11/02/2016

DAT um estalo [DAT Politics]

Y 1|MARÇO|2002
música|braga eletrónica

Para os DAT Politics o importante é a “sujidade” digital. O “powerbook” como arma. A eletricidade como meio. A pop como objetivo. O espanto, o confronto, a rendição como consequências. Braga, o festival BRG2002, hoje e amanhã, que se acautele.

DAT um estalo

            Os DAT Politics não serão, como diz o outro, “uma famosa banda pop francesa”. Mas são a mais acutilante e aquela a cujos estalos eletrónicos é impossível ficar indiferente. Depois da visita, há dois anos, da banda irmã, Tone Rec, perspetiva-se novo confronto com a música lancinante saída dos seus computadores portáteis, na apresentação – BRG2002, em Braga – do novo álbum “Plugs Plus”, gravado para a editora das Chicks on Speed. Sedução e repulsa. Ou as duas juntas, como Claude Pailliot e Gaetan Collet explicou ao Y.

            São a “besta negra” da pop?
            Não temos quaisquer problemas com a pop, que escutamos há muitos anos. Quando começámos a fazer música, entre outras coisas, ouvíamos rock barulhento, mas também coisas mais voltadas para o grande público, como alguns grupos de “acid music” belgas. O importante não é o que se come, mas a maneira como se mastiga.
            O nome DAT Politics pretende chamar a atenção para algum aspeto artístico, ideológico ou tecnológico?
            É um jogo de palavras. Gostamos de poder utilizar a palavra “política” no contexto da eletrónica. Trata-se de intrigar, de desorientar o auditor, já que, a priori, a nossa música não possui qualquer dimensão política, pelo menos no sentido vulgar.
            Há quem chame à vossa música “laptop rock”. A definição agrada-vos?
            Digamos que se aplica perfeitamente a nós. Funcionamos como um grupo de rock, não improvisamos e trabalhamos muito a elaboração de cada tema. Os nossos “laptops” não estão ligados entre si, é uma espécie de “jam session” digital, por vezes difícil de digerir…
            Como descreveriam a evolução musical dos Tone Rec para os DAT Politics. As duas bandas continuam a existir em paralelo, ou os Tone Rec extinguiram-se?
            Os DAT Politics são uma mutação maximalista dos Tone Rec, mas com uma mesma tendência para os sons “sujos”. Os métodos de trabalho são semelhantes. De momento, os DAT Politics ocupam todo o nosso tempo e estamos entusiasmados.
            Há dois anos, quando atuaram ao vivo em Lisboa, a disposição em palco do grupo, com os músicos sentados aos pares, voltados de frente uns para os outros, lembrava os Kraftwerk Foi propositado.
            É verdade que vários nos disseram o mesmo. Mas é uma coincidência que advém do facto de sermos um grupo que trabalha com máquinas minúsculas.
            As pessoas veem apenas uns tipos debruçados sobre pequenos computadores. A dimensão espetacular dos concertos preocupa-vos?
            Concentramo-nos mais no som do que no show. Preferimos focar a nossa energia que pode desprender-nos dos sons. Neste momento assiste-se ao retorno de uma música de variedade (“Msuci hall”) eletrónica, com fatos espampanantes e muito espalhafato, o que alguns fazem de resto, muito bem… Mas a par de se criticar uns tipos com uns computadores portáteis que parecem uns chatos, não nos deveremos interrogar, primeiro, sobre a qualidade da música? As pessoas vêm ter connosco a dizer que ficaram espantadas com a música que fazemos com os portáteis. Muitas vezes ficam presas ao cliché do músico solitário sentado atrás da máquina. Utilizamos os computadores como instrumentos, sem nos preocuparmos com os aspetos técnicos.
            Mesmo considerando que outro dos vossos álbuns, “Villiger”, marcava uma rutura com a estética “clicks & cuts”, é lícito enquadrar os DAT Politics nesta corrente, como reação à tecno ou ao drum ‘n’ bass?
            Estivemos sempre à margem da tendência minimalista dominante do “clicks & cuts”, mesmo se temos um pé nesse circuito. Felizmente as nossas viagens levaram-nos ao encontro de artistas com os quais formamos uma escola alternativa mais permissiva e lúdica do que qualquer curso universitário de informática… Os nossos verdadeiros colegas de trabalho são Blectum from Blechdom, Felix Kubin, Chicks on Speed, Kid606, Goodiepal… Como nós, sentem a mesma atração por tudo o que é “sujo” e arriscado, perigoso…
            E em relação à música de “escritórios doentes” dos Oval ou Microstoria? Algumas afinidades?
            Apesar das músicas serem diferentes, sentimo-nos atraídos pelo trabalho desses melodistas informáticos, a quem se deve o aparecimento de uma escola de so “low-fi” digital, muito desestruturado mas refinado. No que nos diz respeito, não podemos deixar de aproveitar todo o tipo de desperdícios, mesmo os mais indigestos.
            Os DAT Politics são um caso isolado na cena eletrónica francesa, numa altura em que nomes como Air, Daft Punk, Alex Gopher ou Étienne de Crécy alcançaram projeção no mercado internacional?
            Todos esses nomes são como que as primeiras superpopstars do nosso país, o que trouxe uma dinâmica positiva, mesmo quando a música soa formatada… A nossa música tem um potencial comercial mais fraco. Mas como as coisas estão sempre a mudar… Há semanas atrás, Benjamin Diamond, cantor dos Stardust, depois de assistir a um dos nossos concertos disse que tinha gostado imenso da música mas que nós éramos loucos!
            O lado lúdico da vossa música não é tão evidente como no caso dos Schlammpeitziger, Mouse on Mars ou Isan. Uma conceção diferente de humor.
            Gostamos bastante da família das editoras a-musik e Sonig, musicalmente sentimo-nos próximos desse espírito de festa que as caracteriza, mas o nosso passado “bruitiste” atraiçoa-nos sempre. Gostamos de sonoridades rugosas. Sem dúvida, a nossa música possui um humor diferente, os nossos colegas alemães tem tendência para intelectualizar as suas produções, tradição que não possuímos.
            Em “Tracto Flirt”, como em “Sous Hit”, funcionam em registos diferentes: um mais “noisy”, outro… dançável… O novo “Plugs Plus” saiu no selo das Chicks on Speed, e o vosso nome aparece ligado ao emergente “Nouveau Disko”, com as Chicks on Speed, Peaches, Miss Kittin… Uma reorientação?
            O novo álbum é diferente dos anteriores mas é também uma continuação de “Sous Hit”. Tem momentos muito ruidosos mas também algumas canções, cantadas por amigos que convidámos, como Blectum from Blechdom, Felix Kubin e Matmos, o que confere a “Plugs Plus” uma dimensão talvez mais pop. Fomos associados aos “Nouveau Disko” porque também utilizamos sonoridades dos anos 80, sem que tal signifique saudosismo. A maior parte das correntes atuais não nos interessa.
            Um pequeno jogo. Escolha sem pensar, uma das alternativas: Air ou Pink Floyd?
            Pink Floyd. Pelo caleidoscópio dos vídeos e as montagens alucinatórias.
            “4.33” de John Cage ou “Metal Machine Music”, de Lou Reed?
            “Metal Machine Music”, um dos mais belos discos a solo de “Megalolou”.
            Kraftwerk ou Cluster?
            Kraftwerk. Pelos cortes de cabelo.
            Powerbook ou sampler?
            Power PC. É muito mais leve…
            Moog ou Mellotron?
            Moog. Mesmo se só Felix Kubin tenha conseguido pôr a funcionar o nosso…
            Física ou matemática?
            Física. De sedução-repulsa.
            Cérebro ou pés?
            Pés. Sem saber com qual dos dois dançar…
            Estética ou Política?

            Estética da desordem. Silicone e turbomamoplastia.

01/02/2016

De quem é a culpa, Marianne? [Marianne Faithfull]

Y 22|FEVEREIRO|2002
marianne faithfull|música

Deram o braço a Marianne em “Kissin Time”, Beck, Etienne Daho, Billy Corgan, Jarvis Cocker e Damon Albarn. Não foi suficiente para afastar a culpa que enferma a carreira da cantora.

de quem é a culpa, marianne?

A vida e a música de Marianne Faithfull têm sido uma sucessão de máscaras e cicatrizes. De “groupie” inocente que fugiu de um colégio de freiras a “junkie” afogada no desespero, de princesa pop a megera, de amante de Mick Jagger a solitária militante, as últimas quatro décadas foram percorridas numa deriva musical que corresponde, afinal, ao corropio de choques existenciais que lhe sulcaram a voz e o rosto.
Foi a loura angelical dos anos 60 que chorava “As tears go by”, a “irmã morfina” dos Stones, a bruxa que tenta romper as malhas eletrónicas de “Broken English”, a dica weilliana de “The Seven Deadly Sins and Other Songs”, a “jazz singer” na noite dos sentimentos de “Strange Weather” (o seu melhor álbum), a voz de sonâmbula embrulhada nos esconderijos misteriosos de Angelo Badalamenti de “A Secret Life”. Uma mulher, enfim, que aos 56 anos continua a procurar paz e equilíbrio.
            A mais recente aventura discográfica é um álbum de colaborações, “Kissin Time”. Participaram artistas tidos como seus seguidores: Beck, Etienne Daho, Billy Corgan (dos extintos Smashing Pumpkins), Dave Stewart, dos Eurythmics, Jarvis Cocker, dos Pulp, Damon Albarn, dos Blur. Tem capa expressionista, colorida por manchas de tinta fosforescente, a tapar-lhe o rosto e o corpo. No interior as manchas transformam-se em formas abstratas. Tao abstratas como as emoções que atravessam as 11 canções? É o que procuraremos ver, faixa a faixa.

Sex with strangers
Primeira das várias participações de Beck que, além de compositor, se encarrega das programações, do sintetizador e da percussão e faz uma perninha nos apoios vocais. Com rótulo de “êxito” colado na cara, é o single evidente que soará entusiasmante para uns e vulgar para outros. “Sex with strangers/Maybe sex with someone else/You have nothing left inside/Bored, you’d try a little danger” (uma das canções do álbum “Blazing Away” chamava-se, aliás, “Passion for danger”…). Tal prática não será para todos e encerra riscos, mas pelo lado da música o risco é nulo: batida funky acompanha as palavras declamadas, algures entre D.A.F., Laurie Anderson e… Beck himself.

The pleasure song
A eletrónica de novo, ainda num registo convencional, mas com Marianne mais próxima do seu passado, numa canção assinada a meias por si, Etienne Daho e Les Valentins. “So much more to know”, garante ela com convicção. Concordamos em absoluto. Até porque “The pleasure song” poderia passar bem por uma canção dos Depeche Mode.

Like being born
Segunda presença de Beck na composição, e aqui também como guitarrista. Revisitação do passado, aos sonhos desfeitos, às promessas dos pais, a busca do tempo perdido. Proust disse o mesmo no seu calhamaço. A Marianne Faithfull basta-lhe sussurrar: “It’s like being born”. Vagamente country, tem o brilho das estrelas que não se conseguem tocar e é uma das melhores canções do disco.

I’m on fire
A nostalgia dos anos 80 ao ataque. Comercial até dizer chega, lembra mil e uma coisas, dos Yazoo aos farsolas neo-românticos. Serve para Marianne pedir amor (todas as canções do álbum falam de uma maneira ou de outra do mesmo, mas o que é que se há-de fazer, dizem que faz parte do compêndio…). É claro que não o recebeu e o tema passa depressa, mal servido por um Billy Corgan que, convenhamos, não terá sido nunca um Beethoven da pop.

Wheverer I go
De novo saído da inspiração de Billy Corgan, volta a soar a algo já ouvido, desta feita aos Velvet, matizados de Black e com a melodia apoiada num ritmo básico que, uma vez mais, conduz a música para os terrenos estafados da pop eletrónica das últimas duas décadas. O mesmo que Leonard Cohen pisou no recente “Ten New Songs”. Foi chão que já deu uvas, mas ainda cresceu nele um verso como “Da da da da da da da da da”.

Song for Nico
A música, co-composta por Dave Stewart, está longe de se assemelhar aos Velvet, o que não deixa de ser curioso uma vez que se trata de uma evocação de Nico que é também um lamento sobre a inexorabilidade do tempo. O fantasma de Cohen assombra novamente uma melodia que parece suspensa do contar da história, que Marianne desenha em traços largos embora não se tivesse esquecido de citar os nomes dos sucessivos amantes de uma artista que, depois de morta e sem que nada o fizesse prever, volta a estar na ribalta (edição de uma antologia, a canção “These days” incluída na BSO de “The Royal Tenenbaums”, de Wes Anderson). “She’s in the shit, though she is innocent”. Nico, entenda-se. Marianne já se deixou disso.

Sliding through life on charm
Ou como Jarvis Cocker conseguiu transformar Marianne Faithfull numa versão rock de Amanda Lear. O tema é decadente e “camp” à maneira dos Pulp – “Suburban shits who want some class/All quele up to kiss my ass/(…)And crepes who want to fuck a nun on drugs” –, mas funciona como descarga efetiva de algumas das paranoias jamais exorcizadas pela cantora, em particular o sentimento de culpa.

Love & Money
Entre Lou Reed e um sumo bebido nas Caraíbas, a “high life” segundo a visão sarcástica da cantora e de David Courts, seu colaborador de longa data e responsável por “Vagabond Ways”, canção que dá título ao seu anterior trabalho. “Is it a crisis? Is it a crime? Or is it a fantasy? Does it take time? Will it cost money? Will it mean love? See you at the parties, you’re never the same”. Muitas perguntas para uma resposta: “You hold your head high with one foot in the grave”.

Nobody’s fault
Beck e o seu grupo numa canção do álbum “Mutations” cederam a Marianne o papel de catalisadora da uma canção que percorre o amor das suas múltiplas vertentes, naquela estrada longa que une o inferno ao céu, a alegria e a perda, a inocência e a decadência. Eletrónica, presa numa orquestra de farsa, as águas estagnadas de um vibrafone criam uma atmosfera de agonia que, no final, se revolve na assunção final (uma vez mais) da culpa: “It’s nobody’s fault bit mine”.

Kissin Time
Outro tema de se fugir ou capaz de suscitar reações apaixonadas, consoante a empatia com a música dos Blur, já que Damon Albarn é aqui o compositor e segundo vocalista de serviço. Deliberadamente repetivivo, com uma batida pachorrenta e a voz irritante de Damon aos beijos nos Bee Gees de “Tragedy”. Não chega a ser uma tragédia, mas também não será propriamente a forma mais digna de preencher uma canção cujas palavras anseiam pela eternidade.

Something good
Mas pronto, “Something good”, “standard” pop composto nos anos 60 por Gerry Coffin e Ethel McCrae para os Herman’s Hermits, termina “Kissin Time” numa nota de otimismo. Ao mesmo tempo redime Billy Corgan, que ao assegurar todas as intervenções instrumentais consegue transpor o tom bubblegum do original para uma inusitada emulação dos Pet Shop Boys.

MARIANNE FAITHFULL
kissin time
Virgin; distri. EMI-VC

6|10

Boards Of Canada - Geogaddi

Y 22|FEVEREIRO|2002
escolhas|discos

BOARDS OF CANADA
Geogaddi
Warp, distri. Zona Música
7|10


Cada vez se torna mais difícil evoluir por caminhos virgens na super-povoada autoestrada da eletrónica atual mais conotada com a noção de entretenimento. Os Boards of Canada regressam quatro anos volvidos sobre “Music has the Right to Children” com uma fórmula já descrita como “scientific psychedelic music”. Não é apenas pela insistência nas imagens caleidoscópicas ou na escolha de títulos como “Dandelion”, “1969” ou “Magic window” que “Geogaddi” evoca as pinturas sonoras marginadas pelo “Verão do Amor”, mas sobretudo pelo modo como o duo não tem pejo em recorrer a ‘loops’ ou a orientalismos modais na elaboração das suas arquiteturas oníricas. Música, como a dos Plaid, mais vocacionada para a contemplação do que para a excitação dos centros motores, “Geogaddi” não dispensa porém a inclusão de discretas batidas hip-hop, dando consistência, talvez despropositada, a uma tapeçaria incandescente na qual, como diz um dos temas, “the devil is in the details”.

Manifesto da digital politik [DAT Politics]

Y 22|FEVEREIRO|2002
roteiro|ao vivo

manifesto da digital politik

Uma anedota posta a circular na web definia os DAT Politics como uma famosa banda pop francesa. Definição carregada de ironia, foi de imediato descodificada pelos mais conhecedores de uma ramificação da nova eletrónica que junta terroristas do computador como Kid606, Matmos, Lesser ou Blectum from Blechdom. Através de uma dialética do absurdo, procurava definir-se, pelo seu oposto, a música do coletivo francês que, na 5ª feira, se estreia ao vivo no nosso país, para apresentar o quarto álbum, “Plugs Plus”.
            Por vezes, o que se apresenta como piada ganha veracidade, fazendo sentido o que antes não pretendia ser mais que “boutade”. Numa primeira leitura poderá parecer ridícula qualquer opinião que situe a banda francesa, originária da zona industrial de Lille, dentro dos parâmetros da pop, dando origem a equívocos nascidos da quase instintiva associação do binário “pop francesa” aos Air ou aos Daft Punk. Caminhar nesta direção desembocaria num beco. Mas é possível analisar o problema de outro ângulo.
            Os DAT Politics – Claude Pailliot, Gaetan Collet e Vincent Thierion – derivam do trabalho pioneiro de outra banda francesa, os Tone Rec, autores de um álbum, “Pholcus”, que deitou por terra as ideias feitas sobre o que era o pós-rock de feição eletrónica. Mas se os Tone Rec (que o público português viu ao vivo, há dois anos, no festival Reset) lançavam as suas cargas de dinamite digital recorrendo ainda a detonadores com a forma de guitarras elétricas e bateria (reais ou simuladas, o que os colocava numa zona próxima dos Young Gods), embora o computador portátil (laptop) constituísse já a arma mais mortífera do seu arsenal “noise”, os DAT Politics tornaram-se o corolário lógico dessa estética de rutura que é também ideologia e manifesto tecnológico.
            Os Tone Rec apresentaram-se no Reset compondo um simulacro dos Kraftwerk – os músicos voltados aos pares de frente uns para os outros, em pose de técnicos atarefados com a programação das máquinas. Mas enquanto os alemães recorriam ainda ao romantismo dos sintetizadores analógicos, os franceses eram extensões orgânicas de minúsculos processadores digitais, figuras estáticas alinhadas com os ecrãs e canetas de contacto com os seus “laptops”, dos quais brotavam sons em que a violência não escondia a existência de memórias enraizadas na tradição do krautrock ou da sua correspondente gaulesa (Pôle, Heldon, Bernard Szajner…).
            Os DAT Politics esticaram o elástico até ele se partir. “Villiger” e “Tracto Flirt” fabricaram uma estética sonora balizada pela dor e pelo estalo digital, que rompia violentamente com o laboratório da “clicks & cuts”. Mas a esquizofrenia espreitava. A par das lancinantes estocadas desferidas pelos “laptops” (há quem defina esta música como “laptop rock”…), nasciam já melodias e fragmentos de groove aonde se descortinavam os alicerces de “dance floors” de um futuro vestido de bata branca.
            “Sous Hit”, de 2001, começa com uma sequência de nove temas de escassos segundos, que são outros tantos assaltos brutais à saúde dos tímpanos e das colunas da aparelhagem: estilhaços digitais violentos nos quais toda a música parece desmoronar-se. Eis-nos, finalmente, perante os “sous hit” da pop, na sua expressão mais lancinante. É também uma paródia: o hit (ou “tube”, como lhe chamam os franceses), como a afirmação explosiva da nova tecnologia, demonstração de agressividade da Indústria.
            Duas reações possíveis: fugir ou continuar em frente. Quem avançar até ao ruído limite dos DAT Politics encontrará um outro lugar, onde a tempestade se ordena de acordo com uma estranha matemática de canções e refrões. Unificados já por uma nova forma de escuta em que a pop é sinónimo de sobrevivência. Algo parecido com o espaço de imobilidade demente que se abre no olho de um furacão.

DAT POLITICS
Lisboa|Galeria Zé dos Bois

5ª, 28, às 22h. Tel. 213430205

28/01/2016

Caravan - Caravan

Y 15|FEVEREIRO|2002
discos|roteiro

CARAVAN
Caravan
Verve, distri. Universal
8|10


Faltava o álbum de estreia para ficarem completas as remasterizações da discografia mais relevante dos Caravan, banda emblemática de um movimento, com origem nos anos 60 em Canterbury, que teve nos Soft Machine, Gong, Egg, Matching Mole ou Hatfield and the North outros dos seus expoentes. Mas os Caravan eram especiais na medida em que a sua música aliava uma pureza que hoje se pode considerar impossível de reproduzir (o grupo continua em atividade, ao fim de 36 anos…) com o espírito de uma Inglaterra surreal que, no campo do Progressivo, os Genesis, de “Nursery Cryme”, também souberam vislumbrar. Ao contrário, porém, da banda de Peter Gabriel, os Caravan baseavam as suas canções no jazz e num psicadelismo reformista, segundo uma fórmula de fazer a pop swingar que apenas teve paralelo nos primeiros e canterburyanos álbuns dos Soft Machine. Sem a complexidade orquestral dos posteriores “If I Could do it all over again, I’d do it all over you” e “In the Land of Grey and Pink”, “Caravan” tinha já, porém, o dom de tocar nas melodias com uma varinha de condão.

Mulher fatal [Nico]

Y 15|FEVEREIRO|2002
discos|roteiro

nico mulher fatal



Não fora o contrassenso, diríamos que nunca a música de Nico soou tão radiante como nesta antologia em que, pela primeira vez, a sua música foi objeto de remasterização. É que o sol e a luminosidade nunca fizeram parte do vocabulário musical e existencial da “deusa da lua”, como já chamaram à ex-modelo, atriz de Fellini em “La Dolce Vita”, amante de Brian Jones, Bob Dylan, Lou Reed, Jim Morrison e Alain Delon, e cantora no mítico álbum da banana dos Velvet Underground, que a 18 de Julho de 1988 morreu de um ataque cardíaco, quando passeava de bicicleta em Ibiza, e que de si própria dizia: “sou uma completa estranha para mim mesmo”.
“Innocent & vain” arranca com “I’ll keep it with mine”, do álbum de estreia de 1966, “Chelsea Girl”, mas a novidade é a inclusão de uma versão alternativa (sem vozes masculinas) de “All tomorrow’s parties”, o hino com sabor a espumante estragado de “The Velvet Underground & Nico”, de onde foi igualmente retirado “Femme fatale”, cápsula de amor e cianeto, derradeira golfada de ar ainda não completamente saturado que Nico respirou antes de se lançar nas águas gélidas da noite.
Mas se “Chelsea Girl” era ainda a vida, embora já manchada pela mágoa, e o calor de alguma humanidade, os dois álbuns seguintes, “The Marble Index”, equivalente musical de uma lápide funerária, e “Desertshore”, marcado pelo cinema poético-suicidário de Philippe Garrel, apresentavam já o som gótico e mortuário por que haveria de ficar “conhecida”, com a sua voz arrancada dos abismos a arder em combustão fria na religiosidade de um órgão de pedais. Ainda que nenhum destes dois álbuns (por razões contratuais?) contribua para o alinhamento da presente antologia, o seguinte, “The End” (1974) faz-se representar por quatro: “You forget to answer”, “Valley of the kings”, “Secret side” e “Innocent and vain”, exemplos tão gloriosos como trágicos da música em forma de dilúvio interior de Nico, tornada rainha por breves instantes pela produção majestosa do seu antigo companheiro nos Velvet, John Cale.
“Innocent & Vain” termina com o tema-ícone daquele álbum, uma espantosa e descarnada interpretação de “The end”, de Jim Morrison, aqui curiosamente através da versão ao vivo incluída em “June 1st, 1974”, litania do fim a contrastar com as canções dos seus companheiros neste trabalho, Kevin Ayers, John Cale e Brian Eno.
14 anos após a sua morte, 17 após a gravação do seu último álbum, “Camera Obscura”, a música de Nico continua a petrificar-nos com o que, a propósito de “The Marble Index”, o jornalista Lester Bangs definiu como “a paixão escondida por detrás de uma auto-tortura sem sentido”.

NICO
Innocent & Vain – An Introduction to Nico
Island, distri. Universal

8|10

Julian Cope - The Collection

Y 15|FEVEREIRO|2002
discos|roteiro

JULIAN COPE
The Collection
Ed. e distri. Universal
7|10


Depois de louco é que o homem brilhou com intensidade máxima. O “louco”, já adivinharam, é Julian Cope, “Saint Julian”, o ex-líder dos Teardrop Explodes que se fez fotografar vestido com uma carapaça de tartaruga, é tu cá tu lá com os extraterrestres, o cartógrafo da Inglaterra secreta dos druidas, escritor, erudito do krautrock, “acid head”, demente, genial e, acima de tudo, rocker de alma e coração. A “loucura” adveio com “Peggy Suicide” e, a partir daí, cada novo álbum é melhor que o anterior, de “Jeovahkill” a “Autogeddon” e “20 Mothers”, culminando na bíblia do “space rock” dos anos 90 que é “Interpreter”. “The Collection” não consegue, no entanto, aguentar a pedalada, preferindo mostrar o Julian Cope “relativamente normal” de “St. Julian” e “My Nation Underground”, indo o atrevimento até “Jeovahkill”, de 1992. O que significa que o Cope épico e espacial da atualidade foi preterido a favor do compositor de clássicos pop como “Sunspots”, “Pristeen” e “Beautiful love”. Não será, pois, uma odisseia no espaço mas uma amostra explosiva dos preparativos que antecederam a largada do foguetão.