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14/08/2015

Ainda O Senhor dos Anéis




"Ainda O Senhor dos Anéis" (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
26.12.2001 150350

Já vi o filme três vezes (sessão para a imprensa, ante-estreia e sessão com a família):

Não é, concordo, um grande filme, longe disso. Valerá, na minha opinião, um 7/10.
Agora, estão de facto espantosos os cenários e as personagens. Como fanático da trilogia (que li, até á data, duas vezes) achei impressionante a forma como o Peter Jackson consegiui transpor para o filme as paisagens, locais e personagens do livro. Moria, Rivendell, Lothlórien, a fabulosa composição dramática de Ian McKellen/Gandalf, parecem ter saído directamente da imagiação do leitor (pelo menos, da minha...) para o ecrã.
A partir de agora, sempre que voltarmos a ler "Lord of the Rings", é provável que Frodo, Gimli, Legolas, Sam Gamgee, etc, passem a aparecer na nossa cabeça com os rosto do filme.

Agora, o que filme não tem, nem poderia ter, é toda a fabulosa riqueza de pormenores do livro, já para não falar no próprio e inconfundível estilo literário de Tolkien (o humor, a ironia, a ternura...).
O episódio de Tom Bombadil foi obliterado (percebe-se porquê. Não tem propriamente acção, sendo antes uma das muitas efabulações filosóficas que estão espalhadas por "LOR") mas a perda maior do livro para o filme, será a inexistência (no filme) da dimensão "tempo", da "distãncia".

"LOR" tem um tempo (ou tempos...) próprio. A narrativa não é nunca linear. Depois, há as narrativas secundárias, que tanto podem ser a descrição de uma típica refeição hobbitiana, como uma anedota ou um cântico élfico. Mundos dentro de mundos.

E o segredo maior da escrita de Tolkien: A forma como consegue transmitir com uma intensidade quase sobrenatural, os sentimentos humanos (e não só...). Um épico, no sentido mais nobre do termo.

Peter Jackson, esse, fez o que pôde, e até não se saiu nada mal da tarefa...

saudações

FM

Folk, Los Hermanos, Lord of the Rings...




"Folk, Los Hermanos, Lord of the Rings..." (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
11.12.2001 160428

Não tenho aparecido aqui devido ao excesso de trabalho e à irritante lentidão do meu computador - é preciso justificar estas coisas, não vá aparecer logo alguém a falar em "desaparecimento"...

Tenho ouvido algumas novidades folk (no Y de 21/12 deverá sair um artigo com várias críticas).

Kepa Junkera ("Maren") - Folk bastante comercial, apesar da lista de convidados incluir gente como Hughes de Courson (ex-Malicorne), Ibon Koteron, vozes búlgaras, etc...
A produção normalizou-se, a própria execução instrumental de KJ parece ter estagnado num som mais "liso" e apelativo.

UXIA ("Danza das Areas") - Apenas consegui ouvir os primeiros três temas, todos execráveis. Música de variedades. Muitos convidados portugueses: Dulce Pontes, João Afonso, Filipa Pais...

KORNOG ("Kornog") - Este sim, vale a pena. O regresso em força nos anos 90 de uma banda bretã dos 80, pouco conhecida.

TARRAS - álbum novo na Topic. Folk rock leve, bem executado, entre um certo som "americanizado" e referências acústicas aos Magna Carta.

BRASS MONKEY - novo álbum (isto lembrar-me dos títulos, está quieto!) - excelente, como todos os álbuns anteriores deste grupo. Martin Carthy é o músico inglês mais importante das últimas décadas, já o escrevi e repito. O legado das ancestrais danças "morris" adaptadas com brilhantismo aos novos tempos. Os Brass Monkey são uma espécie de Gaiteiros de Lisboa ingleses, passe a heresia (M. carthy começou a gravar no início dos anos 60...).

Também ouvi algumas coisas interessantes da editora Fono, húngara, Voltarei a falar destes discos quando os ouvir com mais profundidade.

Do Brasil:

Los Hermanos lançaram o álbum "Bloco do Eu Sozinho". Rock (por vezes pós-rock...) brasileiro (Moog + guitarras + secção de metais) que lembra de forma inequívoca o som dos Eels, introduzindo-lhes uma criatividade muito especial, em temas que passam pelo reggae, MPB mais clássica, punk e mesmo rock FM. A diferença está no talento do grupo para escrever boas canções. O tema inicial, então, "Todo carnaval tem seu fim", é daqueles que se colam ao ouvido e é impossível deixar de cantar!

CINEMA

Já vi o "Lord of the Rings"!!!!!!! Como fanático do livro, devo confessar que a adaptação desta primeira parte da trilogia ("A Irmandade do Anel") me satisfez. Falta a dimensão "tempo", da distância, mas os cenários e os personagens estão fabulosos. Falha maior: O desaparecimento do episódio do encontro na floresta com Tom Bombadil, a personagem mais enigmática de toda a obra (O Peter Jackson que, recorde-se, realizou o "Braindead", é capaz de ter achado esta parte demasiado "metafísica"...mas, tudo bem...).

FM
O desaparecido

16/05/2015

Um anel para todos dominar [O Senhor dos Anéis]



Y 21|DEZEMBRO|2001
capa|cinema

um anel para todos dominar

“Os hobbits, aquele povo baixinho, feiinho, barrigudo e peludo, que gosta de comer e de ficar calmamente à mesa, em grandes almoçaradas e jantares, mas que, quando as circunstâncias o exigem, em momentos de crise, se transfigura por completo, faz-me lembrar os portugueses…”.

Um adepto da Irmandade


O Senhor dos Anéis não é obra que se leia de ânimo leve.
Como um passe de magia, ela transforma a vida de quem lê. Terminada a leitura, fica a saudade, um novo olhar sobre o mundo e o desejo de converter os renitentes. Agora com o filme de Peter Jackson, a Irmandade ganha novos adeptos.

A Humanidade divide-se em dois grupos: o dos que leram “O Senhor dos Anéis”, com os “Monthy Python” e Giselle Bündchen uma das manifestações mais sublimes do génio humano; e o grupo dos que não (estão à espera de quê?).
Os que leram, podem comprovar que não estamos a mentir ao afirmar que a leitura da trilogia escrita por John Ronald Reuel Tolkien, entre 1936 e 1949, e cujo primeiro volume, “A Irmandade dos Anéis”, deu à estampa pela primeira vez em 1954, fez deles pessoas melhores. E os fez descobrir que o mundo pode ser um mundo melhor. E que o mundo da fantasia é tão ou mais real que o mundo físico.
Os que não leram – por teimosia, ou para contrariar a atitude missionária dos que, tendo lido, anseiam partilhar a epifania com os leigos – justificam o lapso tremendo, cofiando o bigode com ar sério ou ajustando a bainha da saia da maioridade, acusando a obra de Tolkien de se destinar às crianças.
Também se encontra a fação dos que, não conseguindo ultrapassar a barreira do volume I, introdução didática aos “hobbits” e aos seus usos e costumes que é uma espécie de ritual para distinguir os eleitos dos preguiçosos, desiste ao primeiro embate com a complexa iconografia e onomástica que Tolkien propõe no preâmbulo.
A estes grupos de resistentes, ou detratores, respondem os tolkienómanos fundamentalistas com um encolher de ombros e um olhar de desprezo. A ala mais conservadora, porém, tenta convencê-los, dispondo-se mesmo a ler-lhes em voz alta, se isso for necessário para fazê-los ver a luz.
“O Senhor dos Anéis”, ao contrário da história anterior de Tolkien, “O Hobbit”, não é uma obra para crianças. Ainda que a sua magia apenas possa ser apreendida por aqueles adultos que conservaram dentro de si a pureza (e a Fé) da criança. Encare-se, antes, esta imensa geografia de seres, lugares, linguagens e situações, nos antípodas desse outro tipo, mais negro, delineado duas décadas antes por H.P. Lovecraft, como a imersão na quintessência do Humano, aí onde apenas a imaginação, o humor e a intuição servem de bússola. É a demanda, a aventura perpétua (é facto assente: todos os que a leram sentiram no final uma nostalgia, a sensação de perda, fruto do desejo de que a aventura perdurasse para sempre…) cujo sentido vai da pequenez para uma dimensão cósmica. Com regresso a casa.

eterno retorno. Frodo, Merry e Pippin, mesmo Sam Gamgee, os quatro “hobbits” da “Irmandade do Anel”, cuja missão é a destruição do Um Anel no Monte da Condenação (e a vitória sobre o Mal, personificado por Sauron), vão crescendo, física e espiritualmente, aproximando-se gradualmente de uma natureza élfica, a mais nobre de “O Senhor dos Anéis” (aqui Tolkien retoma o ideário do Amor e da Gnose medievais…), à medida que a saga vai avançando. Ciclo de Cavalaria ou Demanda inversa do Graal, o Eterno Retorno de “O Senhor dos Anéis” é apenas aparente. Frodo e os restantes hobbits regressam a casa diferentes do que eram ao partirem. A adaptação à mesquinhez e à normalidade do dia-a-dia no Shire tornara-se impossível. Aos portadores do Anel nada mais restava senão embarcar na derradeira viagem que os levará, na companhia dos derradeiros elfos, a um mundo ainda mais distante, do outro lado do mar. O “Avalon” dos celtas. A “Ilha dos Amores” camoniana. O céu, enfim.
Existe nesta obra que muitos consideram “A Obra” literária do séc. XX, um itinerário (outra das delícias da leitura: seguir passo a passo, no mapa impresso nas primeiras páginas dos três volumes, as diversas etapas da viagem), exterior e interior. “Um mapa da fantasia que, por detrás, esconde o mapa verdadeiro da Inglaterra”, diz Tom Shippley, professor de filologia inglesa antiga, na Universidade de Leeds. Lê-la, com “L” maiúsculo, é seguir lado a lado com a Irmandade, resistir à fúria dos elementos nas altas encostas de Caradhras, lutar contra aranhas gigantescas na floresta Tenebrosa, enfrentar o terror inominável nos subterrâneos de Moria, naquele que será o episódio mais próximo das trevas Lovecraftianas, como este as efabuloou em “Nas Montanhas da Loucura”.
“O Senhor dos Anéis” obriga-nos a entrar e a viver no interior deste mundo. A partilhar os medos e as alegrias, os anseios e as dúvidas, os momentos de desânimo e os deslumbramentos, as pequenas cobardias e os atos de bravura de cada um dos elementos da Irmandade do Anel. Combatemos ao lado de Frodo e dos seus companheiros, os ferozes orcs e os horrendos trolls; ajudamos a derrubar, com o auxílio dos inenarráveis Ents, a torre de Saruman, o feiticeiro traidor, símbolo da racionalidade demoníaca.
Reaprendemos a olhar o mundo que nos rodeia com um olhar mais límpido e luminoso, a descobrir o véu ténue que separa o sonho da realidade e a vislumbrar o que se move do lado de lá e influencia o lado de cá.
Para Judi Dench, narradora do programa televisivo britânico “J. R.T.T. - A Portrait of John Ronald Reuel Tolkien”, realizado em 1992, no centenário do nascimento do escritor, “o livro ergue-se sobre velhos padrões de um desejo universal, de se querer um mundo mais rico, profundo e vivo do que o que Descartes nos deu. De desejar encontrar algo que não é magia, mas encantamento, no mundo que nos rodeia e que o mundo de Tolkien nos dá, numa base permanente, de modo que, ao fecharmos o livro, podemos olhar à nossa volta, e os nossos olhos mantêm essa imagem. Continuamos a ver esse mundo no mundo em que vivemos”.
Na introdução a “O Senhor dos Anéis”, Tolkien refere o facto de durante a escrita de “O Hobbit”, a obra que daria origem a “O Senhor dos Anéis”, ter tido “vislumbres de coisas mais elevadas, tanto para o bem como para o mal”. Quanto a isso, não tenhamos dúvidas. Sauron continua ativo, os seus feitiços a tornar espessas todas as coisas. O “Um anel para todos dominar, um anel para os encontrar/um anel para todos prender, e nas trevas os reter/na terra de Mordor, o reino das sombras” continua a exercer o seu poder e fascínio sobre os homens. “O Senhor dos Anéis” extravasa das folhas de papel para o coração do leitor, e de lá escorre para a confusão das cidades, redimindo os vícios de uma Humanidade apartada de si mesma, esquecida dos tempos em que foi grande, incapaz de se reconhecer nos feitos dos heróis.

a outra irmandade. A par da Irmandade dos Anéis, existe, espalhada pelos quatro cantos do mundo, uma outra Irmandade, a dos admiradores de Tolkien. Portugal não é exceção. O Y falou com dois membros dessa Irmandade, António Martins, 37 anos, professor do Ensino Básico, em Loulé, que ainda não viu o filme, e Pedro Laginha, 15 anos, estudante, que já viu, e “adorou”, a adaptação cinematográfica de Peter Jackson. António Martins já leu “O Senhor dos Anéis” duas vezes. Da primeira ficou o deslumbramento da descoberta de uma “paisagem fantástica” e, como acontece aos verdadeiros “crentes”, uma “imensa tristeza por acabar a leitura do livro e a vontade de continuar”.
A paixão pela Idade Média e o amor pela Natureza, sentidos desde sempre por António Martins, ajudam a explicar a sua predileção, entre todas as personagens da trilogia, pelos Ents, cuja ação é determinante na vitória final das forças do Bem contra os exércitos de Saruman.
“O ataque final ao Senhor das Trevas, por aqueles seres, meio animais, meio árvores… São eles que acabam por rebentar com a fortaleza e estoirar com as pedras. Na Natureza também é assim que as coisas acontecem, as armas humanas acabam por ser destruídas pelas forças naturais”.
Os hobbits são outros dos povos da Terra Média pelos quais este professor do Primário não esconde a sua admiração, descobrindo inclusive na sua compleição física e no seu perfil psicológico insuspeitas conotações… “Aquele povo baixinho, feiinho, barrigudo e peludo, que gosta de comer e de ficar calmamente à mesa, em grandes almoçaradas e jantares, mas que, quando as circunstâncias o exigem, em momentos de crise, se transfigura por completo, faz-me lembrar os portugueses…”.
Destaca ainda a dicotomia Tom Bombadil/Gandalf, outra das suas personagens favoritas: “Tom Bombadil tem poderes fantásticos, nada o afeta, é a eterna testemunha, o mais antigo de todos, tão velho, tão velho, mas apesar de tudo criança, que apesar de todos esses poderes não age, prefere brincar, achando que tudo são trivialidades. Gandalf, pelo contrário, usa a sua sabedoria e os seus poderes. Ainda não perdeu essa capacidade de achar que pode modificar o rumo dos acontecimentos”.
O regresso, muitos anos mais tarde, a “O Senhor dos Anéis”, para uma segunda leitura, “de enfiada, sem conseguir parar, no Metro, na casa de banho, à noite, antes de adormecer”, coincidiu com uma perspetiva já mais serena da obra. Além disso, depois do “choque” causado pela primeira, que terá durado cerca de “dois, três meses”, António tornou-se, como mandam as regras, um “fanático” do universo tolkeniano. “Fiquei escandalizadíssimo quando três ou quatro pessoas me disseram que começaram a ler aquilo e acharam chato (risos). Disse-lhes para insistirem…”. Já conseguiu converter a mulher, que após as resistências habituais, já vai no final do volume I, e “está a adorar”. Para este professor que gosta de passear pela serra algarvia, para contemplar de perto a Natureza, o “mundo imaginário” de “O Senhor dos Anéis” é “uma imagem de todos nós”: “Tolkien conseguiu agarrar nas pulsões mais íntimas da Humanidade”.
Foi através da mãe, que o aconselhou a ler o livro, que Pedro Laginha entrou neste mundo imaginário. Não se fez rogado e logo reparou que o “envolvia”. Leu “A Irmandade do Anel” em um ou dois meses. Seguiu rapidamente para o resto da trilogia. Teve pena de parar. O seu preferido é o volume II, “As Duas Torres”. Destaca a “variedade de raças e de místicas” e a “criatividade” das “descrições, dos calendários, dos cenários”. As suas personagens favoritas são Gandalf, Aragorn e Sam Gamgee. Identifica-se com Frodo. “Senti o mesmo que ele estava a sentir, a sua ansiedade”. Pedro é um dos felizardos que já viu o filme. Gostou. “Talvez falte uma coisa ou outra, como a cena do Tom Bombadil…”. A falha não será suficiente para desencorajar Pedro de ler os três livros outra vez.
“Então quando vi o filme, fiquei tão entusiasmado que ando a tentar convencer os meus amigos a lerem também”. São assim, os membros da Irmandade dos Admiradores de “O Senhor dos Anéis”

Música dos anéis [O Senhor dos Anéis]



Y 21|DEZEMBRO|2001
cinema|capa

música dos anéis

Lord of the Rings, do sueco Bo Hansson, é apenas um dos muitos discos inspirados na Terra Média criada por Tolkien, cujas fantasias literárias casaram bem com as drogas e as visões dos músicos dos anos 60 e 70.

A música está no cerne de cada linha de “O Senhor dos Anéis”. Descontando a dimensão wagneriana possível de descortinar na construção arquitetónica desta obra monumental, toda a escrita de Tolkien flui de forma musical. Tolkien, convém não esquecê-lo, foi professor de línguas antigas em Oxford, em particular de inglês medieval e do galês. Cada sílaba, a mais subtil entoação das palavras pronunciadas na antiga língua da Terra Média, nomeadamente o élfico, nas suas duas modalidades, o “quenya” e o “sindarin”, derivam de um estudo apurado, tendo o seu autor levado em conta não só a grafia como a musicalidade de cada termo.
Tolkien inventou toda uma geografia e uma História, da mesma forma que criou para elas uma linguagem original coerente, possuidora de uma gramática e etimologias próprias. Neste aspeto, é elucidativa a explicação sobre este processo dada pelo escritor, no programa televisivo “J.R.R.T. – A Portrait of John Ronald Reuel Tolkien” (realizado em 1992). “Quando escrevo, começo sempre pelos nomes”. Tolkien não só radicou o seu novo vocabulário em raízes etimológicas genuínas, como se deu ao cuidado de lhes conferir um grafismo e uma fonética mágicos que, de igual modo, entroncavam nas antigas civilizações célticas. De imediato reconhecemos em nomes da “língua antiga”, como Arwen, Beregond, Déagol, Dúnedain, Elberethgilthoniel, Éowyn, Gil-Galad ou Gwaihir, ora ressonâncias gaélicas ora do ciclo medieval arturiano. “A Elbereth Gilthoniel silivren penna míriel, o menel agalr elenath! Na-chared palan-díriel. O galadhremmin ennorath, fanuilos, le linnathon nef aear, sí nef aeron!”… Quem dominar a língua élfica, decerto entenderá…

pop e rock. Não se esgota, porém, na estrutura formal (nomes das personagens, lugares, etc) a música que em “O Senhor dos Anéis” se faz ouvir em todo o seu esplendor. Desde os constantes cânticos élficos (e os reinos dos elfos, como Rivendell ou Lothlorien são em si mesmos filigranas musicais…) aos encantamentos de Gandalf que atravessam a trilogia, passando pelo poema de Bilbo Baggins, a música confunde-se com a própria ação, numa imensa sinfonia em três andamentos cujo “finale” não poderia ser mais surpreendente…
Por tudo isto se compreende que “O Senhor dos Anéis2 tenha deixado marcas na música pop e no rock, em particular nas décadas de 60 e 70, quando o seu impacte foi maior. O onirismo ou realismo fantástico (ou fantástico real?) de Tolkien encontrou terreno fértil na imaginação e nos discos de não poucos músicos para os quais as drogas alucinogéneas, o Psicadelismo e, posteriormente, o Rock Progressivo, funcionavam como catalisadores de uma visão do homem e do mundo que os anos 80 pulverizaram nas engrenagens de uma máquina devoradora de sonhos.
Então, porém, a loucura e a desmesura ditavam as suas leis. Exemplo extremo de visionarismo (para muitos de totalitarismo…) e da emancipação linguística equivalentes aos de Tolkien, e o que mais longe foi ao pôr em prática um código musical e linguístico autónomo, deu-o o baterista e compositor Christian Vander, em França, na alvorada dos “sixties”, com o grupo Magma.
Vander, amante de Wagner, Coltrane e dos Van Der Graaf Generator (desse outro grande poeta e visionário chamado Peter Hammill), delineou o seu cosmos pessoal com sede no planeta Kobaia, conferindo-lhe, como língua própria na qual todos os discos do grupo haveriam de ser cantados, o kobaiano. Na história delirante saída da mente do músico francês, os maus da fita, que haveriam de invadir o planeta Terra, respondiam, no álbum de 1974, “Khöntarkösz”, pelo nome de Orks, clara alusão aos orcs de “O Senhor dos Anéis”. Curiosamente, Vander é hoje um dedicado estudioso de magia negra…
Quatro anos antes de os Magma prenderem o rock no seu anel-garra, o sueco Bo Hansson fora mais literal, ao gravar “Lord of the Rings”, súmula prog/jazzística que retratava algumas das situações da narrativa épica de Tolkien.
Os exemplos da incidência da obra de Tolkien na música popular sucedem-se: Jack Bruce chamou “To Isengard” (região onde se localizava a torre de Orthanc, a fortaleza de Saruman) a uma das faixas do seu álbum de 1969, “Songs for a Taylor”. Em 1970, os Camel incluíram “Nimrodel” no seu longa-duração, “Mirage”. “Lothlorien” é o título de uma das canções de “Ring of Hands”, álbum de 1971 dos Argent.
Já na época de confronto com o punk, Fish cortou a primeira sílaba a “Simarillion” (o genesis mitológico da Terra Média) e chamou ao seu grupo Marillion”.
Ainda no período de decadência do Progressivo para o Neo-Prog, apareceram os espanhóis Galadriel, a rainha dos elfos. Também espanhóis, os Amarok dedicaram uma suite do álbum “Canciones de los Mundos Perdidos” a “O Senhor dos Anéis”. A banda de hardrock Glass Hammer cultiva uma obsessão pela obra de Tolkien. Também “heavy bangers”, os Rivendell não escondem onde foram buscar inspiração para o seu nome. Na Alemanha, a eletrónica de contornos místicos caiu nas mãos do grupo Gandalf.
Mesmo o jazz foi sensível ao fascínio exercido por Tolkien. Músicos como o trompetista Don Cherry ou o vibrafonista Dave Pike compuseram dedicatórias a “O Senhor dos Anéis”.
Em Portugal, ainda na década de 70, Manuel Cardoso, guitarrista dos Tantra, assumiu, como alterego, Frodo, ainda que, neste caso, o formato da cabeça (monstruosa, em bico) da personagem não coincidisse em absoluto com a que Tolkien idealizara para o hobbit…
Refira-se, para terminar, o próximo projeto já anunciado por Rick Wakeman: um álbum intitulado “Master of the Rings”, inteiramente dedicado à temática em causa. É bastante provável que a este, Tolkien, se fosse vivo, não desse a sua aprovação…