08/03/2016

Atomic Rooster - Heavy Soul

Y 10|MAIO|2002
roteiro|discos

ATOMIC ROOSTER
Heavy Soul
2xCD Sanctuary, distri. Som Livre
7|10 

“Heavy Soul” é um título que assenta como uma luva na personalidade do líder e teclista dos Atomic Rooster, Vincent Crane. Fantasma da ópera do órgão Hammond, Crane fez parte do “Crazy World” do vocalista louco Arthur Brown, antes de fundar o galo atómico. Problemas psicológicos, aliados ao gosto pelo oculto e pelas sonoridades “doom”, culminaram no seu suicídio, em 1989, no Dia dos Namorados. “Heavy Soul” passa em revista o melhor dos Atomic Rooster, concentrando-se o melhor deste melhor no primeiro álbum, em temas de uma beleza desolada, como “Winter”, versão do clássico de John Mayall, “Broken Wings”, e as faixas tiradas dos dois melhores discos da banda, “Death Walks Behind You” e “In Hearing of”. Senhores de um “riffing” mórbido, coloriram o rhythm’n’blues com o vudu de um “mardi gras” de New Orleans. O segundo disco da antologia apresenta o galo na sua versão “soul” e menos interessante, a cavalo nas vocalizações espalhafatosas de Chris Farlowe.

07/03/2016

A revolução industrial [Electro]

Y 3|MAIO|2002
música|electro

Quando o artifício se torna futilidade, a revolta irrompe. Na pop a revolução chegou como um terramoto. Hoje o que sobrou dela serve para dançar. Mas quando as alavancas se moveram para triturar, fez doer.

A revolução industrial

A pop, como tudo o que nasce, cresce e morre, é dialética. Avança, para ou recua, por ações e reações, sínteses e recusas, não sei quantas revoluções por década, ano, mês, hora, dia minuto, segundo. No final dos anos 70, estava exangue. Em apenas sete anos, de 1970 a 1977, viu passar-lhe por cima o rock progressivo e o cutelo do punk. Mas a verdadeira violência, a genuína revolução, viria no estertor da década e tinha outro nome: música industrial.
            Três fatores determinaram a morte e enterro do punk e eclosão do novo movimento: a história, a geografia e a tecnologia. É que se os primeiros sintetizadores Moog, Korg e ARP, com o seu emaranhado de cabos e botões, eram espaciais que convidavam à exploração das estrelas, tocados como um instrumento tradicional, os novos modelos, mais compactos,


Hoje as fábricas continuam a funcionar.
Lá dentro trabalha, infatigável, uma horda de operários-fantasma.


 apostavam nos automatismos, o que, desde logo, sugeria um outro tipo de utilização, mais concentrada nos ritmos sequenciados (robóticos), na programação e nos timbres metálicos.

            óleos pesados. A música industrial “nasceu” (ou não, como veremos…) em Inglaterra através de grupos como Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire e Hula e, com outro enfoque, nos EUA (Suicide), Chrome), ganhando ramificações na Alemanha (Einsturzende Neubauten), Austrália (SPK) ou Polónia (Holy Toy). Como reação, por um lado ao niilismo “no future”, dos rebeldes sem causa, do punk, e por outro ao artificialismo da nova vaga glam dos “novos românticos” (Spandau Ballet, Classix Nouveau, Visage…) que por volta de 1979 já infestavam as “charts” britânicas.
            A uns e outros os “industriais” responderam com ideias e óleos pesados, introduzindo uma filosofia, por mais ambígua e terrífica que se viesse a revelar, e uma estética, no vazio promulgado pelas fações do alfinete na orelha e do rímel nas pestanas.
            Inevitavelmente, o terramoto teve o epicentro nas cidades industrializadas. Sheffield, Inglaterra. Akron e Pensilvânia, EUA. Se em Inglaterra o punk se tornou golpe de marketing nas mãos de Malcolm McLaren (os The Clash terão sido a única banda politizada do movimento, da mesma maneira que os Wire podem ser encarados como percursores da “cold wave”), nos EUA a new wave, personificada por bandas como Pere Ubu, Residents, Devo, Wall of Voodoo ou Talking Heads, assimilara já os fundamentos – uma urbanidade psicótica, a angústia do “overloading” da informação, misturados com uma atitude rock que vinha de trás, dos Velvet, MC5 ou Stooges –, que viriam a extremar-se na música industrial propriamente dita, em particular na obra-prima de estreia assinada em 1977 pelos Suicide.
            Enquanto isso, em Inglaterra havia quem, embora continuasse a retocar a maquilhagem, abrisse já os olhos para a nova e fria realidade. Bowie chegou a Berlim, ainda ressacado de cocaína, para, sob a influência dos Kraftwerk, Neu! e Cluster, e do Brian Eno de “Before and After Science”, gravar a trilogia “Low”/”Heroes”/”Lodger”. Também os Human League, antes de se converterem às delícias da electropop, bateram na bigorna do “industrial” no EP “The Dignity of Labour”, metal, eletrónica e minimalismo que aproveitaram da melhor maneira nos dois grandes álbuns do grupo, “Reproduction” (1979) e “Travelogue” (1980). Fad Gadget (recentemente falecido) e os Tubeway Army, de Gary Numan, conferiram um esgar humanista a uma “cold wave” que viria a acelerar em alta velocidade para o industrialismo puro e duro.
            Casos mais sérios eram os dos Throbbing Gristle, de Genesis P. Orridge, o anti-cristo da pop, e dos Cabaret Voltaire. “Second Annual Report” ou “D.O.A.” (“Deado n Arrival” sigla usada para classificar os que chegam mortos aos hospitais), dos primeiros, e “Mix-up” e “Voice of America”, dos segundos, são gramadas prontas a explodir na cabeça de quem tiver menos cuidado. Yves Adrien, jornalista francês da revista “Rock & Folk”, e dos primeiros a teorizar sobre a “cold wave”, compreendeu-o bem. Num dos seus artigos cita uma conversa tida com Orridge nas imediações de Auschwitz (“preparada para voltar a funcionar!”, como fez questão de notar o terrorista sónico inglês) em que este confessara a premissa ideológica que fazia mover os Throbbing Gristle: “A banalização do horror torna-o vulgar e aceitável”.
            Num polo mais estetizante da música industrial inglesa, os Test Dept eram festivos, com a sua proposta globalizante de percussões metálicas, ritmos tecno e gaitas-de-foles guerreiras. Foram eles os Wagners da “industrial”, dos grandes rituais multimédia, embora um dos seus primeiros e mais traumáticos trabalhos se intitulasse “The Unacceptable Face of Freedom”…
            A música dos Throbbing Gristle e dos Cabaret Voltaire soava como uma orgia de dor e de ruído, cacofonia de sons e imagens aterradoras arrancadas a um quotidiano feito de loucura, alienação, pornografia, tortura e morte. O paganismo e a experimentação em torno do tridente magia negra/tecnologia/técnicas de propaganda, viria como consequência lógica, protagonizados por alguns dos elementos dissidentes dos TG ao encetarem todo um movimento que viria a ter como “gurus” os Psychic TV, Coil e Chris & Cosey. Movimento do qual os Current 93 e os Death in June se apropriaram, conferindo-lhes tonalidades fascizantes.

            o suicídio como arte. Na margem de lá do Atlântico, Alan Vega e Martin Rev, os dois Suicide, produziram a banda-sonora da paranóia, juntando os fantasmas do rock ‘n’ rol e de Elvis Presley a um gigantesco rolo compressor de eletrónica minimalista que feriu de morte a alma de Nova Iorque. Nos espetáculos, o público agredia invariavelmente os músicos e estes retribuíam à letra, com violência física e slogans dignos de um “Clube de Combate”: “antes o ódio que a indiferença” ou “a agressão é uma derradeira prova de amor”. Mais discretos, outra dupla, os Chrome, de Damon Edge e Helius Creed, nadavam num universo de ficção-científica tribal e combinavam vozes abafadas pelo ácido, maquinaria pesada e eletricidade fantomática em “Half Machine Lip Moves” e “Red Exposure”.
            Na Alemanha, os Einsturzende Neubauten tocavam percussão em pontes, destruíam os palcos por onde passavam e divertiam-se a ver um dos seus amigos mais ativistas a dinamitar cavalos vivos nos areais de praias cosmopolitas, espalhando horror, vísceras e sangue pelos veraneantes em pânico.

            Sim, na Alemanha é-se sempre um bocadinho mais radical e foi lá que a música Industrial teve o seu berço, ainda o Progressivo era uma criança. Conrad Schnitzler, ex-Tangerine Dream (em “Rot”, 1972), Cluster (“Cluster, 1971, e “Cluster II”, 1972), Kraftwerk (“Kraftwerk”, 1970, e “Kraftwerk 2”, 1971), Neu! (“Neu!”, 1972, e “Neu!2”, 1973) ligaram os geradores. Foi em Berlim e Dusseldorf que as fábricas abriram antes que as outras. Hoje, como em Auschwitz, os maquinismos continuam imperturbáveis o seu funcionamento. Parecem vazias. Mas lá dentro trabalha, infatigável, uma horda de operários-fantasma.

03/03/2016

Pascal Comelade - Psicòtic Music’ Hall

Y 3|MAIO|2002
roteiro|discos

PASCAL COMELADE
Psicòtic Music’ Hall
Virgin, distri. EMI-VC
8|10 

A capa, como sempre, faz o filme. O título das canções, idem: “To be damnit Ornette to be”, “El zoot-horn rrotllo enmascarado”, “Don’t touch my blue oyster shoes”, com citações, respetivamente, ao saxofonista de free jazz, a um dos músicos da banda de Captain Beefheart (Zoot Horn Rollo) e aos Blue Oyster Cult, ou “The blank invasion of schizofonics bikinis”. Já são música. O que este nova coleção de tangos, chá-chá-chás e rock ‘n’ rol em registo de opereta-de-pé-quebrado propõe é o mesmo de sempre: o catalão lança as cartas, segura a pose e espera que o “bluff” faça o resto. Fica ao cuidado da imaginação. E este não se faz rogada. “Psicòtic Music’ Hall” joga com as nossas memórias falsas (como um romance de Philip K. Dick) e atira-nos para um cabaré inexistente onde nada é real mas tudo faz sentido. As cortinas rotas, o veludo gasto, os músicos de brinquedo, as bailarinas pintadas, o absinto entornado, os gestos canalhas tornaram-se familiares. Sem que nos déssemos conta, instalámo-nos na arena da loucura. “Psicòtic Music’ Hall” é “Moulin Rouge”. Um esqueleto que dança – a psicose vestida com traje domingueiro.

Jimi Hendrix - Axis: Bold As Love

Y 3|MAIO|2002
roteiro|discos

JIMI HENDRIX
Axis: Bold as Love
MCA, distri. Universal
9|10

A maioria dos leitores já deve ter ouvido falar em Jimi Hendrix. Sim, tocava guitarra como um demente. Sim, não se sabe se foi a droga ou o génio que deu cabo dele. Sim, muitos têm procurado imitá-lo ou tentado decifrar os segredos da sua paixão suicida pela Fender Stratocaster. Se voltamos a falar de “Axis: Bold as Love”, gravado em 1967 pela Jimi Hendrix Experience, é porque, além do definitivo testemunho da combustão hendrixiana que continua a ser, esta nova reedição remasterizada torna agora também o CD um objeto para colecionadores. É mais uma miniatura japonesa, em cartão, com a capa reproduzida na íntegra, fiel ao formato original. Lá dentro, o mesmo fogo. Hendrix foi o OVNI que aterrou, “Up from the skies”, nos anos 60. O “bluesman” do além.

Lúnasa - The Merry Sisters Of Fate

Y 3|MAIO|2002
roteiro|discos

LÚNASA
The Merry Sisters of Fate
Green Linnet/Resistencia, distri. Sabotage
8|10 

Sabe bem ouvir discos como “The Merry Sisters of Fate”. Fica-se com a cabeça a andar à roda e o coração em sobressalto, com uma sensação de frescura agarrada ao espírito e à pele, e uma vontade irresistível de agarrar na trouxa e ir passar o resto dos dias na Irlanda. Os Lúnasa ouviram e aprenderam do passado o que importa ouvir e aprender. Está cá tudo. O musgo, o bosque, o verde, o sol, a chuva, a vivacidade de uma música onde o sagrado, o profano e o virtuosismo dão as mãos. A agilidade com que os Lúnasa efetuam as tradicionais mudanças de ritmo, a conjugação – em contraponto ou em uníssono – das “uillean pipes” (Cillian Vallely é já um caso muito sério neste instrumento…), do violino e da flauta irlandesa, a riqueza e firmeza dos timbres, o balanço instrumental (o título-tema, um reel de fazer dançar Deus e o diabo, é a prova real deste parentesco), apontam na direção dos The Bothy Band, mas sem cair na cópia. Já perceberam: da melhor “Irish Folk” que temos ouvido nos últimos tempos.

02/03/2016

Req - Sketchbook

Y 26|ABRIL|2002
roteiro|discos

REQ
Sketchbook
Warp, distri. Zona Música
8|10

Quem não estiver para se preocupar com mais nada além de saborear o sol e o bom tempo que se tem feito sentir, pare já de ler este texto e vá gozar a vida. Porque “Sketchbook” é uma coisa escura e cheia de sombras. De uma eletrónica armada de farpas que lançava fagulhas e se auto curto-circuitava, os Req transitaram para um território mágico e tribal, pós-trip hop, marcado pelas crepitações tropicais de mbiras e xilofones que conferem a “Sketchbook” interessantes conotações com a música de uns O Yuki Conjugate ou com os álbuns “Aka, Darbari, Java – Magic Realism” e “Dream Theory in Malaya”, de Jon Hassell. A influência da escola minimalista americana faz-se igualmente sentir na orquestra de gamelão digital stevereichiana de “Colours” bem como no jogo de espelhos de “Symbolic 3”, pregados à parede de “A Rainbow in Curved Air”, de Terry Riley. Livro de trevas, húmidas e coleantes, “Sketchbook” constitui mais uma prova de que a eletrónica atual não para de se expandir.

Kronos Quartet - Nuevo

Y 26|ABRIL|2002
discos|roteiro

KRONOS QUARTET
Nuevo
Nonesuch, distri. Warner Music
7|10

Não sendo propriamente admiradores devotos deste quarteto de cordas para quem o conceito de música de câmara aglutina os mais diversos estilos contemporâneos, do rock à “world music”, devemos confessar que “Nuevo” excedeu as nossas expetativas. A base é desta feita a música sul-americana e para recriar o quarteto liderado pelos violinistas David Harrington e John Serba chamou cantores e músicos locais, como Alejandro Flores, Luis Conte ou os Café Tacuba, e recorreu a um pacote de samples contendo vozes e climas particulares. “Perfidia”, de Alberto Dominguez, “Tabu”, de Margarita Lecuona, a “easy listening” de Esquivel (num delicioso “Mini skirt”) misturam-se numa confusão de memórias e texturas onde podem surgir de surpresa os sons de um velho “organillo”, os brinquedos de Gustavo Santaolalla ou a marcha turca de Beethoven. “El llorar” é um exagero vocal de ir às lágrimas enquanto a sonata, literalmente relampejante, para cordas, memórias, rituais e eletrónica, “12/12”, com as suas programações de computador, samples de festejos e discos velhos, constitui uma das obras mais fascinantes e coloridas alguma vez criadas pelos Kronos – neste caso com a determinante participação dos Café Tacuba. Festa apenas estragada com a inclusão final de uma “dance mix” absolutamente despropositada.