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07/02/2020

Sonhos no salão preto e prata [Bernardo Devlin]


6|FEVEREIRO|2004 Y
música|bernardo devlin

Nas nove implosões de “Circa 1999”, Bernardo Devlin pinta telas da mente para observar com a luz baixa. Quem já ouviu “Tilt”, de Scott Walker, deve munir-se da mesma lanterna.


Sonhos no salão preto e prata

“Circa 1999 (9 Implosões)” é um disco estranho. O seu autor, Bernardo Devlin, antigo elemento dos Osso Exótico, não lhe fica atrás. “Circa 1999” é o seu terceiro trabalho a solo, depois de “World Freehold” e “Albedo”. A capa é prateada, como um espelho, e o livrete inclui um caderno de folhas coloridas, sem qualquer texto – as cores, explica Devlin, correspondem a estados de espírito, a sua sequência aludindo à estrutura completa do disco.
            A música é uma tapeçaria densa de texturas eletrónicas e elementos acústicos que contaram com a participação dos convidados José Ernesto Rodrigues (violino), Nuno Leão e Pedro Lourenço (guitarras adaptadas), Luís Filipe Valentim (piano), Luísa Gonçalves (sintetizador), Miguel Sintra (percussão), Oliver Vogt (saxofone tenor), Damiano Tonegutti (oboé) e o quarteto de cordas Opus 4. Vítor Rua, dos Telectu, responsabilizou-se pelos arranjos e direção de cordas. Soa a música de câmara de fantasmas (ou fantasias?), acentuada pelas vocalizações semi-declamadas de Devlin, de textos nalguns casos impenetráveis que falam de luzes, visões e paixões geladas. Do tempo e da comunicação/incomunicação com o outro. E com o espelho.
            Olhos vítreos, cortados por uma tesoura, como no filme de Buñuel, em “Un Chien Andalou”. A luz das estrelas e da morgue. Do espaço sideral e de um quarto onde é impossível dormir. Um faroleiro aparece misteriosamente num dos temas… Como se fosse “A plague of lighthouse keepers”, “a praga dos faroleiros”, o épico de Peter Hammill, músico com quem Devlin mantém afinidades estéticas. E “Tilt”, outra referência de “Circa”, do Scott Walker inatingível… Devlin fala “à altura dos olhos”, título de uma das canções de “Circa 1999”.
            “Circa 1999” convoca as memórias desse ano, 1999, “em que a maioria das canções foram escritas” mas também marcado por “uma série de adversidades que tiveram que ser superadas”. As “nove implosões” do subtítulo indicam essa viagem para dentro. “O disco preenche um período de transição de uma atitude mais romântica, ou ultra-romântica, para um estado de espírito diferente, mais racional”.

            para ouvir no escuro. Mergulha-se na música de “Circa” como numa tina de mercúrio congelado. Os movimentos tornam-se difíceis, a bússola deixa de funcionar. “A diferença entre o exterior e o interior é muito ténue”. E pode ser “complicado entrar”, diz Devlin pausadamente, “muito complicado…”.
            Resta ao ouvinte inventar as suas próprias histórias a partir das palavras do disco que a razão disseca, ou não, conforme o tipo de viagem que pretenda seguir. A cabeça encarregar-se-á de escolher o itinerário mais conveniente. “Gosto de dar espaço à interpretação”. Liberdade por vezes mais aparente do que real, pois “Circa 1999” esconde armadilhas e outros perigos. “Havia verdade na luz/Quando me protegi/Operam marés na clausura/Que do alto vi/Foi impressão/Ou algo acenou/Em gesto tão real/Se elevou/Vigília/ De mundo de estátua/E êxtases/De visionários/Em convixão/Chama de mistérios/Sem conversão”, canta em “Novo alvor”. “Visões” que, segundo o seu autor “não fazem necessariamente parte do quotidiano, fora do momento da grande interiorização”.
            Devlin fala em “fornecer pistas” e em “referências”. Umas e outras são o que não falta em “Circa 1999”. “A explicação é muito complicada. É mais como uma pessoa quando se lembra de um sonho… Quando se descreve um determinado sonho a alguém está-se a dar uma pista extremamente diminuta em relação à informação que estava contida no momento”. Pistas “verbais”, sem “princípio nem fim”. Num país, Portugal, onde “as pessoas estão pouco habituadas a ouvir canções que tenham um trabalho literário mais aprofundado”.
            As canções de “Circa 1999” são como as cores. Dos vários tons de azul ao branco, com choque brusco com o negro e passagem ulterior para o castanho. Do céu para a terra. Símbolos de “um percurso cromático” – “quase um ‘travelling’ muito lento”, entre o claro e o escuro. Ou um “pôr-do-sol”, provavelmente o último antes do “novo alvor” de que fala a canção.
            Scott Walker, Peter Hammill, Syd Barrett, Edward Ka-Spel, dos Legendary Pink Dots. Arautos da alucinação. Devlin conhece bem a sua obra. “‘Tilt’ é uma referência, certamente, mas não o vou assumir como álbum-modelo. Percebo a comparação mas, por outro lado, são coisas distintas, não há, de modo algum, qualquer tentativa de recriação da mesma atmosfera…”. Psicadelismo? Um dos temas de “Circa 1999” tem como título “Cirros”. Os Pink Floyd gravaram “Cirrus minor”. As nuvens. “Não sabia, é fantástico! Os Floyd, do Syd Barrett, fizeram um disco fantástico, ‘The Piper at the Gates of Dawn’. “Hoje em dia já não consigo ficar deslumbrado pelo universo do rock e da pop, mas acredito que se for metido num saco, é nesse saco”. Hoje em dia, Bernardo Devlin prefere ouvir música clássica, “em casa, sozinho”. Rock, sobretudo “em casa dos amigos”. Pere Ubu e Roxy Music, por exemplo, atualmente até “mais inspiradores” do que Peter Hammill ou Scott Walker.
            Existe um lado mágico no disco. “O concretizar de algo faz parte de um processo de depuração extremamente pessoal. A energia é posta na concretização dos conceitos em causa. No decorrer desse trabalho há uma simbologia que se vai criando a ela própria”. As cores? “Também as cores. Mas não pretendo pintar a mesma tela repetidamente. Interessa-me fazer música que tenha vários níveis de escuta”.
            “Circa 1999 (9 Implosões)” é para se ouvir no escuro. Ou, no mínimo, “com as luzes baixas”. Na cabeça de Bernardo Devlin agitam-se já outros projetos: um “no formato 5.1 [som “surround”], chamado ‘Agio’, de canções eletrónicas e, em paralelo, um álbum duplo que se chamará “Vol. 3: As Duas Antenas do Caracol”. Risos. Fica a garantia: “Estou mesmo a falar a sério...”

09/12/2019

BERNARDO DEVLIN - Circa 1999 – 9 Implosões


Y 5|DEZEMBRO|2003
roteiro|discos

BERNARDO DEVLIN
Circa 1999 – 9 Implosões
Ed. e distri. Extremocidente
8|10

Devlin é um músico estranho, habitante de constelações geladas e com os olhos demasiadamente abertos para a noite. “Circa 1999” faz em absoluto jus ao complemento “Nove implosões”. A voz deste antigo elemento dos Osso Exótico situa-se algures entre o romantismo sombrio de Scott Walker e o tom operático de Peter Hammill, neste caso num registo próximo do de “The Fall of the House of Usher”. Entre a declamação, o lamento e a litania, Devlin fala da “Hora morta e outros segundos”, “À altura dos olhos” e de um “Novo alvor”, segundo uma gramática de secretas cifras interiores na qual “olhos” e “luz” são termos recorrentes. É dessa visão, alucinada (mas não é a alucinação a visão do invisível?) que nos fala e que nos esconde, sobre impenetráveis paisagens electrónicas que devem tanto à música industrial como à toca sem entrada nem saída de “Tilt”. Não é psicadelismo, porque a evasão onírica não é permitida, antes o desvario de poder de uma estranha cerimónia de sado-maso astral, em que a música – pianos tumulares, saxofones febris e eletrónica fabril, percussões dos abismos, naipes de cordas fúnebres - determina o mais pequeno gesto na encenação desta paixão infernal em forma de estátua.

21/08/2014

À margem [Bernardo Devlin, Free Field, Carlos Zíngaro]



SONS

15 AGOSTO 1997

BERNARDO DEVLIN
Albedo (6)
Ed. e distri. Ananana

FREE FIELD
Tales From Chaos (7)
Ed. e distri. Ananana

CARLOS ZÍNGARO
Release From Tension (7)
Ed. e distri. Áudeo

À margem

Veneno para os ouvidos e almas dos jovens. Ou antídoto contra o veneno da serpente da indústria? Seja o seu efeito a doença ou a cura, os discos até à data editados pela Ananana têm-se pautado pelo obscurantismo e radicalidade das suas propostas. Músicas intransigentes, nutrem um desprezo intenso pelas regras do “mainstream”. Correm, ao mesmo tempo, o risco de não ultrapassarem o círculo, por vezes restritíssimo, de alguns eleitos. Torna-se difícil distinguir o hermetismo, enquanto estratégia de uma “marginalidade” estética assumida, da vontade de divulgar propostas musicais que, pela sua própria natureza e vocação, têm dificuldades em encontrar veículos de gravação e promoção adequados.
Telectu, Carlos Zíngaro, Manuel M. Mota, Rafael Toral, Vítor Rua, Nuno Rebelo, Osso Exótico e Bernardo Devlin, os nomes até hoje editados pela Ananana, apresentaram obras marcadas pela diferença, ou mesmo pelo isolacionismo, algumas delas polémicas, outras narcisistas, todas elas, em maior ou menor grau, refratárias à facilidade e mergulhadas na procura ou na pesquisa de discursos musicais orgulhosa e furiosamente individualizados, por vezes, no limite da comunicabilidade.

Bernardo Devlin, antigo elemento dos Osso Exótico, apresenta nesta editora o seu segundo trabalho a solo, num registo de oposição quase absoluto ao anterior “World Freehold”. Enfeitiçado pelas visões poéticas de estados de consciência alterados, émulo de Syd Barrett, enquanto equilibrista da vertigem, à beira dos abismos da linguagem, Bernardo Devlin cria em “Albedo” – gravado numa igreja da Ordem Cartuxa, em Caxias – uma teia poética de realismo mágico, entoada com a gravidade alucinada de um Scott Walker. Álbum de “canções”, nele se assiste a uma curiosa recorrência dos elementos (fogo, vagas, terra, luz, sol...) que em “World Freehold” se materializavam num abstracionismo sonoro minimalista e, precisamente, elementar, e aqui se transmutaram no domínio do conceptual e da psicologia. É a diferença entre o toque da varinha na pedra e a invocação, numa música armadilhada e acústica que se aproxima, até nas suas premissas ideológicas, da “folk luciferina” de grupos como os Death In June e Current 93.

“Tales From Chaos” do projeto Free Field, aliás Vítor Joaquim, discorre sobre outros motivos e com um acréscimo de meios. Gravado igualmente numa igreja, desta feita em Santiago de Palmela, divide-se em duas composições, indexadas em partes, “Nothing Is Pure (In Electric Sound”) e “Everlasting Echo”, esta última uma instalação sonora composta para uma exposição de Andreas Stocklein.
Joaquim, fundador, nos anos 80, do grupo Clã, envolveu-se, nos últimos anos, em música para teatro, dança, cinema, publicidade e vídeo, recebendo, em 1995, o Prémio da Primeira Audição Pública para obras de música erudita, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores à composição “O Autor”. Teclista, programador, manipulador de samplers e toda a espécie de tecnologia elecrónica, rodeou-se ainda, na primeira daquelas faixas, de colaboradores como Carlos Zíngaro, Nuno Rebelo e Marco Franco, entre outros.
Música de síntese, “Tales From Chaos” viaja, em “Nothing is pure”, pela manipulação e colagem de sons e ideias, num universo ambiental não linear com localização próxima de Peter Principle ou Benjamin Lew. Pelas suas próprias características de música para suporte de imagens, “Everlasting Echo” é mais discreto e menos povoado de acontecimentos distrativos de uma linha ambiental, aqui mais claramente definida. Ideal para divagações ou contemplações várias, “Tales From Chaos” parece contradizer o seu título, oscilando antes em vibrações oníricas, parafraseadas, aliás, numa citação de capa, por J. Ellis: “Os sonhos são reais enquanto duram. Que mais podemos dizer da vida?”

Que mais podemos dizer da morte? O que Rui Eduardo Pais escreve no texto de apresentação de “Release From Tension” e sobre um dos músicos portugueses mais conceituados no estrangeiro, naquela que é a primeira edição da Áudeo, como editora. Para Paes toda a obra de Carlos Zíngaro se resolve numa tensão tanática que ilustra, em forma de metáfora funerária, com o título de uma novela de Tennessee Williams: “A semelhança entre um estojo de violino e um caixão”. O violinista acalenta, de há muito, dois projetos, de aproximação e captação dos sons ocultos do corpo. Um deles é a gravação da decomposição de um cadáver, numa encenação do “rigor mortis” musical. O outro, segundo processo idêntico, de apropriação e ampliação dos ruídos internos da função digestiva. Pode descortinar-se em “Release From Tension” uma idêntica operação de necrofagia, de dar vida (música, e não som, já que a morte, pelos vistos, pode fazer-se ouvir) ao inanimado, de ordenamento de pulsões musicais contraditórias que Zíngaro sublima no atonalismo e no abstracionismo eletrónico (ou ritual, como na “raga” de metal de “Open Series”) em temas cujos títulos exprimem, por si sós, essa dialética de silêncio/ruído, caos/gramática, vida/morte, estruturação/decomposição: “Desespero ritual”, “Devil angel”, “Body parts”. “Death ambient” chama-lhes Paes. A capa é o desenho cru de um corpo. Vivo? Morto?

03/06/2008

Do osso para a utopia [Bernardo Devlin]

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994

DO OSSO PARA A UTOPIA

Bernardo Devlin pertenceu aos Osso Exótico, uma banda estranha. A certa altura, resolveu sair – “por razões pessoais e estéticas”. Resolveu seguir carreira a solo e vai começar com um disco, “World Freehold”, que sairá com o selo Ananana, à semelhança do que já acontecera com trabalhos dos Telectu, “Off/Belzebu”, e de Carlos Zíngaro, “Musiques de Scène”, e acontecerá nos tempos mais próximos com Rafael Toral e “Sound Mind Sound Body”.
“World Freehold” tem quatro faixas longas: “World Freehold”, “The mystery od mirrors”, “World rearviewed” (improvisação instrumental) e “Season”, e nele participam, além de Bernardo Devlin, no canto, percussões, órgão, sintetizador e, num tema, violoncelo, o saxofonista Olivier Vogt, que também toca clarinete e percussões e já antes colaborara no segundo álbum dos Osso Exótico.
Diferente dos Osso Exótico? Bernardo Devlin diz que sim. Embora também diga que se “limita a prosseguir” algo que já começara na banda – um “elo” com ideias “que já tinha antes”. Ideias que passam pela “justaposição entre um ideal próprio, naturalmente indizível, e a estrutura de canção, embora não de formato tradicional”.
Os Osso Exótico pertenciam, pelo menos no primeiro álbum, à família dos que faziam a chamada música ritual-industrial. Bernardo Devlin acompanha a música de grupos como Current 93, Coil ou Einstuerzende Neubauten. Mas diz que “a única relação que possa haver” entre a música destes nomes e a sua é o facto de todos eles terem evoluído de um experimentalismo radical para o tal formato de canção. “Nunca me identifiquei com nada disso”, diz, “embora perceba perfeitamente que as pessoas fizessem a ligação com a chamada música industrial, em relação ao primeiro disco do grupo”.
“World Freehold” é um título bastante enigmático. Bernardo Devlin concorda, embora ressalvando que é “enigmático mas não no aspecto Crowliano [Aleister Crowley, célebre mago negro] em que estão os Current 93, os Coil e companhia”. Tem mais a ver com uma utopia”, explica, “o inglês tem palavras fantásticas. ‘Freehold’ é uma das que não existe em português, embora exista a tradução ‘propriedade livre e alodial’, sem encargos. Tem, sem dúvida, que ver com a utopia”.
Para Bernardo Devlin, “o espaço para alguma música que aconteça que não seja ‘mainstream’, música patética, existe”. Prova-o a simples existência dos Osso Exótico e o facto de já estar a trabalhar no seu próximo trabalho em disco, além de pretender levar as suas canções ao palco, incluindo as de “World Freehold”, “rearranjadas de forma a ser possível tocá-las ao vivo”.