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23/02/2017

Um chá no deserto [Anouar Brahem, John Surman e Dave Holland]

cultura SEGUNDA-FEIRA, 27 MARÇO 2000

Anouar Brahem, John Surman e Dave Holland atuam hoje, em Lisboa

Um chá no deserto

JAZZ, música árabe, arabescos de alaúde, um saxofone rendido ao minimalismo, um contrabaixo quente militante numa editora "fria", a ECM. Anouar Brahem, tunisino, alaúdista (no "ud", alaúde árabe), John Surman, inglês, expoente dos saxofones soprano e barítono e do clarinete baixo, e Dave Holland, outro inglês, contrabaixista, encontram-se ao vivo, hoje no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, e amanhã no Teatro Rivoli, no Porto, como já se haviam encontrado, há dois anos, no Festival da ECM, em Badenweiler, na Alemanha, e na gravação de "Thimar", álbum com a chancela desta editora alemã.
            De comum entre os três, o domínio pleno dos respetivos instrumentos, a compreensão da música como fenómeno global de transversalidades culturais e a compreensão da importância do diálogo e da escuta, no âmbito de uma criatividade colectiva. Que se jogará tendo como factor preponderante a improvisação, que na música árabe se centra em redor dessa chama eternamente acesa que é o "taqasim". Um chá inglês tomado em pleno deserto.
            Anouar Brahem acredita que a improvisação é o caminho ideal para se atingir o Espírito. E o espírito da música árabe clássica, feita de subtis modulações. Não como uma estrada, que liga um lugar a outro, no Ocidente, mas como um jardim.
            "Rabeb" e "Andalousiat" são álbuns que Brahem gravou à passagem da década de 80 para a de 90 e onde procurou reabilitar a herança riquíssima do seu património geográfico-musical. Parte a seguir para o Ocidente, descobrindo-se irmão do jazz mas entrando neste universo pela porta da editora do alemão Manfred Eicher, a ECM, onde assina três álbuns que lhe grangeiam enorme popularidade: "Madar" (1994), em duo com o saxofonista norueguês Jan Garbarek, "Khomsa" (1995) e "Thimar" (1998), em trio com os seus companheiros desta noite no CCB.
            Em Tunes, onde nasceu, cruzam-se as raízes árabes-muçulmanas com influências africanas e mediterrânicas. Por isso não espanta que na música de Anouar Brahem soprem ventos simultâneos que transportam a tradição para terras de descoberta e de diálogo com "o estrangeiro", habitante de outras formas de olhar um mesmo mundo.
            John Surman e Dave Holland ajudaram a criar nos anos 60 o que se considerou ser um "novo jazz" nascido em Inglaterra. Nas grandes formações de Mike Westbrook, Mike Gibbs e Chris McGregor ou na pequena formação The Trio (ao lado de dois americanos "expatriados", Barre Phillips e Stu Martin), Surman pontificou como um músico seduzido pela melodia e por uma visão classizante do jazz. "Westering Home" e "Morning Glory", álbuns dos anos 70, apontavam já para outra das suas pátrias musicais: um minimalismo de câmara de pendor electrónico que viria a desenrolar-se em várias etapas ao longo da sua discografia a solo na ECM, desde "Upon Reflection", "The Amazing Adventures of Simon Simon" (um clássico!) e "Such Winters of Memory" (com a cantora Karin Krog) até ao mais recente "Biography of the Reverend Absalom Dawe". Uma passagem pela música coral, em "Proverbs and Songs", contrasta com o jazz mais tradicional protagonizado com o seu quarteto com John Taylor, Chris Lawrence e John Marshall.
            Dave Holland percorreu um trajeto paralelo ao de John Surman, embora num âmbito mais marcadamente free. Das grandes formações inglesas onde também fez apostolado, o contrabaixista cedo se aventurou ao lado de Miles Davis (encontramo-lo nos míticos "In a Silent way" e "Bitches Brew"), e a tocar com músicos "desalinhados" como Anthony Braxton e Barry Altschul (juntamente com Chick Corea, nos Circle), George Lewis, Sam Rivers e Evan Parker. Entrou para a ECM ainda nos anos 70, onde assinou obras marcantes como "Music from Two Basses" (com Barre Phillips), "Conference of the Birds", "Emerald Tears" e, com os Company, "Fables".
            São estes três músicos fabulosos que esta noite tecerão armas num concerto que tanto se poderá pautar pelo fascínio pela composição, fruto de um convívio longamente amadurecido, como arrancar em direcção ao desconhecido, numa viagem de risco mas com garantias de retorno. Porque em qualquer dos três, as âncoras dos respectivos navios se firmam no mais fundo da música.

ANOUAR BRAHEM, JOHN SURMAN E DAVE HOLLAND
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Hoje, às 21h30.
Bilhetes entre 1000$00 e 3500$.
PORTO Teatro Rivoli, 3ª, 28, às 21h30.
Bilhetes entre 2000$ e 3000$.

04/12/2014

Numa alcatifa voadora [Anouar Brahem, John Surman e Dave Holland]



Numa alcatifa voadora

FOI MARAVILHOSO, lindo, doce. De uma delicadeza insuperável. Uma autêntica viagem num tapete – melhor, uma alcatifa – das mil e uma noites, o concerto dado pelo trio Anouar Brahem, John Surman e Dave Holland na noite de segunda-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Três anjos acabados de sair do Paraíso, bem instalados no alto da sua virtude.
            Música ditada pelo desejo de agradar, de não ofender minimamente as regras de coisa nenhuma, de bem-aventurança. Uma visão pacifista, integracionista e new age da música. “Ali-Bá-Bá” das Doce, em registo intelectual.
            Não sabemos que mais destacar de um concerto em que nada esteve fora do lugar. Se as notas arrumadas com cuidado na pauta da Academia, se as melodias que todos podiam cantarolar com enlevo, se o atestado de bom comportamento passado a dois ingleses e um tunisino fartos da inquietação do jazz (os ingleses) e da ascese erótica da música árabe (o tunisino). Ou seria ao contrário?
            O jazz não ganhou por ter presente no palco bem iluminado e sonorizado do CCB (tudo esteve catita, nesta noite de mil e um encantamentos) dois dos seus mais antigos praticantes. Na prática ignoraram-na. A música árabe andou sempre longe das suaves dedilhações com que Anouar Brahem afagava o seu “ud”. Na prática preferiu o enfeite e a ornamentação vazia à elevação e ao derrame de sangue. Foi melhor assim (terá sido?) – não houve mortos nem feridos e toda a gente saiu feliz a voar na alcatifa voadora.
            Mas, é curioso, durante todo o tempo sentimos uma ligeira, muito ligeira, impressão de gratuitidade. Como se em vez da grande música que nos tira, a nós e aos músicos, do sítio, estivéssemos a assistir a uma pacata sessão de canasta, sem o picante do “bluff” e com as cartas marcadas.
            John Surman e Dave Holland são músicos tecnicamente impecáveis. Sobre isso na restam dúvidas. Já Anouar Brahem, comparando com o que dele se conhecia dos álbuns que gravou para a ECM, permitiu alguma desconfiança. Lembrámo-nos do concerto de Rabih Abou-Khalil, há alguns anos, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, onde a chama do “taqasim” (improvisação) brilhou a grande altura. Olhando para Brahem apenas se vislumbravam cinzas. E no lugar da luz, verniz.
            O inglês soprador dispensou o saxofone barítono (do qual é exímio executante) para se concentrar no soprano e no clarinete baixo. Acomodou-se à melodia para mandar aos amigos em postal ilustrado, arabizou-se sem fazer perigar o seu estatuto de clássico, solou com disciplina. Sem uma cotovelada, quanto mais um golpe de asa. O outro inglês, contrabaixista, ainda tentou o diálogo sem rede, procurando arrancar a música da modorra, mas sem sucesso. Quando, a meio de um solo, teve a ousadia de, por uma unha negra, se entusiasmar, erguendo os pés do solo durante três segundos e dois acordes, pareceu falta de respeito. Era proibido acordar o bebé. E o bebé não acordou, embalado por hora e meia de “muzak” que trocou a criatividade e a busca – do mal ou do bem, mas busca, do certo ou do errado, mas aventura – pela pintura de parede. Depois do concerto de Anouar Brahem, John Surman e Dave Holland as paredes do CCB ficaram, decerto, mais bonitas e macias.