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13/02/2019

Lady sings the blues [Billie Holiday]


31 MAIO 2003
JAZZ
DISCOS

O melhor do melhor de Billie Holiday numa antologia em quatro volumes. Viagem ao coração da noite e da solidão que Lady day cantou e viveu na pele até ao fim.

Lady sings the blues

Eleanora Fagan, Billie Holiday, “Lady day”. Nasceu em 1915 para deixar este mundo 44 anos mais tarde. Subiu ao céu, apesar de em vida ter descido ao inferno, onde brilha como a lua do jazz vocal feminino. De noite, portanto. No quadrante oposto do céu, lá está o sol, com a cara de Ella Fitzgerald iluminada por um enorme sorriso.
            De Billie Holiday fora há pouco tempo editada a antologia em 10 volumes “Lady Day: The Complete Billie Holiday on Columbia, 1933-1944”, vencedora de um Grammy. Em formato condensado de quatro volumes, vendidos separadamente a “mid price”, surge agora “The Billie Holiday Collection”, com uma seleção dos melhores temas (embora se possa perguntar: onde está “Strange fruit”?) da antologia, em remasterizações de 24-bits.
            No primeiro volume, a voz de Bille tem a suportá-la a sua própria orquestra e a do pianista Teddy Wilson, em diferentes formações, com Roy Eldrige (trompete), Benny Goodman (clarinete), Ben Webster (saxofone tenor), Johnny Hodges (saxofone alto), Harry Carney (Clarinete e saxofone barítono) e Gene Krupa (bateria). Tempos de “swing”, de tentativa de segurar uma inocência perdida desde muito cedo. Mas era notório que o “swing” estouvado da orquestra era de natureza diferente do “swing” interior da cantora. Mas era deste contraste entre a luz exterior e as sombras que se adensavam e balouçavam como folhas agitadas pelo vento, na alma de “Lady Day”, que surgiram as grandes interpretações. “Miss Brown to you”, “You let me down” (de chorar... e implorar por mais...), “It’s like reaching for the moon”, “These foolish things”, “Summertime”, “Easy to love”, “The way you look tonight”...
            No segundo volume (gravações entre Janeiro e Setembro e 1937), um grande encontro. De “Lady Day”, como então passou a ser conhecida (no seu caso, e em relação ao grande público, algo muito relativo...) com Lester Young, “The President”, que em 1937 entrara para a orquestra de Teddy Wilson, o mesmo acontecendo com o trompetista Cootie Williams. “I can’t give you anything but love”, assim se chama uma das canções. Lester Young oferece este amor sob a forma de uma formidável interpretação no saxofone tenor. Eram almas gémeas. Ou não. A solidão acompanhou Billie Holiday até ao fim.
            Ao terceiro volume, composto por gravações efetuadas entre Setembro de 1937 e Dezembro de 1939) sente-se já uma fragilidade crescente da voz, que não da técnica nem do sentimento, mas uma espécie de impotência ou raiva sublimada. Billie cantava como uma criança trémula, ainda com Lester Young a acompanhá-la nesta fase da viagem. Entravam então na orquestra, Buck Clayton (trompete), Freddie Green (guitarra), entre outros, a ilustrar um “songbook” de clássicos ilustres como “When a Woman loves a man”, “You go to my head”, “the very thought of you”, “I can’t get started” e “Night and day”. “I can’t believe that you’re in love with me” era o que ela queria dizer e Louis Armstrong já dissera em 1930. “Lady day” disse-o mais fundo. Acreditasse ou não.
            Com o quarto e último volume da coletânea a estender-se de Dezembro de 1939 a Janeiro de 1944, encerrava-se um capítulo no qual Lester Young desempenhava ainda uma função primordial, como demonstra no solo que rubrica, como um abraço ou um beijo, em “The man I love” e, no último ano, ao lado do mago do piano Art Tatum e de Oscar Pettiford, no contrabaixo. “Body and soul”, “Georgia on my mind” são “standards” conhecidos. Mas... e “Am I blue?”, “Solitude” e “Gloomy Sunday” (também conhecida por “The hungarian suicide song” a qual, dizia-se, hipnotizava e induzia os amantes desesperados a porem termo à vida)? É neles que se sente melhor a dor. A voz arrasta-se, nestes temas, mais lenta e ardente do que nunca. Assombrosa, em “Gloomy Sunday”. Uma voz que arrepia e nos faz sentir o que a paixão provoca a quem ela se entrega sem defesas. Mas há defesas contra a paixão? Não as há, decerto, que permitam resistir ao canto de “Lady Day”.

BILLIE HOLIDAY
The Billie Holiday Collection, Volumes 1, 2, 3 e 4
Columbia Legacy, distri. Sony Music
10 | 10


19/09/2016

Jazz na árvore de natal

NATAL
JAZZ
PÚBLICO 14 DEZEMBRO 2002

Jazz na árvore de natal oferecer um disco de jazz pode ser a dádiva de um mundo novo a descobrir.

01|
John Coltrane
Legacy
4xCD Impulse, distri. Universal

“Harmonic and Melodic”, “Rhythmic”, “Elvin and Trane” e “Live” são quatro das facetas da música de John Coltrane que o seu filho, Ravi Coltrane, reuniu sob a forma de antologia. Há mais, claro. Trane foi a nave estelar apontada à música total. Entre a noite, o excesso, o método e a loucura (ou a loucura enquanto método), ultrapassou as fronteiras do free jazz para chegar aos confins de si próprio. Coltrane é Natal e Ano Novo. Nascimento e Morte. “Clássico”, hoje, por questões de segurança.

02|
Bobby Hutcherson
Dialogue
Blue Note, distri. EMI-VC

Quando toca a oferecer discos de jazz, exige uma obra-prima? “Dialogue”, do vibrafonista Bobby Hutcherson, especialista em estar no momento certo, com os músicos certos (conferir em “Out to Lunch”, de Eric Dolphy ou “Life Time”, de Tony Williams), não oferece dúvidas. Além de ser um daqueles marcos que dividem a história em “antes” e “depois”, na transição do hard-bop para o free, é uma boa alternativa à ditadura dos saxofones, ainda que, neste particular, Sam Rivers se revele absolutamente soberbo neste “diálogo”.

03|
Andrew Hill
A Beautiful Day
Palmetto, distri. Trem Azul

Pretende conciliar o clássico com o contemporâneo? Tente a antecipação e ofereça ao seu amigo(a) especialista, o mais recente de Andrew Hill, instituição do piano (a propósito, é sua a assinatura na maioria dos temas de “Dialogue”…) para quem a sessão ao vivo no Birdland, já este ano, na companhia de Marty Ehrlich e uma banda larga de músicos, constituiu um “dia maravilhoso”. Jazz de quem a sabe toda e não deixa a tradição apodrecer.

04|
Steve Tibbetts
A Man About a Horse
ECM, distri. Dargil

Se o seu objetivo é passar a mão pelo pêlo e pôr água na fervura (do jazz ou de quem você quiser…), a ECM tem paz natalícia para dar e vender. “A Man About a Horse” é o mais recente cântico guitarrístico de Steve Tibbetts, espécie de Mike Oldfield de costela zen e fusionista. Templos e “chakras”, tablas e drones, ambientes de contemplação próprios para adormecer em frente à lareira e sonhar que o jazz, afinal, é música de gente bem.

05|
Weather Report
Live and Unreleased
2xCD Columbia, distri. Sony Music

Se o Natal é também calor, faz sentido acender o calorífero dos trópicos do jazzrock e da fusão, por um dos grupos pioneiros do género – os Weather Report. “Live and Unreleased” reúne material inédito recolhido de concertos gravados entre 1975 e 1983, remasterizado em 24 bits. Experimente oferecer aos seus netos, explicando-lhes que, por incrível que pareça, o jazz também se pode dançar.

06|
Rabih Abou-Khalil
Il Sospiro
Enja, distri. Dargil

Objeto requintado. O alaúdista árabe Rabih Abou-Khalil esteve decerto a pensar em si e na sua prenda de Natal quando gravou “Il Sospiro”, exercício a solo no “ud”, sem rede, imbuído de um espírito de elevação que andava arredado dos últimos álbuns. Independentemente de um dos temas ser uma serenata a uma mula. A capa, como sempre um prazer para os olhos, toda em cores metalizadas, oferece a vantagem adicional de agradar ao presenteado, independentemente de este ouvir ou não o disco.

07|
Billie Holiday
You Go to My Head
Dreyfus, distri. Megamúsica

Depois de apagadas as luzes da árvore de Natal, na solidão da madrugada, pode saber bem abrir a prenda e encontrar o sorriso triste de Billie Holiday. “You Go to My Head” é uma coletânea de 20 temas dos anos 30 e 40 que inclui clássicos como “I’ll be seing you”, “Night and day”, “Body and soul” e o arrepiante “Strange fruit”. O amor desesperado, em 24 bits de som e emoção, que batem em cheio na alma.

08|
Ella Fitzgerald
Whisper Not
Verve, distri. Universal

Dá um embrulho maneirinho, este exemplar em forma de miniatura do vinil original, pela voz que fez o jazz transbordar de felicidade. Ella era a luz, a facilidade de expressão, o fluxo incessante de criatividade que tornava “standards”, folclore ou a mais simples das canções numa declaração pessoal. Aqui envolvida pelas orquestrações de Marty Paich. Em tempo de “divas” por atacado, ofereça uma das originais e genuínas.

09|
Spring Heel Jack
Amassed
Thirsty Ear, distri. Trem Azul

Confunda e provoque. Há quem recuse a “Amassed” o estatuto de música de jazz. Mas é isso mesmo, de outra maneira, que John Coxon e Ashley Wales, vindos do drum’n’bass e da eletrónica, recompuseram nesta fusão para o novo milénio. Han Bennink, Evan Parker, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler não tiveram dúvidas, mergulhando de cabeça no universo do “sampling”. O Pai Natal dos SHJ não gosta de Coca-Cola.

10|
Gianluigi Trovesi
Dedalo
Enja, distri. Dargil

Com Trovesi, o Natal é mesmo festa. “Dedalo” é um labirinto, um manacial de iluminações e redescobertas que desenvolve em formato orquestral as proezas de “From G to G”. “Vaudeville”, “swing”, jazz progressivo, jazzrock, humor, mil caminhos a girar num carrocel. Um dos grandes discos sem fronteiras de 2002. Para oferecer em qualquer dia do ano.