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08/02/2019

À noite ela voa [Anamar]


Y 9|MAIO|2003
anamar|música

à noite ela voa


Em torno da antologia “Afinal” bailam as imagens de uma mulher cuja aura continua a intrigar, Anamar. À noite as imagens são mais difusas. E voam.


Afinal quem é Anamar? A cantora da noite e das poses fatais de “Almanave” e “Feia Bonita”? A lua do Sul que ilumina as profundezas de “M”? A regressada aos dias de luz e a descoberta dos seus guias interiores no projeto SM58 partilhado com Né Ladeiras e Pilar Homem de Mello? A intérprete mutante das vozes míticas, de Edith Piaf, Sinatra, David Bowie, Leonard Cohen ou Lou Reed? A presença dentro da escuridão radiante do fado, com o fim de lhe extirpar a tragédia e de o vestir com um vestido novo, de preferência branco?
            Anamar é, afinal, uma mulher simples e é nessa simplicidade que reside o seu maior mistério. Afinal um caminho eternamente inacabado, um “Baile final” que agora se revisita na antologia “Afinal”, a preparar um novo disco de originais cujos contornos a cantora prefere manter em segredo. Anamar, olhos verdes muito claros, demasiado transparentes, olha em frente e além. Por vezes torna-se difícil, quase doloroso, sustentar o olhar de água, ou de águia. Porque dolorosa é a mágoa de enfrentar, cara a cara, a verdade. Mesmo que a verdade seja, como no seu caso, encenada ao pormenor sobre o palco de um antigo e oculto teatro. A entrevista com o Y foi feita de dia, Anamar trajada de negro, com sombras em redor, a brincar.

            Há alguma razão especial para lançar nesta altura uma antologia?
            Há, um balanço. Por outro lado, está a haver um novo espaço para o fado e ouvindo-se os discos que já gravei percebe-se que esta nova abordagem é uma coisa recorrente no início da minha carreira e ao longo dela. Mas os discos foram esporádicos, alguns não apoiados convenientemente, por não ter feito espetáculos ao vivo, não ter alimentado uma presença na música... Um disco precisa absolutamente de ser acompanhado por espetáculos ao vivo. Eu sou mais real ao vivo do que em disco. Há neste disco uma série de músicas que, apesar de não serem inéditos, a maior parte das pessoas nunca deve ter ouvido na vida... Seria um desperdício encetar algo novo sem pôr cá fora o sumo do que posso considerar a minha viagem próxima do fado, ou de um canto de alma telúrico qualquer.
            Este é, então, o tempo certo para se ouvir as suas músicas antigas?
            Sim, fiz trabalhos talvez desfasados do tempo, que dificultaram o seu consumo: abordagens novas ao fado, um disco mais ambiental como o “M”, numa altura em que no mercado era pouco comum haver esse pioneirismo. Ao mesmo tempo, houve uma ausência da minha parte em lhes dar vida ao vivo, na comunicação com as pessoas.
            Hoje vive-se numa situação em que tudo o que tem a ver com o fado é facilmente aceite...
            Acho alguma graça. Sobretudo quando já se passaram 20 anos sobre novas abordagens, como o “Lisbunah”, da Anabela Duarte, o “Almanave”, meu, ou o primeiro disco da Sétima Legião, sem esquecer o nosso eterno irmão, António Variações. Na altura era o fruto proibido, um tabu. Linchava-se em praça pública quem o fizesse. Hoje há um “boom” comercial, porventura marcado por um certo exagero. O que antes era tabu, está agora na praça pública. Hoje há mais pessoas a dizerem as mesmas coisas que eu ando a dizer há uma data de anos, sem estarem sujeitas a testes de linchamento ou de endeusamento, tudo ao mesmo tempo. Que foi o que me aconteceu, um teste emocional brutal. Hoje é possível ouvir, por exemplo, Cristina Branco falar abertamente da relação entre música, sensualidade e sexualidade sem que seja capa do jornal no dia seguinte, como se fosse o caso mais polémico de Portugal.
            Mas algumas das novas fadistas são bastante tradicionalistas. A Anamar, pelo contrário, continua a ser uma transgressora...
            Você o diz (risos) e nem sabe o que se avizinha! Sobre o próximo disco apenas posso dizer que terá a ver com o fado e não será com certeza um trabalho tradicional.
            Tem sobre as pessoas o efeito de projetar uma imagem muito forte. Tem consciência disso?
            Projeto uma imagem forte que se pode confundir com a minha essência. Isso pode fazer com que as pessoas achem que a figura da mulher vestida de preto, de cabelos compridos e pose de “femme fatal” seja aquilo que tenho para dar. Na verdade, não é. Não passa de uma veste.
            Recentemente cantou Bowie, Reed, Cohen, Sinatra, Piaf...têm ou não algo que tem a ver consigo?
            ...não se esqueça do Gardel, estamos a falar de um universo vasto. Foi um espetáculo [“Wild Cabaret”] que surgiu na sequência do espetáculo de teatro “Rita Hayworth”, como uma das minhas criações “à margem”, que sempre versaram universos míticos internacionais da música. É como o David Bowie cantar Brecht.
            Mas o que o núcleo da artista Anamar persegue é a junção dos cantos de alma do universo luso-latino.
            A capa de “Afinal” tem algo de sombrio, muito David Lynch.
            Acha? Eu leio a noite, sem dúvida, que, para todos os efeitos, continua a ser uma imagem colada a mim, mas também umas asas brancas e um ar bastante tranquilo. Na noite ela voa... Há um lado teatral evidente mas, curiosamente, a fotografia da capa foi tirada durante uma pausa na sessão. O resto do rolo tem poses, encenações, intenções, mas nesta estava apenas a descansar.
            Mantém sempre uma lucidez extrema em relação a tudo o que faz.
            Tem vezes!...(risos). Como provenho de um universo anglo-saxónico, americano, preocupo-me com o conhecimento técnico que preside à criação artística, com o controle conceptual, desde a imagem aos conteúdos escritos, passando pela escolha de parceiros, pela luz...
            No entanto o mistério que a rodeia adensa-se...
            Mas eu explico, desmonto tudo! Sou uma pessoa simples! As pessoas é que não acreditam (risos) e continuam a achar que sou misteriosa. Mas finalmente se constata que o mistério da Anamar não é um mistério construído, como foi dito em tempos. Se à medida que vou falando e explicando, ele se mantém e até se acentua, é porque deve existir por si próprio. Claro que não consigo desmontar o que passa através da minha voz e do meu canto. Será aí que reside o mistério.
            Ao vivo, sente que está a expor, ou a expor-se a esse mistério?
            O palco para mim não é um território de exposição, daí ser apelidada de animal de palco. E é verdade. O palco é a minha casa. Estou num palco como estou em casa. Não tenho a noção de estarem não sei quantas pessoas a olharem para mim. É como se me sentasse, entre aspas, atrás de uma secretária, é o trabalho que tenho para fazer – o que passa e o que sinto é a comunhão.
            É portanto uma atriz, como Isabelle Hupert, que quanto mais se expõe em situações teatrais extremas, mais oculta a sua essência?
            Como todas as grandes figuras reais e não as que são construídas pela máquina de consumo, ela tem uma essência que passa através de tudo aquilo que faz e que é extraordinariamente profunda e simples. Porque é verdadeira. A Isabelle Hupert é também uma pessoa que explica tudo, que se expõe, mas que na sua vida pessoal deve ser com certeza simples. Provavelmente é esta essência que está presente em tudo o que se faz quando se trabalha para se ser verdadeiro. O meu caso é igual: o melhor que tenho para dar é a minha essência. Ser eu o mais verdadeiramente possível. E assim criar pontes com as pessoas. E isso é misterioso. Porque é misteriosa a relação das almas e dos corações.
            Que músicas misteriosas anda a ouvir neste momento?
            Algumas que até poderão ter a ver com o meu próximo trabalho, mas só em termos técnicos ou de pesquisa histórica. E “Secrets of the Beehive”, de David Sylvian, o “Concerto nº3” de Rachmaninov, o álbum ao vivo do Rodrigo Leão, Susana Baca, “Bodily Functions” do Matthew Herbert.

04/09/2016

Anamar, Né Ladeiras, Pilar - Ao Vivo

Sons
11 Outubro 2002

ANAMAR, NÉ LADEIRAS, PILAR
Ao Vivo
Ed. e distri. Zona Música
7|10

Gravado ao vivo a 24 e 27 de Novembro de 2000 no Teatro Maria Matos, em Lisboa, “Ao Vivo” é um daqueles acontecimentos irrepetíveis que procurou capitalizar a música de três vozes e personalidades ímpares da música popular portuguesa, juntas em busca da magia do momento. Anamar, Né e Pilar são, cada uma à sua maneira, “marginalizadas do sistema”. As suas vozes, os seus interesses e a sua postura dentro da indústria, tendem naturalmente se não a afastá-las, pelo menos a provocar reservas e eventuais desentendimentos. Sob a égide de Tiago Torres da Silva, arquiteto do projeto e autor da totalidade das letras, “Ao Vivo” tem o ar de coisa suspensa daquele fio frágil em que a delicadeza é tanta que corre o risco de, ao contacto com a menor rugosidade, se romper. São três vozes diferentes, mas almas gémeas, que aqui se dão e dão as mãos. Anamar é o fado do indizível, a força indomesticada, a cigana das vielas interiores; Pilar, as suaves fragrâncias do jazz, mas também a inquietação; Né a irrupção das tradições étnicas, venham elas do solo lusíada ou do Brasil. Apesar de irmãs, o que cada uma delas teve para dizer nessas duas noites, disse-o melhor sozinha. Disse-o mais alto e mais fundo, Né Ladeiras, na “Canção da Sibila”, do séc. XVI.

28/08/2014

As asas do deserto [SM58 - Anamar, Né Ladeiras, Pilar]



Y 24|Novembro|2000
música|sm58

as asas do deserto

Né Ladeiras, Anamar e Pilar. A primeira a loba, a segunda Atena e a outra a princesa. Personagens imaginárias que elas irão mostrar, hoje e 2ª feira, às 21h30, num voo a sobrevoar o Teatro Maria Matos, em Lisboa. O espetáculo chama-se “SM58” - um velho microfone amplificador de emoções.

“SM58” é um modelo de microfone antigo, daqueles maciços em metal luzidio, design futurista, a fazer lembrar um satélite artificial, que mais do que apanharem as “nuances” da voz captavam as subtilezas do sentimento. Né Ladeiras, Anamar e Pilar de Homem de Melo possuem subtilezas e mistério de sobra e o gosto pelo voo, seja encavalitadas num velho Sputnik ou nas asas de uma viagem astral. Foi nisso que Tiago Torres da Silva deve ter pensado ao decidir organizar um espetáculo também chamado “SM58” que pela primeira vez reunirá no mesmo palco estas três cantoras.
            O espetáculo, a realizar hoje e na segunda-feira no Teatro Maria Matos, em Lisboa, apresentará uma série de temas originais compostos pelas três e do lote de canções cantadas em diversas línguas, incluindo árabe, israelita, dialetos africanos e timorense, consta uma surpresa que elas nos pediram para não divulgar – pelo que não seremos nós a revelar que Né, Pilar e Anamar irão cantar logo à noite um tema dos Dead Can Dance.
            “SM58” terá ainda a particularidade de ser bastante mais do que um espetáculo convencional, estilo Os Três Tenores em versão feminina, socorrendo-se para tal de uma encenação que “obrigará” as três cantoras a afivelarem a máscara de diversas personagens. Vão cantar uma de cada vez, em duo e em trio mas seja qual for a combinação, as três estarão sempre presentes no palco. As luzes, os figurinos, as vozes e personalidades únicas e um acompanhamento instrumental discreto de percussões e guitarras, farão o resto.
            O PÚBLICO convidou-as para uma conversa mais ou menos alucinada e para uma sessão de fotografia sobre a qual muito haveria para contar e mostrar não fora o facto de apenas serem precisas quatro imagens e de queremos poupar aos nossos leitores a visão despudorada do escândalo. Sem malícia.
            Né, Anamar e Pilar são personalidades controversas e nem sempre a indústria soube aproveitar essa diferença que a música de qualquer delas acentua. Os discos que para já nos deixaram são elucidativos. Pilar, a mais recatada, gravou há uns bons anos um “Pecado Original”, na boa tradição das cantautoras de guitarra a tiracolo. Anamar, embrenhada no esoterismo e no labirinto interior de si própria (do qual encontrou a saída há pouco tempo, segundo nos confessou), está agora mais forte do que quando gravou o incompreendido “M” (com produção e letras de Tiago Torres da Silva), álbum de seres e paisagens longínquos iluminados pela lua. Né tem sido a mais mediática e viajada das três e se a fase correspondente ao excelente e premiado “Traz os Montes” não se consolidou na posterior apropriação de temas de Fausto em “Todo este Céu”, o tempo agora é de expetativa, até se ficar a conhecer o que resultou do seu trabalho com os Transglobal Underground, já que das horas passadas em estúdio com Hector Zazou (e John Cale, Ryuichi Sakamoto, Brendan Perry…) não guarda boas recordações, com a hipótese mais provável desse material não chegar a ver alguma vez a luz do dia. Mas tem na manga um disco que gravou no Brasil com Chico César e outro sobre a escritora Isabelle Eberhardt.
            Né chegou ao PÚBLICO zangada (com tudo mas principalmente com o trânsito em Lisboa ao fim da tarde) mas acabou a dançar como a boa loba alada que acha que é. Também pedimos a Anamar e a Pilar que vestissem a pele que melhor lhes serve. Pilar é a princesa. Anamar escolheu Atena, deusa grega filha de Zeus. As três afirmam-se adeptas do voo. E voam. Ou, como sintetiza Tiago Torres da Silva: “Não é por acaso que o primeiro tema que vão cantar se chama ‘Mergulho’. É como se entrassem no mar, furassem a terra e explodissem em fogo, sendo que o ar é a matéria comunicante entre elas e entre elas e o público”. Só falta ligar o microfone SM58.


À MARGEM
Cultivam a originalidade e a diferença. São três personalidades incompreendidas, mas aproveitadas, porque, dizem, “o sistema é estúpido”


NÉ LADEIRAS
a loba

Entrou a matar, a escorrer o “stress” que trazia agarrado à pele. Para Né Ladeiras, “SM58” é uma questão de “energia”: “Somos três cabeças meio loucas e abertas, embora o coração seja fundamental”. Quando se juntam, “criam, criam, criam…”. Com as pilhas Duracell do espírito. “É uma adição, não uma subtração, nenhuma faz sombra às outras”, garante: “Somos três palmeiras bonitas num oásis”.
            Sobre a sua colaboração com o compositor e produtor francês Hector Zazou, com quem preparava uma antologia de cantares religiosos e pagãos “do triângulo mágico de Trás-os-Montes, Beira-Alta e Beira-Baixa”, é cáustica: “Foi dispensado, com a concordância da editora. Quis dar de mim a imagem de bruxa. E eu não sou bruxa, quando muito feiticeira. Começámos a explodir um com o outro. Eu sou firme nas minhas ideias e ele é um ‘génio’, ok, só que começou a entrar na andropausa musical. [com pronúncia brasileira] Eu queria tesão e ele não tinha não!” (risos).
            A etapa seguinte levou-a a Montreux para se encontrar com os Transglobal Underground. “Gostaram da maqueta com vozes e adufes e fizeram os arranjos”. Mas em definitivo, nada. O mesmo com os “três meses fabulosos” no Brasil a gravar com Chico César um disco sobre as mulheres no Renascimento.
            “Hoje, apesar de ser muito espiritual, há dias em que o meu lado de loba vem ao de cima. E hoje não me apetece uivar mas rosnar. É claro que existem por cá músicos que complicam… É claro que há produtores sem sensibilidade… É claro que há agências que são uma grande máfia…”
            Como Anamar, acha que “o sistema é estúpido” ao não saber explorar a imagem das três. “Imaginem a Björk, uma excêntrica, neste país… já andava a varrer ruas”.
            Além das obras iniciadas prepara um disco sobre Isabelle Eberhardt, a escritora de “Escritos no Deserto” que morreu aos 27 anos e “atravessou o deserto para encontrar o mar. Um outro tipo de mar…”.


PILAR
a princesa

Pilar define “SM58” como uma “extravagância” que, para já, está a criar “relações fortes” entre ela e as outras duas participantes. Com dois álbuns na bagagem, uma estreia com a chancela na produção de Wayne Shorter, seguida de “Pecado Original”, editado em 1993, Pilar Homem de Melo, por isto ou por aquilo, afastou-se a partir daí do mundo do espetáculo. Através de “SM58” descobriu, “pasmada”, a “naturalidade com que as coisas estão a correr”. Assinou um contrato discográfico com a editora NorteSul da qual sairá em breve um novo trabalho. Um disco “totalmente diferente” dos anteriores: “Já estou grandinha e não sofro tanto com as interferências de fora que impedem a criação”.
            “Antes sentia revolta”, continua, “mas acho que esta revolta tinha a ver com o meu estado de espírito, de superioridade, por isso é que as coisas não aconteciam. Eu era uma estrela e não tinha dinheiro para pagara a renda, alguma coisa estava errada. Mas não é possível trabalhar numa fábrica e depois chegar a casa e cantar. Hoje é diferente, não sei que transformação aconteceu dentro de mim, mas a verdade é que aconteceu. De repente consegui”. Pilar conseguiu. Tem pronto um novo disco prestes a sair. Em relação ao “SM58” está eufórica: “nós as três somos diferentes mas temos talento!”.


ANAMAR
atena

Anamar é uma criatura da noite que gosta de luz. Garante que esta colaboração, com o número de série “SM58”, que considera uma espécie de “o mundo em música”, permite “o crescimento musical” das três. Fala de “coisas belas”, de “ideias” e de “motivação humana” para ilustrar algo que se difunde na cor branca, no mesmo branco lunar que banha as canções do seu último álbum, já distante no tempo, “M”, dito de muitas maneiras, como “mar”, “mim”, “mental”, mudança” e “morte”. Para Anamar esse foi um disco “feito com os pés para cima e a cabeça para baixo, um álbum desenraizado”. Seria então em vez de “M” um “W”…
            Confessa-se: “Já fui suficientemente ‘pateta’ para pensar que o ideal faz a vida, que uma coisa é saber e outra ser”. O que a une a Né e a Pilar é a transparência. “No fundo estamos aqui porque somos transparentes e queremos contribuir para um maior prazer em viver, para uma abertura de visão”.
            Consumada a edição de “M”, Anamar passou a encarar as coisas de forma diferente: “Depois de umas pancadas nas costas e de uns chutos no rabo, inverti a posição. Pus os pés na terra novamente”. Simples. “Na primeira fase da minha carreira desiludi-me com o exterior. Na segunda desiludi-me com o interior”. De desilusão em desilusão, acabou por ser despedida “sem justa causa” da editora para onde gravava, a BMG, e com quem está atualmente em litígio.
            Durante os últimos anos a música funcionou como qualquer coisa que a “assombrava”. Com “SM58” reencontrou o prazer de estar em palco, afastou angústias e encara o futuro com outro otimismo. Embora ainda olhe para a frente e diga: “Não sei de nada e nem quero saber já!”.
            Como as suas duas companheiras, aceita o facto de ser diferente e só lamenta que a indústria não saiba tirar partido disso. Porque “o sistema é estúpido!”, diz.

05/05/2009

Anamar - M

Sons

3 de Outubro 1997
DISCOS – PORTUGUESES

Anamar
M (7)
RCA, distri. BMG


Dez anos passaram sobre a edição de “Almanave”, oito sobre “Feia-bonita”. A seguir, o silêncio e o recolhimento, quebrados por esporádicas aparições como actriz. Numa delas (“O Ensaio”, de Jean Anouilh), Tiago Torres da Silva, produtor de “M”, sugeriu-lhe que cantasse o fado, revisto sob uma nova luz. Anamar acedeu, ressurgindo transfigurada, por dentro e por fora. “M”, gravado em tempo real numa igreja, é uma oração, interiorização de um tempo e de um lugar que atravessam as idades. “Do coração aqui ao coração além”, como diz uma das canções. O ambiente é, por vezes, de música antiga, de uma reunião secreta no templo. Sente-se que há uma partilha e uma partida, no dar as mãos de todos os músicos envolvidos – André Louro de Almeida, Joaquim d’Azurém, Florêncio de Carvalho, José António Santos e Gabriel Mateus. São temas que flutuam pelas vielas do fado que se canta no mundo astral. Ventos e água e pássaros, ciúmes e beijos vibrando num ar de paixões rarefeitas. Passam por aqui os choros góticos dos Dead Can Dance e os ecos distantes da civilização e da tecnologia. “Os grandes nomes” fixa Laurie Anderson numa onde de esoterismo, “Via láctea” descreve-se a si mesma numa mistura de ciência e misticismo, “Pulsar” é pura música do espaço. Só é pena que a voz de Anamar não tenha, por vezes, a firmeza e focagem exigidas por uma completa exposição à luz. No geral, “M” soa ao que seria um disco de fado gravado na editora Hearts of Space.

O despertar da alquimista [Anamar]

Sons

26 de Setembro 1997

O despertar da alquimista

Anamar, mais que uma cantora, é uma viajante da alma. As imagens do seu filme interior mudaram nos últimos dez anos. Aprendeu a serenidade e a luz que se esconde nos gestos e nas palavras. “M”, o seu novo álbum, é pura vibração. “M” de “mais”, “M” de “morte”, “M” de “mudança”, “M” de “mundo”, “M” de “mar”.

A linguagem é a da alquimia. Casamento de elementos, dissociação e harmonização interior são termos empregues por Anamar para falar de “M”, o seu novo disco, gravado numa igreja. Um banho de luz.
PÚBLICO – “M” é um título estranho, não acha? “M”, “Matou”, de Fritz Lang. “M”, o grupo que fez o tema chamado “Pop Music”...
Anamar – Não queríamos limitar o que se pudesse percepcionar do disco com uma palavra. A ideia de ter só uma letra é de as pessoas associarem o que quiserem a essa letra. Deixar uma porta aberta.
P. – Depois há uma canção chamada “NSN”...
R. – Aí é por causa do “N”, que se diz com os lábios fechados, mas é audível cá fora. Uma relação exterior que nos interessa. Além disso, são as iniciais de “Nossa Senhora das Neves”, a quem foi erigida uma capela do séc. XII onde foi gravado o CD, no alto da serra de Montejunto.
P. – Estás sempre a falar em “nós”... Nós quem?
R. – Este trabalho não foi feito por mim exclusivamente, mas por um núcleo criativo de quatro pessoas: eu e o André Louro de Almeida, ao nível musical e do conceito de arranjos, e o Tiago Torres da Silva e a Ana Calhau, também criadoras do conceito de origem.
P. – Que conceito?
R. – Cantar a luz através do fado, sendo que, de uma maneira muito comum, o fado está associado a outro tipo de emoções: ciúme, posse, vingança, escuridão, saudade, desilusão, revolta... Mas esse conceito não me entusiasmou especialmente, não estava muito virada para pegar no código do fado, já muito usado e trabalhado anteriormente. Não é fado que costumo ouvir em casa, mas coisas com outra espacialidade, indicadoras de outros estados de espírito – Dead Can Dance, Rachmaninov, Brian Eno, David Sylvian... No entanto, o pacote de letras que o Tiago me apresentou era extraordinário.
P. – Falou em espacialidade. E religiosidade?
R. – Absolutamente. É uma característica, para mim, básica. No entanto, não é assim tão óbvio que a arte entre em linha de conta com ela.
P. – Essa religiosidade não está a transformar-se, nos dias que correm, num mero amontoado de ícones e imagens, esvaziadas do seu verdadeiro significado?
R. – Todo o fenómeno de profetas com pés de barro, ou aproveitamentos comercialóides do fenómeno “new age”, mais as seitas, tudo isso e a “astrologite”. Se religião significar religar, e é daí que vem a palavra, aí sim, sou uma pessoa profundamente religiosa. Religar à vida, sendo que esta, em si, é a transcendência.
P. – É engraçado estar a falar sobre estas questões. As pessoas estavam habituadas a ter de si outra imagem...
R. – Eu sei. Deixei de cantar e de aparecer há muitos anos, nove anos. É curioso verificar como uma imagem pode ficar cristalizada no tempo. Há dez anos, vestia de preto, pintava os lábios de vermelho e usava os cabelos muito compridos. Uma imagem que ficou ligada a uma noção de estilo e à sedução, ao risco e à ousadia. Hoje, nem a minha cara é igual. Nem o meu ser interior.
P. – O que aprendeu nestes últimos dez anos?
R. – Fui crescendo. A opção, neste período de tempo, de não cantar e de não manter uma actividade pública deriva da minha necessidade de ouvir primeiro o que estava cá dentro e ver se tinha alguma coisa para dizer. Uma das coisas que aprendi nestes dez anos foi o valor do silêncio. O valor do quietar. Do respirar, do fruir de tudo o que a vida tem para nos dar, em vez de querermos que as coisas correspondam aos nossos desejos.
P. – Essa filosofia de vida, transferiu-a para a feitura do seu disco?
R. – Este disco não é fruto de um trabalho pessoal meu, mas de um trabalho de equipa. O que pediu uma abertura e uma aprendizagem do que é “criar com” outras pessoas, algo que eu não conhecia assim tão bem. Nos outros discos trabalhei com muita gente, mas o conceito e o ponto de partida eram definidos por mim. Neste caso, não, fui obrigada a uma disciplina.
P. – Quer dizer que o seu ego se suavizou?
R. – Tendo um ego, como toda a gente, há partes desconhecidas de mim própria em relação às quais faço questão de estar especialmente atenta, de maneira a estar em sintonia com elas. Quanto mais fundo se vai dentro de nós, menos se faz questão de ter ou não ego, de ser isto ou aquilo.
P. – Como é que se processaram as gravações?
R. – O disco foi gravado quase como um disco ao vivo, em tempo real, o que quer dizer que houve muitas repetições, que aproveitei para fazer apuramentos, ao nível de questões técnicas. Foi exigida uma concentração muito grande, havendo necessidade de se estar tranquilo para que as coisas fluíssem. Ao todo foram três semanas ao longo das quais gravámos 21 canções e... uma brincadeira.
P. – Que brincadeira?
R. – Numa ocasião o Joaquim d’Azurém estava a tocar guitarra portuguesa num teste de som e eu comecei a cantar por cima. Ou a leitura de um texto sobre uma banda-sonora composta pelo André Louro de Almeida.
P. – Falou, há pouco, do fado, que também corre o risco de se desvirtuar. De que forma é que sente este tipo de música?
R. – O fado é um código e uma porta de acesso directo à alma, como os “blues” ou o “gospel”. Do ponto de vista cultural, cristalizou no tempo. Lembro-me de quando era miúda e cantar “A canção do mar”, da Amália, ser um escândalo. Mas a própria Amália gostou muito do tema.
P. – A maneira de se exprimir sugere elegância, mesmo quando se trata de espiritualidade...
R. – Entendo que uma das qualidades da espiritualidade é precisamente a elegância. Não há espírito sem beleza. Há uma tentativa da minha parte de tratar a vida com elegância. Não há harmonia sem ela, todos os pontos de vista radicais ou separatistas, que só tendem para um lado da realidade, não me satisfazem. A vida não é separada, tal como a visão das coisas não deverá ser separada. A elegância é uma característica da verdadeira complementaridade de elementos.
P. – Quais são os seus elementos?
R. – Água e fogo. Embora talvez o mais importante seja o éter, o quinto elemento... A água identifica-se com os sentimentos e as emoções, com o fundo da alma e o poder de aplicar o coração na vida. O fogo equivale a uma verticalidade, a um amor pela verdade, a uma expansão, a uma inspiração, à criatividade em si, aquilo que faz com que um átomo e outro se juntem dando origem a uma coisa. Por isso tento articular a expressão, própria do fogo, com a interiorização, própria da água. Um casamento que é dos trabalhos aos quais me tenho dedicado. É como uma cafeteira com água a ferver. É bom que a água fervente esteja em total correspondência com a intensidade da chama. Se ferve demais, apaga a chama. Se a chama estiver demasiado alta, evapora a água.
P. – Está a falar como uma alquimista...
R. – A alquimia é um código de profundidade... mas na verdade é a própria simplicidade da vida. A harmonia é a forma mais simples, mas também a que requer mais trabalho.
P. – Assusta-a o envelhecimento, a decadência da beleza física?
R. – Assusta-me o envelhecimento, por estagnação. O envelhecimento interior. Assusta-me a morte interior, não em mim, e digo não em mim, porque não há receio que em mim, por dentro, morra aquilo que me anima, senão não estava viva. Sou a típica sobrevivente. Acredito que existe uma relação entre o envelhecimento da matéria e a sabedoria interior. Através do tempo, o homem tem acesso a ser, cada vez mais, ele próprio, a ser sábio. O envelhecimento físico acaba por ser o preço a pagar pela experiência vivida. Mas também acredito que o corpo físico é condicionado pela energia interior, nomeadamente, a psíquica. Daí não saber se as pessoas forem cada vez mais psiquicamente saudáveis se não serão também cada vez mais fisicamente vitais.
Já agora, também me assusta a paranóia de que todo a gente queira ser como a Claudia Schiffer até aos 80 anos!... É a prioridade dada à plástica, ditada pela moda, uma ditadura de formatação de mentalidades, responsável pela morte interior de muitas pessoas.
P. – Vivemos uma época de morte e de apodrecimento. O Apocalipse?
R. – Talvez uma época de altos preços a pagar por tantas cristalizações. Há uma coisa que me faz muita impressão. Habitualmente, a informação que chega às pessoas é sempre sobre o lado negro dos sinais, nos telejornais e nos jornais. Parece que há uma publicação num país, não sei bem qual, que se dedica só a divulgar aquilo que de bom acontece no mundo e que tem tido um público tremendo. Estamos numa fase crítica e, por isso, privilegiada. Considerando que o preço é alto, porque a tal formatação da cabeça e do “modus vivendi” das pessoas chegou a um limite de dissenção com o seu próprio interior, por outro lado existe a oportunidade de ver de caras, a um nível extremo, o que não dá, que não funciona, que não traz felicidade. Nesse sentido, quanto mais claro se vê o inimigo, mais fácil é o entendimento do que poderá ser mais criativo.
P. – Quem ou o que é o inimigo?
R. – O medo.
P. – Como é que se pode vencê-lo?
R. – Através da emergência da tomada de consciência de quem se é e do que se está a fazer. É a única saída. O homem meteu-se numa camisa de forças e, de alguma maneira, está a ser encostado à parede na pressão máxima. Ou descobre como é que sai lá de dentro ou então morre. Acabou o problema, estoira tudo. Acredito, ou melhor, sei internamente que o futuro das coisas é sempre e tendencialmente luz.