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31/01/2019

Bólides irlandeses ultrapassaram Mercedes [Festival Intercéltico]


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 7 ABR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

Bólides irlandeses ultrapassaram Mercedes

XIII FESTIVAL INTERCÉLTICO
Gaiteiros de Lisboa + Four Men and a Dog
4 de Abril, sala praticamente cheia
Mercedes Péon + Altan
5 de Abril, sala cheia
PORTO Coliseu

Terminou o 13.º Festival Intercéltico do Porto. Em apoteose. É quase sempre assim, quando a Irlanda desce ao Porto, com festa rija, toda a gente a dançar e um ar de felicidade estampado nos rostos e nos corpos. Os Altan cumpriram com brilho, sábado, no Coliseu, a tarefa de que foram incumbidos, divulgando a mensagem renovada de uma Irlanda definitivamente enraizada nos hábitos culturais do Intercéltico. Grande concerto, em crescendo, sem concessões. É assim que deve ser, atrair o público até à música, levá-lo a compreendê-la, senti-la e aceitá-la, ao invés de apelar aos desejos mais básicos de quem ouve. Os Altan começaram devagar, com o canto “a capella” de Mairead Ní Mhaonaigh (na foto). Os “jigs” e “reels” apareceram naturalmente, sem tiranizar a beleza de baladas como “Roaring water” ou “A tune for Frankie” (dedicado ao malogrado flautista e fundador dos Altan, Frankie Kennedy). Aos poucos os corpos soltaram-se. Vieram as danças, a imparável vontade de participar.
            Mairead, além da voz que se conhece, mostrou ser uma exímia violinista, entrando em diálogos vertiginosos com Ciaran Tourish, sem o apoio de quaisquer percussões. A assistência mostrou estar à altura dos acontecimentos, sabendo dosear a folia com o silêncio, como quando cantou, sem uma desafinação, uma melodia a quatro tempos ensinada por Mairead. Com os Altan a Irlanda profunda esteve presente no Porto e deixou marcas.
            Na véspera foi uma outra Irlanda que passou pelo Intercéltico. Ao contrário dos Altan, os Four Men and a Dog praticam uma música mais universal e tecnicista. Ausente Gino Lupari (para grande desapontamento de muitos), trocado pelo competente e amplificado Jimmy Higgins, no “bodhran”, o quarteto selou uma atuação tecnicamente irrepreensível de onde sobressaíram as acrobacias violinísticas de Cathal Hayden e Gerry O’Connor. A forma como transformaram “Music for a Found Harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra, num tema com uma complexidade harmónica que o original não possui foi exemplar da atual abordagem estilística dos Four Men and a Dog, um grupo que, sem Gino Lupari, manifestamente se tornou mais musical, ganhando em rigor o que perdeu em teatralidade e “verve” humorística. Mesmo assim, um “boogie” saído da cartola mostrou que ainda anda por ali à solta um cão vadio...
            Desiludiram as duas bandas chamadas a fazer as primeiras partes. Na sexta-feira, os Gaiteiros de Lisboa esticaram demasiado a corda. Inegável continua a ser a originalidade de uma música única no panorama da “folk” europeia. Polifonias intrincadas, uma tensão instrumental feita da polaridade entre a música antiga e a modernidade mais radical, um humor inteligente e “nonsense” mordazes, a força de percussões arrancadas ao cancioneiro
português mais genuíno, tudo isto esteve presente na atuação dos Gaiteiros na noite portuense. Faltou a unidade, a sustentação prática de um edifício cuja complexidade não cessa de aumentar. Se o motor rítmico funcionou e as vozes compensaram com a beleza do labirinto um ou outro défice de colocação, o mesmo não se poderá dizer das gaitas-de-foles numa noite em que andaram manifestamente perdidas. Nem sempre é possível acompanhar a força das marés, e a onda gigante, o macaréu, dos Gaiteiros é força da Natureza, umas vezes doce, outras tempestade difícil de domar.
            Mercedes Peón, na abertura de sábado, não esteve melhor. Não que o público não tivesse gostado. Adorou. Mas porque a cantora galega lhes ofereceu prato de fácil digestão: batidas rock de baixo elétrico e bateria, cânticos fortes servidos por um vozeirão que se deve ter feito ouvir na outra margem do Douro, gaitadas meia-bola-e-força e canções dignas de uma “Operação Triunfo” não tiveram dificuldade em impor-se. Mas Mercedes foi mais veículo de carga do que automóvel de luxo. No “stand” do Intercéltico, os bólides irlandeses continuam a ser os mais viáveis.

EM RESUMO
Duas Irlandas, a profunda dos Altan e a universalista dos Four Men and a Dog, “arrasaram” o Coliseu do Porto.
Gaiteiros e Mercedes foram a arranjar para a oficina

25/01/2019

Se um grupo irlandês agrada a muita gente... [Festival Intercéltico]


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 3 ABR 2003

Se um grupo irlandês agrada a muita gente…

FESTIVAL INTERCÉLTICO

Shantalla, Four Men and a Dog e Altan. Dose tripla de música irlandesa no Intercéltico. O Festival começa hoje no Porto e estende-se a Lisboa, Montemor-o-Novo e Arcos de Valdevez


Ex-líbris da cidade do Porto, o Festival Intercéltico desce, nesta sua 13ª edição, até ao Sul do país. Ao Alentejo, imagine-se, terra de mouros para quem as polifonias do cante ou o rasgar de uma viola campaniça falam mais alto ao coração do que o gemido de florestas distantes do fole de umas "uillean pipes" irlandesas. Desta vez não será apenas o Coliseu do Porto a acolher a festa e a beleza de uma música que insiste em demarcar-se da voragem consumista. Lisboa, Montemor-o-Novo e Arcos de Valdevez entraram no mapa.
            Hoje mesmo, o melómano folk poderá escolher entre ficar na capital para ouvir, no Coliseu dos Recreios, os grupos irlandeses Altan e Four Men and a Dog, ou assistir ao Intercéltico na sua sede própria desde o primeiro dia e receber no Coliseu portuense a Brigada Victor Jara e os também irlandeses Shantalla. Irlanda que, como se vê, se faz representar em força no Intercéltico deste ano, de novo sob a alçada do MC - Mundo da Canção.
            Shantalla, Four Men and a Dog e Altan (estreia absoluta no Intercéltico, embora já tivessem actuado num dos Encontros Musicais da Tradição Europeia) são os ilustres representantes de uma linhagem de presenças intercélticas que inclui os De Danann, The Chieftains, Déanta, Dervish, Arcady, Patrick Street, Solas e Lúnasa. Mas três bandas irlandesas no mesmo Intercéltico, eis a grande novidade. Espera-se algo de especial.
            Os Shantalla, que hoje partilham o palco com a Brigada Victor Jara, deixaram gratas recordações a quem os viu e ouviu há três anos, entre copos e conversas, no café-concerto do Teatro Rivoli. Cresceram entretanto. Tanto, que hoje nada devem às grandes bandas clássicas irlandesas da atualidade. O novo álbum, "Seven Evenings, Seven Mornings", é a prova viva de que a música dos Shantalla tem tudo para nos transportar até ao céu do "puirt a beul" vocal ou ao círculo "diabólico" dos "jigs" e dos "reels". Com ou sem "whiskey", ou um "pint" de Guinness, a ajudar. Helen Flaherty é a voz iluminada de um colectivo onde pontifica o talento instrumental de Kieran Fahy, no violino e viola de arco, Michael Horgan, nas "uillean pipes", flauta e "tin whistle", Joe Hennon, na guitarra, e Gerry Murray, no acordeão, bouzouki, bandolim, "whistles" e percussão.

Gino, o grande
Amanhã, depois dos Gaiteiros de Lisboa, em processo de apuramento dos muitos confrontos e maravilhas presentes no seu novo álbum, "Macaréu", será a vez dos Four Men and a Dog tentarem repetir, ou ultrapassar, a loucura que na sua apresentação no Intercéltico de 1995 quase fez estourar de folia a vetusta sala do Coliseu do Porto. Sob a liderança, vocal e visual, do anafado Gino Lupari, gigantesco na presença física, na "verve" humorística e no ritmo imprimido ao "bodhran", os quatro homens e um cão apresentam-se como arautos de um ecletismo levado ao extremo, com uma música que assimila, espalha, integra, recria e transfigura não só as modalidades tradicionais irlandesas como o "boogie", os "blues", o "rockabilly", a "salsa", a "country", o "rap", o "rhythm'n'blues" e, no novo álbum, "Maybe Tonight", a música tradicional russa e (mais) uma versão de "Music for a found harmonium", dos Penguin Cafe Orchestra.
            Sábado, no fecho do festival, estarão presentes os Altan, dos casos mais emocionantes de ascensão no panorama da nova folk europeia, após o trauma causado nos anos 80 pela morte de um dos seus elementos fundadores, o flautista Frankie Kennedy. Tal não impediu a progressão deste grupo com origem em Donegal que, de álbum para álbum - entre a sua discografia contam-se pérolas como "Horse with a Heart", "Harvest Storm", "Island Angel", "Blackwater", "Another Sky" e "The Blue Idol" -, tem conquistado um número cada vez maior de admiradores. Mairead Ni Nhaonaigh é a voz que promete pôr mais do que um coração de rastos.
            Mas não só da Irlanda, em termos de presenças internacionais, se faz o Intercéltico. A anteceder o concerto dos Altan, a cantora galega Mercedes Péon levará ao Coliseu do Porto o espanto, a beleza convulsiva e alguma inquietação. Cabeça rapada, como Sinéad O'Connor, a voz localizada naquele registo, misto de devoção e luciferismo, de cantoras malditas como Meira Asher e Diamanda Galas, Mercedes percorre as gamas mais obscuras da folk galega, de muiñeiras e "alalas" modificadas por uma visão que mergulha no seu núcleo mágico e transfigurador. "Isué", o seu álbum de apresentação, tem tanto de novo como de atraente. De iconoclastia como de provocação. Logo veremos se, como se diz, as raparigas boas vão para o céu e as más para todo o lado.

31/08/2016

Altan - The Blue Idol

Sons
2 Agosto 2002

ALTAN
The Blue Idol
Virgin, distri EMI-VC
7|10


Embora embrulhado em formato gráfico e produção “Enya”, “The Blue Idol” não envergonha a anterior produção de uma das bandas folk mais promissoras dos anos 80, marcada, desde cedo, pela adversidade (a morte prematura do extraordinário flautista Frankie Kennedy). É um álbum com a serenidade da idade adulta, onde mesmo os jigs e reels denotam melancolia, como se os fantasmas do passado não tivessem sido ainda exorcizados. Os convidados de luxo (Lyam O’Flynn, Donal Lunny, Paul Brady, nada mais nada menos do que três ex-Planxty, Dolly Parton…) são uma mais valia, mas apontam-se fraquezas na utilização pontual, mas pouco feliz, de um saxofone pimba, ou na estranha falta de ousadia de alguns dos momentos instrumentais. Se os Altan ainda estão tristes, conseguiram, porém, tirar o melhor partido desse sentimento, numa canção que é das mais belas e tocantes dos últimos anos: “Daily growing” – emocionante dueto vocal de Mairéad Ní Mhaonaigh e Paul Brady sobre o tema da perda.

14/08/2016

Altan - Harvest Storm

Pop Rock
1992

COLHEITA DE OURO

Altan
Harvest Storm
CD Green Linnet, import.

Os Altan são o grupo do momento da cena Folk da Irlanda. Ao quarto álbum, depois de “Altan”, “Horse with A Heart” e “The Red Crow”, todos distribuídos em Portugal, a banda sediada no condado de Donegal tornou-se a menina querida da “Folk Roots”, que nela vê uma digna sucessora de lendas como os Clannad (da fase anterior à “new age folk”), Bothy Band e De Danann. Mairéad Ní Mhaonaigh ocupa o centro das operações. No violino, de que é exímia executante, e nas vocalizações em gaélico, que entroncam na melhor tradição de uma região que à folk deu já nomes como Triona, e Micheál O’Dhomnaill, a par dos “traidores” Enya e Clannad.
            “Harvest Storm” é o puro gozo de música que aprendeu a crescer e a respirar no seio de sumidades – James Byrne, Tommy Peoples ou Connall O’Donnell, entre outros – em instrumentais urdidos por três violinos (Mairéad, Paul O’Shaughnessy e Ciaran Tourish), em diálogo de espantosa fluidez e rigor contrapontístico com a flauta mágica de Frankie Kennedy (um virtuose à altura de Frankie Gavin, dos De Danann, ou Michael Tubridy dos Chieftains) e as cordas dedilhadas de Mark Kelly e Ciaran Curran. Sem esquecer a contribuição de convidados de nomeada: Donnal Lunny, nos teclados, e Dáithi Sproule (Buttons & Bows) na guitarra.

            Inseridas numa linha próxima dos Bothy Band, as baladas em gaélico dão a conhecer o lado melódico dos Altan, sobressaindo as intrincadas harmonias vocais de “Dónal Agus mórag”, uma canção de casamento da ilha de Rathlin, e a sobreposição de voz e didgeridoo em “Sí do mhaimeo Í”. O melhor disco de música tradicional irlandesa do ano. (9)