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19/12/2018

Sun Ra, o viajante astral


22 FEVEREIRO 2003
JAZZ
DISCOS

Sun Ra dirigiu a nave do “free jazz” em direção ao cosmos. E foi no cosmos, por altura do Saturno que orbitava em torno da sua cabeça, que assentou o seu arraial de amuletos, rituais e danças galáticas.

Sun Ra, o viajante astral

O jazz é como o xadrez. Até certo ponto do jogo, todas as jogadas estão estudadas e catalogadas. A partir daí, apenas os mestres conseguem inovar quando confrontados com o desconhecido. Avançar torna-se um risco. Sun Ra foi um daqueles músicos da história do jazz que, com alicerces na tradição, mais longe se conseguiram afastar dela. Líder de “big band” da linhagem de Fletcher Henderson, Sun Ra dirigiu a nave do “free jazz” em direção ao cosmos. E foi no cosmos, por altura do Saturno que orbitava em torno da sua cabeça, que assentou o seu arraial de amuletos, rituais e danças galácticas. Estação espacial enfeitada com bandeirolas, altifalantes e radiações de solário, orbitando ao som de um piano alienígena e das vibrações estelares de um sintetizador Moog.
            Integrado num pacote de reedições (formato miniatura, em cartão, da editora Byg/Actuel, com rótulo de série “Sunspots”), “The Solar-Myth Approach”, gravação de estúdio efetuada em 1970 e 1971, surge dividida em dois compactos — volumes 1 e 2. No primeiro volume escutamos celebrações efusivas de um tribalismo simultaneamente arcaico e futurista, polo celeste do mesmo eixo que fixava os Art Ensemble of Chicago à Terra, em solos de bateria a compassar a tempestade (“Realm of lightning”), engenharia de Moog (“Seen III, took 4”, pequena amostra do que Sun Ra faria em larga escala na gigantesca manipulação deste instrumento eletrónico que ocupa a totalidade de um dos lados da gravação ao vivo “Nuits de la Fondation Maeght”) e uma protocanção, “The satellites are spinning”, algures entre o teatro de Brecht e “Nine funerals of the citizen king”, dos Henry Cow. Lugar de destaque na cabine de pilotagem para o sax alto de Marshall Alen e para o sax tenor de John Gilmore, velhos compinchas do “Spacemaster” ao longo das várias personificações da Arkestra. “Adventures of Bug hunter” ilustra a faceta cartoonesca e o lado burlesco (decerto não terá sido por acaso a inclusão de uma imagem de Charlot na fotografia da capa) deste músico que não se coibiu de dedicar um álbum inteiro a Walt Disney.
            O segundo volume inicia-se com “Utter nots”, uma das muitas iluminadas “aberrações” com que Sun Ra preenchia a eternidade nas atuações ao vivo da Arkestra. Música selvagem para uns. Mística para outros. Incompreensível na medida em que Sun Ra se regia por códigos que escapavam à vulgar catalogação, quer em termos musicais, quer psicológicos. O seu piano, pulsante como uma chaga aberta no firmamento, sintoniza a vibração universal dentro do indivíduo. A Arkestra vai tão longe quanto pode e Marshall e Gilmore (num solo com algo de Coltrane) perseguem o inevitável silêncio que sucede ao grito, quebrando amarras, arriscando o tal lance que pode ditar a vitória ou a derrota na partida de xadrez. Os mais ávidos de escutar o mestre a arrancar sonoridades insólitas do Moog (mas iludam-se os que pretenderem ver em Sun Ra o Rick Wakeman do jazz...) têm em “Scene 1, take 1” com que se deliciar, em oito minutos de exploração dos filtros analógicos e das infinitas combinações de cabos de conexão de circuitos do “Moog synthesizer”. “Pyramids” soa a música barroca intergaláctica interpretada em cravo eletrónico e “Interpretation” é um portentoso tratado de eletroacústica onde Sun Ra, o construtor de mitos, o viajante dos espaços psico-acústicos, faz explodir “clusters” astrais no piano, moldando e desfazendo sistemas planetários inteiros a seu bel-prazer. “Ancient Ethiopia” evoca o lado mais étnico e ancestral do músico, através de um diálogo de flauta e violoncelo precedendo a entrada em glória do sax barítono, com a big band em euforia. Instante de exceção na obra deste músico-mágico que ousou compor a banda sonora imaginária para depois do fim do mundo. “Strange worlds” fecha a celebração da única maneira possível, com a “troupe” a estabelecer-se numa nova terra, a respirar um novo ar. “O ar é música. Em volta da Terra circula o estupor do ar. Necessitamos de um novo ar.” Sun Ra, “dixit”, entre a profecia e a “blague”.
            Nesta altura, mesmo o mais experimentado jogador de xadrez sentir-se-á deslumbrado como uma criança que pela primeira vez descobre o mundo fora de si, local de correspondências mágicas onde todas as possibilidades se tornam reais e a potência se faz ato. “Aum”, o mantra sagrado, funciona como detonador do Verbo. Cabe a cada um descobrir a sua verdade, através da audição. Diz, a propósito, Sun Ra: “Não posso garantir que esta música tenha a ver com precisão e disciplina. Da mesma forma que procuro ser bem sucedido no modo como tento dominá-la, assim também todos aqueles que procuram encontrar uma relação entre ela e si próprios, deverão ouvi-la sob certas circunstâncias. Esta música é sobre o que está para além do destino.” Como olhar de frente a luz do sol sem cegar?

Sun Ra and his Solar-Myth Arkestra
The Solar-Myth Approach (Vols.1 & 2)
9 | 10
Sunspots, distri. Trem Azul



15/03/2018

Sun Ra



Fernando Magalhães
20.02.2002 180637

Eu estive nesse concerto do SUN RA. Mais teatro e festa africana do que música.
Os músicos passaram grande parte do tempo a dançar e a marchar pelo recinto. Quanto ao Sun Ra praticamente limitou-se a fazer as introduções de cada tema, ao piano. 15 ou 20 segundos e parava, para se remeter ao papel de maestro da sua orquestra de "loucos"!
Mas lembro-me de que...gostei. :)

FM

09/03/2018

Sun Ra + John Coltrane



Fernando Magalhães
01.02.2002 180653

Quanto ao SUN RA e JOHN COLTRANE.
A questão está em que a música destes dois compositores é mais espacial no conceito do que na prática.
Em SUN RA, apesar de tudo, existem elementos verdadeiramente "cósmicos". O meu preferido é mesmo o 2º lado, um longo solo de Moog, de "Nuits de la Fondation Maeght" (ed. Shandar, infelizmente fora de mercado).
O "It's after the End of the World" está praticamente todo incluído num CD duplo intitulado, "Out in Space/não sei quê Myth" :) :) :)

Já a música de Coltrane apenas espiritualmente tem a ver com o espaço. O "Meditations" é uma longa dissertação do homem pelo interior de si mesmo (o inner space), nos limites do free jazz, muito bem secundado por umo segundo sax tenor, de Pharoah Sanders, e o piano de McCoy Tyner. Mas, para mim, prende-me mais à terra do que me impele para o cosmos!

Mas...e voltando ao SUN RA, o que este músico não levou às últimas consequências, fê-lo um seu ex-companheiro da sua Arkestra - um tal SAMARAI CELESTIAL, que descobri através de "o vendedor". São dois CDs, um deles duplo, com temas longuíssimos (há um com mais de 60 min....), de eletrónica, entre o selvático e o planante, espécie de selva de sons orgânicos que, num dos temas, adquirem mesmo a forma de uma homenagem explícita ao mestre, numa faixa intitulada "Sun Ra".
Percebe-se que o tipo é louco (ou será um iluminado?) mas a música é, de facto, uma verdadeira viagem!!!! Outro tema, de 20 min., é um longo solo de percussões eletrónicas com o Samarai a ler por cima um manifesto sobre a ascese planetária e a nova idade de ouro da humanidade.

FM

12/06/2015

Sun Ra




"Sun Ra" (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
18.09.2001 180613

Como se tem falado por aqui da música deste lunático iluminado (para alguns, para outros, sobretudo alguns puristas do jazz mais fundamentalistas, o homem não passa de uma fraude...), recomendo a audição de dois álbuns brilhantes que, infelizmente, julgo não estarem disponíveis em CD: "It's After the End of the World" (ed. MPS) e "Nuits de la Fondation Maeght, Vol.2" (ao vivo, ed. Shandar).
Em ambos descobre-se a costela mais "cósmica" e electrónica de Sun Ra. Uma das faixas de "Nuits...", que ocupa todo o lado do disco, é uma longa improvisação solo no sintetizador Moog. Electrónica no seu estado mais convulsivo, astral e esotérico.

FM

PS-Não acho grande piada ao tema "Space is the place", cântico freak/free que julgo correponder ao "pior" de Sun Ra, um certo folclore pseudo-místico que, aliás, o próprio músico faz questão de exibir segundo uma espécie de auto-paródia...