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24/04/2018

Terry Riley na Gulbenkian



Fernando Magalhães
29.05.2002 150302

Fui ontem, para o concerto de piano solo, compostos por peças escritas pelo próprio. Não assisti ao concerto em duo da véspera, inserido num contexto diferente.

Terry Riley é um dos papas do minimalismo. Certo. Mas...

1) Houve momentos do concerto confrangedores (sobretudo na 1ª parte), perto da new age mais obsoleta. Ou quando cantou (!), muito perto da desafinação, uma canção pop eivada de misticismo e de lugares-comuns...

2) Em termos técnicos, TR é um pianista apenas sofrível, o que até nem será muito relevante, embora a sua mão esquerda desenrole com notável segurança os típicos ciclos de notas que fizeram a sua imagem de marca. A direita, enfim...notas falhadas, quebras rítmicas fora do programa...

3) TR é o anti-académico por excelência e o "amador" no sentido mais nobre do termo, de alguém que ama verdadeiramente aquilo que faz. Notou-se isso. Estava na Gulbenkian como se estivesse a tocar num clube para um círculo de amigos.

4) Mas...há sempre um mas... a certa altura (último tema da 1ª parte toda a segunda), a música levantou voo. TR voltou a cantar (segundo as técnicas tradicionais indianas conotadas como o "raga") e era esse canto que "puxava" a inspiração. Como na música indiana, há um momento (ideal e procurado) em que já não é o músico que toca a música mas a música que toca o música.

5) Nessa altura aconteceu o "clic". A maior utilização dos pedias tornou a música mais espacial. A mão direita como que se tornou mais leve, bailando verdadeiramente sobre o teclado. Música plena de dádiva e ternura, música que aquece a alma.

6) Em termos formais, TR improvisou sobre os temas. Na 1ª parte raramente ultrapassando os clichés da música minimal repetitiva, que alternou com passagens românticas a la Wim Mertens/Michael Nyman de "O Piano"/Richard Clayderman e instantes mais jazzísticos, quando não de inspiração no teatro da Broadway. Também "caiu" frequentemente no ragtime (um dos temas, assumidamente neste andamento, foi dedicado ao seu professor de piano, músico de ragtime).

7) Na segunda parte, porém, a música como que se libertou de todos os espartilhos e TR soou como uma espécie de Keith Jarrett espiritualista, fazendo a música passar da simplicidade mais desarmante para construções mais complexas.

Foi, em suma, um concerto desequilibrado. Houve alturas em que me senti verdadeiramente desiludido (mesmo irritado!) mas finalmente acabei rendido a uma espécie de magia benigna que se desprende da música, da atitude e da figura de Terry Riley.

FM

23/02/2018

Eletrónica erudita



Fernando Magalhães
21.01.2002 190748
Uma lista possível de discos de música contemporânea, minimalista, eletrónica, electro-acústica, acusmática, etc
dos quais GOSTO MESMO MUITO!
:)

ANDREI SAMSONOV : Void in (Mute) - ainda sem ficha

ANDREW POPPY

0290 - The Beating of Wings (ZTT, 1985) – Fev.86, Jun.94 – 48.53

ANTHONY MANNING

3280 - Chromium Nebulae (Irdial, 1995) – Dez.01 – 70.37

ARNE NORDHEIM

2468 - Electric (Rune Grammofon, 1974) – Fev.99 – 74.03

BERNARD PARMEGIANI

2690 - Pop’Eclectic (Plate Lunch, 1966 -1973, 1999) – Fev.00 – 49.55

E o monumental “De Natura Sonorum”, "pai" de toda a electrónica actual, cuja edição definitiva vou buscar na próxima 4ªfeira, à VGM!...

CHRISTIAN ZANÉSI

0649 - Stop! L’Horizon . Profil-Désir . Courir (Ina.grm, 1990) – Nov.98 – 52.47
0511 - Arkheion (Ina.grm, 1996) – Nov.98 – 33.26

CONRAD SCHNITZLER & JÖRG THOMASIUS

3275 - Tolling Toggle (Fünf und Vierzig, 1991) – Dez.01 – 61.18

DANIEL TERUGGI

1902 - Syrcus/Sphaera (Ina.grm, 1993) – Mai.96 – 62.34

DAVID BEHRMAN

1162 - Leapday Night (Lovely Music, 1991) – Mai.92 – 62.37

EXPERIMENTAL AUDIO RESEARCH

3272 - The Köner Experiment (Mille Plateaux, 1997) – Dez.01 – 46.37
3044 - Millenium Music, a Meta-Musical Portrait (Atavistic, 1997) – Dez.01 – 55.00

Não resisto a incluir estes dois fantásticos banquetes de som!

HARALD WEISS

1794 - Die Anders Paradies (Gingko, 1995) – Abr.96 – 47.25

Também sai um bocado do contexto, mas é...MÁGICO!

INGRAM MARSHALL

0926 - Three Penitential Visions/Hidden Voices (Elektra Nonesuch, 1990) – Nov.90 – 45.35
2904 - Alkatraz (New Albion, 1991) – Out.91, Jul.01 – 46.22

ISTVÁN MÁRTA

0707 - Támad Aszél (The Wind Rises) (Recommended, 1987) – Fev.90, Ago.98 – 35.24

JOCELYN ROBERT

1051 - Folie/Culture (Recommended, 1991) – Mar.97 – 66.20
2082 - La Théorie des Nerfs Creux (Ohm/Avatar, 1993) – Mar.97 – 41.23

KLANKRIEG

3180 - Radionik (Cling Film, 1999) – Nov.01 – 52.49

KONRAD KRAFT

2283 - Alien Atmospheres (Elektro-Smog, 1996) – Jan.98 – 71.19

MANUEL GÖTTSCHING

0886 - E2-E4 (Racket, 1984) – Jul.90, Jan.95 – 59.37

MICHAEL WINNERHOLT

1651 - Tjugofyra (Multimood, 1995) – Fev.98 – 61.03

MICHEL REDOLFI

1901 - Desert Tracks (Ina.grm, 1988) – Mai.96 – 70.09
1358 - Appel d'Air (Ina.grm, 1993) – Jan.94 – 67.42

MICHEL ZBAR

1903 - Novum Organum (Ina.grm, 1994) – Mai.96 – 68.02

NED LAGIN

1216 - Seastones (Rykodisc, 1975) – Mar.93 – 73.53

OSKAR SALA

0216 - Elektronische Impressionen (Erdenklang, 1978/1979) – Out.98 – 61.56

PAUL DE MARINIS

1167 - Music as a Second Language (Lovely Music, 1991) – Mai.92 – 49.44

PAUL SCHÜTZE

1605 - Apart 2xCD (Virgin, 1995) – Jul.98 – 50.30 + 47.37
2510 - Third Site (Ryko, 1999) – Mai.99 – 47.17

PETER MICHAEL HAMEL

0346 - Nada (Ginkgo, 1977) – Mai.95 – 40.36

PHILIP GLASS

0976 - Music with Changing Parts (Elektra Nonesuch, 1971) – Jan.94 – 61.42 R
1235 - Two Pages, Contrary Motion, Music in Fifths, Music in Similar Motion (Nonesuch,73/5)-Jan.94-74.13R
0280 - Einstein on the Beach 3xCD (Elektra Nonesuch, 1978/1993) – Dez.93 – 62.25 + 65.42 + 72.52 Ope. R

PIERRE HENRY

2691 - Variations pour une Porte et un Soupir (Mantra, 1961/63/70, 1995) – Fev.00 – 70.27 R

PROPELLER ISLAND

0657 - Hermeneutic Music (Erdenklang, 1988) – Mar.94 – 53.43
1053 - The Secret Convention (Badland, 1988) – Mai.91 – 53.16
1906 - The Garden (Artgallery, 1995) – Mai.96 – 44.30

RANDY GREIF

2371 - Verdi’s Requiem (Soleilmoon, 1997) – Abr.98 – 57.44

SHELLEY HIRSCH & DAVID WEINSTEIN

0705 - Haiku Lingo (Review, 1989) – Nov.89, Mar.91 – 48.45

STEFAN TIEDJE

1056 - Polyrische Variationen (Badland, 1988) – Mai.91 – 66.48

STEN SANDELL

3122 - Bio Elektrika (LJ, 2000) – Mar.01 – 44.37

STEVE REICH

0447 - Music for 18 Musicians (ECM, 1978) – Mai.88, Nov.91 – 56.33
0570 - Sextet/Six Marimbas (Elektra Nonesuch, 1986) – Mar.89, Nov.92 – 42.42

TERRY RILEY

0156 - A Rainbow in Curved Air (Columbia Rewind, 1971) – Jun.79, Mar.91, Jan.95 – 40.28
1511 - Persian Surgery Dervishes 2xCD (Mantra, 1972) – Nov.94 – 43.15 + 47.54

TIBOR SZEMZÖ

2344 - Relative Things (Leo, 1998) – Abr.98 – 62.56 BSOs

TOM RECCHION

2374 - Chaotica (Birdman, 1986) – Mai.98 – 68.17

UN DRAME MUSICAL INSTANTANÉE

1335 - Jeune Fille qui Tombe...Tombe (In Situ, 1991) – Jul.92 – 45.26

VANGELIS

2805 - Invisible Connections (Deutsche Grammophon, 1985) – Mar.01 – 39.49 - a sério, vale mesmo a pena!

Various Artists

0263 - Another Coast (Music and Arts Programs of America, Inc., 1988) – Jun.92 – 72.33
2944 - Ohm:The Early Gurus of Electronic Music 3xCD (Ellipsis Arts…, 2000) – Jul.00 – 72.01 + 73.16 + 73.52

WIM MERTENS/SOFT VERDICT

0464 - Vergessen (Les Disques du Crépuscule, 1982) – Jul.88, Out.93 – 31.25
0461 - For Amusement only (Les Disques du Crépuscule, 1983) – Jul.88, Out.93 – 30.28
1317 - Struggle for Pleasure (Les Disques du Crépuscule, 1983) – Out.93 – 20.15

JOÃO PEDRO COSTA

1215 - Electronic and Computer Music (Numérica, 1993) – Mar.93 – 67.29

FM


Fernando Magalhães
21.01.2002 190748
quote:

Publicado originalmente por rat-tat-tat
Fernando.

"Quando fizeres a tal classificação podes fazer uma breve referência a estes discos da lista?

terry riley. persian surgery dervishes
michel redolfi. appel d'air
klankrieg. radionik "

TERRY RILEY: CD duplo ed. Mantra - é uma gravação ao vivo na qual o TR interpreta quatro longas variações diferentes do mesmo tema.
Chega a ser de tirar o fôlego acompanhar o virtuosismo do músico no órgão eletrónico. Quantas mãos e pés tem o senhor???
:) (repito: trata-se de um álbum ao vivo, sem truques!).
É música verdadeiramente dervíshica, em espiral, hipnótica, um pouco na linha do que - com outra sofisticação ao nível da produção - pode ser escutado no 1º lado do genial "A Rainbow in Curved Air", do mesmo músico.

REDOLFI: "Appel d'Air" - O CD inclui várias peças compostas em períodos diferentes, uma delas inspirada na pintura de um artista de que não me lembro agora o nome.
Já não ouço este disco há algum tempo, mas recordo uma música atmosférica - no sentido mais espiritual do termo - atravessada por brisas eletrónicas quentes e sons naturais. A espacialização sonora é sublime, obrigando-nos a emergir numa espécie de floresta virtual.
Suspeito que o Robert Rich ouviu bastante este compositor...

KLANKRIEG: É o projeto industrial do Felix Kubin. Escrevi há pouco tempo sobre este CD no "Y". A distribuição é da Matéria Prima. Se pudesses ler a crítica, poupavas-me algumas palavras...
:D

01/11/2016

Entre o aborrecimento e o sublime [Terry Riley]

CULTURA
QUINTA-FEIRA, 30 MAI 2002

Crítica Música

Entre o aborrecimento e o sublime

Terry Riley
26ºs Encontros de Música Contemporânea
Lisboa, Grande Auditório da Gulbenkian
Dia 28, 19h
Pouco público

Antiacadémico por natureza, amador no sentido nobre do termo, Terry Riley é unanimemente considerado um dos papas da escola minimalista americana dos anos 60 e 70, género que ajudou a implantar, curiosamente junto das camadas consumidoras do rock.
Alguns dos álbuns seminais que gravou nessa época, em particular “In ‘C’”, “A Rainbow in Curved Air” e “Persian Surgery Dervishes”, são clássicos por direito próprio, mas uma longa estadia na Índia sob a influência e os ensinamentos do músico e professor Pandit Pran Nath fizeram com que a sua música infletisse em territórios contíguos aos da “new age”. Se a filosofia de vida lucrou com a mudança, a música nem por isso.
Motivo pelo qual a segunda de duas apresentações em Lisboa, terça-feira, no Grande Auditório da Gulbenkian, no âmbito dos 26ºs Encontros de Música Contemporânea, este ano subordinados ao encontro entre o Oriente e o Ocidente, para interpretar em piano solo peças do seu próprio reportório, deixasse um sabor ambíguo, fruto da alternância entre o aborrecimento e os “clichés” mais estafados da “minimal repetitiva” e o sublime.
Terry Riley está longe de ser um “virtuose” do piano, mas nada fazia adivinhar a redundância do seu fraseado, ao longo de praticamente toda a primeira parte. Apoiada na segurança de uma mão esquerda há muito habituada a traçar os característicos ciclos de notas que se tornaram imagem de marca do minimalismo, a direita fracassou, sucumbindo ao lugar-comum, à ocasional falha de ritmo e ao floreado inconsequente.
Nos piores momentos, a música roçou o romantismo pindérico do Wim Mertens “para vender” ou do Michael Nyman de “O Piano” (recusamo-nos a fazer menção a Richard Clayderman...), buscando refúgio no ragtime, nos blues com adornos e na nostalgia do teatro da Broadway.
Mas Terry Riley também cantou — com uma voz cuja fragilidade pode soar a encanto — uma canção pop, a recordar o timbre moribundo de Robert Wyatt e uma faixa, “The soul of Patrick Lee”, incluída numa antiga colaboração com John Cale no álbum “Church of Anthrax”. Confrangedor.
Mas foi também através da voz que o compositor, já no final da primeira parte, conseguiu ir buscar alento e inspiração, numa litania que recorreu às técnicas de canto tradicionais indianas do “raga”. Sentiu-se que o vento mudava de direção...
E mudou de facto, soprando de feição ao longo de toda a segunda parte. Aí sim, aconteceu a libertação. Como no “raga”, Terry Riley encontrou o lugar certo dentro do som. Uma maior utilização dos pedais conferiu, por outro lado, à música, uma dimensão espacial (cósmica?). Em estado de graça, deixou de ser o músico a tocar a música para passar a ser a música que tocava o músico. A mão direita, como que por milagre, soltou-se e começou a voar, desenhando com agilidade estonteante arabescos e ideias que antes se tinham mantido teimosamente aprisionados na quadratura das escalas.
Terry Riley transformara-se numa espécie de Keith Jarrett em viagem por um céu interior sem nuvens, atravessado por uma paz imensa. Tombaram as reservas, as dúvidas e as suspeições, o coração comoveu-se. Perdido já de vista o horizonte de uma música que, por fim, quebrara as amarras.

EM RESUMO
O pior Os clichés minimalistas da primeira parte
O melhor Uma segunda parte feita de liberdade e comoção.
Só aí Terry Riley foi papa

29/06/2008

John Cale & Terry Riley - Church Of Anthrax

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994
REEDIÇÕES

John Cale & Terry Riley
Church of Anthrax
Columbia, distri. Sony Music

Um disco mítico. Gravação de 1971, na qual o então violista dos Velvet Underground juntou forças com um dos papas do minimalismo americano. Resultou interessante, mas deixa um certo sabor a frustração. Cale martela como pode o piano em “Church of Anthrax”, “The hall of mirrors in the palace at Versailles”, que o sax soprano do americano sobrevoa como uma área real, e no longo e penúltimo tema “Ides of March”, acompanhando como pode a cadência milimétrica imposta por Riley, mestre da circularidade e sobreposição de ritmos. É notório que é Riley a ter de descer ao nível de Cale. Vê-se que o compositor de “in C” e do fenomenal “Rainbow in Curved Air” tem a preocupação de não descolar em demasia dos esforços do companheiro, na maneira contida como toca o órgão electrónico. Depois, a bateria, tocada por alguém nunca identificado em qualquer edição desta obra, não ajuda nada, de tão quadrada e pesadona. O melhor tema acaba por ser a única canção do disco, “The soul of Patrick Lee”, uma das típicas baladas fantasmagóricas de Cale, cantada por este de forma preciosa. Mas a sensação de ineditismo da parceria e alguns pormenores mais conseguidos, por entre o emaranhado rítmico dos temas “minimais repetitivos”, acaba por tornar “Church of Anthrax” uma curiosidade digna de interesse. Mesmo que a quilómetros de distância do melhor, tanto dos Velvets como do patriarca da repetição. (7)