada cada uma destas canções que continuam, como sempre, a falar de cada um de nós e do seu autor como atores de uma tragicomédia universal, destapemos sem receio a Caixa de Pandora que é também a “caixa negra dos amores” de “A última sessão” onde Sérgio se confirma como encenador das músicas cantadas pela emoção.

20/08/2014

Através da lente [Sérgio Godinho]



Sons
20 Outubro 2000

Sérgio Godinho observa as canções do seu novo álbum à lupa

Através da lente

            “Lupa” é Sérgio Godinho “vintage”. Excelentes canções vestidas de forma superlativa por Nuno Rafael, dos Despe & Siga, e Hélder Gonçalves, dos Clã. Depois de “Domingo no Mundo” o autor de “Pano Cru” regressa em força, numa demonstração de que o seu veio criativo está longe de se esgotar. Se ele descobriu ou não o elixir da eterna juventude, ´´e irrelevante. Os efeitos são visíveis nas novas histórias que conta. Observadas pelo próprio à lupa.

            Bíblias de um deus ateu“(É que) em matéria de amor/Estamos sempre adolescendo”

            A ideia de utilizar discos antigos de vinilo riscados foi do Nuno Rafael. Há uma memória. Parece que as coisas vêm de outro passado. É uma canção forte que explana um bocado o que são os meus temas, sobretudo em relação à vida e ao amor. Fala de renovação. Achei piada explicar o significado das palavras “androceu” e “gineceu”. Nota-se na juventude um fenómeno de simplificação, sobretudo ao nível da leitura. A imagem, a televisão, tirou-lhe espaço. Por outro lado, fico surpreso com o grau de liberdade destas gerações mais novas. Liberdade criativa, de diversidade e de interesse por outras culturas, depois de se ter passado primeiro por uma espécie de “vale tudo”. Mas esta canção, embora fale dos festivais de Verão, não é só sobre a juventude. Seja qual for a idade que tenhamos, como eu digo na letra, em matéria de amor, estamos sempre adolescendo.

            Benvindo Sr. Presidente“Soubera eu que o senhor vinha/E com certeza não me tinha/Apanhado na cozinha”

            Canção satírica. Uma crítica ao poder e à mediatização do poder. Sem os “media”, o poder e os políticos não são nada. E não são só as idas aos mercados do Paulo Portas [risos]. São todos. A canção fala, por um lado, do tipo que é obrigado – os portugueses são bem educados… - a receber bem o político, embora a mulher tenha ido embora e esteja desempregado, e, por outro lado, do papel que são obrigados a fazer os políticos, quase sempre artificial. Quem quiser que enfie a carapuça!
            Em termos musicais, tem os sons do cortejo que se vai afastando, com o ladrar dos cães, uma espécie de remate cacofónico.

            Dancemos no mundo“Separam-nos crimes/Separam-nos cores/A noite é de horrores”

            Mistura géneros, com um refrão um bocadinho “retro”, idílico, embora seja uma canção mais pesada do que parece. Fala das separações dos amantes. A primeira imagem veio de uma reportagem que li sobre um casal formado por um palestiniano e uma israelita. Também podia ser um branco e uma negra. O título esteve para ser “Fronteiras”. Uma utopia sobre o sonho de podermos estar juntos. Os corpos existem, simplesmente há a intolerância religiosa, os “fatwas”, os credos, as cores, os crimes que separam…

            Maçã com bicho (acho eu da praxe)“Mas há quem ache/Graça à praxe/É divertida (hi-hon)/Lição de vida (ão-ão)”

            É uma crítica, e na primeira pessoa! Gosto dos estudantes, já fui várias vezes convidado para a queima-das-fitas, mas rituais celebratórios como as praxes, em que a humilhação funciona como processo iniciático, chateiam-me! É o riso considerado como valor absoluto, quando o valor absoluto não é o riso, mas o humor. Eu aqui até uso um bocado as mesmas armas, zurro e ladro…

            Na prisão“Porque há horas tão velozes/E semanas infinitas?”

            Já cantei na penitenciária. Mas gostaria de poder um dia cantar esta canção numa prisão. É uma coisa que me toca muito, sei como são as prisões por dentro… É uma canção de alguém que se sente irmão dos que estão presos. Uma série de vinhetas sobre o que é estar preso – para além de tudo o que eu possa denunciar, sobre as condições horríveis das prisões portuguesas. Ainda por cima para pessoas que não deviam ir lá parar, presas por razões ridículas, como o consumo de drogas. A justiça portuguesa é dos setores em que estamos longe de viver uma situação satisfatória. É um monstro, uma hidra que não pára de crescer. Corta-se de um lado e cresce do outro. É assustador. Os encobrimentos, os favorecimentos, a lentidão… Para mudar é necessária a coragem que falta numa situação de corporativismo.

            Estou com os azuis“I’ve got the blues/Estou com os azuis/Salvé! Tê/Salvé! Rei dos Ruis”

            Uma homenagem a uma parceria. Nem sabia que havia este tributo ao “Ar de Rock” quando fiz isto. É um “gag”. Uma canção despreocupada em forma de blues. Gosto de parcerias, de vozes que se confundem. Eu, além de já ter trabalhado com o Milton [Nascimento], por exemplo, faço parcerias comigo mesmo… No sentido em que procuro encontrar a minha outra voz…

            Bom prazer“Amanhã, bom prazer eu ponho/No que faça do que hoje sonho”

            Uma canção que eu já andava a cantar ao vivo, embora com uma versão muito simples, à guitarra. Também já tinha sido gravada para a Filipa Pais. Esta nova versão foi trabalhada pelo Nuno Rafael e ganhou uma nova vida. Os ambientes mudaram…

            Visita guiada“Cada qual sabe de cor/(Ninguém tem nada com isso!)/Em que ponto de que dor/Se arrisca a cauda na estrada”

            Canção sobre o amor, sobre as circunstâncias do amor. O amor e as suas “atrocidades”, “felicidades” e “sacaneidades”. Mostra as maneiras como as pessoas se amam…

            É nosso, o S. João“Mas se houver um dia/Em que a gente/Negue tudo intimamente/E se preste à mais perdida confusão”

            Nem sequer sou do FC do Porto; sou do Sporting, embora tenha uma costela salgueirista. Não tenho uma imagem muito conotada com o Porto, apesar de ter escrito o “Porto aqui tão perto”. E peguei no “Carteiro”, do António Mafra, que era lá do Norte. A melodia é uma marcha franca que depois o Hélder transformou em algo mais. Já não vou ao S. João há anos, mas gosto da maneira de estar das pessoas do Porto. A canção celebra a comunhão entre elas, numa noite especial que não devia ser de exceção mas algo para viver sempre. Ainda o desejo de utopia.

            A última sessão“Vimos todos o filme de rajada/Sempre de olhos postos no desfecho/Do happy-end, eu nem sequer me queixo/Só que a vida é mais emaranhada”

            Teve um primeiro arranjo, mas depois chegámos à conclusão de que estava demasiado espesso, que a canção perdia simplicidade. Tem uma frase que é um bocado o resumo de tudo, a “caixa negra dos amores” que esteve mesmo para ser o título da canção. São duas personagens que estão a ver um filme onde não vai haver desgraças e de repente a realidade começa a interferir. Não é um final pessimista. É apenas a vida que é mais emaranhada…