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21/03/2016

Nas asas do desejo [Arto Lindsay]

Y 7|JUNHO|2002
arto lindsay|música

É o americano mais brasileiro do planeta. E mais português também. Admirador de Pessoa, é um cantor suave de bossa-nova e outras sensualidades sonoras, feitas de experimentação e intuição. “Invoke” invoca a carne, a luz e a saudade. Arto vai estar em Coimbra no domingo.

arto lindsay
nas asas do desejo

É diferente, a música de Arto Lindsay, guitarrista com currículo feito nos Lounge Lizards e em quase tudo o que nasceu em Nova Iorque sob a égide “downtown”, mas que, a cada novo álbum editado a solo, tem vindo a despir a pele do conceptualista intelectual para se abandonar ao balanço das vagas da bossa-nova e de uma estranha mistura de doçura acre e delicada sensualidade.
            Arto é hoje tão nova-iorquino como brasileiro e português. Produziu álbuns de Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Gal Costa e Marisa Monte. É admirador de Tom Zé, dos Mestre Ambrósio e do movimento Tropicália, conhecendo a fundo a MPB (Música Popular Brasileira). Portugal também já o conhece, da direção artística do festival “Mergulho no Futuro”, que antecedeu a Expo’98. O regresso está marcado para domingo, dia 9, às 22h, em Coimbra, no Festival 10 de Junho.
            “Invoke” sucede na sua discografia a solo a “Prize”, editado há 3 anos, e nele os ritmos brasileiros, a bossa-nova (é difícil não descortinar, na sua forma frágil mas luminosa de cantar, a presença tutelar de Tom Jobim e João Gilberto…) fundem-se com o groove e a eletrónica em aguarelas impressionistas.
            Entre os convidados contam-se, do lado brasileiro, o guitarrista, cantor e seu amigo de longa data Vinicius Cantuária e elementos do grupo Nação Zumbi, enquanto do lado americano a ficha técnica regista os nomes de Peter Scherer, a banda de Baltimore, Avey Tare and Panda Bear (na orgia de ruídos e “loops” de “In the city that reads”, o tema mais desestabilizador de “Invoke”…), e, na produção, Melvin Gibbs, dos Rollins Band. Presença importante em “Invoke” é, ainda, a do clarinetista e teclista Stephen Barber, também responsável por uma parte dos arranjos.

            intriga. Mas é Arto Lindsay, figura e voz franzinas capazes, no entanto, de infiltrar a música com subtis emanações do mesmo tipo de energia que alimentava as “sex machines” de James Brown e Marvin Gaye, que faz de “Invoke” um álbum com tanto de intrigante como de intriga. Talvez a explicação resida no facto de grande parte das vocalizações terem sido gravadas pelo cantor “fechado dentro de um armário”, em sua casa, como confessou ao Y. Intrigante começa por ser a frase que se destaca em letras capitais na capa: “I’m a man”. Mas aqui, o músico explica não se tratar de qualquer manifestação de machismo encapotado, mas de “um slogan do movimento negro contra a segregação”.
            Arto Lindsay não tem, aliás, a melhor das impressões do seu país, um “país que, depois das últimas eleições, ficou dividido ao meio, onde se fala muito de liberdade mas depois não se age em conformidade”. Há uma raiva latente – “Invoke” é uma canção sobre o desespero, diz – que Arto já tentara exorcizar no final dos anos 70 quando, em Nova Iorque, integrou o movimento “no wave”, variante mais intelectualizada mas não menos explosiva do punk, enquanto elemento dos DNA. Mas mesmo aí a sua costela lusíada já se manifestara. “Nos DNA fiz uma letra em português a partir das primeiras frases de alguns poemas de Fernando Pessoa que depois remodelei. Gostava muito de uma frase que ficou assim, ‘aos deuses peço só meu gesto que destrói’. Costumava gritá-la de uma forma bem punk nos concertos (risos). Só tinha americano ouvindo, sem entender nada, e eu ali, sebastianista! (risos)”. Radicalismo e experimentação que este insuspeito profeta do Quinto Império não abandonou por completo: “De vez em quando ainda improviso tocando com o John Zorn, Ikue Mori ou Jim O’Rourke. E no próximo álbum, que será muito mais eletrónico, tenciono usar um ‘laptop’”.

            luz. “Sebastianista” é o adjetivo que menos se esperaria ouvir da boca de um cidadão americano. Mas Arto, nunca é demais repeti-lo, confunde as expetativas e ilude os lugares-comuns. Depois dos EUA e do Brasil, Portugal é a sua terceira pátria. Arto conhece bem a luz de Lisboa. Uma luz que, se analisarmos com atenção, brilha em “Invoke”. Um dos temas do álbum, “Uma”, inspirou-se numa canção dos Ambitious Lovers (outro dos grupos que integrou), “More light”, que por sua vez se baseou nos últimos momentos de vida de Goethe, que “supostamente, na hora da morte, terá exclamado: ‘mais luz, mais luz’. Ninguém percebeu se ele queria mais luz ou se estava a ver mais luz”.
            Da luz de Lisboa reteve o músico nova-iorquino outra nuance, nas sombras de um alfarrabista, “quando andava a passear pela parte alta” da cidade. “Entrei numa loja de antiguidades, na companhia de um amigo americano, à procura de exemplares originais da revista Orfeu. O cara da loja apresentou um par de óculos, garantindo serem os óculos do Fernando Pessoa. Claro que não comprámos nada!” (risos).
            Óculos e visão. Carne e espiritualidade. “Invoke” informa esta dicotomia, sintetizando-a em momentos de eternidade nos quais está presente “uma tristeza, uma saudade sensual que resulta da relação com uma força maior”.
            “O materialismo tem, por outro lado”, diz, “um aspeto luminoso que leva a outro tipo de pensamentos, a uma exibição da liberdade. Na música popular dos EUA, existe uma ligação entre gospel e a música profana em Marvin Gaye, Prince, Al Green… Eu sempre tive um certo receio, a minha formação não é religiosa. Embora o meu pai fosse missionário, rejeitei desde muito cedo a religião”. Apesar disso, confessa que “Invoke”, a canção, “também remete para os rituais do candomblé”.
            Portugal e o Brasil voltam a atravessar-se no seu discurso, ainda para falar do espírito e da carne, mas também da linguagem e da incapacidade que sente em explicar as razões que o levam umas vezes a escrever em inglês e outras em português. “A Bíblia formalizou, de alguma forma, a língua inglesa moderna, através da chamada ‘King James version of the bible’, tradução comentada por um monarca do século XV, da mesma forma que Camões enformou o português. Quando me meto a escrever, muitas vezes essas imagens aparecem. Escrever em português é uma dificuldade que encaro como um desafio”.
            Dessa vivencia dupla da língua nasceu a inovação, que chama o desespero, a magia, as sombras e a luz nos sons de uma bossa-nova “tão triste como o fado”, nascidos da absoluta assimilação da cultura luso-brasileira. “A sensualidade ligada à espiritualidade é um fenómeno brasileiro mas também muito ibérico. Portugal e Espanha têm uma forma de cristianismo muito particular, influenciada pelos romanos, é uma vivência extrema”.
            “Invoke” – que é também o exercício industrial do tema “In the city that reads”, evocativo das descargas de uns This Heat (grupo que Arto conhece bem) – termina, porém, da forma mais leve, mas também mais ambígua, com “O beijo”, “uma música muito antiga, com uma letra cheia de delicadeza. A delicadeza que encontro no Brasil, algo que as canções americanas não têm – quando falam de sexualidade são em geral mais descaradas”.
            Que é, finalmente, “Invoke”? Invocação de anjos ou de demónios? Arto Lindsay propõe um “claroescuro”, “sem auto-censura”, na tentativa de explicar essa oscilação de estados de espírito que é a mesma das ondas do mar. Ou será um “Pretty ugly”, título do álbum que Arto gravou de parceria co Peter Scherer, para a Made to Measure, em 1990? “É uma variação de um título de Thelonious Monk, ‘Ugly beauty’. ‘Pretty’ quer dizer não só ‘bonito’, como ‘bastante’”…

            Frank Zappa perguntou uma vez numa das suas canções: “What’s the ugliest part of your body” (“qual é a parte mais feia do teu corpo?”). Depois de passar em revista a anatomia humana, a resposta veio, mortífera: “I know it’s your mind” (“sei que é a tua mente”). Arto ri-se: “Não sei se a perversidade é a parte mais feia do ser humano… Acho que é a violência, mas mesmo este termo é ambíguo, a violência é necessária, tem a ver com a vontade, ‘the will’. O diabo, se existe, está dentro da cabeça”.

15/03/2011

Arto Lindsay - Prize

5 de Novembro 1999 DISCOS - POP ROCK

Prémio de consolação

Arto Lindsay Prize (6) Rykodisc, distri. MVM Dá ideia de Arto Lindsay ser, digamos, um TS compulsivo. Já no ano passado, durante a conferência de imprensa de apresentação do festival Mergulho no Futuro, o antigo músico dos Lounge Lizards enviava todas as temáticas abordadas para o ficheiro “sexo”. Agora, no seu quarto álbum inspirado na música brasileira, ilustrou o livrete com uma panóplia de figuras que tanto sugerem próteses ortopédicas como artigos de “sex shop”, esculturas de cristal ou objectos dada. Será, talvez, por “Prize” ter sido composto no Brasil durante o Carnaval… Cansado dos excessos cometidos na juventude, quando militava nas fileiras da “no wave”, mais tarde do jazz downtown e do swing “sujo” dos Lounge Lizards, Arto iniciou com “O Corpo Sutil” uma série de trabalhos em que procurou definir os contornos de uma nova música resultante da fusão da sensualidade, por vezes onanista, da bossa nova com o experimentalismo sonoro e a incorporação das novas correntes de dança como o hip hop ou o drum ‘n’ bass, a par do exotismo conferido por vocalizações em português. Composto na Baía durante o período de Carnaval e gravado em Nova Iorque com a participação de alguns dos seus habituais convidados (Vinicius Cantuária, Melvin Gibbs, Peter Scherer, Brian Eno…) e, desta feita, também com o violinista Eyvind Kang e o “rapper” Beans (dos Anti-Pop Consortium), “Prize” corresponde ao desejo de Arto de fazer um álbum mais duro que os anteriores “O Corpo Sutil”, “Mundo Civilizado” e “Noon Chill”. Com efeito, se temas como “Prefeelings” (insuflados com as vozes do “homem do elevador”, de Heiner Goebbels, um álbum que, cada vez mais, parece “indescartável” de Arto Lindsay…) e “Unsure” (drum ‘n’ bass escorreito) correspondem de facto a esse endurecimento de som, a maioria, porém, desenvolve, sem lhes acrescentar algo de verdadeiramente novo, as premissas anunciadas antes, com a habitual tónica na bossa nova e, neste caso, atendendo à especificidade do local e das condições em que foi composto, também no samba. Arto tornou-se, sem dúvida, um símbolo de uma certa modernidade – num registo semelhante ao de Ryuichi Sakamoto – que privilegia o estilo e cultiva a distância e a ironia, mas não consegue evitar a sensação de uma superficialidade que, aliás, é cultivada. “Prize” seduz numa primeira audição, mas nem a complexidade instrumental nem o rigor de produção conseguem disfarçar a evidente falta de ideias quando Arto se propõe ilustrar em português as suas concepções pessoais sobre a bossa nova. Aspecto em que fica a milhas de distância de qualquer dos trabalhos editados, quase em paralelo com os seus, por Vinicius Cantuária. Formalmente interessante, pejado de artimanhas e “puzzles” electrónicos, “Prize”, fazendo embora jus ao Carnaval que tenta evocar, acaba, no entanto, por se iluminar naquele que é, de longe, o tema de maior fulgor do disco: “O nome dela”, pronunciado com o mesmo balanço nordestino e a simplicidade do melhor David Byrne.

23/10/2009

Arto Lindsay - Noon Chill

Sons

22 de Maio 1998
DISCOS - POP ROCK

Arto Lindsay
Noon Chill (7)

2xCD For Life/Ryko, distri. MVM

Mais ainda do que em “O Corpo Sutil” e “Mundo Civilizado”, “Noon Chill” não é um álbum construído sobre a bossa-nova, mas antes em torno da bossa-nova. Não se trata então de trabalhar por dentro este género musical com origem no Rio de Janeiro, mas sim de moldar a sua essência, a sua cor espiritual, também a sua doçura, a um olhar e a uma estética que – pese embora toda a paixão e relação de Arto Lindsay com o Brasil – pertencem a um nova-iorquino. “Abstract hip-hop” e “tropically altered grooves” são duas expressões já usadas para definir esta música de subtis modulações rítmicas e harmónicas, adaptáveis respectivamente a temas como “Blue eye shadow” ou “Anything”, puro “drum ‘n’ bass”. O aparente desequilíbrio, que na bossa se faz sentir na dialéctica entre o estado de tristeza do indivíduo e a beleza soalheira da paisagem exterior, transfere-o Arto Lindsay para a relação entre a simplicidade da melodia principal e a complexidade dos arranjos. Cada canção de “Noon Chill”, se despida de todos os adornos instrumentais, reduz-se a um fio (também o fio de voz de Lindsay), por detrás do qual pulsa uma floresta de entidades vivas. Um esquema não afastado de todo do utilizado pelos Smoke City, com a diferença de que o que nestes se reduz a uma frivolidade ambiental e à presença carismática da voz de Nina Miranda, em Arto Lindsay esconde-se em múltiplos níveis de percepção sonora. Escute-se um tema como “Anything” para se perceber as semelhanças e diferenças. O segundo CD, intitulado “Reentry”, reúne cinco temas anteriormente compilados num EP de edição japonesa, quatro dos quais com novas remisturas, incluindo um exercício de “noise” (“Channel 17”) que refaz o universo de obscuridade criado por Arto em dueto com Peter Scherer, em “Pretty Ugly”.

05/02/2009

Arto Lindsay - Mundo Civilizado

Sons

13 de Junho 1997
POP ROCK

Arto Lindsay
Mundo Civilizado (7)
Rykodisc, distri. MVM

Olha que coisa mais linda... Arto Lindsay que o diga, cada vez mais embrenhado que está na música brasileira em geral e na bossa-nova em particular. “Mundo Civilizado” é a continuação de um trabalho iniciado o ano passado com “O Corpo Sutil”. Sempre bem acompanhado, registem-se as participações, no novo álbum, de Roy Nathanson, dos Jazz Passengers, Don Byron, Melvin Gibbs (Rollins Band), Bernie Worrell, Peter Scherer e, claro, o indispensável Vinicius Cantuária, a sua guitarra e as suas composições.Mas a principal inovação resulta da contribuição do convidado DJ Spooky, cujo trabalho de colagem e montagem de “texturas” (ambientes, manipulação de pratos de gira-discos), num papel equivalente ao desempenhado por Brian Eno, em “O Corpo Sutil”. Mais cheio de carnes que o seu antecessor e lançando piscadelas de olho ao “trip-hop”. “Mundo Civilizado” vale sobretudo pela criatividade dos arranjos, em composições da autoria de Lindsay, partilhadas com Vinicius Cantuária, Marisa Monte (“Mundo civilizado”), Caetano Veloso (“Titled”) e Amadeo Pace (“Imbassai”) ou nas versões de “Simply beautiful”, de Al Green, e “Erotic city”, de Prince. Mantêm-se as vocalizações frágeis que evocam as imagens poéticas da bossa-nova e um surrealismo transversal. De um bom gosto intocável, faltará a este fascínio de Arto Lindsay pelo Brasil o golpe de asa que faça transbordar o Rio. Em paralelo com “Mundo Civilizado” vai ser editada pela Gramavision a versão de remisturas deste disco, “Hyper Civilizado”, por DJ Spooky e DJ Olive, entre outros. Talvez aí, a aventura...

09/12/2008

"A bossa nova tem elementos vanguardistas" [Arto Lindsay]

Pop Rock

29 Janeiro 1997

“A BOSSA NOVA TEM ELEMENTOS VANGUARDISTAS”

Em o “O Corpo Sutil”, Arto Lindsay canta toda a tristeza que pode ter a bossa nova. Uma música que “deixa o dito por não dito”, na qual encontra “elementos de vanguardismo”. Nutre uma admiração imensa por João Gilberto, “o maior cantor do universo”. Longe vão os tempos com os DNA, quando lia Fernando Pessoa, no meio de uma “barulheira danada”.


Arto Lindsay, conhecido como uma figura de proa da “downtown” nova-iorquina, viveu quinze anos no Brasil. As sementes brasileiras ficaram, percorrendo a sua música desde o início, com os DNA, até ao seu mais recente álbum a solo, “O Corpo Sutil”, uma viagem em redor da bossa nova. O PÚBLICO conversou com ele. Em português.
PÚBLICO – Quantos anos viveu no Brasil e onde?
ARTO LINDSAY – Quinze anos, dos três aos dezoito. Vivi no Nordeste do Brasil, no interior, em Pernambuco, numa cidade chamada Garanhões. Mas viajava bastante pelo resto do país, com a minha família.
P. – Quando ouviu pela primeira vez bossa nova?
R. – Foi na rádio, quando a bossa nova começou. Tornou-se na música brasileira nacional. Sem dúvida, é uma música carioca mas também tem elementos do baião. Um exemplo é a batida de violão do próprio João Gilberto.
P. – Alem da bossa nova, ouve a música do Nordeste do Brasil?
R. – Com certeza! A música nordestina está sendo uma grande influência em toda a música jovem do resto do Brasil. Há actualmente músicos nordestinos geniais. Aliás, a melhor banda brasileira, hoje em dia, é pernambucana, Chico Science & A Nação Zumbi. Outra grande banda é a de Carlinhos Brown.
P. – Houve uma época em que todo o artista brasileiro fazia questão de gravar nos Estados Unidos. Falava-se, então, muito, em descaracterização. Concorda?
R. – No passado, isso ocorreu, de facto, nem sempre por culpa dos músicos, mas sim das editoras, que queriam encaixar os músicos num padrão americano. Não funcionou.
P. – A influência da bossa nova parece ter-se eclipsado no início da sua carreira, quando, no final dos anos 70, formou a banda de “noise rock” DNA. Ou não?
R. – Repare, o Brasil tem uma tradição muito forte de música de vanguarda. A própria bossa nova tem elementos vanguardistas, é muito conceptual. E a música do Tropicalismo foi a mais abrangente, no sentido intelectual do termo, dos anos 70. Havia, embora de maneira não óbvia, elementos de música brasileira nos próprios DNA. E tínhamos uma música cuja letra consistia em primeiras frases de vários poemas de Fernando Pessoa, que eu gritava no meio de uma barulheira danada!...
P. – Seguiram-se os Lounge Lizards. No disco de estreia, a sua guitarra era parte determinante do som do grupo. Depois, o saxofone de John Lurie passou a ocupar quase todo o espaço. Teve desinteligências com ele?
R. – Quando a gente começou, éramos, de facto, uma banda. Mas depois chegou uma época em que virou John Lurie e os Lounge Lizards, na qual não quis participar. Mas John Lurie continua sendo muito amigo meu. Ainda há dias falámos horas ao telefone.
P. – Um álbum em que as baladas cantadas, por si, em português, parecem algo deslocadas é “The Man in the Elevator”, de Heiner Goebbels…
R. – Exactamente por serem deslocadas é que elas surgem. Uma das escolhas foi do próprio Heiner, o tema da baiana. A outra música, do Cartola, fui eu que escolhi. O Heiner pretendeu colocar no meio daquela atmosfera, meio industrial, fria e triste, alguns momentos quase de sonho.
P. – Volta a cantar em português num disco pouco falado, “Comme des Garçons”, de Seigen Ono, em dois volumes repletos de estrelas da “downtown” e músicos brasileiros…
R. – É verdade. Foi uma das primeiras coisas que fiz como produtor, fiz a produção associada de algumas faixas. Por acaso, estou a trabalhar de novo com Seigen Ono, neste momento, na produção de um disco de um violinista japonês. O Seigen é o engenheiro de som.
P. – É verdade que foi Ryuichi Sakamoto a sugerir-lhe gravar um disco em torno da música brasileira, que viria a resultar em “O Corpo Sutil”?
R. – É verdade, sim. Ele gosta imenso de bossa nova e de coisas minhas que já conhecia, nesta área, coisas bem calmas. Pediu-me para fazer um disco de bossa nova. Eu concordei em fazer, pelo menos, um disco quieto.
P. – Um dos convidados mais assíduos no alinhamento do disco é Vinicius Cantuária…
R. – Foi uma escolha natural. A única pessoa que fui buscar a outro lado foi o Bill Frisell. O Vinicius veio morar em Nova Iorque; por isso, foi fácil. O Brian Eno também estava na altura da gravação a trabalhar em Nova Iorque, com David Bowie. Sakamoto também vive em Nova Iorque. Estava todo o mundo aqui.
P. – Por falar em Brian Eno, é uma das escolhas mais curiosas para o “line up”.
R. – Ele costumava vir ao estúdio onde estávamos, todos os dias, depois de trabalhar com o David Bowie, só para conversar. Em geral, finalizadas as sessões, saíamos os dois para jantar. Passou-se uma semana assim. No último dia, perguntei-lhe se não queria gravar um pouquinho. Nem tinha pensado nisso antes. Mas acho que combinou bem com a ideia do disco.
P. – O único tema de algum dos pais da bossa nova é “Este seu olhar”, de António Carlos Jobim. Por que razão escolheu este tema em particular?
R. – Foi composto e escrito por ele. É um tema sucinto, uma das qualidades que aprecio na bossa nova. Fazer uma música toda em cima de uma só percepção, de uma única ideia.
P. – “O Corpo Sutil” não é um álbum de bossa nova mas sim sobre a essência da bossa nova, não é?
R. – É por aí, sim. Já tentei várias vezes definir que essência é essa… Tem a ver com a tal batida de violão do João Gilberto. Tem a ver com o deixar o dito por não dito… tem a ver com uma relação da intimidade com uma emoção maior, pública mesmo, uma dialéctica entre dois sentimentos. Há alguém que se senta sozinho a tocar um violão. Mas o violão de João Gilberto sugere legiões de percussionistas, escolas de samba, está tudo implícito.
P. – É conhecido como guitarrista mas, neste álbum, quase só canta. Sentiu que não era capaz de adaptar o seu estilo de guitarra, eléctrico e fragmentado, ao ambiente da bossa nova?
R. – Só toco mesmo nesse estilo! Não sei tocar violão, um acorde sequer. Sou um instrumentista diferente. Ao vivo, já tenho misturado as duas coisas, mas neste disco foi diferente.
P. – A sua voz tem a mesma suavidade e fluidez de Tom Jobim ou de João Gilberto…
R. – Em termos técnicos, pode haver algumas semelhanças com Tom Jobim, sim. Digamos que vou aprendendo a cantar enquanto canto. Já João Gilberto tem uma técnica incrível. É o maior cantor do mundo!
P. – “Anima animale” é um dos temas mais estranhos do disco. No final canta “It’s no fun unless it bleeds” (“não tem piada se não sangrar”).
R. – O refrão fala da confiança animal, como se diz em inglês, “animal confidence”. “Anima animale” quer dizer, “animal soul”. É uma mistura engraçada entre estas duas ideias. Foi um amigo meu italiano que um dia me chamou de “Anima animale”. A letra trata de vários encontros da “anima”, alma, com o animal. Também se pode ler como sexo adulto. Ou a histeria da criança. Gosto imenso de crianças, embora não seja casado nem tenha filhos. Além de que podem ser muito úteis como metáforas.
P. – O que é o “Corpo Sutil”? O corpo astral?
R. – No ideário yogi (embora seja um conceito budista e também hindu), acredita-se na existência de três corpos. O corpo físico, corpo subtil, que é o corpo nervoso, e o corpo ultra-subtil, o espírito. O corpo subtil está no meio, é uma espécie de purgatório.
P. – Interessa-se por esse tipo de assuntos, pelo candomblé, por exemplo?
R. – O candomblé é muito interessante para mim. É uma religião que, embora linda, é muito prática. Com um reportório cultural incrível. E, no seu íntimo, há algo de moderníssimo. Uma grande parte da música brasileira vem do candomblé.

03/05/2008

Arto Lindsay - O Corpo Sutil

Pop Rock

20 de Novembro de 1996
poprock

Arto Lindsay
O Corpo Sutil
GRAMAVISION, DISTRI. MVM

Sendo previsível, não deixa de constituir uma surpresa, pela radicalidade do projecto, mais esta incursão de Arto Lindsay na bossa-nova. Previsível porque, ao longo da sua discografia recente – desde os Ambitious Lovers às colaborações com Seigen Ono, em “Comme des garçons”, ou com Heiner Goebbels, em “Man in the Elevator” –, sempre o guitarrista encontrou espaço para manifestar o seu gosto pela música brasileira e pela língua portuguesa, que lhe ficou de uma adolescência vivida no Brasil. Surpresa, porque “O Corpo Sutil” (ou “The Subtle Body”, no segundo título, em inglês) é um álbum inteiro dedicado à bossa-nova, desdenhando por completo o lado eléctrico do músico, presente no seu trabalho com os DNA (pioneiro, juntamente com os Mars e James White/Chance, do “punk” norte-americano), os Lounge Lizards, Golden Palominos ou as colaborações com Peter Scherer e John Zorn. A ideia do projecto partiu de Ryuichi Sakamoto (um dos participantes no álbum), que convidou Lindsay a gravar um álbum só de bossa-nova para a sua editora Gut. Daí nasceu “O Corpo Sutil”, uma obra intimista, com as cores de um pôr-do-sol triste, onde a essência da bossa-nova é levada ao colo como um bebé pelos “monstros” da “downtown” como Melvins Gibbs, Marc Ribot, Bill Frisell e Joey Baron. Brian Eno e os brasileiros Naná Vasconcelos, Vinicius Cantuária, Cyro Baptista são outros dos convidados desta incursão no lado azul do Brasil. Um álbum próximo e distante de nós, de palavras sussurradas, de ecos e vibrações acústicas, onde Arto Lindsay expõe o corpo subtil (astral) da sua música. Uma ilusão? “Mas a ilusão, quando se desfaz, dói no coração de quem sonhou longe de mais”, canta Arto Lindsay em “Este seu olhar”, de António Carlos Jobim. (7)