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14/08/2016

Mensagens trazidas pelo vento [Songwriters no feminino]

Pop Rock
5 de Fevereiro 1992

MENSAGENS TRAZIDAS PELO VENTO

Vozes, vidas, tentações. De mulheres que no passado abriram caminho ao testemunho das gerações posteriores de “singer-songwriters”. Cada qual a seu modo, ajudaram a libertar o universo feminino do “ghetto” cultural em que se encontrava à entrada dos “sixties” e a dignificar o seu discurso. Algumas não desistiram. Volvidas três décadas, tudo parece de novo fazer sentido.


            JONI MITCHELL

            Não se pode dizer que tenha uma sensibilidade propriamente feminina. Pintora, compositora e letrista de mérito, na sua obra concentra-se uma visão por vezes elíptica que, se por um lado tem recolhido os louvores da crítica, por outro é de molde a manter à distância os apetites das massas consumidoras, pouco recetivas ao “living on nerves and feelings” que caracteriza a cantora. Bob Dylan, Fairport Convention, Judy Collins, Tom Rush, Nazareth (!), Gordon Lightfoot, Johnny Cash e Crosby, Stills & Nash gravaram canções suas. Começou na folk (“Clouds”, “Ladies of the Canyon” e “Blue”, os álbuns mais representativos), passando pelo jazz (“Hejira”, “Mingus”) e pelo experimentalismo eletrônico com incursões étnicas (“The Hissing of Summer Lawns”), para desembocar numa linguagem pessoalíssima, entre a ironia, o simbolismo e a auto-crítica. Dela se costuma dizer que possui uma voz “gelada” e um estilo vocal com um ritmo e métrica únicos, capazes das maiores ousadias formais. “Night Ride Home”, editado no ano passado, assinala a fase de amadurecimento do seu gênio, agora apto a comunicar com o gosto do grande público.

            CARLY SIMON

            Impressiona pelos lábios, grandes e carnudos, e pela pose “sexy” evidenciada nas capas dos discos. O que não quer dizer que não saiba cantar. “You’re so vain” granjeou-lhe a popularidade que um talento razoável e uma sábia escolha de ângulos fotográficos e anatómicos com que tem sabido gerir esse talento conseguem manter na “crista da onda”. Pelo menos enquanto o corpo der para tanto. Casou com James Taylor e marcou pontos em “hits” como “Nobody does it better” (acreditamos) e “Coming round again”, das bandas sonoras de um episódio de James Bond e de “Heartburn”, respetivamente. Contratou, para o elenco de um dos seus “clips”, o ator Jeremy Irons e um mecânico de automóveis. A equipa dos Brooklyn Dodgers elegeu-a como mascote. “Body and Soul” define de algum modo a sua maneira de ser e a maneira como se entrega à arte. Mais “body” do que “soul”, diga-se, em abono da verdade.

            CAROLE KING

            Nasceu em Brooklyn, mas nenhuma equipa local a elegeu como mascote. Isto de misturar música e deporto tem que se lhe diga. A idade também não ajuda. Carole vai nos 50, idade em que é de bom tom privilegiar o lado mais artístico da coisa. Do seu currículo de “cantora-compositora” idónea constam façanhas como ter servido de musa inspiradora a Neil Sedaka, ainda nos anos 50, em “Oh Carole” (a musa gravaria pouco depois a resposta, em “Oh Neil”), três casamentos e um “hit” meteorológico oferecido à sua ”baby sitter” Little Eva, “It might as well rain until September”. Bandas que os nossos pais recordam com saudade, como os Drifters, Chiffons e Herman’s Hermits copiaram-lhe com alguma frequência o estilo. Foi só em 1970 que Carole King passou a andar nas bocas do mundo (ao contrário de Carly Simon, que se presume tenha andado por outras partes), graças a “Tapestry” e à célebre canção “It’s too late”, com 14 milhões de exemplares vendidos. Como Joni Mitchell, Carole King faz parte do lote de artistas pioneiros que, nascidos em plena era da Tin Pan Alley e com publicações na “Brill Building”, acrescentaram o estatuto de “intérprete” ao de “compositores”.

            LAURA NYRO

            No auge da sua criatividade deu pouco nas vistas, talvez porque na sua música houvesse algo de excessivo que atemorizava o auditor. Álbuns como “New York Tendaberry”, “Christmas and the Beads of Sweat” e “Gonna Take a Miracle” são autênticos mergulhos no inferno e demonstrações de um estilo vocal entre o intimismo desesperado e gritos de agonia que lhe valeram, pelo menos, o apreço dos incondicionais de Janis Joplin. Retirou-se da música para se dedicar à pesca, numa aldeia de Massachusetts. Quando regressou, já não era a mesma. Dos tormentos de antanho sobravam réstias de uma síntese inusitada de “jazz”, “soul” e “variedades”, perdida no deserto redutor das patetices “middle of the road”.

            SANDY DENNY

            Uma hemorragia cerebral provocada pela queda de uma escada pôs um fim precoce àquela que foi uma das grandes vozes, se não mesmo a maior, do movimento a que se convencionou chamar “folk revival”, em Inglaterra na passagem da década de 60 para a seguinte. Simon Nicol, guitarrista dos Fairport Convention, banda à qual o nome de Denny ficará para sempre ligado, quando a ouviu pela primeira vez em audição, comparou-a a um “copo lavado entre um lavatório de louça suja”. “What we Did on our Holidays”, “Unhalfbricking” e o lendário “Liege and Lief” constituem testemunhos comoventes do seu génio. Antes, Sandy Denny ajudara a lançar a banda rival Strawbs, de Dave Cousins. “Who knows where the time goes?”, perguntava nessa altura. Ninguém sabia. Com os Fotheringay, ao lado de Ashley Hutchings e Trevor Lucas, seu futuro marido, gravou o álbum homónimo por muitos considerado um marco do folk-rock britânico. A solo, “The North Star Grassman and the Ravens”, “Sandy”, “Like and Old Fashioned Waltz” e o registo ao vivo “Rendez-vous” reforçam a imagem de uma sensibilidade inquieta capaz de transformar em gema cintilante cada balada a que a sua voz dava corpo, fosse um tradicional inglês ou um “standard” de jazz. Passados três anos sobre o regresso, em 1975, aos Fairport Convention, com “Rising for the Moon”, a tragédia resolveu dar-lhe ouvidos e abrir-lhe as portas do céu.


Nota: este texto complementa o artigo de Luís Maio “Feminino plural”

29/12/2014

Com a tranquilidade no olhar [June Tabor]



DESTAQUE

ENTREVISTA COM JUNE TABOR, QUE CANTA HOJE À NOITE NO CCB

COM A TRANQUILIDADE NO OLHAR

SERÁ A TERCEIRA APRESENTAÇÃO AO VIVO EM PORTUGAL DE JUNE TABOR, UMA DAS VOZES E FIGURAS MAIS MARCANTES DA MÚSICA POPULAR BRITÂNICA DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS. COMEÇOU PELA FOLK, ARRISCOU O PUNK, GOSTA DE FLIRTAR COM O JAZZ E É DETENTORA DE UMA CARREIRA IMACULADA. “A QUIET EYE” É O SEU MAIS RECENTE DISCO. UM DISCO “HAUNTING”, “FANTASMAGÓRICO”, COMO ELA DIZ.

JUNE TABOR nasceu em Warwick, Inglaterra, no último dia do ano de 1947. Ao longo da década de 60 e da primeira metade dos 70, viveu, como todas as cantoras inglesas da sua geração, um pouco apagada na sombra de Sandy Denny. A nobreza e a absoluta ausência de concessões da sua música acabaram, porém, por impô-la como uma das maiores cantoras das Ilhas Britânicas.
Embora o seu nome esteja ligado sobretudo à música tradicional, são frequentes as incursões pelo jazz e pelos compositores contemporâneos. Já gravou com os punk-folkers Oysterband e atuou ao lado dos Albion Band e dos Fairport Convention. Colaborou com Nic Jones, Martin Carthy, Peter Bellamy, Savourna Stevenson e Maddy Prior, formando com esta última o grupo Silly Sisters. Nos últimos anos, a sua música ganhou um apuro formal e uma elegância inultrapassáveis que nos álbuns se traduzem numa quase fantasmagoria.
            June Tabor, que já atuou duas vezes em Portugal, afirmou uma vez que “os nossos problemas seriam resolvidos se o mundo fosse governado por jardineiros… os verdadeiros, claro”. June é um desses jardineiros que semeia a terra com as sementes de outro mundo.
            Apresentar-se-á em trio com Huw Warren, no piano, e Mark Emerson, no violino e viola de arco.
            PÚBLICO – Durante anos consecutivos foi a vencedora crónica na categoria de “melhor cantora” nos prémios da revista “Folk Roots” que, finalmente, resolveu instituir um prémio especial de carreira só para si. Sentiu-se arrumada numa gaveta?
            June Tabor – Esse concurso… É sempre bom quando se ganha. Fica bem no currículo… Mas a responsabilidade também aumenta. Acabou por ser do meu interesse e da revista ter sido tomada essa decisão.
            P. – Ao fim de quase 30 anos de carreira, já não tem nada para provar?
            R. – Ao mundo, decerto que não. A mim, provavelmente, sim… Quando nos dirigimos aos outros, são importantes as suas opiniões sobre a imagem de mim própria que procuro transmitir. Mas quando tentamos provar alguma coisa a nós próprios, o caso muda de figura. Neste caso sou o mais acérrimo dos críticos. Os níveis de qualidade que imponho a mim própria são mais exigentes do que qualquer pressão que possa vir do exterior.
            P. – Ainda sente essa pressão de cada vez que entra em estúdio para gravar um novo álbum?
            R. – Sem dúvida! Os nervos são uma coisa necessária. E a adrenalina… Às vezes os nervos surgem sem razão aparente. É preciso acreditarmos em nós próprios para conseguirmos ultrapassar estas fases. Eu consigo-o quase sempre.
            P. – Os seus discos são todos bons. Se calhar as pessoas têm curiosidade em saber quando dará um passo em falso…
            R. – … E espero nunca dar! Mas a verdade é que quando se termina um disco, está feito, já não se pode mudar nada. Fica escrita a versão definitiva e é possível ser-se julgado de uma maneira diferente daquela que se gostaria. É difícil dizer qual é a versão definitiva de uma canção. Em princípio qualquer coisa que fica gravada, em geral, nunca é tão boa como numa apresentação ao vivo. Gravar um disco é uma atividade estranha, artificial. Depois, o dinheiro para o fazer é limitado, a não ser que se seja famoso e se possa ficar fechado anos num estúdio. No caso da folk, não costuma haver muito dinheiro e o tempo em estúdio é limitado o que torna problemático captar a essência de uma canção. Às vezes, por sorte, consegue-se… De resto, todo o processo de apresentação de um disco é artificial, um exercício efémero num caminho que é a vida inteira. Não será a fórmula mais sincera de todas…

“Cantora folk é um pouco redutor”

            P. – Gostaria de ser considerada a primeira dama da folk?
            R. – Não seria verdade. Tanto canto canções folk como outras que não o são. Gostaria que me encarassem como uma cantora de canções fortes que conta histórias fortes, venham elas de onde vierem. “Cantora folk” é um pouco redutor…
            P. – Mas a verdade é que metade dos temas que fazem parte do seu novo álbum, “A Quiet Eye”, são tradicionais…
            R. – Sim, serão 50 por cento, mas mesmo essas não são interpretadas de uma maneira tradicional.
            P. – Ainda a propósito de “primeiras damas”, o som de álbuns como “Angel Tiger”, “Against the Streams”, “Aleyn” ou “A Quiet Eye” tem a mesma qualidade espectral de um disco como “Once in a Blue Moon”, de Lal Waterson com Oliver Knight ou dos mais recentes trabalhos de Norma Waterson…
            R. – Espectral? Bem, eu ainda aqui estou deste lado do telefone! (risos). Mas sei o que quer dizer, a minha música tem, de facto, essa qualidade fantasmagórica (“haunting”). No trabalho de produção é muito importante descobrir o som específico de cada voz. O som das vozes de Norma e Lal tem essa qualidade.

Letras que contem uma boa história

            P. – Qual o papel de Huw Warren, que há anos faz os arranjos para as suas canções, nesse processo?
            R. – Funcionamos cada vez melhor um com outro, é uma aprendizagem mútua. Primeiro escolho as canções com base nas letras e faço um primeiro esboço do modo como acho que devem ser interpretadas e do tipo de instrumentação que deve ser usada. Digamos que aprendo a cantar a canção, só depois, já em conjunto, é que decidimos qual vai ser o acompanhamento. Em princípio cada canção é interpretada ao vivo duas ou três vezes até chegar à forma certa. No caso de “A Quiet Eye” tudo isto demorou bastante tempo antes de Huw escrever as partituras para a orquestra.
            P. – Essa é outra das questões levantadas pelo disco. Li uma crítica negativa ao modo como a secção de metais (não) ligava com a sua voz, chamando aos arranjos “música de casino”. Não partilho desta opinião, mas gostaria de ouvir o seu comentário.
            R. – Toda a gente tem direito a fazer as críticas que quiser mas é óbvio que não concordo. Música de casino? Há sempre alguém à procura de poder dizer mal de qualquer coisa. Essa é a forma mais reles de deitar abaixo, de denegrir o que considero ser um trabalho esplendoroso a todos os níveis, instrumentação, interpretação, arranjos, escolha de reportório. Estou-me absolutamente nas tintas para as pessoas que fazem esse tipo de afirmações, são opiniões que valem pouco mais que zero! Fiz-me entender?
            P. – Completamente! Pessoalmente os arranjos para metais fizeram-me lembrar – e, utilizando o seu termo – os arranjos “esplendorosos” de “Anthems in Eden”, de Shirley e Dolly Collins, um clássico. Muito mais que o trabalho exaustivo com instrumentos de sopro dos Brass Monkey…
            R. – Adoro esse álbum mas nem sequer me lembrei dele na altura das gravações. Mas gosto da comparação! Os Brass Monkey são outra coisa, os nossos arranjos usam sobretudo as surdinas, segundo técnicas muito próximas do jazz. Pouca gente reparou nisso…
            P. – O longo tema “The writing of Tipperary/It’s a long way to Tipperary” é um dos destaques de “A Quiet Eye”.
            R. – É épico. Sempre gostei deste tema mas não sabia qual a melhor maneira de o cantar. Decidi-me finalmente como resultado desta minha primeira colaboração com elementos da Creative Jazz Orchestra.
            P. – Richard Thompson, Maggie Holland e Nic Jones, todos ligados à folk, estão presentes com composições em “A Quiet Eye” e são escolhas óbvias, mas é a primeira vez que canta Ewan MacColl, em “The first time I ever saw your face”…
            R. – Uma personalidade tremenda e um grande compositor. Mas apesar de admirar quase todas as suas canções não há muitas que se adaptem a mim. É algo de subjetivo.
            P. – Afirmou há pouco que escolhia sempre as canções a partir das letras.
            R. – Sim, tudo o resto é secundário. Procuro letras que contem uma boa história ou que contenham uma sugestão visual forte, com economia de palavras. O máximo de coisas ditas num mínimo de espaço. Canções que façam sentir e pensar.

JUNE TABOR
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, hoje, às 21h30
Bilhetes entre 1500$ e 4000$


AS QUATRO FASES DA LUA

ASHES AND DIAMONDS, 1977
Primeira obra-prima. O álbum do “escândalo”, onde June Tabor, purista das puristas, utiliza um sintetizador. Canções “a capella” alternam com arranjos instrumentais belíssimos, como “Now I’m easy”, “The earl of Aboyne” e “Cold and raw”. E “Lisbon”, balada que narra o encontro amoroso, no Renascimento, de uma portuguesa com um marinheiro inglês, no porto de Lisboa. Quarto crescente.

AQABA, 1988
Deslumbrante. Nesta altura já June Tabor passeava a voz e o talento por músicas de outras paragens. É o disco de apresentação de Huw Warren, em quem a cantora descobre o parceiro ideal. A voz parece pairar no éter, criando um ambiente de religiosidade. June cobre-se com o manto da noite. Lua cheia.

AGAINST THE STREAMS, 1994
Juntamente com o anterior “Angel Tiger”, é um álbum de depuração que descobre o ponto de equilíbrio: com um mínimo de meios, o máximo de emoção. Ainda a continuação de um ciclo, eternamente reaberto, de regresso à música tradicional. Uma noite de luar banhada pelo espírito da paz. Quarto minguante.

A QUIET EYE, 2000
Um manto de negrume adensa-se sobre esta voz, cada vez mais grave, de uma das maiores cantoras inglesas vivas. É um disco essencialmente “folk” onde cada balada é transformada num “standard” para a eternidade. Do exotismo “world” de “Pharaoh” ao “tour de force” folky “The writing of Tipperary/It’s a long way to Tipperary”, que recupera os ambientes do fabuloso “Ashes and Diamonds”. Lua nova.


UMA GERAÇÃO NA SOMBRA

SANDY DENNY dominou o panorama das vozes femininas folk em Inglaterra durante uma década, desde a sua estreia discográfica com os Strawbs, em 1967, até ao seu álbum a solo de despedida, “Rendez-Vous”, de 1977. No ano seguinte, uma hemorragia cerebral provocada pela queda de umas escadas na casa de um amigo privou o mundo de uma voz que sempre viveu ensombrada pela tragédia.
            Nestas condições era difícil a qualquer outra cantora folk inglesa, por maiores que fossem as suas capacidades, sobressair na sombra que era todo o espaço que Denny deixava às suas “rivais”. June Tabor faz parte desse grupo de cantoras originárias do circuito folk inglês dos anos 60 que lutava por um lugar ao sol. Curiosamente, o seu primeiro registo discográfico, “Silly Sisters”, surge em 1976, ou seja, numa altura em que a carreira de Denny se aproximava do ocaso e numa união de esforços com Maddy Prior, então nos Steeleye Span, outra das cantoras que também sempre lutara por se destacar do brilho ofuscante da antiga vocalista dos Fairport Convention.
June Tabor e Maddy Prior, ambas consideradas expoentes da folk britânica (não esqueçamos que a competição também foi sempre feroz com a vizinha Irlanda que, em matéria de “marketing”, tem sabido apresentar as suas melhores vozes embaladas com o irrecusável rótulo de “celtic”… não estavam, porém, sozinhas, nesta luta pela emancipação.
Nomes como Jacqui MsShee, dos Pentangle, Shirley Collins, Anne Briggs (uma das mestres de June) ou, mais ligadas ao folkrock, Bridget St. John, Gay Woods (da primeira formação dos Steeleye Span aos quais regressou recentemente), Linda Thompson (ex-mulher de Richard Thompson), Beverley Martyn (ex-mulher de John Martyn) ou Polly Bolton, dos Trees, surgiam com alguma regularidade na página de folk do jornal “Melody Maker”, pela pena de Colin Irwin, mas apenas as duas primeiras, Jacqui e Shirley, conseguiram atravessar de forma ativa e marcante as duas décadas consequentes.
Além destas, havia uma papisa: Norma Waterson, que debutara no seio de uma estranha família de cantores amantes da tradição rural inglesa e das danças “morris”, os The Watersons, hoje reavaliados como a raiz comum. A sai irmã Lal, já falecida, e o seu atual marido, Martin Carthy, o “Dylan inglês”, como lhe chamam, faziam igualmente parte desse coletivo cuja importância nunca é demais destacar.
Mas Norma nunca se preocupou em sair do anonimato. Foi preciso esperar até ao final do milénio para o seu nome ser dignificado, através de dois álbuns a solo que são outras tantas obras-primas da folk, junção perfeita dos veios mais antigos com uma atitude que não poderia ser mais contemporânea: “Norma Waterson” e “The Very Thought of You”, qualquer deles considerado pelo PÚBLICO como dos melhores dos respetivos anos.
Sem Norma, sem June, sem Maddy, sem Shirley e, indubitavelmente, sem Sandy, não haveria futuro. Mas elas existiram. E uma herança inestimável é transportada hoje por jovens como Eliza Carthy (na foto), menina-prodígio, cantora e violinista, filha de Martin Carthy e Norma Waterson, Kate Rusby ou Jo Freya (ex-Blowzabella).


ARTES | sexta-feira, 15 setembro 2000

03/08/2014

Feitas as apresentações [Reedições]



23 Junho 2000
REEDIÇÕES

Feitas as apresentações…

            “An Introduction to…” é uma série de divulgação do fundo de catálogo da editora Island, com ênfase numa década, os anos 70, em que esta rivalizava, sobretudo em matéria de artistas ligados à música progressiva, com a Harvest e a Vertigo. “Way to Blue” é um bom cartão de visita da obra de Nick Drake. Além de uma seleção de temas extraídos da sua discografia oficial, inclui duas canções de “Time of no Reply”, álbum de demos e versões alternativas editado em 1987, “Time of no reply” e “Black eyed dog” (8/10).
            Sandy Denny é apresentada através de “Listen Listen”. Sandy, também hjá desaparecida, foi uma espécie de polo feminino de Drake. Era melhor cantora do que compositora e os seus extraordinários dotes vocais podem ser apreciados quer nos Fairport Convention quer na sua discografia a solo composta por quatro álbuns, dos quais são extraídas as canções da presente coletânea: “The North Star Grassman and the Ravens”, “Sandy”, “Like an Old Fashioned Waltz” e “Rendezvous” (8/10).
            Voltamos a ouvi-la em “What we did on our Holidays”, dos Fairport Convention, título que com alguma batota reproduz o do segundo álbum da banda. “Fotheringay”, o clássico “Who knows where the time goes” (uma das interpretações clássicas de Denny), “Farewell, farewell”, Tamlin” e “Walk awhile” são algumas das canções escolhidas para a apresentação da rainha das bandas de folk rock, responsável por álbuns fenomenais como o já citado “What we did on our Holidays”, “Unhalfbricking”, “Liege and Lief”, “Full House” e “Babbacombe’ Lee” (8/10).
            John Martyn, o tal da voz parecida com a de Nick Drake (de quem era amigo), mostra-se em “Serendipity”. A coletânea bem poderia centrar-se exclusivamente em “Stormbringer”, com Beverley Martyn (o álbum seguinte da dupla, “The Road to Ruin”, infelizmente não figura), e nos três fabulosos trabalhos a solo, “Bless de Weather”, “Solid Air” (obra-prima absoluta deste músico autor de uma original fusão de jazz, pop e folk) e “Inside Out” (um clássico do jazz folk). Tudo o que veio depois é apenas interessante (6/10).
            Dos Traffic, onde pontificava a voz “soul” de Stevie Winwood, é passada em revista a sua obra em “Heaven is in your mind”. Gravaram dois álbuns magníficos, “Mr. Fantasy” e “John Barleycorn must Die” e um interessante “The Low Spark of High Heeld Boys”. Começaram por ser praticantes de uma fusão de jazz e blues tingidos de psicadelismo (“Mr. Fantasy”), passaram para o jazz rock e acabaram por estiolar num “Adult Orientated rock” enjoativo. A coletânea não faz distinções de qualidade… (6/10).
            John Cale, anunciado, entre outras coisas, como “iconoclasta”, “pensador”, “compositor clássico”, “selvagem do rock ‘n’ rol”, “músico esquizofrénico profissional”, “cyber punk” e “pai”, está bem representado em “Close Watch”. Bastaria a inclusão de “Heartbreak hotel” e “Fear is a man’s best friend” para o recomendar aos que ainda ignoram as suas atividades de terrorista. (8/10).
            Passe-se ao lado de “Walk in my Shadow”, dos Free, banda de hard-rock que se notabilizou por ter lançado o hit “All right now” que nem sequer figura na presente coletânea. Os apreciadores de riffs de guitarra não perderão em deitar um ouvido… (5/10).
            Finalmente, Julian Cope é apresentado por “Leper Skin”, que tem a seu favor incluir dois lados B de singles (reunidos em “The Followers of Saint Julian”), de permeio com temas extraídos da sua discografia compreendida entre 1986 e 1992, dos álbuns “Saint Julian”, “My Nation Underground”, “Peggy Suicide” e “Jeovahkill”. Rock e baladas/manifestos desvairados de um músico que faz das pedras a sua profissão. Sejam elas de LSD ou do templo megalítico de Stonehenge. (7/10).

26/11/2010

Droga, loucura, morte

Sons

19 de Março 1999

Droga, loucura, morte

Toda a gente sabe que a principal causa de mortalidade entre a população rock é a droga. Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Sid Vicious e uma quantidade de outras estrelas rock (Tim Buckley, Gram Parsons, Tommy Bolin, Andy Gibb, Billy Mercia, dos New York Dolls, Paul Gardiner, dos Tubeway Army...) morreram devido à mesma praga, a droga. Bastaria esta realidade para desencorajar os mais novos de alguma vez pegarem numa guitarra eléctrica ou numa bateria. Porque o rock é o caminho mais curto para a droga e, de onde se depreende, para a morte. O rock, como a droga, mata. Mentes mesquinhas garantem que, sem a droga, músicos como os acima citados jamais teriam feito a música (quiçá, perniciosa) que fizeram. Não fora assim e sabe-se lá se não teríamos hoje elementos produtivos, úteis à sociedade, excelentes empregados de escritório ou agentes de seguros, talvez mesmo advogados de sucesso.
Mas não é só a droga a mãe de todos os males. Outras causas existiram que levaram desta para melhor nomes mais ou menos gloriosos da história do rock. Desastres de viação (Alan Barton, dos Smokie, Marc Bolan e Steve Curry, ambos dos T. Rex, Clarence White, dos Byrds, Harry Chapin, Eddie Cochran, Jerry Edmonton e Rushton Morebe, dos Steppenwolf, os rockers Johnny Kidd e Dickie Valentine; inclusive de bicicleta, como no caso de Nico) e de avião (Buddy Holly e Ritchie Valens, ambos no mesmo voo, Patsy Cline, Jim Reeves, Otis Redding, Jim Croce, Ronnie van Zant e Steve Gaines, dos Lynyrd Skynyrd, Paul Jeffreys, dos Cockney Rebel, Rick Nelson, John Denver...), overdose, queda de escadas (Sandy Denny), consumo desenfreado de substâncias ilícitas, enforcamento (nada mais nada menos do que cinco – Ian Curtis, Peter Ham, dos Badfinger, Phil Ochs, Michael Hutchence, dos INXS e Richard Manuel, dos The Band), ingestão desmesurada de psicotrópicos, hipnóticos, ácidos, antipiréticos e afins, enfim toda uma série de acidentes trágicos que puseram fim a tantas e tão promissoras carreiras.
Quanto ao álcool, pode gabar-se de ter acabado com as vidas de Bon Scott (dos AC/DC), John Bonham (Led Zeppelin), Brian Jones (Rolling Stones), Clyde McPhatter (Drifters), David Byron (Uriah Heep), Gene Vincent e Keith Moon (The Who). Uma anorexia nervosa levou Karen Carpenter, dos Carpenters. A sida fez o mesmo a Freddie Mercury, dos Queen. Frank Zappa e Bob Marley não resistiram ao cancro. De Divine pode afirmar-se que comeu demais.
Há mortes mais estúpidas do que outras. John Lennon, baleado à porta do seu apartamento em Nova Iorque, é um exemplo deste tipo de estupidez letal. Al Jackson (dos Booker T and the MGs), Peter Tosh, um dos heróis da soul music, Sam Cooke e Marvin Gaye foram igualmente atingidos por tiros. Os dois primeiros, por gatunos. Cooke, por uma mulher que perseguia um pretenso violador. Gaye sucumbiu a um tiro disparado pelo seu próprio pai. Michael Mensom, dos Double Trouble, foi atacado por um “gang” de adolescentes que o regaram com gasolina e lhe pegaram fogo. Vivian Stanshall, do grupo cómico Bonzo Dog Doo Dah Band, e Steve Marriott, dos Small Faces, morreram em incêndios nas respectivas casas. Keith Relf, guitarrista dos Yardbirds, caiu electrocutado. Johnny Ace, um obscuro baladeiro norte-americano dos anos 50, perdeu a vida numa jogada infeliz de roleta russa. Graham Bond, músico inglês de jazz e blues dos anos 70, foi atropelado pelo metropolitano. O rocker Johnny Burnette morreu num acidente de pesca.
Mas há o reverso da medalha. Morrer cedo, para um músico, significa a sua mitificação, nalguns casos a santidade. Na condição, bem entendido, de a circunstância ser devidamente acompanhada por uma apropriada campanha promocional e pelo apoio dos “media”. Morrer é, nesta profissão, o caminho mais curto para o sucesso. Para a indústria a morte possui ainda o atractivo adicional de diminuir vitaliciamente as despesas com o artista e de garantir muitos e bons ganhos a longo prazo, graças à sábia administração de todo o material gravado que se conseguir sacar do caixote do lixo e guardar em arquivo para poder dedicar-se ao lançamento de futuras reedições com “material inédito” do falecido, constituído por demos, versões alternativas, ensaios, conversas de cama e outros rasgos de génio antes incompreensivelmente escondidos do público.
Claro que as vítimas sabem o que fazem e no que se metem. Acontece que muitas não aguentam. Ian Curtis, por exemplo, ou Kurt Cobain (cujo quinto aniversário da morte, em Abril próximo, está já a ser devidamente preparado) não aguentaram a suprema dor de estar vivo, as pressões do “show business” e os fracassos pessoais. No seu caso a aura de “românticos” assenta-lhes bem. Como, de resto, a todos os suicidas: Nick Drake, Peter Ham e Tom Evans, dos Badfinger, Terry Kath, dos Chicago, Marge Ganser, das Shangri-Las, Del Shannon, Paul Williams, dos Temptations, Richard Manuel, dos The Band e Phil Ochs.
A outros, porém, a morte apanhou-os de surpresa, sem aviso prévio. Esses não tiveram tempo de preparar o testamento, vítimas que foram da estupidez do destino. Talvez por isso, como no caso de Sandy Denny, que morreu ao cair de uma escada, a entrada na galeria dos mitos demorasse mais e necessitasse de requerimento, ficando em primeiro lugar para a eternidade a música, no lugar dos episódios, mais ou menos agitados e escandalosos, da vida de “star”.
Seja qual for, porém, a circunstância da morte, ficará para sempre a dúvida do que poderia ter sido a vida e obra dos que se foram antes de tempo. O que seriam hoje, se fossem vivos, Brian Jones, Jimi Hendrix, Jim Morrison? Conseguiriam eles sobreviver ao seu próprio passado ou, pelo contrário, teriam feito as pazes com a existência, aproveitando as suas benesses? Seriam ainda génios malditos ou estariam a jogar golfe com Alice Cooper e Phil Collins, a fazer duetos com Pavarotti ou a compor bandas sonoras para filmes de Walt Disney? Ninguém sabe. Ficaram a música e as lendas. Sobretudo a música, como única verdade absoluta capaz de sobreviver ao seu criador. E, paradoxalmente, à aura, tantas vezes mistificadora, criada em torno dela pela morte, essa entidade assustadora que chegará inevitavelmente para nos confrontar com o nada. E com o que sobrevive para além dele. Para os registos de necrofilia ficam as fichas de algumas das mortes mais bem documentadas. Fichas secas. Como a morte.


“Too old to rock’n’roll, too young to die”
(título de um álbum dos Jethro Tull)


Hank Williams (1923-1952)

Sofrendo de uma dor crónica nas costas, Hank procura alívio no consumo sistemático de analgésicos, tornando-se rapidamente viciado. Começa a falhar concertos, chegando aos recintos atrasado e bêbedo. No último dia do ano de 1952 a estrela da country sente-se mal durante uma viagem de carro e é transportado para um hotel de Knoxville, no Tennessee, onde chega já inconsciente. É chamado um médico que lhe ministra uma injecção com uma mistura de morfina e vitamina B. No dia seguinte, Williams é transportado, ainda inconsciente, de novo de automóvel, para o Ohio, numa viagem atribulada. Um polícia de trânsito obriga o condutor a parar por excesso de velocidade e pergunta, com ironia, se o músico está ou não vivo. Williams é conduzido finalmente a um hospital, na Virgínia, onde é declarado morto.


Buddy Holly (1936-1959) e
Ritchie Valens (1941-1959)

Dia 3 de Fevereiro de 1959. A meio de uma digressão, a “Winter Dance Party Tour”, Buddy Holly decide animar o estado de espírito da sua banda e recusa viajar num desconfortável autocarro. Aluga um voo “charter” num pequeno aparelho Beechcraft Bonanza que o deveria levar de Clear Lake, Iowa, a Moorhead, no Minnesota. Com ele seguem Richie Havens (que ganhara esse direito no jogo da moeda ao ar com o guitarrista do grupo. Tommy Alsup, e o disc-jockey Big Bopper, autor de “Chantilly lace” (que consegue o lugar por troca com Waylon Jennings). O avião descola às duas da madrugada no meio de uma tempestade de neve e cai pouco tempo depois, embatendo contra um muro e matando todos os que seguiam a bordo. O acidente serviu de inspiração ao “hit” de 1972 de Don McLean, “American pie”.


Jimi Hendrix (1942-1970)

Jimi Hendrix era um génio da guitarra. Com ou sem a ajuda da heroína, a sua Fender Stratocaster falava, gritava, explodia e incendiava-se num dos discursos virtuosísticos mais inovadores de sempre deste instrumento. Uma acumulação de excessos que se estendia à sua vida privada. Passa o dia 17 de Setembro com a sua namorada, Monika Dannemann. No dia seguinte, de manhã, ingere alguns comprimidos para dormir e, algum tempo depois, Monika repara que ele se está a sentir mal. Tenta acordá-lo. Em vão. No hospital diagnosticam uma mistura mortal de álcool e barbitúricos.


Janis Joplin (1943-1970)

Os Kozmic blues da cantora que engolia garrafas inteiras de whisky nos concertos deixam de se ouvir a 4 de Outubro. Janis é encontrada morta num quarto do Landmark Hotel, em Hollywood, com marcas recentes de agulha no braço. “Overdose” de heroína. Tinha agendado a gravação das partes cantadas de “Buried alive in the blues”, “enterrada viva nos blues”. Anos antes proferira a seguinte frase, quando da morte do presidente Eisenhower, impedindo, deste modo, a publicação de uma foto sua na capa da “Newsweek”: “Depois de resistir a 14 ataques de coração, tinha logo de morrer na minha semana. Na MINHA semana!”


Jim Morrison (1943-1971)

Circunstâncias da morte: o mistério e a dúvida ainda hoje permanecem cerrados em torno da morte do carismático cantor dos Doors. Há mesmo quem afirme que ele continua vivo, retirado da vida pública, e que a sua “morte” não passaria de um embuste destinado a camuflar o seu desaparecimento. No dia 5 de Julho o empresário dos Doors, Bill Siddons, chega a casa de Jim, em Paris, onde o músico se tinha exilado, e encontra a Pamela, a sua namorada da altura, já com o caixão selado e uma certidão de óbito assinada por um médico francês. Causa da morte: ataque de coração motivado por “overdose” de heroína. O túmulo no cemitério de Père Lachaise, onde Jim Morrison se encontra enterrado (ou não se encontra, de acordo com a teoria dos que afirmam que ele está vivo...) tornou-se, ao longo dos anos, num lugar de culto.


Marvin Gaye (1939-1974)

Problemas de impostos, conflitos com a editora, a mulher que o engana com Teddy Pendergrass e o consumo desregrado de cocaína provocam em Marvin, autor de “What’s going on” e “Sexual healing”, uma paranóia crescente que o leva a desconfiar de toda a gente e a amontoar armas em casa. Na manhã de 1 de Abril de 1984, o pai, alcoólico, força a entrada em casa do músico, que o considera um intruso. A mãe de Marvin separa os dois mas Marvin Gaye sénior volta à carga e dispara um primeiro tiro de revólver que atinge o filho no peito. Volta a disparar já com ele caído no chão.


Nick Drake (1948-1974)

“Não consigo pensar em quaisquer palavras. Não sinto emoções sobre coisa nenhuma. Não quero rir nem chorar. Sinto-me dormente. Morto por dentro.” São declarações de Nick Drake, confrontado com uma eterna depressão e a dificuldade em arranjar letras para o seu álbum de estreia, “Five Leaves Left”. Na manhã de 25 de Novembro de 1974 o poço engoliu-o de vez. A mãe, Molly Drake, dirige-se ao quarto de Nick para o acordar. Tarde de mais. Nick sucumbira a uma dose exagerada de sedativos. No gira-discos ainda rolava um dos concertos brandeburgueses de Bach. À cabeceira descansavam as páginas de “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus.


Tim Buckley (1947-1975)

O autor das fantasmagorias “Happy Sad” e “Starsailor” corria velozmente atrás da noite. Encontra-a na noite de 29 de Junho. Tim dirige-se, meio ébrio, a casa de um “amigo”, Richard Keeling, à procura de heroína. Richard, apanhado prestes a drogar-se, reage com alguma agressividade e prepara-lhe uma dose com uma mistura de heroína e morfina, desafiando-o: “Toma, fica com tudo!” Tim aceita o desafio, convencido de que se trata apenas de cocaína e snifa o pó todo de uma vez. Morre no hospital de Santa Mónica. Longe das estrelas com que costumava sonhar. O seu filho e digno sucessor, Jeff Buckley, morre a 29 de Maio 1997, afogado nas águas do porto de Mud Island, a ouvir “Whole lotta love”, dos Led Zeppelin. Em “You and I”, canção do seu segundo álbum, canta: “Ah, a calma que existe por baixo daquele rio selvagem e envenenado.”


Marc Bolan (1947-1977)

A 16 de Setembro, o ex-hippie e rei do glam rock sai de carro com a sua amiga Gloria Jones e alguns amigos para ouvir música no clube Speakeasy e jantar no restaurante Morton. Ele e Gloria arrancam de regresso às 4 da manhã no Mini 1275 GR roxo de Gloria. Uma hora depois o automóvel esbarra contra uma árvore, numa curva a seguir à ponte de Queen’s Ride, no Sudoeste de Londres. Gloria fica gravemente ferida. O fundador dos Tyrannosaurus Rex morre.


Sandy Denny (1941-1978)

Cair de uma escada abaixo é uma morte pouco gloriosa, mas foi esta a maneira que o destino encontrou para pôr fim à vida da maior voz de sempre da folk inglesa. Sandy sofreu o acidente no dia 21 de Abril, na casa de um amigo. Partiu a cabeça e entrou imediatamente em coma, falecendo pouco tempo depois já no hospital, vítima de uma hemorragia cerebral, sem voltar a recuperar a consciência. O desastre aconteceu quando ela e o marido planeavam mudar-se para os Estados Unidos, para um relançamento da carreira. A morte da cantora dos Fairport Convention e dos Fotheringay aconteceu nove meses depois do nascimento da primeira filha do casal, Georgia.


Sid Vicious (1957-1979)

Sid Vicious, para falar verdade, parece nunca ter estado vivo. Da anarquia punk dos Sex Pistols, lado a lado e aos encontrões, com Johnny Rotten, às convulsões a solo e ao romance infectado com o seu grande amor, Nancy, tudo na existência de Sid apontava para o descalabro e para o niilismo. Nancy é encontrada no dia 12 de Outubro de 1978 na casa de banho de sua casa, encharcada numa poça de sangue com uma faca de mato a seu lado. Sid admite à polícia ter sido ele o assassino. É acusado de assassínio em segundo grau. Desesperado com a morte de Nancy, Sid é preso por causar desacatos num clube nocturno, mas sai em liberdade no dia de audiência. Vai a correr para o apartamento da sua mais recente namorada, Michelle Robinson, injectar-se. Segue-se nova dose, com material mais puro, o que, a seguir a um período (forçado) de abstinência (na prisão), não costuma dar bons resultados. Sid entra em colapso. Mas volta a si e adormece. Acorda a meio da noite para mais um chuto. O último. Alguém disse de Sid Vicious que “cultivava uma imagem de antagonismo”. Ele preferia cantar uma versão de uma canção de Frank Sinatra e dizer: “This is my way.”


John Lennon (1940-1980)

Depois de conseguir, na manhã de Dezembro de 1980, um autógrafo de Lennon, Mark David Chapman, que viajara de Havai para Nova Iorque só para ver o seu ídolo, permanece seis horas em frente ao apartamento do ex-Beatle aguardando a sua chegada. Lê “Uma Agulha no Palheiro”, de J. D. Salinger, enquanto espera. Quando Lennon chega e sai da sua “limousine”, Chapman dispara sobre ele uma sequência de sete tiros. Lennon morre sete minutos depois. Chapman é preso e o seu livro confiscado. Numa das páginas escrevera: “Esta é a minha declaração!”


Ian Curtis (1956-1980),
Phil Ochs (1940-1976),
Peter Ham (1947-1975)


Enforcaram-se os três. Ian Curtis, líder da mais famosa banda do eixo neurodepressivo de Manchester dos anos 80, os Joy Division, enrola a corda ao pescoço imediatamente antes de um concerto. A morbidez das letras que escrevia, juntamente com a epilepsia e a depressão crónica de que padecia contribuíram para o desenlace fatal.
Phil Ochs, cantor de protesto, autor do hino anti-Vietname dos anos 60, “I ain’t marching”, sofre, numa viagem a África, um misterioso ataque de um estrangulador que o leva às portas da morte. Como consequência as suas cordas vocais ficam danificadas para sempre, facto que acentua a depressão de que já sofria. Não resiste, enforcando-se na casa de sua irmã.
No caso de Peter Ham, o insucesso de vendas dos álbuns dos Badfinger, depois de uma fase inicial marcada por canções de êxito, aliado a dissensões no seio do grupo, levam à rescisão de contrato com a editora e ao aparecimento da depressão. Problemas familiares fizeram o resto. Ham põe ponto final na amargura e enforca-se.


Bob Marley (1945-1981) e
Peter Tosh (1944-1987)


Em finais dos anos 80, num dos primeiros concertos de uma digressão pelos Estados Unidos, Bob Marley tem uma síncope em pleno palco. A digressão é cancelada e a Marley é diagnosticado um cancro no cérebro e nos pulmões. Morre sete meses mais tarde vitimado pela doença.
Peter Tosh, outra das lendas do reggae, é atingido a tiro por um gatuno quando este tenta assaltar a sua residência na Jamaica.


Karen Carpenter (1950-1983)

Aos 31 anos a cantora da dupla pop The Carpenters tomava laxantes e remédios para a tiróide, como resultado de tensão em demasia (provocada pela carreira e pela vida familiar), a par da dependência de drogas. Pesa nessa altura 35 quilos. Após algumas tentativas de tratamento e um internamento, parece melhorar e aumenta o seu peso para 41 quilos. No princípio de 1983, a 4 de Fevereiro, Karen faz uma visita à mãe, Agnes. Conversam sobre roupas. No dia seguinte a mãe encontra-a desfalecida no quarto. A autópsia menciona como causa da morte uma paragem cardíaca provocada por anorexia nervosa.


Nico (1940-1988)

Chamavam-lhe a deusa da lua. Nico, modelo, actriz e, acidentalmente, cantora, era um espectro. A sua figura de diva do outro mundo que assombra o álbum da banana dos Velvet Underground esfumou-se como a sua vida, entre drogas, alternando entre excitantes e calmantes, uma insónia permanente e uma carreira que todos manipulavam, sem, todavia, penetrarem na essência do mistério. A 18 de Julho, Nico, na altura a viver com o poeta John Cooper Clarck, embate com a sua bicicleta numa árvore e sofre uma hemorragia cerebral. A deusa da lua encontrou a morte sob o sol de Ibiza, onde estava a passar férias.


Fredy Mercury (1946-1991)

É uma das primeiras vítimas mediáticas da sida, doença que o cantor dos Queen apenas admite ter 24 horas antes do desenlace fatal, através de uma declaração pública: “Desejo confirmar que fui considerado seropositivo e que tenho sida. Achei correcto manter esta informação privada, até agora, para proteger a intimidade dos que me rodeiam. Contudo, chegou a altura de os meus amigos e fãs saberem a verdade. Espero que todos se juntem a mim e aos meus médicos contra esta terrível doença.”


Kurt Cobain (1967-1994)

Uma incompatibilidade crónica com a vida conduz o músico dos Nirvana à heroína, juntamente com a sua mulher, Courtney Love. Uma primeira tentativa de suicídio, por “overdose” voluntária, definida pelo casal como “um acidente”, falha. Os restantes elementos do grupo convencem Kurt a tentar a desintoxicação numa clínica. Kurt acede mas foge de imediato para Seattle deixando um bilhete a Love: “Lembra-te, aconteça o que acontecer, amo-te.” A 5 de Abril de 1994 Kurt barrica-se em casa. Deixa a carteira aberta no chão, com a carta de condução à vista, para facilitar a identificação. Injecta-se com heroína, encosta o cano de uma espingarda à testa e dispara. O corpo é descoberto apenas dois dias e meio mais tarde por um electricista que trabalhava em sua casa.


Jerry Garcia (1942-1995)

Consumidor compulsivo de cocaína, heroína, ácidos (recebera a alcunha de “Capitão Trips”) e tabaco (três maços por dia), Jerry Garcia tinha uma obsessão pela morte, chamando ao seu grupo Grateful Dead e enchendo as capas dos discos com caveiras. Após várias tentativas frustradas de desintoxicação (uma delas deixa-o em coma) faz um derradeiro esforço para se libertar da heroína numa clínica da Califórnia. Durante uma visita de rotina um advogado do centro encontra o músico já sem vida na sua cama, vítima de um ataque de coração.


A reportagem era complementada pelo seguinte texto, assinado por Luís Maio:

Outras Mortes Nada Naturais

Por abuso de drogas e álcool
1968 – Frankie Lymon
1969 – Brian Jones (Rolling Stones)
1973 – Gram Parsons (Byrds e Flying Burrito Brothers)
1974 – Robbie McIntosh (Average White Band)
1976 – Paul Kossoff (Free)
1978 – Keith Moon (The Who)
1979 – Tommy Bolin (Deep Purple)
1980 – Tim Hardin
1980 – John Bonham (Led Zeppelin)
1981 – Mike Bloomfield
1986 – Phil Lynott (Thin Lizzy)
1987 – Paul Butterfield (Butterfield Blues Band)
1988 – Andy Gibb (The Bee Gees)
1995 – Rob Stinson (Replacements)
1998 – Rob Pilatus (Milli Vanilli)

Por acidente
1960 – Eddie Cochran, num desastre de carro
1967 – Otis Redding e cinco membros da banda de suporte Bar-kays, num desastre de avião
1969 – Martin Lamble (Fairport Convention)
1971 – Duane Allman (Allman Brothers), num desastre de moto
1977 – Quatro dos Lynyrd Skynyrd, num desastre de avião
1985 – Rick Nelson, num desastre de avião e D Boon (Minutemen) num desastre de carro
1998 – Sonny Bono (Sony & Cher), num acidente de sky

Por assassínio
1964 – Sam Cooke
1974 – Harry Womack
1987 – Scott La Rock
1995 – Selena
1996 – Tupac Shakur
1997 – Notorious BIG

Por suicídio
1954 – Johnny Ace
1973 – Paul Williams (Temptations)
1976 – Phil Oachs
1979 – Donny Hathaway
1986 – Richard Manuel (The Band)
1997 – Billy McKenzie (Associates)
1997 – Michel Hutchence (INXS)
1998 – Wendy O. Williams (Plasmatics)

Esta lista inclui celebridades tão estimadas quanto as antes referidas, mas também artistas de culto, uns já esquecidos, outros sobretudo lembrados depois da morte. Também não pretende ser exaustiva, mas apenas acrescentar-se à primeira lista. LM

Informações compiladas dos livros “Dead before their time”, de Diana Karanikas Harvey e Jackson Harvey (ed. Metrobooks, 1996) e “Eles morreram cedo demais”, de Tony Hall (ed. Edinter, 1996).