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03/04/2017

Uma voz nas voz dos outros ["Uma vela por Amália"]

cultura DOMINGO 8 OUTUBRO 2000

Espetáculo “Uma vela por Amália” relembra a fadista

Uma voz na voz dos outros

Apagou-se a vela do 1º aniversário da morte de Amália. Cantou-se o fado. Cantou-se a memória e a saudade. E revelou-se a presença arrepiante de uma nova fadista, Katia Guerreiro, sósia da diva.

Cumprido um ano sobre a sua morte, Amália permanece viva apenas nos discos, nos filmes e no coração de cada um. Tudo o mais é saudade. E o que sobra é vaidade.
            Espectáculos como o do aniversário do 1º ano da morte da fadista, realizado na noite de sexta-feira no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, sob o genérico "Uma vela por Amália" e transmitido em directo pela TVI, funcionam como um lenitivo. As pessoas vão para ouvir um eco, para ouvir uma voz que já se foi, impressa nas vozes dos que por cá ficaram. Vão porque necessitam da ilusão que faz esquecer a ausência. Vão para ouvir cantar o fado.
            Muitos sopraram uma vela por Amália no Coliseu. O espetáculo foi longo, ainda mais longo pelo atraso com que se iniciou – mais de uma hora – provocado pelas exigências do directo. O povo, depois de minutos antes se ter comprimido e protestado de viva voz contra a abertura tardia das portas, esteve pacato lá dentro, sossegado pelas imagens da novela que a TVI passava em directo nos monitores do Coliseu.
            Por fim lá chegou o bolo com a vela. Melhor dizendo, 18 velas, tantos foram os artistas que cantaram. Depois das palavras de apresentação de João Braga, com a sobriedade que se impunha, veio o fado. Com a arquitetura da velha de Lisboa como pano de fundo.

Uma nova geração de fadista

            Amália já não se encontra entre nós. Mas para além da saudade que deixou, deitou sementes ao fado. Graças a ela, à sua vida e à sua voz, o fado está hoje bem servido por uma nova geração de cantores capazes de manter aceso o fado nas décadas vindouras. Joana Amendoeira, Teresa Tapadas, Ana Sofia Varela e Maria Ana Bobone, pela ordem que foram entrando em cena, são todas senhoras de belas vozes, têm alma e uma presença física invejável. São bonitas e cantam bem. Ana Sofia Varela será das quatro a que melhor junta à graça a garra.
            Deixámos propositadamente de fora o nome de Katia Guerreiro, recém-formada em medicina ("consultório à disposição" como brincou João Braga) e estreante em espectáculos ao vivo com esta dimensão. O fadista-apresentador bem avisou que qualquer elogio ficaria além da realidade. Tinha razão. O impacte provocado pela sua presença é arrepiante. Katia Guerreiro é fisicamente uma sósia de Amália. Quem gravou o espectáculo do Coliseu experimente parar a imagem. Assustador. O rosto, o franzir das sobrancelhas, a boca, a expressão, os olhos fechados, a inclinação da cabeça. É Amália nos tempos da juventude. Será encenação minuciosamente preparada por Katia Guerreiro? A maquilhagem? Ou será ela mesmo assim? Depois a voz, até a voz toca no mesmo registo mais grave de Amália. Katia cantou "Barco negro" e"Amor de mel, amor de fel". Um fantasma pairou no Coliseu.
            João Maria Tudela, Rodrigo Costa Félix, Raúl Indipwo, Paulo de Carvalho, Paulo Bragança, António Pinto Basto, Carlos Zel, Maria Armanda, Margarida Bessa, Maria do Céu, Waldemar Bastos, Tito Paris e João Braga foram as outras vozes que levaram a memória e a música de Amália pela noite de fora, acompanhados pelas guitarras e violas de Raúl Nery, Carlos Gonçalves, José Luís Nobre Costa, Jaime Santos Jr. e Joel Pina. Com a presença na sala do presidente da edilidade lisboeta, João Soares, ouviram-se ainda depoimentos televisivos de Daniel Proença de Carvalho, Artur Agostinho, Ruy de Carvalho e Alexandra.
            Na assistência bebeu-se cada verso, os lábios e a alma conheciam de cor cada fado de Amália. Passou só um ano mas a saudade é já imensa.

17/01/2017

Concerto fúnebre por Amália

destaque SÁBADO, 9 OUTUBRO 1999

Concerto fúnebre por Amália

Amália Rodrigues foi hoje a enterrar. O seu maior medo era que as pessoas se pudessem esquecer dela. Os milhares de pessoas que ontem a acompanharam até à última morada, no Cemitério dos Prazeres, mostraram, num clarão de emoções, que tal jamais acontecerá. O povo, a quem Amália deu voz durante toda a sua vida, despediu-se a cantar fado. A mulher morreu. Nasceu o mito.

Com as honras devidas, Portugal prestou a última homenagem à maior das suas vozes. Uma voz que entrou, mais do que nos ouvidos, no fundo anímico dos portugueses. Amália, o seu fado, trespassou-nos. Ontem de manhã, na Basília da Estrela, celebrou-se a missa das exéquias e o funeral da fadista. Demonstração impressionante do amor que todos nutriam por esta mulher que começou por vender fruta até se tornar na embaixatriz da alma e da música portuguesas no mundo. O PÚBLICO fez a viagem através da multidão, entre os cacos de um sonho quebrado. Sem remédio nem retorno. Mas também a viagem através das pequenas histórias que, inevitavelmente, nascem quando um grande vulto morre. Onde termina a realidade e começa a ficção? Em Amália. Nos fados de Amália. No fado de Amália. No nosso fado. No que recebemos e deixámos de receber com Amália. Do que perdemos de nós mesmos por Amália. O maior medo de Amália Rodrigues era que se esquecessem dela. Ninguém de esquece de si próprio. Portugal inteiro fez-se saudade.

Afastar o desespero

            "Você acha mesmo que a Amália tinha 79 anos?", dispara, conspirador, o motorista de táxi que nos conduz à Basílica da Estrela onde vai ser celebrada a missa das exéquias da fadista. Não tinha? Perguntamos, incrédulos. "Era muito mais velha!", garante o taxista, "o meu pai, que tem hoje 83 anos, conheceu-a bem quando estava a acabar a tropa, aos 21 anos. Tinha a certeza, confirmada pela própria, que a Amália era dez anos mais velha do que ele". Por contas de cabeça, Amália teria então 93 anos na altura do falecimento. É o começo da lenda. O primeiro dia da eternidade. Estas e outras histórias, verdadeiras ou imaginárias, andarão de boca em boca pelas gerações vindouras, conservando intacta a memória daquela que foi a maior cantora portuguesa de todos os tempos.
            O táxi reduz a velocidade à medida que a multidão vai engrossando. Para todos os que, de algum modo, foram sensíveis à música ou à mulher, a última homenagem é um imperativo moral inadiável. A Basílica está apinhada de rostos comovidos. Mas a manhã rompe luminosa e dentro do templo a luz jorra com força, espantando as sombras. Amália "afastava para longe o desespero que às vezes invade o espírito dos embotados" diz D. José Alves, vigário-geral do Patriarcado de Lisboa.
            Às nove da manhã tem início a celebração. Ofício religioso mas também espetáculo. Ao centro da nave principal o caixão com o corpo de Amália tem como cobertura a bandeira nacional, emoldurada por flores. Rodeiam-no uma guarda de honra composta por elementos da GNR. Um deles sente-se mal e sai amparado. Minutos mais tarde outro cai redondo no chão.
            Num dos lados da nave da basílica está instalado o quartel-general da comunicação social, transformando aquele espaço numa agência noticiosa. Soam telemóveis. Locutores transmitem em direto a cerimónia falando mais alto que o devido. Fios e cabos, blocos e gravadores. As objetivas dos fotógrafos procuram enquadrar o caixão com os VIP que estão sentados no lado oposto da nave. Caras consternadas, à direita, ao centro e à esquerda. João Braga, com a consternação estampada no rosto, lê aos microfones um texto religioso. Ele e os veteranos das casas de fado estão presentes em força. Os mais novos, não conseguimos vê-los. Raul Indipwo e João Maria Tudela marcam presença. E José Pedro, dos Xutos e Pontapés: "Estou aqui principalmente pela Celeste Rodrigues, mãe da sobrinha de Amália, a Mizé, com quem vivi muito tempo”.

A necessidade de estrelas e do seu brilho

            À medida que o ritual avança cresce a emoção. Celeste Rodrigues, irmã de Amália, não esconde a dor que sente. Nem Leonilde de Jesus, secretária pessoal e amiga de Amália. Há quem profira palavras de consolo, tentando ignorar que há momentos na vida em que não há consolo possível. Quando Rosa Mota entra, já a meio da missa, os rostos voltam-se para esse lado. Felizmente, Portugal tem outras estrelas. Portugal precisa de estrelas e do seu brilho – maior, para o povo, que o dos fatos e gravatas dos políticos que o luto escureceu.
            Frei Hermano da Câmara, o frade-cantor com quem Amália cantou no álbum "Nazareno", destaca-se entre os oficiantes. Já na rua declara que está a viver a morte de Amália "muito interiormente, como muita dor, muito sofrimento e muita oração", acrescentando que "é uma faca no coração, um vazio que se sente, a perda de um gigante da arte e do fado".
            O frade não canta mas canta o Coro da Paróquia da Lapa. Um grupo de guitarras enche de música a cerimónia com uma versão instrumental de "Foi Deus", um dos fados que mais alto projetou a voz de Amália Rodrigues. Estudantes de Coimbra evocam, num gesto simbólico, o filme "Capas Negras" no qual Amália participou.
            A missa termina – diz-se que a pedido expresso em vida pela própria – com a voz de Amália a cantar "Grito". Silêncio. A seguir, um fogo. É o zénite, o vulcão dos sentimentos, a presença sobrenatural. Quando se extingue o último verso – "Solidão quase loucura" – a multidão explode num aplauso interminável. Agitam-se lenços brancos. Muitos choram.
            "Quando eu morrer, façam o favor de chorar por mim", pedira Amália em vida. Portugal chorou. A cantar o fado.

06/01/2017

Foi Deus [Amália Rodrigues]

QUINTA-FEIRA, 7 OUTUBRO 1999 destaque

Foi Deus

Amália Rodrigues – o Fado – morreu. "Desde que existe morte, imediatamente a vida é absurda", disse Amália um dia. O fado tomou o lugar da sua vida, fez-se voz. A voz onde escutávamos a distância que nos separa de nós mesmos. Dizíamos: o fado. E era no seu canto que nos comprazíamos em dizê-lo. A voz e o fado de Amália atravessaram em chamas seis décadas da cultura portuguesa. Um tempo de canções, de pessoas, de êxitos, de lugares e de polémicas que são o espelho de um país amarrado à saudade. Ao baterem as oito horas da manhã de ontem, na sua casa, na Rua de São Bento, em Lisboa, a voz extinguiu-se. "Gostava de morrer de repente. Acho que as pessoas deviam ser como as maçãs, cair da árvore". A maçã caiu e deixou-nos sós. Ficou uma lenda para ouvir cantar muitas vezes. Amália. Era uma mulher com uma voz do tamanho da alma.

A máscara que esconde um rosto

"Entrei na vida a cantar / E o meu primeiro lamento / Se foi cantado a chorar / Foi logo com sentimento", escreveu Amália nos primeiros anos da sua carreira, para a música do fado "Mouraria". Amália costumava chorar muito. Chorava quando cantava. Chorava quando chorava. "Só consigo cantar se gosto de me ouvir. Mas quando gosto muito, comovo-me. Choro quando as palavras me tocam fundo nalguma coisa qualquer que me dói". Dois dos fados em que Amália cedia com maior facilidade às lágrimas eram "Cansaço" e "Povo que lavas no rio". Neles a fadista dizia que encontrava a liberdade de ser ela própria, de anular a eternidade que separava a sua vida de artista da sua verdadeira maneira de ser.
            Então deixava-se levar pelo cansaço, banhando-se nas águas do total abandono. "Quando chego às tábuas do meu caixão, já eu estou quase no caixão" – dizia, a propósito de "Cansaço" - "Já estou morta, já sinto as flores e tudo". "Isto em cena, mas depois, quando volto para casa, continuo a ser a tal pessoa: 'daí este meu cansaço / de sentir que quanto faço / não é feito só por mim'. Já estou eu de roda de mim outra vez". Há nestas palavras uma lucidez extrema. A intuição de que a personalidade não passa da máscara que esconde um rosto sem feições. "Penso assim porque sou lúcida. Mas também pode ser que esteja doida". A música, essa, vinha-lhe diretamente de Deus e era a Deus que se entregava. Foi Deus. Amália deu-se por inteiro ao seu destino de ser, mais do que "persona", alma coletiva. De cantar todos os males, os seus e os dos outros. De dar de beber à dor.

Fado de uma vendedeira de fruta

A história de Amália começa por onde quisermos. "Quando fizerem a minha história e eu já não for viva para dizer como foi, então é que se vão fartar de inventar. O que me irrita é a mentira. Mas sei que a minha história vai ser aquela que escolherem, aquela que é a mais interessante, aquela que não é a minha". Escolhemos esta: Era uma vez uma mulher com uma voz do tamanho da alma.
            Amália Rodrigues nasceu no primeiro dia de Julho de 1920 - embora as certidões a façam mais nova 22 dias -, na rua Martim Vaz, na freguesia da Pena, então uma zona operária de Lisboa. Os pais eram da Beira Baixa e teria sido numa das suas passagens pela capital que a fadista veio ao mundo.
            Cresceu no seio de uma família pobre que tentava sobreviver à grande depressão de 1930. Vendiam fruta, ela, a mãe e a irmã, no mercado da Ribeira. Ou no Cais da Rocha, quando sobrava alguma. Em Alcântara, Amália canta o fado pela primeira vez. Nas marchas populares, o "Fado de Alcântara". Em 1938, aos quinze anos, concorre ao concurso "Rainha do fado". As adversárias invejam-lhe a voz e recusam-se cantar ao lado de uma "vendedeira de fruta".
            Durante um ensaio na Academia de Santo Amaro conhece aquele que viria a tornar-se o seu primeiro marido, Francisco da Cruz, torneiro mecânico e guitarrista amador, com quem casa, em 1940. Antes, já ele a enganara com outra. Amália tenta suicidar-se com mata-ratos, no chafariz da Junqueira, em frente à porta do amado. Tentativa falhada: deixa cair com a água a maior parte do remédio. Reconciliação e casamento, no mesmo ano em que se estreia a cantar numa casa de fados, o Retiro da Severa. O casamento dura três anos, embora o divórcio apenas se concretize em 1949. Ele já partira para África, onde acaba por morrer. Amália sofre com a rejeição. "Nunca fui desconfiada na vida, nunca fechei nada à chave. A única desconfiança que eu tinha era de não acreditar que as pessoas gostassem de mim".
            Na Severa canta o "Mouraria", acompanhada pelos melhores guitarristas de Lisboa, Jaime Santos, José Marques, o mítico Armandinho. As vozes pertenciam a Alfredo Marceneiro, Adelina Ramos, Maria Albertina. E a duas das melhores fadistas dessa época, Berta Cardoso e Ercília Costa, apesar do ídolo de Amália ser Hermínia Silva. No Solar da Alegria já tem reportório próprio. Fernando de Freitas é o primeiro a escrever um fado especialmente para ela, a "Ronda dos bairros". Seguem-se Linhares Barbosa e Frederico de Brito que lhe oferece, entre outras canções, a "Carmencita".

Espanha, Brasil, o mundo

Estreia-se a cantar no estrangeiro, em 1943, na capital espanhola. Daí para a frente nunca mais perdeu o fascínio pela música espanhola que passou a ser parte integrante do seu reportório. O flamenco entra-lhe na alma. Se o destino a tivesse puxado para aí, poderia ter sido uma grande intérprete do "cante jondo". "Em Espanha há um ambiente de exaltação que quase levanta voo, um ambiente que teria servido muito melhor a minha voz do que o fado". Uma Amália, "ibérica na cantiga", que "nuestros hermanos" aprendem cedo a venerar. "Quando Amália tiene gripe", escreve um crítico espanhol, "el escudo baja". Mas o outro lado de uma vizinhança difícil, da arrogância altiva, também se faz sentir, e Amália não o desconhece, o que a leva a dizer que "os espanhóis veem o fado como veem Portugal, ou seja, não veem". É também em Madrid que conhece Hemingway. "Para que é que me serve ter conhecido Hemingway? Não era amiga dele, não sou prima, nem irmã!...".
            No ano seguinte, 1944, Amália descobre o Brasil. Atua no Casino de Copacabana. Neste país grava pela primeira vez, no ano seguinte, um disco de 78 rotações, para a editora Continental, com os fados "Perseguição" e "As penas". O cinema consagra-a como verdadeira atriz em "Capas Negras", de Armando de Miranda, e "Fado - História de uma Cantadeira", de Perdigão Queiroga, um cineasta da escola americana, que neste filme desvela a luminosidade sobrenatural do rosto da cantora. O mesmo rosto que a câmara fotográfica de Silva Nogueira imortalizou.
            Ao longo da sua carreira, Amália participa, além destes, em mais seis filmes: "Vendaval Maravilhoso", "Os Amantes do Tejo" (filme francês, de Henri Verneuil, que triunfou no Japão em formato vídeo), "Sangue Toureiro", "Fado Corrido" e "As Ilhas Encantadas", onde a fotografia de Augusto Cabrita capta, por sua vez, imagens da artista que se tornariam célebres. Aparece ainda, apenas enquanto cantora, em "Sol e Toiros", "Abril em Portugal", "As Canções Unidas" e "Via Macau". "Os Amantes do Tejo" funcionaria como passaporte para Paris que lhe franqueia as portas do Olympia, em 1956, ponto de partida para uma carreira internacional sem precedentes no nosso país. Wim Wenders quis fixar-lhe a luz. Ou a sombra. Filma-a a entrar para um elétrico em "Até ao Fim do Mundo".

Deus no comboio das seis e meia

O teatro, onde se estreia em Junho de 1940, na revista "Ora vai Tu!", dá-lhe a conhecer uma forma mais segura e gratificante de contacto com o público. "No teatro há um palco e um público à frente. Numa casa de fado o público está em cima de nós. Como sou tímida, prefiro a distância. (...) Um teatro inteiro a bater palmas dá muito mais prazer. É um espetáculo, enquanto uma casa de fados não tem espetáculo".
            É ainda no meio teatral que aparece na sua vida o homem que lhe vai marcar a carreira, o maestro Frederico Valério. "Conhecia muito bem a minha voz e escrevia para mim, para toda a gama da minha voz, para cima e para baixo". Fados como "Rosa cantadeira", "Fado do ciúme", "Malhoa", "Sabe-se lá" exigem tudo da sua voz, sobretudo nos registos mais agudos, por sinal aqueles onde Amália se sentia menos à vontade. "Tenho tido uma voz muito sã, nunca dei uma fífia nos tons altos, cheguei lá sempre, mas numa tonalidade que não agrada muito ao meu ouvido. Por isso tínhamos as nossas pegas, eu e o maestro Valério. Eu dizia que era alto demais, ele chamava-me mandriona e dizia que estava lindo". Mas Deus e a música davam-lhe as mãos numa dádiva só concedida aos eleitos. "De repente, numa improvisação, sou capaz de ir a uma nota em que toco um tom que não sou capaz de tocar, se for a música a mandar".
            Os poetas descobrem em Amália o veículo privilegiado para os seus versos. Pedro Homem de Mello e David Mourão-Ferreira são dois dos principais. Mas é um alentejano, de Reguengos, com licenciatura em Farmácia, Alberto Janes, que lhe oferece, de bandeja, a transcendência: "Foi Deus", que Amália canta pela primeira vez na Rádio, no programa O Comboio das Seis e Meia. "É um fado tão ligado a mim que quando estive doente achei que não o podia cantar. Tinha vergonha de dizer 'E deu-me esta voz a mim', não estando a voz muito boa." No extremo oposta da hierarquia, o mesmo Janes escreve para ela o célebre "Vou dar de beber à dor". Amália canta "Foi Deus" num "Te Deum" na catedral de Beirute. O mundo rende-se à Voz.

O canário e a mosca

Londres, Berlim, Dublin, Roma, México. Nova-Iorque recebe-a em 1952, na boîte "La Vie en Rose". Fica durante catorze semanas. Edith Piaf, outro dos raros artistas europeus a vencer nos "states", ia lá todas as noites, para se encontrar com o namorado. Danny Kaye convida-a para atuar com ele num espetáculo da Broadway. Amália recusa. Como recusa outra oferta, para filmar com Anthony Quinn. "Eu podia ter sido muita coisa se não tivesse sido aquilo que sou". Lincoln Center e o Hollywood Bowl. Canta ao lado de Nat "King" Cole, Eartha Kitt, Lena Horne. Em 1953, em mais uma visita aos Estados Unidos, tem lugar o célebre episódio da Coca-Cola, num programa da NBC de Eddie Fisher. Imperativos comerciais obrigam a fadista a beber uma garrafa daquele refrigerante. Amália não gosta e canta "Coimbra" para os emigrantes. Julgavam que era uma canção francesa. Amália teve que explicar.
            No ano seguinte conquista o Mocambo, de novo em Hollywood. Os jornais chamam-lhe "Amália, the canary", o canário. Pedem-lhe que se vista de branco e use decotes maiores. Que largue o xaile negro e ponha uma rosa no cabelo. Fazem confusão entre Espanha e Portugal, Amália enfurece-se. É o "show-biz" a funcionar. Dá-lhe a mosca em Portugal. Na estreia televisiva, em 1958, o irritante inseto não pára de zumbir à sua volta e ela de sacudi-lo. No final da sessão Amália reconhece: "Cantou melhor a mosca do que eu."

Fado menor é destino mau

Amália representa a figura da Severa, no Teatro Monumental, em Lisboa, a convite de Vasco Morgado. Nunca se identificou com a mulher "de pancada alta, pêlo no braço, lume no olho". "Não tinha nada a ver comigo. Chamei a Severa a mim. Eu sabia lá como era a Severa!". Como também não sabia, não percebia nada de política nem dos políticos. Acusada de colaborar com o regime, Amália refugia-se no povo. Nisso, como em tudo, deixa-se ir. Marcelo Caetano condecora-a em 1958 na Feira de Bruxelas. Madrid concede-lhe a condecoração de Isabel, a Católica, em 1968. Recebe a Medalha de Prata de Paris e, em 1985, outra condecoração, das mãos de Jack Lang. Mas o que verdadeiramente a emociona permanece um mistério.
            "Quando me emociono, quando canto de um modo tão intenso que chego a chorar, não tem nada a ver com o público, ou com o meu estado de espírito, não tem a ver com estar apaixonada ou não. Uma vez, num barco, em Vila Franca, à noite, cantei aquela música do 'Fado cravo', com os versos 'Duas luzes' e todas as pessoas se ajoelharam aos meus pés. E ajoelharam porquê? Porque eu senti uma emoção muito grande". Ajoelharam porque Amália possuía essa capacidade rara de se concentrar no ponto exato onde tudo conflui, se dilacera e floresce. O lugar da cruz. "Nem sei como chamar a isto. Talvez eu não seja criadora, mas quando canto estou a inventar". Amália inventou-se. Inventou o tom perfeito para o fado menor, mais "à sua maneira". "Tem aquela força, aquela tristeza que eu exijo. O 'menor' é o pai e a mãe do fado. É destino mau".

“Vamos às óperas!”

Mas o destino decide ser bom com Amália, na aurora dos anos 60, ao facultar-lhe o encontro com Alain Oulman, o homem que lhe oferece os sons e as palavras exatas para a sua dimensão. O francês, nascido no Dafundo, escrevera "Vagamundo" a pensar nela. Ela descobre na sua música uma riqueza harmónica que o fado não abarca na sua simplicidade trágica. "Dá-me a possibilidade de voar". O primeiro disco com músicas de Alain Oulman surge em 1962. Graças a ele, Amália conquista um público novo, enquanto outra parte franze o nariz a estas ousadias. Os próprios músicos confessam a sua estranheza. José Nunes, guitarrista, sempre que lhe davam músicas de Oulman não conseguia conter-se: "Vamos às óperas!".
            Amália descobre-se em "Povo que lavas no rio", revendo-se emocionalmente nos versos de Pedro Homem de Mello. Entende com o coração o que ao cérebro por natureza não compete. "Abandono", de David Mourão-Ferreira, vale-lhe o voo picado da censura. Fala de prisões e de pessoas encarceradas em prisões. Amália vê apenas um poema de amor. Estava certa. Amor e revolução andaram sempre de mãos dadas. Oulman é preso pela PIDE e deportado para França. A separação torna a comunicação entre ambos mais difícil.
            Chegam outros poetas, Luís de Macedo, autor de "Cansaço", Sidónio Muralha, e Ary dos Santos, que o 25 de Abril atiraria violentamente para um dos lados da barricada. Alexandre O' Neill e a "Gaivota". Manuel Alegre. E Camões. "Camões é um grande fadista. Há lá mais português e mais fado do que o Camões: 'Com que voz cantarei meu triste fado?'".
            Os outros, infelizmente, não são da mesma opinião e estendem-lhe o dedo, acusador: Heresia! Amália acha uma burrice. "Por pior artista que se seja, ninguém consegue destruir um grande poeta, se o cantar". Um verso de Mário de Sá-Carneiro, dá-lhe "cabo da cabeça", aquele onde o poeta do "Orfeu" suspira "se ao menos permanecesse aquém...". Chega a pensar cantar o "Quase", mas falta-lhe quem possa compor música à altura. Já Fernando Pessoa, reconhece, "não é para cantar".

Mariquinhas não deixa voar

Novas participações em filmes, "Fado Corrido", 1964, de Brum do Canto e "As Ilhas Encantadas", de Carlos Vilardebó. Durante as filmagens deste último, conhece Augusto Cabrita, autor das mais belas fotos da fadista alguma vez tiradas. Amália, ainda e sempre, segue a voar pela vida e por uma carreira subordinada aos caprichos do destino. É então que deixa passar o convite de Anthony Quinn para filmar a seu lado. "Dear Amália I would love to hear your reaction to the script after you have read it", escreve-lhe o ator, de Itália, em 1967, ano de mais uma consagração. Em Cannes, no MIDEM, recebe um prémio das mãos do próprio Quinn, que faz questão em ser ele a entregar-lho. Fica assente que "Bodas de Sangue", de García Lorca, e "Os Velhos Marinheiros", de Jorge Amado, seriam as obras sobre as quais os dois trabalhariam juntos. Os herdeiros de Lorca não autorizam, porém, a adaptação americana do texto original. Quinn propõe a escolha de um novo argumento. O destino intervém de novo. "Como sou muito desleixada e não sabia procurar um argumento, não tinha confiança em mim, tinha vergonha de pedir às pessoas, não fiz nada. nem sequer lhe respondi. Foi pena!".
            Foi pena. Foi Deus. Fosse quem fosse, volta a ser o autor de "Foi Deus", Alberto Janes, quem, em 1968, lhe entrega de bandeja, no Café Luso, um novo êxito, "Vou dar de beber à dor", o tal da tasca da "Mariquinhas". Num instante torna-se o maior sucesso de vendas em toda a carreira de Amália. Cem mil discos vendidos, na altura uma raridade. É a fase "engraçada", para muitos ligeira em demasia, da fadista - continuada com "É ou não é", "Vá de roda" e "Oiça lá ó senhor vinho".
            No estrangeiro também acham graça. A "Mariquinhas" é cantada em francês, italiano e espanhol. Milva apropria-se de "É ou não é". No meio de tanta brincadeira, Amália não perde a lucidez. "A música de 'Mariquinhas' é tipo gaiola, não me deixa voar. Gostei muito na altura mas agora aborrece-me. Aquele ritmo amarra-me. É das poucas cantigas que canto sempre igual e eu sou contra a rotina. Não me diverte". No meio de tantas voltas e contravoltas, o folclore não podia escapar. Amália, gorado o projeto de uma gravação, com a mãe, de tradicionais da Beira Baixa, não desiste de experimentar este estilo musical, mandando às urtigas a afetação. São editados três discos de folclore, o primeiro - "onde estão as melhores coisas", segundo dizia Amália –, em 1965, o segundo – "estragado pela orquestração, sobretudo as canções da Beira Baixa" -, em 1971. O terceiro, com arranjos da própria Amália, só com guitarra e viola –  "ficou melhor" – em 1972. Os americanos deliram com esta faceta da fadista. Amália tem toda a legitimidade para o fazer. "A maneira como eu canto não é uma estilização. Eu sou natural do campo. Canto como uma pessoa que anda a cantar no campo, ou na rua".
            Os "United States of Entertainment" abrem-lhe as portas do Lincoln Center e do Hollywood Bowl, onde em 1966 atua para vinte mil pessoas, ávidas de a ouvir cantar folclore. "O folclore modificou o meu espetáculo e modificou o dos outros, que passaram também a cantar folclore". Chega a cantar temas de folclore italiano, "sem saber músicas nem letras", em dialeto siciliano, napolitano, romano, veneto, no álbum "A Una Terra che Amo", de 1973. Uma vez mais, porém, Amália sai por cima, consciente do valor relativo de cada nota e da hierarquia dos sentimentos. "Sou como uma espécie de mineiro, que vem explorando até que se acaba o ouro. E acaba-se o ouro porque eu não faço o que os artistas têm de fazer, que é ficar, cantar o que eles gostam, apanhar os sucessos do momento e cantá-los". Amália profetiza. É toda uma indústria que faz de alvo, neste seu tom desprendido.
            O mundo continua a girar e Amália conquista-o sem se dar conta. O Japão deslumbra-a. Em 1970, viaja pela primeira vez até ao país do sol nascente, alcançando um sucesso estrondoso em Tóquio. Regressa em 1976 e 1986, fascinada pela recetividade à sua música. É no Japão que os seus discos vendem em maior quantidade. "Lágrima" alcança maior sucesso no Japão do que em Portugal. O vídeo de "Os Amantes do Tejo" não lhe fica atrás. Hoje, graças às sementes lançadas por Amália no Japão, assiste-se neste país ao aparecimento de cantores de fado, em português e japonês.

Toalha do regime

Para Amália, chega entretanto a data fatídica: 25 de Abril de 1974. Com o golpe dos capitães, sente pela primeira vez na pele o ódio e a intriga. Antes da revolução, "era um país cheio de gente que gostava de mim. De um momento para o outro salta-me um boato em cima e toda a gente o aceitou". Acusam-na de ter pertencido à PIDE. "Tiraram-me uma ingenuidade que era toda minha. Hoje, para mim, a palavra 'justiça' não tem o mesmo sentido. (...) Foi uma estupidez e uma maldade que nunca percebi. Diziam que eram os comunistas que me acusavam. E porquê? Que mal fiz eu? O único comunista que conheço, e que eles desde sempre souberam que era comunista, é o Brito, o meu cabeleireiro e esse não mudou nada, tenho a certeza que não ia dizer nem pensar nada contra mim (...) Diziam que eu tinha fugido pelo telhado, em camisa de noite, que tinha a casa toda partida, que estava lá a camioneta da polícia (...) A mentira é que me chocava (...) Se diziam, porque é que não provavam?".
            Amália, num olhar retrospetivo sobre essa época, vai mais longe na desmontagem do mito que em sua volta se criou e que fez dela o terceiro vértice do triângulo Fátima, Fado e Futebol: "Salazar nunca deu nada nem ao fado nem ao futebol e Fátima não precisava dele. Se você dá um jantar em sua casa a convidados de cerimónia, põe a melhor toalha. Eles pensavam que eu era a melhor toalha do regime".
            Altura de separação das águas, da revelação apocalíptica dos rostos autênticos de cada um. São poucos os que nesta situação têm a coragem de se colocar a seu lado. "Pessoas que eu tinha aqui em casa muitíssimas vezes, todos esses intelectuais, os poetas que faziam versos para mim, pessoas que me conheciam bem e alguns até vieram a fazer parte dos novos governos, todos se calaram, todos consentiram. Foi a agressão de uns e a cobardia de outros". O francês Alain Oulman faz parte da minoria que a defende, escrevendo cartas para o "República" e para "O Século".
            Chamam-lhe comunista e fascista. O boato atinge as raias do absurdo. "Amália Rodrigues está com uma depressão nervosa e vai entrar para um convento". Por fim o país acalma e cai em si. Amália, passada a tempestade, enfrenta-o com a simplicidade, embora ferida, de uma criança: "Nunca fui de Governo nenhum, nem antes nem depois. Agora também me convidam e eu não quero ser de partido nenhum, nem de clube nenhum. E continuo a cantar!". E continuou a cantar.

Amália veste Portugal

Nas duas últimas duas décadas, porém, Amália afastou-se progressivamente dos palcos, cantando cada vez com menos assiduidade, a partir de meados dos anos 80, quase sempre, em espetáculos de homenagem. Portugal, entretanto, aprendera a fazer dela uma moda. Foi preciso esperar até 1985 para Amália Rodrigues se apresentar pela primeira vez em Portugal num concerto totalmente preenchido por si, no dia 19 de Abril, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa e, uma semana mais tarde, no Coliseu do Porto. O mito criou raízes.
            António Variações, o cantor-cabeleireiro, também já desaparecido, reproduziu em moldes kitsch e em formato de pop eletrónica o imaginário e alguns dos tiques de expressão da fadista. Hoje, cabe a Paulo Bragança fazer reviver - acentuando-lhes os traços - a tragicomédia do fado, nas suas cores e dores mais espampanantes. Dulce Pontes e Mísia aprenderam a cantar e a sentir o fado com Amália. A nova geração, sempre sob a égide da diva, garante a continuidade do fado tradicional: Mafalda Arnauth, Sofia Varela, Maria Ana Bobone.
            Tornada ícone, imagem de um Portugal diferente do que é hoje, faltava a Amália Rodrigues vestir os portugueses, já não a alma, mas o corpo. O estilista Nuno Gama inspira-se nela para a primeira das suas coleções de alta-costura. Amália que anos antes afirmara: "Em cena sempre me vesti bem, mas não me importo nada de andar mal vestida na rua, não tenho nenhuma vida social. Não ligo nenhuma nem aos bem vestidos nem aos mal vestidos. Antigamente, quando andava toda a gente a fazer-me a corte, arranjava-me mais. Ia ao cabeleireiro três vezes por semana, vestia-me para um almoço, para um jantar. Agora só me visto para ir ao campo apanhar flores. E gosto de me vestir à matroca, de andar à cigana. Sempre tive a mania da ciganada e, de há um tempo para cá, a moda favoreceu-me o gosto. Acho até que invento umas coisas que só anos depois é que se usam. Como aqueles vestidos soltos, tipo balandrau, que usava há mais de 25 anos".

Solidão quase loucura

Volta ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 1990, para celebrar o 50º aniversário de carreira. O Presidente da República, Mário Soares, confere-lhe a mais alta condecoração nacional, a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada. Quatro anos mais tarde, de novo o Coliseu dos Recreios, para mais uma homenagem, num espetáculo integrado no Lisboa 94 - Lisboa Capital da Cultura. Regressa também a polémica, neste caso pela hipotética falta de pagamento de direitos de autor. Há quatro anos, o Canal 1 da RTP transmitiu uma série de cinco episódios sobre a vida e a carreira da fadista, de genérico "Uma Estranha Forma de Vida", com realização de Bruno de Almeida.
            A Expo-98 realiza dois espetáculos em sua homenagem, por ocasião da data em que é agraciada com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, mais uma a juntar às dezenas que já recebera. Mais polémica: Mega Ferreira defende a realização dos espetáculos; Torres Campos é contra; Mega vence, mas Amália surge acima do braço de ferro entre os dois administradores. O canal francês Muzzik dedica-lhe mais de quatro horas de emissão. Amália deixara de ser uma voz para passar a ser uma instituição.
            Esteve presente há dois anos no Mosteiro dos Jerónimos, quando do lançamento do seu livro de poemas, "Versos". Versos que, de forma simultaneamente simples e profunda, resumem o modo único como entrelaçou a vida e a arte: "Já fui pr'além da vida / Do que já fui tenho sede / Sou sombra triste / Encostada a uma parede / Adeus / Vida que tanto duras / Vem morte que tanto tardas / Ai como dói / A solidão quase loucura". Vários inéditos são incluídos no álbum "Segredos", o derradeiro com originais seus.
            Mesmo a doença contra a qual lutou nos últimos anos da sua vida é recebida como uma fatia de um bolo que trincou até à última migalha: "Fiz tudo sem aprender e até o tumor que me tiraram era primário." A morte aconteceu como a única coisa da qual se tem a certeza que vai acontecer. "Gostava de morrer de repente. Acho que as pessoas deviam ser como as maçãs, cair da árvore." A maçã caiu. Caiu no céu. E agora, o que é que interessa? Estar atento, como Amália sempre fez, ao mais simples e mais medonho de tudo que é a vida. "O que interessa é sentir o fado. Porque o fado não se canta, acontece. É um acontecimento. E isto é que me faz medo, porque nunca sei o que me vai acontecer. Se tivesse nascido na província contentava-me em fazer parte de um rancho folclórico. Se tivesse estudado gostaria de ter sido bailarina clássica." O destino quis que fosse a voz de Portugal. Foi Deus.

NOTA: citações recolhidas de "Amália – Uma Biografia", de Vítor Pavão dos Santos. (ed. Contexto, 1987)

17/05/2015

O último adeus de Amália



9 de Julho 2001

Velocidade impede o povo de acompanhar cortejo

Trasladação de Amália para o Panteão Nacional

O último adeus de Amália

Ao contrário do que aconteceu no funeral da fadista, foi impossível segui-la na última das despedidas. O carro funerário foi mais veloz. No Panteão, o Presidente da República fez o elogio de Amália, protagonista de "uma das carreiras mais gloriosas do século XX"

"Não sei se fui amada", costumava dizer Amália. A homenagem nacional que ontem lhe foi feita, acompanhada da trasladação dos seus restos mortais, do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde repousavam desde a data da sua morte, a 6 de Outubro de 1999, para o Panteão Nacional, onde a partir de ontem passa a ser a única mulher aí presente, ao lado de vultos da cultura portuguesa como Almeida Garrett, João de Deus e Guerra Junqueiro, mostraram que não foi esquecida, como tanto receava. Não tanto pela pompa e circunstâncias da cerimónia em si, como pela demonstração de fidelidade e saudade com que o povo continua a acarinhar a sua memória. Amália foi e continua a ser amada pelos portugueses.

Os rituais de homenagem propriamente ditos, consumada a operação prévia de transportar o corpo da fadista da campa onde se encontrava, para a capela do cemitério, começaram à hora de almoço. Não eram ainda muitas as pessoas que nesse local podiam circular em volta da urna. Uma hora mais tarde já eram algumas centenas, envolvidas na azáfama dos "media". A maioria pessoas de idade, as que ouviram mais de perto a música de Amália. Os novos estão no Meco. O fado de Amália pertence a outra geração. Representou ou não Amália o Portugal dos três "F", fado, futebol e Fátima? Hoje, o fado rejuvenesceu e o futebol transformou-se num negócio. Fátima continua a vender bem.

Uma apresentadora de serviço retoca a maquilhagem. Coloca bâton nos lábios e pó nas faces esquecendo-se, apesar do local, da máxima "do pó vieste, ao pó retornarás". O vento arranca o boné da cabeça de um dos muitos polícias fardados a rigor que compõem a guarda de honra, quebrando-lhe por instantes a solenidade da pose.

No cemitério vai entrando cada vez mais gente. Amália atrai gente. A televisão em directo atrai gente. Uma senhora põe a tocar no gravador que leva na mão, fados da homenageada. Não deixam os outros mortos descansar em paz. Também há turistas, embora não se descortine nas imediações qualquer banca de venda de CD. De quando em quando os altifalantes difundem os testes de som. Um som de baixo, uma flauta, um piano, trémulos com a responsabilidade do momento solene que está para vir.

Às 17h08, poucos minutos depois da hora prevista, a urna, coberta por uma bandeira nacional, é finalmente depositada no exterior, exposta aos raios implacáveis do sol, à força da saudade, à indiscrição das câmaras, à curiosidade impiedosa.

A excitação aumenta. Uma família exibe grandes fotografias emolduradas da fadista. Logo aparece alguém que, por sua vez, os fotografa. Emoção e exibicionismo confundem-se. Um homem traz vestida uma t-shirt com a imagem de Amália estampada. Um grupo de senhoras recorda o nome de outros fadistas, todos eles antigos, incluindo o de Berta Cardoso, de quem Amália era admiradora. O mote principal é: "Eu gostava de Amália. Eu falei com Amália. Eu comprei batatas na mesma mercearia que Amália. Estou aqui. Filmem-me!".

O grupo instrumental e coro juvenis ensaiam uma vez mais as suas canções. Experimenta-se pela enésima vez, o som. O som está bom. A música exprime religiosidade e saudade - "Queremos estar junto de ti!" - ao melhor estilo de baladas pop FM (com mais órgão electrónico). No interior da capela outro coro, improvisado, canta, emocionado, mais uma despedida, ao mesmo tempo que, lá fora, o coro oficial continua a cantar o reportório que faz parte do programa. Misturam-se as canções e os sentimentos. O ruído de um avião abafa ambos. Na capela irrompem aplausos frenéticos, tendo como fundo a imagem de Cristo crucificado. "Amália tem mais encanto na hora da despedida", adaptado à diva do fado de Lisboa, é o hino que ficou". O frenesim das televisões aumenta. A atenção das pessoas, ávidas de aparecer, também. "Só a TVI tem uma quantidade de câmaras", comenta alguém com ar de entendido.

Não há procissão

Ainda antes das cinco e meia da tarde aparece uma comitiva de políticos para cumprimentar os familiares de Amália. Almeida Santos, João Soares, Maria de Belém, Mota Amaral. Pouco depois tem início a missa campal. Tudo decorre nos conformes. A homilia chama a atenção para o facto de que "todos nos encontraremos com Amália na Jerusalém Celeste, para ouvirmos outros fados, diferentes das melopeias da Terra".

O padre destaca ainda algumas das qualidades da música de Amália. Segundo ele, Amália "cantou o tempo, a história dos homens" e "a beleza da criação - o mar, os pinheiros, as fontes, a luz da lua, o lençol de linho...". Acentua ainda - e aqui acerta em cheio - o "fado ardente". O fado de Amália era isso. À bênção, que inclui todos os que jazem no cemitério e a comunicação social, sucede uma oferenda de flores a Nossa Senhora do Carmo, ao som do fado com o mesmo nome. A missa dura uma hora. "Deus a tenha em descanso", remata alguém.

Pouco depois o carro que transporta a urna sai do cemitério. Lá fora, outra pequena multidão, aplaude. Os que seguem atrás da viatura acenam com lenços: "Ela merecia"", "Viva o povo!", "Isto até parece uma procissão". Mas, surpreendentemente, não há procissão. O cortejo fúnebre de 6 quilómetros, através da cidade, de que toda a gente estava a espera, à semelhança do que acontecera no dia do funeral da fadista, nem sequer chega a começar. O carro dispara em velocidade de rally, a abrir. As pessoas, espantadas, desatam a correr atrás dele, tentando acompanhar o bólide. Em vão. A situação passa rapidamente do ridículo para a indignação geral. "Que estupidez!", "Daqui ao Panteão são duas horas!", "Então faz-se uma coisa destas?", "O povo vem cá para acompanhar o funeral e depois desaparecem?", "Quando lá chegarmos já ela passou à frente da porta de casa", "Estiveram ali um dia inteiro a engonhar para isto" são algumas das frases disparadas por quem se dispunha a acompanhar durante mais algum tempo o seu ídolo e via as expectativas goradas, sem aviso. Mesmo assim há quem reaja com bonomia: "O povo devia ser transportado em autocarros!".
Desaparecido o carro funerário na primeira esquina da Rua Saraiva de Carvalho e tendo nós conseguido percorrer apenas uma centena de metros a pé, a opção foi seguir directamente de táxi para o Panteão.

Símbolo colectivo

No largo do Panteão, a multidão é maior do que nos Prazeres e o ambiente tem a solenidade que lhe é conferida pela presença do Presidente da República e do Primeiro-Ministro. Paulo Bragança entra discretamente no monumento. A urna supersónica trava enfim. Um grupo de jovens, afogueados e de língua de fora, que conseguira segui-la, "a correr", desde Alcântara, exibe, ofegante um cartaz rabiscado à pressa: "Amália do coração do povo". Já mais devagar, os seis elementos que transportam a urna recebem a instrução para "seguirem sempre no mesmo passo". Quando a depositam, de novo, agora em frente à entrada do panteão, onde ficará a repousar para sempre, o entusiasmo e fervor populares explodem. O coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra entoa o hino nacional. Há uma senhora que chora e logo uma câmara de televisão salta por sua vez para a sua frente, na ânsia de registar a dor em directo.

Pouco depois das 20h Jorge Sampaio faz finalmente o elogio da artista, destacando nela "símbolo colectivo": "Fez da sua voz uma Pátria, um Bilhete de Identidade, dela e nosso, um passaporte que nos levou a todo o lado". E a "fidelidade ao coração" e a "ressonância universal" do seu fado: "Houve gente que aprendeu a falar português só para perceber as letras". Já com a voz embargada pela emoção, engana-se no nome daquela que, diz, teve "uma das carreiras mais gloriosas do século XX": Amala, em vez de Amália. Tinha razão. Amália foi amada. Ainda é.

08/01/2015

Tudo isto é fado ou não?



Y 14|SETEMBRO|2001
escolhas|televisão

Tudo isto é fado ou não?

Para os franceses é fácil. Eles gostam de fado, adoram falar de nós como arautos da fatalidade. Não admira que o canal Muzzik dedique grande parte da sua programação deste mês à música portuguesa, com insistência em Amália.

Para os franceses, toda a música portuguesa que envolva alguma nostalgia, roupas pretas, guitarras e vozes capazes de s fazerem ouvir a dez quilómetros de distância, é fado. Instados a comentar, nós, portugueses, sorrimos com condescendência a esta redução, abanamos a cabeça: que não, nem tudo é fado, insistindo na variedade e originalidade da nossa música. Mas no fim, lá admitimos que talvez haja um bocadinho de fado em muito do que fazemos quando se trata de fazermos música.
            Mas para os franceses é fácil. Eles gostam de fado, adoram falar de nós como arautos da fatalidade e do destino. Depois, Amália, deixou lá raízes fundas. A outra música portuguesa, mais recente, entrou por arrasto.
            Não admira, pois, que o canal francês Muzzik resolvesse dedicar grande parte da sua programação deste mês à música portuguesa, com insistência em Amália Rodrigues, como é evidente, mas deixando espaço largo para os Madredeus. Ala dos Namorados e, já mais afastados do fado e do “fado”, Carlos e Vasco Martins e a cantora Maria João, serão contemplados na próxima semana pelo canal Muzzik.
            De Amália, poderão ser vistos, esta semana, a horários diferentes, os três primeiros programas de uma série de cinco, de genérico “Amália, a Strange Way of Life”. O primeiro, “Ai Mouraria”, aborda a figura da fadista na sua fase de carreira compreendida entre 1920 e 1947. O segundo, “Foi Deus”, abrange os anos de 1947 a 1955. “Gaivota”, o terceiro, corre de 1955 a 1965. Até ao final do mês o canal Muzzik passará ainda os dois últimos programas da série: “Vou Dar de Beber à Dor”, sobre o período que vai de 1965 a 1972, fechando-se este ciclo televisivo dedicado à maior fadista de todos os tempos, com “Com que Voz”, que passará em revista a vida e carreira de Amália decorridos entre 1972 e 1994.
            Mas há mais fado reservado para o Muzzik, em Setembro: uma “Soireé Fado: Entre Tradition et Modernité”, por exemplo. E “Fado, Chant de l’Âme”, documentário inédito co-produzido pelo próprio canal Muzzik, escrito e realizado por Jean-Pierre Larcher e Dennis Dartnell, cuja objetivo é “descobrir, ao longo da História de Portugal e do seu povo, as fontes de inspiração” do fado, abordando em simultâneo fusões e ramificações deste género musical em coabitação com a morna cabo-verdiana e o samba brasileiro, desde a época do “tráfico de escravos”. “Fado, Chant de l’Âme” centra-se em tópicos míticos do fado, que o alimentam e se projetam no imaginário português: a perda, a nostalgia, o exílio. “A ‘fadista’ de hoje e de ontem”, diz a sinopse, “exalta os transes e as paixões de um passado que foi devorado”.
            Depois de Amália, os Madredeus são a segunda referência da música popular portuguesa a conseguir furar o bloqueio do mercado gaulês. Mas se a banda de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães goza hoje neste país de um estatuto invejável, apresentando-se diante de salas esgotadas e tirando dividendos compensadores da venda dos seus álbuns, isso deve-se essencialmente, além da qualidade intrínseca do grupo e à máquina promocional que o sustenta, ao fenómeno que na última década abriu em força as portas do mercado discográfico francês à chamada “world music”.
            Goste-se ou não, concorde-se ou não, é nesta prateleira, das músicas étnicas, sinónimo de geografias “marginais”, que são arrumados os discos da mais bem sucedida banda portuguesa da atualidade. Para os franceses, o xaile e a voz de Teresa Salgueiro e as guitarras de Pedro Ayres Magalhães e José Peixoto, não enganam: o fado anda por ali. E apesar dos próprios músicos já por diversas vezes terem tentado demarcar-se deste destino que os confina, para lá das fronteiras, ao fado, estão verdadeiramente impressas na sua música as marcas da saudade, do mar e da distância. Marcas mais do que exteriores, íntimas, secretas. Mas essas só alguns as distinguirão e esses são os que com legitimidade podem afirmar que a música dos Madredeus aflora o fado na sua essência, respirando-o embora num futuro que se ergue já na outra margem.
            O programa do Muzzik consiste num concerto do grupo, presumivelmente antigo, dada a presença no elenco de Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes, dois músicos que há muito abandonaram os Madredeus.
            Para ver e talvez compreender melhor, porque através de olhos alheios, o que de verdadeiramente sublime e paradoxal – luz e trevas jogando aos dados na música da diva e dos Madredeus – se oculta na música popular portuguesa. Seja ela o fado ou por ele transfigurado.


Amalia, a Strange Way of Life – Ai Mouraria
Sáb., 15, às 15h40; Dom., 16, às 13h35; 5ª, 20, às 17h50

Amalia, a Strange Way of Life – Foi Deus
Sáb., 15, às 16h55; 5ª, 20, às 18h50

Amalia, a Strange Way of Life – Gaivota
Dom., 16, às 18h45

Soireé Fado: Entre Tradition et Modernité
Dom., 16, às 19h55

Fado, Chant de l’Âme
4ª, 19, às 13h10

Madredeus Concert
Dom., 16, às 20h00; 2ª, 17, às 8h40

CANAL MUZZIK