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12/05/2020

"É tão bonito ouvir o interior do piano" [Bernardo Sassetti]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 2 OUTUBRO 2004

Impressionista dos sons e dos silêncios, Bernardo Sassetti escolheu o Índigo para cor e título do seu novo álbum. Um segundo CD, Livre, apresenta uma sessão de improvisações em Belgais, à época de Nocturno.

“É tão bonito ouvir o interior do piano”


“Nocturno” foi a constelação que em 2002 proporcionou um dos grandes discos de jazz desse ano. A responsabilidade em encontrar um sucessor era grande mas Bernardo Sassetti saiu-se a contento da tarefa. “Índigo”, o novo álbum, é uma nova prova de maturidade e um grande disco onde as impressões e as descobertas se sucedem. A primeira edição, a preço especial, é dupla e inclui um segundo CD, “Livre”, constituído por uma sessão de improvisações na Quinta de Belgais efetuada logo a seguir à gravação de “Nocturno”. “Índigo” e “Livre” completam-se, harmonizam-se como dois líquidos de densidades compatíveis. Talvez ainda mais do que em “Nocturno”, Sassetti revela-se um perfeccionista da nota exata, da cintilação tímbrica perfeita que espelha a emoção. A sonoridade do seu piano é cristalina, fluida, por vezes obcecada por uma frase ou um matiz mais duro, o silêncio infiltra-se nesse espaço onde a inspiração e a respiração da música se fazem sentir. Sassetti é um pianista preocupado com a luz e com a sombra, como um pintor (a embalagem mostra uma das suas aguarelas). Há a preocupação de contar histórias, por mais abstratas que sejam as palavras. E há o prazer de fazer e refazer a textura, de montar e desmontar as harmonias, de utilizar o contraponto como uma manivela de sentimentos que se escapam para múltiplas dimensões. “Índigo” é mais direto, o termo “bonito”, nalguns casos, “belo”, aplica-se-lhe com maior propriedade. Os motivos melódicos atraentes impõem-se, mesmo que o desenvolvimento de cada tema não seja em caso algum redundante ou vulgar. Monk é uma referência, no humor, na exploração das situações intermédias e das soluções de risco, nos contrastes fortes. Monk que contribui com três composições, “Raise four”, “In walked Bud” e “Pannonica”. “Livre” desenvolve-se segundo lógicas mais secretas que resultam do puro momento da execução, da coincidência do movimento das mãos sobre o teclado com o sopro criativo. “Clusters” oceânicos, escalas árabes, pequenas danças, “Livre” é uma cornucópia de formas em contração e dilatação. Como um rio. Tem histórias de encantar, tons de sangue e a quietude de um arranjo original de “Música callada”, de “Nocturno”.
            “Os dois discos complementam-se, existe em ambos um lado muito forte que é o prazer de tocar e de contar histórias”, diz o seu autor, de “tentar, de alguma maneira, transmitir imagens que fazem parte da minha vida. O que está aqui é o que eu sou. Quis transmitir com cada história manchas de cores e as suas evoluções”. É o Sassetti impressionista a falar. “O índigo é uma cor que na altura me acompanhava muito, gosto muito de pintar, o ato de pintar e a forma como chego às formas, às cores, às sombras e às luzes é idêntico ao de pintar uma melodia e de fazer as suas variações. É um ato momentâneo, pegar numa música e perceber a que caminho é que vou chegar, o que é possível fazer a partir do desenvolvimento de células musicais. Gosto de criar motivos recorrentes e toadas obsessivas. Existem, sobretudo em ‘Livre’, muitos ostinatos.” Sassetti vai mais fundo e é na exploração desses ostinatos que tenta perceber de que maneira consegue “transpor” a sua experiência “como pessoa, como terrestre”, para uma música que se pretende “abstrata”. “Tentar ilustrar a minha realidade utilizando a abstração, sobretudo utilizando a imaginação, porque aquilo que eu toco é a imaginação das coisas, a impressão das coisas.” A intuição comanda as operações. “Se eu parar para pensar, a música acaba, tem de ser um ato de fruição, de fluência musical.” Bernardo Sassetti entregou-se com entusiasmo à criação deste disco e é esse entusiasmo, essa ardência espiritual, que se desprende de cada nota de “Índigo” e “Livre”. “Mesmo com baldas.” Baldas? Não foram apagadas em estúdio? “Não! Há notas esborrachadas mas que fazem parte daquilo que eu sou (risos) não há nada a fazer. Não pretendo uma música perfeita.” Eis Monk de novo a assomar. Uma coincidência de modos de atuar e de sentir? “Claro, o Monk sempre terá uma presença muito forte na minha música, por uma razão muito simples: eu gosto muito do humor, da ilustração do humor musical. De que maneira é que podemos desconstruir a realidade utilizando o humor? Desconstruir as melodias e tentar encontrar uma linguagem nova. Pela primeira vez neste disco tive a preocupação absoluta em transmitir no piano um leque de sonoridades que nunca tinha conseguido antes. Por exemplo, o ‘My funny Valentine’, nunca tinha feito nada com tanta respiração, com uma sensação de tempo e de espaço que não são deste mundo.” Que mundo e que espaço? “Do mundo de quando eu me sento ao piano e toco.” Em Belgais, Bernardo Sassetti entrou para esse mundo através de um piano protótipo, de marca Yamaha, construído de propósito para Maria João Pires. “Eu nunca falei disto, mas o trabalho de pedais, sobretudo no ‘Índigo’ é notório, os pedais de suspensão, o pedal abafador, também utilizei muito o pedal do meio, que é raro utilizar. Existe uma preocupação de exploração do piano.” Neste caso, “um piano absolutamente extraordinário”. Convidámos o pianista a comentar quadro a quadro esse espaço e esse tempo especiais que fazem de “Índigo” e “Livre” discos únicos.

Bernardo Sassetti
Índigo
2xCD Clean Feed, distri. Trem Azul
9 | 10


A procura do desconhecido

“Livre”, o segundo CD, foi gravado durante dois dias. Puro prazer de desfrutar o momento. “Atirei-me ao piano. Foi um ato muito natural. Em Belgais sinto-me totalmente em casa. Estava ali naquela, vamos lá desabafar. Quando fiz o ‘Nocturno’ já não gravava há quase sete anos. Acabei de gravar o ‘Nocturno’ e resolvi ficar mais uns dias. Apetecia-me continuar a gravar. Gosto muito deste trabalho, mais que não seja pelo lado aventureiro, foi um desafio, sentar-me ao piano e falar com o instrumento.” De “Livre”, Bernardo Sassetti destaca os três movimentos de “Histórias de Sherazade”, “Alizarin” e “Jelly dream”. “Sherazade é uma história que eu andava a ler. Sherazade que foi condenada pelo sultão mas que, no encontro entre eles os dois, começou a contar-lhe histórias ao ponto de o sultão ficar encantado e esquecer a condenação. Quis transmitir este lado encantatório que tem a música do Médio Oriente, mais uma vez sentir que não existe nem tempo nem espaço, uma procura das notas sem ter na cabeça qualquer conceção temporal.” “Alizarin’ foi a aventura total, a procura de sonoridades diferentes, de caminhos que nunca tinha explorado antes. É uma tonalidade vermelha muito forte, muito sangrenta. Estamos como na corrente de um rio, nunca sabemos para onde nos leva a corrente. Mas eu, por muito espacial e introspetivo que seja, tenho sempre a noção do que estou a fazer. Muitas vezes o que penso é como é que vou sair desta. Estou a desconstruir isto, agora como é que vou sair daqui, como é que posso intercalar a construção e a desconstrução, de uma forma lógica.” “Índigo” e “Livre” fazem sentido, com a sua fluidez aquática e tudo termina num sonho que não é “jolly” mas “jelly”. “Jelly dream”, o culminar de uma relação apaixonada com o piano. “É o tema mais importante – a procura do desconhecido, de qualquer coisa que não conheço. É o princípio do que está para vir. E deixo a frase intencionalmente em aberto.”


Quadros de uma exposição

Índigo
É a cor do tema. Aquele lado escuro. O cultivar dos acordes numa base mais grave e construir o tema a partir daí, com aparições de luz nas melodias da mão direita. Tive sempre em mente esta cor.

Promessas
É um tema que foi escrito mas que teve na gravação a sua evolução máxima. Foi desenvolvido no momento. Gosto de ter um tema e não pensar que este tem uma versão definitiva.

My ideal
(Newell Chase,Richard A.Whiting, Leo Robin)
Aconteceu-me uma coisa muito engraçada. Estava a tocar, a tocar, a tocar, durante três horas seguidas este tema e o engenheiro de som, o Nélson Carvalho, que estava na régie, diz-me: “Ó Bernardo, não achas que já chega de ‘My ideal’? Acho que estás a começar a dar em louco.” Mas eu estava a gozar tanto… A letra, que foi celebrizada pelo Chet Baker, é uma piada muito romântica, a procura de um ideal de mulher, por parte de quem canta. Tentei um pequeno golpe de humor. Gostei de dar ao tema só a melodia, com a mão direita, sem acordes, sem harmonia, sem nada. A partir daí entrei numa viagem humorística. O meu ideal de mulher seria uma mulher com muito sentido de humor.

Never let me go
(Jay Evans, Jay Livingston)
Gostei de fazer uma introdução que me levasse ao tema. Começar a descobrir lentamente que se adivinhava ali um tema. Mas achei necessário respeitá-lo, sobretudo respeitar a melodia, ter sempre em mente a letra da canção. E depois há uma espécie de conclusão que é a exploração máxima do motivo principal, mas que não passa pela estrutura original.

Raise four
(T. Monk)
É um “blues”. Com uma célula musical de um compasso repetido “on and on” dentro da estrutura do “blues”. Tem um lado muito abstrato. E tem outra coisa curiosa: É brincar com o “acorde do diabo”, a quarta aumentada, que era uma coisa de que o Monk gostava muito e que também ouço na música do Messiaen, outra influência muito forte. Foi pegar no “blues” e desconstruí-lo ritmicamente até chegar a um ponto em que não consegui desconstruir mais. A partir daí tem de ser só construção. Nos temas do Monk foi sentar-me e gozar à grande.

Caminho até aqui
Não é original e vem da música clássica. Musicalmente já tudo foi feito até aqui. No séc. XX houve uma avalanche de novas ideias. Procurei, não inovar, mas sentir-me bem a tocar um percurso que tem a ver com o meu conhecimento dos espanhóis, músicos de flamenco. Começa de forma abstrata e depois, lentamente, vai-se transformando numa canção de embalar flamenca, com a sonoridade de uma escala arábica.

Inquietude
O tema mais difícil que gravei até hoje. De longe. É um tema muito pausado. Gosto da ideia do homem, neste caso eu, estático, mas inquieto por dentro. O facto de se chamar “Inquietude” não implica um movimento frenético. É uma forma estática de contemplação, de olhar para o infinito enquanto cá dentro se passa muita coisa, um conjunto de pensamentos que se cruzam.

Prelúdio em sol menor
Foi um tema que escrevi para um filme. Adoro o “ostinato”. Curiosamente é um tema bonitinho, mas que não me interessa tanto como a reviravolta que opero dentro dele. Há um lado muito poético, muito lírico. Gravei-o à procura dessa reviravolta. Poder passar para o outro lado. Pegar no tema, essencialmente um “leit-motiv”, e esquecê-lo.

In walked Bud
(T. Monk)
A procura, como em “Never let me go”, do espaço. Ritmicamente é mais frenético do que qualquer outro, tem uma toada que quase não para. Além disso, não sabia que estava a ser gravado. Gravei o tema todo, só que cheguei ao fim, logo a seguir ao almoço, e parei. No fim, recorri ao “edit” e gravei o tema final, a sua reexposição. É para isso que serve a tecnologia. O resto do disco foi todo de enfiada. Mas neste tema, não sabendo que estava a ser gravado, parei no fim do solo.

My funny Valentine
(Richard Rodgers, Lorenz Hart)
É uma referência para muitas pessoas. Interessava-me pôr este tema de uma forma que expressasse uma das minhas atuais preocupações: quanto tempo é que posso usar um silêncio? Poder lentamente digerir cada nota. Cheguei a um ponto, na minha carreira, em que o que pretendo é tirar a palha. É tão bonito ouvir o interior do piano. A exploração do silêncio na música vai ser o meu próximo passo. O silêncio simbólico.

Descarga!
(Bernardo Sassetti, Ed Simon)
É um compasso todo marado. Um baixo “ostinato” do Ed Simon, um amigo meu e um pianista de eleição que durante muito tempo fez parte do grupo do Terence Blanchard, um génio. Funciona como uma descarga de energia. Vamos lá tocar! Toca a andar! Tem também muito humor.

11/03/2020

Pianos de Abril [Mário Laginha e Bernardo Sassetti]


DESTAQUE – FESTA DO “AVANTE!”
SEGUNDA-FEIRA, 6 SET 2004

Crítica Música


Pianos de Abril

Mário Laginha e Bernardo Sassetti
Quinta da Atalia, Festa do Avante. Sábado. 22h30
Recinto cheio.

Volvidos 30 anos sobre a revolução de Abril o sinal radiofónico que desencadeou as operações militares voltou a soar. Desta feita, porém, não para fazer avançar os tanques e chaimites, mas os dois pianos, de Mário Laginha e Bernardo Sassetti, na estreia oficial, ao vivo, sábado, na Festa do “Avante!”, de “Seis Canções e Dois Pianos”, suite de temas incluída na edição discográfica “Grândolas – A Revolução que começou com música”, alusiva ao 25 de Abril.
Frente a frente, em diálogo de sensibilidades complementares, Laginha e Sassetti arrancaram novas “nuances” a “Grândola, vila morena” e outras canções de José Afonso. Com o “auditório” 1º de Maio à cunha, o fervor revolucionário deu lugar a outra espécie de luta onde a música derrubou a ditadura das notas resignadas. A hora não era de gritos, mas de se ouvir, com novos ouvidos, a música do autor de “O Coro dos Tribunais”. Sob a luz fraca dos holofotes e com o desconforto da enorme tenda de campanha que fez as vezes de auditório, fez-se silêncio para se ouvir um outro Zeca Afonso.
“Chiu” – lançavam alguns mais impacientes perante o entusiasmo mal contido de outros, provocado pela audição de frases musicais mais facilmente identificáveis. Porque Sassetti e Laginha não facilitaram, optando pelo desenvolvimento harmónico em profundidade ao invés da reprodução superficial das melodias que todos conheciam de cor. O jazz ditou as suas leis, como não podia deixar de ser, impregnando arranjos onde a improvisação funcionou como ferramenta adicional de exploração.
De José Afonso os dois pianistas interpretaram “Venham mais cinco”, “Era um redondo vocábulo”, “Traz outro amigo também”, “Filhos da madrugada” e “Grândola, vila morena”, tocando, de permeio, ainda “E depois do adeus” – juntamente com “Grândola” uma das canções que serviu de senha ao golpe militar – e um surpreendente “Hino do MFA” reatado como exemplo de lirismo.
Não se tratou, em suma, de uma reprodução fiel do alinhamento do disco, uma vez que faltou “Canto moço” e apareceram como novidades “Era um redondo vocábulo” e “Filhos da madrugada”, mas de um périplo mais lato pela música de José Afonso, tornada nalguns casos praticamente impossível de identificar fora do enquadramento do refrão, dada a complexidade e natureza dos arranjos. Complexidade muitas vezes presente nas próprias composições do cantautor, como fez questão de acentuar Bernardo Sassetti, salientando, no entanto, a sua omnipresente fluidez.
Houve força e comunhão no concerto. Dos dois pianistas com a música. De um com o outro. Sentiu-se como se fosse um único e imenso intérprete de quatro mãos, de tal forma, as notas de cada um se interligaram na perfeição. Crescendos que derivaram para a quase dissonância, numa assunção do risco que José Afonso nunca desdenhou, insistências e padrões minimalistas, envolvimentos harmónicos em espiral, momentos de contemplação, o fazer e desfazer de “puzzles” rítmicos, criaram a justa medida de uma música que assim se revelou fonte de mil e uma descobertas. Na primeira metade do concerto foi um Laginha Keith Jarrettiano que fez valer a agilidade da sua mão direita, a liderar solisticamente os acontecimentos. Depois trocaram de piano e foi a vez de Sassetti, sob a inspiração de um Bill Evans, se lançar no desenho das linhas melódicas mais em destaque. Em qualquer dos casos sempre, um e outro, em comunicação estreita, oferecendo a cada tema uma carga emocional intensa.
“Grândola, vila morena” foi assim qualquer coisa de secreto, com dinâmica implosiva mas carregada de energia, no anúncio de uma revolução que começa por ser interior e que a História se encarregou de transformar em hino à liberdade.
Entusiasticamente aplaudidos, Laginha e Sassetti tiveram direito a um “encore” e utilizaram-no com “We shall overcome”, um espiritual que pontuou da melhor maneira o movimento dialético do restante concerto.

EM RESUMO
Funcionando como um só, Laginha e Sassetti recriaram de forma superlativa a força e o lirismo da música de José Afonso, acrescentando-lhes a complexidade de arranjos jazzísticos marcados pela intensidade emocional

26/11/2019

Dois pianos a contar de cima [Mário Laginha e Bernardo Sassetti]


JAZZ
CAPA
PÚBLICO 8 NOVEMBRO 2003

Mário Laginha e Bernardo Sassetti é a estreia discográfica nascida da colaboração e das afinidades entre estes dois pianistas. Um encontro de sensibilidades complementares onde a improvisação tem um papel determinante. O jazz deles. Tocado com a naturalidade, mas também com o espírito de viajante comum a ambos. A apresentação oficial está marcada para o dia 13 deste mês na nova Fnac, em Gaia


Dois pianos a contar de cima

Freddy Kruger contra Jason Voorhees. Mário Laginha “contra” Bernardo Sassetti. Dois monstrous sagrados do jazz feito em Portugal combatem lado a lado em “Mário Laginha e Bernardo Sassetti”, disco de piano, dois pianos, apostados em fazer sobressair de duas sensibilidades musicais necessariamente distintas uma terceira pessoa nascida de uma cumplicidade que tem vindo a fortalecer-se ao longo de várias etapas em espetáculos ao vivo, como o de Junho do ano passado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Sassetti e Laginha chegaram ao jazz por vias diferentes e nem sempre permanecem por lá. Mas o gusto pela improvisação e pelo diálogo é notório. Laginha, cuja agenda com a cantora Maria João, seja na gravação de álbuns como “Danças”, “Chorinho Feliz”, “Lobos, Raposas e Coiotes”, “Mumadji”, “Cor” e “Undercovers”, seja em concertos, tem deixado pouco espaço para outras aventuras, já dialogara com outro pianista, Pedro Burmester, em “Duetos” (1994). Sassetti, por seu lado, gravou “Mundos” e um “Nocturno” que é um dos grandes discos de jazz nacional lançados o ano passado. Recentemente lavrou a sua assinatura nos arranjos orquestrais para o concerto de celebração dos 40 anos de carreira de Carlos do Carmo. Viajantes por natureza, dos lugares e dos sons, combinam semelhanças e diferenças. Laginha é o extrovertido capaz de juntar no espírito Bach, Keith Jarrett e os ritmos africanos. Sassetti, o introvertido dobrado sobre os silêncios, enredado nas sombras e nas luzes que Bill Evans legou ao jazz, mas também o impressionista dos pontos e manchas que adquirem sentido à distância mais íntima. No disco, porém, trocam por vezes de papel e nem sempre o que parece é. Da alma até à ponta dos dedos e destes até ao marfim das teclas vai um instante de eternidade. Os próprios explicam como se percorrem os caminhos.

“Mário Laginha e Bernardo Sassetti” é o prolongamento lógico dos vossos espetáculos ao vivo?
            Bernardo Sassetti — Tem menos a ver com os concertos do que com o repertório, apesar de haver temas antigos que aparecem em novas versões, como “A menina e o piano” ou “Señor Cascara”.
            Mário Laginha — No ano passado começámos a tocar juntos mais regularmente e a sentir necessidade de arranjar mais repertório. O que tínhamos dava um bocado à conta... para um concerto relativamente curto.
Grande parte dos temas são improvisações, ou “Imprevistos”, como lhes chamaram…
            M. L. — Foram improvisados no estúdio. E temas como “Diabolique”, “Fisicamente” e “A segunda gaveta a contar de cima” são temas novos, mais longos.
Tocam sempre os dois em simultâneo, ou também há solos?
            B. S. — Há momentos a solo...
            M. L. — ...Tudo sem truques nenhuns.
Aos primeiros “takes” ou foram necessárias repetições?
            B. S. — Foi uma sessão de estúdio extraordinária. Em geral saiu tudo ao primeiro “take”, fi cou mais fresco. Às vezes nota-se, quando se repete de mais...
Algum motivo especial para o título se ficar pelos vossos nomes?
            B. S. — Foi propositado. Mas pensámos muito nisso. Como disco de apresentação resolvemos não recorrer a um título.
            M. L. — Embora a ideia não nos fosse desagradável. Mas não queríamos pegar num dos temas e usá-lo como título. Quando isto acontece, as pessoas pensam logo: “Olha este é ‘O tema’!” Para nós conta apenas o todo.
Este é um disco de jazz. Mas a conceção que cada um de vocês tem do jazz é diferente. Tiveram que proceder a adaptações?
            B. S. — Eu comecei na música clássica, mas a partir do momento em que me apaixonei pelo jazz foi de rompante. Deixei totalmente de parte a clássica. Mas essa é uma questão pertinente…
            M. L. — Não houve esforço nenhum. Se tivesse havido, perdia um bocado a graça. Nenhum de nós está a tentar aproximar-se linguisticamente do outro. Agora... ambos temos intuição. Quando se está a tocar, é preciso saber ouvir o outro.
            B. S. — Ouvir o outro com ouvidos diferentes. Não digo que noutras formações não tenhamos a mesma atenção, mas aqui estamos a falar de dois pianos.
            M. L. — O que faz com que não haja nenhum tema para encher. Há ótimos discos, por músicos fabulosos, que improvisam muito bem, mas...
O que é que vos separa e vos aproxima musicalmente?
            M. L. — Ambos gostamos imenso de improvisar, ambos gostamos imenso de escrever, ambos gostamos imenso de arranjar.
            B. S. — O Mário tem uma característica extraordinária que encontro em muito poucos pianistas — uma capacidade polifónica e de criar melodias e contrapontos com as duas mãos em tempo real. Aprendo sempre com ele. Eu tenho uma conceção diferente.
            M. L. — Ele, às vezes, é desconcertante, porque tem um lado que identifico como jazz, de alguém que conhece ao mais alto nível a história do jazz, mas que depois abriu um caminho que falta a muitos pianistas, que é o lirismo, a par da capacidade melódica.
Um é extrovertido e o outro introspetivo?
            B. S. — É muito possível. Embora uma das minhas composições neste disco, o “Señor Cáscaro” seja a atirar para a frente. Mas é apenas um caso. O Mário é daqueles pianistas que toca com garra. Eu tenho talvez muita consciência, um cuidado extremo com o toque, o “touch”. Há algumas gravações minhas, antigas, em que noto alguma estridência e isso teve muita importância, fez-me mudar, neste momento estou mais lírico, presto atenção ao som de cada coisa que faço.
            M. L. — Olho para a lista de temas deste álbum e noto uma coisa engraçada. Há um lado de mim menos representado. Sempre fiz temas, não digo que para fazer chorar as pedras da calçada, mas muito líricos, mas aqui, realmente, não.
Para o Mário, este álbum representou também a oportunidade de mostrar outro lado de uma música que nos últimos tempos tem andado quase sempre ao lado da voz de Maria João?
            M. L. — De facto, durante uns anos, estive de tal forma enredado nesse trabalho que, embora não tenha morto outros projetos, não lhes dava continuidade. De há uns tempos para cá decidi que isso tinha que acabar. Há outras coisas que não quero deixar de fazer.
No caso do Bernardo, aconteceu o oposto. O trabalho que fez recentemente para o Carlos do Carmo é uma exceção.
            B. S. — Sim. Foi um desafio que aceitei e que me deu imenso gozo — sobretudo por ele me ter dado carta branca, de me dizer: “Eh pá, faz o que quiseres!” Claro que não ia começar a fazer música contemporânea, estamos a falar de fado e de um espetáculo no Coliseu, mas, harmonicamente, muitas coisas foram mudadas. Depois esse outro gozo de poder fazer “sacanices”, no bom sentido, pôr umas coisas marotas lá pelo meio... O Hermeto Pascoal disse uma vez uma coisa muito engraçada, num concerto em Guimarães. Começou a tocar o “Coimbra” e, às tantas, vira-se para o público e diz: “Esta melodia é tão interessante, tão bonita, mas vocês aqui em Portugal... Harmonicamente isto é muito fraquinho, vocês deviam puxar a música para a frente.” E começa a fazer umas harmonias extraordinárias.
Da junção das vossas músicas nasce uma Terceira entidade?
            M. L. — Sim. Existem poucos discos apenas com dois pianos, só me consigo lembrar do Herbie Hancock com o Chick Corea. O que fizemos tem uma identidade própria, é o primeiro bom sinal de que uma música pode ter, mesmo sem ser feita para parecer novidade. A originalidade é uma coisa muito relativa e subjetiva. As pessoas têm as suas influências, a tonalidade, a partir do “free”, também já está mais do que explorada. Nós tocámos e gravámos despreocupadamente, mas essa identidade existe.
Essa despreocupação implicou ausência de tensão? Um menor esforço? Para dois pianistas que encaixam tão naturalmente, a facilidade pode não ser boa conselheira.
            M. L. — Essa naturalidade tem mais a ver com a forma como encarámos o projeto. Há temas que deram um trabalho imenso a montar, difíceis tecnicamente, como “Fuga para dois pianos”, “Diabolique”, “A segunda gaveta a contar de cima” e “Señor Cáscara”.
            B. S. — Quando estamos a ler uma partitura, o problema pode estar em que, ao princípio, cada um de nós se preocupa mais com a sua própria parte e deixa um bocadinho de ouvir a outra. Estamos preocupados em tocar aquilo bem, metidos um bocadinho para dentro. A partir do momento, porém, em que começamos a perceber o que são as duas vozes, quais as dinâmicas, o que cada um tem ou não que fazer, então aí é que começa o trabalho a sério. De resto, é trabalho de casa, a dois, um trabalho que demora muito tempo. “O sonho dos outros”, por exemplo, é bastante mais simples de montar. Ou a “Despedida”. Mas na “Segunda gaveta...” tivemos que perceber muito bem o que se estava ali a passar!
            M. L. — Até ficar como está no disco parece não ter havido conflito. Ambos detestamos sentir que o ritmo se perdeu, um ritmo que, por exemplo, em África, acontece naturalmente, mas que no Ocidente, uma pessoa está a tocar, e até está a soar bem e, de repente, o “groove” ardeu. Odeio isso. Quando o “groove”, o “swing”, se vai embora. Há neste disco imensos temas que swingam, mas até swingarem, até se chegar lá, não foi uma coisa imediata, encaixar o sentido e as acentuações e depois fazer isso já intuitivamente.
No álbum alternam composições mais longas com miniaturas de pouco mais de um minuto. Interlúdios?
            B. S. — O único efetivamente pensado como tal foi “Despedida”. No meio de tanto improviso, decidimos fazer uma versão só com o tema.
            M. L. — Normalmente, durante as gravações, chegávamos ao fim do dia e fazíamos um improviso. Acabou por ser esse o espírito.
“Mário Laginha e Bernardo Sassetti” não é um disco difícil de se ouvir. Nunca pensaram em arriscar outro tipo de música, menos imediatamente apelativa  ou então qualquer tipo de “tara” musical, politicamente incorreta, do tipo “easy listening”?
            B. S. — Neste primeiro disco quisemos pegar em tudo o que tínhamos feito até agora. Não há grande diferença, em termos de espontaneidade, não há grandes diferenças em relação ao concerto.
            M. L. — Tenho horror ao “easy listening”, embora até goste de alguma “má música” (risos) e haja bons tipos a fazer isso, mas mais facilmente aprecio uma canção pop. O “easy listening” é uma música profundamente estúpida, em que se utilizam conhecimentos razoáveis, de tipos que até sabem tocar bem, para fazer algo completamente vazio. Irrita-me. Desejo inconfessável seria, como já pensei fazer, um disco comigo a tocar guitarra e a cantar, com a minha voz absolutamente horrível (risos). Não tenho voz nenhuma, mas afino! Outra coisa, não tão inconfessável, passa pela gravação de uma música mais difícil.
            B. S. — Eu tenho algumas coisas na manga, sobretudo bandas sonoras. É raro poder-se editar uma banda sonora em Portugal. É difícil as Pessoas imaginarem quão complicado isso é, em termos de produção, de entrega, de financiamento. Um disco que gostaria de fazer, embora fosse necessária muita coragem para o editar, era um de coisas trabalhadas dentro do piano, na caixa harmónica, nas cordas, na harpa. E sobretudo um disco com muito, muito silêncio. Uma coisa é certa, na rádio não passaria (risos).
            M. L. — Entre o primeiro e o segundo acorde punham publicidade (risos).
Tanto “Nocturno” como “Undercovers”, os vossos discos anteriores, venderam bem. Existe finalmente um mercado para discos de jazz feitos em Portugal? Ou são exceções?
            M. L. — Acho que haverá sempre mercado para os discos de jazz, mesmo numa sociedade com tendência para a estupidificação, como a nossa. Há sempre camadas que reagem. Isso sempre aconteceu e sempre acontecerá. De uma maneira geral, o problema está em que as pessoas não são estimuladas a ouvir coisas que desconhecem. Mas, quando se aposta mais, às vezes há surpresas e descobre-se que afinal até há pessoas que compram. É claro que não compram às centenas de milhares, mas compram uns milhares. Apesar de sermos um país pequeno, quanto mais discos se fizerem, melhor.
Mas então, por que razão gravaram este álbum em edição de autor e não através de uma editora? De onde veio o dinheiro para a gravação?
            M. L. — Não é um disco de autor por não ter havido editoras interessadas. Foi uma opção. Estou mais ligado à Universal e o Bernardo à Trem Azul...
            B. S. — Mas é importante não termos, como não temos, exclusividade.
            M. L. — No meu caso, a ligação tem mais a ver com os discos com a Maria João. Se o Bernardo viesse para a Universal, a Trem Azul era capaz de ficar um bocado melindrada. O oposto teria o mesmo efeito na Universal. Acabámos por pensar que a melhor maneira de ninguém ficar ofendido seria fazer um disco de autor. E até tivemos sorte, porque a Fnac quis exclusividade. Mas nem se trata de um disco caro...
O ambiente de estúdio foi determinante nas gravações?
            B. S. — Gravámos no estúdio do Mário Barreiros, em Canelas, no Porto, um estúdio cinco estrelas, mesmo a nível mundial.
            M. L. — Tudo em madeira, grande, com respiração...
            B. S. — O Mário já tinha gravado lá, o “Undercovers”, cujo som considero extraordinário, e o Mário Barreiros é um técnico sublime, além de um grande músico. Tem uma inteligência e uma rapidez de fazer as coisas estonteantes.
Têm expetativas elevadas em relação à aceitação deste álbum?
            M. L. — Gostaria que as pessoas ouvissem e gostassem, que acontecesse cumplicidade, comunhão. Adoro tocar ao vivo, não há nada melhor, sentir, quando entro no palco, que as pessoas já ouviram o disco e querem mesmo estar ali no concerto.
“Mário Laginha e Bernardo Sassetti” é um disco de jazz “mainstream”? O termo incomoda-os?
            B. S. — Não acho que seja... M. L. — O “mainstream” nãotem a ver com ser bastante tonal ou não, mas com o tipo de linguagem. E, nesse aspecto, não é. Mas é uma música comunicativa, que não se fecha sobre si mesma.
Como é que se evolui como músico de jazz em Portugal?
            B. S. — É muito importante os músicos saírem de cá. Ir apanhar ar lá fora. Vivi muitos anos em Londres, também estive algum tempo em Nova Iorque, e é realmente extraordinário. Realizam-se sessões descontraídas, à tarde, para as pessoas tocarem, só pelo gozo. Aqui é mais complicado... Chega-se a um ponto em que deixa de haver entusiasmo em relação ao meio. Os músicos novos que querem mesmo fazer esta música têm que sair daqui. Isto é muito pequeno. Uma província. Lisboa é uma cidade grande, mas, se formos a ver, tem características que me fazem pensar em fachada. Há muita fachada e pouco conteúdo. Isto empobrece o espírito. Existe a mania de dizer “nós temos”, “nós fizemos” o maior edifício, a maior sede de não sei quê, o maior oceanário, “porque nós os portugueses também podemos e conseguimos!”... É extremamente redutor.
            M. L. — São os mesmos que depois se vergam ao que vem de fora!
Ambos gostam de viajar. Que viagens, musicais e geográficas, mais os marcaram?
            B. S. — A música que me fez vibrar mais até hoje foi a do Brasil. Em Niterói, tanto os sons de batucada no meio da rua, durante uma manifestação popular, como, às duas da manhã, um grupo de velhinhos a tocarem forró, vestidos como se tivessem acabado de sair da cama. Quatro horas a tocar, das 2h às 6h. Sem parar! Há outra música que me fascina em particular: o flamenco. Tenho estado a tocar e a aprender com o grupo Cruce de Caminos, como o Perico Sambeat e o Gerardo Nunez. Atualmente tenho andado a ouvir música fúnebre para cordas, de Lutoslawski, pelo Kronos Quartet.
            M. L. — Também o Brasil. Depois, África, pela qual sinto um fascínio enorme. Às vezes procuro imitar ritmos que não são feitos em piano, mas em guitarra, numa kora ou num balafon. Isso dá-me ideias — por exemplo, há um tema no “Cor”, “Rafael ou a cor de Moçambique”, cujo balanço foi conseguido a partir da imitação de uns balafons, até transformer o ritmo numa coisa pianística.
Existe um jazz português, da mesma maneira que existe um jazz inglês, um jazz francês ou um jazz italiano?
            B. S. — Sim! Uma sonoridade específica. No Mário, por exemplo. Oiça-se várias das “Danças”. Também em temas do João Paulo, do Carlos Bica e do Carlos Barretto.
            M. L. — Mas não são elementos óbvios. O José Duarte dava como exemplo – do qual discordo completamente – o Chano Dominguez, ao pegar num “standard” qualquer e transformá-lo numa rumba. Eu isso acho que não. Agora misturar flamenco com outras coisas, como fazem os Cruce de Caminos, acho bem. Pegar em temas populares portugueses e adaptá-los... Se isso é jazz português, prefiro estar a milhas!


Obcecados pelo belo

MÁRIO LAGINHA E BERNARDO SASSETTI
Mário Laginha e Bernardo Sassetti
Ed. de autor, distri. Fnac
8 | 10

A música nasce em crescendo, escorre como água, em acordes que aos poucos se vão organizando, como a lição de piano da criança deslumbrada que descobre a origem dos sons, em “A menina e o piano”, ponto de partida do primeiro álbum de dois pianistas que procuram na música do outro o complement e uma resposta para as suas interrogações musicais. Escutam-se evidências. Nesta nova versão do tema compost originalmente para “Chorinho Feliz”, à semelhança dos outros compostos por Laginha (“Fuga para dois pianos” e “Despedida”, ambos do álbum “Hoje”, de 1994, e o inédito “Fisicamente”), o ritmo impõe-se como fio condutor, o “touch” é marcado, o “swing” quase “ragtime” na “Fuga”, gismontiano na “Despedida”, e “Fisicamente” um poderoso diálogo de “riffs”, sugestões de chorinho e harmonias em cascata. Já “A segunda gaveta a contar de cima”, escrita em primeiro lugar para a Orquestra de Jazz de Matosinhos, jarrettiana na essência, será o mais natural ponto de confluência entre os dois pianistas portugueses. Jogo quase telepático, de notas vivas e vívidas, “clusters” e expressividade a roçar a euforia. A métrica pode soar insistente, quase repetitiva, mas é também daí que as surpresas e as soluções brotam, a justifi car a explicação dada pelos seus intérpretes: “Temos ambos um fascínio por um lado obsessivo, em usar uma repetição lógica e explorá-la até à exaustão.” À pergunta “Onde é que isto nos vai levar”, respondem com a disciplina antidogmática dos espíritos nómadas: “Entramos numa tonalidade e às tantas começa a fundir-se numa linguagem mais impressionista e menos tonal.” Em Sassetti, pelo contrário, a intrincada rede de luzes, por vezes ofuscantes, do novo arranjo para “Señor Cáscara” (do álbum “Mundos”) é a excepção às filigranas impressionistas de “O sonho dos outros” (de “Nocturnos”), janela entreaberta para a matemática secreta de Satie, “Diabolique” (surpreendente pela violência dos contrastes) e um “Renascer” com a mesma tranquilidade de Brian Eno. A escrita de Billy Strayhorn em “take the A train” introduz o universo ellingtoniano na teia harmónica da dupla e acaba por ser nos três “Imprevistos” que os dois completam a fusão das respetivas linguagens pianísticas, pela improvisação. É também aqui que, ao esbaterem-se as diferenças, a música deixa diluir alguma da sua força “narrativa” para se revelar como geometria de um jardim zen, aspeto em que o “Imprevisto nº2”, minimal como um mantra de Terry Riley, se mostra exemplar.

15/10/2018

Balanço do ano - Jazz


PÚBLICO 4 JANEIRO 2003
JAZZ
2002

>> Balanço do ano

2002 foi ano de grande jazz em português. A nova editora Clean Feed deu o mote, lançando para o caldeirão dois clássicos instantâneos, com as assinaturas de Carlos Barretto e Bernardo Sassetti. Lá fora, o "free", o "pós-free" e o que virá a seguir rivalizaram com manifestos de afirmação por alguns dos clássicos eternos, num ano que foi também de boas reedições. À frente de todos pusemos o disco, dos Spring Heel Jack, que mais tem dividido as opiniões. Prova de que, afinal, o jazz conserva intacto o dom de provocar.

01 |
Spring Heel Jack Amassed (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Saído das mentes distorcidas, mas livres e visionárias, de dois homens que não faziam parte do jazz – John Coxon e Ashley Wales –, "Amassed", depois do ensaio prévio que é "Masses", revolucionou os parâmetros do jazz eletrónico, samplando o que, no passado, pertencera ao domínio do analógico nas visões orquestrais de George Russell ou nas pulsações barrocas do "Synthesizer Show" montado por Paul Bley e Annette Peacock, numa catedral de alucinações que serve de suporte à "free music" remodelada em espiral de loucura por alguns dos seus expoentes – Evan Parker, Han Bennink, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler. Se até o "bebop", por altura da sua génese, foi considerado o "fim do jazz", e Coltrane vaiado como uma farsa, como não conceder igualmente aos SHJ essa suprema honra de provocar em doses iguais a paixão e a repulsa?

02 |
Gianluigi Trovesi Dedalo (Enja, distri. Dargil)
Celebração orquestral com a WSR Big Band alemã, Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), "Dedalo" recupera o clássico "From G to G", remontado-o num labirinto onde se cruzam os caminhos do "vaudeville", Zappa, Ellington, Gil Evans, Don Ellis, jazz progressivo e jazzrock, moídos, destilados e incendiados por uma imaginação delirante. O homem é um feiticeiro.

03 |
Dave Holland Big Band What Goes Around (ECM, distri. Dargil)
Alguma da música "antiga" deste notável contrabaixista é aqui tornada matéria de novos "standards" pessoais, em formato de "big band" a dar mais volume e cor ao habitual quarteto que tem acompanhado Holland nas suas últimas realizações para a ECM. Enriquecimento e desafio numa proposta de criação de um território instrumental onde leitura, arranjos e improvisação se confundem.

04 |
Carlos Barretto Trio Radio Song (ed. e distri. CBTM)
Enquanto solista, voz dialogante ou peça de suporte, Barretto confirma a maturidade e a segurança dos seus recursos técnicos, num álbum de múltiplos matizes que conta com a mais-valia do músico francês Louis Sclavis.

05 |
Bernardo Sassetti Nocturno (Clean Feed, distri. Trem Azul)
Gravado em ambiente de "verdadeira magia" na Quinta de Belgais, "Nocturno" é uma incursão impressionista nos meandros mais íntimos do piano. Como Bill Evans, Sassetti cria a partir da célula e a partir dela inventa a noite.

06 |
Wayne Shorter Footprints Live! (Verve, distri. Universal)
Trata-se, por incrível que pareça, do primeiro álbum ao vivo deste notável executante dos saxofones tenor e soprano, antigo "sideman" de Miles e cabeça falante dos Weather Report. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um "statement".

07 |
Joe Giardulo, Joe McPhee, Mike Bisio, Tani Tabbal Shadows and Light (Drimala, distri. Trem Azul)
Um lento avolumar de tensões e incandescências em que o jazz "apodrece", para das suas cinzas se erguer a fénix renascida. O tenor de McPhee gasta-se, corrói, cria andaimes e poços. Giardulo é o nevrótico de serviço. "Shadows & Light" tenta apanhar o além, o dia seguinte ao da catástrofe. E consegue.

08 |
Roscoe Mitchell & The Note Factory Song for My Sister (Pi, distri. Trem Azul)
Aos 62 anos o multinstrumentista prossegue os estudos fora da selva de mitos dos Art Ensemble of Chicago. Numa conjugação mais formalista do "free" (abrangendo mesmo uma faceta didáctica) com os rituais remanescentes dos AEC, a música ganha alento numa imensa viagem pelos limites do jazz.

09 |
Branford Marsalis Footsteps for our Fathers (Marsalis Music, distri. Trem Azul)
Cruzamento, ou não, como alguém disse, entre "um 'cartoon' de Disney e um pregador evangélico", o sopro de Marsalis aventura-se em refazer a totalidade de "The Freedom Suite", de Sonny Rollins, e "A Love Supreme", de Coltrane. Sobrevive incólume. Mais: acompanha o espírito daqueles dois génios.

10 |
Andrew Hill A Beautiful Day (Palmetto, distri. Trem Azul)
Sessão ao vivo no Birdland na companhia de Marty Ehrlich e uma "big band", "A Beautiful Day" é um dia perfeito na mais recente produção pianística de Hill, um dos eleitos que soube unir o bop à vanguarda.

11 |
Mark Dresser Trio Aquifers (Cryptogramophone, distri. Sabotage)
"Aquifers" faz a transcrição musical dos fluxos de água subterrâneos que fertilizam o planeta. "Acumulação", "trânsito" e "libertação" funcionam como metáforas telúricas da circulação de frequências, modulação de timbres e planificação de texturas assimétricas cuja energia parece provir, de facto, dessa matriz aquática que alimenta a Terra.

12 |
Billy Cobham The Art of Three (In & Out, distri. Dargil)
Surpresa, ou talvez não, esta categórica afirmação da arte do trio piano-baixo-bateria pelo baterista jazzrock que, depois da aprendizagem com Miles, ajudou a criar o mito Mahavishnu Orchestra. Tem a seu lado comparsas de luxo: Ron Carter, no baixo, e Kenny Barron, no piano, este último um prodígio de subtileza e capacidade de voo.

13 |
Mat Maneri Sustain (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Mais ferrugem da boa. Outro prego cravado no crâneo do "mainstream". Discípulo de Ornette e Stuff Smith, Maneri arranca com o seu violino a carapaça à música improvisada em aliança perigosa entre electrónica, jazz vertigem e uma permanente dialéctica entre o silêncio e o caos.

14 |
Charles Lloyd Lift Every Voice (ECM, distri. Dargil)
Lloyd, o asceta encantado pelo budismo, deixa atrás de si um rasto de paradoxos. Desde sempre arreigado a uma visão mística da música, "Lift Every Voice" perdeu entretanto o grito libertário dos primórdios, para se concentrar em mantras e no Grande Espírito onde ardia John Coltrane.

15 |
Tom Harrel Live at the Village Vanguard (Bluebird, distri. BMG)
Eleito em 2001 pela "Down Beat" "compositor do ano", Harrell distribui vitalidade, clareza e extroversão. A sua trompete, iluminada pela tradição de Blue Mitchell e Clifford Brown, não ilude porém uma tristeza que em "Where the rain begins" lateja como uma ferida mal sarada.

Discos de 2001 ouvidos em 2002 merecedores de figurarem no top:

Dave Douglas Witness (RCA, distri. BMG)
Dave Holland Not for Nothin' (ECM, distri. Dargil)
James Emery, Joe Lovano, Judi Silvano, Drew Gress Fourth World (Between the Lines, distri. Ananana)
Louis Sclavis L'Affrontement des Prétendants (ECM, distri. Dargil)
Myra Melford & Marty Ehrlich Yet Can Spring (Arabesque, distri. trem Azul)
Steuart Liebig Pomegranate (Cryptogramophone, distri. Sabotage)

REEDIÇÕES:

Ella Fitzgerald Whisper Not (Verve, distri. Universal)
Gerry Mulligan Village Vanguard (Verve, distri. Universal)
John Coltrane Legacy (Impulse, distri. Universal)
Nina Simone Nina Simone and Piano! (RCA, distri. BMG)
Paul Bley, Jommy Giuffre, Steve Swallow The Life of a Trio - "Saturday" e "Sunday" (Owl, distri. Universal)
Sam Rivers Crystals (Impulse, distri. Universal)