05/08/2016

Brian Eno & John Cale - Wrong Way Up

Pop Rock
31 de Outubro 1990

BRIAN ENO & JOHN CALE
Wrong Way up
CD, Opal, distri. WEA, import. Contraverso

A LUZ ABSOLUTA

De súbito, uma grande claridade. Fez-se luz e separaram-se as águas na estagnação confusa em que se debatem os criadores da cultura musical pop. E a luz fez-se por obra e graça de dois músicos para quem essa palavra pouco sentido faz. De Brian Eno se poderá dizer que nunca mais, desde “Before and after Science”, quis saber da populaça e das suas músicas para consumo imediato, refugiado na sua Penthouse, em Nova Iorque, a contemplar o céu e a filmar-lhe as cores e movimentos. Trocando o bulício e o turbilhão pelo infinito. Construindo sons a partir do silêncio e dando-lhes o nome de ambientais, como em “The Shutov Assembly”, a editar brevemente. Hoje, os novos seguem-lhe as pisadas e a “ambiente house” presta-lhe homenagem.
Para John Cale não se torna tão fácil manter essa distância. Ao contrário de Eno, nascido musicalmente no seio do “glamour” vanguardista e decadente dos Roxy Music, sem qualquer formação musical e servindo-se do rock como forma de aprendizagem, Cale possuía formação clássica e, mesmo antes do delírio Velvet Underground, dera provas de pertencer a outro universo musical, tendo estudado com Aaron Copland, integrado as práticas esotéricas de La Monte Young e gravado um álbum com o minimalista Terry Riley, “The Church of Anthrax”. O seu percurso discográfico tem sido uma luta constante, contra e a favor do rock, procurando dar-lhe um estatuto mais clássico (como em “Paris 1919” ou “The Academy in Peril”), ou, inversamente, sabotando-o a partir do seu interior através de uma guerrilha violenta, simultaneamente musical e textual (“Fear”, “Sabotage”, “Music for a New Society”).
Cale e Eno já haviam colaborado em projetos anteriores, como “June 1, 1964” (ao lado de Kevin Ayers e Nico), ou em álbuns a solo do primeiro (“Fear”, “Caribbean Sunset”, o recente “Words for the Dying”, cujo último tema, “The Soul of Carmen Miranda”, prenunciava já a maravilha que se lhe seguiria) ou do inventor da “música discreta” (“Another Green World”). “Wrong Way up” retoma o caminho iniciado com “Before and after Science”. Tem pouco a ver com toda a obra mais recentes de ambos os artistas (se excetuarmos o já citado tema de “Words for the Dying”). Soa mais a Eno do que a Cale. Não admira: é aquele o produtor e sente-se que foi ele a comandar as operações. A própria capa apresenta uma estética decalcada de “Taking Tiger Mountain (by Strategy)”, num “pastiche” ao método de repetição fotográfica utilizado pelo pintor alemão, entretanto falecido, Peter Schmidt.
É um álbum de canções. Mas, quando se conhece a noção que Brian Eno tem do termo, desde logo se fica à espera do inusitado. Se numa canção, na sua forma convencional, o texto ocupa lugar primordial, Eno faz questão de, logo à partida, considerar as palavras como formas de distrair a atenção do fundamental – o som, a textura tímbrica. Como ele próprio afirma, “as letras devem ter, tanto quando for possível, um significado mínimo, que não perturbe o ambiente geral, sendo como que um espaço esculpido”. Durante as gravações de “Wrong Way up”, sempre que John Cale chegava ao estúdio com um texto pronto, logo Eno o convencia a deixa de escrever palavras que fizessem sentido. Para ele estas valem apenas como jogo fonético. Conta o ex-Velvet Underground que um dos métodos preferido de Eno consiste em começar por cantar simples vogais para depois lhes acrescentar o esqueleto das consoantes. Em “Wrong Way up” tratou-se de um jogo mútuo de desconstrução de sentidos, numa espécie de “cadavre-exquis” fonético e linguístico, composto a dois.
Musicalmente, o álbum desenvolve-se segundo esquemas idênticos aos utilizados por Eno em toda a sua obra até “Before and after Science”: “riffs” fora de contexto, acentuação de pormenores quase aleatórios, vocalizações surreais, predomínio das parcelas em relação ao todo (uma espécie de microscopia sonora, metaforicamente definida por Eno como “uma floresta que apresenta a mesma complexidade estrutural tanto ao nível da paisagem geral como de cada folha em particular” – música fractal, pois claro.
Complexidade que soa sempre de forma natural, fazendo parecer simples o que resulta de um trabalho de composição quase laboratorial – Eno fechava-se no estúdio, em busca do som dourado, enquando Cale, mais convencional nos métodos, jogava “squash”, à espera que chegasse a sua vez.

Dez temas preenchem, de forma brilhante, um álbum sem pontos fracos. Canções perfeitas, estranhas, obedecendo e funcionando segundo lógicas daquelas a que estamos habituados. Heterogéneas no modo como cada uma inventa universos e discursos próprios. Homogéneas, porque se interligam de forma harmoniosa e coerente, obedecendo a processos de exposição e tratamento sonoro só definíveis como alquímico. Brian Eno é o mágico que transforma tudo o que toca em joia deslumbrante. Na sua varinha de condão, que é o estúdio, tudo se torna luminoso – os violinos atraentes e obsessivos de Nell Catchpole em “Lay me Love”, o jogo de guitarras em “One Word”, a cadência etilizada de “In the Backroom”, como se Kevin Ayers e os Can se encontrassem num “western” ambiental, os coros “doo-wop” de “Empty Frame”, o piano e viola outonais a acompanharem o canto límpido e profundo de Cale, em “Cordoba”, a caixa de ritmos e o rendilhado da guitarra, fazendo lembrar os Durutti Column, de “Spinning Away”, o vento eletrônico e as tablas de “Footsteps”, a viola tratada de “Been there Done that”, o “boogie-woogie” pianístico de “Crime in the Desert” e a toada evocativa e sonambúlica de “The River” (único tema sem a participação de Cale e com Roger Eno nas teclas), prolongando as neblinas de “Down by the River” (de “Before and after Science”) e elevando-se sem fim até ao cume do mundo em melopeia encantatória, como a longa ascese de “Taking Tiger Mountain”, são outros tantos quadros deslumbrantes que constantemente revelam novos pormenores e diferentes perspectivas. Para “Wrong Way up” só há uma classificação possível: obra-prima. *****

Paul Simon - The Rhythm Of The Saints

Pop Rock
31 de Outubro 1990

PONTE CULTURAL



PAUL SIMON
The Rhythm of the Saints
LP, MC e CD, Warner Bros. distri. WEA

África, América do Sul, Cochinchina, Odivelas e o Terceiro Mundo em geral transformaram-se nos últimos anos numa inesgotável fonte de inspiração e, porque não dizê-lo, de rendimentos, à disposição do músico ocidental civilizado e preocupado com os problemas económico-político-sociais dos seus irmãos mais desfavorecidos. “World Music” foi o termo convenientemente inventado para dar cobertura a fusões de toda a espécie, empacotada de preferência com rótulos do tipo: “Só há uma Terra”, “Salvemos a Amazónia” ou, no caso de Odivelas, “Não à cidade-dormitório e à construção clandestina, a Câmara tem de fazer qualquer coisa”.
Da grande sopa entretanto sucessivamente requintada, que tenta encobrir com o excesso de temperos a ausência de um sabor original, destacam-se algumas obras de autores aparentemente acima de qualquer suspeita, como “Rei Momo”, de David Byrne, e “Passion”, de Peter Gabriel, para citar algumas das mais recentes. Talking Heads + ritmos sul-americanos, no primeiro caso, Scorsese + “tudo ao molho e fé em Deus”, no segundo. Poucos se lembram do pioneirismo de Holger Czukay, em “Cannaxis”, superlativo em todos os aspetos e nas tintas para se era ou não Música do Mundo. E o próprio Paul Simon, claro, na aproximação político-musical à cultura negra sul-africana, em “Graceland”.
Para este último chegou agora a vez de o Brasil, de mãos dadas com a África e alguns nomes sortidos da mais-ou-menos vanguarda nova-iorquina, servir de pretexto e ponto de partida para mais um álbum. Assim foram gravados os habituais batuques brasucas, posteriormente levados para o estúdio, ouvidos, truncados e acrescidos de posteriores contribuições instrumentais. Do lado “genuinamente terceiro-mundista”, foram contratados os grupos Olodum e Uakti, Remy Kabocka, Mingo Araújo, Mazzola Ya Yo de la Nelson, Jorginho Marcalzinho, Wilson das Neves, Dom Chacal, Elolongue Mbango Catherine, Sidinho e por aí fora, todos os nomes exóticos ou de pronúncia portuguesa. Aculturados: Milton Nascimento (canta parte de “Spirit Voices” em português), o percussionista Naná Vasconcelos e os Ladysmith Black Mambazo (grupo vocal). Vanguardistas ou simples músicos de estúdio: Adrian Belew (guitarra), Michael e Randy Brecker (respetivamente sintetizadores e trompete) e Steve Gadd (bateria). Lunáticos: J. J. Cale (guitarra). Caídos no disco por engano: Ringo Starr. Principais instigadores: Armand Sabal-Lecco e Bakithi Kumalo (baixo), Vincent Bguini e Ray Phiri (guitarra), pertencentes à nata dos músicos africanos e com os quais Paul Simon decidiu as linhas metras orientadoras do trabalho.
O esquema do álbum é, na aparência, simples: sobre as estruturas rítmicas previamente compostas e produzidas, Paul Simon escreveu as linhas melódicas, de maneira a poder chamar ao resultado “canções”. Os resultados variam entre o excelente (“Can’t Run but” – cadência hipnótica de marimbas, algures entre o minimalismo de Tom van der Geld e o batuque subliminal dos Can, a que se juntou a guitarra distante e incisiva de J. J. Cale, aqui também ele lembrando o “metal cristalino” de Michael Karoli, “Further to Fly”, e o espetáculo das percussões, “The Cool, Cool River”, em tudo semelhante, até nas entoações vocais de Simon, à vertente mais étnica e percussiva de Peter Gabriel ou ainda ao tropicalismo etéreo de “Spirit Voices”) e o monótono, em temas como “She Moves on”, que mais parecem canções do tempo em que fazia dupla com Art Garfunkel, enfeitadas com ritmo de samba para turista ver.

Experiência neste campo minado das alianças Ocidente-resto do Mundo tem-na Paul Simon de sobra. Dito de outra maneira: sabe disfarçar bem uma cantiga mais mal amanhada com um arranjo e produção suficientemente luxuriantes, de molde a esconder a deficiência. O músico consegue, no entanto, sair-se bastante bem do empreendimento. Soube reciclar-se sem parecer oportunista e, sobretudo, parece ter encontrado uma forma elegante e inteligente de partir à conquista dos sons do Planeta e de os integrar no seu próprio discurso sem que o processo soe a falso. Ou seja, conseguiu fazer a ligação entre as duas margens, sem meter água, à custa de uma suficientemente sólida “Bridge over Troubled Water”. ***

02/08/2016

UHF + GNR

Pop Rock
17 de Outubro 1990

UHF
Julho, 13
LP duplo e CD, Edisom

GNR
In Vivo
LP duplo e CD, EMI-Valentim de Carvalho

São sobreviventes. São os dois que ficaram do tempo das iniciais: CTT, NZZN, TNT, lembram-se? Era a grande balda, a grande paródia. Duas guitarras, baixo e bateria chegavam para se gravar um disco. Assaquem-se as responsabilidades a Rui Veloso, que ainda hoje se deve estar a rir. Na época, UHF e GNR eram dois de entre tantos grupos que passaram pelo “Rock em Stock”, como toda a gente. UHF e “Jorge Morreu”, “Cavalos de Corrida”, “Rua do Carmo”, hinos entoados com entusiasmo por uma juventude que num ápice descobria que a música rock afinal não vinha só da estranja e que era possível encontrar entre portas o escapismo ideal para as suas angústias suburbanas. Porque era nos subúrbios, primeiro em Almada, depois nos arredores das restantes cidades, que respirava a alma coletiva dos UHF. Os GNR eram diferentes: “Espelho Meu” e “Sê um GNR” aliavam o narcisismo a uma subtil provocação. Onde os UHF apostavam desde o início num rock duro e “quadrado”, a banda de Vítor Rua escolhia a pop mais melodiosa, então ainda assimilada de forma incipiente. Com a chegada de Rui Reininho, tudo mudaria de figura.
UHF e GNR, ou vice-versa, para não ferir suscetibilidades, passaram, ao longo de dez anos, por fases boas e más. Houve crises, zangas, acidentes, discos de ouro, fracassos, grandes espetáculos, bailes de província, “apoteoses”, sempre adiadas, no estrangeiro. Entraram músicos, saíram músicos. Alexandre Soares, o mais recordado nos GNR. Renato Gomes, nos UHF. Ambos os grupos, independentemente da qualidade musical intrínseca do seu trabalho, souberam atravessar uma década mais ou menos incólumes. Gravando discos e, proeza das proezas, conseguindo, a dada altura, viver apenas desse trabalho. Instinto de sobrevivência só traduzido realmente em vida de facto, quando acompanhado pela tal qualidade, separadora do trigo e do joio. Dito de outro modo: A lei da selva em que sobrevivem os aptos e morrem os fracos e azarados, que o fator sorte também conta nestes casos. Evoluíram de forma diferente. Enquanto os UHF se mantiveram sempre fiéis a uma determinada linha, um rock de intervenção filtrado pelas vivências pessoais do seu líder incontestado, António Manuel Ribeiro, os GNR fizeram da heterogeneidade e surpresa constante o seu cavalo de batalha – entre “Espelho Meu”, “Avarias, “Hardcore” ou “Dunas” não existe rigorosamente nada em comum senão o inconfundível estilo vocal de Rui Reininho.
António Manuel Ribeiro e Rui Reininho são hoje, sem sombra de dúvida, duas das figuras de proa do rock ou da pop que por cá vamos tendo. Tão diferentes um do outro como um planeta de uma estrela. AMR (António Manuel Ribeiro) é o planeta, duro e sólido. RR (Rui Reininho) é a estrela, frágil e faiscante. AMR é Jim Morrison, voz rouca e monocórdica. RR é Bryan Ferry, ágil e amaneirado. AMR de há anos para cá que usa o mesmo corte de cabelo comprido, é anos 70, não liga ao “look”. RR usa cabelo curto e penteado, todo “style”, é pós-moderno, anos 80. Ambos são poetas, por assim dizer, mas enquanto AMR fala de coisas concretas e diretas como a “rua do Carmo”, “na tua cama” e “noites lisboetas”, com a convicção de quem quer mudar o mundo, RR, pelo contrário, esconde-se em trocadilhos e estrangeirismos ambíguos. Parece estar-se sempre nas tintas para tudo e a fazer cinema: “(Um chamado) eléctrico desejo”, “Morte ao Sol”, “Hardcore (1º escalão)”, “Vídeo Maria”. AMR ataca sempre de frente: É contra a tropa, defende com unhas e dentes as relações heterossexuais (de preferência numa cama que parece ser o lugar mais indicado para estas coisas), militante do rock que considera como “uma forma de vida”. RR não leva a sério nem sequer as suas próprias convicções. Quando diz que quer ver “Portugal na CEE” há quem acredite. Há rapazes na brincadeira, sobre as “dunas”. Provoca com um ar inocente. É capaz de afirmar a pés juntos que “Vídeo Maria” apenas diz respeito a uma tal Maria Isabel que até é sua amiga. Sobre o palco AMR é a imagem do rocker adulto, de guitarra ao ombro e dedo apontado ao “inimigo” – porta-voz de legiões de adolescentes que o idolatram sem reservas, espécie de messias com uma mensagem a transmitir. RR dança, é faz-tudo, representa sobre o palco mil personagens, ri-se muito, contradiz-se constantemente, como uma criança. AMR é cerveja e Incrível Almadense. RR é “bourbon” e Coliseu. AMR é UHF. RR é GNR (desculpa lá Vítor). “Julho, 13” e “In Vivo” são duas formas diferentes de se ser português, músico e bem sucedido. Representam como que a consagração das duas bandas nacionais que mais fizeram por vencer, à custa de muita incompreensão e de comer o pó da estrada.

Os discos, ambos duplos, não são melhores nem piores que os anteriores de estúdio. Incluem os temas que tornaram conhecidas as bandas respetivas, e que mais se venderam: “Efectivamente”, “Dunas”, “Hardcore”, “Bellevue”, “Vídeo Maria” ou “Valsa dos Detectives” (GNR); “Cavalos de Corrida”, “Rua do Carmo”, “Rapaz Caleidoscópio”, “Noites Lisboetas”, “Estou de Passagem” ou “Este Filme” (UHF). Todos os músicos participantes sabem do seu ofício e em ambos os discos é audível a participação eufórica do público. Excitação, energia, identificação, reconhecimento das canções. Objetos obviamente dirigidos ao consumo das massas. “Julho, 13” e “In Vivo” são também o exorcizar dos fantasmas do passado. Mas, se com a banda de Almada o tom é de pacificação, com a participação, nos três temas que preenchem a totalidade do terceiro lado, dos ex-UHF e seus fundadores, Renato Gomes, Carlos Peres e Zé Carvalho, em relação aos GNR o álbum marca a ferro e fogo o polémico conflito mantido entre os atuais membros da banda e o seu fundador Vítor Rua, num caso legal que se vem a arrastar sem que se vislumbre uma solução. Guerra e paz, nas águas mornas do meio discográfico nacional.  *** / ***

Peter Blegvad - King Strut & Other Stories

Pop Rock
3 de Outubro 1990

PETER BLEGVAD
King Strut & Other stories
LP e CD, Silverstone, distri. BMG


Tem a aura de excêntrico e um currículo extenso e de prestígio. A fama, essa ainda não chegou, embora há muito a mereça. O homem, imagine-se, já trabalhou com sumidades do jazz (ou músicas afins), tais como Andrew Cyrille, Carla Bley, Michael Mantler e John Zorn. Passou pelos grupos lendários dos anos 70, Faust e Henry Cow. Formou os inclassificáveis Slapp Happy, ao lado de Anthony Moore e da então ilustre desconhecida Dagmar Krause. Victoria Williams e os Golden Palominos não dispensam os seus serviços. Da sua discografia a solo constam as obras-primas “The Naked Shakespeare” e “Downtime” (na companhia de músicos dos Pere Ubu). Menos bons mas não menos interessantes são “Knights like these” e “Smell of a Friend” (integrado no coletivo The Lodge. Agora decidiu-se por algumas cedências (no seu caso sempre relativas) ao gosto e a um estilo de produção mais convencionais. Operação que não envolve grandes riscos se se é possuidor do trunfo que mais vale neste jogo: a capacidade para compor ótimas canções, independentemente dos arranjos e produção com que as quiserem adornar. Tendo em conta “King Strut”, de Peter Blegvad quase se poderia dizer que é um novo Bob Dylan, não fora a tendência bizarra de que dá mostras ao misturar nas suas canções temas como o amor, a solidão, galinhas ou camisas e pentes. Canções que alternam baladas “dylanescas” como “Gold” (excelente a prestação na “pedal steel guitar” de B. J. Cole), “On Obsession” e “Shirt & Comb”, a que não faltam um semelhante rasgar da guitarra acústica e a harmónica da praxe, com temas mais complexos como “King Strut” (em duas versões), “Not Weak Enough” (repescado de “Downtime”, aqui com nova mistura) ou “Chicken” (incursão nos domínios cabaréticos, caros a Tom Waits, com o trompete de Guy Barker a dar o conveniente tom etílico). Peter Blegvad tem coisas para dizer, algumas importantes e compreensíveis, outras absurdas e irrisórias. O modo como as diz é que é sempre original – o interesse do objeto depende da perspectiva com que é encarado. Acompanham-no neste incursão pela região demarcada dos “songwriters” de qualidade alguns músicos de calibre: Syd Straw e Anton Fier (dos Golden Palominos), Chris Stamey (ex DB), B. J. Cole, Larry Saltzman, Danny Thompson e Andy Partridge (XTC). Para Peter Blegvad chegou a hora das grandes decisões: génio obscuro e incompreendido ou génio na mesma, só que mais acessível na pose e no discurso. ***

Canções da depressão [Nick Drake]

Pop Rock
22 de Agosto 1990



Como se sabe, ou devia saber-se, “morrem jovens aqueles que os deuses amam”. Ao conceder-lhes o génio, em troca do sofrimento. Nick Drake morreu jovem. O sofrimento mereceu-lhe da divindade o dom da escrita de pequenas canções melancólicas, momentos mágicos guardados no íntimo de uns poucos privilegiados que souberam sentir a imensa tristeza e beleza da decadência e da solidão.

Gravou pouco em quantidade: três discos de originais, agora reeditados. Música discreta, arrebatada, sempre contida. Feita de sentimentos suaves, sonhos incompletos. A paixão também arde em fogo lento.
            Vivia-se a época eufórica e idealista da música progressiva. Anos 70, no princípio. Eram os anos de todos os Mozarts e Beethovens da música popular. Duplos álbuns conceptuais e grandiloquentes, às vezes pretensiosos. “Rock sinfónico” foi o selo pomposo e de mau gosto que arranjaram. Perdido no meio das vagas altaneiras dos sintetizadores-maravilha e dos solos de meia hora, um rapaz nascido em Burma, educado em Cambridge, compunha, tocava guitarra e cantava canções estranhas, tristes, diferentes. Escutadas em público, pela primeira vez, nas primeiras partes de concertos de artistas folk, como Ashley Hutchings e os Fairport Convention.

Canções da Depressão

            Joe Boyd, da Island, reparou nele e convidou-o a passar para disco as suas fantasias. Em 1969, era editado “Five Leaves Left”, introspetivo, angustiado, comparado a “Astral Weeks”, de Van Morrison. “Time Has Told Me”, “Day is gone”, “Fruit Tree”, títulos sugestivos para canções frágeis e emotivas, por vezes com arranjos orquestrais em que, na altura, poucos repararam, excetuando talvez as sensibilidades gémeas.
            “Bryter Layter” sai no ano seguinte e mostra Drake um pouco mais conciliado com a vida, pura aparência, escondendo uma crescente depressão, compensada por sessões psiquiátricas e medicamentação apropriada. Presentes no disco, alguns amigos: Richard Thompson, Dave Pegg e Dave Mattacks, todos dos Fairport Convention, e John Cale. Discretas sugestões jazzísticas suportando uma atmosfera sonhadora, única maneira que encontrou para fugir aos tons sombrios da realidade concreta. Só John Martyn, seu colega na editora, se aproximava das conceções musicais de Drake (e Tim Buckley, que também não resistiu), mas, ao contrário deste, sabendo manter a distanciação necessária entre a arte e a vida, vital para quem não aspira à condição de mártir. Algumas canções: “Not that the Vibe Survives”, “Chime of a City Clock”, “Northern Sky”, esta inspiradora dos Dream Academy, que lhe dedicaram “Life in a Northern Town”.
            Entre duas sessões psiquiátricas, parte para Paris, onde compõe algumas canções para a cantora de variedades Françoise Hardy, gravadas, diz-se, mas nunca editadas.

À maneira dos românticos

            “Pink Moon” (1972) apresenta os sinais inconfundíveis da desolação. Sozinho à guitarra e ao piano para 25 minutos intensos, deixando testemunho da “arte de se destroçar”, para utilizar a expressão com que Marc Almond tão bem soube definir certos estados de alma. “Things behind the Sun”, “Pink Moon”, o sol e a lua, o ouro e a prata, o dia e a noite, polos opostos e complementares de uma unidade que Nick Drake nunca logrou alcançar. Encontrou-a na aniquilação e no retorno ao ventre original – à maneira dos românticos. Núpcias derradeiras em que desposou a morte. Em Novembro de 1974, tinha 26 anos, sucumbiu vítima de uma “overdose” de medicamentos antidepressivos. Foram editadas compilações póstumas, como sempre acontece quando uma estrela se apaga no firmamento: “Heaven in a Wild Flower” (intitulada a partir do texto homónimo do poeta e visionário inglês William Blake, reunindo os dois últimos álbuns), “Time of no Reply” (que inclui misturas alternativas e alguns temas originais) e, finalmente, em 1986, “Fruit Tree”, uma caixa contendo quatro discos que reúnem a totalidade da obra do músico.
            Joe Boyd, seu amigo de sempre, impôs como condição para as reedições de todos os álbuns que estes nunca saíssem do catálogo.
            Recordamo-lo nos dias tristes e chuvosos de Inverno. Escrevia canções. Num quarto iluminado por um sol que não era o nosso.


NICK DRAKE

Five Leaves Left
Bryter Layter
Pink Moon
Heaven In A Wild Flower (compilação)


Reedição em LPs e CDs Island

Grateful Dead - Without A Net

Pop Rock
1990

GRATEFUL DEAD
Without a Net
LP triplo e CD duplo, Arista, distri. BMG

Aos veteranos do rock já não se pergunta quantos anos têm, mas sim quantas décadas. Pouco a pouco, o mundo da música tem-se transformado num imenso asilo para a terceira idade. Ninguém parece querer desistir do sonho dourado do rock ‘n’ roll. Não faltará muito até vermos sobre o palco, simpáticos gerontes, empunhando muletas eletrônicas, excitados, às voltas nas suas cadeiras de rodas com sintetizadores incorporados. Com Jerry Garcia e os Grateful Dead, o caso muda um pouco de figura. Embora os cabelos já sejam brancos, vêm longe os tempos da senilidade e do consequente ridículo. Será por tudo menos por razões materiais que se dão ainda ao trabalho de andar pelo mundo fora, provando a poeira da estrada. Não será bem assim, claro, mas decerto que ninguém os poderá acusar de se terem acomodado. Segundo Jerry Garcia, atualmente com 48 anos de idade, para os Grateful Dead “a música é ainda uma aventura” que não querem ver “transformada em algo de seguro, demasiadamente confortável”. Há nesta atitude uma convicção mística, de missão a cumprir, não fossem eles gurus incontestados do psicadelismo dos anos 60, mas agora sem auxiliares químicos extra. Mesmo assim, de vez em quando ainda lhes cortam as asas, ao proibirem concertos, sob a acusação de atraírem fauna humana atreita a consumos ilegais. A fama (atualmente sem proveito) já ninguém lhes tira.

Seja pela graça divina seja pela experiência proporcionada por 25 anos de carreira initerrupta, é um facto que qualquer concerto ao vivo dos Grateful Dead constitui sempre um acontecimento muito especial. Cria-se uma comunhão entre público e músicos, num ritual de sons e cores que atira com as cabeças para galáxias distantes. Por isso, a banda, hoje em dia, quase só grava discos ao vivo, procurando reproduzir no vinil ou no laser os seus habituais “happenings”, que chegam a ter a duração de quatro horas. Como neste caso, em que tudo flui como as águas de um rio que, embora já idoso, não perdeu a impetuosidade. Gravado em palcos da Europa entre Outubro do ano passado e Abril último, “Without a Net” demonstra até que ponto Jerry Garcia, Mickey Hart, Bill Kreutzmann, Phil Lesh, Brent Mydland (entretanto falecido) e Bob Weir são hoje uma formidável máquina de fazer música. As prestações de cada música desenvolvem-se com a fluência e a perfeição aparentemente só possíveis em registos de estúdio. Tudo encaixa no lugar certo, com uma facilidade espantosa. Tão espantosa que se torna difícil de acreditar que as longas sequências instrumentais, presentes no desenvolvimento de quase todos os temas, sejam improvisadas.
A improvisação é, de resto, uma das características imutáveis do estilo Grateful Dead, desde as “acid jams” da era psicadélica até às desbundas rigorosamente controladas do presente. E afirma Jerry Garcia: “Para nós, a improvisação não é uma opção, mas uma coloração, a nossa própria personalidade.” Nota-se isso, ao escutar temas com mais de um quarto de hora, como “Eyes of the World” (com a participação, nos saxes soprano e tenor de Branford Marsalis) ou o “medley” “Help on the Way/Slipknot/Franklin’s Tower”, em que o jogo das guitarras, das teclas e das percussões se desenrola como se dele dependesse a harmonia universal.
Partindo de referências como os blues (“Walkin’ Blues”), o reggae (“Looks like Rain”), os ritmos brasileiros (“Let it Grow”) ou “trompe l’oeil” melódico-fantasmáticos sugerindo “I can’t always get what you want”, dos Stones e “Walk on the Wild Side” de Lou Reed (respetivamente em “Feel like a Stranger” e “Slipknot!”), os Dead chegam sempre a lugares inusitados – brincadeiras formais jazzísticas (“Cassidy”), calipsos carnavalescos de “steel bands” interestelares (“Let it Grow”), abstrações apocalíptico-eletrónicas (“Victim of the Crime”), o “boogie-woogie” (“One more Saturday Night”) ou outros de impossível definição. “Enquanto novas portas continuarem a abrir-se à nossa frente e as pessoas derem valor às nossas descobertas, continuaremos a achar que estamos no caminho certo para chegar... a algum lado...” Quem somos nós para duvidar? ***

Chet Atkins & Mark Knopfler - Neck And Neck

Pop Rock
1990

CHET ATKINS & MARK KNOPFLER
Neck and Neck
LP e CD, CBS, distri. CBS portuguesa


Dois heróis da guitarra, de duas gerações distintas, juntam-se para glorificar o instrumento. Chet Atkins é uma lenda viva, considerado pela revista “Guitar Player” como um dos guitarristas cujo estilo mais influenciou outros músicos. Foi um dos criadores do denominado “Nashville sound”, matriz essencial da “country music”, cimentada nos cânones tradicionais acrescidos de doses industriais de eco e outros efeitos eletrônicos. Depois de 36 anos na RCA, passou-se para a Columbia e foi acusado de abandonar a “country” para se entregar às práticas suspeitas da “new age” e do jazz. Mark Knopfler, “Sultão do Swing”, todos o sabem, faz parte dos Dire Straits. Trabalhou com Dylan, Van Morrison, Bryan Ferry e Phil Everly, entre outros. Produziu a superbanda caquética Notting Hillbillies e, não pondo em causa as suas inegáveis virtudes como instrumentista, assinou xaropadas intragáveis como a banda sonora de “The Princess Bride”. Chet e Mark já antes haviam tocado juntos. Ao vivo, como toda a gente, no concerto a favor da Amnistia Internacional. Em estúdio, no álbum do primeiro, “Stay Tuned”. Ambos partilham a paixão pela sonoridade da guitarra Gibson. “Neck and Neck” é, na personalidade e no som, sobretudo um disco do mais velho e, de certo modo, ainda bem que assim é, pois mais simples foi evitar as facilidades com que o homem dos Straits por vezes condescende. Mesmo assim ainda conseguiu meter uma composição sua a fechar o disco: “The Next Time I’m in Town”. Nada de pânico, porém – a faixa não destoa e Mark até finge ser um entendido da “country”. “Country”, da pura e dura, só “Just one Time” (de Don Gibson), e “Yaketi Axe” (de Boots Randolph, James Rich e Merle Travis, com violino e “dobro” e dança no celeiro). De resto a “música do campo” serve de pretexto para outras aventuras e sons mais contemporâneos. “Sweet Dreams” (também de D. Gibson), por exemplo, é um tema belíssimo, instrumental lento e misterioso, vogando nas cadências noturnas das guitarras (incluindo a “pedal steel”), como se Peter Pan espreitasse em “slow motion” às janelas da cidade adormecida. “There’ll be some Changes Made” (Billy Higgins) insere o tom de comédia das palavras no “boogie” atmosférico e nostálgico, ilustrativo de um filme antigo, a preto e branco e sem legendas. Em “So Soft, your Goodbye”, aflora o espectro delicodoce de “The Princess Bride”, mas a pungência do violino é sincera, evoca tragédia e abandono, suspiros lancinantes e pancadas no peito, melodrama talvez sem final feliz. Violino distraidamente triste em “Tears” (assinado pelos monstros da guitarra, Django Reinhardt, e do arco na corda, Stephane Grapelli), lágrimas vertidas por uma “star”, cadente e decadente. Felizmente que nem só de tristeza vive o disco. Em “Tahitian Skies” há azuis de céu a tocar o oceano, sempre de Verão. Conchas, ananazes, Tahiti duche, cruzeiros de nunca mais voltar. Felizes as guitarras, sorridentes. E no “swing” de “I’ll See you in my Dreams”, dançam abraçadas. “Neck and Neck” desliza como uma brisa morna. Sem sobressaltos. Exercício descontraído e descomprometido de dois grandes guitarristas. Música suave e calorosa, de guitarras levitando num silêncio de cristal. ***