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23/11/2008

O futuro, já! - Um debate sobre a música portuguesa

Pop Rock

8 de Novembro de 1995

Um debate sobre música portuguesa

O FUTURO, JÁ!


Há 20 anos havia uma bandeira e um exemplo a seguir, o de Giacometti, que recuperou para um país o rosto perdido da sua identidade. Hoje, há trabalho feito e um futuro que começa a ser trilhado com segurança. Foi a obra pioneira do musicólogo corso, nos anos 60, e dos grupos de recolha como o GAC, Almanaque, Brigada Victor Jara ou Raízes, na década seguinte, que permitiu avançar até aos resultados que hoje se conhecem, materializados em discos como “Terreiro das Bruxas”, dos Vai de Roda, “Todos os Dias”, de Amélia Muge, “Traz os Montes”, de Né Ladeiras, “Danças e Folias”, da Brigada, e “Invasões Bárbaras” dos Gaiteiros de Lisboa. Discos capazes de romper com o medo de avançar e de situar a “folk” nacional ao lado dos melhores da Europa. Um presente risonho para a música portuguesa de raiz tradicional que promete prolongar-se pelos tempos mais próximos, nos álbuns, já anunciados, dos Realejo, Cramol, O Ó que Som Tem, bem como nos novos dos Vai de Roda e de Amélia Muge. O PÚBLICO decidiu convidar alguns dos protagonistas desta nova idade de ouro da MPP para fazerem o ponto da situação. Acorreram à chamada Amélia Muge, José Martins (companheiro musical de Amélia e O Ó que Som Tem), Tentúgal (Vai de Roda), José Manuel David (Almanaque e Gaiteiros de Lisboa) e Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa). Disparou-se o tiro de partida com a memória de Giacometti para se chegar à conclusão de que, se há já alguma obra feita, outra tanta está ainda por fazer. Pelo meio desfizeram-se algumas ilusões e lançaram-se alguns ataques. Melhor ainda: preconizaram-se soluções. Bom sinal: num cenário em que até há bem pouco a estagnação predominava, separaram-se as águas, já há os bons e os maus. Sinal de que a tradição está viva e de armas na mão.


“DIFÍCIL CANTAR POR CIMA DE UMA DEBULHADORA MECÂNICA”

Escolhidos alguns tópicos, seleccionámos, de uma longa conversa, as declarações que nos pareceram mais significativas de cada um dos cinco músico presentes. A ideia é relançar a discussão sobre o passado, o presente e o futuro da música tradicional, ou de raiz tradicional, portuguesa. Com a figura exemplar de Michel Giacometti a servir de inspiração e pano de fundo.
P. – O espólio de Giacometti. Há ainda trabalho de arqueologia por fazer ou será tempo de trabalhar esse mesmo espólio, revitalizá-lo, manipulá-lo como ponto de partida para experimentações sobre os materiais tradicionais?
Carlos Guerreiro – Quando chega a altura de trabalhar a música tradicional portuguesa é ao Giacometti que as pessoas vão. O seu trabalho não só é importante por aquilo que conseguiu gravar e recolher, como pelas pistas que forneceu. Houve muita gente, como o José Manuel David ou o José Alberto Sardinha, dos Almanaque, ou eu próprio, que agarrava num gravador manhoso e ia por aí fora só pelo prazer de ouvir as pessoas cantar. Descobrimos que havia outras vias, coisas que ainda estavam vivas, formas estranhas de cantar a música portuguesa, não poluídas.
José Manuel David – Foi também um escape para os músicos urbanos, que, de repente, descobriram que havia música portuguesa diferente nas diferentes regiões do país. Hoje em dia, como as coisas estão, para fazer recolhas é preciso ter alguma formação, não basta ter um gravador, quando se sabe que há musicólogos que trabalham em África e aprendem as línguas nativas. Nós nunca fizemos bem isso, sabíamos que o Giacometti tinha estado nos sítios e íamos com a nossa boa vontade e ingenuidade ouvir o que as pessoas tinham para nos mostrar. Tudo isto implicou uma mudança, em termos sociais, em pessoas como nós, que começaram a ouvir música com os Beatles.
P. – Hoje o trabalho de recolha faz tanto sentido como duas décadas atrás?
José Manuel David – A música tradicional não é um objecto estático. Como tal, evolui, embora dentro de determinados parâmetros. Sociais e musicais. Por exemplo, um tocador de cavaquinho que toca um instrumento que, se calhar, nem afina bem, mas encontra um construtor que constrói melhor, melhorando desta forma o som. O que Giacometti e outros como ele fizeram foi um corte sincrónico na realidade, na tentativa de descobrir comos as coisas estavam num determinado momento. Hoje já não se canta nem toca da mesma forma que no tempo de Giacometti. Estou a lembra-me, por exemplo, da gravações da Ti Chitas, feitas pelo Giacometti, em que ela canta de uma maneira, nas mais antigas, enquanto em gravações mais modernas já canta de outra.
Amélia Muge – Essa mudança tem que ver com a música, com as pessoas e connosco próprios. Aquilo que o Giacometti poderá ter representado para nós há dez anos se calhar já não é a mesma coisa que representa hoje. A minha primeira ligação foi com as músicas em si, só muito mais tarde é que consciencializei o facto de haver um senhor por trás que fizera as recolhas. Era a necessidade de perceber onde é que a nossa música se insere em relação a um arco mediterrânico, um arco céltico, ou mesmo um arco Índico.
Tentúgal – Como eu dizia há uns tempos, há que retirar as aspas ao folclore. Lembro-me do tempo do “serviço cívico” no qual o trabalho de recolhas foi feito pelo Giacometti. Uma semente que foi deitada e hoje poderia ter alguma continuação. Aliás, não é só o espólio de Giacometti, falta deitar cá para fora o espólio do Virgílio Pereira. E onde é que está o espólio do Armando Leça? Não se sabe! Coisas do Artur Santos, porque é que não se reeditam? E o material de Ernesto Veiga de Oliveira, fechado no Museu de Etnografia?
P. – As recolhas de Giacometti libertaram os músicos de uma geração, que é a vossa, da responsabilidade de fazerem eles próprios esse trabalho, de manter viva a memória de um povo? Há ainda o paradoxo dos grupos novos que fazem “recolhas” a partir das gravações dos grupos mais velhos…Tentúgal – Posso dar um exemplo bastante concreto. Houve um grupo, do qual não vou dizer o nome, que há alguns anos editou um trabalho em álbum onde canta um malhão exactamente igual ao que se encontra no primeiro disco do Vai de Roda. Chegaram ao cúmulo de dizer que era recolha, metendo a mesma selecção de quadras que eu fiz, o mesmo “intermezzo” que eu criara e não existia na recolha [Amélia Muge, num aparte: “Enganaste-os bem!”], as mesmas pausas do bombo!... O problema está em que não existe o tal espólio arquivado, quer em partitura quer em áudio, ao qual qualquer pessoa possa ter acesso. Só assim se poderá distinguir entre o que é tratamento ou adulteração e o que é genuíno.
Carlos Guerreiro – Já experimentei mostrar as recolhas do Giacometti aos meus alunos e eles “vomitam”! Aquilo é inaudível para um miúdo que liga o rádio e ouve coisas cheias de som, rock e não sei quê. Nós, no tempo em que começámos a pegar nas recolhas do Giacometti a trabalhá-las, deparámos com uma coisa de tal maneira nova que até para nós era um mergulho no desconhecido. O nosso sentimento era de máximo respeito. Inclusive, nos nossos primeiros trabalhos, dávamo-nos ao luxo de nos enganarmos nos mesmos sítios, de tocar mal muitas vezes aquelas coisas feitas em instrumentos imperfeitos, meio desafinados. Depois houve tentativas de tornar a coisa mais digerível, mas sempre com grandes preocupações de pureza.
P. – Existirá um ponto de não retorno, nesse movimento de afastamento dos espécimes originais? Um ponto em que o termo “tradicional” se poderá tornar abusivo? Estamos a lembrar-nos dos discos dos Gaiteiros, da Né Ladeiras, mesmo do Ó que Som Tem…
Amélia Muge – Eu própria me interrogo muito sobre o que é genuíno ou não. Ponho em causa uma série de coisas a esse nível. Sinto-me a viver numa época onde, se é verdade que há uma enorme preocupação e descoberta disso que é o “tradicional”, há também uma enorme abertura ao mundo. Porquê recusar as novas tecnologias? Temos a liberdade de ser pertença dos mundos onde queremos estar. E a responsabilidade.
José Martins – Eu traria para aqui uma questão talvez mais técnica. Vou ouvir um tema recolhido pelo Giacometti. OK. O que é que está ali, o que é que eu posso fazer perante aquilo? Posso achar que é um tema maravilhoso e apetecer-me tocá-lo, exactamente como ele é. Ou então digo assim: espera lá, eu conheço música da Europa, ou de África, mas isto não conheço, é diferente de tudo. O que é que é diferente? Será pela combinação das harmonias, pelo tipo de linhas melódicas, pela interpretação que é dada ou pelos ornamentos? Esses aspectos que caracterizam a música portuguesa, da qual determinada recolha é um exemplo, é que me podem servir para fazer uma composição, que já não tem nada a ver com aquilo, mas onde se encontra o tipo de ritmos que lá está, a mesma forma de cantar, idêntico esquema de relação entre a melodia e a harmonia. Aí pode dizer-se que é música moderna, não tradicional, e, no entanto, música portuguesa de raiz tradicional, porque mantém as mesmas características musicais daquela coisinha ingénua cantada intuitivamente pela velha que ouviu cantar o pai ou o avô. É isto que faz a ponte entre poder-se continuar a evoluir, compondo, e dizer que é música portuguesa, porque se estão a desenvolver características que só existem aqui e em mais parte nenhum do mundo.
Amélia Muge – E há a liberdade para se poder fazer isso. A seguir ao 25 de Abril, havia um peso muito grande nos grupos. Dizíamos: alto lá! Há aqui coisas que as pessoas nunca ouviram, um lado da nossa cultura que é fundamental e é preciso dar a conhecer. Hoje estamos libertos de uma certa bandeira. Não quero dizer que a postura deva ser menos política, mas os ingredientes já não são os mesmos, estão despidos de circunstancialismos.
José Martins – É como um poeta que hoje em dia faz uma poesia que um estudioso reconheça como portuguesa. É evidente que vai estudar e ler Camões, mas não vai copiar os poemas. Se calhar, vai é apanhar a maneira como ele fala do amor, o tipo de rimas que usa, o aproveitamento do som da língua…
P. – Se o primeiro passo é o da interiorização do que é especificamente português, o segundo será o de estabelecer elos e encontrar relações com outras tradições do mundo?
Tentúgal – Mas mesmo esse primeiro passo ainda não foi dado!
José Martins – Até porque a nossa música é, como se sabe, um mescla de “n” culturas. A gente sabe, na Química, que a tabela de elementos é finita. No entanto, há milhares de compostos químicos diferentes. O tipo de combinação de ingredientes, neste caso culturais, que deu origem ao que chamamos cultura portuguesa é uma combinação particular, que, noutro país, resultou em algo completamente diferente. Aqui ao lado, em Espanha, também passaram os celtas, os vândalos ou os mouros, mas o resultado foi parar a outro sítio. Ninguém confunde a música portuguesa com a música espanhola, a não ser um chinês, que ouve um fado e acha que é parecido com uma sevilhana a chorar!...
Tudo o que tem sido dito é verdade, mas demora anos a pôr em prática. Para um jovem músico de hoje, menos paciente, que se interessa e quer tocar música portuguesa de raiz tradicional, essa aprendizagem poderá parecer exasperante e desmotivadora. Há outro lado por onde ele possa começar?
Tentúgal – Um conselho prático: varrer completamente os professores que têm! O problema, neste momento, é de mentalidades. Assiste-se hoje ao fenómeno dos “pimbas” e do “bicho”. A educação – como conjunto de escola, mais sociedade, mais pais – leva actualmente a uma situação de amorfismo galopante.
Carlos Guerreiro – Antes havia a tal bandeira. Depois, socialmente, estava tudo receptivo. Fosse o que fosse que a gente fizesse, as pessoas absorviam. Ainda por cima havia a Rádio Renascença ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador, que passava tudo o que a gente fazia… Não tivemos de lutar muito para impor o nosso tipo de música ou uma determinada opção estética. Na altura era uma novidade para toda a gente. Sobretudo, nós estávamos imbuídos de uma grande missão. Deus tinha-nos imbuído da missão de salvar a música portuguesa. Estávamos mesmo convencidos disso! [Risos.] Era uma tarefa ciclópica, universal! Claro que não salvámos coisa nenhuma. Até porque a música tradicional não existe como bem de consumo. Que eu saiba, para aí há 50 anos, não havia ninguém numa aldeia que se sentasse simplesmente a ver um gajo a tocar e depois batesse palmas. A música tinha sempre uma função, ou era música de trabalho, ou religiosa, ou de dança, sempre com uma participação do colectivo. A partir do momento em que se introduz a maquinaria nos campos, torna-se difícil cantar por cima de uma debulhadora mecânica. No mínimo fica-se rouco. Há, portanto, coisas que começam a morrer naturalmente. Indivíduos como o Giacometti, digamos que tiraram uma alga de dentro da água e puseram-na cá fora a secar. Ela está liofilizada, para alguém, em qualquer altura, poder pegar nela e pô-la de molho outra vez, para ver como funciona. Mas sabe-se que, terminada a função, o órgão tem tendência para morrer. Resta-nos matéria-prima gravada. Não precisamos de ser botânicos para fazer uma salada de fruta.
P. – Não seria um trabalho interessante correr no sentido inverso? Procurar sensibilizar o jovem músico do campo para perpetuar a tradição?
Carlos Guerreiro – Tal acontecerá naturalmente se, na sua comunidade, ele tiver condições para isso. Por exemplo, parece que está a acontecer um ressurgimento da gaita mirandesa. Existem putos a construir gaitas, uns melhor outros pior, mas isso não vem da cidade, nem por decreto, nem dos discos que nós editamos!
José Manuel David – Vamos é ver o que eles vão fazer com elas, se não vão aparecer para aí outros Delfins, só porque um dos gaiteiros se chama Delfim! [Risos.]
Tentúgal – A esse nível, as melhores experiências estão a vir do interior. No caso da gaita, está a recuperar-se aquilo que se perdeu no século XV, quando a gaita-de-foles era o principal instrumento português e havia associações de gaiteiros com um reportório próprio. Onde é que isso pára? Era um bom estudo para se perceber como Portugal perdeu isso e outras coisas.
José Martins – O puto que vive na aldeia já tem acesso aos meios de comunicação [Amélia Muge, noutro aparte: “Meios de descomunicação!”]. Se calhar tem o seu “walkman” portátil. Ele ouve rock, pop, jazz e clássico que passam na rádio e na televisão. Se houver uma produção de raiz portuguesa, mesmo afastada dos temas tradicionais, ele aí diz: “Olha, uma música tão porreira feita com este instrumento que eu tenho aqui ao lado!” Pode funcionar como “feedback” e fazer-lhe ver que, afinal, não se trata de uma velharia que o avô tinha guardado na arca do sótão. Depois ele poderá até tocar um tema dos Gaiteiros. Voltamos à questão da não estaticidade. Se calhar, daqui por dez anos, alguém que vá a essa aldeia fazer recolha já encontra um tipo de 50 anos a tocar temas em gaita-de-foles que ele diz serem tradicionais, mas que provavelmente foram compostos por um grupo chamado Gaiteiros de Lisboa.
Carlos Guerreiro – A maior parte do reportório de qualquer gaiteiro ou tocador de cavaquinho é composto por coisas da rádio. Então a seguir ao 25 de Abril, chegavas ao pé de um pastor que tocava a sua flauta e até ele deitar cá para fora qualquer coisa interessante, pura, original ou autêntica, tinhas que levar com desde as “Pombinhas da Catrina” até ao “Avante camarada!” e o “Companheiro Vasco”. Com a mesma técnica e entusiasmo. Como se aquilo fosse mesmo deles. Era uma força cultural, que eles ainda tinham, de conseguir absorver, assimilar e devolver tudo como se fosse música sua.

21/11/2008

Almanaque - Desfiando Cantigas

Pop Rock

20 de Setembro de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Almanaque “Desfiando Cantigas”

Como foi


Menos de um ano passado sobre o golpe de Estado do 25 de Abril, forma-se em Março de 1975 o Almanaque, Grupo de Recolha e Divulgação da Música Popular da Juventude Musical Portuguesa, com o objectivo de fazer, como se pode ler num comunicado de imprensa da época, citado por Mário Correia na sua obra “Música Popular Portuguesa – Um Ponto de Partida”, a pesquisa folclórica e a divulgação por todos os meios ao seu alcance da verdadeira música popular portuguesa, tendo por base o seu próprio trabalho junto do povo que canta, os resultados práticos do trabalho de dois grandes etnomusicólogos – Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti -, os seus próprios estudos colectivos sobre o assunto e, por fim, a sua própria prática musical”.
Esta ênfase posta na “verdadeira música popular” encerra toda uma crítica ao desvirtuamento daquilo a que o grupo designava por “folclorite”, personificada, nessa altura, por artistas como Carlos Alberto Moniz, Tonicha ou os Intróito, e a vontade de trabalhar e divulgar uma música de raiz o mais aproximada possível das origens. Em 1979, o grupo edita o seu primeiro álbum onde concretiza estes princípios e intenções, “Descantes e Cantaréus”, uma obra revolucionária que somente cinco anos mais tarde viria a apurar-se na maior sofisticação de “Desfiando Cantigas”. Aida no âmbito de actividades do Almanaque, é editada em 1982 uma obra importantíssima de recolhas – em três volumes discográficos – da autoria de José Alberto Sardinha (de quem acaba de ser publicado o livro “Tradições Musicais da Estremadura”), com a colaboração de Vítor Reino: “Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa”.
“Naquele tempo era difícil gravar”, recorda José Alberto Sardinha, justificando o intervalo de cinco anos entre o primeiro e o segundo disco do Almanaque com “convulsões internas” no seio do grupo. “Éramos muitos, havia sempre pouca estabilidade para fazer um disco.” “Desfiando Cantigas” é justamente o último disco gravado sob aquela designação. José Alberto Sardinha deixa o colectivo por “razões profissionais”, para se dedicar à advocacia, sem contudo abandonar o trabalho na área da música tradicional, continuando no campo da recolha e da investigação.
Durante este período que medeia entre os dois discos ocorrera “uma grande cisão” dos elementos do Almanaque que ditara, inclusive, a saída do terceiro director musical do grupo, José Manuel David, hoje nos Gaiteiros de Lisboa e mentor de um projecto de fusão que ostenta ainda o nome do grupo. “Tentámos seguir uma direcção democrática, não autoritária nem rígida”, continua José Alberto Sardinha, que considera “o domínio da tradição popular um domínio muito fluido em que qualquer pessoa pode dar opiniões”, o que, na sua perspectiva, esteve na origem dos problemas: “Veja o que é um grupo de trinta pessoas, cada uma a dar a sua opinião! Pessoas que não tinham feito recolhas, que não tinham lido nada nem estudado nada, que não sabiam nada, a pôr em causa o que eu dizia!” O abandono de José Manuel David, “que se deixou levar pelos cantos de sereia de uma certa parte do grupo e começou a fazer contravapor contra os outros dois”, teria sido, segundo o etnomusicólogo, o gatilho que desencadeou a tal “grande cisão”.
Seja como for, nada disto parece ter afectado a gravação de “Desfiando Cantigas”, já com o poder de decisão nas mãos de José Alberto Sardinha e Vítor Reino. “Tínhamos as recolhas feitas, da minha responsabilidade exclusiva, com o compromisso de as facultar ao grupo e de fazer todos os anos, no Verão, uma recolha aberta a quem quisesse”, diz o primeiro, sobre quem recaía também a maior parte da responsabilidade do estudo desse material. “Depois seleccionávamos aquelas que víamos que eram mais adaptáveis ao nosso instrumental e à nossa maneira de cantar.”
Só que, nos ensaios, tal direcção tinha “pouca autoridade”. “Eu só podia ir a um ensaio por semana, morava fora de Lisboa e entretanto tinha-me casado e organizado a minha vida profissional em Torres Vedras” – conta. “Nos ensaios em que eu não estava era uma barafunda! O Vítor Reino, por ser invisual, não podia assegurar uma regência efectiva. Gerou-se um clima de democracia de base exagerada que depois não funcionava.” Em estúdio, porém, “a coisa correu bem.” Aí a direcção musical de Sardinha e Reino “não era muito mais que dar as entradas e marcar os compassos”, embora a direcção coral, a cargo do advogado, exigisse outro tipo de cuidados, pela sua “maior expressividade”. “Desfiando cantigas” demorou, mesmo assim, alguns meses a fazer.
Em pé fica a atitude, manifestada desde a formação do grupo, de lutar contra o que consideravam ser o desvirtuamento do nosso folclore, e da qual “Desfiando Cantigas” permanece como um manifesto. “Mais do que uma reacção”, diz José Alberto Sardinha, o projecto Almanaque “era uma afirmação”. Na altura eram eles, a Brigada e “outros grupos – hoje em dia existem aos milhares, todos a dizer que têm recolhas feitas… - que continuavam a transmitir da música tradicional apenas a música bailada, no fundo a mais superficial, a mais simples e a mais agradável ao ouvido”.
O Almanaque seguiu por outra estrada. Repleta de escolhos mas que permite chegar a bom porto, sob a orientação das estrelas. “Tínhamos uma concepção própria de espectáculo. Fizemos uma vez um na Fundação Gulbenkian em que tentámos fazer o ciclo rural todo, desde a Natividade, passando pelo Entrudo, a Quaresma – com uma “encomendação das almas” - , a Páscoa… Não era uma coisa agradável de se ouvir, a encomendação das almas. Nós apagávamos as luzes, acendíamos velas e cantávamos a encomendação, o que provocava um efeito cénico muito bom.”
O futuro da música tradicional portuguesa, descontando honrosas excepções como as da Brigada, Vai de Roda, Raízes ou Terra a Terra, viria a atravessar uma noite bem mais escura. “Os grupos que apareceram depois, continuavam a dar aquela musiquinha…” Como um guardião, ou um farol, o Almanaque continua disponível para consulta. “Tínhamos uma perspectiva purista. De reproduzir tal e qual como encontrávamos no campo. Arrostando com os riscos próprios de sermos um grupo urbano. Não me parece que seja chocante”.

Como é

Ressalta em primeiro lugar, de “Desfiando Cantigas”, o seu rigor. O rigor que resulta da aplicação de um método e de uma opção estética bem definidas e orientadas. José Alberto Sardinha e Vítor Reino, os dois directores musicais do projecto, sabiam o que queriam. Movia-os o amor a uma causa que ambos viriam a prosseguir posteriormente em separado e por vias diferentes. O primeiro por um trabalho de recolha e investigação sistemático, o segundo numa continuação musical que frutificaria na Ronda dos Quatro Caminhos e viria aos poucos a definhar nos Maio Moço.
“Desfiando Cantigas” é um disco puro, feito por puristas. Um trabalho elaborado sobre gravações de campo efectuadas sobretudo por José Alberto Sardinha, que procurava pôr em destaque os aspectos mais genuínos e profundos da música tradicional portuguesa, desvalorizando o seu aspecto espectacular (quando não o fútil e o deturpado, daquilo a que chamavam “folclorite”) se destituído dessa componente essencial que liga os sons e os ritmos do povo às pulsões da natureza. Tendo sempre presente a compreensão de que, tratando-se em qualquer caso de uma reprodução – que se procurou ser o mais fiel possível – levada a cabo por músicos urbanos, nunca o resultado final poderia ser uma cópia exacta da música vivida e criada no contexto original das populações rurais.
A alternativa foi ensaiar como que um “aperfeiçoamento” formal das características intrínsecas das várias peças etnográficas abordadas – danças, cantos de trabalho, romances e cânticos religiosos, entre outras – de maneira a valorizar os seus núcleos rítmicos, modais ou harmónicos, sugerindo uma focagem afinada com maior ênfase e nitidez.
Afastada deste modo uma perspectiva meramente arqueológica, é de facto um almanaque que se desfolha, na forma de percurso pelas tradições do Norte ao Sul do país, do Minho e Trás-os-Montes ao Algarve, com desvio pelos Açores. Ciclo concêntrico ao dos rituais mágicos do ano solar que se desenrola, em sentido inverso, entre a despedida a um dia de trabalho de uma “Chamarrita” açoriana e o apelo à festa de uma “Alvorada” matutina vibrante no casamento das gaitas e bombos transmontanos.