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23/12/2016

Amélia Muge derrota frieza do público

cultura DOMINGO, 11 JULHO 1999

Festival Sete Sóis Sete Luas, em Pontedera

Amélia Muge derrota frieza do público

Pontedera assistiu na noite de sexta-feira ao terceiro espetáculo de música portuguesa em terras italianas, no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas. Depois dos Realejo e das Danças Ocultas, foi a vez de Amélia Muge encher a noite toscana com os sons, por vezes difíceis, do seu álbum mais recente, "Taco a Taco". Uma entorse num pé e a sisudez de um público que parecia formado por estátuas constituíram os principais obstáculos que a cantora ultrapassou com a força da sua voz e o carisma da sua presença.

O público italiano, pelo menos o de Pontedera, pequena cidade situada em plena região Toscânia, é assim: quando gosta, bate palmas, mas mais nada. Se uma canção lhe agrada especialmente bate durante mais tempo. É tudo. Nem um grito, um assobio, a mais pequena agitação na cadeira, "niente". A polidez e o recato absolutos. O cenário para o concerto de Amélia Muge estava montado no jardim da villa Malaspina, em Montecastello, o mesmo local onde há dois anos atuou Teresa Salgueiro, acompanhada pela guitarra de António Chainho. A paisagem parece decalcada de um filme de Ermano Olmi, feita no silêncio das estrelas e dos ciprestes. Amélia Muge veio perturbar esta serenidade. Mesmo não havendo "paredes para fazer tremer", como ela gosta que aconteça nas suas atuações.
            Antes do concerto, o azar bateu-lhe à porta. Uma queda pelas escadas abaixo do hotel teve como consequência uma entorse num pé. Mas mesmo o pé afetado não impediu a cantora portuguesa de passar o exame com uma perna às costas. Porque de um exame pareceu tratar-se, diante daquela série de figuras rigidamente postadas em frente ao palco mas que, no final, aprovaram com distinção.
            Amélia entregou-se, como sempre fez, de alma e coração. Mesmo fatigada, mesmo com o pé a doer, mesmo com o som e as luzes sem serem as melhores, conseguiu que a sua música se insinuasse, primeiro nos ouvidos, depois no coração, de uma plateia empedernida.
            "O mal-lavado", "Cantigas a Rosalia" e "A roupa do marinheiro" criaram ambiente mas não derreteram o gelo. Ambiente de estranheza que o público italiano não soube muito bem como lidar antes de chegar à conclusão de que estava perante uma voz e uma música diferentes do que é costume associar-se à música portuguesa. "O tolinho da aldeia" reforçou esta aparente incompatibilidade entre quem esperava a facilidade e quem ofereceu a coerência e a intransigência em pactuar com qualquer espécie de truques.

Portunhol fluente

            Em "Taco a Taco" a cantora procurou explicar, num portunhol fluente, o teor da canção, acabando, no entanto, por encolher os ombros e reconhecer que mesmo os portugueses não percebem do que é que se trata. Até que chegou o momento mágico da noite. A senha foi o nome de Fernando Pessoa, autor da letra de "Nevoeiro", mas a magia aconteceu com a soberba interpretação vocal, plena de emotividade, como se a hora do poema verdadeiramente chegasse naquele instante. O público não teve outro remédio senão entregar-se, aplaudindo com uma salva de palmas interminável.
            Nesta altura foi possível perceber que é pela duração do aplauso e não por qualquer outro tipo de manifestação emotiva que se deve aferir a aprovação, ou não, do público de Pontedera. Se aplaude muito tempo é porque gosta. Se permanece imóvel como uma vedação de estacas, o melhor a fazer é arrumar as malas. No caso de Amélia Muge pode dizer-se que, segunda esta bitola, a assistência entrou em delírio, já que aqui e ali se chegaram a ouvir "bravos" (mais sussurrados do que gritados...) de incitamento.
            A partir de "Nevoeiro" tudo se tornou mais fácil. Em "Cantiga de segada" os italianos tiveram mesmo direito a um momento de identificação, uma vez que a polifonia vocal criada pelas vozes de José Manuel David e Amélia Muge navega nas mesmas correntes mediterrânicas que passam pela Córsega, ou ainda mais perto, pela Sardenha.
            José Manuel David foi, de resto, o motor instrumental de todo o concerto, passando da gaita-de-foles para a flauta, do kissange para o piano e, no último tema, "A saia da Carolina" – entre a música antiga, o folclore português e ressonâncias árabes –, para uma cromorna da Renascença. José Martins e João Lobo rubricaram um interessante dueto de percussões, em "Moby Dick", e Rui Pereira, "Dudas", soltou-se em "A saia da carolina", num dos seus idiomas preferidos, o jazz, neste caso executado num alaúde árabe, solando com a alma e os dedos de um Rabih Abou-Khalil. Yuri Daniel foi o esteio seguro, no contrabaixo.
            Voltaram todos ao palco, apesar de alguma hesitação (a reação de Amélia Muge às palmas finais, embora mantendo-se a compostura de sempre, foi perguntar se isso significava um pedido de encore...). O público queria mesmo mais. Amélia acedeu, oferecendo-se num exercício intimista, interpretando a solo "Se não tenho outra voz", sobre um poema de José Saramago, terminando, já com todos os músicos de novo em palco, com "A avó Emília". Foi o cabo dos trabalhos para explicar a palavra "avó" ("nonna", em italiano). Uma luta taco a taco contra a distância e o comedimento da qual a música portuguesa e, em particular Amélia Muge, saíram vencedores.

11/11/2016

Amélia Muge ao vivo e a monte

CULTURA
QUARTA-FEIRA, 4 ABR 2001

Amélia Muge ao vivo e a monte


Três noites de concerto em Almada para apresentar novo reportório, de canções e versos cúmplices

Amélia Muge, a foragida? A forasteira? A criminosa? A inadaptada? A incompreensível? Não é ela, são as vozes. Amélia Muge não está louca. São as vozes que andam a monte. Como a dela. Ou “As vozes a monte”, genérico do seu novo espetáculo a apresentar hoje, quinta e sexta no Fórum Romeu Correia, em Almada. Ela pergunta: “Que vozes são essas que nos seduzem, nos assustam e conseguem fazer-nos sentir que, quanto mais nos aproximamos delas, mais elas nos escapam?” “Chamar essas vozes que andam a monte” será o objetivo destas três noites em que, “foragidas”, “forasteiras”, “criminosas”, “inadaptadas” ou “incompreensíveis”, ganharão vida na voz de Amélia Muge, também ela a monte. Não Marisa Monte, mas Amélia Monte. “Cruzar, à minha maneira, o que vivo, sinto, vejo e ouço delas”, diz a compositora e cantora de “Taco-a-Taco” que recentemente produziu “Esta Voz que me Atravessa”, um álbum de fados na voz de Mafalda Arnauth…
            De quem são, de onde vêm, o que querem estas vozes? Pertencem a gente morta e a gente viva. Mas mesmo as dos mortos permanecem vivas nas palavras. Ou nos sons. “Trazidas no alforge da página do livro, no cantil do disco ou no farnel das imagens...”.
            Carlos Drummond de Andrade, Cramol, Fausto, Fernando Lopes Graça, Fernando Pessoa, Gaiteiros de Lisboa, Grabato Dias, Hélia Correia, José Afonso, José Eduardo Agualusa, José Mário Branco, José Saramago, Laurie Anderson, Mário Cesariny, Mário Viegas, Mia Couto, Natália Correia, Rui Júnior e O Ó Que Som Tem, Sérgio Godinho e Sophia de Mello Breyner são as vozes a monte que Amélia Muge saberá fazer falar à sua maneira. “Sem preocupações de perceber onde acaba o artístico e começa o tecnológico, sem preocupações de sinalizar heranças culturais ou de carimbar o que é popular ou não”.
            Ao lado de Amélia Muge estarão José Martins, seu companheiro de longa data, em instrumentos de corda e percussões, José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, em instrumentos de sopro variados e gaita-de-foles, e Catarina Anacleto, no violoncelo. Serão feitas projeções em ecrãs “não convencionais” e escutados “registos sonoros variados” pré-gravados.
            No dicionário pessoal de Amélia Muge lê-se que andar a monte pressupõe a contradição que é a designação de um lugar impreciso, um lugar de andares”. O lugar: Almada. Alma da voz. A de Amélia Muge anda para cima e tem muitos andares. Um arranha-céus. Mais alto ainda, no alto de um monte.

21/08/2016

Em Público - Amélia Muge



Pop Rock

26 JANEIRO 1994
EM PÚBLICO

AMÉLIA MUGE *

Aguarda-se com grande expetativa o seu próximo álbum. José Martins vai, como no anterior, tomar as rédeas do poder ou haverá, desta vez, maior controlo da sua parte?
Nunca tenho a sensação de que estou a dirigir as operações. Até mesmo quando componho, sinto sempre que há interferências, em concreto dos próprios materiais que estão em jogo. São eles que se impõem e me arrastam. O novo disco, é evidente, reflete muito mais um diálogo e a evolução natural desse diálogo. Tenho muitas coisas que começaram por ser tocadas de uma certa maneira e que, neste momento, já estão a ser tocadas de outra. É um disco que reflete uma caminhada, bastante mais do que o outro.

Quais são as etapas principais dessa caminhada?
O papel individual de cada um no coletivo que representa este disco [José Martins, Luís Sá-Pessoa] está mais bem definido, sentimo-nos os três melhores na nossa individualidade. O novo disco vai ter coisas compostas há muitos anos, em Moçambique, as coisas novas misturam-se com as antigas. Um dos grandes defeitos, mais do que virtudes, de uma pessoa como eu – que está a editar depois de muitos anos a compor – é esta de dizer: “Será que vou conseguir meter nesta leva aquela e aquela canção que ficaram de fora e que eu gostava de aproveitar?” Estou sempre insatisfeita porque tenho imenso material e, muitas vezes, a seleção continua a não depender de mim. De repente, ponho qualquer coisa cá para fora e o interesse das pessoas é tão grande que a canção acaba por se impor, sem que haja uma seleção criteriosa minha. Mas isso é bom.

Em que estado se encontra a sua ligação com a música tradicional? Está já confirmada a sua participação no festival Intercéltico deste ano...
Não sei muito bem o que é a música tradicional. Sei que não tem a ver com formalismos mas mais com atitudes, com aproximações que ultrapassam as próprias morfologias musicais. Para mim, a importância do Intercéltico tem exatamente a ver com isto: por um lado, com esse espírito aberto que nós, ao longo da história, nos habituámos a encontrar nos celtas, embora depois existam certos povos, como a Irlanda, que acabaram por transformar essa música num símbolo de resistência e, aí, ela acaba por cristalizar em termos formais. Mas, regra geral, o espírito da música tradicional é de grande abertura e troca de experiências. Há muita coisa que as pessoas não se habituaram a ver dentro do tradicional, como sejam novos temas, novas sonoridades, novos métodos de se trabalhar, muita coisa que irá fazer parte, no futuro, do património tradicional.

Até que ponto o seu estilo vocal incorpora elementos e técnicas do canto tradicional?
Mais, se calhar, que o canto tradicional, o canto das pessoas que cantam. Por exemplo, nas Janeiras, em que se verifica a prática de cantar em conjunto, de estarmos ao lado a ouvir a voz do outro, sem ser através do disco nem da rádio. A ideia de coro é fundamental para o canto individual. Quando ouço a voz de um homem ou de uma mulher a cantar nas Janeiras, não posso deixar de ver, por trás, um avô que ensinou aquilo àquela pessoa, um passado que é familiar antes de ser social, do testemunho de estar vivo que passa pela canção.

É essa sua sensibilidade ao canto comunitário que está na base da formação do projeto de vozes femininas AGrupa?
Pois, que eu não queria que fosse o “meu” projeto. Acho que só pode haver um projeto quando há materiais, coisas concretas a partir das quais se pode trabalhar. Isso é uma coisa que eu já tinha. Tenho certas coisas que nunca cantarei sozinha, que têm a ver com um coletivo de vozes. Por outro lado, não sei se por estar há demasiado tempo desligada disso que é [... ilegível...]. A primeira vez que voltei a sentir de novo isso foi quando estava em casa de uma amiga, na Graça, e ouvi pessoas a ensaiarem as marchas populares de Lisboa. Afinal, há gente que canta! Isto para mim é fundamental. Por outro lado, a própria prática de cantar a várias vozes, talvez porque componho muito com a voz, é que me permite chegar aos instrumentos de uma outra maneira. Há, pois, também questões de aprendizagem. Se os processos são ricos, dão produtos ricos.

Vão ser só a Amélia Muge, a Margarida Antunes e a Cristina Antunes?
Para já, somos o núcleo duro. Gostaríamos muito de encontrar outras pessoas na mesma onda. Por exemplo, pessoas como a Filipa Pais, a Minela, a Teresa Salgueiro ou a Maria João. Inclusive, já falámos. Na teoria, tanto a João como a Filipa disseram que sim. Só que têm surgido problemas de ordem prática... Enquanto eu, a Cristina e a Guida nos encontramos uma vez por semana, não só para cantarmos como para fazermos exercícios respiratórios, vocais... Para já, estamos as três a pensar propor um trabalho de conjunto para Lisboa, Capital da Cultura, que seria um espetáculo ao vivo. Já temos um reportório de seis canções, compostas por mim, com letras minhas e duas da Hélia Correia. Tencionamos também ir buscar coisas do Lopes Graça, do Zeca, não serão só originais.

Passemos a uma questão delicada, relativa à UPAV e ao modo como foi distribuído e promovido o seu álbum de estreia, “Múgica”, que desapareceu do mercado depois de uma primeira edição esgotada em poucos dias...
O disco, de que foi feita apenas uma primeira edição de 2000 exemplares, está esgotadíssimo, é verdade. Na altura em que se estava a pensar fazer uma segunda edição, surgiram os problemas da suspensão de toda a atividade editorial da UPAV. Os dois mil exemplares editados são, de facto, um número muito baixo, que teve a ver com contenção de despesas e com uma sondagem de mercado. Mas a partir do momento em que o disco esgotou... E quem vendeu mais foram os armazéns, o Serafim, da Movieplay (ver página 4 deste suplemento); e, se vendeu, foi porque as discotecas o procuraram...

Não se sente frustrada por o disco ter chegado a tão poucas pessoas?
Há sempre a hipótese de nos tornarmos profissionais da frustração, o que, neste país, é muito comum. Às vezes, penso até que as pessoas têm um certo gosto em estar frustradas por acharem que [...ilegível...] apostado na gravação quando nenhuma editora quis pegar no disco; como não elimina a importância que tudo isso teve para mim no determinar num certo número de opções que eu fui tomando, que me permitiram, no fundo, fazer aquilo que quero que é estar e trabalhar mais na música. Considero que o processo em si, da feitura do disco, foi extremamente positivo. Sobre o lado que tem mais a ver com a venda, fica, apesar de tudo, em aberto a hipótese, no caso de o próximo disco vender bem, de ser feita a reedição do primeiro. Vamos até imaginar que tinha sido feita uma edição de 10 mil exemplares e tivesse apenas vendido mil. Nesse caso, estaria muito pior do que estou neste momento, em que sei que não há um único disco cá fora.

Hoje, que o seu nome se tornou já mais conhecido, mudou alguma coisa na atitude das editoras em relação ao si? O próximo disco já tem editora?
Em relação ao novo álbum, estou ainda na fase de seleção dos temas. Tenho um bocado de dificuldade em me situar em relação a isso. Para mim, as editoras não são um todo homogéneo. Estou a seguir com o maior interesse o atual movimento das pequenas editoras independentes. Gosto pouco da palavra coerência, se coerência tem a ver com qualquer coisa de muito certinho, isto é assim porque liga com aquilo. Uma das coisas que me dá enorme gozo é encontrar ligações insuspeitadas. E até sou capaz de chegar à conclusão de que tenho muito a ver com uma multinacional...

Será que certas resistências postas pela indústria à sua música se prendem com a sua intransigência, com a exigência de imposição de regras próprias?
Mas se também a indústria é difícil para as pessoas! Aí, estamos iguais! É preciso ter muita força para encontrar a voz interior que toda a gente deve ter. E se não se tem é porque estamos numa época onde se entende a comunicação apenas pelo lado de fora. Temos de comunicar e de pactuar com tanta coisa que, a certa altura, fica pouco espaço para comunicarmos connosco mesmos. E isso eu considero essencial. Mas não acho que seja uma pessoa intransigente, pelo contrário. Considero sempre qualquer proposta, seja ela qual for, a mais maluca ou que aparentemente não tenha nada a ver comigo, como um desafio.


* Cantora e compositora. Prepara o lançamento do projeto de vozes femininas AGrupa  e de um novo álbum a solo, cujo reportório será apresentado parcialmente nos três espetáculos ao vivo de amanhã, sexta e sábado no Instituto Franco-Português.

06/04/2016

Amélia Muge - A Monte

Y 21|JUNHO|2002
discos|roteiro

AMÉLIA MUGE
aMonte
Ed. Autor/Vachier & Associados
8|10 

“aMonte” confirma-a como um dos expoentes da modernidade do canto em Portugal, na forma como nele convergem a ancestralidade folk, herdada da loga convivência commos pilares da primeira geração da MPP (José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto e José Mário Branco estão presentes em quatro composições), e a experimentação com modelos vocais que não dispensam a tecnologia enquanto extensão eletrónica da voz. Algures entre as mutações de Laurie Anderson, na versão/tradução fonética para português de “A garra do macaco” e “A irmandade dos sonhos”, e o tatear das “extended techniques”, sem rede, de Fátima Miranda, “aMonte” é ainda o encontro (a dança?) com a palavra de Pessoa, Saramago, Natália Correia, Hélia Correia, Mia Couto, Cesarinny, Sophia, José Eduardo Agualusa e Grabato Dias. Além da presença, nos convidados, do Coro Pirin, da Bulgária, Jorge Palma, Rui Júnior e elementos dos Gaiteiros de Lisboa, “aMonte” inclui a faixa-vídeo “Tranglo”, a confirmar a ação com êxito das tais “forças de atração universal” que Muge gosta de convocar.

28/03/2016

As palavras que dançam [Amélia Muge]

Y 14|JUNHO|2002
música|amélia muge

as palavras que dançam

“Encontros”, alguns arriscados, é a palavra chave que usa para caracterizar o seu novo álbum, aMonte. José Afonso, Sérgio Godinho e Pessoa são alguns dos interlocutores.

Amélia Muge fala com entusiasmo de tudo o que sente, pensa, faz e preocupa. Se pudesse, diz, “explicava tudo”. Artista multifacetada, autora de marcos discográficos da música popular portuguesa como “Múgica”, “Todos os Dias” e “Taco-a-Taco”, fez desta vez também os desenhos que preenchem a capa do novo CD, “aMonte”, bem como a realização do vídeo tirado da faixa “Sonos do ser”, sobre poema de Fernando Pessoa.
            Num espetáculo realizado há poucas semanas no Auditório Fernando Lopes Graça, em Almada, utilizou projeções sobre balões, obtendo, com o recurso a uma técnica simples, efeitos visuais que considera “espetaculares”.
            “A multiplicidade de usos é o lado mais interessante dos multimédia. A possibilidade de uma visão de conjunto, sem perder a visão individual de cada elemento. Um bocado como as sociedades humanas…”. “aMonte”, diz, é um “disco de encontros”. E “um mapa de percursos que proporciona esses encontros, com pessoas e com ideias. De mestiçagens culturais e duplas leituras”.
            “aMonte” não segue um conceito, é um olhar como o da mosca. Multifacetado. Descobridor de dimensões insuspeitas do som e da palavra. Intuições ligam-se a maquinismos mágicos, o Inconsciente torna-se poema, a palavra cantada dança numa girândola de tons que reproduzem as imagens do céu e do mar.
            “O primeiro disco, dediquei-o às leis de atração universal. É um bocado isso. Estes desenhos (NR: da capa), estas matérias, são todos feitos por mim, mas depois acabo por ser interrogada por eles. Os animais, os pássaros, que pertencem ao mundo do céu, mas também as sereias, ou melhor, os sereios… dão uma outra profundidade ao que é a voz, como algo que voa, que se esconde, que não se desvenda facilmente. São, no fundo, uma metáfora duma ideia de voz”.
            Quem anda a monte. Quem amonte – Amante, anda? “E, se se tirar o ‘n’ dica ‘amo-te’”. É assim o jogo, a entrega e a demanda de quem busca algo que não se confina ao instante da moda ou às tendências em voga. “Tem duas interpretações: a de andar a descobrir caminhos e a de alguém que anda acossado, porque transgrediu em alguma coisa. As vozes que persigo são vozes que transgridem, as modas, os lugares-comuns, os papas das modernidades. Cada vez mais me apetece andar em perseguição destas vozes misteriosas, da música, do teatro, da literatura. Às vezes, quanto mais a gente as lê e julga percebê-las, é quando não percebeu nada…”.
Não, ninguém pensa terem sido essas as razões que levaram a que “aMonte” não tivesse edição por nenhuma multinacional, sempre dispostas a apostar no risco e na ousadia. Amélia defende que “cada vez mais, a única maneira de lutar contra a massificação excessiva é a produção independente”. Trata-se, então, de uma edição de autor. Isto é, de um objecto feito com amor, do todo ao pormenor. Da apresentação gráfica à construção minuciosa de cada uma das 18 canções, “aMonte” leva o rótulo – mais uma pintura – a dizer: “Amélia Muge”.

a garra do macaco. De canções (ainda) de sabor tradicional, como os dois momentos de “ A monte” ou o repique de sinos da aldeia que introduz “Nª Sra. da Azenha”, à recriação mnemónica de “A Garra do macaco”, construída a partir de um poema de Laurie Anderson, “Monkey’s paw” (do álbum “Strange Angels”, traduzido para português por João Lisboa, passando pelo mimetismo das batidas tecno em “A Irmandade dos sonhos” (onde também espreita a autora de “Strange Angels”) e pela declamação de um poema de José Eduardo Agualusa em glosa irónica a Jorge Luís Borges, “aMonte” estende-se por uma intemporalidade que recusa catalogações redutoras.
“Não interessa o ‘antigo’ ou o ‘moderno’, nem a tecnologia. Tem a ver com uma outra coisa que sinto naturalmente em mim, a consciência de um certo Universal que está para lá do próprio ser humano e acaba por nos unir às matérias de base do Universo e às maneiras como nós as sentimos”. Ou, como diz a letra de “A Garra do macaco”, “A Natureza tem regras e se a enganamos, cuidado vem logo aí a a garra do macaco”.
Laurie Anderson, como Fátima Miranda, que Amélia também cita no rol das suas admirações, “na forma de ligar as palavras à música, ao som”, é um exemplo de liberdade, a mesma liberdade que cultiva e persegue na sua obra. “Fui directamente ao texto, sem ouvir a música. O importante era descobrir a maneira de fazer a ligação com ela e à forma como ela liga a música ao inglês. Achei que era possível fazer o mesmo com o português. O clima era o ideal para trazer para este mundo esta especificidade dos encontros que têm a ver com a tradução. ‘A garra do macaco’ fala ainda dos perigos e dos avisos de alguns encontros…”.
Já “A irmandade dos sonhos” é “toda uma grande piada”. A todas “as outras questões que têm a ver com as audiências, com o gosto do que é ou não popular, da massificação”.
Mas estará Amélia Muge absolutamente imune à tentação de fazer um disco de música de dança, à semelhança do que em breve acontecerá com os Madredeus? “Por acaso ainda não o fiz, mas houve um trabalho de remistura muito bem feito com um tema meu, pelos Underground Sound-System of Lisbon… Mas uma das coisas que não aprecio na ‘dance music’ é logo a imposição de uma marca rítmica empobrecedora. Agora, mais depressa farei, como tenciono, um projecto ligado à dança, mas à dança mesmo, como discurso, para perceber como é que há margens, fronteiras entre a dança, a música e a palavra. A palavra-dança”.

“aMonte” é, precisamente isso: palavras que dançam.

05/12/2014

Irredutíveis bretões [11º Festival Cantigas do Maio]



cultura TERÇA-FEIRA, 30 MAIO 2000

Primeiro fim-de-semana do festival Cantigas do Maio

Irredutíveis bretões

Arrancou em beleza o 11º festival Cantigas do Maio. As mulheres levam, para já, vantagem. Amélia Muge, Rosa Zaragoza e Nahawa Doumbia passearam o Seixal pelo mundo. Mas, bem ouvidas as coisas, foram os 30 bretões – na maioria homens – da Bagad Kemper que se fizeram ouvir mais alto. É que dezenas de bombardas tocadas em uníssono não são para brincadeiras…

Esteve à altura dos seus pergaminhos o primeiro fim-de-semana do festival Cantigas do Maio. Na sexta-feira e no sábado, a tenda Chapitô montada nas antigas instalações da fábrica Mundet encheu para ouvir a melhor música do mundo.
            Saúde-se, não só a qualidade dos concertos, como a qualidade do público. Ao contrário de anos anteriores, a fação minoritária dos agitadores – que vai ao festival essencialmente para não deixar os outros ouvirem música – ou faltou ou não fez estragos. Pena o simpático cachorro chamado Jacob ter ganido suficientemente alto para, nalguns momentos, sobrepor a sua voz à de Rosa Zaragoza. Valeu a competência de um elemento da organização que acrescentou às suas funções a de ama-seca canino e lá conseguiu acalmar o animal…
            Latidos à parte, Amélia Muge abriu o Cantigas com um reportório com base no seu mais recente álbum, “Taco a Taco”, acompanhada por um grupo composto por José Martins (braguesa e percussões), José Salgueiro (percussões), José Manuel David (trompa, flauta, kissange), Mário Delgado (guitarra) e Yuri Daniel (conhtrabaixo). Total empatia entre os músicos e uma boa disposição contagiante criaram aquilo a que os ingleses chamam “positive vibe” e nós uma “boa onda”. Amélia esteve acrobata nos gestos e na voz, mostrando que a sua música há muito que descolou dos terrenos demarcados da tradição. A juntar aos seus talentos de compositora, cantora e letrista, Amélia revelou-se na ocasião também uma inspirada criadora de quadras populares, algumas de pé quebrado, é certo, mas sempre se genuíno sabor popular, que usou para apresentar os temas e os músicos da banda. Encarregado de apresentá-la a ela, José Martins correspondeu por sua vez com um naco poético na melhor tradição do Alexandre O’Neill publicitário: “Nasceu uma estrélia: Amélia!”.
            Da Catalunha veio a música das tradições cristã, árabe e sefardita que moldam a cultura de Espanha, na voz de Rosa Zaragoza. Ora num registo intimista, ora num tom mais arrebatador, como numa canção sobre bruxas, a autora das “Canções de Embalar do Mediterrâneo” e de “O Espírito de Al-Andalus” trouxe consigo as cores fortes – do vestuário à voz – do Sul. Destaque para o virtuosismo do percussionista, evidenciado num longo solo no “def”, espécie de “bodhran” de sonoridade mais profunda.

A onda sísmica

            Se na sexta já era difícil encontrar um lugar sentado na Fábrica Mundet – este ano com uma nova e mais racional disposição das bancadas – no sábado era absolutamente impossível. Ambiente ideal que a cantora do Mali, Nahawa Doumbia, e sua banda aproveitaram da melhor maneira, com uma música na qual as percussões e o ritmo mandam e onde a voz passa como uma cobra, na tradição dos blues africanos depurados por Ali Farka Touré. O efeito é hipnótico e obriga à dança. Rosa Zaragoza que o diga, já que não parou quieta um só momento…
            A “temida” onda sísmica chegou a seguir, com os cerca de 30 bretões da Bagad Kemper, de adolescentes imberbes a respeitáveis anciãos, a comprimirem-se em várias filas de ataque sobre o palco. Cinco “biniou-koz” (gaita-de-foles, instrumento que entrou para as bagads com fins terapêuticos, digamos assim, para permitir aos “sonneurs” de bombarda alguns segundos de descanso…), para aí umas vinte bombardas (oboé rústico, de sonoridade vibrante) e uma secção de percussões, explodiram em diversas combinações recordando os tempos em que a música céltica tinha funções militares e como principal objetivo fazer tremer e fugir o inimigo no campo de batalha…
            Seguindo de perto o alinhamento do revolucionário “Hep Diskrog” (disco seminal para o futuro das bagads), a Bagad Kemper teve um desempenho que alguns consideraram “épico” e outros “um ataque sónico”. Um solo de caixas de rufar, com os quatro músicos em movimentos perfeitamente sincronizados, diálogos e solos de biniou e bombarda e, sobretudo, as formidáveis massas sonoras do conjunto puseram em sentido a assistência que, no final, meio surda, pediu mais.
            O festival prosseguiu até de madrugada na tenda de convívio montada uns metros mais abaixo. Aí, a disciplina perdeu-se um pouco, num mar de bretões, um asturiano, portugueses (incluindo o grupo algarvio Vai-de-Viró), cerveja, uma gaita-de-foles a saltar de mão em mão no meio de um caos esfuziante. No exterior, a música de José Afonso passava imperturbável nos altifalantes. A dar sentido à festa.

02/05/2011

"PORTUGUESE is better!"

Sons

7 de Janeiro 2000

Debate sobre a utilização do português ou do inglês na música portuguesa

“PORTUGUESE is better!”

Cantar em inglês ou português é, ou não, uma questão retórica, quando se trata de produzir, promover e vender música feita em Portugal neste início do ano 2000? A verdade é que a máxima “A minha pátria é a língua portuguesa” de Fernando Pessoa já não faz muito sentido. Tirar dividendos da globalização, ou, pelo contrário, resistir-lhe o mais possível são as duas vias divergentes defendidas pelos convidados deste debate: Amélia Muge, Vitorino, Rui Reininho, Jorge Dias e Miguel Cardona.


Longe vão os tempos em que o português era considerado uma língua difícil de se cantar. E se os intérpretes da chamada “canção de autor”, como Vitorino ou Amélia Muge, desde sempre cultivaram o gosto pela língua portuguesa e a necessidade de fazer passar uma mensagem – fruto de uma atitude fortemente ideológica –, já as gerações mais novas adoptaram, paradoxalmente, o inglês, como forma de resistência. Afinal de contas o próprio Vitorino, apologista do fortalecimento de um circuito das músicas do Sul, já cantou em inglês, o mesmo acontecendo com Rui Reininho, nos GNR. Quanto aos mais novos, Miguel Cardona, dos Coldfinger, e Jorge Dias, baixista dos More República Masónica que recentemente organizou o festival Interferências, encaram de forma natural o facto de cantarem em inglês, não sendo menos portuguesa a sua música. Amélia Muge, que recentemente cantou em galego nos Camerata Meiga contrapõe a necessidade de confrontar modelos e fórmulas de produção. Todos estão de acordo numa coisa: a música portuguesa não é defendida como deveria e a culpa é das multinacionais, que apenas se preocupam em promover os artistas internacionais, e dos “media”, que não divulgam em quantidade suficiente o produto nacional. “Oh, yes!”

O passado. Era de facto difícil cantar em português até “Chico Fininho” vir, na década de 80, provar o contrário? Mais atrás ainda, era proibido cantar em inglês, caso se quisesse “intervir” artisticamente contra o regime do Estado Novo?

VITORINO – “Encontram-se ‘cantautores’ nos Sheiks, que, em determinada altura, afirmaram em entrevistas que o português não era ‘cantabile’. Foi quando os Beatles chegaram à ribalta para transformar a relação da canção entre os povos. Em Portugal, era sobretudo a música de expressão latina que se ouvia. O inglês acabou por se impor de uma maneira brutal, com uma gigantesca máquina de promoção por detrás. Aqui, os resistentes eram o Zeca e o Adriano. Hoje, já existe um rock lusitano cantado em português.”
“Tive um grupo, na Escola de Belas-Artes, com o Manuel João, dos Ena Pá 2000, onde cantava uma canção dos Beatles, “Here comes the sun”. Como estava todo vestido de preto, levei logo com uma trincha de branco.”
MIGUEL CARDONA – “O Vitorino fala de um ponto de vista político. Eu falo de um ponto de vista cultural. Quando quero expressar-me, reporto-me a fenómenos que me marcaram. E isso foi-me tudo dado em inglês, em francês… Ao extrapolar a imaginação é fácil recorrer a vivências, imagens cinematográficas, estereótipos, aos quais tenho acesso através do inglês.”
RUI REININHO – “Cantar em português foi para mim uma espécie de repto, de reacção a uma geração que só cantava em inglês, o que eu achava completamente bacoco. Por que raio é que um fulano havia de se esconder a cantar numa língua que não era a dele? E os textos em inglês, normalmente, são do secundário para baixo.”

O presente, parte 1. O mundo é um lugar pequeno. A “minha pátria é a língua portuguesa” ou pode ser também a inglesa?

VITORINO – Se pudesse, gostava de cantar em sérvio, ou em gaélico. Em inglês é que não… Por isso é que comecei a cantar em castelhano [num álbum recente, “La Habanera 99”, com reportório cubano e a presença do Septeto Habanero]…”
“Os textos em inglês que muitas bandas cantam estão sintacticamente errados.”
AMÉLIA MUGE – “Nada do que o Fernando Pessoa escreveu em inglês o impediu de escrever o que escreveu em português. E o Eça teve um cargo importante no consulado em Paris. Eu canto em português, porque é a maneira de resolver, em mim própria, influências que recebo de muitos sítios. Fazer uma canção com a mesma matéria, a mesma língua, com que penso. Um poema é, antes de mais, uma base de trabalho sonora.”
MIGUEL CARDONA – “Escrevo em português e em inglês. Quando é um ‘rapport’ autobiográfico, escrevo em português. É a única via para ser sincero comigo mesmo. As coisas não me acontecem em inglês. Mas quando saio da minha vida, já posso recorrer ao inglês.”
JORGE DIAS – “Está associada a quem canta em inglês uma ideia de antipatriotismo. É uma estupidez completa. Não há coisa que mais me entristeça do que poder absorver uma islandesa como a Björk, uns judeus belgas ou uns tipos franceses, todos a cantar em inglês, e não conseguir ver ninguém do meu país a conseguir vingar lá fora, a conseguir mostrar que em Portugal se fazem coisas tão actuais e tão interessantes como no resto da Europa, sem ser remetido para a categoria do exotismo.”
RUI REININHO – “Os brasileiros apropriaram-se da linguagem de computador e já falam em ‘downlodar’ ou ‘browsar’.”
“Noutro dia reparei num cartaz de uma ‘rave’. É impressionante como se faz uma solicitação destas sem uma única palavra em português. É uma tentativa de globalizar. Em Atenas ou no Senegal seria a mesma coisa. É tudo a mesma tribo.”
“É importante a defesa da língua portuguesa. Aprendi um bocado isso com os nossos amigos galegos. Não lhes passa pela cabeça cantar em inglês. E, se calhar eles, em certos aspectos, até são mais modernaços do que nós.”
MIGUEL CARDONA – “Os espanhóis dobram tudo. Tem a ver com uma certa ideia de nação. Nós, enquanto artistas, reportamo-nos muitas vezes a coisas exteriores. Um guitarrista fala do seu ‘amp’, num som “de Rhodes”, há toda uma linguagem corrente em inglês.”

O presente, parte 2. As editoras são as bruxas da história, porque só promovem o produto que vem de fora. Os “media” são vilões, porque só escrevem sobre música chinesa. O Estado não apoia. Há preconceitos e barreiras a romper.

MIGUEL CARDONA – “O rock cantado em português não sofre da mesma injecção de espuma que o inglês. É possível ler nos jornais ‘revivals’ de Bob Dylan ou Pink Floyd, com a cumplicidade de toda a gente, que não passam de meras manobras de promoção de limpeza de fundo de catálogo. Com certeza que não vão buscar os NZZN ou os Tantra e promovê-los na América…”
VITORINO – “A rádio não passa música portuguesa, enquanto as percentagens de música anglo-americana são brutais. O Ministério da Cultura só dá força ao cinema. Tem que começar a apoiar a música portuguesa. Os Beatles foram condecorados pela Rainha.”
JORGE DIAS – “As bandas que cantam em inglês também não passam na rádio. Não por cantarem nesta ou naquela língua, mas porque não têm o apoio de uma grande campanha de ‘marketing’. Não há critérios de avaliação. As pessoas limitam-se a colar-se a modelos de sucesso. Como, com raras excepções, não se consegue criar cá nenhum desses modelos, ninguém liga. Quem está no centro da decisão pertence à geração do Rui, os que conquistaram para a música a língua portuguesa, mas que, de repente, fecharam os olhos. Existe hoje um caciquismo, entre aspas, nos ‘media’ e, sobretudo, nas editoras. Apresenta-se uma banda a cantar em inglês e é recusada só por esse facto, nem sequer chegam a ouvir.”
RUI REININHO – “Tenho pena de que ninguém tenha rompido aquela barreira do meio milhão de discos. Toda a gente encravou nos 300 mil. É uma barreira psicológica.”

O futuro. Globalizar ou resistir. O que é que podemos fazer? Talvez socializar.

AMÉLIA MUGE – “As coisas que vêm do Norte têm uma conotação de tecnologicamente mais avançadas, enquanto o étnico estaria umbilicalmente ligado a um certo terceiro-mundismo. A imagem da música, da cultura portuguesa, enquanto for passivamente vendida sob estas conotações de mercado, tem que submeter-se à máxima do ‘quanto mais étnico’ melhor. Se calhar o circuito que vende os Madredeus não é o mesmo que vende a música tradicional portuguesa, no seu sentido folclórico.”
VITORINO – “Há uma grande música deste século, a música anglo-americana dos anos 60 e 70, conotada com um movimento social universal. Depois entrou numa decadência horrível, quando começou a ficar visual, a ouvir-se através dos ‘clips’. Subverteu-se a escuta. No Midem latino de Miami as estatísticas afirmavam que nos últimos três anos a música anglo-saxónica já tinha perdido no mundo um espaço de 6 por cento para as músicas de expressão castelhana. A única possibilidade que temos de exportar uma música cantada em português no mundo é fazer uma aliança com os brasileiros, como os espanhóis têm com toda a América Latina e as Caraíbas. Infelizmente os brasileiros fecharam-se a nós nos anos 60, coincidindo com a ditadura.”
“A salvação é a socialização dos meios. Dentro de uns dois anos eu ou o Rui Reininho podermos gravar em casa sozinhos. Os anglo-saxónicos inventaram os ‘media’ e nós vamos aproveitar e socializá-los.”

31/01/2011

Os maiores talentos portugueses dos anos 90

Sons

10 de Setembro 1999

Os maiores talentos portugueses dos anos 90

Luís Maio

Quisemos eleger os maiores artistas pop/rock/world portugueses dos anos 90. Não aqueles com uma carreira já antes estabelecida, que chegaram ou se mantiveram na ribalta nestes últimos dez anos, o que exclui à partida nomes como Madredeus ou Dulce Pontes. Mas apenas os novos talentos, que gravaram pela primeira vez em longa-duração e marcaram a música portuguesa (ou, para ser mais rigoroso, produzida em Portugal) nesta década. “Marcar” aqui, tem de se reconhecer, é um pouco ambíguo e esta escolha é um compromisso entre a importância objectiva dos artistas e os nossos gostos pessoais.
A conclusão a que chegámos é que há pelo menos dez nomes fundamentais dos nossos anos 90, o que já não é nada mau. Mas a impressão com que também ficámos, e deverá ficar como objecto de uma futura sistematização, é que esta década não foi genericamente tão produtiva quanto a precedente para a música portuguesa. Houve alguma necessidade da parte dos novos talentos de cortarem com a geração precedente, a dos GNR, Delfins, Trovante e Xutos, nomeadamente no sentido de questionar a necessidade de obedecer a um formato de canção pop/rock e de cantar em inglês. Mas essa ruptura não foi tão frutuosa ou ainda está em boa parte por cumprir.

1. PEDRO ABRUNHOSA (texto Pedro Ribeiro)

2. TRÊS TRISTES TIGRES

Já não há desculpa para se afirmar que não existe uma verdadeira banda portuguesa de pop psicadélica. Ela existe e chama-se Três Tristes Tigres. Mas se esta vertente, se não inédita (quem se recorda, no anos 70, dos Beatnicks, da “Cosmonicação”?), pelo menos muito pouco comum, da música popular produzida em Portugal, tem razão de existir, quando estamos prestes a entrar num novo milénio, tal deve-se ao “input” dos TTT de Alexandre Soares. Foi graças às novas ideias do antigo guitarrista dos GNR que a banda do porto renovou o seu stock de canções assentes no delírio sonoro e na qualidade dos textos escritos por Regina Guimarães. Com Alexandre Soares, os TTT entraram, sem medo, no comboio-fantasma da electrónica e dos sonhos com ligação directa, até ao mais recente, “Comum”, passando por “Guia Espiritual”, os TTT passaram de sonoplastas da palavra a arquitectos do inconsciente. Ana Deus, cantora dos TTT, faz a síntese do caminho recentemente aberto pelo grupo: “É perturbador!”. (texto FM)

3. GAITEIROS DE LISBOA
“Bárbaros!” Era o grito de susceptibilidade ferida com que o bardo Assurancetourix respondia aos insultos que o resto da tribo de irredutíveis gauleses lhe dirigia, quando se atrevia a cantar. Os Gaiteiros de Lisboa nunca foram propriamente insultados, mas, se o fossem, seria sempre por outras razões. Porque, antes deles, a música de raiz tradicional portuguesa descansava à sombra da bananeira, que é como quem diz, da papa toda feita nas décadas anteriores por José Afonso, dos que faziam das recolhas étnicas profissão de fé e do trabalho, sem dúvida louvável, mas sempre respeitador, da geração anterior de grupos da mesma área. Os Gaiteiros chegaram e deitaram tudo abaixo. Niilistas? Iconoclastas, talvez! Depois, sobre os escombros, edificaram um edifício novo tão ou mais deslumbrante que o antigo. Em apenas dois álbuns, “Invasões Bárbaras” e “Bocas do Inferno” (vencedor do Prémio José Afonso do ano passado), os Gaiteiros de Lisboa deram um rosto novo e de desafio à música popular portuguesa. Para muitos, o rosto de um demónio. Mas não é Lúcifer o anjo portador da luz? (texto FM)

4. ITHAKA (texto Tiago Luz Pedro)

5. BELLE CHASE HOTEL (texto Rui Catalão)

6. UNDERGROUND SOUND OF LISBOA (texto Vítor Belanciano)

7. DA WEASEL (texto Tiago Luz Pedro)

8. AMÉLIA MUGE

A conquista recente do Prémio José Afonso, pelo álbum “Taco a Taco”, não fez mais do que reconhecer a importância da obra de Amélia Muge enquanto herdeira daquele que foi, em Portugal, o arauto da insatisfação, do empenhamento ideológico e da inovação estética: José Afonso. Como o autor de “Cantigas do Maio”, Amélia Muge não dispensa a interrogação dos propósitos e motivos que conduzem à criação musical, o que significa que o disco, mais do que produto de uma indústria, deverá ser o espelho da história – do criador e do tempo em que vive. Mas a esta necessidade de conceptualização correspondeu desde o início, com o álbum de estreia, “Múgicas”, essa outra necessidade de arriscar e pôr em causa o que se fez e pensou antes. Amélia Muge, para além do prodígio de força e expressividade que é a sua voz, possui esse outro talento, bastante mais raro: do fogo de uma alma em eterna demanda. Com ela a música tradicional e o legado de autores como José Afonso ou José Mário Branco ganhou verdadeiramente o direito de entrar no 5º império. (texto FM)

9. REPÓRTER ESTRÁBICO (texto Vítor Belanciano)

10. MOONSPELL (texto Pedro Ribeiro)

26/12/2010

Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho - Novas Vos Trago



Sons

11 de Junho 1999
PORTUGUESES

Romances para o ano 2000

Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho
Novas vos Trago (8)
Ed. e distri. Tradisom

A ideia é excelente e capaz de constituir um estímulo adicional para os neurónios dos músicos envolvidos: criar novos arranjos e interpretações para romances da tradição ibérica medieval. O livrete (igualmente excelente, aliás, como toda a apresentação gráfica do CD) que acompanha a edição de “Novas vos Trago” explica em detalhe a origem deste género musical que cruzou continentes e oceanos ao longo da expansão portuguesa nos séculos posteriores e deixou vestígios em territórios geográficos tão distantes como o Brasil e Goa. Na origem do projecto está um programa designado “Marés do Som”, conjunto de espectáculos e iniciativas musicais enquadrados no ciclo de exposições Memórias do Oriente promovido pela Comissão dos Descobrimentos. Foi neste âmbito que surgiu o convite a Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho, tendo presente que o produto musical daí resultante obedeceria a critérios de contemporaneidade e a uma leitura actualizada e vivificante do romanceiro tradicional. Neste sentido, se “Novas vos Trago” traduz as várias sensibilidades dos artistas participantes, representou de igual modo a possibilidade de estes poderem experimentar novos métodos de criação e de se envolverem em contextos poético-musicais divergentes das facetas mais habituais das respectivas obras. É neste aspecto que “Novas vos Trago” se revela particularmente fascinante, no modo como faz sobressair a diversidade a partir da unidade do conceito.
Dez temas (dois por cada artista) compõem o alinhamento de “Novas vos Trago”. João Afonso abre o disco com “Morte do príncipe D. Afonso de Portugal”. Este e o outro tema com a sua chancela, “S. Simão”, constituem o elo fraco do disco. A voz, demasiado lisa e pouco expressiva do cantor, impede qualquer tipo de profundidade. Parece Fausto com anemia. Os arranjos, simplistas e algo preguiçosos, não ajudam.
Sérgio Godinho aparece a seguir com “O rei e a virgem romeira”. Não é um portento, mas soa interessante a maneira como tira partido do naipe de cordas. Em “As bodas de Paris” está nas suas sete quintas, num tom “andante” sobre a temática do amante e do marido traído que pode voltar a qualquer momento, recorrente em inúmeros romances medievais (pudera, a ida dos fidalgos para a guerra deixava em casa desejos não satisfeitos, não havendo cinto de castidade que lhes valesse…).
Amélia Muge faz questão, como seria de esperar, em correr riscos. O arranjo de José Manuel David (que também toca neste tema trompa, gaita-de-foles, caixa de rufo, tamboril galego, bombo e adufe) e a presença de outros dois Gaiteiros de Lisboa, Pedro Casaes (coros) e Rui Vaz (coros, gaita-de-foles, caixa de rufo e adufe) permitem-lhe fazer dançar a voz, como tanto gosta, em “Donzela guerreira”, um tema feminista “avant la lettre”. A toada épica, envolvida pelo coral dos Gaiteiros, regressa em “Dona Olívia”. Amélia canta como se a D. Olívia fosse ela num tema que vale ainda pela intervenção de José Manuel David na cromorna e pelo lamento final, a perder-se no fundo das eras, da cantora.
Como um pregão, “Floresvento” anuncia a entrada oficial dos Gaiteiros de Lisboa. Soa completamente medieval, com o toque de ousadia que os Gaiteiros imprimem a tudo o que fazem. A parte da polifonia vocal faz lembrar os Gentle Giant mas a gaita-de-foles repões de imediato as coisas no lugar certo. Que no caso dos Gaiteiros nunca é o que se espera. “O falso cego”, faixa que encerra “Novas vos Trago”, inicia-se num tom brechtiano e prossegue com uma espantosa e originalíssima polifonia vocal, aspecto em que os Gaiteiros se revelam, cada vez mais, verdadeiros mestres.
A maior e mais agradável surpresa de “Novas vos Trago” é trazida, porém, pela Brigada Victor Jara, que parece ter agarrado a oportunidade para se lançar em voos mais altos do que os que lhe são habituais. “Parto em terras distantes”, com arranjo de Aurélio Malva, balança com o tom medievo apropriado na voz da convidada Margarida Miranda, apoiada pelo proverbial toque de classe do violino de Manuel Rocha. Mas a surpresa maior e um dos momentos mais tocantes de todo o disco é a vocalização de Lena d’Água, na segunda versão do mesmo tema, desta feita assinada por Ricardo Dias. Diferente de tudo o que fez antes, Lena faz aparecer nos recantos da sua voz uma Idade Média imaginária. O modo como a antiga cantora dos Beatnicks e dos Salada de Frutas coloca aqui a voz e faz uso de ornamentações, permite pensar num novo reposicionamento deu na música popular portuguesa. Lena d’Água, a mesma de “Olha o Robô”, quem diria?...
“Novas vos Trago” aproxima a música portuguesa das suas raízes mais longínquas, empurrando-a simultaneamente para o futuro. Um trabalho com cabeça, tronco e membros. Ou uma questão de amor…