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29/08/2016

A máquina do tempo [6º Festival Intercéltico do Porto]

POP ROCK
Quarta-feira, 5 Abril 1995

A MÁQUINA DO TEMPO

Faltam dois dias para começar o Intercéltico. Os apaixonados pela folk preparam-se para viajar, com armas e bagagens, até ao quartel-general no Porto. De preferência, o mais perto possível do cinema do Terço, onde os concertos terão lugar. Estamos a falar dos peregrinos vindos das várias regiões do país, porque os portuenses, esses, estão em casa, prontos para acolher um dos acontecimentos culturais que, por força de um prestígio que se vem acentuando de ano para ano, é já um “ex-libris” da cidade, com projeção no resto da Europa. Neste ano, vêm os Realejo, Boys of the Lough, Skolvan, Fairport Convention, Luar na Lubre e Four Men and A Dog. Lisboa vai ter uma amostra.

tem sido assim desde o início. Cada vez com mais expressão. O Festival Intercéltico, neste ano na sua sexta edição, transforma as pessoas e os lugares. Aproxima os sons e as culturas. Redimensiona o tempo e convoca as memórias. Dá voz ao futuro. Tudo em nome de uma música, ou talvez algo mais, de uma particular conceção do mundo que, por todo o planeta, encontra um número de adeptos cada vez mais numeroso. Uma conceção do mundo como lugar de encontro, como unidade que se alimenta e enriquece da multiplicidade de culturas e do diálogo recíproco entre visões e conceções singulares que se complementam.
            A música folk, ou tradicional, ou étnica, ou o que lhe quiserem chamar, não é, nunca poderá ser, apenas um género, uma moda, um objeto de consumo, como alguns – ofuscados pela possibilidade da descoberta de uma nova galinha dos ovos de ouro – pretendem que seja e se apressam a empacotar, construindo para ela os mais belos aviários.

Profissionais da magia

            Não é isto a folk – vamos chamar-lhe assim, para simplificar – mas sim uma música que tem sabido resistir a ser considerada apenas como mais uma moda passageira e a todas as investidas e aliciamentos lançados pela indústria. Quem lhe franqueia as portas entra num outro lugar, de onde não voltará a ter vontade de sair e a partir do qual passará a olhar a realidade com outros olhos. O Intercéltico, as pessoas que fazem o Intercéltico – desde a produção, realização e divulgação, assegurados, com sempre, pela MC-Mundo da Canção, dando mais uma vez corpo a uma iniciativa do Pelouro de Animação da cidade, da Câmara Municipal do Porto, até ao público que enche as salas e sem o qual não existiria o ambiente de pura magia que se tornou numa das características mais aliciantes do festival – sabem tudo isto. Sentem tudo isto. O Festival está hoje completamente profissionalizado, é um facto, mas, por detrás da máquina, pulsa um coração. Um coração que, de há cinco anos a esta parte, por altura da Primavera, bate mais depressa e com mais força.

A eterna questão

            Durante três dias, de sexta a domingo, vão passar pelo Terço alguns dos nomes mais importantes da música folk europeia atual. Neste ano, o cartaz anuncia, por ordem de entrada, os Realejo, Boys of the Lough, Skolvan, Fairport Convention, Luar na Lubre e Four Men and A Dog. Se, em anteriores edições, o programa foi pensado e estruturado em obediência a uma unidade temática (a Bretanha em 1991 ou a folk no feminino, no ano passado), a escolha dos participantes deste ano corresponde a uma certa descompressão, livre de compromissos, estéticos ou de atitude. Em vez disso, a ideia é dar a conhecer e pôr em confronto perspectivas plurais sobre a eterna questão: modernizar ou conservar? Traduzir ou transcrever? Adaptar ou modificar? Aprofundar ou aligeirar?
            A resposta para esta e outras questões até poderá ser encontrada num outro quadro de referências. A linearidade não existe, nesta música para a qual o tempo se molda numa malha de contornos e texturas difíceis de definir. No editorial do programa – o já tradicional “livrinho”, em cada ano com uma cor diferente, que apetece ter e devorar –, pode ler-se sobre a “necessidade de assumir, com rigor e enraizamento, relações interculturais determinadas pelo diálogo fundamentado no respeito mútuo entre os povos. Sem fusões (que normalmente não são mais do que confusões) formalistas nem preocupações ‘world-mercantilistas’, mas antes como ‘cor’ cuja universalidade reside justamente na sua especificidade própria, enraizada e, como tal, identificadora”, Os genuínos amantes da música tradicional, irmanados no sonho – e no ato – de desvelarem uma ilha dos amores que se estenda pelo mundo inteiro, não renegam para afirmar. Sabem que as princesas, os feiticeiros e os dragões apenas mudaram de forma, de castelo e de vestuário. Rompem preconceitos e neblinas. Viajam na máquina do tempo.

Reflexões, entre o musgo e o granito

            Ao lado dos concertos vão estar as chamadas atividades paralelas. Como não podia deixar de ser. Neste aspeto, o Intercéltico funciona como uma espécie de seminário, sem testes nem exames (embora, quem quiser, possa pòr-se à prova...) onde o termo “cultura” se confunde com “festa” e “celebração”. Os diversos itens incluídos são de molde a satisfazer, a vários níveis, o interesse e a curiosidade crescentes que o grande público vem dedicando a esta área e, em particular, ao festival.
            Assim, neste ano, haverá, no sábado, a partir das 16h, nos jardins do cinema do Terço ou, se o tempo não o permitir, numa sala do castelo de Santa Catarina, um debate subordinado ao tema “A imprensa folk europeia”. Nele vão estar presentes, além dos portugueses, jornalistas de conceituadas publicações estrangeiras, como a “Folk Roots” inglesa, representada por Andrew Cronshaw, a “Trad. Magazine”, francesa, por Phillipe Krumm, a “The Living Tradition” escocesa, por Pete Heywood, e a “Ghaita” galega, por Antonio Alvarez, além do jornal galego “A Nosa Terra” que se fará representar pelo já indispensável, nestas andanças intercélticas, Xoan M. Estevez.
            No domingo, terá lugar uma “escapada intercéltica”, com partida do castelo de Santa Catarina, às 10 horas da manhã. O passeio inclui uma visita à Citânia de Briteiros, “para um reencontro com o nosso passado celta, num espaço de reflexão céltico-filosófico temperado pelos granitos e pelos musgos seculares” e um “repasto celta” no alto da Penha, em Guimarães, com cozinha tradicional minhota, seguido de um “passeio digestivo-reflexivo” pela cidade ou, em alternativa, uma visita ao Museu Martins Sarmento, onde poderão ser apreciados vestígios celtas das citânias de Briteiros e do Sabroso.
            Para os mais sedentários, não faltarão, no “hall” do cinema do Terço, a habitual banca de discos e a projeção de diapositivos e filmes alusivos à temática do festival. Ao longo de todo este mês e até princípios do próximo, estará ainda patente, no mercado Ferreira Borges, uma exposição sobre José Afonso, “Andarilho, poeta, cantor”.
            Agora é arrumar as malas e partir. No Intercéltico, a viagem promete terminar no infinito.


6º Festival Intercéltico do Porto
REALEJO • BOYS OF THE LOUGH
SKOLVAN • FAIRPORT CONVENTION
LUAR NA LUBRE • FOUR MEN & A DOG
Cinema do Terço • Porto • 21h30

Noites folk na Aula Magna
BOYS OF THE LOUGH
FAIRPORT CONVENTION
Aula Magna • Lisboa • 22h00


FAIRPORT CONVENTION

OS FAIRPORT CONVENTION, muito mais que um simples grupo folk, são uma instituição. O seu maior feito é a invenção do “folk rock”. Outro é o facto de ainda existirem, mantendo uma vitalidade e uma teimosia que são de assinalar. Os Fairport Convention são ainda os detentores do maior título de sempre para uma canção, devidamente registado no “Guiness”: “Sir B. McKenzie’s daughter’s lamente for the 77th mounted lancer’s retreta from the Straits of Loch Knombe, in the year of Our Lord 1727, on the occasion of the announcement of her marriage to the laird of Kinleakie”. Além disso, o grupo é um manancial de memórias, atravessando épocas e correntes, sempre com a mesma integridade, o que lhe tem permitido ultrapassar obstáculos e tentações – o mesmo já não se podendo dizer em relação a um certo esgotamento de ideias, aparente sobretudo na sua obra discográfica a partir dos anos 80.
            Pelos Fairport Convention – uma banda que começou por tocar canções de Bob Dylan antes da descoberta da música tradicional do seu país, a Inglaterra – passaram nomes que ainda hoje fazem história: Ashley Hutchings, pai do “morris rock” (designação agora inventada); Richard Thompson, o guitarrista depressivo que alinha com os Pere Ubu e os Golden Palominos; Ian Matthews, o baladeiro que emigrou para a América; Dave Swarbrick, o grande-mestre do violino que solava com o cigarro ao canto e se viu obrigado a abandonar o grupo sob pena de ficar surdo; Dave Mattacks, também muito solicitado pelos grupos alternativos, e Dave Pegg, hoje nos Jethro Tull, os dois sustentáculos rítmicos da banda; Ric Sanders, outro violinista de exceção, elemento dos Soft Machine e ex-Albion Band... Para o fim ficou a lenda, Sandy Denny, a cantora de voz inimitável, dama das damas da folk britânica, tragicamente falecida no ocaso dos anos setenta – uma voz que se revelou nos Strawbs, explodiu nos Fairport, amadureceu nos Fotheringay e se pôs à prova no álbum dos quatro símbolos dos Led Zeppelin.
            A história dos Fairport Convention confunde-se com a da própria folk inglesa ao longo das últimas três décadas. O grupo tornou-se um ponto de referência, pelo modo criativo como quase sempre conseguiu conciliar a energia do rock com a vertente tradicional. Vale a pena mencionar os concertos de aniversário celebrados anualmente com a participação de convidados. Num deles, por acaso transmitido há anos na televisão portuguesa, recorda-se as canções de Richard Thompson, a prestação desastrosa – creio que numa delas – de June Tabor (foi na fase em que andava nos Oyster Band...) e os gloriosos despiques de violino travados entre Ric Sanders e Dave Swarbrick. Lambra-se ainda uma atuação memorável dos Fairport Convention, numa das primeiras edições da Festa do Avante! Tronco principal de uma genealogia extensa, os Fairport Convention estão na origem de projetos como os Steeleye Span, Matthews Southern Comfort, Fotheringay, Albion Band, Whippersnapper, Sour Grapes e The Bunch.
            Entre a discografia dos Fairport Convention, contam-se alguns clássicos. Nos anos 60, “Liege & Lief”, de 1969, considerado por muitos uma das obras-primas de sempre do folk-rock britânico. Na década seguinte, o destaque vai para “Full House”, de 1970 – talvez ao mesmo nível de “Liege & Lief”, com um trabalho fabuloso, enquanto instrumentista e vocalista, de Dave Swarbrick –, os conceptuais “Babbacombe Lee”, de 71, história de um inocente condenado à morte, salvo por milagre após três falhas consecutivas da forca, e “The Bonny Bunch of Roses”, de 77, sobre as guerras napoleónicas, além de “Tippler’s Tales”. A década de oitenta vale por “Expletive Delighted”, de 86, um álbum totalmente instrumental. A partir daí, os discos escutam-se com a simpatia e o respeito que a banda merece. Quanto ao novo “Jewel in the Crown”, ainda não houve oportunidade de o escutar. As boas notícias são que, no Intercéltico – e em Lisboa, na Aula Magna –, os Fairport Convention irão tocar clássicos como “The Lark in the Morning”, “Dirty linen”, “Sir Patrick Spens”, “Crazy man Michael”, “Matty groves” e “Meet on the ledge”.


BOYS OF THE LOUGH

ESTÃO PRESTES A ATINGIR trinta anos de carreira, o que faz dos Boys of the Lough uma das bandas de maior longevidade no ativo. Nasceram em 1967, no mesmo ano que os Fairport Convention. Registe-se a coincidência de estas duas bandas já terem tocado na Festa do Avante!, sendo ainda as únicas que, além do Intercéltico, vão atuar no próximo fim-de-semana na capital.
            De início, as influências vieram da América, por via de Leadbelly e Woody Guthrie, da Inglaterra, por via do “folk rock” dos Fairport, Steeleye Span ou dos mais antigos Watersons, e da Irlanda, por via dos Clancy Brothers e Chieftains. Deste emaranhado, os Boys of the Lough evoluíram para uma música que junta as tradições da Irlanda, da Escócia e das ilhas Shetland. A posição do grupo em relação à música tradicional é explicada em termos bastante claros por Aly Bain, o virtuoso do violino Shetland: “Desde o início que nos comprometemos a manter o modo tradicional, tocando sem interferir muito com os cânones (...). Pode pensar-se que tocar da maneira como sempre foi tocada a música tradicional é mais fácil, mas é mais difícil do que fazer arranjos. É mais difícil tocá-la como sempre foi tocada do que modificá-la”. “Lembro-me de, uma vez, Karl Dallas [jornalista do ‘Melody Maker’] nos ter perguntado quando é que íamos passar para os instrumentos elétricos. Mas eu nunca entendi isso como sendo uma evolução. De facto, penso que significa precisamente o contrário”. O que não impediu que os Boys, no seu mais recente álbum, “The Day Dawn”, já com distribuição portuguesa, dedicassem alguns temas às tradições “célticas” do Norte da Europa, em particular às de Inverno. Outro “virtuose” do grupo é o flautista Cathal McConnell, irlandês, campeão aos dezoito anos, neste instrumento e no “whistle”. Dave Richardson, no bandolim, banjo e concertina, substituiu, em 1973, o “político” Dick Gaughan. A ele se deve grande parte da sofisticação instrumental que o grupo passou a ostentar a partir de meados dos anos 70. Christy O’Leary e Tim O’Leary completam a atual formação dos Boys, uma banda importante da grande legião celta mas que passou praticamente desconhecida na sua primeira deslocação a Portugal, há dois anos, na Festa do Avante! De uma discografia de 16 álbuns, realce para o clássico “To Welcome Paddy Home”, “Farewell and Remember Me”, “Sweet Rural Shade” e “The Fair Hills of Ireland”.


LUAR NA LUBRE

QUEM SOMOS? PARA ONDE vamos? Seremos todos irlandeses? Vale a pena pagar uma conta exorbitante de eletricidade? Estas são algumas das questões que, de há uns anos a esta parte, afligem os nossos vizinhos da Galiza, indecisos quanto ao futuro a dar a um legado tradicional riquíssimo. Alheios a toda esta confusão, os Luar na Lubre, como os Milladoiro ou os Muxicas, prosseguem tranquilamente o seu caminho. Não precisam de teorizar, muito menos de buscar alento no jazz, no rock ou na “new age”, à semelhança do que fazem outros grupos galegos. Os três álbuns que editaram até à data contam-se entre o melhor que a música tradicional desta região produziu nos últimos anos. “O Son do Ar”, de 1988, “Beira Atlantica”, de 1990, e “Ara-Solis”, de 1993 – todos com distribuição portuguesa pela MC-Mundo da Canção, embora so dois primeiros, sem edição em CD, sejam difíceis de encontrar – formam uma trilogia de beleza inigualável, urdida com névoas e encantamentos, envolta numa noite que “nunca sabemos onde começa ou acaba”, para utilizar as palavras do poeta galego Manuel Maria. “Uma estranha música que canta no nosso ser crente e duvidoso”. Os Luar na Lubre – luz da lua batendo sobre a “lubre”, pedra sacrificial – formaram-se em 1986, na Corunha, para fazer “música tradicional galega, com raiz celta”. Um celtismo que eles não renegam, antes afirmam com orgulho: “Acreditamos que existe uma música celta, ainda que, na Galiza, existam influências de outros tipos de música, mas isso não significa termos que renegar a componente céltica, por muito que isso custe a alguns”. Comparados por alguns aos Milladoiro, talvez pelo rigor e complexidade que põem nos arranjos, os Luar na Lubre tomam como base os cancioneiros tradicionais, a que acrescentam um trabalho de composição fundamentado na pesquisa etnomusicológica. “O que fazemos”, diz Bieito Romero, gaiteiro do grupo, “é uma música de raiz com uma evolução: incorporamos instrumentos, imprimimos-lhe uma determinada matriz sonora que não corresponde ao que se escuta a um camponês ou às orquestras tradicionais. O mais importante já está feito; agora trata-se de assegurar uma certa continuidade: aulas de gaita-de-foles, lugares onde se possa apresentar a música...” Palavras que infelizmente não encontram eco em Portugal. Enquanto celtistas e não-celtistas esgrimem argumentos, os Luar na Lubre continuam a tecer os seus encantamentos de “druidas envoltos nos fumes das lubres”. Bieito Romero encolhe os ombros: “Para mim, a expressão ‘música céltica’ é adequada, pois designa a música que se faz nos países célticos e estes existem. O único país que duvida, ele próprio, que é celta é a Galiza!”


FOUR MEN AND A DOG


“A NOSSA MÚSICA É LIVRE e espontânea, e é isso que a mantém fresca e atrativa. Se sentimos que nos apetece andar às voltas pelo palco, então fazemo-lo. Mas, se nos apetecer beber algo em pleno palco, nós bebemos. E, se quisermos gritar, por que não fazê-lo?” Quem o diz é Gino Lupari, figura carismática, de porte imponente, tocador de “bodhran” e contador oficial de anedotas dos Four Men and a Dog. Quem já os viu em palco diz que são fogo. “Demónios celtas” foi a melhor maneira que um elementos dos asturianos Llan de Cubel encontrou para definir a prestação ao vivo desta banda originária do Ulster, na Irlanda do Norte. “Penso que somos um grupo a vapor (...). Não levamos nada demasiado a sério (...). Ensaios? Quem precisa deles?”, diz ainda Lupari, para quem o grupo apenas procura divertir-se e divertir o público. Com um reportório baseado na música de dança, os Four Men & A Dog são, porém, capazes de surpreender com baladas de “crooners” alcoolizados ou desbundas de experimentalismo que os colocam numa posição sem paralelo na grande família das “Irish traditional bands”. Foi esta combinação de humor, irreverência e festa constante, aliada ao virtuosismo dos executantes, que levou a “Folk Roots” a considerar o álbum de estreia do grupo, “Barking Mad”, o melhor de 1991, para, alguns meses mais tarde, ser a vez dos leitores da revista elegerem os Four Men “melhor banda” e “melhor banda ao vivo”. Este e o álbum seguinte, “Shifting Gravel”, têm produção de Arty McGlynn, que chegou a fazer parte do grupo, tendo mais tarde abandonado. Outro ilustre da banda é Gerry O’Connor, emérito violinista e tocador de banjo, conhecido pelo seu trabalho nos La Lugh e Skylark. O novo álbum “Doctor A’s Secret Remedies” aguarda distribuição nacional. Entretanto, o que falta aos Four Men & A Dog para chegarem ao topo? Pouca coisa. Como diz Gino Lupari: “Brevemente seremos uma grande banda – só teremos que nos livrar do violinista, do guitarrista e do banjista!”

17/08/2016

The Chieftains + Boys Of The Lough

Pop Rock

12 MAIO 1993

A HARPA NO ALTO DO MONTE

THE CHIEFTAINS
The Celtic Harp (8)
CD RCA Victor, import. Bimotor e VGM

BOYS OF THE LOUGH
The Fair Hills of Ireland (7)
CD Lough, import. Etnia

Na Irlanda é altura de aniversários. Chieftains e Boys of the Lough, dois dos mais prestigiados grupos de música tradicional deste país, abrem garrafas de champanhe – melhor dizendo, de um Jameson velhinho – e brindam à saúde. “Here’s to the company!”
A banda de Paddy Moloney, que há pouco mais de um mês deu “show” no Festival Intercéltico do Porto, faz a festa por interposta pessoa, na homenagem a Edward Bunting, que, em 1792, convocou durante um festival organizado pela Belfast Harpist Society, os dez melhores harpistas da Irlanda e compilou posteriormente sucessivos manuscritos com partituras de harpa.
A 12 de Maio do ano passado, faz hoje precisamente um ano, os Chieftains tocaram num espetáculo de gala realizado no Ulster Hall, na companhia da Belfast Harp Orchestra e, mais tarde, no Barbican Hall, em Londres. Desses dois concertos, foram gravados quatro temas ao vivo para inclusão neste “The Celtic Harp”, com as restantes faixas registadas no lendário Windmill Lane Studio, em Dublin, e nos estúdios de Frank Zappa (amigo dos Chieftains), em Los Angeles.
Quanto aos Boys of the Lough limitaram-se (!) a festejar 25 anos de carreira, com a modéstia dos grandes, através de “mais uma coleção de música tradicional”, como eles próprios dizem.
Dos Chieftains já tudo ou quase tudo se disse. Atualmente, passeiam a sua classe pelo mundo, contactando com as suas diversas culturas, que trazem para o convívio da Irlanda, desta feita, contudo, aproveitaram a homenagem a Bunting para pôr em destaque a harpa, o antigo instrumento tocado pelos bardos guerreiros da Irlanda antiga. Álbum sereno, de respiração ampla, navegando nas tonalidades aquáticas da harpa, guardou espaço para os traços mais nostálgicos da tradição irlandesa. Quatro temas constituem outros tantos solos de Matt Molloy, em flauta, Derek Bell, na harpa, Paddy Moloney, nas “uillean pipes”, e Kevin Conneff, numa vocalização “a capella”.
Quanto aos “rapazes do lago”, cumprem com merecimento a modéstia da sua proposta, em “The Fair Hills of Ireland”, enésima revisitação dos “reels”, “jigs”, “airs”, polcas e outros modos tradicionais que já entraram na rotina dos nossos hábitos de audição. Com inevitável competência e alguns momentos e maior brilhantismo – aqui a belíssima balada “Ban chnoic Erin O”, num diálogo de exceção entre a voz, o violino (Aly Bain é o elementos dos Boys com maior índice de virtuosismo) e o piano –, ou de exotismo, como é o caso da tradução ao vivo, em “The hunt”, de uma caçada à raposa, na qual o violino de Aly Bain perde completamente as estribeiras. Registe-se ainda a voz “a capella” de Cathal McConnell (excelente flautista, exemplar a sua execução em “The midsummer’s night”), em “The Wind that shakes the barley”, modalidade pouco habitual na música deste grupo. E chega de Irlanda, durante uns tempos.
Um último brinde, vindo da Escandinávia: chegou finalmente aos escaparates o álbum “Kaksi!” dos Hedningarna.

Hip, hip, hurra!

20/11/2008

Boys Of The Lough - The Day Dawn

Pop Rock

19 de Julho de 1995
Álbuns world

Boys of the Lough
The Day Dawn
LOUGH, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO

Já vem um bocadito atrasada esta crítica, mas, como diz o ditado, “mais vale tarde do que cedo”; por isso, e porque não queremos que falte ao leitor informação sobre os discos que consideramos importantes, aqui vai alguma prosa sobre o novo (bem, há uns meses era novo…) dos Boys, que já não o são tanto como isso. É o álbum da ruptura suave, do envelhecimento com classe. Desceram as rotações mas aumentou o grau de amizade por tradições afastadas do calor dos velhos “pubs” da Irlanda e da Escócia. O Inverno e os seus rituais, pagãos ou cristãos, do Natal e do Ano Novo, como são ou eram celebrados em diversas regiões do Norte da Europa, erguem-se espectrais sobre as litanias religiosas de “The Day Dawn”, maioritariamente centrado na tradição das ilhas Shetland, berço do violinista do grupo, Aly Bain. Uma aproximação temática nos antípodas da alucinação fusionista empreendida, sobre o mesmo tema, por Hector Zazou, no seu mais recente projecto, “Chansons des Mers Froids”. Os Boys of the Lough caminharam sobre as montanhas cobertas de neve, navegaram pelos mares gelados, tão longe quanto os levaram uma dança esquimó ou uma balada sueca, para finalmente virem aquecer-se no fogo de Natal de um “carol” (dos raros que se podem encontrar na tradição irlandesa) entoado em gaélico, “That night in Bethlehem”. Nota-se que o reumático já vai tolhendo alguns movimentos (ou nem por isso, se escutarmos a ligeireza de uma sequência de instrumentais dedicados à carriça, onde os velhotes como que ressuscitam, levados pelas asas do pássaro…) e que o tempo de vociferar a plenos pulmões já lá vai. Que importa, se em seu lugar se ergue a beleza sagrada de baladas como “The Christ Child’s lullaby” ou “The Wexford carol”? Ao contrário dos Chieftains, que optaram pela postura de uns Rolling Stones da folk, os Boys of the Lough partiram numa barca que leva ao que se esconde atrás do pôr do sol. (8)