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15/11/2016

Com uma pequena ajuda dos amigos

CULTURA
SÁBADO, 24 MAR 2001

Com uma pequena ajuda dos amigos

Homenagear os Beatles é uma boa ideia. Sobretudo quando hoje, volvidos 30 anos sobre a extinção do grupo, já é possível afirmar com alguma segurança que eles foram uma das bandas pop mais importantes de sempre. Mas não é fácil pegar numa canção dos Beatles. São demasiado perfeitas e completas. "She loves you", por exemplo. Tem uma melodia indigente e uma letra parva, mas na voz de John Lennon e Paul McCartney soa como uma sinfonia ao amor.
            "Come Together" juntou no palco do Pavilhão Atlântico, em Lisboa, uma série de artistas portugueses dispostos a interpretar, recriar ou massacrar as canções dos "fabulous four". Na plateia, cotas, adolescentes e cotas disfarçados de adolescentes salivavam na expetativa de embarcar na máquina do tempo para viajar até esses anos em que uma canção pop justificava toda uma existência. A máquina, na maior parte dos casos, emperrou.
            Coube aos Blind Zero carregar na tecla "on". Abriram sonolentos com "I'm only sleeping" antes de passarem a duas canções psicadélicas, "do tempo em que os ácidos eram de boa qualidade", "Strawberry fields forever" e "Tomorrow never knows". Se a voz do vocalista naufragou nas "nuances" de melodias apenas passíveis de decalque sob o efeito das tais substâncias alucinogéneas de qualidade, as guitarras mergulharam num mar de eletricidade, garantindo aos Blind Zero o comprovativo de "banda que ousou arriscar". Terminaram com "She loves you" sem conseguirem fazer esquecer que a letra é mesmo indigente e a letra mesmo parva.
            Nos intervalos entre cada atuação, o ecrã gigante instalado acima do palco mostrava imagens de arquivo da RTP, com excertos de documentários, clips, filmes e canções dos homenageados. "Love me do", "Yesterday", "Can’t buy me love", "Yellow submarine"... Recordações dos anos de histeria.
            Mafalda Veiga cantou "Drive my car", "You've got to hide your love away" e "Hey Jude" como se tivesse acabado de sair da cama. Transformou uma canção quadrada como "Hey Jude" num retângulo rombo. Atuação preguiçosa, a provocar bocejos.
            Curiosamente, foi uma banda cujos membros ainda não eram nascidos quando os Beatles morreram, os Silence 4, a primeira a socorrer-se da criatividade, em vez da vénia. Transformaram "Help" numa litania arrastada sobre a solidão e "Blackbird" numa canção nova onde apenas o coro guardava as notas da melodia original.
            A Ala dos Namorados pareceu não ter muito a ver com os Beatles. Preocuparam-se com a perfeição formal em "Eleanor rigby", tiraram partido da voz de Nuno Guerreiro num dueto voz/piano, em "Yesterday" e juntaram efeitos de "vaudeville" a "Penny lane". Competentes mas demasiado frios.
            Os Clã foram outra das surpresas da noite. Se "Everybody's got something to hide except me and my monkey" manteve o mesmo formato rock, a carga energética que lhe foi injetada pela banda do Porto transformou o tema num hino contemporâneo, o mesmo acontecendo a "A hard day's night". Mas foi em "Lucy in the sky with diamonds" que os Clã mostraram que não estavam ali apenas para "brincar com uma coisa séria". A voz de Manuela Azevedo, processada eletronicamente, tirou Lucy da tumba para cavalgar de novo até às estrelas com os olhos de caleidoscópio a brilhar.
            Para o fim ficaram os mais velhos, os que se lembram melhor. Não pareceu. "Sgt. Peppers lonely heart's club band", "With a little help from my friends" e "While my guitar gently weeps" foram transformadas pelos Xutos & Pontapés numa sessão de berraria. Os Xutos pontapearam os Beatles. Faltava Rui Veloso, beatlemaníaco confesso. Nas bancadas a expetativa adensava-se. As manas Jardim (uma quantidade delas) ajeitavam as t-shirts, o cabelo e a pose para as objetivas da imprensa cor-de-rosa, bamboleando-se ao som de "Get back".
            Quando Rui Veloso tomou conta do palco, sentiu-se um brilhozinho nos olhos dos mais velhos. O pai do rock português desdramatizou. "Something" foi apresentado como "Qualquer coisa" e "Girl" como "Moçoila". Cantou num registo equidistante de Tom Jones, Serafim Saudade e Zé Cabra. "The long and winding road", em tom de "music hall", preparou o terreno para "Let it be", com a letra projetada no ecrã gigante, de maneira a poder ser cantada em coro por todos. O final, pretensamente apoteótico, juntou a troupe inteira de artistas no palco para mais uma dose de "Let it be", tornada gigantesca sessão de karaoke. Mas mesmo o adepto mais ferrenho dos Beatles já estava cansado e, ao fim desta dose de Beatles a martelo, suspeita-se que suspirasse por ouvir os Rolling Stones. Vai uma homenagem?
            Apesar de tudo, espera-se que "Come together" não tenha acontecido em vão. É bem possível que, "with a little help from these friends", a coletânea "1" volte a conquistar o número um...

Graus de Beatlemania
Blind Zero: Psicadélicos
Mafalda Veiga: Preguiçosa
Silence 4: Criativos
Ala dos Namorados: Formais
Clã: Lúdicos
Xutos & Pontapés: Barulhentos
Rui Veloso: Meloso

17/05/2015

Os outros Beatles [dossier George Harrison 1943-2001]



sábado, 1 de Dezembro 2001

Dossier George Harrison (1943-2001)

Os outros Beatles

PAUL McCARTNEY: O romântico

Era e é o compositor das baladas sem mácula. Já depois da separação dos quatro Beatles, John Lennon criticava-o por escrever para os Wings "silly love songs", demasiado melosas. Consta que Lennon nunca lhe perdoou o facto de ter sido Paul o único autor creditado em "Yesterday", canção através da qual muitos se identificam com a música dos "fab four" de Liverpool. Mais ou menos açúcar, mais ou menos romance - o mesmo romance que esteve sempre presente na sua relação com Linda Eastman, McCartney pelo casamento, recentemente falecida, e que determinou quase toda a sua produção musical pós-Beatles, com os Wings - a verdade, porém, é que Paul McCartney era o génio melódico do grupo. O compositor das melodias perfeitas que se colavam aos ouvidos de forma sobrenatural.

JOHN LENNON: O rocker

Foi desde sempre o eterno adolescente revoltado, defensor das causas perdidas, marcado por uma infância e relações familiares difíceis. Se Paul era o "designer" melódico dos Beatles, era John, assassinado com um tiro de revólver a 8 de Dezembro de 1980, quem lhe insuflava a energia e a rebeldia ou as ousadias experimentais que tiveram o seu auge em "Revolution no.9", a contra-canção do mítico "álbum branco", composta à revelia dos seus três companheiros. Faltava um quase nada para que toda esta raiva acumulada e atitude revolucionária se traduzissem numa posição de marginalidade no seio do grupo. Esse "quase nada" (para Paul era mesmo nada...) chamou-se Yoko Ono. Com ela, John aprendeu o outro lado do amor, o ciúme, o escândalo como arte, mas também a soltar definitivamente a sua veia de rocker. Também com ela, diz-se, começou o fim dos Beatles.

RINGO STARR: O bobo

Acusaram-no de tocar mal bateria, mas sem ele a música dos Beatles teria sido outra. Ringo Starr nunca se preocupou muito com isso. A sua personalidade conseguiu sempre superar a ausência de verdadeiras capacidades musicais ao mesmo tempo que funcionava como escape para aliviar as tensões acumuladas entre John e Paul. Ele era o baterista dos Beatles e isso chegava-lhe, com uma pequena ajuda dos amigos (é sua a voz que canta "With a little help from my friends"). A sua bonomia e proverbial boa disposição - imortalizados no celulóide, na figura do bobo ingénuo, em filmes como "A Hard Day's Night" e "Help!" - valeram-lhe a simpatia de todos, ainda que poucos lhe reconhecessem o talento como músico. Mas também sem ele, sem uma canção como "Don't pass me by", o "álbum branco" teria ficado mais escuro.

05/09/2014

O dia B [The Beatles]



Y 12|JANEIRO|2001
escolhas|televisão

o dia B

Quem são os Beatles? A questão tem intrigado geração após geração de ouvintes ávidos de conhecimentos sobre uma das bandas mais enigmáticas do rock. No Domingo o canal VH1 desvendará alguns segredos num “Beatles Day”.

Sobre os Beatles existe hoje apenas uma certeza: era quatro, cabeludos, nenhum tocava “sitar” a não ser George Harrison e todos os outros grupos, durante e depois, olhavam para eles com inveja.
            Estranhamente, os Beatles voltam a estar na ordem do dia. 2000 foi o ano dos Beatles como já haviam sido anos dos Beatles todos os da década de 60. Já sem falar da criação do site oficial ou da publicação, também oficial, da biografia do grupo. Já sem falar, sequer, do facto da coletânea “1”, com singles que atingiram o top 1 em Inglaterra e nos EUA, bater recordes de vendas e do álbum 1966, “Revolver”, ser considerado pelo canal VH1 o melhor álbum popular de sempre.
            Importante é o facto de existir uma quantidade de crianças que gosta de ouvir os Beatles e conhece já algumas das letras e melodias de cor, de filhos e filhas de muita gente que pede aos pais para comprar os discos e sabe distinguir os elementos da banda, catalogando-os como “o dos óculos”, “o vaidoso”, “o simpático” e “os dos cabelos mais compridos”.
            Que diabo, não seria mais natural e de acordo com uma atitude pós-moderna, que as crianças do século XXI ouvissem antes um qualquer DJShit ou se deliciassem com as experiências pan-culturais do mais recente coletivo de fusão de World music? Mas não, as crianças descobriram os Beatles e, pior do que isso, gostam de ouvir a sua música.
            Mas não são só as crianças. Também os adultos correm a comprar “1”, mesmo aqueles que já têm em casa a discografia completa do grupo, em vinilo, cassete, CD, mini-disc, DVD e CR-ROM. Isto, quer queiramos quer não, intriga.
            É verdade que é sempre possível tecer uma teoria com bastante sentido: em tempo de tecno, house, internet, “Big Brother” e “Rods dos Milhões”, num universo cada vez mais virtual, os Beatles representariam o regresso à pureza original da canção e a valorização do génio e da criatividade humanos sobre a exatidão clínica das máquinas.
            Em todo o caso, falou-se com pessoas, só para confirmar, para deste modo poder respirar-se de alívio. Pergunta: “Comprou a coletânea ‘1’ dos Beatles?”. Resposta invariável de 9 em cada 10 inquiridos: “Sim, comprei!”. Pergunta: “Mas já conhecia ou tinha em casa os álbuns do grupo?”. Resposta: “Sim, tinha-os todos!”. Pergunta: “Então por que razão comprou a coletânea ‘1’? Decerto terá sido pelo desejo de um regresso à pureza original da canção e a valorização do génio e da criatividade humanos sobre a exatidão das máquinas?”. Resposta: “Hã? Não! Foi porque ocupa pouco espaço e é mais fácil de tocar no leitor de CD do carro!”

            Hits e mais hits. “The Beatles Day”, com passagem, domingo, ao longo de todo o dia, está dividido nos seguintes módulos: “The Beatles: Top 10” (14h, 18h e 21h), uma escolha das 10 melhores canções de sempre dos “fabulous four” (também conhecidos como The Beatles); “Ten of the Best: Paul McCartney” (15h e 20h), outro top 10, desta feita compilado por Paul McCartney, também conhecido como “o vaidoso”. Destaque, no meio da simpatia, para a apresentação do espetáculo “Paul McCartney, Live at the Cavern” que teve lugar o ano passado, um regresso à mítica sala de Liverpool que viu os Beatles crescer para o estrelato.
            Entre um pacote de “hits” e outro pacote de “hits”, espaço, às 16h, para recordar um episódio especial do programa de televisão dos anos 60, “Ed Sullivan’s Rock ‘n’ Roll Classics”, no qual canções da dupla Lennon/McCartney são interpretadas por Petula Clark, Smokey Robinson, Billy J. Kramer e… os próprios Beatles.
            “Premiere: Greatest Hits - The Beatles” (16h30 e 1h30), trata-se, como diriam os Monty Python, de “something completely diferente”: a apresentação de “hits” dos Beatles como “Help”, “Get back”, “Penny lane” e “Hello goodbye”, sem comentários, sem depoimentos, sem nada, só Beatles.
            “Premiere: Behind the Music - John Lennon” (22h e 00h) conta a história do Beatle assassinado, vulgo “o dos óculos”, com entrevistas a Yoko Ono (também conhecida como “a bruxa”), os filhos Sean e Julian, o amigo e inimigo de sempre, Paul “Macca” McCartney, e Ringo Starr, “o simpático”.
            Em “Storytellers: Ringo Starr” (23h), “o simpático” fala de si, de como toda a gente achava que ele era mau baterista mas tinha imenso jeito para contar anedotas. Não se sabe bem porquê, mas George Harrison, “o dos cabelos mais compridos”, não teve direito a bloco. Deve ter sido por ter gravado à revelia dos Beatles um dos maiores sucessos de 1970, “My sweet Lord”.

Beatles Day
VH1, DIA 14 DOMINGO, ENTRE AS 14H00 E A 1H30