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08/09/2016

Amon Tobin - Out From Out Where

Sons
25 Outubro 2002

AMON TOBIN
Out from out where
Ninja Tune, distri. Ananana
8|10

O homem que subverteu o drum‘n’bass, crucificando-o nas engrenagens da obra-prima “Supermodified”, rendeu-se no novo trabalho à fantasia. “Out from out where” confirma o seu autor como um dos mais imaginativos demiurgos do “sampling”, mas poderá causar desilusão no aspeto rítmico, ao refugiar-se em fórmulas mais seguras do que aquelas que faziam de “Supermodified” uma contínua provocação. Mas agora é tempo de sonhar. Um lado onírico que começa por nos transportar pelo ar na abertura, “Back from space”, viagem na vassoura mágica de Harry Potter (onde a BSO do filme parece ser samplada…) até adquirir tonalidades cósmicas em “Searchers” e “Cosmo retro intro outro” (com um sample dos Soft Machine…). O d&b é então ponto de fuga e mero sustentáculo de uma música tão convulsiva (“Triple science” dá a réplica adequada aos Autechre) como visionária, onde se descortina um romantismo ora colorido pelos lápis da infância, ora desesperado. Não se pode ser revolucionário todos os dias. Mas é sempre possível abrir novas janelas sobre o belo.

24/07/2014

Como um pássaro mecânico [Amon Tobin]



Sons
9 de Junho 2000

Entrevista com Amon Tobin, a propósito de “Supermodified”

Como um pássaro mecânico

Um título como “Supermodified” é todo um manifesto de métodos e intenções, protagonizados neste novo álbum por Amon Tobin, um dos músicos mais originais e criativos na área da eletrónica atual. Caleidoscópio de metamorfoses, por vezes violentas, em que a natureza dos sons não é nunca aquela que parece. Como o pássaro mecânico de um dos filmes de David Lynch.

Escolher, cortar, alargar, comprimir, acelerar cada som até nada restar dele senão o estrato indefinível que dá forma a uma visão é o método seguido por Amon Tobin, músico brasileiro há anos residente em Inglaterra, que ao longo da sua discografia tem vindo a operar uma revolução no seio do drum’n’bass. “Supermodified” é já outra coisa. Um mutante de eletrónica e metal cujo corpo foi desvendado ao PÚBLICO pelo seu criador.
PÚBLICO – A propósito do álbum anterior, “Permutations”, afirmou que a música foi criada, em primeiro lugar, a partir de uma específica relação com os meios tecnológicos que tinha disponíveis. O que é que foi “supermodificado” neste seu novo trabalho?
AMON TOBIN – “Supermodified” foi feito, na íntegra, a partir de várias coisas diferentes. Cada som é proveniente de um lugar específico. Tudo o que fiz foi arrancar cada elemento para fora do seu contexto, torcê-lo e reinseri-lo dentro daquilo que pretendia fazer.
P. – Foi uma “supermodificação”?...
R. – Super, ultra! Foi tudo esmagado, comprimido ao máximo! Através de “plug-ins” como o programa Cubase que acabei, no fim, por não utilizar muito, devido a não sair muito do compasso de 4/4. Mas o aparecimento de novas tecnologias vai tornando o processo de criação musical cada vez mais interessante.
P. – Até que ponto o seu trabalho se baseia na intuição?
R. – Não tenho outro remédio, senão usá-la! O meu conhecimento académico sobre música está longe de ser impressionante…
P. – Uma vez, afirmou que se via a si próprio apenas como um DJ. Mantém essa afirmação?
R. – Não… Apenas disse isso porque o sampler não é propriamente um instrumento convencional, mas a forma como o uso é certamente a de um músico. Não tenho qualquer interesse em usar instrumentos “reais”, embora toque alguns deles, mas só em casa, para mim próprio. Não se trata de chamar o melhor saxofonista, pianista ou clarinetista do mundo, o meu “input” parte dos arranjos, da escolha e do arranjo dos sons. Não preciso de me tornar um saxofonista tecnicista para conseguir isso. Trata-se de “arranjar” os sons, não de os tocar (“perform”), como faz um músico tradicional. Em geral, quando se fala em “musicianship”, associa-se o termo a esse ato de interpretar e eu, em definitivo, não sou um intérprete, um executante…
P. – Mas esse termo, associado ao executante, não se pode transferir para o sampler, ou para um computador?
R. – É verdade, mas ainda neste caso não se trata de uma execução ao vivo, como faz um performer tradicional. Uma das virtudes de tocar ao vivo um instrumento é a possibilidade de se ser espontâneo. A minha música não tem nada disso, não pretende ser espontânea. Talvez na fase de produção haja lugar para ela, mas o produto final é absolutamente controlado.

“Fala-me da tua cabeça”

P. – Encontrei na Net um “site”, mais ou menos oficial, sobre si, bastante bem construído, à semelhança da sua música, em constante mutação. Estabelece uma relação curiosa entre alguns conceitos musicais presentes em “Supermodified” e partes do corpo. Conhece-o? Teve alguma interferência ou intervenção da sua parte?
R. – Sei qual é! Foi criado por Clifford Gilberto, da editora para onde gravo, a Ninja Tune. Ele entrevistou-me por telefone e fez-me algumas perguntas bastante loucas (risos), do estilo: “Fala-me da tua cabeça, fala-me dos teus dedos, fala-me do teu estômago.” O “site” acabou por ficar muito bom, muito “sci-fi”.
P. – “Supermodified” dirige-se mais à cabeça, ao cérebro, do que às outras partes do corpo, não acha?
R. – Há uma ligação entre a cabeça e o resto do corpo. Não sei fazer música para as pessoas analisarem. O que eu pretendo é estabelecer um elo com o “groove” natural das pessoas.
P. – O sample de guitarra acústica, em “Deo”, lembrou-me a música dos Faust. Ouve muita música das décadas passadas?
R. – Com certeza! Uma das particularidades da minha música é a inclusão de elementos dos anos 70, mas também dos 60 e 50, de velhas bandas sonoras, por exemplo. Não conheço os Faust, vou ter de investigar. Aos 17, 18 anos, ouvia sobretudo blues acústicos, Sonny Terry, Brownie McGhee, Lightnin’ Hopkins. E música brasileira, claro, Jobim, Astrud Gilberto, Baden-Powell… Também muito hip-hop.
P. – Que discos costuma passar nas sessões de djing?
R. – Bastante drum’n’bass do antigo, misturado com material novo, de preferência o mais excêntrico possível, coisas inapropriadas (risos)…
P. – Tem alguma coisa a responder àqueles que assistiram à sua atuação no ciclo “Blue spot”, em Matosinhos, e se lamentam dos escassos 40 minutos que durou o seu “set”?
R. – Sim, eu sei… Penso que os promotores se depararam nessa ocasião com alguns problemas. A sala era enorme e a assistência bastante reduzida… Não me lembro exatamente das razões que me levaram a atuar durante tão pouco tempo, mas recordo-me de ter sido uma noite um bocado caótica…

Tangentes

P. – Voltemos a “Supermodified”. Numa das canções, “Percursor”, o ritmo é feito com pedaços de vozes…
R. – Usei uma “beat box”, a Quadraceptor, que me chegou de Montreux. Já tinha na cabeça uma série de breakbeats acelerados, de 170 bpm. Gravei a sequência inteira no estúdio e, mais tarde, em casa, reestruturei-os de maneira diferente.
P. – Em “Saboteur”, criou uma atmosfera de “filme negro”. Existe uma apropriação consciente da linguagem cinematográfica na música que faz?
R. – Sem dúvida. Existe um paralelo entre o cinema e a música, por exemplo, no modo como uma cena dramática se torna dez vezes mais dramática quando aparece a seguir a uma cena calma. Um estratagema que consiste em criar primeiro uma sensação de aparente segurança para depois introduzir um elemento violento. O mesmo se aplica à música. Cria-se um som leve e delicado e de repente, colado a ele, um som de extrema violência.
P. – Esse contraste entre suavidade e violência é percetível na estrutura de cada tema de “Supermodified”, algo que não acontecia em “Permutations”, onde os temas eram mais lineares…
R. – Se reparar bem, em “Permutations” também acontece isso. Os temas começam por ser uma coisa e acabam noutra totalmente diferente. Mas percebo o que quer dizer, talvez o novo álbum tenha sido arranjado de uma forma mais dinâmica. Não se trata de usar a fórmula coro-verso-coro, é muito mais interessante desenvolver uma estrutura em tangente, algo que pode evoluir até regressar ao ponto de origem mas que também pode não regressar… Algo imprevisível.
P. – Quando começa a gravação de um álbum, tem alguma ideia sobre a sua forma definitiva?
R. – Quem me dera ter!... Mas a gravação demora tanto tempo que, a meio do processo, as ideias já se alteraram por completo. “Supermodified” levou quase dois anos a fazer, entre digressões de promoção a “Permutations”. Mesmo assim, a fase mais intensiva coincidiu com os últimos 12 meses. Cada tema foi-se desenvolvendo por si próprio, ao longo de sucessivas metamorfoses.
P. – Quando é que decide que essa metamorfose tem de parar para o tema assumir a forma definitiva?
R. – Quando já tem sobre o corpo mais roupas do que aquelas que pode vestir. Acontece o mesmo com a pintura, pode continuar-se a pintar indefinidamente mas no final tem de corresponder minimamente a um modelo original.
P. – “Rhino jockey” soa muito industrial…
R. – Esse tema foi feito a partir de breaks de samba, tirados de diferentes instrumentos de percussão brasileiros. Alterei-os de maneira a soarem industriais, o resultado acabou por não ter nada a ver com ritmos brasileiros.
P. – O tema de abertura, “Get your snack on”, é um dos meus favoritos. Como é que faz para arrancar o “swing” às máquinas?
R. – Tomara ter um sistema em que pudesse confiar para obter sempre esse resultado. Não sei… É apenas mais uma faixa em que dispus de sons interessantes, neste caso um break fantástico tirado de um disco trazido de uma loja por um músico meu amigo. Todos os breaks foram construídos a partir desse break inicial.
P. – O álbum termina com “Natureland”, paradigma de uma Natureza inteiramente virtual.
R. – É tudo mecânico e virtual. Como o pássaro mecânico que aparece em “Blue Velvet”.

16/07/2014

Amon Tobin - Supermodified + Faultline - Closer Colder



19 de Maio 2000
POP ROCK - DISCOS

Transmutações



Amon Tobin
Supermodified (9/10)
Ninja Tune, distri. MVM
Faultline
Closer Colder (8/10)
The Leaf, distri. Ananana

            Se o álbum anterior deste músico brasileiro, “Permutation”, descobria soluções sónicas de mágico no seio do que era ainda um conjunto de ideias manietadas por fórmulas musicais circunscritas, nomeadamente o drum’n’bass e o trip hop, o novo “Supermodified” molda e transforma o passado recente de forma radical. Decididamente, o laboratório de “bricolage” de Tobin foi assolado por uma tempestade que derrubou retortas, incendiou materiais, enlouqueceu os circuitos eléctricos e, acima de tudo, obrigou a repensar e a reescrever os manuais recentes de arquitectura da música de dança. Neste particular, o tema de abertura, “Get your snack on” consegue ser uma combinação prodigiosa de “swing” fractal e jazz inebriante, com uma pulsão arrancada às entranhas do corpo mas que não deixa de ser um hino de louvor à massa cinzenta. “Slowly”, ainda que não dispensando os estalidos de velhos discos de vinil, projecta o trip hop para os domínios da sensualidade pura. A melodia que traz escondida no ventre faz deste tema um dos momentos mais altos da nova música electrónica. A passagem de um cometa pela feira que os Tuxedomoon ergueram com “Desire”. Ouve-se vezes sem conta, vê-se como um filme, sente-se como uma carícia. “Deo” retoma as guitarras acústicas dos Faust para com elas erguer uma parede de espelhos. “Precursor” é o futuro do drum’n’bass. Com “Supermodified” (nunca um título de um álbum foi tão revelador), Amon Tobin assume-se como um artista barroco, um criador sem fronteiras, alquimista/demiurgo dos fragmentos perdidos da música de um mundo em desagregação. De cada um destes fragmentos, o brasileiro faz uma obra de arte. Qual máquina de combate, “Supermodified”, esmaga a concorrência para no final depositar dois beijos, um de despedida metálica da bossa nova, em “Keepin’ it steel”, e outro, “Natureland”, um brinde easy listening aos tempos gloriosos de velhos filmes que faziam sonhar.
            Considerado por uma quantidade de revistas estrangeiras como um dos melhores álbuns editados no ano passado, definido por alguns como um cruzamento de Miles Davis com Aphex Twin, por outros como parente próximo de Alec Empire, “Closer Colder” dos Faultline, aliás David Kosten, só agora chegado ao circuito nacional, constitui o complemento ideal de “Supermodified”. É um álbum deslumbrante, de uma dimensão cinematográfica, em formato de ecrã gigante e som sensoround, que preenche e alimenta cada recanto da imaginação. Umas vezes “sinfónico”, outras jazzístico (anote-se a participação do velho trompetista Ian Carr, antigo elemento dos Nucleus, formação dos anos 70, “rival” dos Soft Machine, e o facto de o próprio Kosten ter integrado, na sua juventude, a National Youth Jazz Orchestra), sempre mergulhado nas vagas de uma electrónica tão complexa como sensorialmente apetecível, “Closer Colder” define alguns dos vectores estéticos do que já foi catalogado como “pós-dance music”, à imagem, aliás, de “Supermodified” ou, numa linha de funk industrial mais negro, dos mais recentes trabalhos dos Funkstörung (“Appetite for Destruction”) ou Speedy J (“A Shocking Hobby”). Aqui o “drum’n’bass” já faz parte do passado e o conceito de “música de dança” alicerça-se num terreno de ritmos abstractos, e no tracejar de um gráfico multidimensional que são, afinal, a correspondência sonora das reestruturações cognoscitivas que o cérebro tem estado a operar, no sentido de adaptação a novas percepções do ritmo e à crescente pulverização das coordenadas musicais lançadas pela música electrónica neste final do milénio.