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26/09/2016

Kreidler + To Rococo Rot

Quarta-feira, 16 Abril 1997 POP ROCK
poprock

Krautrock parte 2

KREIDLER
Weekend (8)
Kiff, distri. Megamúsica
TO ROCOCO ROT
Veiculo (8)
City Slang, distri. Música Alternativa

recentemente, a propósito do disco dos Scenic, escrevemos sobre algumas das limitações que desvalorizam um número razoável das novas bandas alinhadas no “pós-rock”. Não basta amontoar batidas maquinais, guitarras abstratas e ambientes nevoentos. São necessários um propósito e uma estética individualizados, o conhecimento da tradição animado por um genuíno propósito de evolução.
                Os Kreidler, como os To Rococo Rot, têm, à partida, uma vantagem sobre a concorrência, são alemães, naturais de Dusseldorf, estando, por este motivo, localizados no próprio “local do crime”, a Alemanha, sede, nos anos 70, das bandas inspiradoras do movimento: Cluster, Neu! E, precisamente, La Dusseldorf. Ainda que Stefan Schneider, mentor dos dois projetos, prefira citar, como fonte de inspiração, os Can, afastando-se quer daquelas bandas quer da concorrência dos grupos de Chicago como os Ui e Tortoise.
                Com “Weekend”, álbum totalmente instrumental, os Kreidler têm legitimidade para se reivindicar herdeiros do “krautrock”, de novo na crista da onda (a revista “Mojo” dedica ao movimento a capa e 24 páginas da sua edição de Abril!). Imaginativo e conceptualizante nas suas construções horizontais que remetem para fórmulas musicais marcadas por forte componente histórica e simbólica, “Weekend” recupera os microcosmos fechados dos Cluster, em temas como “Sand colour classics”, “Polaroid” e “Hillwood”, e as progressões marciais dos Neu! e La Dusseldorf, em “Reflections”. Seguem, inclusive, a mesma técnica de títulos de faixas com uma única palavra (“Shaun”, “Spat”, “Lio”, “Desto”, “Hillwood”, “Reflections”, “Telefon”, “If”), servindo de referencial a esses cursos universos destituídos de romantismo mas dos quais se desprende, ainda, uma estranha poesia.
                Os To Rococo Rot (Schneider com os irmãos Robert e Ronald Lippok) são ainda mais minimalistas e frios do que os Kreidler. E se na música destes últimos se apanham ainda vestígios de um humor que nos Cluster de manifestou no delicioso “Zuckerzeit”, nos Rococo avultam os ciclos fabris dos dois primeiros álbuns da dupla Moebius/Roedelius, “Cluster” e “Cluster II”. “Veiculo” é pele contra metal, algoritmo de uma lógica implacável em progressão para um impossível clímax. Como em “Crash”, de Cronenberg, pulsão sexual destituída de paixão.
                Em qualquer dos casos é uma outra música, caracterizada pela frieza e pela distância, que vem preencher os gráficos do imaginário tecnopsicológico dos anos 90. Na ficha técnica de “Weekend” os Kreidler fazem uma saudação a Klaus Dinger, figura proeminente da primeira geração do “krautrock” e membro dos Kraftwerk, Neu! e La Dusseldorf. A Alemanha volta a agitar-se com as manobras dos novos “men machine”.

14/12/2014

Rave do inferno [Número Festival]



SEGUNDA-FEIRA, 4 DEZEMBRO 2000 cultura

To Rococo Rot e Aphex Twin “combatem” no Número Festival, em Lisboa

Rave do inferno

Concerto para recordar, o dos To Rococo Rot, o melhor de todos os do Número Festival. Animada pelo espírito dos Can e pela visão de um futuro onde a eletrónica sorri com rosto humano, a banda alemã ofuscou nos dois últimos dias do festival a “rave” assassina de Aphex Twin e a gelataria tecno de Kid606.

Trava-se uma dura batalha entre duas fações antagónicas no panorama atual da música eletrónica e o Número Festival, que durante três dias decorreu em Lisboa, demarcou os territórios, contou as armas e arregimentou apoiantes para ambas as partes.
            De um lado perfilam-se os que persistem em encarar a música ao vivo como um ato de interação afetiva entre pessoas, com músicos no palco assumindo-se como executantes em tempo real, intérpretes de um ato criativo que exige a participação ativa de todos. Do outro, a legião dos Dj’s, manipuladores de sons e conceitos alheios, estrategas de uma nova ordem unificadora de um mundo cada vez mais dependente de estímulos e imagens.
            Na sexta-feira, o trio alemão To Rococo Rot deu uma lição de como fazer o espírito dançar. Armados de eletrónica, bateria e um baixo de voz “cósmica”, Stefan Schneider e os dois irmãos Lippok criaram uma música hipnótica, feita de subtilezas e impregnada de um swing que por mais de uma vez evocou o tribalismo etéreo dos Can. Não foi necessário levantar o volume de som a níveis incomportáveis para um ouvido saudável para prender a assistência – com temas retirados do álbum “The Amateur View” como “Telema”, “Prado”, “This sandy piece”, “Tomorrow” ou “Cars” – numa rede de prazer que roçou com suavidade o “chill out”, convocou os sequenciadores cruzados no espaço sideral dos Tangerine Dream e ligou os reatores num “groove” orgânico de ritmos tão complexos e ao mesmo tempo tão em sintonia com os maquinismos internos do corpo e da mente humanos. Música, se mais adjetivos, com sabor e textura, corpo e alma, frio e calor, com energia a circular em circuito aberto.
            Antes, Russell Haswell atuou de novo na mesa de DJing a compensar a ausência do agendado Richard H. Kirk, com a organização a não dar cavaco a ninguém do sucedido. Será o seu conceito estético de “música eletrónica” de tal forma unitário e despersonalizado ao ponto de promover a manutenção de uma “vibe” constante em detrimento da individualização? Refira-se, ainda assim, o superior desempenho do DJ inglês, bastantes furos acima da sua atuação na véspera, arriscando mais na imprevisibilidade e na abstração em padrões que procuraram demarcar-se do catálogo da temporada Outono/Inverno da música de dança…
            Sábado, pela primeira vez, não choveu. E o público correspondeu, proporcionando ao Número Festival a sua maior enchente dos três dias. People Like Us, alter-ego de Vicki Bennett, uma rapariga inglesa que aprendeu a usar a eletricidade com os Negativland, deu início ao programa com uma hora de atraso. Imagens e sons sincronizados num filme psíquico a abarrotar da imagética “kitsch” dos EUA dos anos 50, ora infetado por uma visão apocalíptica ora redimido pelo humor. Nada que os Negativland não tenham feito nos últimos 20 anos, deixando a sensação algo incómoda da senhora em palco se limitar a trocar os CDs e cassetes e carregar no botão “on”…
            Kid606, jovem aprendiz autor do recente e promissor “PS I Love You” foi ao vivo mais agressivo mas também mais previsível do que no disco. Alternou momentos de (alta) tensão com batidas tecno saídas do congelador. Notou-se a ausência dos “clicks” de estática, talvez porque as máquinas não estivessem bem desreguladas…
            Depois, bem, depois foi o massacre. Aphex Twin enfiou-se na mesa dos pratos quase sem ninguém dar por isso, agachou-se para escapar aos flashes que alguns fotógrafos de ocasião não paravam de disparar estupidamente aos seus olhos e, talvez por isso, vingou-se em todos, sem dó nem piedade. Assistiu-se a cerca de duas horas de violação auditiva, com o volume de som levantado a níveis que desafiaram até ao limite da capacidade de resistência dos tímpanos, numa demonstração de virtuosismo e de fúria que apelou às pulsões mais primárias do público. Das vísceras de um ”drum ‘n’ bass” e “hip hop” abocanhados na carnificina zombie do filme “Braindead” á tecno do inferno, passando por um “boogie-woogie” a 1000bpm, Aphex Twin foi a ilustração perfeita de um tempo que se aproxima do fim. “Rave” de homens-máquina amalgamados no “Empire State Human”, o super-homem, misto de orgulho e de lixo, que os Human League profetizaram em 1979 no álbum “Reproduction”. Mas dançou-se. Entre o fumo e as gotas de vapor de suor condensado que pingavam do teto. Dançou-se. Como se a dor fosse a derradeira e única orquestra que ainda consegue arrancar os corpos da inércia e do vazio. Dançou-se. A pedir à morte para se demorar ainda um bocadinho. Dançou-se. Como se não houvesse mais nada a fazer.

15/10/2014

To Rococo Rot & I-Sound - Music Is A Hungry Ghost



Y 25|MAIO|2001
discos|escolhas

TO ROCOCO ROT & I-SOUND
Music is a Hungry Ghost
City Slang, distri. EMI - VC
8|10

Mergulhar nos meandros mais obscuros da eletrónica sem perder a aura de romantismo crepuscular, foi o desafio colocado aos To Rococo Rot, com um dos seus principais elementos, Stefan Schneider, finalmente liberto das obrigações dos Kreidler. A parceria com I-Sound determinou a evolução do som no sentido do minimalismo e da abstração, invadindo os territórios de Vladislav Delay e Thomas Brinkmann. Mas o “swing” que distingue os To Rococo Rot das outras bandas eletrónicas do momento, arranca “Music is a Hungry Ghost” do convívio com a house e a tecno. Ainda que em temas como “How we never” esse balanço caia nos braços esqueléticos dos Suicide, em “Overhead” receba a bênção do velho Dieter Moebius e em “The trance of travel” manifeste uma costela Can. “From dream to daylight” é “música no Coração”, decorado pelo violino de câmara do convidado Alexander Balanescu. Mas algo mudou nesse romantismo. Tornou-se húmido e morno, parecendo escorrer do interior de uma bolsa amniótica.


28/08/2014

Tolas de Berlim [To Rococo Rot]



Y 24|Novembro|2000
multimédia|capa

to rococo rot

Tolas de Berlim

OS TO ROCOCO ROT oferecem uma panorâmica eletrónica e abstrata da cidade de Berlim. O Y entrevistou pelo telefone uma das três cabeças da banda, Robert Lippok, e propôs-lhe o número três como tema de entrevista. Lippok acedeu a fazer a contagem.
            Três cidades alemãs: COLONIA/DUSSELDÖRF/BERLIM
            “Colónia tem uma tradição forte na tecno minimal, o material da Kompakt, tudo isso. Ao ouvir algumas das novas bandas de Dusseldörf, como os Kreidler, é possível descortinar um elo oculto não só com a herança do krautrock como com a new wave dos anos 80, de grupos como os D. A. F.. Berlim tem artistas como os Jazzanova ou os Sonar Kollektiv, mais orientados para um ‘groove’ jazzy, com toques de bossa. Tem também o som da Basic Channel, um conceito muito puro do som”.
            Três nomes pioneiros da música pop eletrónica alemã: CLUSTER/PYROLATOR/HOLGER HILLER
            “Não conhecia muito bem os Cluster até descobrir há dois anos ‘Zuckerzeit’. Antes pensava que existiam poucas coisas a ligar as novas gerações ao krautrock mas ‘Zuckerzeit’ fez-me mudar de opinião, na forma como os Cluster estruturavam as imagens sonoras e criavam aquele tipo especial de melodias. Nos anos 80 ouvia os Einstürzende Neubauten, os D.A.F. ou os Der Plan. Foi nessa época que comecei a interessar-me pela “house” de Chicago”.
            Os To Rococo Rot fazem música de dança para a cabeça?
            “Já fizemos concertos em que as pessoas dançaram de facto. Quando isso voltar a acontecer não me posso esquecer de as fotografar! Existem coisas interessantes na música de dança que aproveitamos, num contexto diferente, como certas frequências e padrões rítmicos de tecno mais graves.”
            Três álbuns dos To Rococo Rot: “CD”/”VEICULO”/”THE AMATEUR VIEW”
            “’CD’ é mais experiemental. Foi feito por acaso. Tínhamos ganho dinheiro com uma exposição, eu assisti a um concerto dos Kreidler e decidi convidar o Stefan. Encontrámo-nos os três pela primeira vez em Berlim, o álbum foi gravado em dois dias, fizemos o ‘editing’ num instante, os ‘loops’, o baixo, a bateria, tudo registado num gravador de oito pistas. É um álbum rude e intenso. Trabalhámos da mesma maneira em “Veiculo” (o título em português foi escolhido pelo Stefan: ‘Vehikel’, em alemão, tem o mesmo significado por isso as pessoas aqui não têm dificuldade em compreender o seu significado, mas a palavra em português soa bastante melhor). ‘The Amateur View’ é diferente, o som é mais nítido e direto do que em ‘Veiculo’ que soa um bocado nebuloso”.
            Três ferramentas de trabalho: SINTETIZADOR ANALÓGICO/SAMPLER/POWERBOOK
            “Não fazemos questão de usar equipamento analógico. Os samplers são mais interessantes. Tenho em casa um velho Moog Satellite mas raramente o uso. Vem arrumado dentro de uma caixa, tem um aspeto maravilhoso mas é como domar um cavalo selvagem. Atenção, gosto dos velhos analógicos, mas não penso neles como se fossem o cálice sagrado. Quanto ao ‘powerbook’, costumava usá-lo nos concertos mas deixei de o fazer. O público olhava para nós como se estivéssemos a trabalhar num escritório e nós, em vez de olharmos para a assistência, olhávamos para a imagens num ecrã. Agora levamos para o palco uma bateria, tocada pelo Ronald, e o Stefan toca guitarra baixo”.
            Gostam de remisturar a música de outros artistas?
            “Sem dúvida. Já remisturámos, entre outros, os Tone Rec, Leftfield, Mira Calix, eu remisturei os Kreidler. É divertido manipular vozes e sons que de outra forma nunca entrariam nos To Rococo Rot. Já o contrário, sermos misturados por outros, nunca aconteceu. Preferimos encontrarmo-nos com outras pessoas e trabalharmos juntos no estúdio. Estamos a gravar o próximo álbum com dj I-Sound, de Nova Iorque”.
            Três editoras alemãs de música eletrónica: MILLE-PLATEAUX/a-MUSIK/SONIG
            “Na semana passada assisti a uma noite ao vivo com artistas da Mille-Plateaux, como Vladislav Delay. Influenciaram muita da eletrónica que se faz hoje, gente como os SND ou Curd Duca. Na a-musik o humor está também presente, o mesmo humor que pode ser detetado numa faixa nossa como ‘Cars’. Não somos uma banda conceptual, não queremos ficar sentados a discutir e muito menos torturar ninguém. Da Sonig destacaria ‘The Köln Konzert’, de Vert [espécie de clonagem cibernética de ‘The Köln Concert’, de Keith Jarrett], um objeto bizarro onde o espírito de Jarrett permanece estranhamente presente”.
            O seu Top Três pessoal e instantâneo de discos de música eletrónica:
            “Qualquer um dos volumes 1, 2 ou 4 da série ‘Easy Listening’ de Curd Duca; o EP ‘Fennesz Plays’, de Christian Fennesz, com duas versões para canções dos Rolling Stones e dos Beach Boys; ‘Eight Miles High’, do grupo com o mesmo nome”.

10/08/2014

O século da eletrónica kraut [Krautrock]



21 de Julho 2000

Dossier Alemanha

O século da eletrónica kraut

Existe um elo a unir a música eletrónica alemã dos anos 70, 80 e 90. O krautrock cedeu o lugar à “neue deutsche welle” e esta aos atuais magos do “powerbook”. Os sonhos da “kosmische muzik” transformaram-se em pesadelos industriais e estes deram lugar a brincadeiras de crianças. Mas há quem nunca tenha perdido a última carruagem deste comboio. O PÚBLICO traçou o mapa dos principais músicos, conceitos, movimentos que ao longo das últimas três décadas, na Alemanha, desenvolveram novas relações entre o Homen e a máquina.


ANOS 70: O SONHO

            Tínhamos ficado em meados dos anos 70, na Alemanha (ver “dossier” sobre Krautrock na edição do SONS de 7 de Maio de 1997). A eletrónica (pela via dos mestres “eruditos”, como Karlheinz Stockausen e Oskar Sala ou do space-rock-psicadélico excretado dos Pink Floyd de “Atom Heart Mother” e “Meddle”) mandava. Kraftwerk, Klaus Schulze, Tangerine Dream, Ashra, Faust, Can, Amon Düül II, Popol Vuh, Harmonia, Cluster, Yatha Sidhra, Mythos, Agitation Free, Eiliff, Wallenstein, Dzyan, Eroc, Achim Reichel, Embryo, Sand, Annexus Quam, Cornucopia, Brainticket, Cosmic Jokers viajavam pelos novos espaços abertos pelos osciladores e filtros LFO e VCF.
            As palavras de ordem eram: Kosmische, freakout, psicadelismo, planante, cogumelos mágicos, jam, space rock, experimentalismo, zen, meditação, free rock, LSD, improvisação, alucinação, sintetizadores gigantescos usados também como elementos estéticos/decorativos, agit rock, romantismo, vida em comuna, underground, ficção científica…
            Editoras principais: Ohr, Kosmische, Muzuk, Baccilus, Bellaphon, Brain, Kuckuk, Pilz, Sky.
            Quando o punk rebenta em Inglaterra o krautrock agonizava já com o rock sinfónico e o hard rock FM de bandas como os Atlantis, Eloy, Birth Control, Message, Jane e Triumvirat. Os clássicos que resistiram e prosseguiram carreira traçavam o seu próprio caminho alheios aos movimentos e às correntes de estilo: os Tangerine Dream vendem milhões e batizam a new age; Klaus Schulze troca de equipamento e regula pela 346ª vez os seus sintetizadores para tocar o mesmo tema na sua viagem sem fim pelo cosmos; os Can hipnotizam-se a eles próprios e Holger Czukay é o único que se mantém acordado; os Popol Vuh meditam numa igreja; os Embryo descobrem o jazz e a world music; os Faust entram num período de hibernação de 20 anos; os Kraftwerk transformam-se em robôs e inventam o som da modernidade.
            Mas era necessário fazer a transição do krautrock para os anos 80, acompanhando as novas revoluções da tecnologia, da sensibilidade e das ideias. Os principais transmissores do testemunho foram – depois da papinha ter sido toda feita pelos Neu!, punks “avant la lettre” – os La Dusseldorf, os Cluster e os D. A. F. Os La Dusseldorf fizeram a adaptação germânica da “new wave”, a chamada “neue deustche welle”, colando-lhe a batida electro-rock conhecida como “motorika”. Os Cluster abriram caminho ao “dark ambient” e ao industrialismo; os D. A. F. foram militantes do “disco” na versão sadomaso/militarista, escancarando as portas da cultura das discotecas. Uma última palavra de novo para os Cluster, que teriam de esperar mais uma década para verem o sentido lúdico da sua obra-prima, “Zuckerzeit”, ser reconhecido como absolutamente fulcral para o desenvolvimento de grande parte da produção eletrónica europeia dos nossos dias. Não estavam sós nesse papel: Kurt Dahlke, enquanto Pyrolator ou com os Der Plan, fazia com dez anos de antecedência a eletrónica brincalhona dos anos 90.

ANOS 80: A ENERGIA

            Desbravado o território, o cinzento e o niilismo dos anos 80 abateram-se com violência sobre os novos “eletrónicos” alemães. A música industrial (preconizada de forma exemplar na década anterior pelos Kluster/Cluster, em todos os álbuns até “Cluster II”, pelos Kraftwerk até rolarem na auto-estrada, e por Conrad Schnitzler na solidão da sua obra a vermelho, em “Rot”) foi rapidamente assimilada e posta em prática, como sempre acontece com a maior parte dos músicos alemães, na sua vertente mais radical e experimentalista. Como os Einsturzende Neubauten e a sua declaração de intenções de destruição não só do rock como de toda a música em geral, à frente de todos os outros. Ao lado deles, Dieter Moebius, em paralelo com o seu trabalho nos Cluster, punha igualmente em funcionamento a sua própria indústria de metalurgia, com o auxílio da eminência parda Conny Plank.
            Mas outros nomes emergem como pilares da eletrónica que vingou até aos nossos dias. Holger Hiller, vindo dos Palais Schaumburg, assina um trabalho, tão pioneiro como genial, de manipulação dos samplers. Holger Czukay investe com mais moderação na mesma área que corta a golpes de “dub”. Asmus Tietchens e Peter Frohmader perfilam-se ao lado de Conrad Schnitzler na elaboração de músicas sombrias que combinam as arquiteturas e o imaginário gótico com a maquinaria industrial e um ambientalismo do inferno que era o negativo da “cosmic music”. Michael Rother percorre a década a desenhar modelos românticos, adaptando a “motorika” a um “neo-easy listening” que mal se adivinhava nos dois principais grupos a que pertencera, os Neu! e os Harmonia. O segundo Cluster, Hans-Joachim Roedelius, hesita entre o piano impressionista, o ambientalismo de Eno e sonoridades mais experimentais.
            Com menor projeção internacional, mas representativos de uma originalidade assumida a cem por cento, destacam-se ainda: Klaus Kruger (considerado por alguns o Brian Eno alemão), H. N. A. S. (Hirsche Nicht Aufs Sofa), Die Krupps, Die Todliche Doris (lançaram uma edição composta por sete minúsculos discos de brinquedo, onde esses discos podiam ser tocados…), Propeller Island, Hubert Bognermayer & Harald Zuchrader, Camera Obscura, Cranioclast, Michael Obst, Peter Schaefer, Sträfe Für Rebellion, Jörg Thomasius, Uludag, Harald Weiss, Die Vögel Europas.
            Palavras de ordem: industrial, teatro, cabaré, maquilhagem, sintético, disciplina, uniforme, tecnologia, motor, bandeira, eletricidade, metal, vida na cidade, heroína, bizarro, máscara, homem-máquina, sampler, apocalipse.
            Principais editoras: Ata Tak, Badland, Erdenklang, Innovative Communications, Sky, Warning, Zick Zack.

ANOS 90: O PRAZER

            Tudo se vai, literalmente, misturar, nos anos 90. Logo no início da década, em 1991, os Kraftwerk cumprem pela última vez o seu papel de profetas, com o lançamento de “The Mix”. Pela primeira vez na sua música, a eletrónica, que durante duas décadas fora ensinada a emancipar-se no seio da música popular, nasce do reprocessamento e reciclagem de material antigo. Não é um ato de preguiça mas um ato de visão. Os Kraftwerk remisturavam os Kraftwerk. A música dos anos 90 remistura e remistura-se “ad infinitum”. Ralf Hutter e Florian Schneider tinham completado a sua obra. A partir daí o futuro deixaria de lhes pertencer.
            O computador, utensílio musical por excelência da década de 90, mostrava nesse álbum o seu rosto de grande reciclador, produtor de clones infinitos, enumerador, arquivador, programador. A música abandonava o conceito de colagem (de que o sampler fora o derradeiro e absurdo instrumento musical humanista) para se abandonar à ideia de síntese.
            Sínteses múltiplas de todas as músicas e de todas as tradições. É a era das “remixes”, das fusões outrora impossíveis, da aglutinação das experiências eletrónicas acumuladas nas quatro décadas anteriores. Trautoniums e theremins juntam-se aos Macs e PCs. O pós-rock junta os Moogs e ARPs analógicos às aparelhagens digitais. No fim, o powerbook (computador portátil) tudo domina e concentra nas suas mãos. Os grupos são alter-egos de um-músico-só. A eletrónica torna-se manipulação pura. Virtual. Mas haverá quem resista.
Ao grandes armazéns e fábricas dos anos 90 vem substituir-se o escritório. A eletrónica alemã, uma vez mais, vai tão longe quanto pode. “Grupos” como os Oval e Microstoria tomam conta dos sistemas de ar condicionado, dos scanners e das fotocopiadoras para criarem a banda sonora, já não dos “novos edifícios em colapso” dos Einsturzende Neubauten, mas de edifícios doentes, infetados pela poluição digital. Os suíços The User tomam o conceito à letra e compõem uma sinfonia construída a partir dos sons processados das entranhas de fotocopiadoras de agulha em funcionamento.
Mas, à semelhança do que aconteceu nas décadas de 70 e 80, a eletrónica alemã diverge em vários ramos. Três editoras em particular representam outras tantas tendências em vigor: a-musik, Mille Plateaux e a mais recente Storage Secret Sounds. No site da Mille Plateaux encontramos catalogações de estilo como “clickhouse”, “electronic listening”, “abstract hip hop”, “Elektroakustik”, “Noise” e “Musique concrete”. Pratica-se uma estética abstrata, conceptual, sistemática. Não sobram motivos de diversão nem para sorrir, mas , ao invés, para sofrer e ter medo. É a casa dos “powerbooks” de cenho fechado, dos estalidos de estática, das frequências puxadas até ao limite do inaudível, das programações sem piedade. No seu catálogo da net a música de um dos álbuns dos “operadores de escritório” Microstoria (de Markus Popp e Jan St.Werner) é definida simplesmente como “digital processing”, de resto um dos “géneros” preferenciais desta editora. A música já não como obra composta mas como o próprio processo “a priori”. A Mille Plateaux tirou a camada de tinta de cima da “man machine” dos Kraftwerk até deixar à vista apenas a estrutura de metal, como acontecia a Arnold Schwarzenegger em “O Exterminador Implacável”, título que poderia bem aplicar-se aos propósitos ideológicos e musicais da Mille Plateaux.
Principais nomes desta editora: Microstoria, Curd Duca, Gas, Terre Thaemlitz, SND, Porter Ricks, Christian Vogel, Pluramon.
A este reino do terro contrapõe-se a a-musik, uma tendência que ameaça tornar-se dominante. Aqui a eletrónica redescobre o prazer do som, das brincadeiras infantis, das programações Lego, das “private jokes”, das carícias dos ritmos e das melodias de carrossel. E do prazer que deriva, não da manipulação, mas do “velho” ato de “tocar”. Alguém na a-musik tinha guardados em casa “Zuckerzeit” dos Cluster e “Wonderland” dos Pyrolator e com esses dois discos construiu um mundo.
A a-musik surgiu na sequência da fusão de dois projetos: o coletivo de música industrial Kontakta, do qual faziam parte Christian Schulz e Frank Dommert, dos H.N.A.S., e a editora Erflog, fundada, entre outros, por Schulz, Dommert e Marcus Schmicker, dos Oval. Com a intenção de fazer “música industrial sem as imagens de atrocidade”, “techno sem o funk”, “new wave sem os penteados ridículos” e “eletro-acústica” sem a acústica”.
Principais nomes desta editora: F.X. Randomiz, Holosud, L@n, Sator Rotas, Schlammpeitziger, Felix Kubin.
Esta faceta lúdica é levada às últimas consequências na Storage Secret Sounds, no seio da qual artistas como Feliz Kubin (fica aqui melhor instalado do que na a-musik…), Nova Huta e Mikron 64 de deliciam a brincar numa cerca para bebés com plasticina, ursos de peluche e carrinhos de corda, e a ler histórias aos quadradinhos. A única regra é a do passeio pela feira popular. Feliz Kubin faz desenhos animados acústicos, histórias de BD para os ouvidos. Os Nova Huta (de Oleg Kostrow que não é alemão mas russo…) embrulham o easy-listening na banda sonora de um filme-negro e acompanham com uma orquestra sinfónica. Os Mikron 64 apanham o automóvel a technopop e programam melodias infantis em microcomputadores da primeira geração.
Outros nomes importantes: Arovane, Atom Heart, Bernd Friedmann, Bluthsiphon, Fetisch Park, Funkstörung, Konrad Kraft, Pole, Rechenzentrum, Sack & Blumm, Schneider TM, Sciss, Soul Center, Tele:Funken, Thomas Köner, Tied+Tickled Trio, Workshop.
Na Áustria cabe um papel importante aos Orchester 33 1/3, agora separado nas suas duas principais parcelas: Christian Fennesz e Christof Kurzmann, este último sob o pseudónimo B. Fleischmann. A editora que fundaram, a Plag Dich Nicht, transformou-se na Charhizma, para onde também gravam os Shabotinski.
No meio da confusão, alguns dos “velhos” continuam imperturbáveis: os Faust, ressuscitados pela mão de Jim O’Rourke, tornaram-se ainda mais os maus da fita, destruindo e incendiando os palcos por onde passam. Moebius prossegue nos Ersatz o seu percurso inigualável. Roedelius compõe sinfonias de eletrónica bizarra. Os Neu! e os La Dusseldorf fundiram-se na entidade coletiva dirigida por Klaus Dinger sob o genérico La! Neu?. Holger Czukay continua a esburacar. O espírito do “krautrock” revive nos Space Explosion, supergrupo formado por Moebius (Cluster), Mani Neumeier (Guru Guru), Jürgen Engler (Die Krupps), Chris Karrer (Amon Düül II) e Zappi Diermaier e Jean-Hervé Peron (ambos dos Faust). Quanto aos Einsturzende Neubauten, garantem que o silêncio é sexy e compões canções de amor…


10 álbuns dos anos 80

D.A.F. Gold und Liebe (1980)
EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN Halber Mensch (1985)
HOLGER CZUKAY On the Way to the Peak of Normal (1980)
HOLGER HILLER Oben im Eck (1986)
KRAFTWERK Computer World (1981)
MOEBIUS & PLANK En Route (1986)
DER PLAN Es Ist ein Fremde und Seltsame Welt (1987)
PROPELLER ISLAND The Secret Convention (1988)
PYROLATOR Wonderland (1984)
DIE VÖGEL EUROPAS Best Before (1989)

20 álbuns dos anos 90

B. FLEISCHMANN Pop Loops for Breakfast (1999)
ERSATZ Ersatz II (1992)
FUNKSTÖRUNG Appetite for Destruction (2000)
F. X. RANDOMIZ Goflex (1997)
HANS-JOACHIM ROEDELIUS Sinfonia Contempora No. 1 (1994)
HOLOSUD Fijnewas Afpompen (1998)
KONRAD KRAFT Alien Atmospheres (1996)
KREIDLER Appearance and the Park (1998)
L@N L@n (1996)
MICHAEL ROTHER Esperanza (1996)
MOUSE ON MARS Iaora Tahiti (1995)
ORCHESTER 33 1/3 Orchester 33 1/3 (1997)
SCHLAMMPEITZIGER Spacerockmountainrutschquartier (1997)
SHABOTINSKI (B)ypass (K)ill (1999)
TELE:FUNKEN A Collection of Ice Cream Vans vol.2 (2000)
THOMAS KÖNER Nunatak Gongamur (1990)
TIED & TICKLED TRIO EA1 EA2 (1999)
TO ROCOCO ROT CD (1996)
WORKSHOP Meiguiweisheng Xiang (1997)


Rococós

Começou por ser o nome de uma galeria de arte de Berlim, dirigida pelos irmãos Ronald e Robert Lippok, antes de se tornar o nome de um dos grupos mais interessantes e criativos da nova eletrónica alemã: To Rococo Rot. Os dois decidiram começar a fazer música chamando um terceiro elemento, Stefan Schneider, de outra banda recém-formada, neste caso oriunda de Dusseldorf, os Kreidler. Da primeira sessão realizada pelos três resultou o álbum “CD”, de 1995, uma coleção de sons eletrónicos plenos de força e originalidade, onde eram detetáveis as influências dos Can e de Dieter Moebius, dos Cluster. Ronald Lippok integrava ao mesmo tempo os Tarwater enquanto o seu irmão se dedicava a trabalhos de remistura e djing. Em “Veiculo”, segundo álbum dos To Rococo Rot, o som e as batidas tornam-se mais suaves, numa transição semelhante à dos Kraftwerk, de “Ralf and Florian” para “Autobahn”. Colaborações com Move D, da Source Recods, e D, da Soul Static, culminam na participação do DJ I-Sound numa das faixas do terceiro álbum da banda, “The Amateur View”.


Marcianos

Entre os inúmeros nomes da nova escola eletrónica alemã destaca-se o dos Mouse on Mars, dupla composta por Andi Toma (natural de Colónia) e Jan St.Werner (Dusseldorf). Cedo abandonaram a cena techno para se concentrarem na produção de sonoridades eletrónicas mais abstratas mas não menos desprovidas de “groove” que alternam o paisagismo alucinado e programações ora raivosas ora subliminares, nas quais são percetíveis as marcas deixadas pelos Cluster e pelos Kraftwerk. Eles gostam de citar igualmente os Can e os Neu!, com os quais dizem ter aprendido a “usar instrumentos ‘vivos’ como a guitarra, o baixo e a bateria”. Mas quem já os viu atuar ao vivo pode verificar que os instrumentos “vivos” que Andi e Jan utilizam estão mais de acordo com o espírito dos anos 90: um emaranhado de circuitos e dispositivos eletrónicos dispostos sobre uma mesa de trabalho a partir dos quais os dois alemães constroem uma barreira sónica que vai da hipnose ao massacre, do minimalismo brutal a cadências “clusterianas” em suspensão. Para ouvir com urgência são os álbuns “Vulvaland”, as danças mentais do novo “Niun Niggung” e, sobretudo, o disco que entrará para os anais do novo electrokraut, “Iaora Tahiti”.


NOTA (do SONS – dia 28 Julho): Algumas correções relativas ao texto “Um Século de Eletrónica Kraut” publicado na última edição do Sons. É Markus Popp o mentor dos Oval e não Marcus Schmickler, elemento dos Pluramon e “alter ego” dos projetos Wabi Sabi e Sator Rotas. Os The User compuseram uma sinfonia eletrónica, não para fotocopiadoras, mas para impressoras de agulha. Finalmente, Oleg Kostrow não faz parte dos Nova Huta.