Mostrar mensagens com a etiqueta @C. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta @C. Mostrar todas as mensagens

27/12/2019

Vários - On Paper


Y 23|JANEIRO|2004
roteiro|discos

VÁRIOS
On Paper
2xCD Crónica, distri. Matéria Prima
8|10

O suicídio esclarecido de Sócrates, encarado como prova da imortalidade da alma, faz sentido em termos ontológicos. Acontece que, quando calha a nós, como diria Woody Allen, faz sentido, sim, mas “no papel”. Esta discrepância entre a Fé e a desconfiança da razão encontra eco no trabalho de “colagem/descolagem” empreendida por artistas sónicos portugueses como Vítor Joaquim, @C, Paulo Raposo, Longina e Pedro Tudela, a partir de um tema deste último, “Rasgão.aif”, e do papel, simultaneamente superfície rasa e suporte de informação. “Aceitar que se trata de uma matéria que acumula informação por camadas e conjugações” como ponto de partida, determina as múltiplas manipulações/funções de “On Paper” em que o som do papel (rasgado, dobrado, batido à máquina…) é processado eletronicamente. Ao contrário da máxima de Allen, porém, resulta desta operação não a dúvida ou o medo, mas uma paleta diversificada de músicas inseridas no “industrial”, na música concreta, no ambientalismo digital sujo ou em abstrações órfãs de paternidade estética. Soa incómodo, no papel. Aos ouvidos, felizmente, ainda mais.

15/02/2019

@C + Pedro Tudela + Longina + Vítor Joaquim


Y 6|JUNHO|2003
roteiro|discos

@C
Hard Disk
8|10

PEDRO TUDELA
Là où je Dors
8|10

LONGINA
!Siam Acnun
7|10

VÍTOR JOAQUIM
La Strada is on Fire (and we are all Naked)
8|10

Todos ed. Crónica, distri. Matéria Prima

@c, pedro tudela, vítor joaquim e longina
crónicas da terra digital

“Crónica” é nome de série de uma nova editora nacional de eletrónica. Com informação áudio e vídeo e “links” diretos ao neurónio mais próximo. Primeira edição da coleção, “Hard Disk”, dos @c (Miguel Carvalhais, Pedro Almeida e Pedro Moreira) inclui seis disseminações sónicas e um vídeo da programadora gráfica e artista digital Lia. Refrações industriais, vozes enforcadas numa linha de montagem de clones psicóticos, ordenadores de batidas digital/tribais. Pan-Sonic, Cabaret Voltaire de “Mix-up” e “Voice of America” em versão rolo compressor são enxertados na memória. Forward. Valsas ao longe, frequências “limpas” e “sujas”, sinais de rádio, dissecação do interior de um “chip” com vida. “Hard Disk” é uma ampliação, um ato de voyeurismo que tira prazer do processamento digital. Os sons nascem do vazio e a ele regressam. Mas analise-se a radiografia sonora desta sequência de tempo e encontrar-se-á um universo em metamorfose evolutiva. Crónica número um da terra digital: aprovada sem reservas para usos indiscriminados.
            Crónica número dois. Pedro Tudela sai do coletivo @C para apresentar “Là où je Dors”. Onde o coletivo opta por apenas numerar cada tema, Tudela intitula os seus com termos como “Forest”, “Carrousel” (alô cluster), “man that can not touch woman”, “Mermaids”, “Bed of Clouds” e “Delirium with dolls”. Sabe-se da importância da palavra poética enquanto fator de indução de imagens. Desta conjugação Tudela faz surgir drones das quais vão emergindo batidas de “ambient tecno”, cortadas por arranhões nos locais mais extravagantes da rede sónica, efeitos de “delay” e “phase”, sobreposições, ecos, súbitas eclosões de ruído seguidas de contrações e aspirações. “Là où je Dors” pode ser um complemento dos @C em que o composto sonoro abre mais uma janela, deixando antever uma fauna e uma flora não menos monstruosas onde cada aberração é capaz de espantar por uma conceção do Belo que se infiltra como uma doença. Aprovada para uso farmacológico ou para contemplação em estados de consciência alterados.
            Crónica número três. “!Siam Acnun” (“Nunca Mais”, ao contrário) do galego Longina. Algumas fórmulas rítmicas semelhantes às dos @C, mas recuperando o “groove” com patas de inseto de Victor Nubla sob a designação Xjacks, o “swing” dinossáurico, terrivelmente aditivo, dos Esplendor Geometrico ou o minimalismo dos Rechenzentrum. Baixo de jazz moribundo, piano-anagramas, binários de tribos perdidas, cortam as batidas daquela que, das quatro, será a crónica mais perto de se poder dançar mas também a que mais se aproxima de alguns estereótipos do género. Aprovado para sessões de terapia de hipnose de regressão.
            Crónica número quatro. “La Strada is on Fire (and we are all Naked)” de Vítor Joaquim. Com Martin Archer (saxofones processados), Rodrigo Amado (saxofones), Victor Coimbra (baixo) e Mariana F (voz). E pedaços de sons extraídos de emissões de TV, uma “velha estrela de rock” e “um discurso de Bill Clinton (depois de um bombardeamento com danos colaterais). Ainda a eletrónica como máquina de sonhos fabricados a partir de recortes da realidade mesmo que a “realidade” não seja mais do que a fenomenologia de um mundo “exterior” que nos é vedado. A estrada está a arder mas não nos damos conta. E Vítor Joaquim filma o vazio do pós-incêndio. Os saxofones conferem uma nota de psicadelismo-etno e “alien jazz” a uma música que ocasionalmente evoca os SPK na sua vertente mais ritual. Aprovado como banda-sonora de um “peep show” para o pós-Apocalipse.

05/11/2016

Demonstração eletrónica na ZDB

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 13 SET 2002

Demonstração eletrónica na galeria Zé dos Bois

FESTIVAL EM LISBOA

“Super Stereo Demo” é um espetáculo para ver e ouvir com novos olhos. A eletrónica produzida em Portugal apostada em fazer a diferença. Hoje e amanhã na ZDB

Abram os cérebros e os ouvidos. Dêem corda aos neurónios. Puxem o lustro aos terminais nervosos. Desentupam as artérias. Liguem os sistemas operativos. A tecnologia, bandas sonoras da imaginação e outras alucinações eletrónicas do século XXI vão crepitar este fim-de-semana na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, sob o genérico Super Stereo Demo. Trata-se, segundo a organização, de uma colaboração Pogo/Variz, de um "evento pluridisciplinar que propõe uma demonstração da possibilidade de coabitação de uma pluralidade de imagens e que funciona como espaço privilegiado para ver evoluir a mais recente produção media-art nacional nas áreas da música eletrónica, performance, artes plásticas e vídeo". Convém ir preparado.
            Pela aconchegada e underground sala/vitrina de experimentalismos vários da ZDB irão passar, hoje e amanhã, djs, vídeoartistas, performers sem cartão do sindicato, terroristas sónicos, bizarras criaturas disfarçadas de funcionários públicos armados de "laptops", programadores de pesadelos digitais, afagadores de tacos das "dance floors", palhaços sintéticos e alguns dos ativistas mais empenhados da nova cena electrónica feita em Portugal. Soundtrap, Random Inc., Zzzzzzzzzzzzzzzzzp!, Curd Duca, Major Eléctrico (hoje), Bizz Circuits, Twokindermen, @c+Lia, Nova Huta e Trash Converters (amanhã) são os nomes em agenda, no capítulo das apresentações musicais.
            O ponto de partida para esta "demonstração" do que o futuro já tem para nos mostrar é, paradoxalmente, um velhinho disco dos anos 70 intitulado "Stereo Demonstration", um dos muitos editados nesta década, no período de transição do mono para a alta-fidelidade estéreo, com a finalidade de exibir para o ouvinte as mais recentes novidades tecnológicas a par dos mais estapafúrdios efeitos sonoros criados em estúdio. Não era tanto música de autor mas um som-de-artifício que tornava a sala de audição numa feira ao mesmo tempo que aliciava para a compra de mais sofisticados gira-discos. A noção de espetáculo sobrepondo-se à de arte.
            O "Super Stereo Demo" compôs sobre este conceito uma outra história do espetáculo que funciona já não no domínio do deslumbramento das aparências mas na articulação de diferentes referenciais de fruição lúdica. A visão/audição do intérprete que permanece uma hora sentado numa cadeira concentrado na ordenação de frequências sonoras no seu "laptop" não poderia estar mais distante de uma noção convencional de "espetáculo". As "novas demonstrações estéreo" são da ordem da virtualidade. Trata-se agora da abertura de novos canais de sensibilidade do sujeito que ouve. Não são os gira-discos, nem os leitores de CD que operam em canais estéreo ou quadrifónicos – é a nossa cabeça a receber em direto os programas e a sintonizar a infinidade de canais. Basta carregar no comando à distância e fazer a seleção.

PARA ABRIR O PROGRAMA, SELECIONAR…

HOJE

Soundtrap
Nuno Leão e Pedro Lourenço. Processamento de sinais, códigos binários, arritmias, frequências perigosas. Construção de ambientes. Vale dizer: de sonhos.

Random Inc.
Sebastian Meissner. "Input" analógico via John Cage e Iannis Xenakis. Auto-estradas minimais desenhadas por Steve Reich. Mistura com tons digitais na criação de experiências de entrada e saída nos labirintos da manipulação onde a matemática, a psicoacústica e o aleatório se combinam. O álbum chama-se "Jerusalem: Tales outside the Framework of Orthodoxy".

Zzzzzzzzzzzzzzzzzp!
Miguel Sá e Miguel Carvalhais. Dezassete "z" em português para o zumbido eletrónico do inconsciente. Recentemente deixaram-se fotografar no cenário de massacre dos Coil. Pelo que será aconselhável levar para a ZDB um programa anti-vírus.

Curd Duca
Alemão e "bricoleur" de pequenos fragmentos de celulóide sonoro. Os vários volumes das séries "Easy Listening" e "Elevator Music" que tem editados contêm uma coleção bastante completa de testes de avaliação. Marque-se uma cruz e siga-se viagem.

Major Eléctrico
Pedro Santos e José António Moura. Aparentemente djs. Mas não como os outros. Alguém, da imprensa de fora, fez notar o distanciamento da pose em contraste com a fornalha dos sons. "Cortes digitais, explosões de sensualidade, súbitas citações de pedaços muito valiosos da história da música sintética dos últimos 25 anos."

SÁBADO

Bizz Circuits
Outra vez Sebastian Meissner, com outra máscara, desta feita para operar "a desconstrução irónica da música pós-digital", através do recurso aos velhos vinilos lá de casa, de Ornette Coleman aos Metallica, passando por Bach.

Twokindermen
António Contador e Nuno Antunes. O PC como máquina de afetos e ilusionismo. "Menos é mais" – dizem – e "leite e chocolate é para os maricas".

@c + Lia
Miguel Carvalhais, Pedro Tudela e Pedro Almeida. Powerbook. Deus digital é o chefe de secção do escritório.

Nova Huta
O circo eletrónico do Leste desce à cidade, trazido por Reznicek e o seu "tio-clown", Vratislav "Bambij" Robot. O triunfo do "retro" num número de humor e surpresa semelhante ao apresentado no CD "At Bambij Robot Nonstop Datscha".

Trash Converters
Djs Fernando Fadigas e Miguel Sá. Recauchutagem dos hits da electropop dos anos 80 e da "new electro" e "sexy beat" da atualidade. O seu top 25 inclui os OMD, Section 25, The Associates, The Human League, Gary Numan, Ultravox, Flying Lizards, SPK, Buggles, Residents, Kraftwerk, Le Tigre e Electronicat.

Lisboa,
Galeria Zé dos Bois
A partir das 21h30. Tel. 213430205. Bilhetes a 10 euros (7,5 para sócios do ZDB), para um dia. 15 euros (10 para sócios da ZDB), para os dois dias.
www.cronicaelectronica.org/variz/superstereo

07/11/2015

VÁRIOS - Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0 + @C - +



Y 11|JANEIRO|2002
escolhas|discos

@C
+
8|10
VÁRIOS
Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0
7|10
Ed. e distri. Variz

Por uma vez, saúde-se o aparecimento de uma variz na perna enfezada da música eletrónica nacional, sinal de que corre nela ainda algum sangue. Em “+” dos @C encontramos o mesmo tipo de imponderabilidade e o conceito de “forma igual a conteúdo” que afetam grande parte da música eletrónica atual, na sua vertente mais programática. Sete temas, sem título, são outras tantas formulações improvisadas de um espaço de decifração articulado, nos meandros da mente digital. Ignorem-se antigos parâmetros de descodificação, padrões emocionais formatados por séculos de música acústica, o que “+” propõe, com extraordinária acutilância, é, precisamente, a mutação, esse algo “mais” capaz de acrescentar ao som eletrónico puro um novo corpo alucinatório. Mais ingrata será a tarefa de hierarquizar a diversidade de propostas contidas na antologia “electro-doméstica” da Variz. Importa, para já, destacar a disponibilidade e a quantidade de novos projetos que responderam ao repto lançado pela editora. Há uma cena nova a borbulhar. Mais difícil será retirá-la do espaço virtual onde, por agora, se abriga.