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29/08/2016

Um "gwerz" para o milénio [Skolvan - 6º Festival Intercéltico do Porto]

POP ROCK
Quarta-feira, 5 Abril 1995

UM “GWERZ” PARA O MILÉNIO

Entre os vários nomes que vão estar presentes no Intercéltico os Skolvan são talvez os que melhor souberam estabelecer o compromisso entre a fidelidade às origens e a invenção de linguagens mais ajustadas à realidade dos tempos atuais. Com três álbuns no ativo, “Musique à Danser”, “Kerz Ba’n’ Dans” e “Swing & Tears”, este último considerado pelo POPROCK um dos melhores de 1994, a banda bretã promete figurar no quadro de honra do festival. A conversa com o acordeonista do grupo, Yann-Fañch Perroches, facultou-nos uma ideia mais clara sobre o estado em que se encontra hoje a música tradicional na Bretanha.

quais são as diferenças mais significativas entre uma “festoù-noz” (ou fest-noz”, abreviando), e as festas populares das outras reições de França?
            Yann-Fañch Perroches – A diferença essencial é a presença da música e da dança tradicionais. O objetivo de uma “fest-noz” é a dança. Ou seja, um baile. Nas outras regiões da França os bailes populares apenas conhecem as danças “modernas” (valsas, rock, etc) com orquestras que tocam os sucessos do momento, como variedades francesas ou internacionais. Este tipo de bailes também existe na Bretanha mas são mais raros. Muitas festas bretãs, religiosas ou mesmo casamentos, terminam em “fest-noz”. É de sublinhar a necessidade de que haja uma orquestra, cantores ou “sonneurs” para animarem uma “fest-noz”. Discos é que nunca, como acontece nos bailes vulgares. Uma “fest-noz” é ainda um lugar de convívio entre os músicos. O bar também é muito importante!...
            P. – À semelhança de outros grupos da Bretanha os Skolvan atuam tanto nas “fest-noz” como no círculo folk das cidades. Onde é que sentem mais prazer em tocar?
            R. – São ambos importantes. A “fest-noz” permite-nos comunicar com um público de dançarinos, logo, de conhecedores. A simbiose entre a música que tocamos e o prazer dos dançarinos é muito importante. Mas dar a conhecer a nossa música a outros tipos de público é igualmente interessante. Por outro lado os concertos são uma ocasião para tocarmos temas que não costumamos tocar nas “fest-noz”, como marchas ou determinadas melodias. Enfim, a “fest-noz” dá mais espaço à improvisação e à espontaneidade.
            P. – Depois do “boom” da música tradicional bretã desencadeado por Alan Stivell e Glenmor, nos anos 70, houve um interregno de quase duas décadas até ao aparecimento de uma nova geração de grupos como os Strobinell, Storvan e os próprios Skolvan. Mas enquanto a primeira vaga era bastante politizada, a nova parece ter sobretudo preocupações de ordem estética. Será que os músicos estão acomodados?
            R. – O que se passa é que não estamos habituados à situação política do país. A reivindicação é hoje mais subtil. É através da força da nossa música e da nossa cultura que reivindicamos. O Estado francês ainda não conseguiu asfixiá-las. Embora a necessidade de reconhecimento internacional o obrigue à concessão de algumas ajudas financeiras. Mas tem razão quando diz que o nosso percurso artístico é antes de mais (ou unicamente?) estético. Isto não significa que não possamos ser de certa forma militantes. Tocamos gratuitamente para escolas, na Bretanha e demos um concerto de solidariedade para com a Bósnia.
            P. – Os Skolvan mantêm uma postura diferente de grupos como os Bleizi Ruz, Ti Jaz ou le Gop, considerados de fusão. O que pensa deste tipo de opção?
            R. – Não somos juízes desses grupos. Mas, em geral, o resultado parece-nos bastante insuficiente, do ponto de vista estético, embora as experiências não sejam em si negativas. Creio que os Skolvan fazem também fusão, mas de uma forma talvez menos flagrante. Não queremos de modo algum transformar a essência da nossa música.
            P. – Declararam uma vez numa entrevista à “Trad. Magazine” (edição nº 94 de Set./Out. de 94), que “estava fora de questão transformar um ritmo ou um fraseado para a música soar como rock ou reggae”...
            R. – Ou, dito de outra maneira, nem pensar em mudar um ritmo, para parecer “reggae”... Mas se músicos de “reggae” quiserem trazer a sua música e confrontá-la com os nossos próprios ritmos, então tanto melhor! O resultado seria forçosamente música bretã, porque nós continuamos a tocar como antes. Em “Swing & Tears”, apesar do contributo de músicas diversas, como o jazz, o rock ou o reggae, todas as nossas danças, ritmos e pulsações são respeitadas. Eis a razão pela qual penso que os Skolvan são um grupo apreciado tanto pelos bons dançarinos como pelos “velhos” cantores e “sonneurs” tradicionais. Eles não têm a impressão de que a sua música está desfigurada embora, evidentemente, nós a tivéssemos “modernizado”.
            P. – Na mesma entrevista referem que a parte rítmica é o “ponto fraco” da música tradicional bretã...
            R. – Sim, mas apenas no sentido em que as percussões são muito pouco utilizadas. Está tudo por inventar. Tem havido poucas tentativas, salvo da parte dos bateristas de rock, mas essas não serão as mais convenientes para a subtileza dos nossos ritmos. Bateristas de jazz ou étnicos, indianos ou turcos, por exemplo, seriam bastante mais apropriados. Dito isto, no caso de “Swing & Tears”, o percussionista é Dominique Molard, um baterista bretão que toca numa “bagad” [banda de “cornemuses”, em bretão, “biniou” ou “biniou-kozh” (gaita-de-foles), bombardas e tambores, parente das “pipe bands” escocesas, por exemplo].
            P. – Na rapsódia “La banane das l’oreille”, falam de uma “tradição moderna”, o “Cercle circassien”, surgido recentemente nas “fest-noz”, referindo de passagem a Irlanda. Será algo parecido com a “irlandização” da música bretã?
            R. – Não tem nada a ver! O “cercle circassien” veio da Grã-Bretanha, pela via dos meios folk parisienses! É verdade que com alguma frequência o acompanhamento musical é constituído por “jigs” irlandeses, mas outro ritmo qualquer, desde que seja um 6/8, serve. Por exemplo, um dos temas mais populares é uma tarantela italiana. Estes “jigs” são em geral interpretados de forma caricatural, do ponto de vista rítmico. É com isto que nós nos divertimos um pouco no disco, tocando à maneira “rock” no primeiro tema, enquanto os dois últimos soam bastante “irish”.
            P. – Que técnica utilizam para trabalhar os diálogos, típicos dos “sonneurs”, no “biniou” e na bombarda? Estou a pensar no facto destes dois instrumentos serem tocados no grupo, pela mesma pessoa, Youenn Le Bihan...
            R. – Inspiramo-nos nas duplas de “sonneurs”, assim como nos cantores, mas apenas no espírito. O fraseado, as variantes, as improvisações do diálogo entre o “biniou” e a bombarda são reproduzidos por nós pelo “piston” [cornetim] ou o violino com o acordeão.
            P. – Quem é “Mme. Bertrand”, de quem o grupo utilizou um registo de voz, no tema “Gwerz Skolvan” e que volta a ser citada em “Tears”?
            R. – O nome dos Skolvan foi tirado diretamente da interpretação fantástica desse mesmo “gwerz” [forma de canção bretã] por Mme. Bertrand. É uma cantora mítica na Bretanha. Poucas pessoas a conheceram. Mas foi uma das maiores cantoras que a Bretanha alguma vez teve. Quisemos homenageá-la. Foi também uma maneira de mostramos o modo como nos inspiramos para fazer a nossa música. Os temas são em primeiro lugar escutados na sua forma mais despojada e depois arranjados de modo a chegarmos a algo tão elaborado como “Tears”.
            P. – Os Skolvan são tão sanguinários como o nome sugere [“Skolvan”, personagem terrífica...]?
            R. – Isso cabe a si decidir, depois das respostas que lhe dei...

21/07/2014

O círculo das "meigas" [Folk]



26 de Maio 2000
FOLK

O círculo das “meigas”

            Desde há alguns anos na vanguarda do movimento de renovação da música tradicional da Bretanha, os Skolvan assinaram em “Swing & Tears” um dos melhores álbuns folk do ano de 1994. Regressam com “Cheñchet’n an Amzer” (“Os Tempos Mudam”) e, de facto, algo mudou na música do grupo. Uma mudança que terá a ver com as profundas alterações que entretanto de processaram no seio da banda, com as saídas de Fañch Landreau e Yann-Fañch Perroches, respetivamente, no violino e no acordeão diatónico, e as entradas de três novos elementos, Dominique Molard (percussão), Loïg Troel (acordeão) e Bernard de Dréau (saxofone e clarinete), mantendo-se Gilles le Bigot (guitarra) e Youenn le Bihan (bombarda e “piston”). De banda que revolucionou o folk bretão, sem desvirtuar as suas origens, os Skolvan cederam desta vez terreno ao compromisso, resvalando nalguns temas para a feira popular e para um tom rockeiro que contraria e contradiz toda a evolução do passado. Ao lado de um irresistível “an dro” pop em quatro andamentos como “Arc’hwezh nevez”, a inclusão do “standard” “My favourite things” (de Rogers & Hammerstein, cantado na banda sonora de “Música no Coração” por Julie Andrews), um dos temas preferidos de John Coltrane, confirma a importância do novo soprador na música do grupo e, ao mesmo tempo, o desvio que poderá, ou não, conduzir os Skolvan ao caminho da fama. (Keltia, distri. Megamúsica, 7/10)

Se os Skolvan deram um passo à retaguarda, Patrick Molard (ex-Gwerz, especialista de vários tipos de gaitas-de-foles, das “uillean pipes” irlandesas à “biniou” bretã, passando pelas “highland” e “small pipes” escocesas) avança em “Deliou” ao encontro do futuro com os pés e a alma bem assentes na rocha, nos bosques e no mar da Bretanha. Rodeado de dois dos expoentes da música tradicional do seu país, o seu irmão e antigo companheiro nos Gwerz, Jacky Molard (violino, bandolim, guitarras, baixo e direção artística) e Jacques Pellen (guitarras), mas também de outro seu irmão, Dominique Molard (percussões) e Yves Berthou (bombarda), o gaiteiro bretão contou ainda com a colaboração de um dos “virtuosos” das “uillean pipes” da nova geração, o irlandês Mick O’Brien (de quem se recomenda a audição de “May Morning Dew”. Mas é outro dos convidados, a cantora búlgara Kalinka Vulcheva (da Rádio de Sófia e da formação Le Mystére des Voix Bulgares) que contribui para um dos momentos mais exaltantes de “Deliou”, no tema que lhe é dedicado, “Kalinka”, encontro tocante dos Balcãs com a Bretanha, mas também no tradicional da Bulgária que dá título ao álbum, diálogo sagrado da voz com as “uillean pipes”. É, de resto, a Bretanha na sua vocação mais universalista (como acontecia com o Alan Stivell, nos primórdios) que reencontramos ao longo deste álbum, seja na renovação e devoção às suas origens mais puras, seja no cruzamento com a Bulgária, ou com outros territórios centrados na espiritualidade céltica, como a Galiza, que Patrick Molard homenageia em “Ton Budiño”, marcha processional aprendida com o jovem gaiteiro Xosé Manuel Budiño e de “Ricardo Portela”, citação a um dos esteios da “gaita” galega, aqui na miscigenação de uma muiñeira com um “jig” irlandês. “Deliou” é, além do mais, um magnífico exemplo da música mais bela e profunda que pode sair do fole de uma gaita-de-foles. (Naïve, distri. Megamúsica, 8/10)

Os digníssimos Chouteira, da Galiza, perderam definitivamente um parafuso (devolvido, aliás, no interior da caixa…). Depois de “Ghuaue!”, a atenção voltou-se para a música do Norte de Portugal, nomeadamente para o Minho, ali mesmo ao lado. E se o álbum tem por título “Folla de Lata” não é caso para se dizer que foi preciso tê-la, para abrir com a nossa bem conhecida “Ai, ai, ai minha machadinha”… A lata tem sobretudo a ver com a utilização exaustiva de instrumentos de metal, nomeadamente uma tuba que, mais do que remeter para as experiências pioneiras de grupos como os Home Service e Brass Monkey, mostra que os Chouteira perderam algum tempo a ouvir os Gaiteiros de Lisboa, também eles adeptos da tradição colorida por sopros de metal. Se dúvidas ainda houvesse quanto a isto, elas desaparecem quando se verifica que o grupo português toca num dos temas de “Folla de Lata”, “O arvoredo”. Como os Gaiteiros, os Chouteira aprenderam a brincar com sons estranhos (“As sete mulheres do Minho”), ainda que a estrela da companhia seja ainda, e até ver, a voz da cantora Uxia Pedreira. (Do Fol, distri. Farol Música, 8/10)

Outra Uxia, bem mais conhecida dos portugueses, fez parte durante muitos anos dos Na Lua. Depois foram cada um para seu lado mas a separação fez bem aos dois lados. Primeiro à cantora, que se emancipou. O grupo demorou mais tempo a adaptar-se à situação mas se o álbum anterior, “Os Tempos Son Chegados”, já indicava uma total reavaliação de processos, o novo “Feitizo” coloca definitivamente o nome dos Na Lua na fila da frente dos grupos galegos mais importantes da atualidade. Com uma embalagem de luxo, “Feitizo” debruça-se sobre as histórias e lendas das “meigas” (feiticeiras) e outras mafarricas que povoam o imaginário da cultura galega tradicional. Curiosamente, também neste caso o processo de renovação passou por uma consulta ao folclore português, com três viras repescados do “Cancioneiro Minhoto” de Gonçalo Sampaio, além de uma versão da “Ronda dos Mafarricos” de José Afonso (de “Cantigas do Maio”). “As meigas chegan” e a música dos Na Lua só tem a ganhar com a chegada das feiticeiras, das fadas e do mistério. “Estas san cousas de encantamento, ir polo aire, vir polo vento”, cantam em “Fun polo vento”, antes da ronda das gaitas varrer a terra da lua com um furacão de alegria, em “Meigallo” e a voz da convidada Aloia Martinez, também ela com a transparência de uma fada, pousar “Para fazer un feitizo”. Que fez com que este álbum seja o melhor de sempre dos Na Lua. (Do Fol, distri. Farol Música, 8/10)