13/05/2015

Mutantes - Tudo Foi Feito Pelo Sol



Y 14|DEZEMBRO|2001
escolhas|discos

MUTANTES
Tudo foi Feito pelo Sol
Gala, distri. Som Livre
7|10

É verdade que a produção dos anos 60 deste grupo brasileiro, marcada pelo psicadelismo e pelo visionarismo psicotrópico, é mais estimulante do que esta versão setentista, já sem a voz da hippie Rita Lee e com o abandono aparente do consumo de drogas alucinogéneas que faziam com que “Mutantes” ou “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado” soassem ainda mais esquisitos. “Tudo foi Feito pelo Sol” (1975) resultou, afinal, de uma evolução semelhante sofrida pela maioria das bandas inglesas, na transição dos anos 60 para os 70, isto é, do Psicadelismo para o Rock Progressivo. As colagens sem lógica, os “cut-ups”, o “nonsense” e os efeitos de estúdios geniais das primeiras obras deram lugar a solos de guitarra e teclados, temas longos, riffs onde o bom gosto não esconde a manifestação de um certo exibicionismo, e vocalizações esganiçadas que lembram os Deep Purple. Ainda assim, “Tudo foi Feito pelo Sol” sobrevive à vulgaridade. O que quer dizer que no meio dos clichés sobressaem ainda música descomprometida e lampejos da antiga loucura.

"Fonoteca Files 2001" arranca hoje



CULTURA
QUINTA-FEIRA, 13 DEZEMBRO 2001

Música improvisada no Teatro S. Luiz

“FONOTECA FILES 2001” ARRANCA HOJE

AMM, Zeena Parkins e Ikue Mori trazem às “Fonoteca Files 2” a liberdade de criação e as surpresas da “composição contemporânea”

Improvisar pode ser sinónimo de desenrascanço. Ou de desbunda. Mas nem sempre. Mas não necessariamente. Pode ser uma arte. Uma via de autodescoberta. Uma porta aberta para o desconhecido. As “Fonoteca Files”, ciclo de música improvisava cuja segunda edição se inicia hoje, com um concerto de Nuno Rebelo, Kato Hideki e Marco Franco, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, às 22h, têm sobre a música improvisada uma opinião mais sofisticada. Assim, segunda a organização, a “nova” improvisação (sim, há maneiras antigas e modernas de encarar e de domar o silêncio e o ruído que estão na origem de toda a música…) é “uma vivência dialética da pós-modernidade, musicologia espontânea duma estirpe minoritária de pensadores, solistas, compositores e orquestradores, rito vanguardista no sentido em que a sua praxis é um prodígio individual e/ou coletivo da técnica virtuosística e de manipulação de alguma cibertecnologia”
Improvisar será tudo isto. Ou, sintetizando: a capacidade apurada, por vezes transcendente, do músico se ouvir a si próprio, ouvir os outros e agir em conformidade. O grande improvisador deixa-se tocar pela música, reinventa-se a cada instante no contacto com a “sua” música e com a música dos que improvisam a seu lado. Alguns, os maiores, ardem e esgotam-se nesse contacto. Falamos de liberdade e devoção. Da liberdade da devoção, mas também do pânico, doo sublime e da loucura, de um Michel Portal, por exemplo, que soube romper os véus. Mas também de um Derek Bailey ou de um Evan Parker, outros dois grandes improvisadores que estiveram presentes no “Ciclo de Nova Música Improvisada” que antecedeu e preparou as atuais “Fonoteca Files”.

Improvisações livres
As “Fonoteca Files 2” têm como nomes mais fortes do seu programa os AMM (John Tilbury, piano, Keith Rowe, guitarra, Eddie Prévost, percussão), formação mítica da música improvisada desde os anos 60; e Zeena Parkins, harpista, que chega aureolada com a recente participação no último álbum de Björk. Joëlle Léandre (contrabaixo), Carlos Zíngaro (violino), Paul Lovens (percussão), Ikue Mori (eletrónica), Fred Van Hove (piano), Gerry Hemingway (percussão), Phil Minton (voz), Nuno Rebelo (guitarra, eletrónica) e Telectu são outros dos participantes, todos eles praticantes fervorosos no meio da improvisação.
            Se Zeena Parkins e Ikue Mori ultrapassaram a barreira exclusiva da improvisação, através do convívio regular com o rock e a pop – antes da participação no disco de Björk, Zeena notabilizara-se no universo híbrido da chamada escola Recommended, ao integrar grupos como News From Babel, Carbon (de Elliott Sharp) e Skeleton Crew; Ikue Mori fez parte do grupo de “no wave” DNA, sendo “descoberta” por John Zorn no célebre clube nova-iorquino, CBGB –, já os AMM conservaram intacta uma aura de esoterismo que os levou a nunca ceder aos imperativos de uma indústria ávida de catalogações, contra as quais as “Fonoteca Files” também se insurgem.
            Surgidos na década de 60 na sequência e como reação ao free jazz, os AMM integraram na sua primeira formação um músico e teórico que viria a tornar-se referência das vanguardas até aos dias de hoje: Cornelius Cardew, falecido em 1981 e objeto de estudo de uma biografia assinada por John Tilbury. Investidos da missão de fazer alargar os parâmetros, quer da composição “instantânea”, quer dos modos auditivos e percetivos do público, os AMM permaneceram firmes num dos lados da barricada, mas sem descurar uma sistemática abertura de espírito que os levou, nos anos do Psicadelismo, a tocar na primeira parte de concertos dos Pink Floyd ou dos Cream, ou a experimentarem a eternidade do minimalista La Monte Young.
            Como as “X-Files”, as “Fonoteca Files” oferecem mais do que um mistério para desvendar.


CARTAZ

CONCERTOS

Hoje, 13
Nuno Rebelo + Kato Hideki + Marco Franco
Axon + Fred Van Hove

Sexta, 14
Zeena Parkins + Ikue Mori
Telectu + Gerry Hemingway + Tom Chant

Sábado, 15
Joëlle Léandre + Carlos Zíngaro + Paul Lovens
AMM

LISBOA Teatro Municipal S. Luiz. Tel.: 213430805. Sempre às 22h. Bilhetes a 1500$00/dia

CONFERÊNCIAS E “WORKSHOP”

Hoje, 13
“The avant garde and improvisation on a minefield of misconceptions”
Conferência por John Tilbury

Sexta, 14
“Improvisação livre. A experiência britânica de uma mistura profana de coragem cultural e conveniência económica”
Conferência por Eddie Prévost

Sábado, 15
“Guitarra experimental”
Workshop por Keith Rowe

LISBOA Fonoteca Municipal. Tel.: 213541201. Conferências às 18h30; “workshop” às 15h. Entrada livre.