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14/12/2014

Rave do inferno [Número Festival]



SEGUNDA-FEIRA, 4 DEZEMBRO 2000 cultura

To Rococo Rot e Aphex Twin “combatem” no Número Festival, em Lisboa

Rave do inferno

Concerto para recordar, o dos To Rococo Rot, o melhor de todos os do Número Festival. Animada pelo espírito dos Can e pela visão de um futuro onde a eletrónica sorri com rosto humano, a banda alemã ofuscou nos dois últimos dias do festival a “rave” assassina de Aphex Twin e a gelataria tecno de Kid606.

Trava-se uma dura batalha entre duas fações antagónicas no panorama atual da música eletrónica e o Número Festival, que durante três dias decorreu em Lisboa, demarcou os territórios, contou as armas e arregimentou apoiantes para ambas as partes.
            De um lado perfilam-se os que persistem em encarar a música ao vivo como um ato de interação afetiva entre pessoas, com músicos no palco assumindo-se como executantes em tempo real, intérpretes de um ato criativo que exige a participação ativa de todos. Do outro, a legião dos Dj’s, manipuladores de sons e conceitos alheios, estrategas de uma nova ordem unificadora de um mundo cada vez mais dependente de estímulos e imagens.
            Na sexta-feira, o trio alemão To Rococo Rot deu uma lição de como fazer o espírito dançar. Armados de eletrónica, bateria e um baixo de voz “cósmica”, Stefan Schneider e os dois irmãos Lippok criaram uma música hipnótica, feita de subtilezas e impregnada de um swing que por mais de uma vez evocou o tribalismo etéreo dos Can. Não foi necessário levantar o volume de som a níveis incomportáveis para um ouvido saudável para prender a assistência – com temas retirados do álbum “The Amateur View” como “Telema”, “Prado”, “This sandy piece”, “Tomorrow” ou “Cars” – numa rede de prazer que roçou com suavidade o “chill out”, convocou os sequenciadores cruzados no espaço sideral dos Tangerine Dream e ligou os reatores num “groove” orgânico de ritmos tão complexos e ao mesmo tempo tão em sintonia com os maquinismos internos do corpo e da mente humanos. Música, se mais adjetivos, com sabor e textura, corpo e alma, frio e calor, com energia a circular em circuito aberto.
            Antes, Russell Haswell atuou de novo na mesa de DJing a compensar a ausência do agendado Richard H. Kirk, com a organização a não dar cavaco a ninguém do sucedido. Será o seu conceito estético de “música eletrónica” de tal forma unitário e despersonalizado ao ponto de promover a manutenção de uma “vibe” constante em detrimento da individualização? Refira-se, ainda assim, o superior desempenho do DJ inglês, bastantes furos acima da sua atuação na véspera, arriscando mais na imprevisibilidade e na abstração em padrões que procuraram demarcar-se do catálogo da temporada Outono/Inverno da música de dança…
            Sábado, pela primeira vez, não choveu. E o público correspondeu, proporcionando ao Número Festival a sua maior enchente dos três dias. People Like Us, alter-ego de Vicki Bennett, uma rapariga inglesa que aprendeu a usar a eletricidade com os Negativland, deu início ao programa com uma hora de atraso. Imagens e sons sincronizados num filme psíquico a abarrotar da imagética “kitsch” dos EUA dos anos 50, ora infetado por uma visão apocalíptica ora redimido pelo humor. Nada que os Negativland não tenham feito nos últimos 20 anos, deixando a sensação algo incómoda da senhora em palco se limitar a trocar os CDs e cassetes e carregar no botão “on”…
            Kid606, jovem aprendiz autor do recente e promissor “PS I Love You” foi ao vivo mais agressivo mas também mais previsível do que no disco. Alternou momentos de (alta) tensão com batidas tecno saídas do congelador. Notou-se a ausência dos “clicks” de estática, talvez porque as máquinas não estivessem bem desreguladas…
            Depois, bem, depois foi o massacre. Aphex Twin enfiou-se na mesa dos pratos quase sem ninguém dar por isso, agachou-se para escapar aos flashes que alguns fotógrafos de ocasião não paravam de disparar estupidamente aos seus olhos e, talvez por isso, vingou-se em todos, sem dó nem piedade. Assistiu-se a cerca de duas horas de violação auditiva, com o volume de som levantado a níveis que desafiaram até ao limite da capacidade de resistência dos tímpanos, numa demonstração de virtuosismo e de fúria que apelou às pulsões mais primárias do público. Das vísceras de um ”drum ‘n’ bass” e “hip hop” abocanhados na carnificina zombie do filme “Braindead” á tecno do inferno, passando por um “boogie-woogie” a 1000bpm, Aphex Twin foi a ilustração perfeita de um tempo que se aproxima do fim. “Rave” de homens-máquina amalgamados no “Empire State Human”, o super-homem, misto de orgulho e de lixo, que os Human League profetizaram em 1979 no álbum “Reproduction”. Mas dançou-se. Entre o fumo e as gotas de vapor de suor condensado que pingavam do teto. Dançou-se. Como se a dor fosse a derradeira e única orquestra que ainda consegue arrancar os corpos da inércia e do vazio. Dançou-se. A pedir à morte para se demorar ainda um bocadinho. Dançou-se. Como se não houvesse mais nada a fazer.

19/11/2008

Aphex Twin - ... I Care Because You Do + Banco De Gaia - Last Train To Lhasa

Pop Rock

21 de Junho de 1995
álbuns poprock

Aphex Twin
… I Care because you do (7)
WARP, IMPORT. SYMBIOSE

Banco de Gaia
Last Train to Lhasa (5)
2XCD, PLANET DOG, DISTRI. POLYGRAM

O regresso em força da música electrónica nos anos 90, nas suas várias vertentes, da “ambient” ao tecno, da “new age” ao abstraccionismo, corresponde a um tipo de sensibilidade nova, formatada nos circuitos internos de um computador de modo a responder aos anseios do corpo eléctrico (e nevrótico?) do final deste milénio. O passado mais recuado – a escola planante alemã ou o “ambientalismo” de Eno, mas também o electropop primordial dos Kraftwerk – ou o mais recente – a música industrial, a “electronic body music” – foram recuperados e reciclados, deixando um certo humanismo pelo caminho. As máquinas reinam sozinhas no reino dos Aphex Twin, “alter ego” de Richard James. Ora experimentam vias de terror e hipnose, ora se interrompem em simulações contemplativas, em paisagens ambientais onde a quietude esconde outros fantasmas. Dividido em quatro “lados”, “a”, “b”, “3” e “4”, à maneira de um duplo vinilo falso, “… I Care because you do” revela pontos de partida conhecidos, como o martelo-pneumático e o terrorismo dos Throbbing Gristle, em “Ventolin”, a vertente neoclássica dos Coil, em “Icct hedral” e “Next heap with”, ou o esquematismo poético-fabril de Dieter Moebius (dos Cluster), em “Wax the nip”, embora, pela progressão inexorável e gélida dos temas e pela escolha dos timbres metalizados, recorde sobretudo os Recoil, de “1+2” e “Hidrology”.
“Last Train to Lhasa”, por contraste, é um álbum bem-comportado que não pretende mais que utilizar a “trance”, acrescentar-lhe as pastilhas “etno tecno” do costume e pôr a correr os sequenciadores e computadores de ritmo, enquanto os humanos vão beber a bica ao café do lado. A paciência já vai faltando para ouvir vozes búlgaras sampladas, mas “Last Train to Lhasa” acaba por se redimir pela via onde aparentemente estaria condenado ao fracasso total: num longo tema de 36 minutos (um preciosismo, já que estão todos ligador entre si), “Kincajou (duck! Asteroid)”, uma cópia dos Tangerine Dream escrita com “lettering” moderno que consegue de facto envolver-nos na sua trama rítmica interminável. Mas no geral apetece sair logo nas primeiras estações. Quem disse que Jean-Michel Jarre era um chato?