Mostrar mensagens com a etiqueta Telectu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Telectu. Mostrar todas as mensagens

16/01/2019

Com a felicidade estampada nos 'blues' [Jazz]


22 MARÇO 2003
JAZZ
DISCOS

O jazz tanto pode ser um bunker de metal como um canteiro de flores. Sei Miguel e Jacinta exemplificam, em Portugal, estes dois extremos do jazz. A sabedoria louca de um contrasta com a felicidade aos caracóis da outra.

Com a felicidade estampada nos ‘blues’


Jazz além. Mas além de que lugar? Segundo as coordenadas de Sei Miguel, ir pelo jazz é arriscar-se numa aventura interior sem retorno, de transmutação, transcendência e transferência da personalidade para uma máscara de enigmas. “Ra Clock” é, na forma, uma homenagem a Sun Ra, que o trompetista português considera como avatar da música contemporânea, nomeadamente através da suite com o mesmo título, espécie de livro de horas que ilustra o percurso musical e espiritual do autor de “It’s after the End of the World”. Disco diluviano, no sentido de precipitação e revelação, transporta consigo os mesmos estigmas e a imagética mitológicos que ilustravam a obra do teclista americano, na reapropriação de uma ancestralidade por onde passa, afinal, a decifração do labirinto tecido em “Astérion” ou do microclima de 33 segundos intitulado “Isobel”.
            Não há madeiras, apenas metal: trompete de bolso, trombone, guitarra, gongos, piano, percussões e água elementar. E, em “Astérion”, uma “drone” de órgão Hammond a calcar a pedra e o cristal. Pressente-se aqui algo carregado com a mesma energia mágica das florestas virtuais do quarto mundo de Jon Hassell, os mesmos rituais de utilização dos sonhos como via de acesso ao interdito. E o espectro de Miles a espreitar nesta transmigração.
            “Ra clock”, da “viagem da alma até ao planeta Terra” até ao “caminho de regresso para as estrelas”, instala-se no âmago desse tal “além” situado entre as cinzas do jazz e a música concreta, com citações, pelo meio, às sonoridades siderais de Sun Ra. Um disco difícil, como são todos os de Sei Miguel, exercício de sublimação da loucura em discurso do método.
            Nos antípodas de “Ra Clock” está o novo e triplo álbum dos Telectu, de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua. A dupla, que, curiosamente, nos últimos anos cultivou processos vários de clonagem e mimetismo de géneros musicais que iam da eletrónica lúdica à eletroacústica, retoma em “Quartetos” a estética do “free jazz” e da livre improvisação que marcaram os primeiros anos do coletivo.
            Com Lima Barreto ao piano (incluindo o preparado), Vítor Rua na guitarra de 18 cordas e eletrónica, e Tom Chant no saxofone soprano, cada um dos três CD conta com um convidado de peso, na bateria: Sunny Murray, protótipo da bateria “free”, no primeiro, Eddie Prévost, elemento da mítica formação AMM, no segundo, Gerry Hemingway, “avant-gardista” e “sideman” de Anthony Braxton e Marilyn Crispell, entre outros, no terceiro.
            Nada de novo nem de particularmente excitante acontece nesta ressurreição do espírito libertário dos anos 60, um “tour de force” que, para além de mostrar Lima Barreto em arroubos de lirismo pianístico (no intervalo dos omnipresentes “clusters”), tem como principais focos de interesse as conversas travadas entre o saxofone de Chant e as percussões livres de Murray, Prévost e Hemingway. Chant que, no disco 3, chora encostado ao piano, com Hemingway a desmultiplicar-se nos efeitos percussivos, naquele que será um dos momentos mais conseguidos de “Quartetos”.
            Mas o “free” era uma guerra. A luta pela liberdade em nome de uma causa. É difícil descortinar nestes “Quartetos” mais do que cicloturismo ao redor do parque dos clichés em que certa música improvisada é fértil. No jazz grande, o gesto vale enquanto manifestação ou manifesto de uma necessidade ou motivação profunda. “Quartetos” é grande na luta contra o tempo, esperando que o milagre aconteça.
            Comparada com as de Sei Miguel e dos Telectu, a música de Jacinta é um refresco. A nova “coqueluche” do canto jazzístico português, senhora de uma voz grave e com razoável controlo de modulações, presta no seu álbum de estreia — impressa na subsidiária nacional do prestigiado selo Blue Note — homenagem à
rainha dos “blues”, Bessie Smith.
            “A Tribute to Bessie Smith”, com produção de Laurent Filipe, mostra uma voz empenhada em revitalizar e recriar com sucesso (“Outro segredo de Jacinta: ser intérprete, logo autora”, escreve José Duarte nas notas de apresentação) o “jazz” na sua costela mais emotiva — com um ou outro sopro “lounge”, uma corrida pelo rhythm’n’blues e a assunção dos “blues”, mesmo, numa balada tão tocante como “Baby won’t you please come home”. Conta com notáveis participações instrumentais, nomeadamente de Mário Santos, nos saxofones e clarinete baixo, Greg Moore, no trombone, e de um Rodrigo Gonçalves capaz de percorrer ao piano uma gama larga de subtilezas e contrastes.
            A “A Tribute to Bessie Smith” só faltará o drama que apenas a vida concede ou retira a cada um. Mas como desejar um fado e um fardo assim a quem, como Jacinta, coloriu desta maneira o jazz feito em Portugal, com a felicidade do seu sorriso e uma alma aos caracóis?
            De volta ao jazz mais urbano depara-se-nos “Fast Living”, com assinatura do guitarrista Pedro Madaleno (também nos sintetizadores), em quarteto com Ruben Alves (piano e teclados), Yuri Daniel (baixo acústico e elétrico) e Dejan Terzic (bateria).  Não será por aqui que se encontrarão motivos que permitam descortinar novos sons e novas terras para o jazz, mas o que o guitarrista e os seus companheiros fazem fazem-no bem. Trata-se de “jazz rock”, inspirado nos mestres americanos como Weather Report ou Return to Forever, mas também na abordagem mais “snob” e progressiva da corrente inglesa de Canterbury personificada por grupos como os Soft Machine, Hatfield and the North ou National Health (temas como “Alien visitor” ou “What intelligent thing?” são bem ilustrativos desta tendência).
            Já em “Spirit of the world” e “Late night in Hamburg” o estilo guitarrístico de Madaleno lembra o do holandês Jan Akkerman, dos Focus, enquanto “Different places to go” denota a influência de John Scofield. Mesmo não estando isento da “comercialite” fácil, que é pecado em que amiúde incorre o “jazz rock”, “Fast Living” pertence àquela categoria de discos que não magoa nem maltrata o jazz, mais preocupado em distrair e provocar boas vibrações do que em deitar as garras de fora.

Sei Miguel
Ra Clock
Ed. e distri. Headlights
8 | 10

Telectu
Quartetos
3xCD Clean Feed, distri. Trem Azul
6 | 10

Jacinta
A Tribute to Bessie Smith
Blue Note, distri. EMI-VC
7 | 10

Pedro Madaleno
Fast Living
Edição de autor
6 | 10

09/12/2008

"Tive uma colisão muito grande com as pessoas do jazz" [Jorge Lima Barreto]

Pop Rock

22 Janeiro 1997

Jorge Lima Barreto lança um álbum novo e reedita dois antigos

“TIVE UMA COLISÃO MUITO
GRANDE COM AS PESSOAS DO JAZZ”

No seu novo disco, mais um, dos Telectu, intitulado “À Lagardère”, a banda de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua conta com a participação do trompetista Jac Berrocal. Em paralelo, acabam de ser reeditados os dois primeiros álbuns da Anar Band, entre os quais “Encounters”, com Saheb Sarbib. Para ler, há também um novo livro, “Musa Lusa”. Um período em cheio para Jorge Lima Barreto que continua imparável na sua marcha em direcção a uma utopia.

“À Lagardère”, “Anar Band” mais “Encounters”. 20 anos separam as duas edições. 20 anos separam o tempo em que Jorge Lima Barreto martelava as teclas de um piano em Cascais, dos dias de hoje, em que o músico musicólogo do Porto atrai para a música dos Telectu a nata dos improvisadores da cena internacional. No fundo, trata-se apenas de pôr em prática a “capilaridade” que existe entre estes sons e estes músicos. Como o próprio explica em entrevista ao PÚBLICO.
PÚBLICO – Depois de Elliott Sharp e Chris Cutler, os Telectu voltaram a gravar com outro nome importante da música improvisada, desta feita o trompetista Jac Berrocal. Como surgiu esta colaboração?
Jorge Lima Barreto – O Berrocal é um músico francês que trabalhou com o Daunik Lazro que, por sua vez, fazia parte do grupo de Saheb Sarbib quando este vivia em França. Daí que eu tenha mantido sempre uma relação estreita com esse círculo musical. Por outro lado, o Berrocal está muito ligado à “performance”, esteve nas Caldas da Rainha, num certame de música alternativa, ao lado do Jorge Peixinho, entre outros músicos. Quando nos foi propiciado convidar um músico para trabalhar connosco num concerto na Casa de Serralves, no Porto, ele veio, sentimos que a coisa era conciliável do ponto de vista do estilo e a partir daí ele já fez uns sete ou oito concertos connosco. Para este disco, preparámos, no Festival de Guimarães, um quarteto com ele e com o Louis Sclavis. O Jac ficou cá mais uns dias, o que nos proporcionou seguirmos para Espinho para gravar na Numérica.
P. – Esta estratégia de intercâmbio com músicos convidados não obriga à modificação constante de estilo dos Telectu?
R. – Neste tipo de música, improvisada, existe uma capilaridade muito grande, uma troca constante entre as figuras musicais. O Zíngaro, por exemplo, toca e grava com diversos músicos. Por outro lado, vão-se criando afinidades, uma troca de situações que é muito importante. Tocar com um baterista como o Cutler é diferente de tocar com outro, como o Paul Lytton. Para nós é um engrandecimento da nossa própria experiência.
P. – Mas não existe o perigo de as pessoas não conseguirem reconhecer aquilo que pertence intrinsecamente aos Telectu?
R. – Respondo com outra colaboração. O Daniel Kientzy estava para vir tocar com o Jorge Peixinho. O Jorge Peixinho morreu e eu fui falar com ele, aliás ele é que se dirigiu a mim, porque queria fazer a divulgação do disco dele com o Peixinho. Veio cá a casa, conversámos e disse-lhe que estávamos para ter um concerto de música improvisada nas Festas da Cidade. Foi ele mesmo que disse que queria improvisar connosco. Tocámos, ele gostou, e criou-se um núcleo Kientzy/Telectu para a realização de vários concertos. E convidou-nos para gravar em Paris com ele. Do nosso lado procurámos criar um tipo de situação sonora a pensar num homem que é multi-instrumentista de sopros. Mas quando é com o Cutler, um baterista, a coisa é completamente diferente. Exige outro tipo de planificação. Mas se reparar, há da nossa parte um trabalho de composição em que estabelecemos um determinado número de premissas para as coisas se realizarem. Nunca é improvisação absoluta. Depois, repare, um compositor contemporâneo pode compor para quarteto de cordas, para percussão, para sopros, para electrónica, situações que levam quase a uma mudança de identidade. Mas, por outro lado, sentimos que há qualquer coisa, talvez indefinível, uma coerência nas várias situações que descrevi.
P. – Os últimos álbuns, e o novo, em particular, denotam uma certa fixação no ambientalismo…
R. – … Um lado mais modal, sim…
P. – Um tema como “Baccarah caril” lembra fortemente a estética de Brian Eno, em “On Land”…
R. – Sim, pode haver uma relação. No novo disco houve uma escolha de escalas, uma espécie de fórmula modal, a partir da qual se desenvolveu uma temática que, por outro lado, depende da instrumentação, umas vezes do sintetizador, outras do piano, daí que tenham resultado estruturas muito mais melódicas. Mas não fazemos isso no sentido de uma imitação.
P. – Em paralelo com a edição do novo disco com Jac Berrocal, foram reeditados, num compacto simples, os dois primeiros trabalhos da Anar Band, o segundo deles, “Encounters”, em colaboração com Saheb Sarbib. Há aqui o desejo de uma reapreciação estética destes discos ou, simplesmente, a perspectiva do arquivista histórico?
R. – Nos anos 70 estes dois discos foram os únicos que existiram neste tipo de música, improvisada. O disco com o Sarbib, por exemplo, era para ser gravado com o quarteto do Pinho Vargas. Foi na época em que Rão Kyao costumava vir a minha casa e em que gravou o “Goa”. Nessa altura eu tinha tocado em Cascais, em 1974, em piano e banda magnética, um tipo de propostas absolutamente iconoclastas. Quando sugeri ao Sarbib fazermos um “replay” dos temas, tocar por cima do que já estava tocado, foi a primeira vez que aqui se fazia esse tipo de experiência, embora Bill Evans já o tivesse feito lá fora. Era um tabu para as pessoas do “jazz”. Nesse tempo estavam a “rebentar” as músicas improvisadas, as quais estavam a divergir do “jazz”.
P. – Passados 20 anos, como é que ouve estes dois discos?
R. – É complicado. Não vou falar em sentimentalismo… No caso do disco só da Anar Band, ouço, embora haja coisas que até passo à frente, mas, de resto, foi muito gratificante, em particular o trabalho no piano, nas cordas do piano, que julgo ter sido bastante original. No caso do “Encounters”, é completamente diferente, uma vez que se tratava de um grande músico, como é o Sarbib, que na altura estava na pujança do seu estilo, em particular com aquele som do contrabaixo, semi-amplificado, que, além deste, só se encontra em mais dois ou três discos dele. Ainda em relação ao “Anar Band”, está dividido em dois lados. O primeiro acho-o marcante, em termos de intervenção de um estilo de piano que ainda hoje pratico nos concertos. No outro lado, só com o sintetizador, aí é que ponho certas reticências, já que algumas abordagens parecem pretender insinuar coisas que depois se desenvolveram muito. Por exemplo, o minimalismo, ou certo tipo de automatismos que teriam, então, paralelo com o rock alemão. A estratégia de divisão em temas separados é que não terá sido a mais correcta, já que ao vivo eu costumava tocar apenas uma longa composição electrónica. Mas existia o prazer da manipulação do sintetizador analógico, o A.R.P. Odyssey. Agora há aí o “hip hop” em que se está de novo a utilizar o analógico e as mesmas marcas… Com os Anar Band utilizava uns painéis que recortava e sobrepunha, em cada composição, numa espécie de palimpsesto.
P. – A provocação era parte integrante da proposta estética dos Anar Band?
R. – Lembra-se daquele festival em Sintra, em que fizemos a primeira parte do concerto do Michel Portal? [N. R. : Lembramo-nos, e de que maneira! A actuação do grupo de Portal permanece na nossa memória como a mais extraordinária assunção de “música total” a que alguma vez assistimos.] A nossa proposta foi, nessa ocasião, extremamente provocadora. Quanto ao disco, é difícil compará-lo com qualquer outro tipo de realidade. Não são visíveis influências.
P. – Por último, mais um livro, “Musa Lusa”, no qual, mais do que dissertar sobre música, analisa os seus meios de produção e divulgação…
R. – É um livro mais de consulta. Também vou editar proximamente um outro, “O Siamês Telefax Stradivarius”, na Campo de Letras, do Porto, que é um desenvolvimento deste, sobre aquilo que eu considero ser a cultura dos “media”. Hoje temos uma cultura que nos é fornecida pelos “media”. A música está inclusa nesse tipo de cultura.
P. – Os seus trabalhos no domínio da escrita têm, por norma, causado uma certa polémica. Isso deve-se à manutenção de um estatuto de “marginalidade” no interior do sistema ou a um menor rigor no tratamento dos assuntos abordados?
R. – No caso da minha escrita, ou da minha atitude perante a música e da sua situação social, tem existido uma relação bastante desgastante com alguma crítica, mas isso acontece em todos os lugares. No meu caso, tive uma colisão muito grande com as pessoas do “jazz”, porque, na altura, tentava impor o “free jazz”. Depois veio a música minimal, da qual também fiz uma grande divulgação, e essas posições originam sempre uma reacção. Entra-se em confronto com essa reacção.
P. – Mas não reconhece haver um certo fundamentalismo no modo como expõe as matérias?
R. – Se não fosse assim, ninguém fazia nada. Por exemplo, um actor de teatro que queira desenvolver uma nova linguagem ou alguém, do cinema, que queira mostrar cinema experimental. Alguém, ainda, das artes plásticas, que pretenda mostrar o novo subjectivismo na pintura, tudo situações de hoje. Ou a divulgação da pós-modernidade, que agora acontece na música, a explicação dos seus fenómenos, cada vez mais complexos, labirínticos. Está-se a explicar aquilo que nos rodeia. E o que nos rodeia é uma cultura mediática, que nos é inculcada pelos “media” e leva as pessoas a estarem atrasadas. No sentido em que não têm sequer contacto ao que se faz de novo. As massas, o grande público, estão acantonadas, isoladas, das coisas novas que aparecem. Devido a esse isolamento, quando elas aparecem, não as compreendem.

15/10/2008

Vários - Vidya

Pop Rock

13 MARÇO 1991

VÁRIOSVidya
LP, Potlatch

Projecto de Vítor Rua, dos Telectu, gravado entre os meses de Janeiro de 1990 e 1991, no estúdio caseiro de Nuno Rebelo, e que inclui praticamente todos os músicos de algum modo conotados com aquilo a que poderíamos chamar “cena ‘underground’ lusitana”. 19 temas, sem título, organizam-se numa montagem em que sucessivamente vão intervindo os diversos participantes: Vítor Rua, Jorge Lima Barreto, Elliott Sharp (num excerto gravado ao vivo na sua recente actuação ao lado dos Telectu), Carlos Zíngaro, Saheb Sarbib, Miguel Azguime, D.W.Art, Sei Miguel, João Peste, Nuno Rebelo, Luís Desirat, Rodrigo Amado, Rafael Toral, dois Osso Exótico, Tó Zé Ferreira, Rui Azul, Miguel Megre, Fala Miriam, Bruno Rascão, João Paulo Feliciano, Paulo Eno e o duo Duplex Longa. Música experimental, ambiental, industrial, numa colagem de géneros e estilos que tem pelo menos a virtude de lutar, em termos estéticos, contra a normalização vigente. Há momentos excelentes, outros nem tanto. Dos primeiros, realce para: a “raga” electrónico-industrial dos Telectu, no tema nº5; os ambientes muito jon-hasselianos do tema seguinte, como suporte para as divagações violinísticas de Carlos Zíngaro; o solo percussivo de Miguel Azguime, no tema nº8; os zumbidos eléctricos de Paulo Eno, controlados por Rua num encosto aos Nurse With Wound no tema nº9; a dança das vocalizações fantasmagóricas de João Peste com o computador de Rua, no nº11; os ambientalismos obscuros e estruturais de Rua, Tó Zé Ferreira e Nuno Rebelo, nos temas nº14 e 15; o breve caos controlado que alia os King Crimson de “Red” à vertigem Naked City do tema nº17, pelos Duplex Longa; a apropriação das Frippertronics por Vítor Rua, que encerra o disco. Para o fim, o momento mais brilhante, aquele que abre o segundo lado – cruzamento dos Residents com fragmentos melódicos de “Strangers in the Night”, tocados por um Rua que soube aprender os ensinamentos do malogrado Snakefinger, valorizado pelas notáveis prestações de Rui Azul, na electrónica e no solo de sax tenor. A vanguarda começa a organizar-se em Portugal. ****

13/09/2008

Telectu - Evil Metal

POP ROCK

27 DEZEMBRO 1992
DISCOS PORTUGUESES DE 1992
ALTERNATIVA

TELECTU
Evil Metal
Edição Área Total

Os Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J. A. Deane e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido dos timbres e estruturas repetitivas electrónicos, Vítor Rua navega entre as ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott Sharp aparece num par de temas, mas a sua presença era escusada.
“Evil Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que, desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.

26/07/2008

Telectu - Telectu, Cutler, Berrocal

POP ROCK
15 de Novembro de 1995

Álbuns portugueses

Telectu
Telectu, Cutler, Berrocal
ED. FÁBRICA DE SONS, DISTRI. MOVIEPLAY

Quem porfia sempre alcança, diz-se, e Jorge Lima Barreto tem porfiado bastante. O mais recente “opus” da dupla Barreto/Rua reúne actuações ao vivo com os convidados Chris Cutler, nas percussões e electrónica, e Jac Berrocal, trompete e electrónica, realizadas o ano passado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa; só com Berrocal, no mesmo ano, na Casa de Serralves, no Porto; e com Cutler, há dois anos, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Os 42 minutos e 13 segundos da “performance” em Lisboa constituem o prato forte da improvisação em quarteto, onde o principal atractivo consiste em tentar descortinar onde termina o aleatório e começa o discurso previamente, pelo menos em parte, estruturado. O caos mostra deter as rédeas de comando neste périplo pela cacofonia que substitui os anteriores “mimetismos” da dupla portuense. Há sons estranhos, encadeamentos com a duração de segundos onde os músicos se surpreendem a tocar juntos, instantes de poesia, até de silêncio. É óbvio que tanto Rua como Barreto assimilaram convenientemente algumas das cifras correntes da chamada “new music”. A maior virtude dos Telectu tem sido, desde sempre, a de tirar o máximo partido das limitações próprias. Por fora, este disco tem um néon a piscar “novidade” e “experimentação”. Difícil, a exigir esforços da imaginação, é descortinar nele um sentido mais além, um dizer algo que não se esgote no próprio instante interpretativo. Por ora os Telectu parecem comprazer-se nas delícias do fugaz. Guardamos na memória o bom entendimento de Rua com Cutler no tema do Gil Vicente, e o “tour de force”, entre o litúrgico, o magmático e a música concreta, de Lima Barreto, nos sintetizadores do terceiro e último acto. O invólucro pictórico leva a assinatura, como de costume, de António Paolo. (7)