07/11/2015

Present - High Infidelity



Y 11|JANEIRO|2002
escolhas|discos

PRESENT
High Infidelity
Carbon 7, distri. Sabotage
8|10

Os Present são um projeto desde o início liderado pelo guitarrista belga Roger Trigaux, agora acompanhado, também na guitarra, pelo seu filho Reginald, e uma formação mista composta por músicos americanos e belgas. No final dos anos 80, os Present assinaram dois álbuns representativos do denominado “rock de câmara” europeu encetado na década anterior pelos Henry Cow e posteriormente disseminado pela editora Recommended: “Triskadekaphobie” e “Le Poison qui Rend Fou”. “High Infidelity” insere-se na mesma estética, uma música densa e expressionista, construída em extensas “suites” instrumentais dominadas pela guitarra frippiana de Trigaux. Como nos primeiros Art Zoyd ou nos Univers Zero, há um elástico esticado entre os King Crimson e os Magma, clímaxes de terror, dilúvios de cordas, mellotron e metais. Na longa queda no abismo de “Souls for sale”. No fabuloso delírio “free” do saxofone de Fred Becker, em “Rêve de fer”. No tétrico “Strychnine for Christmas” onde é revelado tudo o que você nunca quis saber sobre o Pai-Natal…

Renaissance - Tuscany



Y 11|JANEIRO|2002
escolhas|discos

RENAISSANCE
Tuscany
Giant Electric Pea, distri. Sabotage
5|10

Annie Haslam, a loura angelical, a voz de mel dos Renaissance, como tudo, como todos, envelheceu. O espelho não mente mas “Tuscany”, o mais recente álbum desta banda que insiste em sobreviver, procura, quase em desespero, redescobrir a beleza que é possível descortinar em álbuns mais antigos, como “Prologue”, “Ashes are Burning”, “Turn of the Cards” ou “Scheherezade and Other Stories”. Mas se uma escuta mais desatenta, ou nostálgica, conseguirá passar ao lado das inevitáveis diferenças que separam a produção dos anos 70 deste “Tuscany”, a verdade é que o tempo e, sobretudo, o espírito de uma época, não se repetem, algo que os Renaissance, como outras bandas suas contemporâneas ainda em atividade, preferem ignorar. Não que “Tuscany” seja um álbum intragável, nem tal seria possível, atendendo a que a voz de Annie Haslam continua com uma limpidez sem mácula, mas o que antes era inocência soa agora como deliberação. O Progressivo matizado pelos tons clássicos do piano de John Tout (aqui presente apenas como convidado) tornou-se, se não inaudível, pelo menos vulgar. Nada, porém, que a imaginação não consiga superar…

June Tabor - Rosa Mundi



Y 11|JANEIRO|2002
discos|escolhas

JUNE TABOR
Rosa Mundi
8|10
Topic, distri. Megamúsica

A voz já vai chegando com alguma dificuldade aos agudos, mas a classe permanece intacta. June Tabor construiu uma obra ímpar que tanto mergulha nas raízes mais profundas da folk britânica como se aventura na canção contemporânea. “Rosa Mundi” envereda em ambas as direções. Parece, no entanto, óbvio, que é no modo tradicional que a sua voz tem o seu lugar natural, a julgar quer pelo pouco à vontade com que aborda o “standard” “Roses of Picardy”, quer, no registo oposto, pelo tom arrepiante que confere ao tradicional “Deep in love”, uma das suas mais espantosas interpretações alguma vez registadas em disco. “Rosa Mundi”, subordinado ao símbolo da rosa, é ainda a prova de que June Tabor continua a procurar(-se) mais longe, ao cantar, pela primeira vez, em alemão (um tema do séc. XV), e em francês, algo que não fazia desde “A Cut Above” – embora aqui sem fazer esquecer a idêntica costela gaulesa de Shirley Collins – ou nessa outra experiencia que é dar voz à música de Tchaikovsky, em “The crown of roses”.

Maddy Prior & The Carnival Band - Gold, Frankincense & Myrrh



Y 11|JANEIRO|2002
discos|escolhas

MADDY PRIOR & THE CARNIVAL BAND
Gold, Frankincense & Myrrh
8|10
Park, distri. Megamúsica

Ao contrário da “rival” e amiga June Tabor, que enveredou em exclusivo por uma carreira a solo (as exceções são episódicas colaborações, com os Oyster Band e, precisamente, com Maddy, nas Silly Sisters), Maddy Prior nunca descurou o trabalho coletivo, quer o Steeleye Span, quer, mais recentemente, com os heterodoxos, divertidos, estimulantes e coloridos The Carnival Band, um híbrido com tanto de formação séria de música antiga como de troupe de foliões. E se June Tabor prefere a depuração instrumental, Maddy faz-se rodear nos Carnival Band por uma panóplia de instrumentos que vão da gaita-de-foles e da bombarda ao alaúde e às percussões étnicas. Um gosto pelo lúdico que em “Gold, Frankincense & Myrrh”, dedicado aos reis magos e aos animais do presépio, a leva para os territórios do cântico sacro, da música africana e da música árabe. Os Carnival Band também cantam polifonias, zurram e balem e, não haja dúvida, é com eles que Maddy se diverte. Ou… Carnaval é sempre que Maddy quiser.

VÁRIOS - Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0 + @C - +



Y 11|JANEIRO|2002
escolhas|discos

@C
+
8|10
VÁRIOS
Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0
7|10
Ed. e distri. Variz

Por uma vez, saúde-se o aparecimento de uma variz na perna enfezada da música eletrónica nacional, sinal de que corre nela ainda algum sangue. Em “+” dos @C encontramos o mesmo tipo de imponderabilidade e o conceito de “forma igual a conteúdo” que afetam grande parte da música eletrónica atual, na sua vertente mais programática. Sete temas, sem título, são outras tantas formulações improvisadas de um espaço de decifração articulado, nos meandros da mente digital. Ignorem-se antigos parâmetros de descodificação, padrões emocionais formatados por séculos de música acústica, o que “+” propõe, com extraordinária acutilância, é, precisamente, a mutação, esse algo “mais” capaz de acrescentar ao som eletrónico puro um novo corpo alucinatório. Mais ingrata será a tarefa de hierarquizar a diversidade de propostas contidas na antologia “electro-doméstica” da Variz. Importa, para já, destacar a disponibilidade e a quantidade de novos projetos que responderam ao repto lançado pela editora. Há uma cena nova a borbulhar. Mais difícil será retirá-la do espaço virtual onde, por agora, se abriga.