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29/11/2019

A equação de Anthony Braxton [Jazz]


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 20 NOV 2003

A equação de Anthony Braxton


Anthony Braxton, o matemático, Randy Weston, o africano, e Bobby Hutcherson, o vibrafonista swingante, marcam a agenda de jazz deste fim-de-semana, em Guimarães e Lisboa

Mais jazz. Grande jazz. Grandes músicos de jazz. No Guimarães Jazz e em Lisboa, em co-produção da Culturgest com este festival. Anthony Braxton, Randy Weston, Bobby Hutcherson. O primeiro e o último dão concertos a dobrar e Weston tem concerto único em Guimarães.
            Anthony Braxton, que ontem atuou na Culturgest e hoje abre a segunda parte do programa do Guimarães Jazz, é um matemático. Entre a teoria e a alucinação, a escrita tão complexa como uma cidade e o grito mais instintivo, revela-se um "continuum" que vai do macrocosmos orquestral ao microcosmos solístico. Braxton toca saxofones, clarinete, flauta e piano, e fez história ao lado de nomes ligados ao "free" e à música improvisada como Leroy Jenkins, Gunter Hampel, Jeanne Lee, Willem Breuker, Alan Silva, Derek Bailey, Dave Holland e Sam Rivers, entre outros. Fez parte do Circle de Chick Corea, dos Company, da Creative Music Orchestra e da Globe Unity Orchestra.
            Equidistante do jazz e da música contemporânea, entre Ornette Coleman e Schönberg, Eric Dolphy e Xenakis, Braxton integra na sua música a intuição e a numerologia (como Xenakis, aliás, outro visionário pitagórico da ordem cósmica, cifrada em equações do espírito). Uma música apontada tanto ao corpo como à inteligência, a exigir do ouvinte participação e disponibilidade totais. Ou mais ainda: um dos seus projetos passa pela composição de uma peça para ser executada numa estação espacial em órbita.
            Há quem se refira a um revisionismo da tradição em que o jazz é destruído e remontado e a improvisação uma outra ordem, manifestação parcial de uma arquitetura mais vasta, a propósito deste músico de Chicago que diz ter sido influenciado pelo "cool" de Paul Desmond e Warne Marsh, mas em cujas obras se cruzam batimentos rituais (às vezes curiosamente idênticos a construções da escola RIO – Rock in Opposition) e concepções puramente geométricas que procuram redefinir o jazz como uma música englobante e totalitária. Descubram-se estas diferentes galáxias em álbuns como "Silence/Time Zones", um tratado de electrónica logística, com Leroy Jenkins, Leo Smith e Richard Teitelbaum, as séries de quartetos e duetos que se estendem pelas décadas de 80 e 90 e uma infinidade de composições numeradas, em contextos que vão do solo absoluto ao grande "ensemble". Braxton atua em Portugal em quarteto com Kevin O'Neill (guitarra), Kevin Norton (bateria) e Andy Eulau (contrabaixo).
            Os números de Randy Weston são outros. Dançam com a agilidade de uma gazela. Jazz, como o de Abdullah Ibrahim, com raízes fundas em África. Weston é o pianista que transporta a lanterna urbana de Monk e os ensinamentos de Ellington (de ambos traçou retratos em piano solo, nos álbuns "Portraits of Duke Ellington" e "Portraits of Thelonious Monk"), para os mistérios da savana. Imbuído da energia do rhythm 'n' blues e da música africana, autor do "standard" "Hi-fly", Weston recomenda-se em álbuns como "Tanjah", The Spirits of our Ancestors", "Volcano Blues" (com Melba Moore), "Perspective" (com Vishnu Wood) e o mais recente "Ancient Future". O pianista atua em trio, com Alex Blake (contrabaixo) e Neil Clarke (percussão).
            A fechar o ciclo, Guimarães e Lisboa recebem outro nome incontornável do jazz moderno, o vibrafonista Bobby Hutcherson, em quarteto com Renee Rosnes (piano), Ray Drummond (contrabaixo) e Billy Drummond (bateria). Mergulhando a inspiração no swing do génio dos Modern Jazz Quartet, Milt Jackson, Hutcherson acrescenta à limpidez melódica do "cool" as subtilezas rítmicas do "bop". De entre a sua discografia destaca-se uma das obras-primas do jazz, "Dialogue" (1965), potenciada por um assombroso desempenho do saxofonista Sam Rivers. Igualmente importante é a sua participação no clássico "Out to Lunch", de Eric Dolphy.

ANTHONY BRAXTON QUARTET
Guimarães, Auditório da Universidade do Minho.
Hoje, às 22h. Tel. 253408061. Bilhetes a 10 euros.

RANDY WESTON TRIO
Guimarães, Auditório da Universidade do Minho.
Amanhã, às 22h. Bilhetes a 10 euros.

BOBBY HUTCHERSON QUARTET
Lisboa, Grande Auditório da Culturgest.
Amanhã, às 21h30. Tel. 217905155. Bilhetes a 18 euros.
Guimarães, Auditório da Universidade do Minho.
Sábado, dia 22, às 22h. Bilhetes a 10 euros.

19/09/2016

Jazz na árvore de natal

NATAL
JAZZ
PÚBLICO 14 DEZEMBRO 2002

Jazz na árvore de natal oferecer um disco de jazz pode ser a dádiva de um mundo novo a descobrir.

01|
John Coltrane
Legacy
4xCD Impulse, distri. Universal

“Harmonic and Melodic”, “Rhythmic”, “Elvin and Trane” e “Live” são quatro das facetas da música de John Coltrane que o seu filho, Ravi Coltrane, reuniu sob a forma de antologia. Há mais, claro. Trane foi a nave estelar apontada à música total. Entre a noite, o excesso, o método e a loucura (ou a loucura enquanto método), ultrapassou as fronteiras do free jazz para chegar aos confins de si próprio. Coltrane é Natal e Ano Novo. Nascimento e Morte. “Clássico”, hoje, por questões de segurança.

02|
Bobby Hutcherson
Dialogue
Blue Note, distri. EMI-VC

Quando toca a oferecer discos de jazz, exige uma obra-prima? “Dialogue”, do vibrafonista Bobby Hutcherson, especialista em estar no momento certo, com os músicos certos (conferir em “Out to Lunch”, de Eric Dolphy ou “Life Time”, de Tony Williams), não oferece dúvidas. Além de ser um daqueles marcos que dividem a história em “antes” e “depois”, na transição do hard-bop para o free, é uma boa alternativa à ditadura dos saxofones, ainda que, neste particular, Sam Rivers se revele absolutamente soberbo neste “diálogo”.

03|
Andrew Hill
A Beautiful Day
Palmetto, distri. Trem Azul

Pretende conciliar o clássico com o contemporâneo? Tente a antecipação e ofereça ao seu amigo(a) especialista, o mais recente de Andrew Hill, instituição do piano (a propósito, é sua a assinatura na maioria dos temas de “Dialogue”…) para quem a sessão ao vivo no Birdland, já este ano, na companhia de Marty Ehrlich e uma banda larga de músicos, constituiu um “dia maravilhoso”. Jazz de quem a sabe toda e não deixa a tradição apodrecer.

04|
Steve Tibbetts
A Man About a Horse
ECM, distri. Dargil

Se o seu objetivo é passar a mão pelo pêlo e pôr água na fervura (do jazz ou de quem você quiser…), a ECM tem paz natalícia para dar e vender. “A Man About a Horse” é o mais recente cântico guitarrístico de Steve Tibbetts, espécie de Mike Oldfield de costela zen e fusionista. Templos e “chakras”, tablas e drones, ambientes de contemplação próprios para adormecer em frente à lareira e sonhar que o jazz, afinal, é música de gente bem.

05|
Weather Report
Live and Unreleased
2xCD Columbia, distri. Sony Music

Se o Natal é também calor, faz sentido acender o calorífero dos trópicos do jazzrock e da fusão, por um dos grupos pioneiros do género – os Weather Report. “Live and Unreleased” reúne material inédito recolhido de concertos gravados entre 1975 e 1983, remasterizado em 24 bits. Experimente oferecer aos seus netos, explicando-lhes que, por incrível que pareça, o jazz também se pode dançar.

06|
Rabih Abou-Khalil
Il Sospiro
Enja, distri. Dargil

Objeto requintado. O alaúdista árabe Rabih Abou-Khalil esteve decerto a pensar em si e na sua prenda de Natal quando gravou “Il Sospiro”, exercício a solo no “ud”, sem rede, imbuído de um espírito de elevação que andava arredado dos últimos álbuns. Independentemente de um dos temas ser uma serenata a uma mula. A capa, como sempre um prazer para os olhos, toda em cores metalizadas, oferece a vantagem adicional de agradar ao presenteado, independentemente de este ouvir ou não o disco.

07|
Billie Holiday
You Go to My Head
Dreyfus, distri. Megamúsica

Depois de apagadas as luzes da árvore de Natal, na solidão da madrugada, pode saber bem abrir a prenda e encontrar o sorriso triste de Billie Holiday. “You Go to My Head” é uma coletânea de 20 temas dos anos 30 e 40 que inclui clássicos como “I’ll be seing you”, “Night and day”, “Body and soul” e o arrepiante “Strange fruit”. O amor desesperado, em 24 bits de som e emoção, que batem em cheio na alma.

08|
Ella Fitzgerald
Whisper Not
Verve, distri. Universal

Dá um embrulho maneirinho, este exemplar em forma de miniatura do vinil original, pela voz que fez o jazz transbordar de felicidade. Ella era a luz, a facilidade de expressão, o fluxo incessante de criatividade que tornava “standards”, folclore ou a mais simples das canções numa declaração pessoal. Aqui envolvida pelas orquestrações de Marty Paich. Em tempo de “divas” por atacado, ofereça uma das originais e genuínas.

09|
Spring Heel Jack
Amassed
Thirsty Ear, distri. Trem Azul

Confunda e provoque. Há quem recuse a “Amassed” o estatuto de música de jazz. Mas é isso mesmo, de outra maneira, que John Coxon e Ashley Wales, vindos do drum’n’bass e da eletrónica, recompuseram nesta fusão para o novo milénio. Han Bennink, Evan Parker, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler não tiveram dúvidas, mergulhando de cabeça no universo do “sampling”. O Pai Natal dos SHJ não gosta de Coca-Cola.

10|
Gianluigi Trovesi
Dedalo
Enja, distri. Dargil

Com Trovesi, o Natal é mesmo festa. “Dedalo” é um labirinto, um manacial de iluminações e redescobertas que desenvolve em formato orquestral as proezas de “From G to G”. “Vaudeville”, “swing”, jazz progressivo, jazzrock, humor, mil caminhos a girar num carrocel. Um dos grandes discos sem fronteiras de 2002. Para oferecer em qualquer dia do ano.