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14/08/2016

15 canções para uma viagem por cima das nuvens [K7 Pirata]

BLITZ
K7 PIRATA

“15 Canções Para Uma Viagem Por Cima das Nuvens” é o sugestivo título que Fernando Magalhães, 38 anos, jornalista do “Público”, escolheu para a K7 pirata que idealizou para a DONA ROSA.
Especialista na música étnica ou “world music” Fernando Magalhães não omitiu porém outras coisas mais terra-a-terra na sua compilação.
Vejamos:
- Only You - Platters
- What a Wonderful World - Louis Armstrong
- Eleanor Rugby - Beatles
- Good Vibrations – Beach Boys
- Perfect Day - Lou Reed
- The Sea - John and Beverly Martyn
- In Every Dream Home, A Heartache - Roxy Music
- These Foolish Things - Bryan Ferry
- Refugees - Van der Graaf Generator
- May I - Kevin Ayers
- Sea Long - Robert Wyatt
- Whispering Grass - Sandy Denny
- Too Much - Mathilde Santing
- Le Lunex - Malicorne
- Re Gilardin - La Ciapa Rusa


29/10/2008

Kraftwerk - O admirável mundo novo

BLITZ

3.4.90

KRAFTWERK

«I Sing the Body Electric»
Ray Bradbury

Bip Bip Bip. Boing Boom Tschak. A beleza da música dos alemães Kraftwerk é a beleza da electricidade em estado puro. A harmonia da informação circulando livremente através dos chips de circuitos integrados. O classicismo digitalizado. A herança elegante de uma Europa crepuscular rendida à imagem requintada da despersonalização e da indiferença. Ralf Hutter, Florian Schneider, Wolfgang Flur e Klaus Roeder são as quatro máscaras humanas para um rosto que deixou de o ser. Manequins de gesto suspenso sobre a imobilidade gelada do Tempo aprisionado. Save. Enter. Return.

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

É costume considerar os Kraftwerk como os precursores de quase todas as principais inovações relativas às técnicas de estúdio. O «Disco Sound» ou o «Rap» proclamam-se devedores das manipulações sonoras levadas a cabo pelos quatro homens de Dusseldorf. Estes não confirmam nem desmentem, limitando-se a gravar discos, sem fazer grandes ondas e alargando com cada um deles as fronteiras do que se convencionou na generalidade designar por «música electrónica».
Hutter e Schneider, os fundadores da banda, encontraram-se em 1970 no Conservatório de Música de Dusseldorf, uma das cidades mais industrializadas da Alemanha, e formaram os Organisation. Sob esta designação foi editado o álbum «Tone Float», gravado e produzido por Conny Plank numa refinaria de petróleo da cidade. No mesmo ano nascem os Kraftwerk que gravam no ano seguinte o álbum estreia «High Rail», com o selo Philips. No ano seguinte a Vertigo reúne estes dois discos num duplo intitulado simplesmente «Kraftwerk», infelizmente há já alguns anos fora do mercado. Na sua fase inicial a música do grupo conciliava as explosões de metal, o minimalismo e a música concreta com um lirismo exacerbado tão caro ao Romantismo alemão. Grupos como os Einstuerzende Neubauten, Test Dept., ou os primeiros SPK decerto que ouviram e aprenderam muito com este disco seminal.
O álbum seguinte, «Ralf and Florian», de 73, prossegue a mesma via, com temas fabulosos como «Eletrisches Roulette», à beira da esquizofrenia, a dança metálica de «Tanzmusik» e os catorze minutos planantes, cristalinos e tropicais de «Ananas Symphonie».
Em 74 os Kraftwerk passam a quarteto, com a inclusão de Klaus Roeder e Wolfgang Flur, respectivamente no violino e guitarra e nas percussões electrónicas. É com esta formação que gravam, no mesmo ano, a obra-prima «Autobahn», um dos melhores discos de sempre de música electrónica. O primeiro lado é ocupado na totalidade pela faixa do mesmo nome, uma «trip» psicadélica-automobilística, só ao alcance das auto-estradas e das cabeças teutónicas. Sem despistes e com as mudanças engatadas sempre na altura exacta. Nunca os sintetizadores, «Vocoders« e «sequencers» tinham andado a tanta velocidade. O Futuro tinha começado. Do outro lado do disco o fogo-de-artifício sonoro em duas deslumbrantes versões de «Kometenmelodie». Surpreendentemente as rádios americanas e inglesa tocam uma versão mais curta de «Autobahn». O single e o álbum alcançam todos os Tops abrindo caminho para a vaga do «Eurodisco», com Giorgio Moroder à frente. «I Feel Love» é a voz de Donna Summer sobre um plágio grotestco dos ritmos robóticos dos alemães. Curiosamente este tema tem sido «samplado» pelas novas bandas até à exaustão. O Tempo é cada vez mais uma ilusão.
Em Outubro de 75 Karl Bartos (percussão electrónica) substitui Roeder, ficando assim constituída a formação que até à data se mantém inalterável. No mesmo mês os Kraftwerk abandonam a Philips/Vertigo e formam a sua própria editora a Kling Klang, distribuída pela EMI. Ainda em 75 é publicado o LP «Rádio Aktivitaet», versão original alemã de «Radio Activity» que sai em Inglaterra no ano seguinte. «Radio Activity» é o álbum mais fraco da banda, versão turístico-infantil da estética futurista. A simplicidade de meios, propositada ou não, e letras pueris à beira do imbecil tornam a audição do disco apenas divertida. Destaque mesmo assim para o título-tema «Radio Activity» e «Airwaves», dançáveis e irremediavelmente coláveis aos ouvidos.
1977 é o ano de «Trans Europe Express», dos manequins-réplicas em palco e do retorno à boa forma. «Trans Europe Express», «Metal on Metal» ou «Franz Schubert», metálicos, gelados e repetitivos são paradigmáticos e proféticos da «Cold Wave» que se avizinhava. Mais uma vez os Kraftwerk ditavam as leis, escrupulosamente seguidas pelas gerações futuras.
«The Man Machine» aparece no ano seguinte levando ás últimas consequências todas as anteriores premissas estéticas e ideológicas do grupo. O factor humano cede definitivamente ao factor máquina. O álbum abre com «The Robots» e fecha com «The Man Machine». «Spacelab», «Metropolis», e «Neon Lights» são imagens de um filme fantasmático sobre cidades percorridas por sonâmbulos, ecos de «slogans» cibernéticos e neons deslumbrantes. O filme pára. A realidade é eléctrica. A luz torna-se branca. E fria.
«Computer World», de 81, é mais humano ou talvez não consoante a perspectiva. Em «Pocket Calculator» os Kraftwerk utilizam o som de uma calculadora electrónica de bolso. «Numbers» é a Torre de Babel do Novo Mundo reduzido a acções de compra e venda, números e mais números soletrados em diversas línguas sobre um ritmo implacável de máquinas em sintonia. A realidade é matemática, rigorosa, previsível e programável. «Computer Love», bits em forma de coração, «I-L-O-V-E-Y-O-U» repete a voz sintetizada enquanto a mensagem vai piscando no monitor. «Home Computer», «It’s More Fun to Compute» e as máquinas continuam a dançar.
«Tour de France», como o nome indica, é dedicado à célebre prova velocipédica e aparece no filme «Breakdance» (!).
Finalmente, em 86, a EMI edita «Electric Cafe». Os Kraftwerk atingem com este disco o ponto de plenitude em que a superficialidade e o desprendimento se confundem com o sublime. O humor surge radioso no fim e do alto da tragédia há sempre um sorriso irónico e distante. «Techno Pop» é o estado actual da música Pop massificada, reduzida a sons empacotados e prontos a vender em supermercados. «The Telephone Call», a conversa telefónica unilateral com uma gravação que insiste em dizer que aquele número foi definitivamente desligado. «Sex Object», de novo os bonecos-fétiche de carne e osso. Palavras vazias, repetidas, destroçadas. Séc. XX ou XXI, já nada faz sentido ou tudo faz simultaneamente todos os sentidos. Todas as coisas, todos os sons, Electricidade, «Electric Cafe», sintético, sonoro, nuclear, infinito, finito, circular, sintético, sonoro, «Musique Non Stop» - «Techno Pop».

No Secrets In The Family - Play And Strange Laughter

BLITZ

6.3.90
ESCAPARATE

NO SECRETS IN THE FAMILY

«PLAY AND STRANGE LAUGHTER»


Raros são os discos da Recommended Records que não alcançam a classificação de pelo menos «Muito Bom». A explicação para tal facto é simples: os critérios prevalecentes na estratégia editorial (desde a feitura da capa até aos últimos retoques de produção) regem-se exclusivamente pela qualidade e originalidade genuínas, ou seja, não há cedências de qualquer espécie. Parece fácil? Até é. Quando os objectivos não se resumem à obtenção de lucros a todo o custo.
A Rec Rec é uma editora suíça, subsidiária da sua congénere britânica e cuja totalidade do catálogo não foge à regra, isto é, vale a pena comprar todos os seus discos. Nomes importantes não faltam: os britânicos Camberwell Now (de Charles Hayward) e Skeleton Crew (de Fred Frith e Chris Cutler); o próprio Frith a solo, os franceses Etron Fou Leloublan (mais álbuns a solo dos seus membros Ferdinand Richard e Guigou Chenevier) e Nimal, os suíços Débile Menthol, os americanos Orthotonics, Negativland e Red Crayola ou os nipónicos After Dinner (cujo último álbum, aqui criticado, é de 89 e não 84, como por gralha saiu publicado), incluem-se no catálogo de luxo da editora.
Os alemães, ou suíços, ou austríacos No Secrets in the Family fazem parte da última fornada, juntamente com o mais recente dos germano-suíços Unknownmix («Whaba»), o já citado dos After Dinner («Paradise of Replica») e a estreia dos No Safety («This lost leg», com Zeena Parkins e Pippin Barnett).
Com os No Secrets salta imediatamente à vista (ou ao ouvido) aquilo que constitui regra de ouro em todos os «produtos» Recommended: a excelência técnica de todos os músicos envolvidos. Claro que não basta, mas também (regra n.º 2) só grava na casa quem, para além de saber tocar impecavelmente, seja ainda melhor compositor e arranjador e consiga ainda por cima ser original. É o caso destes No Secrets in the Family, liderados pela família Schonholzer: Annette (voz, sintetizador, órgão de pedais e melódica) e Markus (voz, guitarra e melódica). Os dois restantes membros são Daniel Meienberger (baixo, ukelele e voz) e Martin Gantenbein (bateria, flautas, saxofone, acordeão e voz).
Presentes ainda alguns convidados em violino, violoncelo, fagote, tuba e oboé.
Um dos trunfos da banda é possuir nas suas fileiras duas excelentes vozes, as de Annette e Markus, filiados nas escolas de Dagmar Krause e David Thomas (o gordo), respectivamente. Um dos outros vocalistas lembra outro excêntrico: David Garland (de «Control Songs» e «Worlds of Love»).
Mas é ao nível das composições que levantam voo: canções simultaneamente complexas e acessíveis, arranjadas com um bom-gosto inexcedível. Ao todo são dez, incluindo uma versão surrealista de «Que Sera Sera» e uma letra inspirada num texto de Chesterton («The Ballad of Suicide»).
«Play and Strange Laughter» é um disco a não perder. Quando por esse mundo fora se vão publicando dezenas de óptimos discos como este, porquê perder ainda tempo com o lixo que, metodicamente e com a cumplicidade dos «media», vai saturando e envenenando o mercado?
O rótulo «Música alternativa» serve, neste como noutros casos, para lembrar que vale a pena fazer desvios e arriscar no menos óbvio.
O portal Rec Rec é uma das entradas possíveis no imenso e luxuoso palácio da Recommended. Franqueá-lo é ter acesso ao paraíso.
(LP Rec Rec, Import. Contraverso, 89)

A Leste tudo de novo

BLITZ

6.3.90
VALORES SELADOS

A LESTE TUDO DE NOVO

Não há dúvida que novos ventos sopram do Leste. De feição, no caso da música. Novos sons vão invadindo o Ocidente, susceptíveis de injectar sangue novo no panorama das músicas alternativas independentes europeias. Os apaixonados pelos sons originais das «Outras esferas» já não tinham mãos e ouvidos a medir, perdidos no meio das dezenas e dezenas de bons discos produzidos um pouco por todo o lado à margem das estratégias comerciais. Se o ritmo já era difícil de acompanhar, agora é preciso contar também com a brigada (ex)vermellha.


No princípio eram os novos totalitaristas como os Laibach ou os Last Few Days, operários, radicais, provocadores, subversivos e estimulantemente violentos. Os primeiros, depois de alguns desvios que deram mau resultado, regressaram às trombetas e fanfarras militaristas iniciais, agora rotulados com o selo de qualidade de «Novos clássicos». Em todo o caso, o mais recente «MacBeth» não envergonha os seus autores quando comparado com o ponto máximo que foi o estreante «Nova Akropola».
Quanto aos Last Few Days substituíram as sirenes, megafones e «slogans» anarquistas pelos ritmos, pelo menos mais rentáveis, da dança. Mudam-se os tempos, mudam-se as subversões…
Dos Holy Toy, polacos mas liderados por um norueguês (Lars Pedersen), nada mais se soube, após uma série de bons álbuns e a obra-prima «diferente de tudo» assinada por Lars, «Death in the Blue Lake». E já que falamos de obras-primas convirá não esquecer essa outra que é «Insect Culture» dos soviéticos Popular Mechanics, de Sergei Kuriokhin.
Saliência ainda, na área do jazz, para a obra dos Ganelin Trio e para os projectos, conotados com a música concreta e electroacústica, do grupo de percussão húngaro Amadinda, do checoslovaco Jaroslav Krcek («Raab») e deste músico juntamente com Georg Katzer (Alemanha Democrática) e Zygmunt Krause (Polónia) num mesmo álbum gravado para a Recommended («Aide Mémoire/Folk Music/Sonaty Slavickove»).
Recommended Records que se mantém, como habitualmente, atenta a todos os novos sons do Mundo e, neste caso particular, aos do leste europeu. Paralelamente á distribuição de uma revista de divulgação e apoio aos novos projectos e ideias oriundos daquelas regiões, associou-se à editora Points East, distribuindo para o Ocidente todos os seus discos. Os mais recentes valem todos a pena e estarão brevemente disponíveis na discoteca Contraverso que, por sinal, acabou de receber nova remessa de maravilhas com a chancela de qualidade «Recommended». Aqui vão entretanto algumas indicações sobre novos discos dos nossos amigos do Leste:


BORIS KOVAK: Ritual Nova 2


Segunda parte do dito ritual. Música tradicional jugoslava, electrónica, sopros, sons ambientais, cântico gregoriano e sérvio, leituras do Corão (em fita ou sampladas). Ritual dividido em duas partes: «Dream of the Origine» e «Origine of the Dream», com várias secções de títulos místicos como «All under the Celestial Cap», «Sacred Millstone» ou «Mandala». Crescendos rítmicos e corais desembocando em episódios mais contemplativos, próximos dos de John Surman ou Stephen Micus. Delicioso.
Instrumentação: Sampler, Sax soprano, clarinete baixo, taragato (instr. Trad.), cítara (não confundir com a sitar indiana), percussão, violoncelo, fitas, vozes.
Referências: ECM (Micus, Surman), música étnica, Musci/Venosta, música religiosa medieval, Terry Riley, Laraaji.


DER EXPANDER DES FORTSCHRITTS (Alemanha Democrática): Álbum estreia com o mesmo nome

Oriundos de Berlim e destinados a espantar muita gente. Músicos fabulosos combinam todos os seus talentos na construção de labirintos sonoros com múltiplas entradas/saídas. Síntese de esquisitas manipulações electrónicas com a decadência do cabaré berlinense, o free-jazz, vozes parasitárias e canções à beira da demência. A heterogeneidade completamente assumida e assimilada resultando numa música excitante e verdadeiramente original. A letra de um dos temas é retirada de um texto do filósofo Friedrich Nietzsche.
Instrumentação: Vozes, fitas, percussão, piano, saxofones, flauta, teclas/electrónica, baixo e guitarra.

Referências: Cassiber, Goebbels & Harth, Fred Frith, Cabaré, Dada.


ISTVAN MARTHA (Hungria): Támad Aszél

Obra de grande fôlego denominada «Diário de som electrónico» pelo próprio compositor. Longa suite subdividida em várias partes, contando com a participação de Marta Sebestyén e dos «Amadinda», entre dezenas de outros músicos importantes da cena underground magiar. À semelhança de Boris Kovak, o ponto de partida é a música tradicional (neste caso a húngara), reinterpretada e inserida num contexto actual. Polifonias vocais complexas e grandiosas e um aproveitamento de todos os sons planetários disponíveis, contribuem para a construção de um monumental edifício sonoro onde, mais uma vez, imperam as sínteses de estilos e épocas diversificados.

Instrumentação: Saxofones, flauta, trompa, shawn (instr. medieval de sopro), vocoder, bateria, guitarra, sintetizadores, trombone, órgão, violoncelo, sanfona, gaita-de-foles e harpa, mais o quarteto de cordas «Mandel» e o grupo de percussão «Amadinda».

Referências: Toda a música, desde a Idade Média até à Idade Digital.

PLASTIC PEOPLE (Checoslováquia): Midnight Mouse

Também conhecidos pelo nome completo Plastic People of the Universe. Já existem e gravam discos há uns bons aninhos. Politicamente empenhados e praticantes de um «jazz» híbrido construído à base dos sopros e de um velhinho sintetizador analógico «Korg». Superam todas as limitações técnicas com a originalidade dos arranjos, algures entre Carla Bley e os Henry Cow.

Instrumentação: bateria, trombone, baixo, vozes, sintetizador «Korg», violino e viola-de-arco electrificados, guitarra, clarinete, clarinete baixo, flauta.

Referências: Fanfarras, música de feira, Carla Bley, Henry Cow.


KGA (URSS): ZGA

O vocábulo «ZGA» só existe na língua russa na forma negativa. Num sentido mais lato pode significar «ver». Os ZGA são niilistas até dizer chega, impenetráveis e incómodos. O álbum foi gravado ao vivo num apartamento na cidade de Riga e consta basicamente de ruído mais ou menos controlado com incursões na música dita industrial. Improvisações corrosivas e tortuosas levam a experimentação electroacústica aos limites do intolerável.

Instrumentação: Clarinete, Ring Modulator, teclas, objectos de metal, percussão, baixo, bateria, vozes.

Influências assumidas: Biota/Mnemonists, Cassiber, John Zorn, Nurse With Wound, Henry Kaiser, John Cage, Ned Rothenberg, Luciano Berio.

Glasnost, Perestroika, Gorbachev, Vodka, até para a semana com os Kraftwerk.

«É preciso violentar o sistema»

BLITZ

20.2.90
VALORES SELADOS

O universo do Rock tem as suas mitologias bem demarcadas. Ao longo de quase 40 anos a indústria soube sempre absorver as inovações e a rebeldia pretensamente típicas do género, retendo apenas a sua imagem superficial, integrando-a e facturando à sua conta. Em Portugal somos mais aconchegados. Poucos arriscam sair dos círculos de amigalhaços. Rocker português sofre? Felizmente ainda há quem vá fazendo por isso…

«É PRECISO VIOLENTAR O SISTEMA»


A galeria de mitos fabricada pelo business, desde Presley até Ian Curtis dos Joy Division, passando por Hendrix, Jim Morrison ou Janis Joplin, tem como características comuns a morte e o excesso. O herói rocker é inseparável da sua condição de mártir. A fama, o dinheiro e o sucesso tornam-se demasiado pesados para serem suportados. O ego das estrelas é sempre extremamente frágil e complexo. No fundo são pessoas como nós só que mais sensíveis e vulneráveis.
Vão-se abaixo facilmente, afundados em terríveis dilemas existenciais. O seu estatuto de stars torna-se penoso. O sucesso é insuportável, a sua ausência também. O medo do palco transforma-se, com a experiência dos anos, em pânico. O talento passa a funcionar unicamente ao toque do álcool e das drogas.
A imagem pública sobrepõe-se à verdadeira personalidade. Tudo é agonia e sofrimento.
A indústria sofre em silêncio com a dor dos seus meninos de ouro e também em comovido silêncio vai fornecendo a farmacologia necessária e esfregando as mãos de contentamento. É um ciclo vicioso que desemboca na morte ou no abandono.
No nosso país de pequeninos são poucos os músicos que alcançaram o estatuto de mitos/mártires incompreendidos. O guitarrista Filipe Mendes, o Jimi Hendrix português, e mais recentemente António Variações são os dois únicos exemplos conhecidos. O primeiro nunca alcançou a merecida glória, o segundo passou de quase desprezado em vida para referência obrigatória para a nova geração de rockers, depois de morto. É triste, mas a coisa funciona mesmo assim.
Os nossos músicos não se arriscam muito. Morrer sim, talvez, mas muito devagarinho e de preferência só depois dos 90. Em vez de se afogarem em quantidades inimagináveis de substâncias proibidas caminhando rapidamente para a autodestruição, preferem ser empregados de escritório, bancários ou técnicos e computadores.
A máxima punk de que se é velho aos vinte anos não lhes diz nada. Em vez de se divertirem à grande em orgias com groupies apetitosas, casam e constituem família. Em vez de provocarem distúrbios na rua ou nos hotéis, serem presos por posse de droga ou destruírem em palco material do mais caro, preferem trabalhar e ser úteis à sociedade. Então essa rebeldia e espírito de transgressão? Que é feito da insolência e da provocação gratuita? Ou será que os nossos rockers são todos quarentões de barriguinha e bem instalados na vida?
Aos fins-de-semana, os nossos músicos rock tiram a máscara de cidadãos normais e cumpridores e trocam-na pela de estrelas do rock and roll. Mas porquê só aos fins-de-semana? Todos sabemos que o País fervilha de salas e de gente ávidas do bom velho compasso de 4/4. Não precisavam de se esconder por detrás de balcões de banco ou de escritório. Ou será que os nossos jovens rebeldes encontraram novas e mais subtis formas de subversão e contestação social? À fúria das guitarras eléctricas, das calças justas e das letras intervencionistas, estilo «é preciso violentar o sistema», terão achado mais eficaz o desvio voluntário de um processo lançado nos labirintos de um arquivo ou a introdução de um vírus no computador? Não há dúvida que os tempos são outros?
Não se conhecem muitos casos apaixonantes ocorridos com músicos portugueses. Há o Jorge Palma que tocava no Metro, o António Manuel Ribeiro que levou com a casca de noz no olho e se casou, ou uma ou outra queda do palco. É pouco. A maior parte da vida do músico é passada a protestar: contra a falta de condições e de organização dos espectáculos ao vivo, o preço dos instrumentos musicais, a falta de um lugar para ensaiar sem incomodar os ouvidos dos vizinhos, a ausência de salas e de interesses das editoras. Uma vida de cão.
Os nossos músicos de rock dividem-se em três grupos distintos: o primeiro é o dos consagrados que subiram a pulso a escada do sucesso. É o caso dos UHF, GNR, Heróis do Mar ou dos Xutos e Pontapés. Ao fim de 10 anos de esforços e cedências conseguiram obter discos de prata e ouro, com vendas astronómicas na casa dos dois e três mil exemplares. Vão à televisão e enchem os arraiais de província. Ao fim de mais 10 anos arriscam o Coliseu. E ao fim de outros 10 começam a considerar a hipótese de abandonar os empregos seguros. Passam a vida à procura de projecção no estrangeiro e a afirmarem que «desta vez é que é», «o empresário interessa-se mesmo pela nossa música» e «estão reunidas as condições necessárias». O melhor que conseguem é ir tocar a Espanha, vá lá, com sorte, a França, perante emigrantes. No regresso contam que a Europa os adorou.
O segundo grupo é o dos desgraçados tesos, sem dinheiro sequer para comprarem os instrumentos. Procuram furar a todo o custo mas raramente o conseguem. Afirmam-se todos independentes e marginais mas à primeira oportunidade assinam por uma multinacional. A maioria não chega a gravar qualquer disco e mesmo esse vende-se pouco. Incluem-se neste grupo os incontáveis concorrentes aos concursos do Rock Rendez-Vous ou a massa amorfa das bandas de bailarico. Não cito nomes para não desmoralizar. Além de que a vida não é só música.
Por fim há os queridos da crítica, uns realmente bons outros nem tanto, que ou por terem verdadeiro talento ou boas amizades nos meios certos adquirem uma aura de prestígio e qualidade. Têm mais fama que proveito. É o caso dos realmente talentosos Mler Ife Dada, Sétima Legião, Madredeus, ou Nuno Canavarro, entre outros apenas preocupados com a qualidade da música que praticam. Tocam poucas vezes ao vivo mas não se ralam muito. Gravam bons discos mas as massas persistem em ignorá-los. São teimosos e ingénuos e pensam que a qualidade, a sinceridade e a honestidade de processos bastam para a obtenção de sucesso. Não bastam. Mas ainda bem que persistem na sua ingenuidade e teimosia.
O melhor do «rock português» não é rock. Às vezes é português…

After Dinner - Paradise Of Replica



BLITZ

20.2.90
ESCAPARATE

AFTER DINNER

«PARADISE OF REPLICA»

Requinte. Delicadeza. Minúcia. Típicos requisitos da Alma japonesa presentes na música dos After Dinner mas que não chegam para completamente a caracterizar.
Depois de um primeiro álbum editado pela Recommended regressam muito depois do jantar com novo disco, desde já um clássico na minha imodesta opinião.
O som After Dinner é tecido em filigrana, em padrões milimétricos e nunca repetidos. Tudo fervilha e constantemente muda, segundo a segundo, num picotado de luz, traçando o desenho de uma catedral. Nunca, como aqui, a electricidade, os instrumentos tradicionais nipónicos e os da música de câmara europeia se tinham casado e dançado num acto de puro amor.
No centro irradia a voz de boneca de cristal de Haco, menina pintada em máscara Madame Butterfly. Em volta, como pirilampos encantados, gritam cintilantes as harpas, os oboés, as flautas, os nomes impronunciáveis e os sintetizadores como se fossem tocados por fadas. E talvez sejam.
Na complexidade e imaginação dos arranjos lembram por vezes os Gentle Giant da fase inicial. Nos ambientes que sugerem aproxima-se dos jardins em que Virginia Astley se passeia, se chovesse, se fugazes relâmpagos fixassem pequenos medos na paisagem.
«Paradise of Replica» é uma sucessão infinita de imagens, ecos, espelhos, micro-sinfonias, sinos reverberados, caixas de música, vozes infantis, fantasmas, sonhos dentro de sonhos. Pingos de sangue tombando no silêncio de lagos circulares. Nuvens e vento. Paraíso de réplicas ou réplicas do Paraíso?
Saboreia-se este disco como se fosse um gelado doce para o espírito. Subtil Obra-Prima. Beleza absoluta em mil segredos sussurrada.
Rec Rec, Framport. Contraverso, 1984.

28/10/2008

«O temp(l)o dos celtas»

BLITZ

13.2.90

O mercado discográfico nacional foi inundado recentemente por uma série de importações de obras relativas à música tradicional de raiz celta. No meio de tanta fartura muito terão ficado confundidos com a profusão de títulos e talvez pelo súbito interesse que este tipo de música volta a suscitar. Sobretudo para estes, que não sabem por onde começar, aqui vai como que um guia orientador das melhores opções de entre a oferta disponível

«O TEMP(L)O DOS CELTAS»


A música tradicional nunca esteve (ou esteve sempre, consoante a perspectiva) na moda. Uma ou outra vez sai um pouco mais da sombra, são referidos alguns nomes e discos (geralmente os piores e menos representativos) por parte de algum crítico entediado e a coisa rapidamente passa de novo à História. Assim, periodicamente, o fenómeno renasce por entre a confusão dos «media» que apressadamente atiram com o rótulo revivalista ao ar e já está.
Quanto à música celta propriamente dita, vai dispensando e desafiando a incompreensão, o desconhecimento e todas as manobras que se vão desenrolando à sua volta. É intemporal, tem quem verdadeiramente a ame e isso basta-lhe. Os discos que agora vão enchendo as prateleiras de algumas das nossas discotecas, chegam-nos do Porto e abrangem unicamente as músicas irlandesa e escocesa. Vejamos então o que sobressai de tanta quantidade que justifique a aquisição ou pelo menos uma audição atenta.
Da Irlanda, através dos selos Claddagh e Tara, eis uma parte do que vale a pena. Tomem nota:

BAKERSWELL – Na linha dos Chieftains, com a encantatória gaita-de-foles, violino e a harpa da senhora que costuma tocar com os Oisin. Verde e água. Irlanda até ao fim.

CHIEFTAINS – O emblema musical irlandês. À disposição dos interessados nada menos que 14 álbuns, desde o primeiro, de 1964, gravado em mono, até ao recente «Ballad of the Irish Horse». Os exagerados não se contentarão com menos do que a totalidade. Em todo o caso, para os mais prudentes e selectivos, aconselho o volume 5 (na altura editado pela Island) e o seguinte, «Bonaparte’s Retreat», este último contando com a voz dessa grande senhora que dá pelo nome de Dolores Keane (posteriormente nos De Dannan a actualmente movendo-se a solo em terrenos menos tradicionalistas). Para além, claro, dos respeitáveis Paddy Moloney, na gaita-de-foles, Sean Keane e Martin Fay, os violinistas de serviço e Derek Bell na harpa. Jigs, reels, airs, hornpipes, é dançar até não se poder mais, de preferência com o bom velho whisky a acompanhar.

PLANXTY – Na minha opinião (e decerto nas de muitos mais), o grupo mais original e inventivo ao nível dos arranjos e interpretações do cancioneiro tradicional irlandês. Por aqui passaram nomes lendários como Christy Moore, Liam O’Flynn, Andy Irvine, Donal Lunny ou Matt Molloy (que também tocou nos Chieftains e nos Bothy Band). Todos os álbuns são indispensáveis mais os mais fáceis de encontrar são «The Woman I Loved so Well» e «After the Break». Corram e não parem até os encontrarem.

WHISTLEBINKIES – Anda por aí o volume 4 que é excelente. Música bastante variada ao nível das combinações instrumentais, servida por intérpretes de primeiríssima qualidade. Ah, é verdade, são escoceses, embora gravem para uma editora rival.
Merecem ainda uma escuta atenta e aquisição por parte dos fanáticos que não deixam escapar nada, os álbuns a solo de Derek Bell («Carolan’s Receipt») e Matt Molloy («Stony Steps»), o quarto discos dos Oisin («The Jeannie C»). Só para os iniciados no grau mais elevado sugiro os discos de John Molineux com música tocada exclusivamente em saltério («Douce Amère») e finalmente temas tradicionais interpretados no cravo por Sean O’Riada («O’Riada’s Farewell»).
E passemos à Escócia.

ALISON KINNAIRD - «The Harper’s Gallery». A harpa escocesa (clarsach) em todo o seu cristalino esplendor. Alison também canta e nalguns temas é ajudada pelos seus amigos da Battlefield Band, em instrumentos variados, e pelo seu marido Robin Morton, patrão e dinamizador da Temple Records, cujo estúdio é mesmo uma antiga abadia perdida algures no meio do nevoeiro.
Exclusivamente de harpa é o álbum que gravou em dueto com Ann Heymann, uma americana de alma celta apaixonada pelas cintilações do instrumento, neste caso na variante irlandesa («The Harper’s Land»).

BATTLEFIELD BAND – Os reis da festa. A Escócia infinitamente recuperada e reinventada. Cada álbum que gravam é uma constante surpresa. Passam dos ambientes mais profundamente tradicionais para um reel baseado em «Bad Moon Rising» (esse mesmo, o dos Creedence) sem nunca perderem o pé nem o toque característico da música celta. Juntam descaradamente o som da gaita-de-foles ou de instrumentos medievais ao computador de ritmos. Sabem ser sérios e divertidos nas alturas certas. Retiram da música tradicional aquilo que ela tem de essencial e acrescentam-lhe a sua própria inspiração. São brilhantes. Adquiram sobretudo os álbuns «Home is Where the Van is», «There’s a Buzz», «Anthem for the Common Man», «On the Rise» e «Celtic Hotel». Excelente é também o disco a solo do multi-instrumentista da banda, Brian McNeill, «Unstrung Hero», com temas da sua autoria mas totalmente imbuídos do espírito antigo. Uma referência final para mais alguns discos, digamos que para especialistas: «O’er the Border» de GORDON MOONEY, o paraíso para os amantes das sonoridades das diversas gaitas-de-foles (no caso as variantes escocesas das Highlands e as «cauld Wind»), «Fonn is Furan» pela voz de FINLAY MACNEILL, inteiramente cantado em gaélico, os dois volumes de «Music in Trust», uma colaboração de Alison Kinnaird com os Battlefield Band para uma série televisiva dedicada aos monumentos e zonas históricas nacionais e mais um disco dedicado à harpa de MAIRE NI CHATHSAIGH («The new strung harp»).
Há pois muito por onde escolher e para complicar ainda mais a coisa, ainda por aí andam espalhadas algumas pedras preciosas, álbuns absolutamente indispensáveis para um «folkie» que se preze. São eles:
Ashley Hutchings/John Kirkpatrick: «The Compleat Dancing Master», Boys Of The Lough: «Farewell and remember me» e «Sweet Rural Shade», Blowzabella: «A Richer Dust», Cock & Bull: «Sacred Cows and concrete routs»; House Band: «The House Band», John Kirkpatrick/Sue Harris: «Stolen Ground», June Tabor: «Ashes and Diamonds», Late Night Band: «Kings of the Baroque’a’Billy», Martin Carthy: «Out of the Cut» e «Right of Passage», Roger Watson: «Chequered Roots», Richard Thompson: «In Strict Tempo», Shirley & Dolly Collins: «Love, Dead and the Lady» e Silly Sisters: «No More to the Dance», para além de tudo o que por cá existe de Stivell, claro.
... E depois o Universo imenso que falta: da Bretanha, da Galiza, da Provença, do resto da França, do Minho e Trás-os-Montes continuam a chegar os novos bardos e trovadores. An Triskell, Tri Yann, Malicorne, Mélusine, La Bambocke, Doa, Milladoiro, Pablo Quintana, Amâncio Prada, Mont-Jóia, Le Bardon, Emilio Cao, Ronda dos Quatro Caminhos, Maio Moço e mais algumas boas dezenas de nomes mas para já estes chegam.
A Chama e Alma Celtas continuarão eternamente a brilhar.